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terça-feira, 11 de março de 2014

Luta entre os oligarcas na Ucrânia (2/2)

9/3/2014, Jessica Desvarieux entrevista [*] Aleksandr Buzgalin, TRNN  (Baltimore)
Traduzida pelo pessoal da Vila Vudu

Ver também: 7/3/2014, TRNN em: Luta entre os oligarcas na Ucrânia (1/2)


JESSICA DESVARIEUX, Produtora de TRNN: Obrigada por nos receber outra vez, Aleksandr. Aleksandr é professor de economia política na Universidade Estatal de Moscou.

ALEKSANDR BUZGALIN: Obrigado a vocês pela oportunidade de discutir essas questões extremamente importantes para todos – especialmente para nós.

DESVARIEUX: São questões realmente importantes. Falemos primeiro, Aleksandr, sobre o que está acontecendo na Rússia. Os russos apoiam o movimento de Putin, de invadir a Crimeia?

BUZGALIN: Repito que, na Rússia, não se ouvem essa terminologia e essas expressões “intervenção na Crimeia” ou “intervenção na Ucrânia”. Na Rússia, estamos falando – quero dizer, a imprensa de massa, os funcionários etc. – sobre apoiar o povo da Crimeia, as pessoas nas regiões leste da Ucrânia, que não querem obedecer às novas leis fixadas pelo governo da Praça Maidan em Kiev e em regiões do oeste da Ucrânia, com apoio de forças ucranianas nacionalistas. E isso criou uma grande onda de nacionalismo russo.

Mas também é verdade que essa onde tem uma base real, porque no leste, no sudeste da Ucrânia, especialmente na Crimeia, a maioria da população são falantes de russo, e temos tradições e amizade muito antigas de vida em comum. Para nós, ter tropas da OTAN, por exemplo, na Crimeia, é algo como, digamos, sei-lá, a Marinha Russa aparecer e implantar-se em New York, no Rio Hudson. É equivalente. Qual seria a reação de norte-americanos, digamos ‘normais’, se a Rússia implantasse bases em New York? Nós somos muito pacíficos, os russos. É só uma imagem.

Outro exemplo. Por que estamos tão emocionais – e há muita emoção, não são só análises, na Rússia? Por quê? A situação é semelhante, por exemplo, na Bélgica. Você sabe que há uma parte que fala francês e outra parte fala flamengo, na Bélgica. O que aconteceria se passasse a ser proibido falar francês, a metade da população da Bélgica, em todos os graus, todas as universidades, todas as escolas, livros escolares, programas na televisão, a televisão estatal, tudo passasse a usar só o flamengo, nada mais em francês? Qual seria a reação da França e dos falantes de francês na Bélgica? Como reagiriam os europeus?

DESVARIEUX: Mas o primeiro-ministro já vetou essa lei, Aleksandr. E o presidente Putin a dizer que os russos na Ucrânia estavam sendo atacados... Quero dizer: as pessoas estão acreditando nisso? É que... Esse foi um modo pelo qual o presidente Putin conseguiu obter muito apoio na Rússia?

BUZGALIN: É a questão de não intervir com tropas. Espero que não haja intervenção, porque poderia ser uma provocação para guerra. E guerra entre a Ucrânia e a Rússia, isso, em primeiro lugar, é tragédia, mas também é algo extremamente negativo do ponto de vista moral, do ponto de vista cultural, em todos esses aspectos. É. Não se trata só de vítimas e problemas materiais. Há também grandes problemas morais e culturais. São muito importantes, porque temos aqui, muitos, muitos anos – temos centenas de anos de amizade. É importante.

Essa é a razão, do meu ponto de vista, porque na Rússia temos reais sentimentos de amizade pelos ucranianos e, especialmente, pela parte pró-Rússia da Ucrânia. A realidade é essa. Não é coisa artificialmente criada por Putin ou por outro qualquer. Há uma parte pró-Rússia da Ucrânia. É aproximadamente metade da população.

Mas há também os jogos geopolíticos, há também os objetivos geopolíticos, e há a tentativa de mostrar que a Rússia é hoje uma superpotência, e que todos devem levar isso em consideração.

Afortunadamente ou infortunadamente – não importa – mas a Rússia não é superpotência. E um dos países importantes do mundo, mas mais nada. E espero que encontremos solução pacífica, sem tropas russas e sem tropas da OTAN.

