Mostrando postagens com marcador Madeleine Albrigth. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Madeleine Albrigth. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Do Camboja ao ISIS/ISIL: “Tudo que voe, contra tudo que se mova”

8/10/2014, [*] John Pilger, Blog de John Pilger
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O MUNDO DE HENRY KISSINGER
(por David Levine)
Ao transmitir as ordens do presidente Richard Nixon, para um bombardeio “massivo” contra o Camboja em 1969, Henry Kissinger disse: “Tudo que voe, contra tudo que se mova”. Agora, quando Barack Obama acende o pavio de sua sétima guerra contra o mundo muçulmano desde que levou para casa o Prêmio Nobel da Paz, a histeria orquestrada e as mentiras quase nos fazem sentir saudades da assassina franqueza de Kissinger.

Como testemunha das consequências humanas da selvageria aérea – inclusive a decapitação e o esquartejamento das vítimas, pedaços de corpos pendurados pelas árvores e jogados pelos campos – não me surpreende o descaso com a memória e as lições da história, mais uma vez. Exemplo eloquente foi a ascensão ao poder de Pol Pot e seu Khmer Rouge, que têm muito em comum com o Estado Islâmico no Iraque e na Síria (Levante) [ing. ISIS/ISIL]. Eles também eram medievalistas brutais, e também iniciaram uma pequena seita. Eles também foram produto de um apocalipse made-in-USA, naquele caso, na Ásia.

Segundo o próprio Pol Pot, seu movimento consistira de “menos de 5.000 guerrilheiros mal armados, incertos quanto a suas estratégia, táticas, lealdades e líderes”. Quando os bombardeiros B52 de Nixon e Kissinger começaram a trabalhar, como parte da “Operação Cardápio” [orig. Operation Menu], o maior demônio do ocidente mal pôde acreditar em tanta sorte.

Os EUA lançaram em bombas o equivalente a cinco Hiroshimas sobre o Camboja rural, durante 1969-73. Destruíam, arrasavam vila após vila, e voltavam para bombardear novamente as ruínas e os cadáveres. As crateras deixavam à vista monstruosos colares de carne humana, que se viam do céu. O terror foi inimaginável. Um ex-oficial do Khmer Rouge contou que os sobreviventes

(...) como que congelavam e punham-se a caminhar ao leu, mudos, por três ou quatro dias. Terrificadas e semiloucas, as pessoas estavam prontas para acreditar em qualquer coisa que ouvissem (...). Foi o que tornou tão fácil, para o Khmer Rouge, convencer o povo.

Uma Comissão de Investigação do Governo da Finlândia estimou que 600 mil cambojanos morreram na guerra civil que se seguiu àqueles ataques e descreveu o bombardeio norte-americano como “o primeiro estágio numa década de genocídio”. O que Nixon e Kissinger começaram, Pol Pot, o herdeiro beneficiário dos dois, completou. Ao ritmo dos bombardeios, o Khmer Rouge cresceu e tornou-se poderoso exército de 200 mil soldados.

O ISIL tem passado e presente semelhantes a isso. Muitos especialistas entendem que a invasão do Iraque ordenada por Bush e Blair em 2003 levou à morte de cerca de 700 mil pessoas – num país que jamais antes tivera história de jihadismo. Os curdos haviam feito acordos territoriais e políticos; sunitas e xiitas tinham diferenças de classe e sectárias, mas estavam em paz – eram comuns os casamentos mistos. Três anos antes da invasão, atravessei o Iraque dirigindo meu carro, sem medo. Pelo caminho, encontrei gente orgulhosa do próprio país, herdeiros de uma civilização que, para eles, era bem presente ali.

