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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Vitórias de Pirro em Genebra-2

22/1/2014, [*] MK Bhadrakumar, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Genebra-2 está sendo realizada em Montreux a partir de hoje, 22/1/2014
Raras vezes alguma conferência internacional de paz foi realizada em circunstâncias mais bizarras. Mas a notícia boa é que a ONU e os EUA podem já ter “perdido” tudo que “ganharam” nas 48 horas que antecederam a conferência Genebra-2 marcada para começar hoje, 4ª-feira (22/1/2014).

Tudo começou com o convite-surpresa que, no fim de semana, o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-Moon, resolveu estender ao Irã, para que participasse do encontro, desconsiderando a objeção levantada pelos EUA, que argumentavam que Teerã não manifestara apoio declarado ao Comunicado de junho-2012 sobre a Síria, documento base para discussão na Conferência “2”.

Início da Conferência de Paz para a Síria Genebra-2 (22/1/2014).
O Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, ocupa o centro da mesa
De fato, Ban exerceu prerrogativa que é dele, como “convocador” da conferência Genebra-2 e disse que em várias reuniões e conversas por telefone nos últimos dias e semanas com altos funcionários iranianos recebera deles garantias de que Teerã “compreendeu e apoia a base e o objetivo” do evento a iniciar-se na 4ª-feira (22/1/2014), “incluindo o Comunicado de Genebra”.

Aparentemente, Ban encenou um golpe diplomático, porque a simples possibilidade de o Irã participar já transformou o objetivo da conferência de 4ª-feira. À primeira vista, o convite apareceu como pluma nova no chapéu de Ban, para afirmar alguma sua robusta independência na tomada de decisões, apesar da declarada e aberta pressão que os EUA faziam sobre ele para que se mantivesse longe do Irã. Mas a verdade é que é inconcebível, impensável, que diplomatas norte-americanos na ONU não tivessem tido qualquer notícia de que Ban estava mantendo consultas com funcionários do Irã.

Hossein
Amir-Abdollahian
Seja como for, no domingo Ban estava no centro do cenário planetário; na 2ª-feira (20/1/2014) “caiu”, aparentemente sob descomunal pressão dos norte-americanos; e foi, parece, forçado a “desconvidar” o Irã; perdeu as plumas, beijou a lona, mastigou e engoliu o pão que o diabo amassou. Tentou pôr a culpa nos iranianos; disse que a resposta do Irã ao convite absolutamente não foi “consistente com o compromisso [que teriam] assumido antes”. Presumivelmente, Ban chegou a esperar que Teerã aceitaria a pré-condição que os EUA inventaram. Mas, não. O Irã não cedeu. Apesar de ter aceito o convite de Ban, e de ter dado sinais de que participaria da Conferência, já logo no dia seguinte o Irã anunciou que não, que não participaria, absolutamente não, “dada a insistência dos EUA em impor uma pré-condição”. Como o Vice-Ministro de Relações Exteriores do Irã, Hossein Amir-Abdollahian, explicou na 3ª-feira (21//1/2014), Teerã estaria sempre disposta a participar, mas sem pré-condições. Resposta perfeita, vintage, do Irã.

Enquanto isso, Washington, que “perdeu” quando Ban convidou o Irã, logo no dia seguinte já “ganhou”, quando o Secretário-Geral se desdisse e voltou atrás, encurralado ante as ordens de Washington de que assim fizesse, a menos que Teerã declarasse “integralmente e publicamente” pleno apoio ao mapa do caminho para a Síria traçado em 2012.

A mística da diplomacia é que, vez ou outra, o que foi ganho não passa de vitória de Pirro. A vitória dos EUA foi pírrica? O Ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, tinha todos os holofotes a seu favor quando manifestou forte indignação contra o que acontecera. Lavrov disse, na 2ª-feira (2º/1/2014), que “quarenta países foram convidados para as conversações de Genebra-2. Dentre outros, foram convidados Austrália, México, República da Coreia, África do Sul, Japão, Brasil, Índia e Indonésia e muitos outros”. [2] E se o Irã é excluído da lista, a conferência passa a parecer cerimônia profana. (Vídeo a seguir dublado em inglês):


O Irã, é claro, como a Arábia Saudita e os estados do Golfo, a Turquia, o Egito e o Iraque, é um dos países interessados em resolver a situação sem mais danos à estabilidade dessa importante região do mundo.