Mas se a Ucrânia passar a ser parte da OTAN – e a Crimeia, nesse caso, for base para a frota da OTAN e tal, Sebastopol será parte do território da OTAN. Isso será terrível, gerará todos os tipos de sentimentos negativos na Rússia. E haverá manifestações explosivas de massa contra isso, não só por causa do nacionalismo, mas também por causa de tradições históricas e heroicas, como já falamos. Quanto a isso, todo o cuidado é pouco.

DESVARIEUX: Sim. Bom que você tenha falado da OTAN, porque quero perguntar-lhe sobre sua perspectiva das elites políticas russas e de como estão preocupadas com os ucranianos tecerem laços mais próximos com a União Europeia. Putin também está preocupado? Se se criarem laços mais próximos com a União Europeia... eventualmente poderá implicar que se tornem parte da OTAN? Pode comentar um pouco esses aspectos?

BUZGALIN: OK. Para começar, União Europeia e OTAN não são a mesma coisa, mas, sim, há interconexão muito profunda entre elas. E essa interconexão não é, pode-se dizer, muito positiva.

De modo geral, as pessoas estão pensando em relações econômicas, culturais, políticas mais próximas com a UE, interessadas nos padrões da socialdemocracia europeia. Tudo isso é positivo.

Mas se se pensa que nos tornaremos parte das políticas da OTAN, que ataca, por exemplo, o Iraque... Isso é muito gravemente negativo. A verdade é que há um enorme ponto de interrogação, porque há uma enorme contradição, entre a OTAN e os valores da socialdemocracia europeia

E estamos pensando mais, não sobre os valores da socialdemocracia, mas sobre a OTAN. Por quê? Porque na periferia dos países da União Europeia veem-se bem poucos traços do modelo da socialdemocracia. Não há proteção social, ou só há muito pouca; nem justiça social – que só se vê, tipicamente, nos países escandinavos. Mas há muito interesse em usar esses ‘novos’ territórios que interessam à União Europeia, como partes para o processo de manipulação, para favorecer os objetivos da OTAN. Por isso a questão tornou-se tão tensa.

A imagem de que a OTAN não é organização amiga dos russos é também parte da realidade, infelizmente, também. Muito frequentemente, os russos temos dificuldades para entender contra quem a OTAN luta – contra o terrorismo? Mas, aqui, não é preciso implantar armas estratégicas. Contra a China? Mas isso, se é isso, ninguém diz. Contra a Rússia? Se é, ninguém diz.

Esse é um grande ponto de interrogação para todos os russos: a OTAN existe contra o quê? Contra quem? Por que não podemos criar um sistema internacional de segurança sob a supervisão da ONU? Por que alguém precisa da OTAN? E para os russos essas são perguntas importantes.

A militarização da Rússia é tendência negativa, mas para muitos é tendência compreensível, enquanto existir a OTAN. Eu não gosto nem de uma coisa nem da outra, nem da militarização nem dessas novas tendências na mentalidade dos russos.

Na Rússia também há gente que realmente defende o respeito aos direitos humanos, a proteção da soberania nacional e tudo isso...

Mas o que se vê com muita frequência são políticos dos EUA, a própria política da OTAN, todos com dois pesos e duas medidas, com padrões ambíguos. O que está certo para a OTAN não está certo para a Rússia. A OTAN pode iniciar uma guerra em qualquer região do mundo, sem a autorização dos russos. Mas a Rússia não pode fazer guerra em lugar algum do mundo, sem a autorização dos cidadãos russos. A OTAN se apresenta como os únicos policiais do mundo, só a OTAN, mais ninguém. Não sei se todos os países concordam com isso, no ocidente. O que sei é que, na Rússia, a maioria não aceita, a maioria não concorda com isso.

E há mais um aspecto. Há o aspecto negativo do comportamento de nossos liberais de extrema-direita, para os quais todas as decisões da extrema-direita ocidental estão sempre certas; todas as demais opiniões e decisões são más e estão erradas, e não importa quem tenha tomado uma ou outra decisão. Pode ter sido o presidente de Cuba, o presidente da Venezuela, o presidente da Rússia, o presidente da China: se Obama diz que é decisão errada, é errada e não se fala mais nisso.

Esse tipo de comportamento da intelligentsia da chamada “elite” russa de extrema-direita gera alienação e separa completamente essa chamada “elite” e a maioria dos russos; e vai provocando sempre mais e mais nacionalismo.

Por fim, há democratas e internacionalistas sinceros, como eu, como nossos amigos e como os que se reúnem na rede “Alternatives”, nos movimentos em defesa da democracia, de defesa de melhor educação etc., nós vamos ficando numa posição terrível.

