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quarta-feira, 20 de maio de 2015

EUA: Faculdade William & Mary homenageia criminosa de guerra

17/5/2015, [*] Ray McGovernConsortium News 
William & Mary Honors War Criminal
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Entreouvido no Buteco do Piruá na Vila Vudu: Pior que essa  mas no mesmo âmbito da sórdida elite acadêmica do império anglo-sionista & PSDB-DEM  temos hoje o Financial Times, a publicar avaliações políticas cometidas por Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente e extinto sociólogo.  
Mas, afinal... E a quem interessa(ria) o opinionismo tosco desse ex-tudo e atual nada, cujo partido foi derrotado em TODAS AS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS às quais concorreu nos últimos 20 anos?!


Nada ilustra melhor a extensão da distância que separa hoje os EUA e o estado democrático de direito, do que uma cerimônia em que gente como Condoleezza Rice é convidada para falar a formandos e recebe o título de doutor honoris causa numa universidade. Rice – que pelos meus critérios pessoais cometeu crime de guerra – recebeu as honrarias no sábado, outorgadas a ela pela Universidade College of William and Mary, a segunda mais antiga dos EUA. 

Diferente do que se viu em outras aparições de Rice em universidades norte-americanas nos últimos anos, não se viu ali nenhum sinal de discordância, menos ainda de protesto. Praticamente todos os formandos ainda não tinham 10 anos em 2003, quando Rice tanto contribuiu para o governo do Presidente George W. Bush e seu Vice-Presidente Dick Cheney lançarem guerra de agressão contra o Iraque. A ignorância dos formandos talvez seja até explicável, mas nada augura de bom quanto aos saberes deles sobre história recente. 

Muito menos desculpável é a governança patrícia da universidade William and Mary, que promoveram a homenagem a Rice. Será que a torre de marfim em que vivem é impenetrável, a ponto de não ter chegado até lá a informação de que, ano passado, Rice foi impedida de receber honrarias equivalentes da Rutgers University, porque estudantes irados declararam que o discurso dela, na abertura do ano letivo, comprometeria para sempre o valor dos seus diplomas? 

Um dos líderes da campanha “No Rice” em Rutgers ano passado (que era então aluno veterano), Carmelo Cintrón Vivas, disse a Amy Goodman do programa Democracy Now! que: 
 
(...) os alunos sentiram que criminosos de guerra não poderiam receber homenagens naquela universidade (...). Alguém, com currículo tão vicioso e pervertido, como funcionária pública nesse país (...) não pode ser homenageada com título de doutor, por ter violado a lei. (...) Não seria justo com os formandos nem com qualquer aluno da Rutgers University.

Disse que considerava “risível” o argumento frequente segundo o qual as realizações acadêmicas de Rice ultrapassavam as posições políticas: 
 
Se se examinam os piores criminosos internacionais e as piores pessoas na história, muitos deles tinham diplomas e carreiras acadêmicas, ou eram médicos de renome. Carreira é uma coisa, o modo como você age como pessoa, como ser humano, é outra. Por isso fizemos do nosso protesto uma questão de defesa de direitos humanos.
 
Como explicar o contraste entre a apatia que se via em William and Mary e a consciência e ativismo em Rutgers? Uma chave talvez seja a marcada diferença entre os preços que os alunos pagam nas duas instituições. Taxas e anuidades são significativamente mais caras em William and Mary, localizada em Williamsburg, Virginia. Outra chave pode ser a considerável “tradição” na Virginia, de só convidar Republicanos conservadores para a aula inaugural e recepção de outras honrarias, na abertura do ano letivo. 


Diferente do que se viu em William and Mary, esse ano a Universidade Rutgers concedeu o título de doutor honorário em Letras e Humanidades a Frances Fox Piven, intelectual muito ativo na defesa da população trabalhadora mais pobre. Dentre os livros recentes de Piven está The War at Home: The Domestic Costs of Bush’s Militarism [A guerra em casa: o custo doméstico do militarismo de Bush]. Piven ganhou também o Shirley Chisholm Award por “liderança em prol de justiça social e econômica”. 
 


Vendo reunidos os formando de William and Mary, vi-me com pena deles, porque serão introduzidos à vida adulta por Rice, não por Piven. Piven com certeza não deixaria de falar-lhes dos terríveis desafios que os “99%” enfrentam – e as injustiças por trás do tumultos persistentes em Baltimore, St. Louis e em outras cidades atormentadas. Rice não falou de nada disso no sábado. Falou praticamente só sobre ela mesma – reflexo talvez da evidência de que, embora negra em Birmingham, Alabama, ela, mesmo assim, foi criada cercada de privilégios. 
Muito pior que isso: os crimes de guerra
 
Bem diferente de alguém de coragem ou pessoa de princípios confiáveis, Condoleezza Rice é o símbolo da subserviência ao mal e à criminalidade. É exemplo vivo de covardia e oportunismo, o exato oposto da lição de como viver a própria vida que Piven ou tantos outros oradores dignos de falar numa aula inaugural de universidade que se desse ao respeito. 
 
