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sábado, 25 de janeiro de 2014

Conflicts Fórum: Comentário semanal de 10 a 17/1/2014


Comentários da semana 10-17/1/2014, publicados dia 24/1/2014  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Este “Comentário” foi redigido antes da reunião da Oposição ao Governo Sírio, na 6ª-feira (24/1/2014), para decidir sobre alguma política comum para Genebra-2


No caminho para Genebra-2, o quadro que emerge do Oriente Médio permanece complicado, com correntes políticas que, não raro, movem-se em direções contrárias.

No Líbano, pela primeira vez, há sinais de que a posição saudita pode estar-se suavizando – mesmo no sentido de aceitar tacitamente pelo menos, alguma cooperação com o Irã (mais sobre isso, adiante).

Mas na Síria, a política saudita parece ser ostensivamente de apoio às conversações, embora não se devam esperar sinais de descontentamento entre os sauditas, se Genebra-2 gorar, com uma retirada em massa da chamada “oposição” liderada pela Coalizão Nacional Síria. No momento, Qatar e sauditas estão competindo para conseguir pôr a culpa, cada um no outro lado, por essa fragmentação da tal “coalizão” e seu enfraquecimento, até aparecer reduzida a um pequeno grupo de exilados, sem qualquer representatividade (e sem qualquer estratégia política concertada), já na véspera das conversações.

Bandar "Bush" bin Sultan - Chefe do Serviço Secreto da Arábia Saudita 
As conversações estão agendadas para começar dia 22/1. O quadro geral é – por um lado – de limitada suavização da posição dos sauditas (mais sobre isso, adiante), com notícias (não confirmadas) de que o príncipe Bandar aproximou-se de Adnan Khashoggi, tentando abrir um canal de comunicação com Teerã; e, por outro lado, não se vê qualquer sinal de recuo na posição linha-duríssima dos sauditas em relação a Síria, Iraque (ou à Fraternidade Muçulmana).

Veem-se também alguns sinais de que o comando militar iraquiano reage adversamente às atividades dos sauditas que visam a enfraquecer o governo do Primeiro-Ministro Maliki.

Sobre a Síria, o jornal Al-Quds Al-Arabi, por exemplo, noticiando a recente eleição da liderança da Coalizão Nacional Síria (considerada crucial para determinar a formação da delegação da “oposição” em Genebra-2), observou a discussão intensa e amarga entre os candidatos, que terminou com Ahmad al-Jarba (homem de Bandar) mantendo o posto de líder, à custa da candidatura de Riyad Hijab (mais próximo do Qatar), em “eleição polarizada, com troca de acusações de compra de votos”. A reunião foi tensa; 41 dos 121 membros da Coalizão Nacional Síria ameaçaram renunciar, inclusive figuras importantes, como Mustafa al-Sayigh, ex-secretário-geral da CNS; Lu’ayy al-Miqdad, porta-voz do comando do Exército Sírio Livre; Nizar al-Hiraki, representante da CNS no Qatar; e Khalid Khuja, representante da CNS na Turquia.

Ahmad al Jarba (homem de Bandar) ouve John Kerry (EUA) em reunião de 13/1/2014
Kamal al-Labwani, destacado membro da oposição síria e membro do Conselho Político da Coalizão de Oposição Síria, lançou uma granada (verbal) na confusão já reinante, ao dizer ao jornal Al-Watan que a retirada de partes e membros da Coalizão  “é operação tática que já estava preparada desde antes” para abortar a participação na conferência Genebra-2.

Kamal al-Labwani
Nós abortamos a participação da Coalizão de Oposição Síria, com uma operação que já estava preparada com antecedência. Tudo isso foi feito para impedir a ida a Genebra-2. Não estamos interessados em nenhum diálogo com o regime de Al-Assad. Na coalizão há os que aceitam um diálogo com o regime, mas há também os que rejeitam o diálogo. Esses são os que se retiraram da coalizão, que agora parece começar a naufragar nos próprios erros. Podemos dizer que cometemos suicídio político, para impedir que haja diálogo com esse regime que já matou mais de 130 mil filhos do honrado povo sírio. [E Al-Labwani acrescenta: “Pusemos abaixo a Coalizão, para impedir a Conferência Genebra-2”] [aspas nossas].

