segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Pepe Escobar: Europa caminha, trôpega, rumo à angústia e à guerra

1/2/2015, [*] Pepe Escobar, Russia Today - RT, Moscou
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

foto: Alkis Konstantinidis
A Europa, que a União Europeia supostamente representa, está combatendo guerra dupla, que pode devastá-la a ponto de a tornar irreconhecível – contra a Grécia, dentro das suas fronteiras europeias, e contra a Rússia, na Ucrânia.

Uma exposição em Roma não poderia ser mais clara expressão – perfeito acaso de viagem – do zeitgeist: “A Era da Angústia – de Cômodo a Diocleciano” [orig. “The Age of Anxiety – from Commodus to Diocletian”. Ora, os imperadores romanos mal imaginariam que a coisa poderia ficar muito pior em tempos de União Europeia (UE).

O encontro impressionantemente tenso entre o presidente do EUROGROUP, Jeroen Dijsselbloem, e o novo ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis demarcou o campo de batalha: a UE não aceitará uma Grécia “unilateral”; e a Grécia não aceitará uma extensão do “resgate” ou os diktats da troika (UE, Banco Central Europeu, FMI).

Desse material se fazem as lendas. Depois de ter dito que nada-de-conversa com a “troika” – em termos de terrorismo-econômico-nunca-mais – ao final da conferência de ambos com a imprensa em Atenas, Dijsselbloem murmurou algo no ouvido do ministro grego, que funcionários gregos interpretaram ao estilo Pulp Fiction como “Eu-medieval, você vai ver é no seu traseiro”. Vídeo a seguir:


Assim sendo, agora é Atenas contra os Masters of the Universe (setor UE). Observadores independentes seriam tentados a ver a coisa como um Perseu pós-moderno tentando derrotar a UE-Medusa – um monstro tão assustador que nenhum vivente suportaria vê-la sem ser convertido em pedra.

Angela Merkel
A Medusa é agora a Troika. Rainha Medusa Merkel e seus jagunços – feito o Ministro das Finanças, Wolfgang Schauble (“não seremos chantageados”), mais os funcionários-sem-cara de sempre servindo-se de metáforas sub-homéricas tipo “amarrado ao mastro da confrontação” – estão aumentando a pressão, sem redução da dívida. Depois do cara-a-cara Dijsselbloem-Varoufakis, cabe ao pesadelo burocrático que é a Comissão Europeia (CE) apresentar alternativa viável para uma redução da dívida grega.

Syriza tem dito que quer permanecer na eurozona, mas esqueçam a conversa de a Grécia pagar dívida com mais austeridade, a tal dívida sufocante. Significa que a bola deve permanecer no campo de Bruxelas – tanto quanto Dijsselbloem insiste em repetir que não. E a Troika virá com pressão quase insuportável, para convencer Atenas de que se trata de “honrar” sua dívida, ou a morte. Em termos práticos, fala-se aí de um processo ultracomplexo de reestruturação de dívida, ou de mais dinheiro da UE para Atenas ou, eventualmente, das duas coisas.

O gambito de Perseu não será decapitar a Medusa enquanto ela dorme (porque os Masters of the Universe nunca dormem): será declarar não pagamento de parte significativa da dívida. Se a diplomacia falhar, Bruxelas terá então de impor sanções (são muito bons nisso, vide Irã e Rússia), mas, de fato, será como chutar a Grécia para fora do euro – a “opção nuclear” que os eurocratas temem mais que a Peste Negra. Por hora, o Ministro da Economia da Alemanha, Sigmar Gabriel, definitivamente blefa, ao alertar o Primeiro-Ministro grego Tsipras de que a eurozona poderia sobreviver sem a Grécia (“Já não temos de nos preocupar, como tínhamos naquela época”).

Se, contudo, Bruxelas admite um calote de facto, ainda que parcial, o resultado será que Espanha, Portugal, Irlanda e levas e mais levas de outros sofredores na UE pôr-se-ão aos gritos de “Também queremos o mesmo acordo”.

A Medusa está-se enfurecendo, e o horror que sua troika de milhares de serpentes pode lançar pode ser titânico. O próximo encontro crucial acontecerá em Bruxelas, a reunião de chefes de estado da UE, dia 12/2/2015. Perseu Tsipras que trate de polir o escudo e a espada até a perfeição.

Vlad Putinator
Melhor chamarem Vlad

E há também o outro vetor crucial, nessa Era da Ansiedade remix: a Rússia.