Quando o Presidente George W. Bush ordenou à Secretária Rice que caçasse qualquer e todos os fiapos de “prova”, por mais falso e forjado que fosse, para provar que o Iraque tinha “armas de destruição em massa”, Rice comandou a campanha fraudulenta para reunir e apresentar toda a “inteligência” necessária para enganar o Congresso e induzir os deputados e senadores a apoiar uma guerra que é exemplo perfeito do que o Tribunal de Nurenberg, depois da IIª Guerra Mundial, definiu como: 
 
(...) guerra de agressão é o supremo crime de guerra, diferente de todos os demais crimes de guerra só porque contém nele mesmo o mal acumulado de todos os demais crimes de guerra.
 
Rice representou o papel dela, como garota do bumbo pró guerra, com entusiasmo excepcional – gritando contra o perigo “das nuvens-cogumelos” das bombas atômicas (inexistentes) do Iraque; do “bolo amarelo” de urânio saído do fundo da África (baseada em instrumentos grosseiramente forjados); dos tubos de alumínio fotografados (que, como depois se soube, não passavam de canos para água usados pelo exército do Iraque), mas que Rice repetiu insistentemente que seriam usados para refinar urânio. 
 
Rice comandou o cortejo, com a indispensável ajuda de Dick Cheney, que promoveu as várias provas, todas forjadas, contra o Iraque. O caráter fraudulento dessas “provas” foi revelado ao mundo num documento britânico datado de 23/7/2002, The Downing Street Memorandum, publicado pelo The London Times dia 1/5/2005. De autenticidade confirmada, o memo expôs a escandalosa tentativa de “montar” alguma “inteligência” para justificar um ataque de EUA/GB para “mudança de regime” no Iraque. 
 


Já se sabia em todo o mundo que, apesar das mentiras incansavelmente repetidas por Dick Cheney, que o Iraque não tinha programa ativo de produção de bombas atômicas. Pois nem isso impediu Condoleezza Rice de dizer, em setembro de 2002, que 
 
(...) não queremos que a pistola fumegante seja uma nuvem radiativa.

O imoral bater de tambor de Rice pró-agressão contra o Iraque foi muito ampliado pela “mídia dominante”, mas ela sempre comandou o ataque. 

Calar as vozes divergentes

Todas as vozes que falaram contra a “grande mentira” de Bush-Cheney-Rice – como os vários alertas que lançamos (Veteran Intelligence Professionals for Sanity, VIPS) – foram reprimidas. Alguns de nossos alerta pré-guerra foram enviados nos nossos Memorandos ao Presidente. Foram três antes de o Iraque ser atacado pelos EUA:  
 
(1) “A fala de hoje do Secretário Powel na ONU” [orig. Today’s Speech by Secretary Powell at the UN] (5/2/2003, em que alertamos sobre a inteligência insuficiente e as catastróficas consequências de um ataque ao Iraque); 
 
(2) “Inteligência inventada para a guerra” [orig. Cooking Intelligence for War (12/3/2003); e 
 
(3) “Documentos forjados, falsidades, exageros, meias-verdades: problema com a Inteligência, Sr. Presidente” [orig. Forgery, Hyperbole, Half-Truth: A Problem With the Intelligence, Mr. President] (18/3/2003).

Com aqueles memos e muitos outros alertas, perdoem-me por ter-me sentido pessoalmente ofendido no sábado, ao ouvir Rice falar de razão, coragem, honestidade, humildade e otimismo àqueles infelizes formandos. Ao que me pareceu sem qualquer ironia, Rice aconselhou-os a não se deixar prender numa câmara de eco, a nunca supor que estejam absolutamente certos, a procurar opiniões divergentes que os desafiem, a desconfiar de qualquer Amén repetido a tudo que digam. 

Consegui anotar essa fala praticamente verbatim, assistindo ao início da cerimônia, ao vivo, pela internet. Os amigos que me convidaram para assistir de longe “esqueceram-se” de dizer quem era a oradora e que só seriam admitidos ao vivo familiares próximos dos formandos. Supuseram, com bastante razão, que eu não conseguiria manter-me calado na cadeira, diante daquela Condoleezza Rice dedicada ali a vomitar hipocrisias. 

Mas guerra de agressão foi apenas um dos abusos do poder cometidos pelo governo de George W. Bush. Houve também sequestros, “buracos negros”, prisões clandestinas, tortura, vigilância ilegal que viola a 4ª Emenda, etc. Que papel teve Condoleeza Rice nisso tudo? 

Na primavera de 2008, a rede ABC News, citando fontes internas, noticiou que, a partir de 2002, por ordens do Presidente Bush, a Conselheira para Segurança Nacional, Condoleeza Rice, reuniu seus mais altos assessores (Cheney, Powell, Rumsfeld, Ashcroft e Tenet) dúzias de vezes na Casa Branca, entre 2002-03 para definir qual o mix de técnicas de tortura mais eficiente para “terroristas” individuais capturados. 
 



Esses conselheiros para questões de tortura do governo dos EUA planejaram e aprovaram o uso de diferentes métodos de tortura – alguns foram “coreografados” ali, ao vivo – incluindo quase-afogamentos (waterboarding), privação de sono, ataques físicos, exposição a temperaturas extremas até provocar hipotermia e as chamadas “posições de estresse”. 