Mas não se deve esquecer que o jornal Al-Watan pertence à família reinante no Qatar.

Parece que Genebra terá de acontecer sem representantes também do principal grupo da oposição política interna: Haytham al-Manna, um dos principais nomes no Comitê de Coordenação Nacional para Mudança Democrática [orig. National Coordinating Committee for Democratic Change (NCC)], aparece citado no jornal Al-Mayadeen, dizendo que o grupo não participará de Genebra-2. Esse NCC – grupo guarda-chuva, em que se reúnem várias linhas da oposição política interna, constituído de vários partidos de esquerda e nacionalistas – tinha esperanças de conseguir coordenar-se com a SNC para formar uma delegação unificada que participaria das conversações.

Ali Haidar
“Nós os convidamos a coordenar posições conosco”, disse Ahmad al-Esrawi, membro do Gabinete Executivo do NCC, ao jornal Al-Monitor; acrescentou que a Coalizão ainda não respondera ao convite. Além disso, Ali Haidar, presidente do Partido Social Nacionalista Sírio [orig. Syrian Social Nationalist Party (SSNP)] e ministro da reconciliação nacional, não participará das conversações por causa de diferenças com a Coalizão. “[Haidar] definitivamente não participará da delegação do governo. Se vai haver delegação chefiada pela Coalizão, não iremos. Absolutamente não” – disse Elia Samaan.

(Desde o início, a oposição política síria foi marginalizada, simultaneamente, por grupos de exilados e pelos seus apoiadores ocidentais e do Golfo, porque o SSNP (a) opõe-se absolutamente a qualquer tipo de intervenção estrangeira; e (b) apoia um diálogo e negociações com o governo sírio).

O que parece estar acontecendo é que, já há algum tempo, a Arábia Saudita tem resistido às repetidas tentativas ocidentais para que apoie Genebra-2. Foi a via que os sauditas escolheram para mostrar o quanto ficaram ofendidos e magoados por os EUA terem recuado da decisão de invadir militarmente a Síria. Os sauditas disseram que, definitivamente, não apoiariam a iniciativa, se o Irã tivesse assento à mesa de negociações (e o Irã não foi convidado, apesar dos insistentes movimentos de Moscou nessa direção; e países periféricos, como a Argélia e a Indonésia, sim, foram convidados). A Arábia Saudita disse (aos russos) que, se comparecesse, a delegação presente deveria ser composta por seus (de fato!) procuradores (i.e. a Coalizão Nacional Síria). Essa foi a decisão final da recente reunião da Coalizão.

Terrorista do ESL está na frente do graffiti que diz "Da’ish (Estado Islâmico do Iraque e al-Sham)" no bairro Masaken Hanano, Aleppo, 07 de janeiro de 2014. (Foto de REUTERS / Jalal Alhalabi) 
O problema é bem evidente: a delegação da “oposição” – na atual composição – não representa nada nem ninguém, além de uma pequena claque de exilados, com alguns elementos da oposição, mas tão apavorados ante o rumo que as coisas vão tomando, que já se mostram dispostos a derrubar sobre as próprias cabeças até os pilares de Genebra-2.

Verdade é que o Conselho da Oposição Síria já tinha preparada a sua declaração escrita, na qual se recusa a participar de Genebra-2. Mas isso talvez interesse aos objetivos da política saudita. Contudo, a evidência de que a delegação da oposição nada representa; a ausência do Irã, que é ator chave; e a rejeição do processo pelos grupos internos de oposição política; além da oposição total de todos os grupos jihadistas, tudo isso sugere que Genebra-2 – se chegar a acontecer – será, inevitavelmente, o início de um “longo processo”, como Kerry já disse.