Moscou poderia, sim, resgatar Atenas, possibilidade que já foi mencionada. Significa que o que o que a imprensa-empresa ocidental não se cansa de “repercutir” sobre a Grécia apoiar a extensão, essa semana, de sanções contra interesses russos, não passa de nonsense.

Aqui o contexto essencial. E diretamente de Varoufakis, há provas de que a Grécia não foi sequer consultada. Mais um prego no caixão do mito das práticas “democráticas” da União Europeia.

E que ninguém espere que os fantoches da União Europeia com pose de “líderes” – que só têm poder derivado, porque são vassalos do Império do Caos em amnésia crônica – cultivem alguma memória histórica. O que nos leva à Ucrânia.

A Ucrânia foi parte da Rússia por três séculos – muito mais tempo do que Texas e Califórnia são parte dos EUA. A Rússia ter aberto mão da Ucrânia depois do fim da URSS não gera qualquer precedente histórico que justifique o golpe de estado de Maidan, bilhões de dólares para pagar a subversão interna e o subsequente saque da Ucrânia por multinacionais norte-americanas, alemãs e pela City de Londres. Para nem falar que toda a saga é – e assim permanecerá como, sobretudo – item do projeto de expansão da OTAN.

Imagine Washington tendo de tolerar mísseis cruzadores nucleares russos em sua linha vermelha estratégica de defesa – as fronteiras com Canadá e México. O Império do Caos invadiria sem piscar. A Ucrânia era – e continua a ser – linha vermelha desse mesmo tipo, do ponto de vista da Rússia. E Washington e Bruxelas sempre souberam disso.

Moscou, lenta mas firmemente, começa a contra-atacar na guerra financeira/econômica lançada pelos Masters of the Universe. Moscou finalmente – e dolorosamente – compreendeu que os verdadeiros Masters of the Universe são os que controlam o crédito do banco central. A noção de que os bancos centrais seriam mecanismo independente é pura ficção: banco central responde à banqueirada privada.

Paralelamente, no tabuleiro do xadrez militar, as coisas estão ficando pesadas. Moscou pode, afinal, vender sistemas S-300 antimísseis a Damasco e Teerã.

Valery Gerasimov
Mais importante, o comandante das Forças Armadas Russas, general Valery Gerasimov declarou on the Record que Moscou responderá imediatamente a qualquer movimento do sistema de mísseis de defesa dos EUA que viole o Tratado START III e o Tratado das Forças Nucleares de Alcance Médio. Os analistas do Pentágono sabem perfeitamente que os sistemas de armas russos são superiores ao sistema de mísseis de defesa dos EUA.

E, caso os fantoches de Washington a Bruxelas não tenham ouvido bem, esperem até conhecer o sistema antimíssil Star Wars S-500, que será operacional em 2017, talvez antes. O S-500 viaja a velocidade de 15.480 milhas/hora, com alcance de 2.174 milhas – e é capaz de derrubar qualquer míssil balístico intercontinental que Washington possa disparar contra a Rússia. Tradução: o espaço aéreo russo é fechado, à prova de mísseis balísticos intercontinentais dos EUA.

Mikhail Gorbachev  
Diferente do espalhafatoso Império do (“invada-bombadeie-drone-sancione”) Caos, a Rússia fala mais alto com ação, paciência e discrição – qualidades pode-se dizer asiáticas. Enquanto a Rússia está sendo existencialmente atacada por guerras do petróleo/do rublo/dos derivativos, os governantes russos vão-se preparando, silenciosamente, para o pior.

Gorbachev – que sabe algumas coisinhas de guerras frias – tem pelo menos um ponto que merece consideração: se Washington persistir na loucura atual, a coisa pode ficar terrivelmente feia, e a Europa será apanhada num fogo cruzado mortal.

Sonhar com outra União Europeia

O que nos traz de volta a Roma. Não machuca ninguém imaginar o que poderia ser uma União Europeia alternativa, uma UE “romana, centrada em Roma, Atenas e Istambul – não em Bruxelas-Frankfurt-Strasbourg. O centro da atual UE coincide com o centro do Império Franco dos séculos VIIIº e IXº; Carlos Magno revisitado − ou, segundo alguns padrões históricos − o primeiro imperador que tentou unificar a Europa. Outras correntes históricas privilegiam ramo ainda anterior do poder alemão puro, temperado pela cultura e sofisticação galesas.

