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segunda-feira, 15 de junho de 2015

Os anglo-americanos estão loucos

14/6/2015, [*] Finian CunninghamStrategic Culture
Tradução: mberublue

Philip Hammond, Secretário de Relações Exteriores

Se vivêssemos em um mundo são, o Secretário de Relações Exteriores da Inglaterra deveria ser obrigado a deixar seu posto de principal diplomata do país, coberto de desgraça e desaprovação, na sequencia de suas desastrosas declarações de que a Inglaterra deveria estar pronta para receber mais armas nucleares dos Estados Unidos, supostamente para conter a “ameaça russa”. Assim sendo, nós teríamos uma escalada alarmante das tensões internacionais e militarismo causados por ambos os países – Estados Unidos e Inglaterra – e tudo por causa de palavras imprudentes baseadas em fatos não provados. Claramente, os aliados anglo-americanos estão trabalhando em conjunto.
A regressão sem pejo de Hammond para o ambiente da Guerra Fria vem na mesma medida de Washington, que também tornou pública sua intenção de estar considerando colocar em vários países europeus, mísseis nucleares de “ataque preventivo”. Declaram os norte-americanos que esse movimento viria “em resposta” às supostas violações pelos russos do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Médio (INF). Moscou está sendo acusada de testar mísseis de cruzeiros baseados em terra que estariam proibidos sob o tratado. A Rússia tem negado sistematicamente as alegações acusatórias de Washington, que – como parece estar se tornando uma espécie de norma em outros assuntos contenciosos – não tem sustentação em nenhum tipo de evidência ou prova da parte de Washington.
Tal atitude difamatória contra a Rússia é duplamente desprezível, porque não se trata apenas de uma calúnia. A mentira também serve como cobertura moral que permite aos anglo-americanos perpetrar outras etapas ultrajantes que resultam em perigo flagrante para a paz mundial, com a alocação sem precedentes de armas nucleares.
No que se refere à questão da colocação na Inglaterra de armas nucleares dos Estados Unidos, Hammond afirmou ao jornal de direita Daily Telegraph:
(...) penso que é correto de nossa parte estarmos preocupados se a direção tomada pela Rússia é o que chamam de “doutrina de guerra assimétrica”. Nós precisamos enviar um sinal muito claro para a Rússia, de que não permitiremos qualquer transgressão às nossas linhas vermelhas. Poderemos considerar a proposta [de permitir a instalação de armas nucleares norte-americanas em solo Britânico]. Trabalhamos lado a lado com os norte-americanos. Caso essa decisão seja mesmo colocada sobre a mesa, deve ser tomada em conjunto. Quanto a nós, devemos pesar os prós e os contras e chegar a uma conclusão.
Para justificar a si mesmo, o Ministro britânico de Relações Exteriores buscou relacionar a questão nuclear à alegada agressão russa no leste ucraniano, aduzindo:
Há sinais bem preocupantes de que aumentam as atividades tanto pelas forças russas quanto pelas forças separatistas controladas pelos russos.
Hammond tentou parecer ambíguo sobre a instalação de armas nucleares dos Estados Unidos em território Britânico – as quais se somariam ao próprio arsenal nuclear da Inglaterra – mas o simples fato de que seu governo está considerando a possibilidade, já é um movimento flagrantemente imprudente. Se tal acontecesse, reverteria a proibição relativa a essas armas que ocorreu na sequência do fim da Guerra Fria há mais de 20 anos.
Guerra fria 2.0 - Manobras da OTAN