Claro que as pressões para que a Coalizão Nacional Síria participe de Genebra-2 (na realidade, acontecerá em Montreux, próximo de Genebra) são intensas, e muitas mudanças ainda podem acontecer. Mas é interessante que, como noticia o Hurriyet da Turquia, e como disse um membro da Coalizão, falando em Londres, outros apoiadores não estavam pressionando tanto, como a Grã-Bretanha e os EUA:

A França [que trabalha para substituir os EUA como “escritório de negócios” dos sauditas] nos diz para irmos; mas dizem que a decisão cabe a nós e que estarão conosco, seja qual for a nossa decisão. É a mesma posição dos sauditas e da Turquia.

Dito de outro modo, há divisões dentro da Coalizão, mas também há divisões evidentes dentro do grupo dos “Amigos” – todos, provavelmente, temendo que Assad saia vitorioso, sem ter feito qualquer concessão.

Terroristas de Frente al-Nusra empilham sacos de areia como barricada em Deir al-Zor
(Foto REUTERS/Khalil Ashawi)
Em resumo, a Arábia Saudita (e, em certa medida, um considerável eleitorado nos EUA – mais sobre isso, adiante) está indicando, precisamente, que pode estar em andamento um outro “jogo na cidade”, além de Genebra – em oposição direta à insistência com que Kerry tem repetido que Genebra é “o único jogo na cidade”.

Esse “jogo” parece estar sendo indicado pela guerra furiosa em curso entre grupos jihadistas no norte da Síria. São combates violentos, com muitos mortos, jihadistas executando jihadistas, com estupro por jihadistas, da esposa e da mãe do líder de um grupo jihadista rival. Inicialmente o ISIS (Da’ish) perdeu terreno, mas nos últimos dias parece estar-se recuperando. O Exército Sírio explorou a situação e rapidamente ocupou as áreas esvaziadas, enquanto prosseguiam os combates entre grupos jihadistas. Como já observamos em outros “Comentários”, a situação militar em geral está mudando a favor o presidente Assad.

Edward Dark (codinome de um morador de Aleppo, que foi ativista da oposição na cidade) escreve:

Salim Idris
Não é segredo que a Frente Islâmica que agora tenta liquidar o grupo ISIS é fortemente paga e armada pela Arábia Saudita, e assim se podem compreender as reais razões e o timing por trás dessa súbita guerra de todos contra todos, de vida ou morte. Depois que a Frente Islâmica, mês passado, realmente destruiu os moderados do Conselho Militar Supremo do Exército Sírio Livre comandado pelo general Salim Idris, isso realmente tornou sem sentido as conversações de Genebra e esvaziou qualquer resultado que saia de lá (...) “O próximo passo é livrar-se do bicho-papão al-Qaeda e promover as versões menos extremistas. Ironicamente, a Frente al-Nusra, outra afiliada da al-Qaeda endossada por Ayman al-Zawahri e classificada como organização terrorista pelos EUA, está-se juntando à luta conta o ISIS. Serão os próximos candidatos à destruição? Ou serão assimilados, reembalados e vendidos ao mundo como grupo jihadista mais palatável, junto com a Frente Islâmica?” [aspas nossas.]

Mas que ninguém se engane  Dark alerta – não se trata de alguma “ressurgência” da revolução síria; nem se trata de algum levante popular contra outro tirano opressor, “agora que o povo sírio está dividido demais, desmoralizado e cansado de guerras, para tentar qualquer coisa. É simplesmente disputa, com a faca na garganta, pelo poder, entre grupos jihadistas de ideologia similar, diferentes só nos nomes e na identidade dos patrocinadores-financiadores, embora com alguma pequena diferença nos métodos para impor em campo as respectivas doutrinas”. [aspas nossas.]

Assim sendo, parece que a Arábia Saudita está extraordinariamente discreta e cautelosa sobre Genebra-2, e ainda vê uma possibilidade de “reembalar” os “seus” jihadistas, como a Frente Islâmica (e possivelmente a Frente al-Nusrah – com tácito apoio do ocidente) como jihadistas “moderados”/“rebeldes mainstream”, mantendo assim aberta a opção de a Arábia Saudita inserir-se na mutável narrativa dos neoconservadores dos EUA (regionais  norte-americanos), dos especialistas dos think-tanks pró-intervencionistas ocidentais (entre os quais os grupos de lobby com base em Washington), que ainda insistem em que o presidente Assad tenha de ser enfraquecido por todos os meios (inclusive mediante o empoderamento, pela Arábia Saudita, de jihadistas takfiri “moderados”), como precondição necessária, indispensável, para “forçar” Assad a negociar seriamente com a oposição.