Bush e Blair - Criminosos de Guerra
Bush e Blair destruíram tudo, reduziram a cacos tudo aquilo. O Iraque é hoje ninho de jihadismo. Al-Qaeda – como os “jihadistas” de Pol Pot – colheu a oportunidade gerada pelo massacre que foi a Operação Choque e Pavor e pela guerra civil que a seguiu. A Síria “rebelde” oferecia recompensas ainda maiores, nas linhas-de-rato da CIA e dos Estados do Golfo, pelas quais corriam armas, logística e dinheiro através da Turquia. A chegada de recrutas estrangeiros seria inevitável. Um ex-embaixador britânico, Oliver Miles, escreveu recentemente:

O governo [Cameron] parece estar seguindo o exemplo de Tony Blair, que ignorou os repetidos avisos que recebeu do Foreign Office, do MI5 e do MI6, que já sabiam que nossa política para o Oriente Médio – especialmente as guerras que fizemos no Oriente Médio – havia sido o principal agente de mobilização no recrutamento de muçulmanos, para o terrorismo, na Grã-Bretanha.

O ISIS/ISIL é filho dileto dos que, em Washington e Londres, ao destruírem o Iraque, como estado e como sociedade, conspiraram para cometer um crime épico contra a humanidade. Como Pol Pot e o Khmer Rouge, o  ISIS/ISIL é mais uma mutação de um estado ocidental de terror, mantido por uma elite imperial venal que não para ante nenhuma consequência de seus atos, desde só atinjam culturas e povos que vivam bem, bem longe dela. Essa culpabilidade é tabu: não pode ser mencionada nas “nossas” sociedades.

Já são 23 anos desde que esse holocausto atingiu o Iraque, imediatamente depois da Iª Guerra do Golfo, quando EUA e Grã-Bretanha sequestraram o Conselho de Segurança da ONU e impuseram “sanções” punitivas contra a população iraquiana – o que, ironicamente, reforçou a posição de Saddam Hussein. Foi como um sítio medieval. Praticamente tudo que mantém um estado moderno foi, conforme o jargão, “bloqueado” – desde cloro para produção de água potável, até lápis escolares, peças para aparelhos de máquinas de raio-X, analgésicos comuns e drogas usadas por pacientes de câncer vítimas da poeira gerada nos campos bombardeados, contaminados por urânio baixo-ativo.

Pouco antes do Natal de 1999, o Departamento de Comércio e Indústria em Londres restringiu a exportação de vacinas destinadas a imunizar crianças iraquianas contra difteria e febre amarela. Kim Howells, médico e subsecretário de Estado no governo Blair, explicou por quê:

As vacinas podem ser usadas para produção de armas de destruição em massa.

O governo britânico safou-se desse escândalo universal, porque a imprensa-empresa que distribuía “notícias” do Iraque – praticamente toda ela manipulada pelo Foreign Officebritânico – culpou Saddam Hussein por tudo.

BOMBARDEAR O IRAQUE
UMA TRADIÇÃO DOS EUA
Sob um falso “Programa Petróleo por Comida”, dito “humanitário”, pagavam US$ 100 por iraquiano, por ano. Esse valor devia pagar por toda a infraestrutura e serviços essenciais de que a sociedade precisasse, como energia e água.

Imagine – disse-me o subsecretário-geral da ONU, Hans Von Sponeck – essa ninharia, para pagar por toda a água limpa, que não havia, e o fato de que a maioria dos doentes não podia pagar por qualquer tratamento, e o trauma terrível de passar por esse tipo de necessidade dia após dia, e você poderá fazer ideia daquele pesadelo. E, não tenha dúvidas: foi tudo deliberadamente planejado. No passado, sempre me recusei a usar a palavra genocídio, mas agora é inevitável.

Desgostoso, Von Sponeck demitiu-se do cargo de Coordenador Humanitário da ONU para o Iraque. Antes dele, Denis Halliday, também alto funcionário da ONU, também se demitira.

Fui instruído – disse Halliday – a implementar uma política que corresponde à definição de genocídio: política deliberada que efetivamente matou mais de um milhão de indivíduo, crianças e adultos.

Estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância, UNICEF, descobriu que entre 1991 e 1998, no auge do bloqueio, houve 500 mil mortes “a mais”, no Iraque, na faixa etária até cinco anos. Uma repórter da TV norte-americana falou disso a Madeleine Albright, embaixadora dos EUA à ONU, e perguntou-lhe:

O preço não foi alto demais?

Madeleine Albright
Resposta de Albright:

Entendemos que valeu a pena.

Em 2007, o mais alto funcionário britânico responsável pelas sanções, Carne Ross, conhecido como “Mr. Iraque”, disse a uma comitê parlamentar, que:

[Os governos de EUA e Reino Unido] estão de fato negando a toda a população iraquiana os meios para sobreviver.

Quando entrevistei Carne Ross três anos depois, era um homem consumido pela arrependimento e pela vergonha: “Sinto vergonha” – disse ele. Ross é hoje um dos raros que dizem a verdade sobre como os governos mentiram aos cidadãos e sobre o papel decisivo que cabe à imprensa-empresa na implantação e disseminação das mentiras. “Ou passávamos aos jornalistas os factoides que recebíamos da inteligência, já limpos, ou simplesmente escondíamos todos os fatos”.

Dia 25/9/2014, uma manchete do Guardian dizia: “Ante o terror do ISIS/ISIL, temos de agir”. Esse “temos de agir” é fantasma que despertou, como um sinal de alerta: tratem de esquecer todos os fatos, lembranças, lições aprendidas, arrependimentos ou vergonha. O autor do artigo é Peter Hain, ex-ministro do Foreign Office responsável pelo Iraque durante o governo Blair. Em 1998, quando Denis Halliday revelou a extensão da tragédia e do sofrimento humano no Iraque, pelos quais o governo Blair era um dos dois principais responsáveis, Hain acusou-o, no programa Newsnight da BBC, de ser “defensor de Saddam”. Em 2003, Hain apoiou a invasão do Iraque no governo Blair, repetindo o que todos já sabiam serem mentiras. Em conferência no Partido Labour, pouco depois, descartou a invasão como “questão marginal”.

Esse é o homem que, hoje, exige “ataques aéreos, drones, equipamentos militares e outros apoios” aos que “enfrentam o genocídio” no Iraque e na Síria. Só depois seria possível “o imperativo de uma solução política”. É o mesmo que Obama tem na cabeça, quando suspende o que ele chama de “restrições” contra bombardeios e ataques por drones norte-americanos. Significa que mísseis e bombas de 300 kg podem destruir casas de camponeses, como fazem sem qualquer restrição no Iêmen, Paquistão, Afeganistão e Somália – e como fizeram no Camboja, Vietnã e Laos. Dia 23 de setembro de 2014, um míssil Tomahawk atingiu uma vila na província Idlib na Síria, matou uma dúzia de civis, entre os quais mulheres e crianças. Nenhum deles tinha bandeira preta.

No dia em que foi publicado o artigo de Hain, Denis Halliday e Hans Von Sponeck estavam casualmente em Londres e vieram visitar-me. Não estavam chocados com a letal hipocrisia de uma autoridade, mas lamentaram a inexplicável ausência de qualquer diplomacia inteligente, capaz de negociar alguma espécie de trégua. Por todo o planeta, do Norte da Irlanda ao Nepal, pessoas que se viam umas às outras como terroristas e hereges conseguiram sentar-se face a face numa mesa de negociações. Por que não agora, no Iraque e na Síria?