Ironicamente, enquanto Hammond estava nesta semana se esforçando para que o Parlamento permitisse um referendo sobre a permanência da Inglaterra como membro da União Europeia, sequer uma palavra foi dita ao público inglês, para saber se a população inglesa quer mais uma vez tornar-se parte da força de ataque nuclear dos Estados Unidos.
Mas talvez a infração merecedora de cartão vermelho cometida por Hammond seja o fato de que ele está militarizando perigosamente a política externa da Inglaterra sem estar lastreado em nenhuma evidência razoável; na realidade, baseia-se em desinformação total. Exatamente como seus aliados em Washington, o Ministro do Partido Conservador está fazendo toda sorte de acusações mentirosas e histéricas contra a Rússia, que vão desde constituir uma ameaça para a Europa, até usar “doutrina de guerra assimétrica”, passando pela suposta invasão do leste ucraniano e chegando à sabotagem do acordo de cessar fogo de Minsk (aliás, uma tentativa de paz que Moscou trabalhou duramente para implementar, juntamente com a Alemanha e França em fevereiro, com a significativa ausência de Washington e Londres).
Sem qualquer informação confiável, os norte-americanos e britânicos parecem estar se movendo deliberadamente no sentido de incrementar a capacidade de um ataque nuclear preventivo contra a Rússia. Como relatou a Associated Press na última semana, embora usando uma linguagem eufemística:
(...) as opções chegaram apenas ao nível de insinuações – mas não de declarações enfáticas – de que certamente melhorariam a capacidade das armas nucleares dos EUA para atingir alvos em território russo.
A verdade é que os norte-americanos, os britânicos ou a OTAN não produziram sequer um fiapo de evidência verificável de que a Rússia tenha violado o Tratado INF, ou esteja subjugando a Ucrânia ou ameaçando qualquer outro país europeu.
No leste ucraniano os relatos mais confiáveis sobre a situação emanam tanto do grupo de monitoração do cumprimento do acordo de Minsk feita pela Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) quanto de fontes da mídia local e de oficiais separatistas de que o recente incremento da violência vem do regime de Kiev, apoiado pelo ocidente. A violência inclui o bombardeio de centros residenciais na cidade de Donetsk e nos arredores de pequenas cidades e vilas, que resultaram na morte de dúzias de civis durante a última semana.
Exército da Junta de Kiev bombardeia áreas civis em Donetsk

A maneira pela qual os britânicos e norte-americanos distorcem os fatos para fazer da Rússia o agressor e destruidor do cessar fogo de Minsk é apenas uma assertiva prejudicial que se baseia em qualquer coisa, menos nos fatos. Desta forma, essa visão é uma distorção dos fatos que chega às raias da mentira descarada.
Que o Secretário para a Política Externa possa fazer comentários tão enganosos e aparentemente desorientados sobre o conflito na Ucrânia e sobre a Rússia em geral, e pensar em mudar a política militar da Inglaterra para instalar no território inglês armas nucleares dos Estados Unidos é digno de expulsão do ministério por extrema e grosseira incompetência.
A adoção por Hammond de um militarismo nuclear em meio a um tenso impasse político entre Oriente/Ocidente não passou em brancas nuvens na Inglaterra. Suas teses e afirmações belicosas causaram controvérsia, com várias campanhas antiguerra em repúdio à imprudente reversão para a mentalidade de Guerra Fria. Contudo, o fato de que a incompetência de Hammond não tenha causado ainda mais celeuma é um preocupante sinal da dormência moral do povo inglês, que não fez com que Hammond incorresse numa condenação pública ainda maior.
Nas entrelinhas, a política externa dos governos dos Estados Unidos e da Inglaterra trata-se apenas disso: uma ideologia de Guerra Fria, que os faz ver o mundo inteiro como inimigos ou “ameaças externas”. Mais uma vez, Rússia e China são vistos e retratados como inimigos.
Na última semana, em uma entrevista para o jornal italiano Corriere dela Sera, o Presidente russo, Vladimir Putin observou:
Já que muitos países têm preocupações sobre possíveis agressões pela Rússia, eu penso que apenas uma pessoa insana, louca, e apenas em sonhos maus poderiam imaginar que a Rússia poderia subitamente atacar a OTAN.
Assista a seguir entrevista completa com legendas em italiano:
Ora, por dedução, esse raciocínio lista pessoas com a visão dos fatos de Hammond como “insanas”. O mesmo vale para o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama e sua administração. Discursando na recente reunião de cúpula do G7 na Alemanha, Obama pontificou: “precisamos encarar a agressão russa”.
A pergunta lógica é: por que tanto Washington como Londres em particular, interpretam o mundo em termos de inimigos, ameaças e agressões?
Parte da resposta pode ser a de que essas mesmas potências são as maiores praticantes de agressões ilegais na perseguição de seus objetivos na política externa. O Imperialismo – uso de força militar na sustentação de metas políticas e econômicas – é parte indissociável da forma pela qual Estados Unidos e Inglaterra operam no mundo. Agressão e militarismo são instrumentos fundamentais do imperialismo anglo-americano, assim como acordos para atividades bancárias, de investimento e comércio (TPP e TTIP).