Em resumo, a Arábia Saudita atira simultaneamente em duas diferentes direções – ambas garantindo caloroso apoio a Kerry, ao mesmo tempo em que se prepara contra a possibilidade de fracasso em Genebra-2, com o que se fortaleceria o jogo dos intervencionistas norte-americanos. Embora a luta esteja nos primeiros dias, não é absolutamente garantido que a Frente Islâmica de Bandar consiga derrotar os Da’ish. Até aqui, só conseguiu enfraquecer e dividir a oposição jihadista armada.

Os russos divergem fortemente dessa opção conservadora / intervencionista takfiri “moderada”: Vitaly Naumkin, refletindo comentários semelhantes do ministro de Relações Exteriores da Rússia, Serguey Lavrov, escreve:

Os políticos e diplomatas russos absolutamente não partilham as ilusões dos EUA sobre qualquer diferença entre os terroristas em guerra na Síria (os que teriam agenda internacional e os que teriam agenda local [quer dizer, entre jihadistas globais e jihadistas que dizem que sua jihad estaria confinada à Síria]). Na avaliação dos russos, a diferença não é tão significativa, a ponto de a Frente Islâmica, com a qual os EUA estão em contato, poder ser classificada como grupo moderado, em oposição ao grupo Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL), classificado como grupo extremista e terrorista. Membros da Fraternidade Muçulmana no Egito, cuja organização foi declarada organização terrorista pelo governo egípcio, são quase querubins, se comparados a membros da Frente Islâmica.

Walid Jumblatt
No Líbano, diferente disso tudo, a oposição saudita linha-dura contra um governo de unidade parece (por enquanto) ter-se suavizado. Depois de uma visita de dois dias do Ministro Zarif, de Relações Exteriores do Iraque, ao Líbano, no início dessa semana – para uma rodada de discussões com partidos políticos libaneses, com vistas a constituir-se um governo de unidade – Zarif conseguiu persuadir Walid Jumblatt, que controla os votos “oscilantes” no Parlamento, de há potencial para que se crie um governo de unidade, desde que a Arábia Saudita possa ser convencida a concordar. Na sequência, Jumblatt consultou Riad – e recebeu resposta positiva.

Não é fácil entender por que Riad teria feito essa “meia-volta-volver”, nesse momento. O Movimento 14 de Março não desistiu da exigência de criar-se governo “sem-Hezbollah”. Mas é possível que os EUA e países europeus tenham sido avisados sobre a crescente presença de terroristas do ISIL/ISIS no Líbano: podem ter-se dado conta de que o Líbano pode ser a nova vítima dos movimentos jihadistas – como aconteceu na Síria – e podem estar intensificando seus esforços e pressões para estabilizar o quadro no Líbano, mediante a formação de um governo nacional. Mas se essa iniciativa do Irã for bem-sucedida (e se Riad não bloqueá-la), sim, ajudará a resolver muitos dos problemas da administração política libanesa, que está paralisada há quase um ano e meio.

Em relação a um aspecto dessa paralisia – exploração de gás e petróleo – um colega de Conflicts Fórum escreveu para nós:

O longo hiato no processo de tomada de decisões pelo qual passa o Líbano, já afetou também os planos para exploração de gás e petróleo em águas territoriais e na Zona Econômica Exclusiva [orig. Exclusive Economic Zone (EEZ)]. O atual governo, atuando – como está – apenas com capacidade de zelador, não pôde aprovar dois decretos necessários, necessários para determinar o número de blocos de gás oferecidos em concorrência, nem definir a partilha dos lucros. O Ministro interino de Energia e Águas, Gebran Bassil, estava tentando conseguir que se realizasse uma sessão extraordinária de reunião do Gabinete, para aprovar os dois decretos, mas o Primeiro-Ministro interino, Mikati, insistiu que a Constituição não permite reuniões do Gabinete para essa finalidade. Assim, o ministro Bassil teve de adiar o lançamento do leilão do bloco de gás offshore, de 10 de janeiro, para 10 de abril de 2014.
Gebran Bassil

