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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

A Geopolítica dos Pistaches


20/2/2013, Paul R. Pillar, Consortium News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Paul R Pillar

Os dois maiores produtores mundiais de pistache são os Estados Unidos e Irã. Eles se defrontam comercialmente há mais de três décadas. Agora, ficamos sabendo que Israel tem preferência pela variedade iraniana e até o Primeiro-Ministro Netanyahu dispõe de rubrica orçamentária especial para sorvete de pistache, escreve o ex-analista da CIA Paul R. Pillar.



Os pistaches são, há muito tempo, um dos principais itens de exportação do Irã, depois do petróleo. Por isso, quando o governo Clinton, em seu último ano no poder, quis dar um passo de reaproximação com o Irã, lá estavam os pistaches.

Pistache ou Pistachio
Em discurso, a secretária de Estado Madeleine Albright, depois de relembrar alguns dos movimentos que o Irã teria feito contra os EUA, anunciou o fim da proibição de importar pistaches do Irã; além dos pistaches, foram liberadas as importações de caviar e tapetes iranianos. A iniciativa deu em nada, porque os iranianos ofenderam-se com uma referência, naquela fala da secretária, a “mãos não eleitas” que governariam o Irã. Mas serve para lembrar a importância dessa noz esverdeada, de casca castanha, e, sobretudo, a importância, para o Irã, da exportação dos pistaches.

Madeleine Albright
13 anos e uma montanha de sanções depois, não deixa de surpreender que o regime iraniano esteja proibindo – por seis meses – a exportação de pistaches. Pela explicação oficial, a proibição visaria a forçar para baixo os preços domésticos dos pistaches – que subiram muito, no bojo da inflação exacerbada pelas sanções que atormenta a economia iraniana.

O preço doméstico dos pistaches estaria sendo considerado especialmente importante, agora que se aproxima o Ano Novo iraniano, quando muitos iranianos comprarão muitos pistaches para suas festas familiares. Outra explicação, não oficial, seria que o regime estaria tentando forçar os produtores de pistache a aceitar reduções voluntárias no preço, mas não estaria obtendo a cooperação desejada. A proibição de exportar seria um meio de forçar os plantadores recalcitrantes.

Seja porque não funcionou, seja porque o regime concluiu que seria mais danosa para o próprio Irã, fato é que, pouco depois, a proibição foi revogada. Os produtores iranianos temeram que a curta interrupção das importações implicasse perda de espaço no mercado, difícil de recuperar. Seu principal concorrente nesse mercado – o país que é o segundo maior exportador mundial de pistaches e nos últimos anos já ameaça a primazia iraniana – é os EUA. Os dois países, que furiosamente se encaram na questão de um programa nuclear e em gravíssimas disputas de segurança no Golfo Persa, vivem engalfinhados também na disputa pelo mercado mundial de pistaches.

O quadro vai ficando cada vez mais interessante, se se considera também o país que mais consome pistaches per capita em todo o mundo – e que é também o país que mais assopra o fogo sob o caldeirão da questão nuclear iraniana: Israel. Por estranho que pareça hoje, dada a incansável campanha israelense para pressionar e isolar o Irã, há pouco tempo eram os EUA que faziam lobby para que Israel parasse de importar pistaches iranianos.

Oficialmente, Israel nada importa do Irã, já há algum tempo. Mas o comércio do pistache parece incontrolável, e sabe-se que não faltam pistaches iranianos em Israel, lá chegados através da Turquia e por outras rotas. No governo Clinton, voltando a ele, a secretária Albright muito se dedicou ao caso.

Em instruções que enviou à embaixada dos EUA em Israel, três anos antes daquele discurso sobre Irã e pistaches, o Departamento de Estado anotava que:

Relatórios sobre pistaches iranianos à venda em Israel (...) são causa de crescente preocupação. Se se considera o objetivo fixado por Israel, sobre a necessidade de a comunidade internacional pressionar e isolar economicamente o Irã (...), a importação de pistache iraniano é inaceitável”.