Como o ebola, do Oeste da África, uma bactéria chamada “guerra perpétua” já cruzou o Atlântico. Lord Richards, até recentemente comandante dos militares britânicos, quer agora “coturnos em solo”. Há uma verborragia doentia, quase sociopática, de Cameron, Obama e aquela “coalizão dos dispostos/desejantes” – e chama a atenção o estranhamente super agressivo australiano Tony Abbott – que agora prescrevem mais e mais violência, lançada de bem longe, de 30 mil pés de altitude, sobre locais onde o sangue de aventuras anteriores ainda não secou. Nunca sofreram bombardeios e aparentemente gostam tanto que querem agora bombardear também um seu potencialmente valioso aliado, a Síria. Não é novidade, como mostram arquivos vazados da inteligência de EUA e Reino Unido:

Para facilitar a ação de forças de libertação [sic] (...) deve-se fazer esforço especial para eliminar alguns indivíduos chaves [e] provocar agitação interna na Síria. A CIA está preparada, e o MI6 tentará montar pequena sabotagem e golpe de incidentes principais [orig. main [sic]] dentro da Síria, trabalhando mediante contatos com indivíduos (...) um grau necessário de medo (...)confrontos [encenados] de fronteira darão um pretexto para a intervenção(...) CIA e SIS devem usar (...) capacidades nos campos psicológico e de ação, para aumentar a tensão.

Esse parágrafo foi escrito em 1957, mas poderia ter sido escrito ontem. No mundo imperial, as coisas essenciais jamais mudam.

Roland Dumas
Ano passado, o ex-ministro de Relações Exteriores da França Roland Dumas revelou que “dois anos antes da Primavera Árabe”, fora informado em Londres de que estava já planejada uma guerra contra a Síria.

Vou lhe dizer uma coisa – disse ele, em entrevista ao canal LPC da TV francesa: Eu estava na Inglaterra, dois anos antes da violência na Síria e outros negócios. Encontrei-me com altos funcionários britânicos, que confessaram que estavam preparando alguma coisa na Síria (...). A Grã-Bretanha estava organizando uma invasão de rebeldes na Síria. Até perguntaram, embora eu já não fosse Ministro de Relações Exteriores, se gostaria de participar (...) Essa operação é velha. Foi preparada, preconcebida, planejada.

Os únicos que realmente se opõem ao ISIS/ISIL são considerados demônios sem salvação no Ocidente – Síria, Irã, Hezbollah. O obstáculo é a Turquia, “aliado” e membro da OTAN que conspirou com a CIA, o MI6 e os medievalistas do Golfo para reunir apoio para os “rebeldes” sírios, inclusive os que agora se autodenominam ISIS/ISIL. Apoiar a Turquia e sua antiga aspiração de dominação regional, com a derrubada do governo do presidente Assad, levará a grande guerra convencional e ao horrendo desmembramento do estado etnicamente mais diverso de todo o Oriente Médio.

Uma trégua – por difícil de negociar que seja – é a única via para fora desse pântano imperial; sem uma trégua negociada, as degolas continuarão. A evidência de que qualquer negociação com a Síria deva ser declarada “moralmente questionável” (como escreveu The Guardian) sugere que a pressuposição de alguma superioridade moral entre os que apoiaram Blair, criminoso de guerra, continua a ser não apenas absurda, mas perigosa.

Além de uma trégua, devem cessar imediatamente todos os embarques de equipamento de guerra para Israel; e é preciso reconhecer o Estado da Palestina. A questão da Palestina é a mais purulenta questão de toda a região, e causa muitas vezes declarada do crescimento do extremismo islâmico. Osama bin Laden disse isso, precisamente, muito claramente. A Palestina também oferece esperanças. Deem justiça aos palestinos, e começarão a mudar o mundo ao redor deles.

Há mais de 40 anos, o bombardeio do Camboja por Nixon-Kissinger gerou uma torrente de sofrimentos da qual o país até hoje não se recuperou. Vale o mesmo para os crimes de Blair-Bush no Iraque.

Com timing impecável, o último tomo da autobiografia de autoconsagração de Kissinger acaba de ser lançado, com o título satírico de World Order [Ordem Mundial]. Em resenha de desavergonhada propaganda, Kissinger é descrito como

(...) modelador chave de uma ordem mundial que permaneceu estável por um quarto de século.

Contem essa ao povo do Camboja, Vietnã, Laos, Chile, Timor Leste e outras vítimas desse “construtor de Estados”. Só quando “nós” identificarmos esses criminosos de guerra que sobrevivem ainda entre nós, o sangue começará a secar.


