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sexta-feira, 12 de abril de 2013

Pepe Escobar: “O Emirado Islâmico do Siriastão”


12/4/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online - The Rovig Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
PARIS. E agora, as mais recentes notícias, recém chegadas do Emirado Islâmico do Siriastão. Esse programa chega até vocês graças ao alto patrocínio da empresa CCGOTAN (o Conselho de Cooperação do Golfo, também chamado Conselho Contrarrevolucionário do Golfo; e a Organização do Tratado do Atlântico Norte). Não deixem de assistir, please, à mensagem de nossos patrocinadores: os governos dos EUA, Grã-Bretanha, França, Turquia, além da Casa de Saud (Arábia Saudita) e do Emir do Qatar.

Tudo começou nos primeiros dias dessa semana, com uma proclamação de um elusivo líder da al-Qaeda Central,
Ayman al-Zawahiri
Ayman “O Doutor” al-Zawahiri, de algum local desconhecido nas áreas tribais do Paquistão (não se sabe é como O-O-Obama, com lista & licença para matar e toda aquela esquadrilha de drones, não consegue encontrá-lo).

Al-Zawahiri conclamou todas as brigadas islamistas envolvidas no Jihad-business de lutar contra o governo do presidente sírio Bashar al-Assad, a fundar um emirado islâmico, passport du jour que levará a um califato islâmico.

Dois dias depois, o Estado Islâmico do Iraque – “al-Qaeda no Iraque”, para todas as finalidades práticas – anunciou, em vídeo estrelado pelo líder Abu Bakr al-Husseini al- Qurashi al-Baghdadi, um espetacular affair de fusão & aquisição: doravante, a al-Qaeda de al-Baghdadi operará unida com o grupo jihadista Jabhat al-Nusra, da oposição síria. A nova empresa atenderá pelo nome de “Estado Islâmico do Iraque e Levante”.

Mas, logo no dia seguinte, o líder supremo do Jabhat al-Nusra, o sombrio Abu Muhammad al-Joulani, disse que sim, juramos fidelidade ao Xeique da al-Qaeda, Doutor al-Zawahiri. Mas nada de affair de fusão & aquisição com a al-Qaeda no Iraque. Nem pensar.

Monty Python, genial grupo inglês de comédia em: A Piada Mais Engraçada do Mundo

Infiéis desentendidos e intrigados de Washington a Pequim talvez suponham, se quiserem, que seja enredo de Monty Python. Mas é mortalmente sério; sobretudo porque a Casa de Saud; o Emir do Qatar; Erdogan, o turco neo-otomano; e o Reizinho de Playstation da Jordânia – apoiados por Washington – continuam a armar os “rebeldes” sírios e assim continuarão até o Juízo Final. E um dos principais beneficiários dessa orgia de armas a mancheias foi e é – e quem mais seria?! – a gangue do tal affair de fusão & aquisições conhecida como o Emirado Islâmico do Iraque e Levante.

Espancá-los com a nossa opção

Todos os grãos de areia do deserto sírio-iraquiano sabem que os “rebeldes” que realmente fazem a diferença em termos de combates na Síria são os militantes da frente Jabhat al-Nusra – centenas de transnacionais degoladores, dados a suicídios-bomba.

Mapa atualizado da atividade dos "rebeldes" da CCG-OTAN na Síria
Eles controlam, no caso em tela, alguns importantes subúrbios de Aleppo. Já perpetraram montanhas de sequestros, torturas e execuções sumárias. E, no que mais conta, já assassinaram montanhas de civis. E trabalham para impor a lei da Xaria sem concessões. Não surpreende que sírios de classe média letrados os temam mais que qualquer coisa letal à qual o governo de Assad recorra.

Al-Baghdadi admitiu o óbvio: que os jihadis sírios são anexos aos jihadis iraquianos, dos quais – crucialmente importante – estão obtendo experiência de combate real. Afinal, foram esses iraquianos hardcore que combateram contra o exército dos EUA, especialmente entre 2004 e 2007. O tomate do kebab é que a própria frente al-Nusra foi fundada por sunitas sírios que combateram ao lado de sunitas iraquianos no Iraque.

E eis aí a tarefa a que se dedica a Casa de Saud. Os sauditas competem numa maratona regional contra a al-Qaeda, para ver quem arregimenta maior número de sunitas fanáticos para combater os apóstatas iranianos, tanto no Iraque como no norte do Levante. A Casa de Saud é doida por qualquer jihadi, local ou transnacional, desde que não inventem de infernizar dentro da Arábia Saudita.

John Kerry
A sopa de letras que são as agências de inteligência dos EUA já devem saber disso tudo. Ou logo se confirmará a suspeita de que passem o tempo assistindo a reprises dos filmes de Monty Python. Alguma razão parecia estar prevalecendo, quando um confuso, atrapalhadíssimo Departamento de Estado, em discurso de John Kerry, reverteu a síndrome de Ártemis de Hillary Clinton e, mês passado, falou de o governo de Assad e os “rebeldes” negociarem – qualquer coisa. Mas de pouco serviu, porque, na mesma cena, Kerry cometeu ato de grave temeridade, ao proclamar que, entre os jihadistas, haveria “moderados”.