TPP, TTIP, TISA, CETA - Assalto à DEMOCRACIA


Não se pode negar que existe uma espécie de “consciência do mal” que rola nas relações internacionais tanto de Inglaterra como dos Estados Unidos. Ambos temem (com razão) retribuição e vingança causadas por seus comportamentos agressivos e criminosos em relação ao resto do mundo. Numa palavra, a visão de mundo dos anglo-americanos se resume em: paranoia.
A militarização das relações exteriores também é uma eficiente via indireta para controlar eventuais aliados nominais. Se ameaças externas são retratadas de maneira suficientemente forte, cria-se então uma espécie de senso restrito de “defesa” entre “aliados”, que passam a ver a potência dominante como líderes para “proteção”. Esses jogos mentais são típicos da forma pela qual Washington e Londres promoveram a OTAN  ao status de protetor de seus “aliados europeus” frente “agressão russa”.
O mesmo jogo mental está rolando na região da Ásia/Pacífico, onde os norte-americanos estão tentando marcar a China como um “agressor do mal” para pequenas nações, que então se voltam para Washington em busca de “proteção” – e montes de dinheiro para comprar armas dos Estados Unidos, cortesia das máquinas impressoras de dólares do FED.
Sobre a questão das alegadas agressões russas, Putin, na entrevista acima, comentou de maneira muito apropriada:
(...) penso que alguns países estão simplesmente se aproveitando do medo das populações ocidentais no que diz respeito à Rússia... Suponhamos que os Estados Unidos gostariam de manter sua liderança na comunidade atlântica (União Europeia). Precisaria então de uma ameaça externa, um inimigo comum para garantir sua liderança. Claramente, o Irã não é suficiente – a ameaça que representa não é tão assustadora ou grande. Quem poderia ser assustador o bastante? Então, subitamente, a crise se desdobra na Ucrânia. A Rússia se viu forçada a responder. Talvez toda essa situação tenha sido criada de propósito... não sei. Mas sei que não fomos nós, russos, que a criamos.
Putin acrescentou, falando ao editor do Corriere dela Sera:
Deixe-me dizer uma coisa: não é preciso temer a Rússia. O mundo mudou de forma tão drástica que atualmente qualquer pessoa com um mínimo de bom senso não pode sequer imaginar um conflito militar em larga escala. Eu garanto que temos outras coisas com as quais nos preocuparmos.
É por isso que políticos como o Ministro de Relações Exteriores da Inglaterra, Philip Hammond, são compelidos a demonizar a Rússia e conjurar pesadelos de invasões, conflitos militares em larga escala e armas nucleares. Sem alarmismo, não pode haver belicismo; e sem belicismo o capitalismo anglo-americano não pode exercer a hegemonia da qual sempre desfrutou e que necessita para funcionar.
Essa forma de ver o mundo adotada pelos anglo-americanos continua atrelada a uma era que já deveria estar esquecida, na qual a gestão da relações internacionais se dava através de violência e agressões ou até da instigação de uma guerra total, se necessário.
A origem do APOCALIPSE
 Hammond, Obama, Kerry e Cameron

Se vivêssemos em um mundo são, pessoas como Philip Hammond, o Primeiro Ministro Cameron e do outro lado do Atlântico, Obama e seu Secretário de Estado Kerry, não seriam merecedores de estar em uma posição de poder e governo. Se vivêssemos em um mundo são.
Ocorre que em nosso mundo capitalista e louco, são pessoas desse tipo que são selecionadas, porque dão ao sistema tudo o que é essencial para a sua sobrevivência, ainda que através de uma mentalidade draconiana de agressão, violência e guerra. A inominável e diabólica vergonha é que essas pessoas insanas são perfeitamente capazes de trazer o apocalipse para milhões e milhões de pessoas inocentes.
Botando para fora esses políticos estaríamos praticando uma forma inteligente de evitar a guerra. Talvez fosse ainda melhor se pudéssemos chutar para a estratosfera todo esse sistema, no qual alguns enriquecem obscenamente à custa do sofrimento da maioria.
Esse “custo” inclui suportar o risco perene de guerra e, ouso dizer, aniquilação.
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[*] Finian Cunningham nasceu em Belfast, Irlanda do Norte, em 1963. Especialista em política internacional. Autor de artigos para várias publicações e comentarista de mídia. Recentemente foi expulso do Bahrain (em 6/2011) por seu jornalismo crítico no qual destacou as violações dos direitos humanos por parte do regime barahini apoiado pelo Ocidente. É pós-graduado com mestrado em Química Agrícola e trabalhou como editor científico da Royal Society of Chemistry, Cambridge, Inglaterra, antes de seguir carreira no jornalismo. Também é músico e compositor. Por muitos anos, trabalhou como editor e articulista nos meios de comunicação tradicionais, incluindo os jornais Irish Times e The Independent. Atualmente está baseado na África Oriental, onde escreve um livro sobre o Bahrain e a Primavera Árabe.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Cameron: “Invadir a Síria!” / General: “Você e que exército?”