Num dado momento, o Advogado-Geral, John Ashcroft, manifestou em voz alta o que lhe passava pela cabeça: 
 
Por que estamos falando dessas coisas na Casa Branca? A história não será generosa quando nos julgar por isso.
 
A própria Rice, pessoalmente, levou à CIA a ordem do grupo da Casa Branca para dar início aos quase-afogamento de prisioneiros. Foi ela quem disse à CIA: “Podem prosseguir. O bebê é de vocês”, em julho de 2002, antes mesmo de o advogado John Yoo, do governo Bush, escrever seu criminoso “memorando da tortura”, para “legalizar” o que eles já estavam fazendo. Esses memorandos foram tentativa para oferecer aos criminosos o que outro advogado do Departamento de Justiça chamaria de “escudo dourado”, protegendo todos os envolvidos contra qualquer acusação criminal futura. Outros advogados referiram-se aos memorandos de Yoo como uma espécie “fiança grátis anti-cadeia”. 
 
De início, a rede ABC News tentou preservar o presidente dessas atividades sórdidas. Mas Bush estragou tudo, porque logo se pôs a vangloriar-se de que, sim, sabia daquelas atividades e as aprovara pessoalmente. 
 
Fotos das torturas
 
Depois que vazaram fotos em que se viam os mais desumanos abusos de prisioneiros na prisão de Abu Ghraib no Iraque, e que o major-general Antonio Taguba foi encarregado de investigar, ele próprio classificou o programa de interrogatório que Rice e outros funcionários haviam concebido e implantado de “regime sistemático de tortura”. A lista das técnicas aprovadas para uso da CIA já haviam migrado pela cadeia de comando abaixo, via Rumsfeld, um dos mais ativos participantes das reuniões na Casa Branca. [Vide “Honraria enviesada: Condoleeza Rice” (orig. Misguided Honor for Condi Rice)]. 
 
Em 2008, os mais altos funcionários do governo Bush encarregados de decidir se os detidos na prisão da Baía de Guantánamo seriam legados a julgamento, a juíza Susan J. Crawford foi forçada a rejeitar acusações de crime de guerra contra um importante suspeito do 11/9, ao concluir que militares norte-americanos haviam torturado o cidadão saudita, interrogando-o mediante técnicas que incluíam isolamento prolongado, privação de sono, nudez e exposição prolongada ao frio, torturas levaram o acusado a “condições de ameaça à sobrevivência”. 
 
A dificuldade que funcionários de algumas universidades encontram para dar o devido peso a esses atos sórdidos de Condi Rice são efeito, pelo menos em parte, de uma decisão política – a decisão que o Presidente Barack Obama tomou de “olhar adiante, em vez de olhar para trás”. 
 
É decisão que absolutamente não combina com a fama de especialista em leis de que goza o presidente, porque quem olha só para a frente abre mão do dever de julgar qualquer criminoso e qualquer crime, porque julgar criminosos e crimes é ação que obriga a examinar atos passados. 
 
O papel de comando que Rice teve como representante executiva da Casa Branca para assuntos de tortura voltou a ser comprovado em livro recentemente lançado, The Great War of Our Time, escrito por Michael Morell, ex-vice-diretor da CIA. Ali Morell escreve: 
 
Depois que a CIA apresentou uma relação de possíveis técnicas [de tortura] à Casa Branca, a conselheira de Segurança Nacional Rice disse que uma daquelas técnicas não poderia ser usada porque agrediria a linha moral da Casa Branca (p. 275).

Fosse qual fosse a tal “linha moral”, não excluía quase-afogamentos, que lá estava entre as técnicas de tortura que foram aprovadas por “Condi” Rice. 
 


Há quase 70 anos, Robert H. Jackson, juiz da Suprema Corte dos EUA e Procurador-Chefe dos EUA no Tribunal de Nuremberg enunciou vários conselhos que serviriam para o que, ele esperava, viesse a ser uma orientação necessária para o futuro. Na introdução, disse que:
 
Sei bem demais da fraqueza da ação judicial, para crer que a decisão desse tribunal, só ela, nos termos dessa Carta, possa evitar guerras futuras. A ação judicial sempre vem depois do feito. Guerras são iniciadas sob a teoria e em plena confiança de que possam ser vencidas. O castigo ao criminoso, a ser aplicado e recebido só se a guerra criminosa tiver sido perdida, provavelmente jamais será fator que previna alguma guerra onde os fazedores de guerras sintam que possam descartar a probabilidade de serem derrotados. 

Mas o passo definitivo para evitar guerras periódicas, que são inevitáveis num sistema de leis internacionais ausentes, é responsabilizar perante a lei os governantes. E permitam-me ser bem claro nesse ponto: mesmo que essa lei esteja sendo aplicada primeiro aos agressores alemães, a lei é includente, e se deve servir a algum propósito útil, deve condenar a agressão que parta de qualquer das demais nações, inclusive das que aqui estão sentadas como juízes.