Colheita de pistache em San Joaquin Valley, CA
O lobby norte-americano sobre Israel, nesse quesito, não foi motivado apenas, nem basicamente, pela preocupação com agir contra o Irã. O lobby manifestava, exclusivamente a força dos plantadores de pistache no San Joaquin Valley, na Califórnia, interessados em conquistar parte mais substanciosa do lucrativo mercado israelense.

Israel negou que houvesse qualquer problema, mas, pelo sim pelo não, aumentou os esforços para quebrar as pernas, digamos, dos pistaches ilegalmente importados. Israel impôs tarifa especial sobre todos os pistaches não norte-americanos, para tornar mais equilibrada a concorrência entre os preços dos produtores iranianos e norte-americanos.

Apesar dessas medidas, a questão não foi superada. Adiante, já no governo Bush, os EUA ainda discutiam pistaches com Israel. Mesmo sem diferença nos preços, o consumidor israelense continuava a preferir pistaches iranianos. “Todo mundo sabe que o gosto é muito melhor” – disse, em Israel, o atacadista Moshe Mussafi.

Pistache iraniano enlatado para exportação
A cereja do bolo, nessa história, é uma notícia do fim de semana passado, matéria de primeira página na imprensa de Israel, segundo a qual o Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, gasta, só em pistaches que consome em casa, pagos com dinheiro público previsto no orçamento nacional, o total de $2.700 por ano. O sorvete é fornecido por um restaurante gourmet próximo à residência do Primeiro-Ministro: sempre sabor pistache.

A história está sendo explorada, sobretudo por adversários políticos de Netanyahu: uma extravagância injustificável, sobretudo quando os israelenses são conclamados a observar a mais estrita austeridade. O ponto de vista dos iranianos parece não interessar a ninguém, e artigo do New York Times sobre o tema informa que o sorvete de pistache não é, “presumivelmente”, fabricado com pistaches iranianos.

Mas há aí questões de gosto. E as dificuldades para coibir o comércio de pistaches iranianos, que prossegue em Israel, ininterrupto, há vários anos, tornam bastante duvidoso esse “presumivelmente”.

Netanyahu e seu sorvete de pistache
Muitíssimo mais provável, isso sim, é que Netanyahu, quando relaxa frente ao seu sorvete preferido, depois do jantar, coma pistaches plantados, cultivados e colhidos na província de Kerman.

Não há “moral da história” a extrair disso tudo, mas vêm à cabeça algumas observações:

Primeiro, que se intrometer entre forças do mercado pode levar a consequências estranhíssimas.

Segundo, que sanções, em geral, podem ter efeitos inusitados ou provocar respostas não previstas. Políticas que, ao que se supõe, têm amplos objetivos diplomáticos, respondem, muitas vezes, a interesses bem paroquiais, sobretudo econômicos.

Terceiro, que os pistaches, como a política e a miséria, produzem estranhos parceiros de cama, ou, no mínimo, estranhas linhas de conflito e de cooperação.


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Cresce a intolerância em Israel


14/2/2013, Paul R. Pillar, Consortium News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Paul R.Pillar
De tempos em tempos ouvem-se notícias vindas de Israel, que mostram que a intolerância cresce. História exemplar, nesse sentido, de pouco mais de um ano, falava de israelenses, homens ultra-ortodoxos da comunidade de Beit Shemesh, que cuspiram numa menina de oito anos e a chamaram de prostituta, porque o discreto vestido da menina não era discreto o suficiente que os satisfizesse.

O primeiro pensamento que ocorre nesses casos é o quanto essa atitude é notavelmente semelhante à atitude de intolerância equivalente que se vê em outros religiosos fundamentalistas, inclusive nos países árabes vizinhos de Israel. O que se vê é um idêntico esforço para impor preferências sectárias em sociedade mais ampla. E a mesma discriminação de gênero, que se vê em outras práticas para subjugar e constranger mulheres.