13/11/2012, John Robles, The Voice of Russia  
Traduzido pelo pessoal da VilaVudu

John Robles
A formação da chamada oposição síria unificada – logo onde?! Em Doha, Qatar! – e que não inclui inúmeros grupos e facções de sírios que lutam contra Bashar al-Assad, foi saudada no ocidente e em vários estados muçulmanos sunitas como uma vitória; e a “coalizão” foi apresentada como legítima voz do povo sírio. O ocidente continua a promover e atiçar o morticínio, fornecendo armas a alguns grupos e até, como já se noticiou, treinando atiradores e grupos terroristas para assassinar Assad. Simultaneamente, os clamores de David Cameron, que “exige” imediata intervenção militar na Síria, colidiram violentamente contra um muro de descrédito.

David Cameron
O ocidente insiste em tentar impor seus planos à Síria e promover uma “mudança de regime” a qual, desde o começo, é desejo de Washington, muito mais que do povo sírio.

O mais recente golpe/tentativa de legitimar a oposição apoiada e armada pelo ocidente apareceu sob a forma de conferência realizada fora da Síria, no domingo passado. Reunião de fantoches do ocidente, a tal ponto que muitos dos líderes da oposição síria “real”, que permanecem na Síria, recusaram-se a participar daquela encenação.

A escolha do Qatar para sediar a “conferência” já sugere viés bem claro: o Qatar sempre apoiou os muçulmanos sunitas e seus interesses; e lá estão instaladas bases dos EUA e do Comando Central dos EUA [orig. US Central Command (CENTCOM)] que também mantém bases no Kuwait, Bahrain, Emirados Árabes Unidos, Omã e Paquistão.

Importante observar que a maioria da população síria é formada de muçulmanos sunitas, e que Bashar al-Assad é alawita (denominação que para muitos se refere a uma seita do Islã xiita). Isso explica por que o Qatar e outros países são tão empenhadamente contra Assad e tanto se interessam em fazer o jogo dos EUA, no golpe para derrubar Assad e seu governo de alawitas.

O resultado da conferência em Doha, Qatar, que reuniu várias associações e grupos da chamada oposição síria, foi acordo assinado que constituiu mais um grupo de oposição, chamado hoje Coalizão Nacional [orig. National Coalition (NC)].

EUA e Grã-Bretanha apressaram-se a anunciar apoio ao novo grupo, e por razões óbvias: assim se podem apresentar ao mundo como apoiadores de coalizão dita legítima, mesmo que formada fora do país e marcada por favorecer interesses dos aliados de Washington, selecionados a dedo. Como se já não estivessem ruins o suficiente, as coisas, em seguida, pioraram.

Na 2ª-feira, o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), formado de Arábia Saudita (sunitas), Bahrain (sunitas), Emirados Árabes (sunitas), Omã (ibadistas), Qatar (sunitas) e Kuwait (sunitas) também decidiram reconhecer a tal Coalizão Nacional, como legítima representante do povo sírio.

Bashar al-Assad
As razões pelas quais todos esses países tanto se empenham em derrubar o governo de Assad são variadas e todas envolvem interesses específicos desses países, muito mais do que interesses dos sírios; a nova Coalizão fatalmente levará a ampliar a carnificina e a instabilidade na região, que virão como consequências inescapáveis se Assad for derrubado. Para o CCG, o apoio parece óbvio, dado que estão apoiando os irmãos sunitas e pondo fim a um importante aliado do Irã na região.

O Irã é país xiita, caso único no mundo muçulmano, porque a população da República Islâmica do Irã é constituída de 90% de xiitas. Os xiitas iranianos são malvistos pelos vizinhos muçulmanos árabes também porque não são árabes, mas persas e muitos países árabes veem o Irã como ameaça.