[*] John Pilger − nasceu em Bondi na área metropolitana de Sydney, Austrália, 9 de outubro 1939. A carreira de Pilger como repórter começou em 1958; ao longo dos anos tornou-se famoso pelos artigos, livros e documentários que escreveu e/ou produziu. Apesar das tentativas de setores conservadores de desvalorizar Pilger, o seu jornalismo investigativo já mereceu vários galardões, tais como a atribuição, por duas vezes, do prêmio de Britain’s Journalist of the Year Award na área dos dos Direitos Humanos. No Reino Unido é mais conhecido pelos seus documentários, particularmente os que foram rodados no Camboja e no Timor−Leste. Trabalhou ainda como correspondente de guerra em vários conflitos, como na Guerra do Vietnam, no Camboja, no Egito, na Índia, em Bangladesh e em Biafra. Atualmente reside em Londres.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

A Geopolítica dos Pistaches


20/2/2013, Paul R. Pillar, Consortium News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Paul R Pillar

Os dois maiores produtores mundiais de pistache são os Estados Unidos e Irã. Eles se defrontam comercialmente há mais de três décadas. Agora, ficamos sabendo que Israel tem preferência pela variedade iraniana e até o Primeiro-Ministro Netanyahu dispõe de rubrica orçamentária especial para sorvete de pistache, escreve o ex-analista da CIA Paul R. Pillar.



Os pistaches são, há muito tempo, um dos principais itens de exportação do Irã, depois do petróleo. Por isso, quando o governo Clinton, em seu último ano no poder, quis dar um passo de reaproximação com o Irã, lá estavam os pistaches.

Pistache ou Pistachio
Em discurso, a secretária de Estado Madeleine Albright, depois de relembrar alguns dos movimentos que o Irã teria feito contra os EUA, anunciou o fim da proibição de importar pistaches do Irã; além dos pistaches, foram liberadas as importações de caviar e tapetes iranianos. A iniciativa deu em nada, porque os iranianos ofenderam-se com uma referência, naquela fala da secretária, a “mãos não eleitas” que governariam o Irã. Mas serve para lembrar a importância dessa noz esverdeada, de casca castanha, e, sobretudo, a importância, para o Irã, da exportação dos pistaches.

Madeleine Albright
13 anos e uma montanha de sanções depois, não deixa de surpreender que o regime iraniano esteja proibindo – por seis meses – a exportação de pistaches. Pela explicação oficial, a proibição visaria a forçar para baixo os preços domésticos dos pistaches – que subiram muito, no bojo da inflação exacerbada pelas sanções que atormenta a economia iraniana.

O preço doméstico dos pistaches estaria sendo considerado especialmente importante, agora que se aproxima o Ano Novo iraniano, quando muitos iranianos comprarão muitos pistaches para suas festas familiares. Outra explicação, não oficial, seria que o regime estaria tentando forçar os produtores de pistache a aceitar reduções voluntárias no preço, mas não estaria obtendo a cooperação desejada. A proibição de exportar seria um meio de forçar os plantadores recalcitrantes.

Seja porque não funcionou, seja porque o regime concluiu que seria mais danosa para o próprio Irã, fato é que, pouco depois, a proibição foi revogada. Os produtores iranianos temeram que a curta interrupção das importações implicasse perda de espaço no mercado, difícil de recuperar. Seu principal concorrente nesse mercado – o país que é o segundo maior exportador mundial de pistaches e nos últimos anos já ameaça a primazia iraniana – é os EUA. Os dois países, que furiosamente se encaram na questão de um programa nuclear e em gravíssimas disputas de segurança no Golfo Persa, vivem engalfinhados também na disputa pelo mercado mundial de pistaches.