A alta taxa de natalidade entre os ultra ortodoxos – e o consequente aumento no peso demográfico e político desses grupos – subjaz ao crescimento da intolerância em Israel. Mas há mais do que isso; num Estado que define a própria existência em termos de religião única ou etnia ou raça pressuposta superior às demais. Essa definição implica que haja em Israel cidadãos de segunda classe, conforme a religião que professem, mas implica também que o poder do Estado está empenhado em alcançar objetivos sectários, que se aplicam contra qualquer um que tente expor a natureza dessa dominação religiosa e da religião dominante.

O Muro Ocidental (também conhecido como o Muro das Lamentações); o remanescente do muro que cercava o pátio do templo judaico da Cidade Velha de Jerusalém.
(Crédito da foto: Golasso)
Esse mesmo poder do Estado israelense, que não se via muito evidente no incidente da agressão a uma menina pequena, vê-se muito mais claramente em incidente dessa semana, junto ao Muro Ocidental. Dez mulheres, entre as quais duas rabinas nascidas nos EUA, foram presas pela polícia de Israel por estarem rezando naquele local usando véus de oração tradicionalmente usados por homens.

Não se tratava de manifestação de mulheres, nem havia qualquer ameaça à paz. Haverá quem se sinta indignado por alguém não poder rezar onde bem entenda, nem mesmo uma rabina, num local sagrado dos judeus. Mas muito mais indignação causa que a polícia, mantida por dinheiro público, aja de modo tão fortemente intolerante.

Esse incidente e outros levam a duas outras observações. Primeiro, para chamar a atenção para a ironia da semelhança no comportamento de religiosos fundamentalistas em Israel e em países de maioria muçulmana. Israel hoje se cercou dentro de muros para manter-se separada dos países vizinhos, mas age com a mesma horrível intolerância contra seus próprios cidadãos.

Os israelenses dizem que todos deveríamos nos preocupar com o protagonismo político que religiosos fundamentalistas vão ganhando em países vizinhos, por exemplo, no Egito. E, enquanto falam, o que se vê é os próprios israelenses apanhados também em comportamento de intolerância e segregação, apoiados pelo poder do Estado ou acobertados pelo poder do Estado, em tudo idêntico ao comportamento de outros fundamentalistas.

A segunda observação é que essa identidade de Israel com um dos aspectos mais ignóbeis da vida no Oriente Médio é aspecto importante de uma divergência crucial entre Israel e os valores da superpotência patrocinadora de Israel, os EUA. A noção de valores partilhados sempre foi a base de qualquer argumento para justificar o extraordinário patrocínio que os EUA garantem a Israel.

Essa noção jamais foi consistente, e tem, a cada dia, menos credibilidade. Uma das discrepâncias básicas está em um Estado dessa “parceria” definir-se em termos de uma religião; e o outro definir-se a partir da separação entre Igreja e Estado.

Claro, há fundamentalistas também nos EUA que trabalham para esvaziar essa separação, por exemplo, controlando o conteúdo de livros escolares; e empregadores cujas crenças religiosas determinam a relação com os empregados e que tentam modelar as leis nacionais, por exemplo, de atendimento público e saúde, também segundo suas crenças religiosas; houve até um candidato, católico fervoroso (Rick Santorum) que misturou tudo, até, em campanha eleitoral à presidência, ano passado. Mas, seja como for, a separação entre Igreja e Estado ainda é vigente nos EUA.

Mês passado, uma corte federal em Minnesota reafirmou a vigência da Primeira Emenda, ao rejeitar ação para decidir se os cachorros-quentes marca Hebrew National seriam kosher ou não. Não é assunto a ser decidido por corte federal – decidiu a corte, muito corretamente. Decidir se cachorros-quentes são kosher ou não é serviço dos rabinos nas entidades do setor privado que certificam essas coisas. Nos EUA, a kosheridade de cachorros quentes – como o chale de oração que alguém decida usar ou não usar – não é assunto para juízes, polícia ou qualquer funcionário pago com dinheiro público.