Mas foi quando, no início dessa semana em Jerusalém, bem quando estava para ser anunciado o affair de fusão & aquisição entre jihadismos Síria-Iraque... Kerry repetiu que, para Obama, “todas as opções permanecem sobre a mesa”, em termos de ataque norte-americano contra... o Irã!  
Abandonai toda a esperança, vós, corretores geopolíticos, nesse vale de lágrimas. O Departamento do Estado continua tão confuso e sem noção como sempre; nenhum adulto racional dá sinal de perceber qualquer diferença entre jihadistas sunitas linha-duríssima – do tipo que faz acontecer o 11/9 – e iranianos tipo “eixo do mal”.

Organização Jabhat al-Nusra, grupo terrorista ligado a alQaeda atuando na Síria.
É financiado pelos EUA-OTAN e petromonarquias do Oriente Médio
Os europeus parecem ter, pelo menos, segundas intenções. Os franceses anunciaram essa semana que querem convencer a União Europeia e o Conselho de Segurança da ONU a listar a frente Jabhat al-Nusra, como “organização terrorista”. Mas escafedem-se todos, à procura de toca para se esconder, quando se levanta a questão de o que acontece, nesse caso, com o processo de fornecer armamento aos “rebeldes” sírios. É óbvio que, nesse status quo, a frente Jabhat al-Nusra está fazendo a maior festa.

Pois semana que vem, todos se encontrarão novamente – os principais produtores desse filme horrendo, abaixo de qualquer classificação, intitulado “Operação Especial de Mudança de Regime”, com alguns atores marginais-coadjuvantes. Lá estarão EUA, britânicos e franceses, Turquia, Alemanha, Itália, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Qatar e Arábia Saudita. Concordarão com manter a operação de armar o pessoal-lá – e planejam super turbinar o processo.

Nuri al-Maliki
E o que anda fazendo a CIA, nessa confusão toda? Sempre, como sempre, obrando para que a confusão aumente bem: estão apoiado as milícias xiitas iraquianas aprovadas por Bagdá, para que se ponham a caçar os jihadis superstars do Estado Islâmico do Iraque e do Levante. O Primeiro-Ministro do Iraque, al-Maliki até já requereu que lhe sejam fornecidos drones da CIA, para bombardeá-los diretamente para o paraíso. Por sorte ainda não teve sorte. Por enquanto.

Bagdá já entendeu os sinais que veem no vento: consequência direta da ideia de dividir para governar, os jogos de sunitas-contra-xiitas dos norte-americanos foram incansavelmente estimulados ao longo de, já, dez anos; o próximo estágio é mais uma guerra civil, à moda do que está sendo feito na Síria, também no Iraque. A inteligência iraquiana está perigosamente infiltrada por jihadistas do Emirado Islâmico do Iraque. No deserto, não há fronteiras: a província de Anbar assiste atentamente ao que se desenrola na Síria, como ensaio final, figurino e maquiagem, do que acontecerá no Iraque.

É como se o recém nascido Emirado Islâmico do Iraque e do Levante mal pudesse esperar para retornar àqueles dias macabros, sinistros, de 2004 a 2008, quando o número de cadáveres empilhados fazia tremer qualquer Bruce Willis. E o que poderá fazer um Pentágono que já bate em retirada? Mais operação choque-e-pavor, tudo outra vez? Não, claro que não. Essa opção não está na mesa para o Iraque, nem para o Emirado Islâmico do Siriastão: só está na mesa para o Irã.


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Pepe Escobar - Síria: paraíso “jihadi”


11/1/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online, The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ver também 7/1/2013 – redecastorphoto, Teatro da Ópera, Damasco: “Discurso do presidente Bashar al-Assad: Passos para a paz na Síria”.
8/1/2013 – redecastorphoto, Franklin Lamb em: Assad no Teatro de Ópera de Damasco.

Pepe Escobar
Bashar al-Assad, pois, falou em tom marcial – pela primeira vez em sete meses. Como se poderia prever, culpou “terroristas” e “fantoches do ocidente” pela guerra civil na Síria.

O ministro turco das Relações Exteriores, Ahmet Davutoglu, aquele dos (antigamente) “zero problemas com os vizinhos”, comentou que Assad só lê relatórios do seu serviço secreto. Calma-lá, Ahmet! Bashar pode não ser nenhum Stephen Hawking, mas está administrando bastante bem os seus buracos negros.

E Assad tem um plano: diálogo nacional, que levará a uma carta constitucional nacional – a ser submetida a referendo popular – e, depois, governo ampliado e anistia geral. A questão é quem conseguirá usufruir toda essa felicidade engarrafada, porque Assad descarta total e absolutamente, não só nova oposição síria, mas também o Exército Sírio Livre [orig. Free Syrian Army (FSA)], todas as forças que, para ele, não passam de gangues de mercenários recrutados que recebem ordens de potências estrangeiras cujo único objetivo é dividir a Síria.

Bashar al-Assad  no Opera House, Damasco em 6/1/2013
Seja como for, Assad tem um plano. Primeiro estágio: as potências estrangeiras que hoje financiam os “terroristas” – como o conglomerado CCGOTAN, Conselho de Cooperação do Golfo + Organização do Tratado do Atlântico Norte – terão de parar de financiar os terroristas. Quanto a isso não há qualquer concessão: só no estágio seguinte o Exército Sírio fará cessar todas as suas operações, embora sempre se reservando o direito de responder a provocações que não se possam evitar.