Fico com Gibbon, como fiz essa semana, de volta àquela noite, em outubro de 1764, quando, sentado em meditação em frente ao Campidoglio (que ponto de vista fabuloso), depois de séria peregrinação por ruínas romanas, ele decidiu escrever Declínio e Queda, a dissolução de um mundo que, literalmente, foi erguido em pedra.

Campidoglio - Roma, meados do século XVIII
Como Bryan Ward-Perkins, de Oxford, observou brilhantemente, a Europa carrega, nos escalões profundos da própria psique, o medo de que, se Roma virou ruína, o mesmo possa acontecer às mais magníficas civilizações modernas.

E todos sabemos que essa União Europeia dessa gangue de eurocratas destrutivos não eleitos; que desprezam a Grécia, antagonizam a Rússia, chafurdam no pântano da vassalagem ao Império do Caos e ameaçam a maioria de seus próprios cidadãos como se não passassem de escória pagadora de impostos escorchantes – de modo algum pode ser descrita como “magnífica”.


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto. 
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Adquira seu novo livro, Empire of Chaos, que acaba de ser publicado pela Nimble Books. 

Império do Caos

Presidente Bashar al-Assad da Síria: “Israel apoia organizações terroristas na Síria” (3/3)

27/1/2015, entrevista de Bashar al-Assad à revista Foreign Affairs em 20/1/2015, reproduzida pela Agência SANA, Síria
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Nota dos tradutores: [...] da pergunta 47 até o final optamos por não traduzir: é trabalho inútil, traduzir a longa conversa fiada do jornalista entrevistador, que só faz repetir ideias feitas e “manchetes jornalísticas”, na luta para merecer o salário que lhe pagam os sionistas de Foreign Affairs.

[Excertos: foram omitidos os trechos “jornalísticos” sionistas mais ridículos das perguntas do entrevistador de Foreign Affairs]


Bashar al-Assad durante a entrevista
Pergunta 22: Permita-me insistir. Semana passada um comandante do Corpo de Guardas Revolucionários do Irã, comandante da força aeroespacial, Haji Zadeh, disse numa entrevista que o Líder Supremo do Irã lhe ordenara que suas forças construíssem e operassem fábricas de mísseis na Síria. Isso sugere que o Irã tenha papel maior e que esteja agindo por conta própria.

Presidente Assad: Não, absolutamente não sugere isso. Cumprir determinada função mediante cooperação é completamente diferente de cumprir determinado papel como exercício de hegemonia.

Pergunta 23: Quer dizer que tudo que o Irã está fazendo...?

Presidente Assad: Claro. Em total cooperação com o governo sírio, como sempre foi e é o caso.

Jonathan Tepperman
"entrevistador"

Pergunta 24: O Irã é caso à parte, porque é um país. Mas o senhor também tem milícias que são atores subestatais e, portanto, mais complicados. Um dos problemas de trabalhar com esses grupos é que, diferentes de um governo, eles podem não querer cooperar; e nunca se sabe exatamente com quem falar. O senhor não se preocupa com sua habilidade para controlar essas forças e para segurá-las, se for preciso? E, uma pergunta relacionada a essa: essa semana, Israel atacou forças do Hezbollah no Golan, e os israelenses sugeriram que atacaram porque o Hezbollah estaria planejando atacar Israel a partir do território sírio. Será que isso não chama a atenção para o perigo de permitir que milícias armadas, que têm agendas próprias, não necessariamente a agenda do seu governo, entrem nessa guerra?

Presidente Assad: O senhor fala de milícias sírias ou outras, em geral?

Jornalista: Falo especialmente do Hezbollah e das milícias iraquianas xiitas.

Presidente Assad: É natural que só as instituições do governo, do Estado, digamos, são garantia de estabilidade e ordem. Qualquer outro fator que tenha papel paralelo ao do governo pode ser positivo, pode ser bom em certas circunstâncias, mas sempre tem efeitos colaterais, negativos. É natural. E ter milícias que apoiam o governo é um dos efeitos colaterais da guerra. Elas estão aí, mas é preciso tentar controlar esse efeito colateral. Assim, se o senhor consultar qualquer sírio sobre essa assunto, obterá resposta semelhante à que lhe dou. Ninguém se sentirá mais confortável com elas do que se puderem tratar com instituições do estado sírio, inclusive o exército e a polícia etc.. Mas o que aconteceu em Quneitra é algo completamente diferente.