Apesar das atuais divisões políticas, havia unanimidade entre os diferentes grupamentos políticos no Líbano, exceto o ministro Bassil e seu grupo, o Movimento Patriótico Livre [orig. Free Patriotic Movement (FPM)], a favor do adiamento. O bloco 14 de Março, que está na oposição, além de outros parceiros da coalizão governante do FPM, não querem que Gebran Bassil e seu FPM colham todo o crédito público e político por terem lançado a exploração de gás e petróleo. Há também preocupações muito reais sobre todo o processo, que é pouco transparente, e sem qualquer plano estratégico que o articule ao maior potencial de gás da bacia do Leste do Mediterrâneo. Nessas circunstâncias, nenhum partido quis assumir compromissos contratuais de longo prazo com empresas petroleiras estrangeiras. Todos preferiram deixar abertas outras opções. Nesse contexto, não restou alternativa além de adiar o leilão.

Alguns atores políticos sugeriram ligar a data do leilão à aprovação dos dois decretos, com o leilão ficando marcado para seis semanas, ou três meses, depois de assinados os decretos, fosse qual fosse o texto aprovado.

Mas surgiu uma preocupação, de que esse arranjo – sem data claramente marcada – desestimularia as empresas petroleiras, o que poderia levá-las a desinteressar-se e abandonar o leilão. Essa é a razão que explica a decisão de fazer um “adiamento técnico” de três meses, e de marcar a data do leilão para 10 de abril. Mas o adiamento não é causado por desacordo essencial quanto aos decretos, nem tem qualquer coisa a ver com a emissão das licenças para exploração do petróleo e do gás. O problema está, integralmente, na divisão do poder no plano político. Não se deve esperar nenhum movimento nesse front, enquanto não houver acordo político para formar novo governo no Líbano. Mas, depois de constituído o governo, o processo poderá andar rapidamente, porque o trabalho preparatório já está feito, e o funcionamento da Agência do Petróleo [orig. Petroleum Authority] parece não ter sido afetado.



quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Vitórias de Pirro em Genebra-2

22/1/2014, [*] MK Bhadrakumar, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Genebra-2 está sendo realizada em Montreux a partir de hoje, 22/1/2014
Raras vezes alguma conferência internacional de paz foi realizada em circunstâncias mais bizarras. Mas a notícia boa é que a ONU e os EUA podem já ter “perdido” tudo que “ganharam” nas 48 horas que antecederam a conferência Genebra-2 marcada para começar hoje, 4ª-feira (22/1/2014).

Tudo começou com o convite-surpresa que, no fim de semana, o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-Moon, resolveu estender ao Irã, para que participasse do encontro, desconsiderando a objeção levantada pelos EUA, que argumentavam que Teerã não manifestara apoio declarado ao Comunicado de junho-2012 sobre a Síria, documento base para discussão na Conferência “2”.

Início da Conferência de Paz para a Síria Genebra-2 (22/1/2014).
O Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, ocupa o centro da mesa
De fato, Ban exerceu prerrogativa que é dele, como “convocador” da conferência Genebra-2 e disse que em várias reuniões e conversas por telefone nos últimos dias e semanas com altos funcionários iranianos recebera deles garantias de que Teerã “compreendeu e apoia a base e o objetivo” do evento a iniciar-se na 4ª-feira (22/1/2014), “incluindo o Comunicado de Genebra”.