Lakhdar Brahimi
O plano de Assad nada diz sobre o que acontecerá ao próprio Assad. O único ponto sobre o qual nunca houve divergência entre as várias correntes da oposição sempre foi que “o ditador tem de partir”, antes de ser possível alguma negociação. Nada disso, respondeu Assad. Assad será candidato à própria sucessão, em eleições que aconteçam em 2014.

Como se isso já não bastasse para torpedear de vez, para pôr a pique, todas as arquiteturas inventadas pelo atual mediador da ONU, Lakhdar Brahimi [1], há também o ponto crucialmente complexo de Brahimi insistir em incluir a Fraternidade Muçulmana (FM) em qualquer governo sírio de transição. Brahimi deveria prestar mais atenção em onde se mete. É como se a ONU insistisse em rezar por um milagre (a abdicação de Assad).

A Síria não é Tora Bora [2]

Hassan Nasrallah
Quem queira saber o que está realmente acontecendo na Síria, basta prestar atenção ao que diga o secretário-geral do Hezbollah, Sheikh Hassan Nasrallah, que fala das coisas como as coisas são.

Há também o que Ammar al-Musawi, terceiro homem do Hezbollah – é o ministro de Relações Exteriores de facto do Partido de Deus – disse a meu colega italiano Ugo Tramballi. [3] O cenário mais provável pós-Assad, se houver, será “não um estado unitário, mas uma série de emirados próximos à fronteira turca, e alguém proclamará um estado islâmico”. A inteligência do Hezbollah – a melhor que há no mundo, sobre a Síria – é clara: “um terço dos combatentes na oposição síria são extremistas religiosos; e dois terços das armas que circulam são controladas por eles”. Resumo da ópera: trata-se de guerra do ocidente, lutada na Síria por procuração; o Conselho de Cooperação Golfo (CCG) operando como “linha de frente” para a Organização do Tratado do Atlântico Norte.

Leitores de Asia Times Online já sabem disso há eras, como também sabem da mentira de proporções tectônicas segundo a qual haveria alguma autocracia do Golfo promovendo alguma “democracia” na Síria. A Casa de Saud abençoada pelos deuses da geologia usou até o último grão de areia para subornar quem pudesse subornar para tentar imunizar-se contra os miasmas da Primavera Árabe, mas, pelo menos no Kuwait, os ventos de mudança já forçam a família Al-Sabah a aceitar um primeiro-ministro que não é fantoche do emir. Sim, petromonarcas! Mais dia menos dia, vocês todos virão abaixo!

Ammar al-Musawi
Quem quiser continuar a ignorar Musawi, que meta a cabeça na areia o quanto queira; nem por isso evitarão a volta do chicote no lombo do chicoteador, “como no Afeganistão”. E Musawi acrescenta: “A Síria não é Tora Bora; está no litoral mediterrâneo, praticamente na Europa”. A Síria, nos anos 2010s é remix do Afeganistão nos anos 1980s – com altíssima probabilidade de o chicote voltar sobre o lombo vocês sabem de quem.

E os que sigam os mais cegos que vivem a repetir que o Hezbollah seria organização “terrorista”, anotem aí: o Hezbollah está trabalhando em íntima cooperação com a ONU, nas fronteiras do campo de combate, ao lado dos mais de 10 mil Capacetes Azuis comandados pelo general italiano Paolo Serra – para manter o sul do Líbano protegido contra qualquer contágio/contaminação pela guerra civil síria.

O ditador deixará o poder. É inevitável... De novo?!

Não surpreendentemente, as gangues de mercenários apresentadas e rotuladas como se fossem alguma “oposição síria” rejeitaram em bloco o plano de Assad. Para a Fraternidade Muçulmana – aspirante ao trono sírio, ou, no mínimo, a uma parte dele – Assad seria “criminoso de guerra” e terá de ser julgado. Para Georges Sabra, vice-presidente do tal “combinado” norte-americano/qatari chamado “Coalizão Nacional”, as palavras de Assad teriam sido “declaração de guerra contra o povo sírio”.

William Hague
Como se previa, o Departamento de Estado dos EUA – ainda não comandado por John Kerry – disse que Assad estaria “descolado da realidade”. Londres decretou que o discurso não passaria de hipocrisia e, imediatamente, inventou mais dois dias de reunião “secreta”, agendada para essa semana no Wilton Park em West Sussex, em que se misturarão os membros da tal “coalizão” e o velho selecionado de sempre de “especialistas”, professores de universidades, funcionários de governos do CCG e as tais “agências multilaterais”. William Hague, o espetacularmente patético ministro de Relações Exteriores do Reino Unido tuitou – pela centésima milésima vez – que “Assad deixará o poder em breve. É inevitável”.

Fatos em campo sugerem fortemente que Assad não deixará coisa alguma nem irá a parte alguma em futuro próximo.

Quanto ao que dizem os britânicos, que “a comunidade internacional pode dar apoio a um governo de transição”, nenhum sírio bem informado – dos que sabem que essa guerra civil está sendo financiada, mantida e amplamente coordenada pelo ocidente, especificamente pela parte OTAN do grupo CCGOTAN – deu qualquer importância à “novidade”.