Claramente, a participação do Irã teria transformado fenomenalmente o ABC da conferência Genebra-2. Mas naquele momento Washington mantinha um olho na Coalizão Nacional Síria, ao exigir que Ban retirasse o convite, porque as gangues reunidas na oposição síria ameaçavam abandonar a conferência de Genebra-2, usando como álibi a participação do Irã. Washington fizera esforços hercúleos, em semanas recentes, para puxar a CNS para bordo. Mas o governo Obama sem dúvida foi também sensível às dores da Arábia Saudita quanto à participação do Irã em Genebra-2.

Ali Akbar Salehi
O governo Obama tem cuidado para manter a questão do engajamento EUA-Irã na questão nuclear, separada das discussões sobre a lista de convidados para Genebra-2. Obama até saudou, na 2ª-feira (20/1/2014), a suspensão, pelos iranianos, no final de semana, do enriquecimento de urânio de alto nível; disse que oferecia “oportunidades sem precedentes”. Poucas horas depois de os cientistas iranianos cortarem as linhas de abastecimento das centrífugas na usina de Natanz e no sítio subterrâneo em Fordow próximo de Teerã, na presença de inspetores da AIEA, e a União Europeia já anunciava movimentos para levantar sanções contra o Irã. Em resumo, como disse o presidente da organização de energia atômica do Irã, Ali Akbar Salehi, “o iceberg das sanções contra o Irã está degelando”.

Com o avanço do verão e o aumento do degelo do iceberg das sanções, Teerã só terá a ganhar. Não surpreende que Teerã não tenha convertido a estranha atitude de Ban e o “desconvite”, em grande questão. Mais uma vez, Teerã certamente avalia que, gostem os EUA ou não, o Irã tem papel crucial a desempenhar em qualquer paz para a Síria; e que os EUA terão de engolir o Irã, gostem ou não gostem.

E Washington? Dá-se conta de que o Irã é ator chave na cancha síria? É claro que sim. Mesmo assim, procurará tratar o processo de Genebra-2 diretamente com a Rússia, como seu interlocutor principal nesse momento, em vez de ter de encarar “Rússia + Irã”. Dito de outro modo, os EUA tentam evitar qualquer correlação que se crie entre o processo de Genebra-2 e o engajamento do governo Obama com o Irã como tal (onde tampouco querem ver envolvido qualquer terceiro ator.) Os dois processos devem andar por trilhos diferentes. Equivale a dizer que o engajamento com Rússia e Irã deve ser seletivo, deve ser como o governo Obama preferir, para que a diplomacia de Washington funcione como se espera que funcione. Verdade é que o sempre crescente entendimento estratégico entre russos e iranianos impacta todo o cálculo estratégico dos EUA. Mas mesmo assim, há aí mais um problema que nasce das dificuldades de os EUA terem de lidar com várias questões ao mesmo tempo, com o Irã.

E se Teerã esperava que sua atitude “mais cooperativa” e “mais promissora” na questão nuclear até agora geraria benefícios para o Irã em outras questões (como na questão síria, no Afeganistão, no Iraque, etc.) – ou vice versa – nada disso está acontecendo, pelo menos ainda não.

Um “alto funcionário dos EUA”, não identificado, foi vastamente citado e repetido na imprensa-empresa norte-americana na 2ª-feira (20/1/2014), sempre insistindo que as negociações sobre a Síria e sobre o programa nuclear do Irã são questões separadas, e que Washington ainda tem preocupações quanto ao apoio do Irã ao terrorismo e seus “esforços para desestabilizar o Líbano, o Bahrain e outros países na região”.