Aparentemente, Ban encenou um golpe diplomático, porque a simples possibilidade de o Irã participar já transformou o objetivo da conferência de 4ª-feira. À primeira vista, o convite apareceu como pluma nova no chapéu de Ban, para afirmar alguma sua robusta independência na tomada de decisões, apesar da declarada e aberta pressão que os EUA faziam sobre ele para que se mantivesse longe do Irã. Mas a verdade é que é inconcebível, impensável, que diplomatas norte-americanos na ONU não tivessem tido qualquer notícia de que Ban estava mantendo consultas com funcionários do Irã.

Hossein
Amir-Abdollahian
Seja como for, no domingo Ban estava no centro do cenário planetário; na 2ª-feira (20/1/2014) “caiu”, aparentemente sob descomunal pressão dos norte-americanos; e foi, parece, forçado a “desconvidar” o Irã; perdeu as plumas, beijou a lona, mastigou e engoliu o pão que o diabo amassou. Tentou pôr a culpa nos iranianos; disse que a resposta do Irã ao convite absolutamente não foi “consistente com o compromisso [que teriam] assumido antes”. Presumivelmente, Ban chegou a esperar que Teerã aceitaria a pré-condição que os EUA inventaram. Mas, não. O Irã não cedeu. Apesar de ter aceito o convite de Ban, e de ter dado sinais de que participaria da Conferência, já logo no dia seguinte o Irã anunciou que não, que não participaria, absolutamente não, “dada a insistência dos EUA em impor uma pré-condição”. Como o Vice-Ministro de Relações Exteriores do Irã, Hossein Amir-Abdollahian, explicou na 3ª-feira (21//1/2014), Teerã estaria sempre disposta a participar, mas sem pré-condições. Resposta perfeita, vintage, do Irã.

Enquanto isso, Washington, que “perdeu” quando Ban convidou o Irã, logo no dia seguinte já “ganhou”, quando o Secretário-Geral se desdisse e voltou atrás, encurralado ante as ordens de Washington de que assim fizesse, a menos que Teerã declarasse “integralmente e publicamente” pleno apoio ao mapa do caminho para a Síria traçado em 2012.

A mística da diplomacia é que, vez ou outra, o que foi ganho não passa de vitória de Pirro. A vitória dos EUA foi pírrica? O Ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, tinha todos os holofotes a seu favor quando manifestou forte indignação contra o que acontecera. Lavrov disse, na 2ª-feira (2º/1/2014), que “quarenta países foram convidados para as conversações de Genebra-2. Dentre outros, foram convidados Austrália, México, República da Coreia, África do Sul, Japão, Brasil, Índia e Indonésia e muitos outros”. [2] E se o Irã é excluído da lista, a conferência passa a parecer cerimônia profana. (Vídeo a seguir dublado em inglês):


O Irã, é claro, como a Arábia Saudita e os estados do Golfo, a Turquia, o Egito e o Iraque, é um dos países interessados em resolver a situação sem mais danos à estabilidade dessa importante região do mundo.

Claramente, a participação do Irã teria transformado fenomenalmente o ABC da conferência Genebra-2. Mas naquele momento Washington mantinha um olho na Coalizão Nacional Síria, ao exigir que Ban retirasse o convite, porque as gangues reunidas na oposição síria ameaçavam abandonar a conferência de Genebra-2, usando como álibi a participação do Irã. Washington fizera esforços hercúleos, em semanas recentes, para puxar a CNS para bordo. Mas o governo Obama sem dúvida foi também sensível às dores da Arábia Saudita quanto à participação do Irã em Genebra-2.

Ali Akbar Salehi
O governo Obama tem cuidado para manter a questão do engajamento EUA-Irã na questão nuclear, separada das discussões sobre a lista de convidados para Genebra-2. Obama até saudou, na 2ª-feira (20/1/2014), a suspensão, pelos iranianos, no final de semana, do enriquecimento de urânio de alto nível; disse que oferecia “oportunidades sem precedentes”. Poucas horas depois de os cientistas iranianos cortarem as linhas de abastecimento das centrífugas na usina de Natanz e no sítio subterrâneo em Fordow próximo de Teerã, na presença de inspetores da AIEA, e a União Europeia já anunciava movimentos para levantar sanções contra o Irã. Em resumo, como disse o presidente da organização de energia atômica do Irã, Ali Akbar Salehi, “o iceberg das sanções contra o Irã está degelando”.