Os sírios bem informados farejam a ação de um rato – ocidental – na obsessiva repetição de que a guerra na síria seria “guerra sectária”; para ter certeza de que nada é bem assim, consideram a quantidade imensa de sunitas influentes que permanecem leais ao governo sírio.

Farejam o rato – ocidental – quando olham para trás e veem que tudo começou exatamente no momento em que o gasoduto Irã-Iraque-Síria, de US$10 bilhões (que passa ao largo da Turquia, membro crucial da OTAN) começou a ser viabilizado, com chances reais de ser construído. Seria enorme impulso econômico para uma Síria independente, balde de água geladíssima, gesto não-e-não, contra tudo que tenha a ver com interesses ocidentais.

O governo Obama 2.0 – e Israel – gostariam muitíssimo de ver a Fraternidade Muçulmana no poder na Síria, acompanhando o modus operandi do que está sendo feito no Egito. A Fraternidade promove a ideia de um “estado civil”; basta examinar as poucas “áreas libertadas” na Síria, para saber o de que civilidade se trata, quando encarna em degoladores de vários matizes, seguidores linha-dura da Xaria.

Mas o que o CCGOTAN e Israel realmente desejam é um modelo à Iêmen, para a Síria: ditadura militar, sem o ditador. Pelo que se pode ver, continuarão a só obter, no curto prazo, um Paraíso Jihadista.

Cortem a cabeça deles!

Ayman al-Zawahiri
Há quase um ano, o número 1 da al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, convocou todos os fiéis sunitas linha-dura do Iraque e Jordânia ao Líbano, Turquia, e de toda parte, para viajar à Síria e, alegremente, derrubar, esmagar Assad.

E eles começaram a viajar, e continuam a chegar, incluindo – como aconteceu no Afeganistão – chechenos e uigures e asiáticos do sudeste da Ásia, reunindo gente de todo o tipo, do Exército Sírio Livre à Frente al-Nusra – principal milícia de assassinos, que hoje já reúne mais de 5.000 jihadistas.

Matéria publicada essa semana pela Quilliam Foundation [4], instituto de estudos de contraterrorismo com sede em Londres, confirma o papel da Frente Al-Nusra. O principal autor do relatório, Noman Benotman, é líbio, ex-jihadi, com laços muito estreitos com al-Zawahiri e com o falecido “Geronimo”, também conhecido como Osama bin Laden.

Frente al-Nusra, braço sírio da al-Qaeda
A Frente Al-Nusra é, de fato, o braço sírio da al-Qaeda no Iraque (AQI), marca terrorista registrada do falecido Abu Musab al-Zarqawi, também conhecida como Estado Islâmico do Iraque, depois que Zarqawi foi incinerado por um míssil dos EUA, em 2006. Até o Departamento de Estado sabe que o emir da al-Qaeda no Iraque, Abu Du’a comanda ambos os grupos, a AQI e a Frente al-Nusra, cujo emir é Abu Muhammad al-Jawlani.

É a al-Qaeda no Iraque que facilita o vai-e-vem de comandantes iraquianos – todos com vasta experiência de luta em terra contra os norte-americanos – para e de áreas sensíveis na Síria, enquanto os sírios, iraquianos e jordanianos da Frente al-Nusra também trabalham pelo telefone, para arrancar financiamentos de fontes do Golfo. A Frente Al-Nusra quer – claro, e o que mais quereria?! – um Estado Islâmico, não só na Síria, mas em todo o Levante. Tática favorita: carros e caminhões-bomba, com suicidas-bomba, e carros-bomba acionados por controle remoto. No momento, a Frente Al-Nusra mantém um regime tenso de colaboração/concorrência com o Exército Sírio Livre.

E o que acontecerá a seguir? A nova Coalizão Nacional Síria é piada. Aqueles bastiões de democracia organizados no CCG estão já completamente submergidos no tsunami jihadista. A Rússia demarcou a linha vermelha e a OTAN não se atreverá a bombardear; russos e norte-americanos estão discutindo detalhes. Mais dia, menos dia, Ancara afinal lerá a mensagem que grita pelos muros – e voltará atrás, revertendo para uma política de, pelo menos, reduzir ao mínimo qualquer problema com os vizinhos.

Assad viu e entendeu com clareza O Grande Quadro – daí o tom “confiante” de seu discurso. Agora se trata de Assad contra os jihadistas. A menos que, ou até que, a nova CIA, agora sob o comando de John Brennan, o Exterminador & seus drones, opte por intrometer-se diretamente no quadro da guerra clandestina-suja, para vingar-se.




Notas dos tradutores

[1] “Brahimi é o especialista em conflitos que envolvam forças islamistas (...) preferido do ocidente. Tem currículo consistente na arte de criar a ilusão de que haja negociações em curso onde nenhuma negociação exista, e a real discussão prossiga, inalterada, no campo de batalha. Kofi é independente demais; Brahimi obedece em tempo integral” (12/8/2012, redecastorphoto, MK Bhadrakumar, em: A proposta do Irã ao ocidente, sobre a Síria). 