Porque hoje, se se fala de democracia, para a maioria está-se falando da “democracia” das tropas da OTAN, implantadas pelas tropas da OTAN, não de verdadeira democracia de baixo para cima.

E cada vez que temos de discutir essa questão, é indispensável explicar que não se trata da geopolítica da OTAN, que é necessidade do povo russo, que nós e a OTAN dizemos coisas muito diferentes...

O mesmo acontece no caso da Ucrânia, por exemplo. Não sei se alguma praça ocidental apoiará a Rússia se for o caso de unir a Ucrânia à Rússia. Será que a ‘mídia’ ocidental apoiaria uma praça Maidan favorável à Rússia? Será que a imprensa ocidental publicaria que é perfeito que o povo da praça invadisse os prédios do governo que queria se unir à União Europeia?

Imaginem a cena, por favor: Yanukovich decide que a Ucrânia, sim, será parte da União Europeia; e o povo ucraniano diz que não, nós não queremos nos integrar à União Europeia... [Será que a imprensa ocidental daria ao evento contra a integração, o mesmo destaque que deu ao evento a favor da integração, que aconteceu quando Yanukovich decidiu que a Ucrânia não se integraria à UE?] O que acontece é que 50% dos ucranianos, ou bem perto disso, um pouco mais, um pouco menos, não querem ser integrados à União Europeia. Daí veio a Praça Maidan e a ocupação dos prédios que se viu.

Mas se acontecesse o contrário [o governo decide a integração e a Praça se manifesta contra], qual seria a reação dos EUA? Diriam “bravo, povos da Ucrânia. Querem ser parte da Rússia? Ótimo. Respeitamos a decisão de vocês. Gostamos da democracia de vocês!” É claro que isso jamais aconteceria. Aconteceria o contrário disso!

Na Rússia, entendemos que aconteceria o contrário. Que não haveria aplausos. Por isso nós não confiamos muito no apoio que o ocidente oferece só à chamada socialdemocracia ocidental, infelizmente.

DESVARIEUX: Muito obrigada. Aleksandr Buzgalin, professor da Universidade Estatal de Moscou. Obrigada por conversar conosco.

BUZGALIN: O obrigado a você, pela oportunidade de expor essas sugestões, provocativas e discordantes, mas importantes.

[fim da entrevista]



[*] Aleksandr Buzgalin é professor de Economia Política na Universidade Estatal de Moscou. É também editor da revista da esquerda democrática independente Alternatives, e coordenador do movimento social russo “Alternatives”, autor de mais de 20 livros e de centenas de artigos traduzidos ao inglês, ao alemão e outras várias línguas.


segunda-feira, 10 de março de 2014

Luta entre oligarcas na Ucrânia (1/2)

7/3/2014, Jessica Desvarieux entrevista [*] Aleksandr Buzgalin, TRNN (Baltimore)
Transcrição traduzida pelo pessoal da Vila Vudu


JESSICA DESVARIEUX: Obrigada, Aleks, por nos receber.

ALEKSANDR BUZGALIN, Prof. Economia Política, Universidade Estatal de Moscou: Obrigado a vocês, pela oportunidade de contar-lhes algumas coisas, espero que importantes para vocês.

DESVARIEUX: Aleksandr, você pode começar, por favor, falando sobre como a Crimeia passou a ser parte da Ucrânia em 1954, história da região e o relacionamento com a Rússia?

BUZGALIN: Essa história é longa. Para começar, quero lembrar que durante centenas de anos, muito tempo, a Ucrânia foi parte do Império Russo, e as relações entre ucranianos e russos não eram más; e era difícil saber onde passava a fronteira, por que Kiev, a moderna capital da Ucrânia, foi uma das cidades mais importante, um dos centros culturais mais importantes de nosso país; Gogol, Shevchenko e outros escritores, pintores, atores, todos eram parte de uma cultura comum. Para nós, a Ucrânia sempre foi parte de nossa civilização, e o mesmo vale para a maioria dos ucranianos. Isso é importante.

Claro que houve opressão, mas éramos todos oprimidos pela elite do czar e da brutal capital da Rússia do passado.

Depois do fim da União Soviética, a Ucrânia tornou-se independente. Foi também importante fonte de conflito, porque era conflito, principalmente entre oligarcas ucranianos pró-ocidente e oligarcas russos ou ucranianos pró-oligarcas russos, que eram os verdadeiros exploradores do povo e da natureza da Ucrânia. Aí, é difícil dizer quem era melhor, quem era pior. Os dois lados eram piores...