A liberdade de imprensa é outra das liberdades asseguradas pela Primeira Emenda, em relação à qual não há qualquer convergência significativa entre Israel e os EUA. Nesse quesito há também uma ironia: há discussão mais livre em Israel, inclusive na imprensa israelense, que nos EUA, sobre questões básicas do governo de Israel e suas relações com os EUA.

Mas em muitos outros temas, o censor militar em Israel restringe pesadamente o que pode ser noticiado – como se comprovou essa semana, em matéria sobre um “Prisioneiro X” que morreu misteriosamente numa prisão de segurança máxima em Israel. Segundo o índice de liberdade de imprensa calculado pela ONG Repórteres sem Fronteiras, Israel aparece em 112º lugar, entre 179 países em todo o mundo. Os EUA aparecem em 32º.

Há também a questão da igualdade de gêneros. No EUA, o status das mulheres melhorou, pelo menos desde a aprovação da 19ª Emenda. Sob vários aspectos, as mulheres israelenses vivem em relações de mais igualdade com os homens que em muitos outros países, mas, sob o impacto crescente do fundamentalismo judeu em questões de gênero, difícil garantir que as tendências atuais nesse campo, em Israel, tomem rumo semelhante ao que vão tomando nos EUA.

Por fim, a questão na qual se observa a maior divergência, e que concerne a direitos políticos iguais para todos, sem qualquer consideração de religião ou etnia. Sim, também há, nos EUA, os que tentam confundir tudo, trabalhando para dificultar, para segmentos da população, o exercício do voto. Mas nos EUA não há coisa alguma que se compare, nem remotamente, à absoluta negação de direitos políticos a grupos étnicos inteiros, a populações inteiras, como se vê acontecer hoje, no território controlado por Israel.

Leia mais alguns artigos sobre “Israel”:


terça-feira, 1 de janeiro de 2013

EUA: Hagel e os sionistas “neo-McCarthyistas”


28/12/2012, Paul R. Pillar*, Consortium News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Desde que foi aventado o nome de Chuck Hagel (na foto com Obama) - antigo senador pelo Partido Republicano - como Secretário da Defesa dos EUA, ele tem sido vilipendiado e colocado na “lista negra” por suspeita de ser “esquerdista” e não ter “suficiente apoio de Israel”; isso é uma nova forma de McCarthyismo.
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Sou suficientemente velho para ainda ter lembrança vaga, mas direta, de uma mancha na história dos EUA que se tornou conhecida como “o McCarthyismo”. Numa das recordações mais vívidas, revejo meus pais, em 1954, assistindo aos depoimentos televisionados do processo Exército-McCarthy – a primeira investigação conduzida pelo Congresso que foi televisionada em rede nacional nos EUA.

Embora eu fosse então jovem demais para perceber, aqueles depoimentos marcaram o começo do fim da horrenda campanha de calúnias e difamação orquestrada pelo senador Joseph McCarthy. Antes do fim do ano, o senador foi formalmente censurado pelo Senado dos EUA.

Joseph McCarthy
Um dos principais fatores que aceleraram o fim da campanha de difamação e detonação de reputações capitaneada pelo senador McCarthy foi o trabalho da imprensa naqueles primeiros dias da era da televisão. A cobertura pela mídia, dos interrogatórios e depoimentos de 1954, que duraram várias semanas e nos quais se ouviam acusação e defesa, todos reunidos numa mesma sala de audiências, tornou completamente impossível não entender do que realmente se tratava, nas ações do McCarthyismo. A televisão influiu muito, ao levar aquelas cenas dramáticas para dentro dos lares norte-americanos pela primeira vez, em todo o país.