[2] Sobre isso ver: Batalha de Tora Bora

Ugo Tramballi
[3] 8/1/2013, Al-Mussawi, numero tre di Hezbollah: ‘Se crolla Assad l'estremismo islamico si avvicinerà all'Europa [Al-Mussawi, número 3 do Hezbollah: “Se Assad cair, o extremismo islâmico se aproximará da Europa”], entrevista ao enviado Ugo Tramballi, Il sole 24 ore, Itália. (em italiano).

[4]
 8/1/2013, em Quilliam Foundation, press release: QUILLIAM RELEASES NEW STRATEGIC BRIEFING “JABHAT AL-NUSRA”

sábado, 22 de dezembro de 2012

Pepe Escobar: “Por quem dobram os sinos sírios”


21/12/2012, Pepe Escobar, Asia Times OnlineThe Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
A maior tragédia geopolítica em 2012 está a um passo de ser também a maior tragédia geopolítica em 2013: o estupro da Síria.

Como algumas outras vezes volto à minha passagem de Hemingway, ultimamente tenho voltado a ver alguns vídeos que filmei há anos, no souk de Aleppo – o mais extraordinário de todos os mercados do Oriente Médio [1]. É como levar um tiro pelas costas; sempre gostei muito, muito, tanto da arquitetura do souk, quanto dos mercadores e da gente que anda por ali. Semana passada, quase todo o souk – a pulsação viva de Aleppo por séculos – foi incendiado e destruído pelos “rebeldes” do chamado Exército Sírio Livre [orig. Free Syrian Army (FSA)].

Nessa tragédia síria, não há jovem herói de Hemingway, nada de Robert Jordan nas Brigadas Internacionais lutando ao lado e guerrilheiros republicanos contra os fascistas, na guerra civil espanhola. Na guerra civil síria, as brigadas internacionais são sobretudo mercenárias. Jihadistas-salafistas, do tipo que degola gente e explode carros. E os (poucos) jovens americanos que há por lá não passam de peões high-tech num jogo jogado pelo predatório clube CCGOTAN, dos fantoches árabes do Conselho de Cooperação do Golfe + a Organização do Tratado do Atlântico Norte.

A tragédia prossegue. O estado sírio e o aparato político e militar manterão as mini-blitzkriegs, sem se preocupar com “danos colaterais”. Na oposição, comandantes “rebeldes” apostarão num novo Conselho Militar Supremo encorajado pelos sauditas-qataris.

Os salafistas e jihadis-salafistas da Frente al-Nusrah – fanáticos do século 7º, degoladores e agentes especializados em explosões, que fazem a maior parte dos combates – não foram convidados. Afinal de contas, Washington decretou que a Frente al-Nusrah é “organização terrorista”. 

Mohammed Farouk Tayfour
Verifiquem agora a reação de um dos chefões da Fraternidade Muçulmana, nascido em Hama, vice-general Mohammed Farouk Tayfour: disse que a decisão foi “muito apressada”. E verifiquem a reação do novo líder da oposição síria, Ahmed Moaz al-Khatib, numa reunião dos “Amigos da Síria” no Marrocos: disse que a decisão deve ser “reconsiderada”. De fato, todos os grupos “rebeldes” declararam publicamente amor eterno e imorredouro aos linha-duríssima da Frente al-Nusrah.

Ahmed Moaz al-Khatib
Assim sendo, com os fanáticos da Frente al-Nusrah escondendo as barbas islamicamente corretas por baixo dos panos, deve-se esperar grandes avanços dos “rebeldes” sobre Damasco – apesar de dois grandes revezes (em julho passado e, agora, nesse dezembro) impostos aos “rebeldes” por cortesia da contraofensiva do governo sírio. Afinal de contas, algum resultado teria de dar tanto treinamento aprendido de Forças Especiais dos EUA, Grã-Bretanha e Jordânia, para nem falar dos carregamentos extras de armamento letal fornecidos por aqueles governantes das exemplares democracia do Golfo Persa. A Frente al-Nusrah controla partes da devastada cidade de Aleppo.

Regras do ódio sectário

E há também a orwelliana, recém inventada nova Coalizão Nacional de Forças Sírias Revolucionárias e de Oposição – co-produção Washington-Doha. Apresentamos o novo chefão, igualzinho ao velho chefão, que se chamava Conselho Nacional Sírio. Tudo, só retórica. A única coisa que interessa à nova “Coalizão Nacional” é arranjar mais e mais armas letais. E, ao contrário de Washington, adoram a Frente al-Nusrah.

Qatar despejou toneladas de armas “como doces” (nas palavras de um norte-americano comerciante de armas), na Líbia “libertada”. Só depois de atacados em Benghazi, o Pentágono e o Departamento de Estado acordaram para o fato de que armar os rebeldes sírios poderia ser, digamos, o mapa do caminho para novos contragolpes mortais. Tradução: o Qatar se encarregará de despejar toneladas de armas na Síria. Os EUA continuarão a “liderar da retaguarda”.

Esperem novos e mais horríveis massacres sectários como o que houve em Aqrab. O Channel4  oferece a versão mais confiável do que pode ter realmente acontecido. Prova-se assim, mais uma vez, que os “rebeldes” do CCGOTAN estariam realmente vencendo a guerra de YouTube. Então, esperem mais e mais ondas de incansável propaganda e versões “de especialistas” – com a mídia-empresa ocidental atuando como torcida organizada dos “combatentes da liberdade” sírios, em tom que faria corar de vergonha os jihadistas dos anos 1980s no Afeganistão.