Sobre a Crimeia é outra história. A Crimeia foi parte da Rússia, antes foi território dos tártaros, já era história longa. No século 18, foi parte do Império Russo. E só há 50 anos tornou-se parte da Ucrânia, artificialmente, se pode dizer, porque Khrushchev, secretário-geral do Partido Comunista decidiu dar a Ucrânia de presente ao primeiro-secretário do PC, que era ucraniano.

A absoluta maioria do povo da Crimeia falam russo, alguns são ucranianos, e a língua ucraniana era artificial, nesse território. Estive muitas vezes nessa região. Costumava passar férias e feriados por lá. Deu cursos e palestras na unidade em Sebastopol da Universidade Federal de Moscou. É território russo, não por tentativas de ocupação, mas porque é, é a realidade.

Havia também um acordo entre Rússia e Ucrânia que a base naval em Sebastopol, uma base naval muito importante, onde há tropas, aviões etc., seria base comum das frotas e de tropas russas e ucranianas, aviões russos e ucranianos, aviões militares etc. Havia controle mútuo e mútuos conflitos, mas, tipicamente, eram os mesmos que haviam sido oficiais na União Soviética no passado, com as mesmas tradições, os mesmos símbolos históricos, as mesmas vitórias, derrotas, tudo.

A Crimeia é parte importante, da luta heroica contra a ocupação fascista, e a defesa de Sebastopol foi terrível e heroica. Isso é parte da história da humanidade, não é história só dos nossos países, porque ali se lutou realmente contra o fascismo, o fascismo alemão, romano, tropas italianas, tropas fascistas durante a 2ª Guerra Mundial. Tudo isso é uma importante pré-história.

De fato, hoje, não se pode falar de intervenção por soldados russos. Ali tudo já era russo, marinha, soldados, aviação militar. E era situação legal, porque sempre houve acordo entre a Rússia e a Ucrânia, desde antes.

O problema é que algumas forças militares decidiram participar em apoio à paz, e porque não há batalhas na Crimeia. Aqui cabe um ponto de interrogação, porque, conforme o Tratado, não sei se era necessário que fosse assim – que os soldados cuidassem disso – ou se a militsiya da Ucrânia é que era responsável por manter a paz nessa região, como em outras regiões do país.

O caso é que, quando emissários de um governo de transição, se se pode chamar assim, chegaram à Crimeia, e tinham o apoio de nacionalistas ucranianos, alguns deles com slogans e símbolos fascistas, a população da Crimeia viu ali um ataque, como ocupação, do ponto de vista da maioria da população da Crimeia. Nessa situação, as forças militares se converteram em forças de pacificação, muito mais do que as forças que ocuparam território da Ucrânia. É contraditório. E tenho certeza de que o referendo dirá não ao novo governo ucraniano: nós queremos ser independentes.

Não sei realmente por que, mas, depois do fim da União Soviética, a Ucrânia disse que queria ser independente, e tudo bem, até que alguém começou a falar de ocupação, contra ocupação ou algo desse tipo. Agora, se a Crimeia quer ser independente, tem todo o direito de ser, é assunto deles.

Claro que estou com muito medo de alguma ocupação REAL, por soldados da OTAN, ou da Rússia, ou da Rússia e da OTAN. Tudo aí pode ser provocação para forçar uma guerra. Já estamos perto do 100º aniversário da 1ª Guerra Mundial. E por que aquela guerra aconteceu? Por que ex-aliados, os povos alemão e francês, de uma única Europa cultural, puseram-se a matar-se entre eles, até que mais de 10 milhões de pessoas foram mortas? Para quê? Era o mesmo país democrático – a Alemanha era país democrático burguês; a França era país democrático burguês. E houve aquela batalha terrível por nada, por causa de convicções imperialistas.

Agora, é claro, há o problema das ambições geopolíticas de Putin e de outros funcionários russos. Não apoio nenhuma dessas ambições.

DESVARIEUX: Obrigado por mencionar Putin, porque quero falar sobre por que Putin decidiu agir com tanta pressa e intervir na Crimeia. Por que, em sua opinião?