Mau precedente

A experiência do sábado na Universidade William and Mary não é, de modo algum, a primeira vez que uma universidade sucumbiu ao “vírus do prestígio” e concedeu altas honrarias a alguma celebridade com poder, em aula inaugural, por piores que tenham sido as ações e crimes da tal celebridade. É triste reconhecer, mas há muitos exemplos, inclusive outro, anterior, com a mesma criminosa de guerra, Miss Rice. 

Condoleezza Rice foi quem ministrou a aula inaugural no Boston College, dia 22/5/2006, quando recebeu o título honorário de Doutor(a) em Leis (Oh, George Orwell, sim, que ironia!). Aconteceu quando servia como Secretária de Estado – depois do sujo trabalho de vendedora pró-guerra no Iraque, mas antes de a rede ABC News ter revelado em 2008 o envolvimento direto dela na tortura de prisioneiros. 
 


Dez dias antes da aula inaugural no Boston College, Steve Almond, professor-adjunto de Inglês, renunciou ao cargo, em sinal de protesto. Adiante se leem alguns trechos da carta de renúncia do prof. Almond dirigida ao reitor do BC, reverendo (jesuíta) William P. Leahy:
 
Escrevo para renunciar (...), por efeito direto de sua decisão de convidar a secretária de Estado Condoleezza Rice para discursar na cerimônia de formatura dos graduandos desse ano.

Muitos membros e alunos dessa faculdade já manifestaram objeções ao convite, argumentando que as ações de Rice como secretária de Estado são inconsistentes com os valores humanísticos da universidade e com as tradições católicas e jesuíticas, das quais derivam os valores dessa universidade. 

Mas não escrevo apenas porque tenho objeções à guerra de agressão contra o Iraque. Minha preocupação é mais fundamental. Dito em palavras claras, Rice é mentirosa. Mentiu ao povo norte-americano, sabendo que mentia, repetidas vezes, de fato espantosamente, ao longo dos últimos cinco anos, num esforço para encontrar justificativa para uma política exterior patologicamente mal orientada. (...) 

Essa é a mulher à qual o senhor estará outorgando título honorário, além do privilégio de falar diretamente à classe dos formandos de 2006. (...) Honestamente, Padre Leahy, que lições o senhor espera oferecer àqueles graduandos impressionáveis? (...) Que aprendam a mentir ao povo dos EUA para obter vantagem política? (...) 

Não posso, em sã consciência, insistir com meus alunos para que busquem sempre o melhor conhecimento e a verdade e, depois, receber pagamento de uma instituição que manifesta tão flagrante desconsideração contra ambos. Gostaria de poder pedir desculpas aos meus alunos de antes e aos meus futuros alunos. Recomendo vivamente que pesquisem sobre as palavras e as ações de Rice, e que exerçam os direitos que a 1ª Emenda lhes dá, quando do discurso dela. 
 
O professor Almond absolutamente não estava sozinho. Cerca de 1/3 dos membros da faculdade do Boston College assinaram documento em que protestaram contra o convite a Rice. Eis como o New York Times noticiou aquele evento de formatura:
 
A Secretária de Estado Condoleezza Rice discursou como homenageada na formatura, na 2ª-feira, no Boston College, para um público onde havia dúzias de alunos e professores que se levantaram e deram-lhe as costas, erguendo cartazes de protesto contra a guerra no Iraque.
Um pequeno avião sobrevoou o campus por duas vezes, exibindo uma faixa em que se lia, em letras vermelhas “A sua guerra nos cobre de vergonha”. Do lado de fora do Alumni Stadium, onde 3.234 alunos recebiam diplomas, manifestantes marchavam pela Beacon Street, exibindo cartazes em que se lia “Não se troca sangue por petróleo” e “Nós também somos patriotas”. 

Dentro do prédio, porém, Miss Rice foi aplaudida de pé ao ser apresentada, e foi interrompida várias vezes por aplausos durante seu discurso.


Em sua autobiografia de 1987, To Dwell in Peace, Daniel Berrigan escreveu sobre 
 
(...) o fracasso de uma grande empreitada – a universidade dos Jesuítas. Relembrou que teve um pressentimento de que a universidade acabaria como outras dessas estruturas cujo declínio moral e servilismo ao poder sinaliza o declínio geral da própria cultura norte-americana.

Berrigan lamentou o apoio à guerra dado por homens nos altos postos da Igreja, e a aprovação à guerra 
 
(...) manifestado com sublime confiança nas autoridades, nos amigos em altos postos e nas conexões na Casa Branca. 
Assim comprometida, alertou Berrigan, a tradição cristã da não violência, além da lição secular da desinteressada busca da verdade – já foram reduzidas a palavreado oco, reservado para as solenidades, nas quais já ninguém acredita, que já ninguém pratica.

O padre Berrigan preocupava-se especialmente com a desarticulação das universidades jesuíticas como o Boston College. Mas o que escreveu aplica-se não só aos “altos postos” da igreja, mas a muitos outros, como o pessoal laico, de altos salários, responsável por convidar Condoleezza Rice para a solenidade de formatura na Universidade William and Mary.