Outro fator importante, foi a coragem com que inúmeras figuras denunciaram o senador McCarthy, diretamente e claramente, diante dele. Um desses foi Joseph Welch, destacado advogado que trabalhava como principal conselheiro do exército dos EUA nos depoimentos. 

Joseph Nye Welch
Quando McCarthy tentou aplicar seu método de declarar culpados-por-associação, contra um jovem advogado do escritório de Welch, Welch levantou-se. Disse, de público, que as táticas de McCarthy não passavam de “perversidade insaciável”; e pronunciou a frase mais memorável daquelas audiências horrendas:

Já basta. Chega! O senhor não tem nenhum senso de decência? Será que não lhe sobra mesmo nenhum senso de decência, senador?

Hoje, as coisas não estão, de fato, de modo que se possa, tão clara e diretamente, interpelar os agentes do neo-McCarthyismo. A imprensa é mais difusa; há muitos meios para impugnar os principais desmandos; ao mesmo tempo, a internet ou programas de entrevistas, por rádio e televisão, já causam impacto maior que sessões televisionadas do Congresso dos EUA.

Resta a questão da disposição de personagens influentes para falar com clareza e declarar crimes, os crimes – claramente, explicitamente. O professor, jornalista e empresário israelense Bernard Avishai escreve sobre a falta que fazem esses personagens, intimamente relacionada ao aspecto mais daninho (e abundante) das atuais táticas de estilo McCarthyista: a difamação (hoje quase sempre mascarada sob o que Avishai chama de “falsas campanhas contra a difamação” [no Brasil-2012, foram falsas campanhas pela “ética” udenista, ou, melhor dizendo: campanhas muito reais e ativas por uma suposta “ética” golpista udenista, sempre falsa (NTs)]. Naquelas falsas campanhas contra a difamação, agride-se, quase sempre, quem se atreva a questionar as políticas israelenses ou a conivência dos EUA com aquelas políticas.

A difamação é praticada por gangues de intelectuais midiáticos, jornalistas e comentaristas de televisão que dizem cultivar os interesses de Israel, mas que, na prática, pregam apoio acrítico, incondicional às políticas do governo israelense de direita hoje no poder – o que absolutamente não é cultivar os interesses de Israel.

Bernard Avishai
Avishai, que é um pouco mais jovem que eu, também já percebeu o que há de semelhante entre o que hoje se vê e o McCarthyismo original. Hoje, a difamação inclui arrastar para o centro do palco qualquer argumento, qualquer calúnia, qualquer mentira que ajude a destruir o nome a ser destruído, em cada instância. Nesse processo jamais faltam, embora não sejam as únicas calúnias, acusações injustificadas de antissemitismo.

E, como no McCarthyismo original, o processo constrói-se não só com atos de difamação direta de nomes seletos, mas também com intimidação, para paralisar muitos outros que poderiam não apenas questionar as políticas israelenses e norte-americanas, mas também o próprio processo de intimidação. O artigo de Avishai é claro e vai direto ao ponto; poderia citá-lo praticamente inteiro; melhor que todos leiam diretamente: Hagel e os neo-mccarthyistas, 26/12/2012, The Daily Beast 
Avishai escreve a propósito do tumulto criado em torno da indicação de Chuck Hagel ao posto de Secretário da Defesa. Como eu e outros já observamos, o assunto recebeu tanta atenção que a definição terá efeito no processo de deixar rolar à vontade o neo-mccarthyismo, ou dar-lhe um basta. Mas o presidente Obama ainda não se decidiu.

Mas mesmo que a indicação de Hagel se confirme, não bastará. Ainda falta quem dê nome aos bois, claramente, diretamente, explicitamente; e exponha o neo-McCarthyismo praticado por grupos e indivíduos que se apresentam como defensores de Israel e que, em nome disso, manifestam-se sobre qualquer indicação do presidente dos EUA ou, afinal, sobre qualquer assunto.