BUZGALIN: Para começar, não sou Putin e, na maioria das vezes não entendo a lógica dele. Portanto, essa é uma pergunta que você deve fazer a ele, não a mim. Mas ele deu algumas explicações, nas entrevistas com jornalistas. Não quero repeti-las. Mas aconselho que você traduza as entrevistas de Putin e as leiam com atenção, pensem sobre elas, diga ele coisas verdadeiras ou não. Recomendo que não ignorem a entrevista do presidente Putin.

Acho que há duas tentativas, de mostrar que a Rússia é um grande estado, que desempenha um grande papel na política internacional mundial. Essa é uma das ambições de Putin e da burocracia russa em geral. Mas há também outro aspecto, porque depois daquela fala de Putin e da decisão tomada pelo nosso Parlamento, a situação na Crimeia ficou muito mais calma que antes. Agora, aqueles nacionalistas ucranianos estão com medo de vir à Crimeia e dizer “caiam fora”, ao povo que veio para votar na Praça.

Na Crimeia foi igual a Kiev. Foi Maidan na Crimeia. As pessoas foram às praças e disseram “não queremos ter aqui o governo que se estabeleceu em Kiev. Não é nosso governo, não gostamos deles, temos nossa própria vontade. Nós, povo da Crimeia queremos ter nosso próprio governo. Não venham para cá. Não respeitamos vocês. Entendemos que vocês não foram eleitos. E não foram....

DESVARIEUX: E é por isso que haverá votação no final de março, é isso? Haverá uma votação de referendo.

BUZGALIN: Eles querem fazer um referendo. Acho até que será mais ou menos democrático, como qualquer votação em situação de semirrevolução. Você sabe, agora é... Na Ucrânia, o poder é baseado na opinião das praças, e essa não é iniciativa da maioria dos ucranianos, só é iniciativa dos que foram à Praça Maidan, dos que estão indo a praças na Crimeia, em Carcóvia, em Donbass, em outras regiões, em regiões do oeste da Ucrânia.

Entendo que é preciso respeitar a opinião desses, mas não se pode pensar que essa seja a única opinião do povo da Ucrânia. Há estratos diferentes, diferentes interesses, contradições socioeconômicas muito profundas entre os oligarcas, oligarcas pró-ocidente e oligarcas pró-Rússia, por trás de tudo isso.

Na verdade, os novos enviados de Kiev para as regiões do leste do país são imensos oligarcas, proprietários dos maiores capitais na Ucrânia. Não são portanto qualquer alternativa a Yanukovich ou a qualquer outro – é o mesmo capitalismo oligárquico burocrático, que organizará a mesma manipulação burocrática, ou, talvez, ainda pior que a de antes.

As pessoas estavam fartas de Yanukovich, e entendo muito bem que é necessária uma revolução democrática. Mas o que aconteceu na Ucrânia, infelizmente, não é real revolução democrática, não foi feito pelo povo comum que queria mudar o poder burocrático, corrupto. Agora, chegaram ao poder representantes de outros grupos oligárquicos, outras forças geopolíticas que querem manipular a Ucrânia.

E, também – é extremamente importante, e quero destacar. A verdadeira força que ajudou a pôr no poder o novo governo da Ucrânia são os nacionalistas ucranianos. E eles usam diretamente símbolos e slogans de tropas na Ucrânia que apoiaram o fascismo, o fascismo alemão, por ações terríveis contra populações pacíficas, contra judeus, principalmente, contra o povo da Bielorrússia, contra ucranianos e contra russos que não apoiavam o fascismo e que não queriam apoiar a Alemanha fascista. Era, vale lembrar, luta anticomunista. E agora, em algumas regiões da Ucrânia, as autoridades regionais já estão dizendo que o Partido Comunista deve ser proibido, porque é partido pró-Rússia.

A lei que proibia o uso de símbolos fascistas já não existe. Agora eles dizem que quem queira pode usar símbolos fascistas, que não importa.

Não gosto do nacionalismo russo. Odeio o nacionalismo russo. Mas também odeio o nacionalismo ucraniano, como odeio todos os nacionalismos.

Um aspecto importante (desculpe, Jessica; quero também destacar isso), é a posição dos EUA e de alguns comentaristas europeus – quero dizer, não é a posição dos norte-americanos, do povo comum e democrático dos EUA, mas a posição do governo e de alguns veículos dos meios de massa dominantes. O que ali se ouve é apenas um modo de pensar sobre os eventos, sem nenhuma análise mais profunda das contradições, sem análise alguma do contexto socioeconômico, nem das contradições de classe, que existiam na Ucrânia e que são muito importantes.