Com o avanço do verão e o aumento do degelo do iceberg das sanções, Teerã só terá a ganhar. Não surpreende que Teerã não tenha convertido a estranha atitude de Ban e o “desconvite”, em grande questão. Mais uma vez, Teerã certamente avalia que, gostem os EUA ou não, o Irã tem papel crucial a desempenhar em qualquer paz para a Síria; e que os EUA terão de engolir o Irã, gostem ou não gostem.

E Washington? Dá-se conta de que o Irã é ator chave na cancha síria? É claro que sim. Mesmo assim, procurará tratar o processo de Genebra-2 diretamente com a Rússia, como seu interlocutor principal nesse momento, em vez de ter de encarar “Rússia + Irã”. Dito de outro modo, os EUA tentam evitar qualquer correlação que se crie entre o processo de Genebra-2 e o engajamento do governo Obama com o Irã como tal (onde tampouco querem ver envolvido qualquer terceiro ator.) Os dois processos devem andar por trilhos diferentes. Equivale a dizer que o engajamento com Rússia e Irã deve ser seletivo, deve ser como o governo Obama preferir, para que a diplomacia de Washington funcione como se espera que funcione. Verdade é que o sempre crescente entendimento estratégico entre russos e iranianos impacta todo o cálculo estratégico dos EUA. Mas mesmo assim, há aí mais um problema que nasce das dificuldades de os EUA terem de lidar com várias questões ao mesmo tempo, com o Irã.

E se Teerã esperava que sua atitude “mais cooperativa” e “mais promissora” na questão nuclear até agora geraria benefícios para o Irã em outras questões (como na questão síria, no Afeganistão, no Iraque, etc.) – ou vice versa – nada disso está acontecendo, pelo menos ainda não.

Um “alto funcionário dos EUA”, não identificado, foi vastamente citado e repetido na imprensa-empresa norte-americana na 2ª-feira (20/1/2014), sempre insistindo que as negociações sobre a Síria e sobre o programa nuclear do Irã são questões separadas, e que Washington ainda tem preocupações quanto ao apoio do Irã ao terrorismo e seus “esforços para desestabilizar o Líbano, o Bahrain e outros países na região”.

Assim sendo, como está o “placar”, no momento em que, afinal, começa Genebra-2? Paradoxalmente, agora que os EUA “venceram” no primeiro movimento para manter afastado o Irã, crescem as pressões para que os EUA “mostrem resultados” no processo de paz que começa a tentar decolar. Genebra-2 absolutamente não pode fracassar, assim, sem mais nem menos.

O fracasso tampouco fará aumentar o prestígio da ONU. É verdade que o CNS conseguiu manter o Irã ao largo, mas não pode acalentar esperanças de que ditará as regras sempre – especialmente se estiver sentado frente a frente, com a delegação síria do outro lado da mesa.

Considerado o público norte-americano e a opinião pública doméstica nos EUA, Obama tampouco pode fracassar completamente na conferência de hoje (22/1/2014), sobretudo porque sua política para a Síria enfrenta fogo cerrado. É indispensável salvar alguma coisa.

Tudo parece sugerir que a Rússia “venceu” a batalha em que está empenhada: manter vivo um – algum – processo de paz para a Síria.


[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Irã, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu,Asia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Ban Ki-Moon agita Genebra-2 sobre a Síria

20/1/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ban Ki-Moon (D), Secretário-Geral da ONU convida o MRE do Irã, Mohammad Javad Zarif (E)  para participar da Conferência de Paz na Síria - Genebra-2 
Uma das precondições para ser eleito secretário-geral da ONU é que o candidato tem de ser rotineiramente capaz de chutar “com efeito” e surpreender o goleiro. Mas o atual Secretário-Geral, Ban Ki-Moon, acaba de chutar uma que, em vez de mudar de rumo e “cair para dentro do gol”, mudou de direção para fora do gol, diretamente para o mato. O Secretário-Geral insiste que não sabia que estava chutando com tanto efeito; quase disse que “saiu sem querer”.