Quando Joseph Welch fez calar o senador McCarthy, as galerias irromperam em aplausos. Ouso crer que muitos dos observadores até agora passivos também aplaudirão, se alguém se levantar e fizer calar os neo-McCarthys.


Paul R. Pillar*, com experiência de 28 anos na Agência Central de Inteligência (CIA), passou a ser um dos seus principais analistas. Atualmente também é professor visitante na Georgetown University para estudos de segurança. (Este artigo apareceu pela primeira vez como um post de blog  no site The National Interest na Internet. Aqui reproduzido com a permissão do autor).

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A imperfeita Constituição do Egito


3/12/2012, Paul R. Pillar*, Consortium News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu




Mohamed Mursi
O palco parece preparado, no Egito para mais um surto de tensão política e muito drama nos próximos dias, depois que o presidente Mohamed Mursi definiu a data de 15/12/2012 para um referendo sobre a nova Constituição que acaba de ser redigida.

O resultado do referendo será, sem dúvida, visto como teste de força entre a Fraternidade Muçulmana de Mursi e a oposição secular, deva ou não ser assim definida.

O documento será visto como obra da Fraternidade, uma vez que os cristãos e os liberais secularistas boicotaram a Assembleia Constituinte, e Mursi reclama poderes especiais para impedir que o Judiciário boicote o trabalho da Constituinte, na qual a Fraternidade tem maioria de votos [obtidos em eleições].

A pressa com que se concluiu a minuta da Constituição e com que agora está sendo posta em votação dá a muitos egípcios a impressão de que algo estaria sendo atropelado no processo. O recente pronunciamento de Mursi, que a muitos lembrou os pronunciamentos de Mubarak, com referências a ameaças de “conspirações”, pouco ajudou a desanuviar a atmosfera.

A minuta de texto constitucional, redigida às pressas, tem algo para desagradar cada grupo que hoje se confronta aos demais no Egito, mas a democracia egípcia não corre risco de vida ou morte dependente, exclusivamente, do resultado do referendo. Nem o equilíbrio do poder entre islamistas ou secularistas depende só disso.

A oposição a Mursi bem faria se suspendesse a resistência e deixasse andar o processo, até o país ter, novamente vigente, alguma Constituição.

Em certo sentido, essa via de ação esvaziaria o movimento autoritário de Mursi: os poderes que reclamou para si, à custa do Judiciário, deixariam de existir; e o presidente, na vigência da nova Constituição, terá menos poderes que os que Mursi invocou para si em tempos de nenhuma Constituição. E, como o próprio Mursi já disse, a Constituição sempre poderá ser emendada.

Os secularistas talvez se consolem, ao ver que os salafistas estão tão insatisfeitos com a Constituição que já anunciaram boicote ao referendo. Os salafistas reclamam de que o documento investe o povo – não Deus – de soberania plena.

O Egito carece desesperadamente de algum tipo de estrutura constitucional, para que se possam travar novos debates sobre os rumos do país, e para que haja debates ordeiros, não como parte de um jogo cujas regras tenham de ser definidas já com a disputa em andamento.

Sistemas representativos têm de começar com algum tipo de regra, que tem de ser criada por alguém que, necessariamente, age sem qualquer autoridade previamente reconhecida; o que não podem é perpetuar-se sem qualquer legitimidade reconhecida.

É claro que Mursi não pode virar-se contra qualquer autoridade amplamente reconhecida e exigir para si o poder de baixar o decreto que baixou há alguns dias, mas os demais atores, no jogo político egípcio, tampouco tem melhor base legal para fazerem o que estão fazendo.

Qualquer funcionário dos EUA ou outros norte-americanos que se apresentem como conselheiros dos egípcios durante esse interessante momento político bem poderão lembrar a experiência dos EUA, no momento de estabelecer uma primeira ordem constitucional, quando a nação engatinhava. Os homens que redigiram a Constituição dos EUA com certeza exorbitaram a autoridade que tinham quando, em vez de apenas emendar os “Articles of Confederation”, criaram documento completamente novo e original e decidiram que aquele documento seria vigente, apesar de não ter recebido a aprovação unânime de todos os estados.