Jamais houve operação alguma contra Israel através das colinas do Golan, desde o cessar-fogo de 1974. Nunca, nem uma vez.

Assim sendo, o que Israel diz, que havia plano de alguma invasão, está muito distante da realidade, não passa de desculpa, porque Israel, isso sim, queria matar alguém do Hezbollah.

Pergunta 25: Mas os israelenses têm sido muito cautelosos desde que a guerra começou, para não se envolverem, exceto quando sentem que seus interesses estejam diretamente ameaçados.

Presidente Assad: É mentira. Israel tem atacado a Síria várias vezes, ao longo de dois anos, sem qualquer razão.

Jornalista: Mas em todos os casos eles dizem que é porque o Hezbollah estava recebendo armas do Irã, através da Síria.

Presidente Assad: Israel atacou posições do exército sírio. Que relação haveria entre o Hezbollah e o exército sírio?

Jornalista: Foram casos em que o exército bombardeou acidentalmente...

Presidente Assad: São mentiras. Todas essas alegações são falsas.

Pergunta 26: Qual, então, na sua avaliação, é a agenda de Israel?

Presidente Assad: Israel apoia rebeldes na Síria. Não há dúvidas quanto a isso. Cada vez que avançamos em algum ponto, Israel ataca para enfraquecer o exército. Sabe-se que é assim. Não há qualquer dúvida. Há até uma piada na Síria: “Como é que você vê que a al-Qaeda não tem Força Aérea? Porque todos os aviões da al-Qaeda voam com bandeira de Israel”.

Pergunta 27: Voltando à pergunta anterior sobre as milícias, o senhor sente-se confiante de que poderá controlá-las quando a guerra acabar, porque, afinal, qualquer governo, para ter soberania efetiva, tem de ter o que se chamava “o monopólio da força”. Não é fácil, quando o senhor têm esses grupos armados independentes operando por aqui.

Presidente Assad: É verdade que o estado só pode cumprir a missão que a sociedade lhe dá se for capaz de manter a ordem.

Jornalista: No Iraque, por exemplo, já se vê como pode ser difícil, porque o governo está tendo muito trabalho para controlar aquelas milícias xiitas que foram fortalecidas durante a guerra.

Presidente Assad: Há uma importante razão para a confusão em que está o Iraque: é porque Paul Bremmer não criou uma Constituição para o Estado: criou “constituição” para as facções. Na Síria é diferente: por que o senhor supõe que o exército mantém-se em perfeita operação há quatro anos, apesar do embargo, da guerra, de dezenas de países de todo o mundo que têm atacado a Síria e continuam a apoiar terroristas e rebeldes? Porque a Síria tem Constituição verdadeira, real, Constituição secular. A Constituição no Iraque é sectária. “Constituição sectária” é sectarismo, não é constitucionalismo nem há Constituição em sentido estrito.

Pergunta 28: Mas o que o senhor vai fazer dessas milícias, quando a guerra acabar?

Presidente Assad: As coisas devem voltar ao normal, como eram antes da guerra.

Pergunta 29: E o senhor confia que...

Presidente Assad: Confiamos plenamente nisso e não temos alternativa. O papel do governo é fazer acontecer exatamente a vida normal, depois da guerra. É autoevidente.

Pergunta 30: Que impacto tiveram os baixos preços do petróleo sobre a guerra na Síria? Afinal, dois dos seus mais próximos aliados e apoiadores, Irã e Rússia, dependem muito de preços do petróleo e têm sofrido danos terríveis em seus orçamentos em meses recentes, com a queda dos preços do petróleo. O senhor teme pela capacidade desses dois estados para continuarem a ajudar a Síria?

Presidente Assad: Não, porque não nos ajudam com dinheiro. Ainda que venham a nos ajudar com dinheiro, serão empréstimos. Como qualquer país, a Síria em alguns casos compra, em outros toma empréstimos.

Jornalista: Mas o apoio militar lhes custa dinheiro, e se tiverem menos dinheiro para pagar pelos próprios gastos militares... Não será problema?

Presidente Assad: Não, porque se se paga pelas armas e outros bens, não há problema algum. 

Pergunta 31: O senhor está dizendo que tudo que o senhor tem recebido de russos e iranianos...

Presidente Assad: Não observamos qualquer tipo de problema. Quanto à influência que haja em outros países, não sei dizer.