Claro, a variação é muito importante na diplomacia, e o convite de último momento que Ban fez ao Irã para que participe da Conferência Genebra-2 sobre a Síria nem foi completamente inesperado. Mas quando apareceu, surpreendeu, sim. Particularmente, Washington. A porta-voz, Jen Psaki, do Departamento de Estado pediu que Ban rescinda o convite, a menos que o Irã endosse “integral e publicamente” o Comunicado de Junho de 2002 [chamado “Genebra-1”]. A Coalizão Nacional Síria [orig. Syrian National Coalition (SNC)] ameaçou não aparecer em Genebra-2, se o Irã lá estiver.

Nota da redecastorphoto: Faltando menos de 24 horas do início de Genebra-2 Ban Ki-Moon desconvidou o Irã. O “chute com efeito” do Secretário-Geral da ONU saiu muito longe do gol!

Ban Ki-Moon, Secretário-Geral da ONU, "desconvida" Hassan Rouhani, Presidente do Irã de Genebra-2
O próprio Ban tem dito e repetido que “falou longamente” com o Ministro de Relações Exteriores do Irã, Javad Sharif, o qual lhe “assegurou” que “compreende” que “a base” de Genebra-2 é o texto aprovado em junho de 2012. Prima facie, parece que é o fim do mundo, menos de 72 horas antes do início de Genebra-2 marcado para amanhã, 4ª-feira (22/1/2014).

Contudo, se se analisa melhor, a arte do chute direto a gol é difícil e exige longo, dedicado treinamento para que dê o resultado que se deseja que dê. Ban, todos sabemos, jamais deu qualquer sinal de algum dia ter praticando chute direto a gol nas horas de folga. A reação de Psaki pode ter sido completa encenação? Talvez o governo Obama já estivesse informado de que Ban andava treinando tiro a gol com muita determinação e dando o melhor de si, nesses últimos dias, enquanto Genebra-2 se aproximava? Talvez... o treinador fosse Tio Sam em pessoa? Talvez tudo isso não passe de estratégia de retirada?

Jen Psaki
Psaki disse com tanto de vagueza quanto de informação que Washington até conseguiria conviver com a participação do Irã, desde que os iranianos explicitamente endossem o Comunicado de junho de 2012, embora tenha usado uma fórmula de dupla negação para dizê-lo:

É algo que o Irã jamais fez publicamente e algo que nós [EUA] dizemos claramente, há muito tempo, que é indispensável. Se o Irã não aceitar publicamente e integralmente o Comunicado de Genebra, o convite deve ser rescindido.

Teerã ainda não respondeu. Apenas registrou o recebimento do convite, registro protocolar. Considerados o engenho e a arte do pensamento dos persas, eles estão certamente formatando uma declaração em que endossem o comunicado de junho de 2012, mas de tal modo e com tais palavras que nada sugira que estejam cedendo à precondição imposta pelos norte-americanos.

Humilhações e embaraços provocados e sofridos são considerações muito importantes naquela parte do mundo. (De fato, guardo nos meus arquivos o fascinante verbete redigido pela CIA, de 1994, sobre “Face” [ing., aproximadamente “autoimagem”, “autoapresentação”], Face” Among the Arabs). Mas, por outro lado, nada disso é, de fato, matéria substancial; é um não assunto, uma não questão, porque o Irã genuinamente nada esconde, que possa de algum modo ameaçar o processo de Genebra-2.

Além disso, Teerã certamente sabe que o governo Obama deseja que o Irã esteja lá, para Genebra-2, na 4ª-feira (22/1/2013); mas teme convidar Teerã publicamente (os sauditas subiriam pelas paredes).

Pela minha avaliação, o verdadeiro problema será o Conselho Nacional Sírio. Na língua malaiala, diz-se que “o coco sempre cai na cabeça de quem mais quer gemer...” O CNS é participante muito relutante de Genebra-2. Agora, se decidir fazê-lo, terá desculpa para pular fora.



[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Irã, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu,Asia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.