Quanto ao ocidente, as razões pelas quais querem ver Assad fora do governo são completamente diferentes e nada têm a ver com a oposição sunitas-xiitas. O ocidente tem ambições imperiais na região e a rixa religiosa, que o ocidente sempre manipula, serve muito bem àquelas ambições. Para os EUA, há dois objetivos na região: fixar o controle, para facilitar a exploração dos recursos naturais; e proteger Israel.

A duplicidade é evidente e o ocidente não tem qualquer objetivo humanitário. Se o governo apóia a implantação militar dos EUA na região, é governo aliado; se não, os EUA imediatamente passam a trabalhar para a “mudança de regime”.

No Bahrain, por exemplo, o governo sunita oprime a população de maioria xiita. Mas o Bahrain é crucialmente importante para o ocidente, do ponto de vista estratégico, porque ali estão aquartelados o Comando Central das Forças Navais dos EUA [orig. United States Naval Forces Central Command (COMUSNAVCENT)] e da 5ª Frota dos EUA [orig. United States Fifth Fleet (COMFIFTHFLT); nessas circunstâncias, os EUA ignoram todas as questões sociais; e o levante da maioria xiita no Bahrain praticamente não é assunto na mídia mundial.

Saddam Hussein
Saddam Hussein é outro exemplo. Saddam era sunita, e oprimia a população xiita do Iraque; mas o problema, para os EUA jamais foi a opressão dos xiitas. O problema, ali, foi que Saddam começava a constituir política independente dos EUA e a não obedecer aos ditames do ocidente. Se Saddam tivesse autorizado a instalação de bases dos EUA em território iraquiano e garantisse pleno acesso para os EUA aos recursos do Iraque, lá estaria, até hoje, por mais que governasse como ditador sanguinário.

Assim, em resumo, embora ainda haja quem suponha que o ocidente apóia muçulmanos sunitas, fato é que os EUA só fazem manipular os sunitas e servir-se deles como instrumentos para alcançar seus objetivos. Esses movimentos nem sempre são bem claramente entendidos por muitos muçulmanos, que veem as atitudes dos EUA como traição sempre: ou os EUA traem os sunitas, ou os EUA traem os xiitas e, em todos os casos, traem muçulmanos.

O mundo muçulmano enfrenta levantes populares hoje que ainda acompanham as linhas sectárias manipuladas pelo ocidente, sempre na direção que mais interesse aos EUA.

Muammar Gaddafi
Outro exemplo foi Muammar Gaddafi, do qual muitos dizem que seria o mais verdadeiro dos muçulmanos, dado que não era nem xiita nem sunita. Os EUA decidiram derrubar Gaddafi pelas mesmas razões (interesse em ocupar os recursos naturais da Líbia), porque Gaddafi trabalhava para construir políticas de autonomia e independência nacional – e já governava o sistema socialista de governo mais justo e produtivo que o mundo jamais conheceu. Aí está exatamente o tipo de governo e governante cuja existência o ocidente não pode admitir, porque governo e governante, nesse caso, convertem-se em obstáculos vivos à exploração predatória do país por interesses capitalistas.

De volta à Síria, importante aliado do Irã, a “mudança de regime” tornou-se absolutamente necessária porque o ocidente vê a Síria como ameaça importante aos planos ocidentais de invadir e ocupar o Irã. Aí está outro país que construiu políticas de autonomia e independência e que, além do mais, é arqui-inimigo de Israel.

Muitos especialistas concordam que, se a Síria cair, o alvo seguinte será o Irã. Há quem diga que, nos planos dos imperialistas ocidentais para dominar o mundo, depois do Irã virá a Venezuela; depois a Rússia; depois a China.

William Hague
Assim sendo, o que se tem é, em resumo muito apertado: nações sunitas, que trabalham para promover interesses dos sunitas; o ocidente, que manipula a seu favor as divisões sectárias, com vistas a promover o projeto imperialista de exploração de recursos e o que entendem que seja o interesse de Israel; como consequência disso tudo, o Irã e a Síria estão sendo hoje atacados por todos os lados.

A Síria está sendo saqueada e rachada ao meio por efeito da manipulação, do aprofundamento de ódios sectários, que voltam a reabrir as muitas divisões internas, estimulados pela infiltração, no país, de terroristas e mercenários vindos de fora. E o Irã está sendo completamente isolado pelas sanções, aplicadas de fora para dentro.