Pergunta 32 até 35: Em outras entrevistas o senhor disse que o senhor e seu governo fizeram erros ao longo da guerra. Que erros foram esses? Há algo que o senhor lastime? [longa troca de perguntas e respostas sem importância alguma, pura provocação do jornalista entrevistador, aqui omitida (NTs)]

Pergunta 36: Desde que os EUA iniciaram a campanha aérea contra o Estado Islâmico, Síria e EUA tornaram-se alguma espécie estranha de parceiros e estão efetivamente cooperando nessa parte da luta. O senhor vê algum potencial para cooperação ampliada com os EUA?

Presidente Assad: O potencial está aí (...), mas até agora nada vimos de concreto, apesar de alguns ataques contra o ISIS no norte da Síria. Nada há de concreto. Até agora, só se viu, digamos, uma cortina, nada de substancial. E desde o início desses ataques, o ISIS sempre ganhou mais territórios na Síria e no Iraque.

Pergunta 37: Mas e os ataques aéreos contra Kobani? Foram muito efetivos para deter o ISIS.

Presidente Assad: Kobani é cidade muito pequena, com cerca de 50 mil habitantes. Os ataques ali já duram três meses, e os terroristas ainda não foram expulsos. A mesma área, quando ocupada por facções da al-Qaeda, foi libertada pelo Exército Sírio em menos de três semanas. Significa que os norte-americanos não são sérios quando dizem que combatem o terrorismo.

Pergunta 38: O senhor está dizendo que deseja maior envolvimento dos EUA na guerra contra o ISIS?

Presidente Assad: Não, absolutamente não, não se trata de maior envolvimento dos militares, porque não se trata só de militares, trata-se de política, trata-se de o quanto os EUA têm influência sobre os turcos, porque, se os terroristas podem aguentar ataques aéreos durante todo esse tempo, é prova de que os turcos continuam a enviar armas e dinheiro para aqueles terroristas. Os EUA fizeram alguma pressão para que a Turquia parasse de apoiar a al-Qaeda? Não, não fizeram. Assim sendo, absolutamente não se trata de envolvimento militar direto. Isso, em primeiro lugar.

Em segundo lugar, se o senhor quer falar sobre o envolvimento militar, oficiais norte-americanos reconhecem publicamente que, sem tropas em solo, não podem obter nada de concreto. De que tropas em solo então dependem hoje?

Pergunta 39: O senhor está sugerindo que há tropas norte-americanas em solo?

Presidente Assad: Não, estou falando sobre a ideia, o princípio, não estou falando de tropas dos EUA. Se o senhor prefere dizer que quero fazer guerra ao terrorismo, é preciso ter tropas em solo. A pergunta que o senhor tem de fazer aos norte-americanos é: de que tropas em solo vocês dependerão? Com absoluta certeza terão de depender de tropas sírias. Estamos em nosso país, esse é nosso país. Nós somos os responsáveis. E absolutamente não estamos pedindo tropas norte-americanas.

Pergunta 40: O que, então o senhor gostaria de obter dos EUA? O senhor mencionou mais pressão sobre a Turquia...

Presidente Assad: Pressão sobre a Turquia, pressão sobre a Arábia Saudita, pressão sobre o Qatar, para que parem de dar apoio aos terroristas. Segundo, que entrem em sistema de cooperação legal com a Síria e passem a esperar até que nosso governo autorize aqueles ataques. Até agora não houve qualquer autorização e os ataques são ilegais.

Pergunta 41: Perdoe, mas não entendi perfeitamente esse ponto. O senhor quer legalizar os ataques?

Presidente Assad: Claro que sim.

Pergunta 42: Entendo. O senhor quer um acordo formal entre Washington e Damasco, para legalizar os ataques aéreos?

Presidente Assad: Pode-se até discutir o formato. Mas sem autorização os ataques norte-americanos são ilegais. Começamos pela autorização. Será um acordo? Será um tratado? Essa já é outra questão.

Pergunta 43: E o senhor estaria disposto a tomar medidas para tornar mais fácil a cooperação com Washington?

Presidente Assad: Com qualquer país que mostre seriedade na luta contra o terrorismo. Estamos prontos a qualquer cooperação, se o país for sério, para cooperação séria.

Pergunta 44: Que passos o senhor está disposto a dar para mostrar a Washington que o senhor deseja cooperar?