Mikhail Bogdanov
Esperem mais e mais distorções de contexto, como quando o vice-ministro russo de Relações Exteriores, Mikhail Bogdanov disse que “a luta será cada vez mais intensa, e [a Síria] perderá dezenas, talvez centenas de milhares de civis... Se esse preço para derrubar o presidente parece aceitável para vocês... o que poderemos fazer? Para nós, é preço absolutamente inaceitável”.

Então, a Rússia tenta fazer todo o possível para impedir que aconteça. E se os “rebeldes” do CCGOTAN continuarem com as ameaças de atacar as embaixadas russa e ucraniana em Damasco, melhor que raspem a barba e tratem de esconder-se das Spetnatz – Forças Especiais Russas, que não são de conversa mole.

Esperem mais e mais ódio sectário, como o do xeique sunita e estrela da rede al-Jazeera Yusuf al-Qaradawi, o qual, como quem não quer nada, lançou uma fatwa que torna legítima a matança de milhões de sírios, militares ou civis, desde que sejam alawitas ou xiitas. Vídeo a seguir:


O ódio sectário reinará, com o Qatar no comando, seguido pelos sauditas com bolsos cheios e legiões de islamistas linha duríssima. Agenda: guerra contra os xiitas, contra os alawitas, contra os secularistas e até contra os moderados, não só na Síria, mas em todo o Oriente Médio.

Cara a cara: Patriot vs Iskander

A nova estratégia do Exército Sírio resume-se a sair do interior do país e das bases remotas, concentrando tropas nas vilas e cidades.

Esperam que a estratégia geral do CCGOTAN permaneça mais ou menos sem alteração: atacar o Exército Sírio no maior número possível de pontos; desmoralizá-lo; e continuar lubrificando o terreno para uma possível intervenção pela OTAN (todos os boatos inventados sobre armas químicas e a repetição incansável do mote da “catástrofe humanitária” são itens do vasto pacote de recursos dos especialistas em guerra psicológica).

É possível que o Exército Sírio tenha armamento mais pesado; mas, confrontado com um tsunami de mercenários e jihadistas-salafistas bem treinados e armados pelo clube CCGOTAN, a guerra pode durar anos, ao estilo da guerra civil no Líbano. Assim chegamos a “melhor” opção que resta: de fato, é opção derivada – matar o estado sírio, com mil, digamos logo, com um milhão, de cortes.

O que é certo é que a “coalizão de vontades” contra a Síria deixará de existir no instante em que vencer o jogo. Washington aposta em governo chefiado pela Fraternidade Muçulmana, para a Síria pós-Assad. Não surpreende que o Reizinho de Playstation na Jordânia esteja em pânico; ele sabe que a FM também tomará a Jordânia, o expulsará e o condenará a consumir os dias comprando na Harrods.

Aqueles monumentos exemplares de democracia – as petromonarquias medievais do Golfo Persa – também estão em pânico; temem o apelo popular dos Irmãos, como temem a peste. O Curdistão sírio – agora já definitivamente a caminho da total autonomia e eventualmente da independência – já deixa Ankara sem ar, de medo. Para nem falar da possibilidade de aquele tsunami de salafistas-jihadistas desempregados saltarem sobre a fronteira sírio-turca, para criar o inferno dos dois lados.

E há o relacionamento complexo entre Turquia e Irã. Teerã já preveniu Ankara em termos claros sobre o sistema de mísseis de defesa da OTAN 

George Little
Trata-se da obra-prima de novilíngua do final de 2012. O porta-voz do Pentágono, George Little enunciou, firme e claramente, que “os EUA estão apoiando a Turquia em seus esforços de autoproteção [contra a Síria]”.

Quer dizer que o deslocamento de 400 soldados norte-americanos para a Turquia para operar duas baterias de mísseis Patriot, aconteceu para a Turquia se “autoproteger” contra “ameaças potenciais que emanam da Síria”.

Tradução: nada disso tem algo a ver com Turquia; trata-se, exclusivamente, dos militares russos na Síria. Moscou deu a Damasco não só os muito efetivos mísseis supersônicos terra-terra Iskander (virtualmente imunes a sistemas de mísseis de defesa), mas também o sistema terra-ar, de defesa contra alvos múltiplos, Pechora 2M, um pesadelo para o Pentágono, no caso de, algum dia, vir a ser imposta uma zona aérea de exclusão sobre a Síria.

Recep Tayyip Erdogan
Bem-vindos ao encontro, cara a cara, Patriot vs Iskander. E bem na linha de fogo, lá está ele, o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan – ególatra tamanho-gigante, que padece de profundo complexo de inferioridade em relação ao europeus – deixado na chuva, no plano máster da OTAN.

O calcanhar de Aquiles da Turquia (além dos curdos) é o papel que os próprios curdos promovem, de estarem localizados numa encruzilhada de energia entre leste e oeste. O problema é que a Turquia depende de suprimento de energia que recebe de ambos, Irã e Rússia. Pouco espertamente, a Turquia antagoniza esses dois lados ao mesmo tempo, com sua confusa política para a Síria.