Assim sendo, como está o “placar”, no momento em que, afinal, começa Genebra-2? Paradoxalmente, agora que os EUA “venceram” no primeiro movimento para manter afastado o Irã, crescem as pressões para que os EUA “mostrem resultados” no processo de paz que começa a tentar decolar. Genebra-2 absolutamente não pode fracassar, assim, sem mais nem menos.

O fracasso tampouco fará aumentar o prestígio da ONU. É verdade que o CNS conseguiu manter o Irã ao largo, mas não pode acalentar esperanças de que ditará as regras sempre – especialmente se estiver sentado frente a frente, com a delegação síria do outro lado da mesa.

Considerado o público norte-americano e a opinião pública doméstica nos EUA, Obama tampouco pode fracassar completamente na conferência de hoje (22/1/2014), sobretudo porque sua política para a Síria enfrenta fogo cerrado. É indispensável salvar alguma coisa.

Tudo parece sugerir que a Rússia “venceu” a batalha em que está empenhada: manter vivo um – algum – processo de paz para a Síria.


[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Irã, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu,Asia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.


Pepe Escobar: “Síria e a charada Genebra-2”

22/1/2014, [*] Pepe Escobar, Russia Today
Traduzido por João Aroldo


Abertura da Conferência de Genebra-2
No verão, as pessoas vão para Montreux, Suíça, para acompanhar o festival de jazz. Esta semana, contudo, a “performance” é por uma turma positivamente sem swing, parte da (na teoria) muito séria conferência Genebra 2 sobre a Síria.

Para que serve Genebra 2? Ela não tem nada a ver com “paz”. Ela não vai promover um acordo internacional para acabar com a tragédia síria. Os terríveis fatos de guerra em campo vão continuar fatos, e horríveis; muitos perpetradores não estarão se reunindo em Montreux. A sociedade civil síria não foi nem convidada.

E a charada toda degenerou em paródia vergonhosa mesmo antes de começar.

Domingo passado, parecia que o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-Moon tinha decidido sair de seu tradicional sono vegetal, convidando o Irã para Genebra 2. O convite durou menos de 24 horas; após a necessária pressão de Washington – instigada pelos autênticos democratas da Casa de Saud – ele foi cancelado.

Então nós tivemos Ban Ki-moon papagaiando o Departamento de Estado americano, segundo o qual Teerã não tinha concordado com os princípios do comunicado de Genebra 1, que pedia um cessar continuado da violência armada. Diplomatas iranianos discordaram fortemente, sublinhando como Teerã entende que a base para as conversas é a completa implementação da conferência prévia de junho de 2012, mesmo se o Irã não foi parte dela.

Ban Ki-moon também convidou a Santa Sé, assim como a Austrália, Luxemburgo, México e a República da Coreia, entre outros, para Montreux; como se esses atores tivessem alguma noção do que está acontecendo na Síria.

Mas o cúmulo da farsa é que o Irã não pode ir, enquanto Arábia Saudita e Qatar – que continuam a armar cada “rebelde” sírio à vista, de jovens em busca de adrenalina a Takfiris e degoladores apoiados pelo ocidente, podem.

E vão.

"Rebeldes" do ESL-Exército Sírio Livre avançam sobre o subúrbio de al-Jadeida na
cidade velha de Aleppo em 21/8/2012
Conheça a “boa” e “má” Al-Qaeda

Hora de resumir. Washington decidiu que o Irã não pode estar em Montreux porque eles apoiam Assad. Simples assim.

Washington ditando à ONU é a norma. Washington ditando à “oposição” exilada síria também é a norma. Todos são marionetes nesta comédia letal.