Quanto à Grã-Bretanha que, agora, parece que unilateralmente – de fato, só se ouviu uma voz: do Primeiro-Ministro David Cameron – anda dizendo que o país estaria pronto para iniciar intervenção militar na Síria, os planos do Primeiro-Ministro colidiram violentamente contra um muro de descrédito.

Philip Hammond
Segundo o jornal Sun da Grã-Bretanha, uma fonte militar contou que:

Um brigadeiro, que assistiu ao noticiário e soube que Cameron falava de invasão armada contra a Síria, perguntou: “Quer invadir, primeiro-ministro?! Você e que exército?”

Segundo o Sun, o Secretário de Defesa Philip Hammond e o Secretário de Relações Exteriores, William Hague também se manifestaram contra qualquer ideia de invadir a Síria; lembraram que a Síria não é a Líbia; e que o presidente Bashar al-Assad, além de comandar exército poderosíssimo, conta com o apoio dos russos.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

“Hebdomas Horribilis”: a OTAN sitiada no Afeganistão


19/9/2012, Najmuddin A Shaikh*, Down.com, Paquistão
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Najmuddin A Shaikh* é ex-secretário de Relações Exteriores do Paquistão.



O furor no mundo muçulmano disparado pelo trailer do pervertido filme Innocence of Muslims, que levou à morte do embaixador e de três funcionários da embaixada dos EUA na Líbia, foi apenas uma faceta da hebdomas horribilis, semana horrível, que os norte-americanos enfrentaram.

Muito se poderia escrever sobre o que tudo isso significará para as relações dos EUA com o mundo muçulmano e, em especial, com o Paquistão, mas cuido aqui de outra faceta da mesma semana horrível – os eventos no Afeganistão, em dias recentes.

Na 6ª-feira e no sábado, em dois diferentes ataques de soldados afegãos contra soldados norte-americanos, foram mortos seis soldados da coalizão EUA-OTAN. Com isso, sobe para 51 o número de soldados da coalizão mortos nesse tipo de ação em 2012, se se somam aos 13 mortos em circunstâncias semelhantes em agosto.

Até agora, os EUA têm-se mostrado razoavelmente satisfeitos com as providências que os afegãos tomaram, de promover verificações extras nos antecedentes do recrutados para o exército afegão e de suspender o recrutamento de suspeitos de manterem qualquer laço com a resistência. Também se distribuíram folhetos entre os soldados afegãos sobre “diferenças culturais”, nos quais os soldados afegãos são instruídos a não se ofenderem excessivamente com algumas coisas que os norte-americanos façam.
Martin Dempsey

Mas a recente onda de novos ataques provocou reação mais irada do comandante do Estado-Maior das Forças Conjuntas Martin Dempsey que disse, sem dar muita atenção às diferenças culturais, que os afegãos tratem de resolver o problema.

Exijam os norte-americanos o que exigirem, fato é que os afegãos pouco têm a fazer, dadas as dimensões desproporcionais que as forças de segurança já têm hoje no Afeganistão e dada a insistência dos EUA, que querem ampliar a Polícia Afegã, fazendo-a passar, dos atuais 16 mil policiais, para 30 mil. Diz-se que o recrutamento foi suspenso. Mas, uma vez que os norte-americanos entendem que esse aumento seria indispensável para enfrentar os Talibã nas áreas rurais, o mais provável é que o recrutamento recomece.

Dia 11/9, provavelmente para marcar o aniversário do 11/9 histórico, os Talibã destruíram um pesado helicóptero de transporte na base de Bagram, matando três soldados afegãos e ferindo muitos norte-americanos. Já aconteceram outros ataques a Bagram vindos de fora da base – o principal aconteceu há um mês, quando o avião de transporte de Dempsey foi danificado. Dessa vez, contudo, o que mais parece ter preocupado os norte-americanos foi a precisão do ataque.

Seja como for, esse ataque foi muitíssimo menos importante que outro, desfechado por 15 guerrilheiros contra a que era considerada “inexpugnável” base britânica, Camp Bastion, em Helmand. Os guerrillheiros, que usavam uniformes militares norte-americanos, não apenas penetraram as defesas, mas, pior que isso, o ataque despertou lembranças tenebrosas do que veio depois da tragédia da base Mehran em Karachi. Além de terem matado dois Marines, os guerrilheiros destruíram seis jatos Harrier avaliados em 30 milhões de dólares cada, três unidades de reabastecimento e vários hangares.