Nem todos os estados participaram da redação daquela Constituição. Rhode Island nem enviou representante; os delegados de New Hampshire chegaram atrasados; a maioria dos delegados do estado de New York partiram antes do fim da reunião; e vários dos que ficaram até a conclusão dos trabalhos recusaram-se a assinar o documento ali produzido. Persistiu por bom tempo uma oposição significativa ao documento, e o clamor por emendas foi forte o bastante, a ponto de a missão de redigir as dez primeiras emendas ter sido a primeira tarefa do primeiro Congresso.

A lição a extrair disso é que o sucesso de uma Constituição e o respeito que venha a merecer é função de hábitos políticos e de atitudes que se desenvolvem com o tempo – e absolutamente nada têm a ver com a base legal sobre a qual a Constituição tenha sido inicialmente redigida; nem dependem de quem estava no poder ou de quem se deu ou não se deu por plenamente satisfeito com a Constituição, quando a leu pela primeira vez
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Paul R. Pillar*, com experiência de 28 anos na Agência Central de Inteligência (CIA), passou a ser um dos seus principais analistas. Atualmente também é professor visitante na Georgetown University para estudos de segurança. (Este artigo apareceu pela primeira vez como um post de blog no site The National Interest na Internet. Aqui reproduzido com a permissão do autor).

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Eleições nos EUA põem em risco um acordo com o Irã


22/10/2012, Paul R. Pillar, ConsortiumNews
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Paul R. Pillar
Helene Cooper e Mark Landler do New York Times causaram agitação, no fim de semana, com matéria (20/10/2012, U.S. Officials Say Iran Has Agreed to Nuclear Talks) em que dizem que EUA e Irã podem já ter concordado “em princípio” sobre iniciar negociações bilaterais sobre o programa nuclear iraniano.

Negociações com o Irã sobre essa questão já foram objeto de atenção em grande escala e formato, com um dos lados, conhecido em geral como Grupo P5+1, formado pelos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU ‘'mais'’ a Alemanha.

Surgiram dúvidas sobre a matéria do NYT, geradas pelos imediatos desmentidos, pelos dois governos, dos EUA e do Irã; e praticamente nada se sabe publicamente com clareza sobre o que os dois lados podem ter já acordado.

Para aumentar, possivelmente, a confusão, há a nenhuma disposição dos iranianos para continuar a negociar com o P5+1 antes de que se decidam as eleições nos EUA e saiba-se quem comandará a política norte-americana a partir de janeiro. Surgiram também outras questões, como por que – se há base factual real para a matéria do NYT –, jamais até hoje se ouviu sequer uma palavra sobre qualquer entendimento entre Irã e EUA; e as primeiras notícias aparecem, só, na véspera das eleições.

As especulações correram por faixa amplíssima: desde que o vazamento seria tentativa de boicotar as negociações bilaterais, até que o vazamento seria parte de um esforço do governo dos EUA para preparar a opinião pública para acordo a ser alcançado naquelas conversações.

Não tenho qualquer tipo de informação ‘'interna'’ sobre alguma verdade que haja nessas especulações, mas posso dizer que nada seria mais importante ou mais útil para o futuro dos EUA do que a confirmação de que há conversações em andamento, com vistas a um acordo, mesmo que sejam negociações secretas e que os dois governos as neguem.

O formato bilateral – como suplemento, não como substituição às negociações que envolvam o P5+1 – seria útil, porque os EUA são o player mais importante do processo; por que a negociação bilateral teria a necessária flexibilidade, aumentada por não se exigir consenso multilateral sobre cada concessão; e porque sempre será mais fácil preservar o sigilo, em grupo reduzido ao mínimo.