Presidente Assad: Quem tem de mostrar sinais de que quer realmente cooperar são eles, não nós. Nós já estamos lutando em solo. Não temos de “mostrar” que somos capazes de lutar em solo.

Pergunta 45: Os EUA estão atualmente treinando cerca de 5 mil combatentes sírios que devem voltar à Síria em maio. Mas o general John Allen dos EUA tem sido extremamente cuidadoso e insiste que esses soldados não serão mandados para lutar contra o governo sírio, mas exclusivamente contra o ISIS. O que o senhor fará se esses soldados entrarem na Síria? O senhor atacará soldados sírios?

Presidente Assad: Soldados armados que não estejam em regime legal de cooperação com o Exército Sírio são soldados ilegais e serão combatidos. Quanto a isso não há dúvida alguma.

Pergunta 46: Ainda que isso ponha o senhor em conflito com os EUA?

Presidente Assad: Se não estiverem em regime de cooperação legal com o exército sírio, são ilegais e vêm para cá como fantoches de outro país. Serão enfrentados como qualquer milícia ilegal que se ponha em luta contra o Exército Sírio. Mas há um detalhe a perguntar, sobre esses soldados. Obama disse que não existiam, que eram fantasia. Viraram realidade, agora? Como?

Jornalista: Parece-me que graças a um programa de treinamento.

Presidente Assad: Não há treinamento que converta extremistas em “moderados”.

Jornalista: Ainda há moderados na oposição. Estão cada dia mais fracos, mas creio que o governo dos EUA está trabalhando muito atentamente para garantir que os combatentes treinados nos EUA não sejam os radicais.

Presidente Assad: A pergunta importante é: por que a sua “oposição moderada” – vocês chamam de oposição, nós chamamos de rebeldes – está, como o senhor diz, cada dia mais fraca? Eles estão cada dia mais fracos por causa de desenvolvimentos na crise síria. E se mandarem para cá mais 5 mil soldados armados, treinados fora daqui, mais deserções acontecerão, mais gente deixará as “brigadas norte-americanas” para juntar-se ao ISIS e outros grupos, exatamente com aconteceu ao longo do ano passado. Tudo isso de que o senhor fala é fantasia. Não que as milícias treinadas fora daqui, os seus 5 mil, sejam ilusórios. Ilusória é a própria ideia, o próprio conceito.

Pergunta 47: (...) O senhor está preparado para tomar medidas que tornem mais fácil a cooperação com os EUA?

Presidente Assad: A parte mais engraçada sobre esse governo dos EUA é que parece ser o primeiro na história do mundo que constrói avaliações e toma decisões de guerra e paz a partir de “informação” que recolhe da imprensa-empresa e das mídias sociais. Chamamos de “governo das mídias sociais”, porque é governo de diz-que-diz, não é governo político. Praticamente nenhuma informação que a imprensa-empresa comercial ocidental divulga sobre a Síria é verdadeira. São, praticamente, 100% mentiras. Forjam-se imagens, forjam-se “declarações”, inventam-se “notícias”, e ninguém investiga para saber quem disse o quê, onde mentiu, por que mentiu. Ninguém sabe coisa alguma sobre as notícias, a não ser que saíram de outro veículo, ou de alguma agência. Nada se investiga. Não há provas de coisa alguma do que se noticia sobre a Síria, no ocidente.

Jornalista: Mas as fotos [...] foram examinadas por investigadores europeus independentes...

Presidente Assad: Não, não foram examinadas, não eram independentes. Não é verdade. Os investigadores são de um grupo financiado pelo Qatar, e dizem que são anônimos. Não são. Não há provas de coisa alguma. [...] No início da crise, publicaram-se fotos da guerra do Iraque, tiradas no Iêmen, como se tivessem sido feitas na Síria. Em segundo lugar, os EUA, em especial e o ocidente em geral não têm autoridade moral alguma para falar sobre direitos humanos. Os EUA e o ocidente são responsáveis por número já incontável de mortos na nossa região, especialmente os EUA, depois que invadiram o Iraque, e a Grã-Bretanha, depois de invadirem a Líbia, e a situação no Iêmen, e o que houve no Egito, e o apoio que dão a terroristas na Tunísia.

Todos esses problemas aconteceram por causa dos EUA. Foram os primeiros a atropelar a lei internacional e resoluções do Conselho de Segurança da ONU. Os EUA, não a Síria.