Camp Bastion, base britânica no Afeganistão
Helmand, é preciso lembrar, é uma das províncias nas quais a “avançada” [orig. surge] deveria já ter quebrado a espinha dorsal da resistência Talibã.

Os Talibã, por sua página na internet, já convocaram para ataques cada vez maiores no Afeganistão, especificamente contra forças dos EUA, para vingar o insulto do já citado filme antimuçulmano. Se mais nada acontecer, deve-se temer que mais soldados afegãos desfechem novos ataques contra soldados norte-americanos.

As relações com o presidente Karzai atingiram novo pico negativo, quando Karzai condenou o tal filme e, implicitamente, responsabilizou o governo dos EUA. E não condenou a ação que vitimou o embaixador dos EUA em Benghazi. Karzai também está em confronto com os norte-americanos, porque eles continuam a insistir em manter na prisão de Bagram 60 prisioneiros considerados de alto valor, mesmo depois de a prisão passar ao controle do Afeganistão.
Hamid Karzai, Presidente do Afeganistão

E, como se isso não bastasse, Karzai também criticou duramente o ataque aéreo de drones na província de Laghman, no domingo, depois que os EUA foram forçados a reconhecer que, embora os drones mirassem guerrilheiros, houve vítimas civis, entre as quais, segundo os afegãos, nove mulheres e meninas. A Força Internacional de Assistência à Segurança assumiu toda a responsabilidade e, presumivelmente, pagará indenizações, mas foi combustível novo lançado à fogueira do sentimento antiamericano que parece crescer dia a dia no Afeganistão, como em outros países muçulmanos.

Philip Hammond, secretário de Defesa britânico, que estivera em visita à base Camp Bastion apenas poucos dias antes do ataque dos guerrilheiros, disse, em entrevista ao jornal The Guardian, que seus comandantes já o estavam aconselhando a apressar a retirada dos soldados, imprimindo à retirada ritmo mais rápido do que o planejado. É provável que a maior parte dos 9 mil soldados britânicos hoje no Afeganistão sejam retirados em 2013, deixando lá uma força magérrima, para completar a retirada em 2014.

Interessante é que Hammond consumiu parte considerável da entrevista falando sobre a urgente necessidade de reconciliação.

Philip Hammond (camisa azul) em visita à base de Camp Bastion, Afeganistão
Disse ele ao The Guardian [1]: “O governo afegão tem de se esforçar mais para chegar a um acordo político com os insurgentes, porque o esforço diplomático está muito atrasado em relação à campanha militar”. Disse também que a paz no Afeganistão terá de incluir “abordagem do tipo Irlanda do Norte dos insurgentes, com pelo menos a parte moderada da insurgência, para tentar convencê-los mediante reconciliação e integração”.

Sugeriu também que “o governo afegão tem de fazer mais, e os vizinhos influentes [o Paquistão] também têm de manter a pressão [sobre os insurgentes moderados] (...) para que cheguem à mesa”.

Sobre os objetivos dos britânicos no Afeganistão, insistiu que, agora que a Al-Qaeda foi “eliminada”, não seria justo pedir que soldados britânicos arrisquem a vida para “construir nação”. Hammond entende que “mesmo que nada reste do que conseguimos, cada ano que conseguimos manter ao largo as bombas, cada ano que as mantemos longe de nossas ruas, é, por si só, conquista significativa. Mas não há dúvidas de que lançamos as bases de um futuro no qual não haverá espaço no Afeganistão para os que buscam nos atingir”.

Volta e meia aparecem diferenças entre britânicos e norte-americanos. Hammond chegou a dizer que “rastrear e abater gente e removê-los do campo de batalha” não é o melhor meio para conseguir algum acordo. Trouxe assim à discussão a campanha dos EUA para assassinar comandantes intermediários.

Pode-se pressupor que estivesse manifestando o pensamento da OTAN, como um todo. Nesse caso, mais justo dizer que não só a OTAN sabe que enfrentará maiores dificuldades nos próximos meses como, também, que é hora de questionar a manutenção de força norte-americana residual no Afeganistão depois de 2014.

Quanto ao Paquistão, tudo isso demonstra a urgência de promover a reconciliação, fazendo tudo que esteja ao nosso alcance para que aconteça, e sem tardança.



Nota dos tradutores
[1] The Guardian, 13/9/2012, em: Military plans possible early Afghan withdrawal