O sigilo ajudaria, porque os dois lados são pressionados por suas respectivas posições, alas e declarações linha-dura, brotadas de todos os que, nos dois campos, tanto mais ganham quanto mais a situação se complique. Quanto à liderança iraniana, estaria negociando com o Grande Satã – terreno extremamente delicado e arriscado. Quanto à liderança norte-americana, estaria ‘sendo suave’ – como já há quem diga que já é – com inimigo pintado até agora como mortalmente perigoso, terreno também fragilíssimo.

Efraim Halevy
O ex-chefe da inteligência israelense, Efraim Halevy observou, corretamente, que os iranianos “gostariam de sair do conundrum em que estão, dado que as sanções já ferem fundo o país”, mas que “os dois governos, de Israel e dos EUA, nos amarramos, nós mesmos, nossas próprias mãos. No fim, criamos desvantagem inerente, para nós mesmos”.

O atual governo israelense, que é quem mais agita e promove a questão nuclear iraniana, e que desdenha absolutamente a ideia de qualquer negociação com o Irã, é a principal força que gera risco político para qualquer governo norte-americano que se disponha a negociar com o Irã.

No sábado, o embaixador de Israel na ONU disse que “Não acreditamos que o Irã deva ser beneficiado com conversações diretas”, invocando assim a velha falácia segundo a qual negociar seria, de algum modo, premiar um dos lados. De fato, negociar é ferramenta vitalmente importante e útil para os dois lados que negociem.

O governo de Israel, como previsível sabotador de qualquer progresso em qualquer negociação com o Irã, teria de ser mantido excluído – o que dá sentido especialíssimo ao sigilo, para proteger as negociações – e impedido, assim, de sabotá-las.

A outra fonte – não completamente desligada dessa – de risco político potencial e de possível sabotagem, contra os quais o governo dos EUA teria, em todos os casos, de se precaver, é a oposição política interna que o atual governo enfrenta.

Um “estrategista dos Republicanos”, anônimo, disse, no sábado, que “os EUA aceitarem qualquer oferecimento vindo dos iranianos, para conversações diretas, seria a realização dos sonhos dos líderes iranianos para obter mais poder e, assim, provavelmente, obter até concessões para seu programa nuclear”. Nesse caso, invocou a velha falácia (que Richard Nixon, Ronald Reagan e toda a história da URSS já deveriam ter ensinado a descartar há muito tempo), segundo a qual negociar e obter acordos com força adversária contribuiria para aumentar o poder doméstico e a longevidade política do adversário.

Deve-se observar o uso da palavra “concessões”, nessas duas falácias, como se fosse palavrão, uso que, implicitamente, descarta qualquer acordo, porque nenhum acordo será jamais possível se os dois lados nada concederem.

Há vasta demonstração histórica de que o sigilo, em negociações bilaterais – porque o sigilo garante maior flexibilidade, a qual, em negociações complexas, quanto maior, melhor; e porque o sigilo protege a negociação contra a ação dos boicotadores e dos sabotadores das partes que negociam – pode levar a bons resultados, em circunstâncias em que todos os demais mecanismos “de transparência” só criariam dificuldades extras.

Le Duc Tho e Henry Kissinger
Parte considerável dessa história não é passado distante para os EUA. As negociações secretas entre Henry Kissinger e Le Duc Tho (ambos receberam um Prêmio Nobel da Paz partilhado, pelos seus esforços) que, juntos, finalmente, encontraram meio para arrancar os EUA do pântano em que estavam atolados no Vietnã, é exemplo sempre presente. E também vem à mente a diplomacia secreta de Nixon e Kissinger, com a China.

Devemos todos esperar que estejam em andamento, nesse momento, conversações entre o Irã e os EUA. E que sejam tão absolutamente secretas que não vazaram, sequer, para os atilados jornalistas do New York Times. Talvez não haja. Mas pode-se, pelo menos, ter esperanças de que sim, de que essas conversações já estejam em andamento.