Quanto aos spin doctors ocidentais, eles estão mais bobos do que moscas sobre cadáveres. Como parte do novo mito ocidental de que a Frente Islâmica apoiada pela Arábia Saudita – formada em setembro último contra o Conselho Militar Supremo apoiado pelos EUA – são nada menos que a “Al-Qaeda boa”, agora nós temos rebeldes” top rotineiramente reconhecendo à mídia corporativa ocidental que eles são, bem, Al-Qaeda.
Dezenas de milhares de jihadis estrangeiros usando a rede de bases da Al-Qaeda na Turquia – bem, isso não é nenhum problema. Como diz a narrativa, “nossos novos amigos” na Frente Islâmica são apenas “muçulmanos salafistas conservadores”. E se eles gostam de tortura pra valer e não têm problemas para matar xiitas e cristãos? Grande coisa.

Quanto à gangue da “má” Al-Qaeda– da Frente Al-Nusra e Ahrar al-Sham ao Estado Islâmico do Iraque e Levante (ISIL) – eles estão no ganho. Afinal, são eles que têm experiência de combate/vantagem em campo. E na hora do vamos ver, eles dão mais um laço em volta de pescoços ocidentais sem noção.

Pegue o Ahrar al-Sham. Eles agora lideram a Frente Islâmica – e conversam com os americanos. E adivinhem; eles estão indo para Montreux! A cereja nesse bolo Takfiri é que, no fim, seus “interesses” estão sendo defendidos por ninguém menos que o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry. Washington promovendo al-Qaeda? Bem, nós já vimos esse filme.

Should I stay or should I go? [1]

Washington está vendendo a ficção de que eles estão liderando” Genebra 2 para “reconstruir” a Síria. Isso é bobagem monumental.

Teoricamente – e mesmo isso é extremamente discutível – o interesse principal da administração Obama no Sudoeste da Ásia é negociar uma acordo complexo com o Irã, o que vai tomar quase todo 2014.

No fim, toda esta charada é entre Washington e Teerã. A Marinha dos EUA não vai fazer Assad “sair” tão cedo – ou mesmo nunca; então tudo, em teoria, continua na mesa.

Tanque do Exército Sírio patrulha bairos da cidade cristã de Maalula
E todo o resto, ONU, a Santa Sé, a Casa de Saud, são apenas observadores, mesmo enquanto vários players, da União Europeia à Índia, China e Japão, pensam em nada além de finalmente formalizarem tudo com o Irã.

O governo sírio, por sua parte, estará em Montreux; ele concordou com a conferência há muito tempo. Mas o Presidente Assad já deixou claro; ele não vai “sair”, como o Presidente americano Barack Obama exigiu. Ele não vai deixar a oposição apoiada pelo estrangeiro tomar o poder. E ele pode mesmo participar das próximas eleições presidenciais.
Assad foi na jugular quando disse que Genebra 2 deveria ser sobre sua própria “Guerra ao Terror”. Terror, incidentalmente, largamente apoiado pelo Ocidente.

Então, sob esta perspectiva, mesmo Washington necessita que Assad não saia. No final das contas os únicos players que realmente querem que Assad saia são a Casa de Saud e a Casa de Thani no Qatar. Muitos no Ocidente já perceberam que Assad deve ficar para combater os “terroristas”.

O notoriamente suspeito Embaixador americano para a Síria, Robert Ford – que sempre aparece quando os EUA estão desestabilizando alguma coisa – desta vez pediu um encontro urgente em Istambul, apoiado pela Turquia e Qatar, e fez o número “vai pra Montreux porque eu tô mandando”.

Ele só precisa seguir o dinheiro. Os que não vão viajar – um bando de chupins da Coalizão Nacional Síria (CNS) – vão ficar meio sem dinheiro.
Então ouça o “patriotismo” falando. A CNS, que sempre foi furiosamente contra qualquer conversa com Assad, subitamente disse que iria, ainda que um terço de seus membros suspeitos tenham boicotado o encontro em Istambul.
O que é ainda mais farsesco é o que Ford deve ter dito para os bravos da CNS – ainda sujeito a muito debate pelo Oriente Médio. Se Ford realmente disse que a estratégia de Bandar Bush tem sido um fracasso total (de fato tornando a Síria uma base Al-Qaeda) então isso aponta à administração Obama, para todas as finalidades práticas, compartilhando o mesmo objetivo que Assad: combater o “terror”.