“Só ouço destruição e trevas” [2]

Como resolver essa tragédia? Ninguém parece estar ouvindo o vice-presidente da Síria Farouk Al-Sharaa. Em entrevista ao jornal libanêsAl-Akhbar, Al-Sharaa chama a atenção para a “o risco de a guerra atual destruir a Síria, história, civilização e povo. A cada dia que passa, a solução fica mais distante e mais difícil, militar e politicamente. Temos de nos posicionar para defender a existência da Síria”.

Al- Sharaa não tem “resposta clara sobre qual possa ser a solução”. Mas tem um mapa do caminho:

Farouk Al-Sharaa
Acordo algum, comece com conversações ou acordos entre capitais árabes regionais ou estrangeiras, jamais existirá sem uma base síria sólida. A base tem de ser síria, para um acordo histórico, que terá de incluir os principais países da região e os países-membros do Conselho de Segurança da ONU. Esse acordo deve incluir o fim de todos os tipos de violência, e a criação de um governo de unidade nacional com amplos poderes. E terá de vir acompanhado da resolução de dossiês sensíveis relacionados à vida das pessoas e suas legítimas demandas.

Não é o que os membros do clube CCGOTAN querem – com EUA, Grã-Bretanha, França, Turquia, Qatar e Arábia Saudita engajados, cada um, em sua própria agenda, mesmo se divergente das demais. Mas a guerra do CCGOTAN já alcançou um dos seus objetivos – muito semelhante, sim, ao que se viu no Iraque em 2003: já reduziram a farrapos o frágil tecido social sírio.

É capitalismo de desastre em plena ação, fase I; o terreno já está preparado para uma lucrativa “reconstrução” da Síria, depois de instalado lá um governo servil, maleável, pró-turbo-capitalismo ocidental.

Mas... a volta do cipó de aroeira no lombo de quem chicoteia é fenômeno que opera por vias misteriosas: milhões de sírios que, de início, apoiaram a ideia de um movimento pró-democrático – dos empresários em Damasco aos mercadores em Aleppo – já mudaram de lado e hoje incham a base de apoio ao governo sírio, como uma espécie de contragolpe contra a horrenda limpeza étnico-religiosa que está sendo promovida pelos ‘'rebeldes'’ do tipo al-Nusrah.

Mas, com o CCGOTAN de um lado, e Irã-Rússia de outro, os sírios comuns, apanhados no centro do fogo cruzado, não têm para onde ir. Nada deterá o CCGOTAN até ter esculpido – em sangue – qualquer tipo de entidade, seja um emirado pró-EUA, seja uma “democracia” pró-EUA comandada pelos Irmãos da Fraternidade Muçulmana. Não é difícil ver por quem os sinos dobram na Síria: não dobram por ti, como em John Donne; dobram pela catástrofe, pelas trevas, por mais mortos e mais destruição. 



Notas
[1] Vejam imagens (turísticas) do souk de Allepo. 
[2] Som Original de All I hear is doom and gloom. Dos Rolling Stones. (com tradução ruim) [NTs]. 

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Pepe Escobar: “Realpolitik” e “linha-limite” [red line] de Obama na Síria


23/8/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
Aí estão, de volta, as Armas de Destruição em Massa (ADMs). Como se voltassem também os dias de glória de Dábliu Bush. Não, não. Ninguém encontrou à venda em eBay as inexistentes ADMs de Saddam. Trata-se agora das existentes, de Bashar al-Assad. E não são ADMs usadas como pretexto para invadir e ocupar, mas ADMs usadas como pretexto para todos os tipos de eufemismo que o governo Obama inventará para definir “atividade militar cinética”. 

A coisa levanta muitas desconfianças, sobretudo se se considera que Damasco já anda dizendo e repetindo que jamais usará armas químicas contra os “rebeldes”.

Barack Obama
E vem o presidente Obama dos EUA: “Uma linha-limite [red line] para nós será se começarmos a ver sinais de movimentação ou de utilização de armas químicas”. [1]

Significa que uns poucos contêineres de gás mostarda deslocados de um depósito para outro já constituirão casus belli. Mas... perceberam? Obama disse que essa seria “uma” linha-limite – o que é o mesmo que dizer que há outras (clandestinas, não ditas).

Obama também chamou atenção para “medos” em Washington de que as ADMs sírias “caiam em mãos de gente errada”. Considerando que a Agência Central de Inteligência (CIA) participa do negócio – ao lado de Arábia Saudita e Qatar, fiéis escudeiros do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) – de fornecer armas para a miríade de gangues que constituem o Exército “Não Exatamente” Sírio Livre (ESL), e que inclui centenas de jihadis salafistas, é como se Obama dissesse, com todas as letras, que as gangues são a “gente errada”. De onde se conclui que o regime de Assad é a “gente certa”.

Terá sido mensagem codificada que Obama enviou à Turquia – como se dissesse: se você invadir o noroeste da Síria, já praticamente convertido em zona curda autônoma, terá de invadir sozinho, quer dizer, sem a ajuda da OTAN e sem o Pentágono? Terá sido mensagem para a “gente errada”, também conhecida como “os rebeldes”, de que, exceto pela ajudinha de alguns rapazes e moças vagamente efetivos e clandestinos da CIA, vocês estão por conta e risco de vocês mesmos?