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[*] Ray McGovern nasceu no Bronx em Nova York em 25/8/1939 e lá cresceu. Formou-se com honras pela Universidade Fordham e  serviu no Exército dos EUA de 1962-1964. Está casado com Rita Kennedy por 50 anos. Juntos têm cinco filhos e oito netos.
Aposentado como analista da CIA onde trabalhou no período 1963-1990. Trabalhou inicialmente como oficial da CIA responsável pela análise da política soviética no Vietnã.
No início da década de 1980, já como analista sênior, montou e dirigiu o grupo de National Intelligence Estimates que preparava o President's Daily Brief. Rotineiramente apresentava essesbriefings matinais de inteligência na Casa Branca. Em meados da década de 1980 era o analista que conduzia briefings matinais one-on-one com o Vice-Presidente, os Secretários de Estado e da Defesa, o Comandante do Estado Maior Conjunto e do Assistente do Presidente para a Segurança Nacional. Sua carreira CIA começou no governo do presidente John F. Kennedy, e durou até a Presidência da George Bush (pai).
Após aposentar-se fundou a organização Veteran Intelligence Professionals for Sanity (VIPS)[Profissionais Veteranos de Inteligência, pela Sanidade] onde atua até hoje


quinta-feira, 23 de abril de 2015

Vem aí novo “Incidente no Golfo de Tonkin”?


21/4/2015, [*] W. Patrick Lang – Sic Temper Tyrannis
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Lyndon Johnson (E) e Robert McNamara
Ainda não havia nem sinal de qualquer prova, na noite de 4 de agosto, quando Johnson falou à opinião pública norte-americana sobre o incidente. Mensagens gravadas naquele dia indicam que nem o presidente Johnson nem o secretário McNamara tinham certeza de que realmente acontecera alguma coisa.

Vários veículos “noticiosos”, inclusive as revistas Time, Life e Newsweek, publicaram artigos durante o mês de agosto sobre o incidente no Golfo de Tonkin. A revista Time escreveu:

Saídos da escuridão, das direções oeste e sul surgiram repentinamente barcos atacantes, em alta velocidade, pelo menos seis. Abriram fogo contra os destróiers com armas automáticas, dessa vez a uma distância de 2 mil jardas.  


(...) não houve qualquer dúvida, na mente de Sharp, de que os EUA teriam de reagir àquele ataque.

E não houve nem qualquer mínima discussão nem qualquer pequena divergência dentro do governo dos EUA sobre o tal “ataque”.

USS Maddox (DD-731) em 1955
Servir-se de um conjunto de incidentes como pretexto para escalar o envolvimento dos EUA, foi a etapa seguinte, depois de os EUA terem lançado várias ameaças públicas contra o Vietnã do Norte, além de conclamações, feitas por deputados e senadores, a favor de os EUA escalarem na guerra contra o Vietnã. Dia 4/5/1964, William Bundy conclamou os EUA a “expulsar os comunistas do Vietnã do Sul”, ainda que isso significasse “atacar ambos, o Vietnã do Norte e a China comunistas”.

Mas o governo Johnson, no segundo semestre de 1964, ainda se empenhava em tentar convencer o público norte-americano de que não havia possibilidade de guerra entre o Vietnã do Norte e os EUA.
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Mas... Pois é. A história toda dessa ataque jamais passou de amontoado de MENTIRAS e mais MENTIRAS, uma combinação de histeria da mídia-empresa, somada à perversão inata em Lindon B. Johnson, ao seu total desrespeito pela verdade, e um ataque real contra o contratorpedeiro USS Maddox, por barcos vietnamitas armados. O fato de que esse ataque dos vietcongs tenha sido resposta à ação dos norte-americanos do MACV-SOG [Military Assitance Command, Vietnam, Studies e Observation Group (MACV-SOG)], quando os vietnamitas descobriram que os norte-americanos haviam infiltrado agentes, por mar, no Vietnã do Norte, é hoje fato histórico já comprovado, do qual eu só tive conhecimento quando redigia o último relatório anual de operações do MACV-SOG que redigi, em 1973.

O mapa mostra as operações que resultaram no Incidente do Golfo de Tonkin, pelo ponto de vista da Marinha dos Estados Unidos
Em 1964, Johnson usou essa ficção e grave distorção da verdade, para conduzir a opinião pública a favor de o Congresso aprovar a Resolução do Golfo de Tonkin. Essa resolução serviu às mesmas finalidades, para as guerras dos EUA no sudeste da Ásia, a que servem hoje as Autorizações para Uso de Força Militar que Obama pede ao Congresso.
foto:

Mesmo agora, tantos anos depois de quando servi no sudeste da Ásia, essa história ainda me enfurece.

Hoje, temos um grupo de combate naval dos EUA, o USS Roosevelt e sua escolta, que se movem do Golfo Pérsico para o norte do Mar da Arábia para... PARA FAZER O QUÊ? Para garantir que permaneça aberto o estreito de Bab al-Mandab? Mas quem ameaça fechar esse estreito? QUEM?

Até a CNN e seu corpo de consultores “flexíveis” e “isentos” já reconheceram que há alto risco de incidente no mar, que poderia gerar as mesmas MENTIRAS e “oportunidades” de antes, provocadas por arranhões leves, de tiros de barcos pequenos, no casco do USS Maddox.