Ainda assim, Genebra 2 não “resolve” nada. Irã e Rússia continuarão apoiando Damasco. A terra de ninguém do deserto da Síria ao Iraque continuará sendo ocupada por jihadis sectários hardcore apoiados por Bandar Bush e pelo Golfo.

A guerra continuará se espalhando mais e mais pelo Líbano. O governo em Damasco não vai cair. A crise de refugiados vai aumentar. E o Ocidente vai continuar fazendo pose de estar preocupado com o “terror”.

E todo esse não-jazz em Montreux não vai dar em nada. E aí algum burocrata vai pedir um Genebra 3.
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Nota dos tradutores
[1] The Clash: Should I stay or should I go? (vídeo a seguir)

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política do blog Tom Dispatch e correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:

- Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.

Síria: Confusão na Conferência Genebra-2

20/1/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ban Ki Moon, Secretário Geral da ONU
Ainda não se conhece a história toda por trás disso, mas parece que o secretário-geral da ONU Ban Ki-Moon criou colhões repentinamente e, agora, os EUA tentam novamente capá-los.

Ban Ki-Moon convidou, parece que contra a vontade dos EUA, o Irã, para participar das conversas de Genebra-2 sobre a Síria.

Decidi distribuiu alguns convites adicionais para a reunião de um dia em Montreux. São eles: Austrália, Bahrain, Bélgica, Grécia, a Santa Sé, Luxemburgo, México, Países Baixos, República da Coreia e Irã. Acredito que a presença internacional expandida naquele dia será mostra importante e útil de solidariedade antes do duro trabalho que o governo sírio e delegações da oposição iniciarão dois dias depois em Genebra.

Como já disse repetidas vezes, creio fortemente que o Irã tem de ser parte da solução da crise síria.

Falei longamente nos últimos com o ministro de Relações Exteriores do Irã Sr. Javad Zarif. Ele assegurou-me que, como todos os demais países convidados para o dia da abertura das discussões em Montreux, o Irã compreende que a base das conversações é a plena implementação do Comunicado de Genebra de 30/6/2012, inclusive do Plano de Ação.

O ministro Zarif e eu concordamos que a meta das negociações é estabelecer, por consentimento mútuo, um corpo provisório de governo de transição, com plenos poderes executivos. Foi nessa base que o ministro Zarif prometeu que o Irã desempenhará papel positivo e construtivo em Montreux.

Assim, como anfitrião e organizador da Conferência, decidi enviar um convite para que o Irã participe.

Montreux Palace, hotel onde está sendo realizada a Conferência de Paz sobre a Síria
Não há praticamente coisa alguma que se possa dizer contra o Irã participar da Conferência. Se até México e Luxemburgo foram convidados (e para quê?!), o Irã, muito mais envolvido no conflito, evidentemente merece ter lugar à mesa. É até necessário que lá esteja, porque qualquer acordo que saia de Genebra-2 exige a concordância do Irã (sem isso, o Irã fica livre para sabotar qualquer acordo, caso queira fazê-lo).

Mas o Departamento de Estado dos EUA quer agora detonar a conferência, na qual tem pouco a ganhar, e inventou de impor condições, as mesmas que Ban Ki-Moon, com sua escolha cuidadosa das palavras, tentou deixar de fora:

Os EUA veem o convite do secretário-geral da ONU ao Irã, para que participe da próxima conferência de Genebra como condicionado a uma declaração do Irã de que explícita e publicamente apoia a plena implementação do Comunicado de Genebra, inclusive a criação de um corpo de governo transitório, constituído por consentimento mútuo com plenas autoridades executivas. É algo que o Irã jamais fez publicamente e algo que nós há muito tempo dizemos claramente que é indispensável.

Javad Zarif
O ministro de Relações Exteriores do Irã respondeu que, uma vez que o Irã não participou da conferência Genebra-1, não se pode pressupor nem esperar que o Irã aceite todos os resultados do Comunicado final de “Genebra-1”.