Por isso, precisamente, eu quis oferecer aqui uma reflexão mais complexa, mais contraditória da situação. Não temos soluções boas. Só podemos escolher entre uma solução ruim e uma solução muito ruim. O caso é esse, infelizmente.

DESVARIEUX: OK. Obrigada, Aleksandr Buzgalin, professor da Universidade Estatal de Moscou.
Na segunda parte dessa entrevista, gostaria de voltar a Rússia e conversar sobre algumas das políticas em jogo. Na sequência, a parte dois dessa entrevista.
Obrigada por nos receber, Aleksandr.

BUZGALIN: Obrigado.

[continua]



[*] Aleksandr Buzgalin é professor de Economia Política na Universidade Estatal de Moscou. É também editor da revista da esquerda democrática independente Alternatives, e coordenador do movimento social russo “Alternatives”, autor de mais de 20 livros e de centenas de artigos traduzidos ao inglês, ao alemão e outras várias línguas.


domingo, 18 de novembro de 2012

As raízes de mais um ataque israelense contra Gaza


O conflito não começou com foguetes lançados contra Israel

18/11/2012, Phyllis Bennis , The Real News Network, TRNN
Vídeo-entrevista traduzida pelo pessoal da Vila Vudu


JESSICA DESVARIEUX, produtora, TRNN: Bem-vindos à The Real News Network. Sou Jessica Desvarieux, em Baltimore.

Dia 14/11, o governo de Israel atacou Gaza, atando um dos comandantes militares do Hamás. Para falar sobre isso, temos conosco Phyllis Bennis. Phyllis é diretora do Novo Projeto Internacionalismo, do Instituto para Estudos Políticos em Washington, D.C. É autora de Before and After: U.S. Foreign Policy and the September 11th Crisis, de Ending the U.S. War in Afghanistan: A Primer,Understanding the U.S.-Iran Crisis: A Primer e de Understanding the Palestinian-Israeli Conflict: A Primer. Obrigada por nos receber, Phyllis.

PHYLLIS BENNIS: Ótimo. Obrigada pelo convite, Jessica.

DESVARIEUX: Por favor, Phyllis, qual sua opinião sobre o que acaba de acontecer em Gaza?

BENNIS: Acho que estamos assistindo a uma grande escalada de Israel contra Gaza, em tudo semelhante à Operação Chumbo Derretido, de 2008-9, que também começou imediatamente depois – então, foi a primeira eleição – do presidente Obama, e antes de o presidente eleito tomar posse, nos dois casos.

Agora, vimos essa escalada gigante logo depois, dois dias depois de um cessar-fogo negociado pelo Egito e que parecia aceito pelos dois lados. Mas Israel respondeu ao cessar-fogo com o assassinato de um líder em Gaza, Ahmed al-Jaabari, o qual, dentre outras coisas era, sim, comandante do braço militar do Hamás, mas também, nos últimos anos, trabalhara como principal negociador com Israel e negociou, dentre outras coisas, a libertação do soldado israelense Gilad Shalit, que o Hamás capturara, em troca da libertação de mais de 1.000 palestinos que eram prisioneiros em Israel.

Nesse contexto, Jaabari negociava com vários intermediários, do movimento de pacifistas israelenses e de grupos egípcios, e tentava construir um cessar-fogo de longo prazo entre o Hamás e Israel. Jaabari estava nessa posição e – como já aconteceu outras vezes, quando havia negociações em andamento entre israelenses e palestinos, o governo de Israel respondeu à tentativa de acordo, assassinando palestinos que trabalhavam para o acordo de paz.

Aconteceu exatamente assim há vários anos, quando outro líder do Hamás foi assassinado em Gaza enquanto analisava o texto de uma proposta de acordo de paz. Isso aconteceu em 1996. Quero dizer: não há novidade.

É preciso entender tudo isso no contexto da guerra de drones dos EUA e da prática, já estabelecida no EUA, dos “assassinatos predefinidos”, assassinatos de alvos predefinidos, “targeted assassination”. Torna-se ainda muito mais difícil, para todos que trabalhamos para modificar essa política de assassinatos na qual os EUA já se engajaram, agora, exigir que os EUA pressionem Israel para que interrompam a prática desses assassinatos com alvo predefinido, se se sabe, como sabemos, que essa prática, precisamente, é a principal política dos EUA no Afeganistão, no Paquistão, no Iêmen, na Somália e, talvez, em outros pontos. Esse é um dos aspectos do que está acontecendo em Israel.