O quadro vai ficando cada vez mais interessante, se se considera também o país que mais consome pistaches per capita em todo o mundo – e que é também o país que mais assopra o fogo sob o caldeirão da questão nuclear iraniana: Israel. Por estranho que pareça hoje, dada a incansável campanha israelense para pressionar e isolar o Irã, há pouco tempo eram os EUA que faziam lobby para que Israel parasse de importar pistaches iranianos.

Oficialmente, Israel nada importa do Irã, já há algum tempo. Mas o comércio do pistache parece incontrolável, e sabe-se que não faltam pistaches iranianos em Israel, lá chegados através da Turquia e por outras rotas. No governo Clinton, voltando a ele, a secretária Albright muito se dedicou ao caso.

Em instruções que enviou à embaixada dos EUA em Israel, três anos antes daquele discurso sobre Irã e pistaches, o Departamento de Estado anotava que:

“Relatórios sobre pistaches iranianos à venda em Israel (...) são causa de crescente preocupação. Se se considera o objetivo fixado por Israel, sobre a necessidade de a comunidade internacional pressionar e isolar economicamente o Irã (...), a importação de pistache iraniano é inaceitável”.

Colheita de pistache em San Joaquin Valley, CA
O lobby norte-americano sobre Israel, nesse quesito, não foi motivado apenas, nem basicamente, pela preocupação com agir contra o Irã. O lobby manifestava, exclusivamente a força dos plantadores de pistache no San Joaquin Valley, na Califórnia, interessados em conquistar parte mais substanciosa do lucrativo mercado israelense.

Israel negou que houvesse qualquer problema, mas, pelo sim pelo não, aumentou os esforços para quebrar as pernas, digamos, dos pistaches ilegalmente importados. Israel impôs tarifa especial sobre todos os pistaches não norte-americanos, para tornar mais equilibrada a concorrência entre os preços dos produtores iranianos e norte-americanos.

Apesar dessas medidas, a questão não foi superada. Adiante, já no governo Bush, os EUA ainda discutiam pistaches com Israel. Mesmo sem diferença nos preços, o consumidor israelense continuava a preferir pistaches iranianos. “Todo mundo sabe que o gosto é muito melhor” – disse, em Israel, o atacadista Moshe Mussafi.

Pistache iraniano enlatado para exportação
A cereja do bolo, nessa história, é uma notícia do fim de semana passado, matéria de primeira página na imprensa de Israel, segundo a qual o Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, gasta, só em pistaches que consome em casa, pagos com dinheiro público previsto no orçamento nacional, o total de $2.700 por ano. O sorvete é fornecido por um restaurante gourmet próximo à residência do Primeiro-Ministro: sempre sabor pistache.

A história está sendo explorada, sobretudo por adversários políticos de Netanyahu: uma extravagância injustificável, sobretudo quando os israelenses são conclamados a observar a mais estrita austeridade. O ponto de vista dos iranianos parece não interessar a ninguém, e artigo do New York Times sobre o tema informa que o sorvete de pistache não é, “presumivelmente”, fabricado com pistaches iranianos.

Mas há aí questões de gosto. E as dificuldades para coibir o comércio de pistaches iranianos, que prossegue em Israel, ininterrupto, há vários anos, tornam bastante duvidoso esse “presumivelmente”.

Netanyahu e seu sorvete de pistache
Muitíssimo mais provável, isso sim, é que Netanyahu, quando relaxa frente ao seu sorvete preferido, depois do jantar, coma pistaches plantados, cultivados e colhidos na província de Kerman.

Não há “moral da história” a extrair disso tudo, mas vêm à cabeça algumas observações:

Primeiro, que se intrometer entre forças do mercado pode levar a consequências estranhíssimas.

Segundo, que sanções, em geral, podem ter efeitos inusitados ou provocar respostas não previstas. Políticas que, ao que se supõe, têm amplos objetivos diplomáticos, respondem, muitas vezes, a interesses bem paroquiais, sobretudo econômicos.

Terceiro, que os pistaches, como a política e a miséria, produzem estranhos parceiros de cama, ou, no mínimo, estranhas linhas de conflito e de cooperação.