Sob pesada pressão dos EUA, os estrangeiros patrocinados por estrangeiros que são a oposição Síria no exílio concordaram, com menos da metade dos “membros” votando sim, com comparecer a Genebra. Agora, encontraram uma razão para voltar atrás; e lançaram um ultimato a Ban Ki-Moon, para que “desconvidasse” o Irã, ou a “oposição” se retiraria da conferência. Ban Ki-Moon está exposto demais. Não é admissível que deixe um bando de doidos que nada são ou representam, ditar a política da ONU. Ignorará a tal “oposição”. Caberá aos EUA assumir a “oposição” em Genebra.

Apesar de o governo sírio ter concordado há muito tempo com estar presente em Genebra, o presidente Assad, em entrevista publicada hoje (20/1/2014), deixou novamente claro que não renunciará nem deixará que a “oposição” financiada por estrangeiros tome conta da Síria:

O presidente Bashar al-Assad da Síria disse que há “significativa” probabilidade de que concorra a novo mandato e descartou qualquer tipo de partilha do poder com a oposição que tenta derrubá-lo, em entrevista exclusiva à Associated France Press, antes do início das conversações de Genebra.

Falando no domingo, do palácio presidencial em Damasco, Assad disse que entende que a guerra síria prosseguirá.

Disse que as conversações previstas para começar na 4ª-feira (22/1/2014) em Montreux, Suíça, devem focar-se no que chamou de sua “guerra contra o terrorismo”.

Bashar al-Assad
Foco contra o terrorismo é agora também o objetivo dos governos “ocidentais” que tentaram derrubar Assad. A Síria é hoje um campo de treinamento para vários grupos e subgrupos que, mais dia menos dia, voltarão aos seus países de origem, e criarão problemas.

Até os EUA precisam que Assad permaneça no governo da Síria.

Dois carros-bomba explodiram hoje num posto de fronteira entre Síria e Turquia, o último ainda não oficialmente controlado pelo grupo ISIS ligado à al-Qaeda. Os ataques obrigam os turcos a não esquecer que eles também enfrentam problema gigante. Mais uma descoberta de armas contrabandeadas por funcionários da inteligência turca para jihadistas faz aumentar a pressão sobre Erdogan, para que encontre saída rápida para aquela situação.

Assim sendo, todos, exceto talvez o Qatar e a Arábia Saudita, estão à procura de algum modo para deixar Assad no governo da Síria, pelo menos por enquanto, para que expulse da Síria os terroristas.

Mas o ataque dos EUA contra a conferência de Genebra-2, por causa da participação do Irã, torna ainda mais difícil para quem está de fora ter qualquer influência sobre o que se passa na Síria.

As lutas internas que acontecem entre vários grupos extremistas dentro da Síria ajudou o governo sírio a obter considerável avanço militar em campo, em Damasco e arredores e em Aleppo.

Se Genebra-2 não acontecer, ou se fracassar, quem menos perde é o governo do presidente Assad.



[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como“Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). No Brasil, produzimos versão SENSACIONAL, na voz de Cida Moreira, gravada em “Cida Moreira canta Brecht”, que incorporamos às nossas traduções desse blog Moon of Alabama, à guisa de homenagem. Pode ser ouvida a seguir:

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Ban Ki-Moon agita Genebra-2 sobre a Síria

20/1/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ban Ki-Moon (D), Secretário-Geral da ONU convida o MRE do Irã, Mohammad Javad Zarif (E)  para participar da Conferência de Paz na Síria - Genebra-2 
Uma das precondições para ser eleito secretário-geral da ONU é que o candidato tem de ser rotineiramente capaz de chutar “com efeito” e surpreender o goleiro. Mas o atual Secretário-Geral, Ban Ki-Moon, acaba de chutar uma que, em vez de mudar de rumo e “cair para dentro do gol”, mudou de direção para fora do gol, diretamente para o mato. O Secretário-Geral insiste que não sabia que estava chutando com tanto efeito; quase disse que “saiu sem querer”.