Como informamos na Nota dos tradutores, deste ponto até o final optamos por não traduzir.

Exército britânico cria força especial de combatentes de Facebook

2/2/2015, [*] As’ad AbuKhalil − The Angry Arab News Service
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


“O exército britânico está criando uma força especial de combatentes de Facebook, com treinamento para operações psicológicas e uso das mídias sociais para combater em fronts não convencionais da era da informação”.

“Além dos britânicos, também os exércitos de Israel e dos EUA investem pesadamente em treinamento para operações psicológicas. Em contexto de combates ininterruptos, 24 horas de noticiário, smartphones e mídias sociais como Facebook e Twitter, a força armada já se prepara para controlar também completamente a narrativa”.

[*] As'ad AbuKhalil (em árabe: أسعد أبو خليل) (nascido em 16/3/1960) libanês−americano é professor de Ciência Política formado pela California State University, Stanislaus. É o autor doHistorical Dictionary of Lebanon (1998), Bin Laden, Islam & America's New "War on Terrorism" (2002) e The Battle for Saudi Arabia (2004). Atualmente anima o blog, The Angry Arab News Service. Abukhalil nasceu em Tiro,no Líbano, e cresceu em Beirute. Recebeu seu bacharelado e mestrado em Ciência Política na American University de Beirute, e Ph.D. em Governo Comparativo na Georgetown University. Abukhalil é atualmente professor na California State Stanislaus. Foi, por curto período, professor visitante na UC Berkeley. Além disso, ele ensinou na Tufts University, Georgetown University, George Washington University, Colorado College, California State University Stanislaus, e Randolph-Macon Woman’s College.Descreve-se como “um ex-marxista-leninista” e “ateu secularista”. É pró−Palestina, descreve-se como anti-sionista que apoia um Estado Palestino secular. É defensor do movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS). Critica o sionismo, a política externa dos EUA, do Irã, da Arábia Saudita e de ambos, Fatah e Hamas, nos TPO’s; e de todas as facções rivais no Líbano, incluindo o xiita Hezbollah. É altamente crítico da influência do lobby de Israel nos EUA. Em um debate televisionado que foi ao ar na TV Al-Jazeera em 23 de fevereiro de 2010 Abukhalil afirmou que o presidente dos EUA, Barack Obama, é cúmplice do lobby sionista, tanto em termos de Política Externa como de Política Interna. Abukhalil também afirmou que “Os sionistas querem nos amordaçar, de modo que não possamos fazer oposição às guerras, violência ou ódio a Israel”.

Yanis Varoufakis: “Grécia não quer deixar o euro nem ameaçará deixá-lo”

(Ainda em campanha, antes do Syriza ser eleito)

1/1/2015, Entrevista de Yanis Varoufakis - blog Truman Factor
Excerto traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Obs.: Este excerto da entrevista, visa apresentar o trabalho teórico de Varoufakis

Ver também: 29/1/2015, Portal Popular, em: Yanis Varoufakis: “Vamos desmantelar a cleptocracia grega”

Yanis Varoufakis
Professor de Economia da Universidade de Atenas, Yanis Varoufakis, é amplamente conhecido e reconhecido como dos mais respeitados defensores de mudanças na política econômica europeia.

Desde o início da crise do euro, Varoufakis tirou suas competências pedagógicas de dentro das salas de aula e levou-as para os principais veículos da imprensa-empresa mundial e think tanks, empenhado em promover um modo diferente de a Europa enfrentar seus inimigos. Desde criticar veementemente os programas de “resgate” na Grécia – que descreve como “tentativas cínicas de tirar os prejuízos dos ombros dos bancos privados, e jogá-los sobre os ombros dos mais pobres pagadores de impostos em toda a Europa” – até a coautoria de A Modest Proposal [Uma modesta proposta], “caixa de ferramentas” de orientação econômica para superar a crise do euro.

“A Europa precisa de uma sacudida” – disse Varoufakis quando começou a apoiar a candidatura de Alexis Tsipras à presidência da Comissão Europeia, na primavera de 2014. Semana passada, o destacado professor anunciou que, afinal, chegara a hora de unir-se à equipe que trabalha para forçar aquela sacudida: assumiu oficialmente a candidatura a um lugar no Parlamento Grego, pelo Partido da Coalizão da Esquerda Radical, SYRIZA, “com a firme decisão de participar na negociação da Grécia com Berlim, Frankfurt e Bruxelas”.