Aconteça o que acontecer no processo em curso, nós, cá do blog Sic Temper Tyrannis, estamos bem alertas.
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[*] Coronel W. Patrick Lang é alto oficial aposentado da Inteligência dos EUA e das Forças Especiais dos EUA (“Boinas Verdes”). Serviu no Departamento de Defesa, agente de campo e de gabinete, por muitos anos. É veterano condecorado de várias guerras dos EUA em todo o mundo, inclusive no Vietnã. Foi formado e treinado como especialista em Oriente Médio para o Exército dos EUA e serviu por muitos anos na região. Foi o primeiro professor de língua árabe na Academia Militar dos EUA em West Point, New York (...). Atualmente anima o blog  Sic Temper Tyrannis.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Contra as mentiras disseminadas pela mídia–empresa

7/4/2015, [*] Colin TodhunterCountercurrents
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Global Research, The 4th Media, RINF, Countercurrents e outros, qualquer página ou blog em que você esteja lendo este artigo, será necessariamente veículo do que se chama “mídia independente” ou “mídia alternativa”. Muitas dessas páginas não publicam publicidade paga e vivem de doações de leitores. Muitos dos autores publicados nessas páginas escrevem sem nenhuma ou com mínima remuneração.

Compare-se essa situação com a chamada “mídia-empresa dominante”, quase sempre impressa ou de televisão, mas também por rádio.

A mídia-empresa dominante, com seus jornalistas pagos (nem sempre bem pagos e muitas vezes miseravelmente mal pagos) e cuja propriedade vai-se tornando cada vez mais concentrada, vive sob a direção, de fato, dos anunciantes que a sustentam. Quase sempre pertence a empresários privados, e os proprietários e acionistas têm declarado interesse em manter o sistema econômico vigente, baseado na propriedade privada; e em construir o consenso necessário para manter aquele sistema.

Além disso, esses veículos atualmente são cada dia mais parte de conglomerados maiores, que podem incluir vários tipos de indústrias – de armamento, de banking, etc. – e de interesses financeiros e econômicos. Nessas circunstâncias já nem se pode sequer cogitar de os veículos adotarem posição que prestigie mais o interesse do leitor/ radiouvinte/ telespectador, do que da própria organização na qual se insere a dita mídia-empresa.

Nesse quadro, o público é empurrado para uma visão de mundo que distorce a realidade a favor dos específicos interesses empresariais. Por esse mecanismo é que se divulgou e disseminou-se tão amplamente a mensagem, por exemplo, de que o “livre mercado’”seria o melhor sistema existente para fornecer bens e serviços às pessoas; que os serviços públicos seriam sempre péssimos; que a “austeridade” [nome novo para o “arrocho”, tão velho conhecido dos trabalhadores em todo o mundo] seria indispensável e benéfica; que a privatização aumentaria a eficiência; que a malfadada infindável “guerra ao terror” faria sentido, mesmo que seja agressão só contra alguns e nunca contra todos os terroristas; que o bem-estar das pessoas poderia ser avaliado pela busca incansável de perenes aumentos do PIB; que EUA e OTAN seriam bons “guardiães do mundo”; que as gigantes do agrobusiness poderiam deslocar pequenos produtores em nome de garantir uma suposta “segurança alimentar”; e que as desigualdades gigantescas reproduzidas e disseminadas pelo poder ilimitado e não regulado das empresas e sua ânsia de lucros seriam não só legítimas como, também, absolutamente necessárias.

Ao longo dos últimos 15 anos, surgiram muitas páginas noticiosas alternativas, que desafiam esses pressupostos da mídia-empresa velha, e a ideia de que os cidadãos eleitores devam ser consumidores passivos de uma agenda pré-fabricada de eventos. Há hoje dúzias de agências distribuidoras de notícias que informam sobre longa lista de questões que a velha mídia-empresa deliberadamente excluiu da pauta de notícias consideradas ‘importantes’ e sobre as quais ou nada se diz, ou só se ‘noticiam’ mentiras. E criaram-se também, em todo o mundo, muitas páginas de pesquisa, com alcance global, criadas especificamente para examinar os fatos em diferentes setores da vida, para fiscalizar as práticas corporativas (por exemplo, GMWatchCorporate Europe ObservatoryFood & Water WatchCampaign Against the Arms Trade, etc.) e, assim, para expor, desmentir e contra-argumentar inúmeros campos da ainda chamada “informação”, mas que hoje já não passa de publicidade & marketing, quando não é pura propaganda a favor do capital e dos ricos.

A existência de páginas independentes de informação, já levou a União Europeia a manifestar preocupações sobre os “efeitos daninhos” de as pessoas terem acesso a essas fontes de informação alternativa. A União Europeia reclama que o consenso societal está sendo erodido, porque as pessoas estão sendo “desviadas” por vozes dissidentes que se distribuem, sobretudo, pela internet.

A imprensa está vigilante
DURMAM CIDADÃOS
No relatório A free and pluralistic media to sustain European democracy [Uma mídia livre e pluralista para dar sustentação à democracia europeia], a UE alerta para o que considera o risco de as pessoas, mal informadas ou submetidas a informação distorcida, estarem tendendo cada vez mais ao radicalismo. E defende que a União Europeia ajude a financiar um jornalismo “responsável”, que leve o ponto de vista da União Europeia a todos os cidadãos, com regularidade e principalmente pela imprensa, e que imponha controles sobre a internet. Para a União Europeia, isso se chamaria “pluralismo”.