Claro, a variação é muito importante na diplomacia, e o convite de último momento que Ban fez ao Irã para que participe da Conferência Genebra-2 sobre a Síria nem foi completamente inesperado. Mas quando apareceu, surpreendeu, sim. Particularmente, Washington. A porta-voz, Jen Psaki, do Departamento de Estado pediu que Ban rescinda o convite, a menos que o Irã endosse “integral e publicamente” o Comunicado de Junho de 2002 [chamado “Genebra-1”]. A Coalizão Nacional Síria [orig. Syrian National Coalition (SNC)] ameaçou não aparecer em Genebra-2, se o Irã lá estiver.

Nota da redecastorphoto: Faltando menos de 24 horas do início de Genebra-2 Ban Ki-Moon desconvidou o Irã. O “chute com efeito” do Secretário-Geral da ONU saiu muito longe do gol!

Ban Ki-Moon, Secretário-Geral da ONU, "desconvida" Hassan Rouhani, Presidente do Irã de Genebra-2
O próprio Ban tem dito e repetido que “falou longamente” com o Ministro de Relações Exteriores do Irã, Javad Sharif, o qual lhe “assegurou” que “compreende” que “a base” de Genebra-2 é o texto aprovado em junho de 2012. Prima facie, parece que é o fim do mundo, menos de 72 horas antes do início de Genebra-2 marcado para amanhã, 4ª-feira (22/1/2014).

Contudo, se se analisa melhor, a arte do chute direto a gol é difícil e exige longo, dedicado treinamento para que dê o resultado que se deseja que dê. Ban, todos sabemos, jamais deu qualquer sinal de algum dia ter praticando chute direto a gol nas horas de folga. A reação de Psaki pode ter sido completa encenação? Talvez o governo Obama já estivesse informado de que Ban andava treinando tiro a gol com muita determinação e dando o melhor de si, nesses últimos dias, enquanto Genebra-2 se aproximava? Talvez... o treinador fosse Tio Sam em pessoa? Talvez tudo isso não passe de estratégia de retirada?

Jen Psaki
Psaki disse com tanto de vagueza quanto de informação que Washington até conseguiria conviver com a participação do Irã, desde que os iranianos explicitamente endossem o Comunicado de junho de 2012, embora tenha usado uma fórmula de dupla negação para dizê-lo:

É algo que o Irã jamais fez publicamente e algo que nós [EUA] dizemos claramente, há muito tempo, que é indispensável. Se o Irã não aceitar publicamente e integralmente o Comunicado de Genebra, o convite deve ser rescindido.

Teerã ainda não respondeu. Apenas registrou o recebimento do convite, registro protocolar. Considerados o engenho e a arte do pensamento dos persas, eles estão certamente formatando uma declaração em que endossem o comunicado de junho de 2012, mas de tal modo e com tais palavras que nada sugira que estejam cedendo à precondição imposta pelos norte-americanos.

Humilhações e embaraços provocados e sofridos são considerações muito importantes naquela parte do mundo. (De fato, guardo nos meus arquivos o fascinante verbete redigido pela CIA, de 1994, sobre “Face” [ing., aproximadamente “autoimagem”, “autoapresentação”], Face” Among the Arabs). Mas, por outro lado, nada disso é, de fato, matéria substancial; é um não assunto, uma não questão, porque o Irã genuinamente nada esconde, que possa de algum modo ameaçar o processo de Genebra-2.

Além disso, Teerã certamente sabe que o governo Obama deseja que o Irã esteja lá, para Genebra-2, na 4ª-feira (22/1/2013); mas teme convidar Teerã publicamente (os sauditas subiriam pelas paredes).

Pela minha avaliação, o verdadeiro problema será o Conselho Nacional Sírio. Na língua malaiala, diz-se que “o coco sempre cai na cabeça de quem mais quer gemer...” O CNS é participante muito relutante de Genebra-2. Agora, se decidir fazê-lo, terá desculpa para pular fora.



[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Irã, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu,Asia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.