Outra questão é saber quem responde a quem. A história, como você sabe, é sempre predeterminada, desde os primeiros passos. Nesse caso, ouve-se falar muito – toda a imprensa-empresa nos EUA diz a mesma coisa –, que Israel estaria reagindo a foguetes disparados pelos palestinos: os palestinos lançaram foguetes, os foguetes dos palestinos, sempre a mesma conversa; e que Israel estaria respondendo. Só muito raramento há notícias sobre mortes entre os palestinos; a imprensa só tem olhos e ouvidos para os foguetes palestinos e o dano que causam em Israel; e o que fazem os palestinos.

No caso atual, é verdade que, antes do assassinato de Jaabari, houve fogo antitanque disparado por uma das facções de palestinos armados, contra um grupo de soldados israelenses e vários deles foram feridos. A pergunta, nesse caso, passa a ser: “Mas por que os palestinos atiraram contra o tanque israelense?”.

Na segunda-feira passada, por exemplo, forças israelenses mataram um adolescente, em Gaza, que se aproximou da cerca de fronteira. A família do menino e outras testemunhas disseram que se tratava de deficiente mental, que não sabia onde estava. Os israelenses alegam que lhe ordenaram que se afastasse da cerca. O menino ou não ouviu ou não entendeu ou não prestou atenção, e os israelenses o mataram. Noutro ataque, dois dias depois desse, na quinta-feira, os militares israelenses mandaram tanques e um blindado para Gaza, em território ocupado, em Gaza, e os soldados atiraram e mataram outro adolescente, de 13 anos, que estava num campo de futebol, a cerca de 1.200 m, mais e 1 km de distância do ponto onde estavam os soldados.

Isso é o que acontece em Gaza, praticamente é a rotina, e ninguém parece dar qualquer atenção. Só quando há uma grande escalada, quando Israel mobiliza uma grande operação militar (ou, como nesse caso, quando os isrealenses assassinam um comandante do Hamás), é que se vê alguma indignação e mais gente presta atenção ao que acontece em Gaza.

O que eu temo é perigo ainda maior que essa desatenção. Temo que o mundo comece a discutir como se essa situação fosse alguma espécie de ‘nova normalidade’. Israel reage assim, por essa ou aquela ração, e só se discutem as respostas de Israel. Aos poucos, todos esquecerão que, ali, sempre e necessariamente a questão central é a ocupação ilegal, por Israel, de terras palestinas. A questão central é essa: a ocupação.

A modalidade de ocupação em Gaza é diferente. Não há soldados israelenses em campo. Os colonos e soldados israelenses retiraram-se, oficialmente, em 2005. Mas a legislação internacional é muito clara: há ocupação quando um território é controlado de fora para dentro, por governo externo. E essa, precisamente, é a realidade em Gaza. Há ali uma modalidade bem clara de sítio; os militares israelenses controlam as fronteiras, decidem quem pode entrar e quem pode sair, que bens e produtos podem entrar ou sair, controlam o mar que cerca Gaza, construíram muros de apartheid, controlam o espaço aéreo, bombardearam o aeroporto, de tal modo que nenhum avião pode pousar em Gaza, impedem os pescadores de Gaza de avançar, no mar, além de uma milha da costa – isso é ocupação, em formato diferente. E até que se compreenda bem essa realidade de fundo, que é a raiz da violência que se vê hoje, ninguém terá condições de trabalhar para pôr fim ao massacre dos palestinos.

Evidentemente, a primeira coisa a fazer é impor um imediato cessar-fogo. Mas, a menos que se compreendam com clareza que a base de todos os conflitos é a ocupação ilegal de terras palestinas, nenhum cessar-fogo será estável ou duradouro.

DESVARIEUX: Obrigada, Phyllis, por nos receber. O canal The Real News Network, TRNN continuará a cobrir os conflitos em Gaza.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

EUA defendem Israel: “Reunião de urgência do Conselho de Segurança da ONU”


16/11/2012, Vijay Prashad, The Real News Network, TRNN
 Vídeo-entrevista traduzida pelo pessoal da Vila Vudu


JESSICA DESVARIEUX (produtora da TRNN): Bem-vindos à The Real News Network. Sou Jessica Desvarieux, em Baltimore.
Semana muito importante para a ONU e os EUA. Temos hoje conosco Vijay Prashad, professor de Estudos Internacionais no Trinity College em Hartford, Connecticut. Dentre seus livros mais recentes estão Uncle Swami: South Asians in America e Arab Spring, Libyan Winter. Vijay é colaborador regular das revistas Frontline eCounterPunch. Obrigada por nos receber, Vijay.