Essas duas possibilidades aparecem discutidas na página internet Moon of Alabama. [2]

Mas também é possível que o governo Obama tenha afinal percebido que uma Síria pós-Assad governada pela Fraternidade Muçulmana (FM) Síria – que é infinitamente mais sectária e linha-dura que a correspondente Fraternidade egípcia – não é aposta exatamente muito lúcida.

Mohammed Mursi
A Casa Branca e o Departamento de Estado estão lívidos de medo (a) do que possa advir da varrida que o presidente Mohammed Mursi do Egito deu na liderança do Conselho Supremo das Forças Armadas e (b) das próximas visitas diplomáticas de Mursi a – deus nos livre! – Pequim e, depois, a Teerã, para participar da reunião de cúpula do Movimento dos Não Alinhados. Se a Fraternidade Muçulmana já conseguiu fazer tudo isso, imaginem o que pode fazer na Síria, a qual, para começo de conversa, não está na esfera de influência de Washington.

Assim sendo... melhor deixar que a coisa toda se afunde numa libanização – ou somalização – cenário que desmobiliza o exército sírio e enfraquece o governo central em Damasco, apagando assim a “ameaça síria”, para o caso de o duo pirado de inventadores de guerra Bibi-Barak em Israel insistir em atacar o Irã?

Tome a democracia e recheie com explosivos

Hillary Clinton
Vejamos como está a situação. As Três (des)Graças da Guerra – Hillary Clinton, Susan Rice e Samantha Power – e a doutrina delas da “Responsabilidade de Proteger” [“responsibility to protect”, R2P), aplicada “com pleno sucesso” na Líbia, já fracassou miseravelmente na Síria.

Não haverá “zona aérea de exclusão” – cuja implantação é declaração de guerra. Nada de bombardeio “humanitário”, já bloqueado no Conselho de Segurança da ONU por Rússia e China, nada menos de três vezes.

Além do mais, já se sabe que a histeria da “guerra dos mundos”, já velha de mais de dez anos, nunca passou de boataria intergaláctica: a CIA, associada à Casa de Saud e ao Qatar está apenas, mais uma vez, aliada a jihadistas salafistas da variedade al-Qaeda, fazendo guerra contra a Síria, que é república árabe secular.

A questão crucial sobre a Síria é como Rússia e China interpretam a linha-vermelha-limite de Obama.

Eis a resposta dos russos. A linha-vermelha-limite dos russos é que os EUA têm de respeitar “as normas da lei internacional”; nada de “democratizar à bomba”; e só o Conselho de Segurança da ONU tem competência para autorizar ataque na Síria. Repetindo: pela terceira vez, só até aqui, Rússia e China disseram não à guerra de Obama. [3]

Sergei Lavrov
Eis a resposta dos chineses. Nada de vias diplomáticas, como preferiu o ministro de Relações Exteriores da Rússia Sergei Lavrov. Os chineses falaram por um Editorial em Xinhua – o qual, no contexto chinês, significa “opinião oficial de Pequim”. O título já diz tudo: O alerta de “linha-limite” de Obama visa a criar novo pretexto para intervenção na Síria.

Num parágrafo, o resumo da política externa dos EUA, como a veem os chineses: Não é difícil ver que, sob o disfarce do humanitarismo, os EUA sempre tentaram incansavelmente depor governos que considerem perigosos para os chamados seus “interesses nacionais”, e substituí-los por gente amiga de Washington.

Todos os jogadores chaves aqui citados – Rússia, China e EUA – sabem que Damasco não cometerá a loucura de usar (nem de “movimentar”) armas químicas. Portanto, não surpreende que Moscou e Pequim mostrem-se tão altamente desconfiados de que a conversa-gambito de Obama sobre “linha-vemelha-limite” não passe de mais uma manobra de despistamento e tentativa de “liderar da retaguarda”, como Obama fez na Líbia. (A conversa de Obama no caso da Líbia nunca fez sentido; o ataque à Líbia foi iniciado pelo Comando dos EUA na África, Africom; só depois foi “repassado” à OTAN).

Como Asia Times Online já vem noticiando há mais de um ano, mais uma vez o quadro é claro: está em curso uma batalha de titãs entre CCG-OTAN e dois BRICS, Rússia e China.

O que se disputa é nada menos que a vigência da lei internacional – a qual persiste em movimento de escorrer pelo ralo, no mínimo, desde que o Vietnã foi atacado com “agente laranja”; prosseguiu no governo Dábliu e seu ataque ao Iraque em 2003; e alcançou o fundo abismal do poço com o “bombardeiro humanitário” da Líbia. Para não falar de Israel que diariamente ameaça bombardear o Irã – com a animação de quem vai a uma loja de comida kosher.

Bem... Sempre se pode sonhar com o dia em que um mundo multipolar despachará a carta de demissão definitiva, para esses inventadores de linhas-limite vermelhas pró-guerras.
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Notas de rodapé
1. 20/8/2012, New York Times, Mark Lander em: Obama Threatens Force Against Syria”.
2. 21/8/2012, Moon of Alabama (MofA) em: Obama To Assad - Do Whatever You Need To Do”.
3. 21/8/2012, Reuters, Steve Gutterman e Thomas Grove em: Russia warns West on Syria after Obama threats”.