O que é “jornalismo responsável”?

Em seu artigo A hora mais escura, ou como os norte-americanos perderam a própria humanidade, de 13/1/2013, Annie Day sugere que, como resultado dos muitos atos de invasão, intervenção, desestabilização de outros países, golpes, bombardeios em massa e ação de seus esquadrões da morte, os militares norte-americanos e a CIA tornaram-se responsáveis por cerca de 10 milhões de mortos, desde 1945. Mesmo assim, a mídia-empresa jamais se refere a essa tragédia como uma espécie de prática de terrorismo em massa. Tendo já sequestrado cinicamente o próprio conceito de “terror”, os EUA agora se dedicam a justificar a própria tirania sem fronteiras discursando sobre uma “guerra ao terror”, sempre ricamente fotografada ou televisionada. Esse é o serviço jamais questionado e não raras vezes muito elogiado ao qual se dedica, em tempo integral a mídia-empresa dominante.

A Ucrânia é o mais recente exemplo de campanha de terror apoiada pelos EUA, que a mídia-empresa absolutamente jamais questionou. Com o mundo andando a passos rápidos na direção de uma guerra nuclear, a mídia-empresa capitalista só faz repetir, como papagaio, a mentira oficial produzida em Washington, segundo a qual a situação presente seria consequência de uma “agressão russa”.

A isso se podem acrescentar aqueles 10 milhões mais incontáveis mortos, cuja vida foi sacrificada no altar do lucro das empresas que não confiam só nos militares para bombardear países e povos até que se ajoelhem ante o que lhes ordenem IMF, World Bank and WTO. Quantas vidas foram ceifadas em todo o mundo, por causa da violência estrutural, ou da silenciosa matança diária, indispensável para manter operante o capitalismo de predação?

A apropriação ensandecida de toda a riqueza, mediante um sistema que afunila de baixo para cima – o sistema de acumulação por roubo – é celebrada pela mídia-empresa como se fosse crescimento, prosperidade e liberdade de escolha, apesar de todas as provas do contrário que nos vêm de Grécia, Espanha e outros países, de que a realidade, para a maior parte da população tem sido salários que encolhem, pobreza galopante, nenhuma possibilidade de escolher livremente coisa alguma e miséria.

Assim sendo, onde está(ria) o “jornalismo responsável” que a União Europeia está convocando?

Estará, talvez, naqueles jornalistas profissionais que operam a mídia-empresa, e que só fazem oferecer, como garantia de respeitabilidade, o próprio profissionalismo, a transparência do próprio trabalho, a própria objetividade, tudo sempre autoproclamado?

Se alguém aceitar que profissionalismo, transparência e objetividade se demonstrariam na fidelidade ao patrão, nos números da folha de pagamento (e respectivos “por fora”) e se concentrariam em proibir qualquer arranhão, leve que seja, aos interesses dos anunciantes, do poder (onde esteja) e do próprio patrão, então, sim: os jornalistas como os conhecemos são exemplares a serem copiados, de perfeita responsabilidade social.

Repetindo suas futilidades e mentiras bem remuneradas, até hoje nem jornais, nem jornalistas, nem redes de TV nem rádios comerciais, jamais se expuseram a qualquer genuíno controle público. Cada vez que dirigem seus talentos “investigativos” para “procedimentos parlamentares”, personalidades, qualquer “política” e as insensatas maquinações dos partidos do capital, esses jornais e jornalistas só servem para perpetuar o status quo e manter o público na mais impenetrável ignorância de tudo que tenha a ver com a militância do poder para se autopreservar e assegurar salvo conduto para o que quer que façam Big Petróleo, a Big Finança, a Big Farma, o Big Agro-businesses e o resto deles, graças ao trabalho de think-tanks e universidades, além de iniciativas políticas pensadas para nos fazerem sangrar até morrer.

Corporações Globais comandam os Exércitos
Mas esse é o serviço da mídia-empresa: ajudar a reforçar e a reproduzir as condições materiais de um sistema de divisão social, operando todos os dias, 24h/24h. Há quem chame essa mídia-empresa de “mídia sem dentes”, mídia serviçal do poder. É a mídia-empresa que se apresenta como se fosse elemento vitalmente importante da “democracia liberal”.

Mas a verdade é que, nesse tipo de “democracia liberal”, nenhuma mídia-empresa jamais expõe os malfeitos das elites político–empresariais–acadêmicas: quem faz esse serviço é gente como Edward Snowden ou Julian Assange; e, esses, são caçados como criminosos.

Foi George Orwell quem disse que jornalismo é imprimir o que ninguém quer ver impresso; e que o resto é relações públicas. Na mesma linha, o ex-chefe da CIA, general Petraeus, disse em 2006 que sua estratégia era fazer uma guerra de percepções conduzida ininterruptamente pelas empresas de noticiário, e John Pilger observa que o papel do jornalismo “respeitável” nos crimes de estado no Ocidente – do Iraque ao Irã, do Afeganistão à Líbia – sempre foi e continua a ser absoluto tabu: o papel desse jornalismo “respeitável” é dançar como macaco de circo e distrair as massas, enquanto as empurra para guerras ilegais.

Agências de inteligência garantem subserviência da “mídia”

Claro que há alguns jornalistas bons, a serviço também da mídia-empresa dominante. Mas você erra, se já resolveu que esse artigo é apenas mais um ataque enviesado contra a “liberdade” da mídia-empresa ainda dominante.

Muitos leitores alemães com certeza lembrarão a história recente do ex-editor do Frankfurter Allgemeine Zeitung, um dos maiores jornais alemães, que confessou que aceitava matérias redigidas e entregues a ele pela CIA, e que as publicava como se fossem de sua autoria.

Para muitos, foi um choque. Mas não deveria chocar mais ninguém; por exemplo na Grã-Bretanha, onde se sabe que a inteligência britânica, associada à CIA, há décadas opera para assegurar-se de que a mídia–empresa de veículos impressos e das redes de TV nunca entrassem em rota de colisão com os interesses do establishment. Além disso, para garantir que a esquerda britânica seria mantida sob fogo intenso e ininterrupto, que seria subvertida, infiltrada e esterilizada, também a esquerda foi “modelada” pelas agências de inteligência para só repetir como papagaio os pontos de vista e os objetivos do establishment.

Como isso foi feito está contado no artigo The Psyops War: British Intelligence and the Covert Propaganda Front and the CIA's Interference in British Politics. Esse artigo revela a estreita relação que sempre houve entre jornalistas seniores na Inglaterra e o MI5:

O MI5 escolhia jornalistas que cobrissem questões trabalhistas nos dois jornais e redes de TV e rádio, e desde os anos 80s; eram recrutados em levas, por seus contatos com grande número de funcionários dos sindicatos e militantes e por se conhecerem entre eles. Segundo Peter Wright, o MI5 sempre teve cerca de 20 jornalistas seniores influentes trabalhando para eles na imprensa nacional. “Nós não os empregávamos diretamente, mas os considerávamos como agentes, porque eles ficavam muito felizes por trabalharem conosco”.

BBC, como serviço nacional público de divulgação de informações, recebia atenção especial:

Na BBC, o brigadeiro Ronald Stonham fazia a ligação com o MI5 e o Ramo Especial, e aconselhava a corporação sobre quem contratar e quem não contratar. Nomes de aspirantes a empregos nos setores editoriais da BBC também eram sujeitos ao “veto” do MI5.

Daquele artigo depreende-se facilmente onde, na avaliação das elites, os jornalistas deveriam aplicar sua “lealdade”:

Há momentos em que o jornalista, depois de examinar todos os fatos e confirmar o que lhe digam suas fontes, deve pôr-se ao lado do estado, da ordem estabelecida e do establishment como um todo.(Diretor da Autoridade do Rádio).

A classe trabalhadora, sobretudo, tinha de saber exatamente qual o seu lugar (Toxteth, no fragmento abaixo, é um distrito urbano, usado ali como caso exemplar da agitação social que tomava conta de várias cidades britânicas no início da década dos 80s):

Estamos num período de considerável mudança social. Talvez haja agitação social, e nós podemos lidar com os Toxteths (…). Mas se tivermos população bem educada e ociosa, podemos, possivelmente, antecipar conflitos mais sérios. As pessoas têm de ser educadas para, mais uma vez, saberem qual é o lugar delas. [De relatório secreto do Departamento de Educação].

O artigo deixa bem claro quem o establishment britânico vê como “o inimigo interno” e qual o papel que caberia à muito elogiada “imprensa livre” (elogiada mais sempre pelo próprio pessoal que ganha dinheiro dentro da dita “imprensa livre”).

A imprensa "livre" está completamente dominada
Com a diminuição acentuada no número de leitores, porém, a empresa de imprensa impressa parece já ter entrado em queda terminal. O controle férreo que o establishment sempre teve sobre a informação já começa a escapar-lhe e deslizamos todos para um quadro em que a internet tornou-se o maior veículo para distribuição de informação.

A elite financeira–empresarial encastelada no estado reinou por muito tempo sobre a mídia-empresa que sempre lhe foi subordinada. Agora, a mesma elite dedica-se a uma estratégia de vigilância global massiva e a tentar capar a liberdade da internet, em muitos casos propondo medidas de censura, sob o pretexto de que assim se impediriam crimes de pedofilia (como se viu no Brasil e na Inglaterra, por exemplo).

O objetivo daquelas elites é, outra vez, estabelecer seu total controle também sobre a internet, e assim reproduzir a “livre imprensa” que tão bons serviços sempre prestou ao establishment  financeiro–empresarial que se infiltrou no estado.
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[*] Colin Todhunter é originário do Reino Unido e passou muitos anos na Índia. Atualmente mantém residência em ambos os países. Foi pesquisador de Política Social. Especializou-se também no estudo de Mídias e na análise dos malefícios dos produtos transgênicos. Seus artigos tem sido publicados em uma ampla gama de jornais e revistas. Publicou igualmente dezenas de resenhas de livros em inúmeros sites de destaque.