VIJAY PRASHAD: Obrigado a vocês.

DESVARIEUX: Então, Vijay, fale-nos sobre a reunião do Conselho de Segurança da ONU, que aconteceu dia 14/11.

PRASHAD: Dia 14 de novembro, à noite, os representantes de Marrocos e do Egito convocaram uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU para discutir o ataque israelense contra Gaza. Você sabe, a questão de Gaza é sempre sensível. Houve várias discussões na ONU, não só sobre Gaza, mas também sobre a política das colônias de Israel na Cisjordânia. Recentemente, dia 6/11, houve uma reunião importante, na qual a ONU alertou Israel sobre o que foi apresentado como flagrante violação em áreas cultivadas na Cisjordânia. Você sabe, Israel iniciou e, de fato, nunca parou, de arrancar oliveiras, mas, dessa vez, a ação aconteceu em época de colheita das azeitonas. Quero dizer: a ONU várias vezes tentou levantar questões sobre a ação dos israelenses nos Territórios Ocupados e em Gaza.

Fato é que essas áreas estão sob ocupação israelense. Não há nação palestina soberana. Gaza não tem soberania. Não existe Gaza soberana. Assim, quando o ataque acontece contra Gaza, não se trata de um país atacando outro país ou em disputa contra outro país. O que há ali é uma potência ocupante que usa força desproporcional contra uma região mantida sob ocupação desde 1967.

Hardeep Singh Puri
Nesse contexto, Egito e Marrocos e outros países convocaram uma sessão de emergência do Conselho de Segurança. Nessa sessão de emergência, vários países, os 15 membros do Conselho, dessa vez, todos disseram que alguma coisa tem de ser feita. O presidente do Conselho de Segurança, atualmente, é o representante da Índia e membro permanente, Hardeep Singh Puri. Depois da reunião, ele disse que houve unanimidade no Conselho de Segurança, que todos concordam que é preciso fazer alguma coisa, que a situação dos palestinos é atroz.

O problema foi que não houve acordo sobre o que fazer. E o Conselho de Segurança ficou paralisado. Em outras palavras, a maioria dos 15 membros disseram que Israel tem de ser condenado por usar força desproporcional, não só pelo assassinato premeditado de membros do Hamás, mas, também, pela prática de bombardear estações de tratamento de água e outras instalações indispensáveis à sobrevivência da população palestina. O que uma estação de tratamento de água em Khan Yunis teria a ver com foguetes lançados de Gaza, contra Israel? Por que destruir uma caixa d’água? As questões levantadas lá foram desse tipo.

Susan Rice
Mas os EUA bloquearam qualquer tentativa de tentar redigir algum tipo de Resolução. A embaixadora Susan Rice insistiu e deixou bem claro que os únicos culpados de tudo são os membros do Hamás, não o governo de Israel.

É muito estranho, porque ela fala do conflito como se fosse guerra entre dois governos, entre dois Estados soberanos e, portanto, a ONU teria de interferir e condenar os dois “estados”. O que ela quer é alguma espécie de “proporcionalidade” na condenação, apesar de todos saberem que se trata de guerra fundamentalmente desproporcional. Isso, aliás, foi o que disseram s representantes do Egito.

Mas Susan Rice segue uma doutrina criada em 2002, chamada de “Doutrina Negroponte”. Leva o nome do embaixador John Negroponte, o qual, quando estava na ONU, estabeleceu bem claramente que os EUA sempre bloqueariam qualquer ação da ONU que implicasse qualquer tipo de crítica a Israel. Essa posição é conhecida como “Doutrina Negroponte”. E desde 2002, de fato desde antes de 2002, isso é exatamente o que os EUA fazem.

Sempre que houve qualquer tentativa de censurar Israel, fosse pela invasão do Líbano em 2006, pela Operação Chumbo Derretido contra Gaza em 2009, ou agora, dia 14 de novembro, pela Operação Pilar de Nuvens, que depois passou a ser chamada Pilar de Defesa, [1] em cada momento desses, os EUA bloquearam qualquer possibilidade de discussão séria sobre a ocupação israelense de terras palestinas e sobre a violência dos ataques israelenses – os jatos F-16s, os helicópteros Apache, violência sempre altamente desproporcional.

A verdade é que, quando se fala em “foguetes” palestinos, fala-se de canos de chumbo disparados pela combustão de um produto feito com esterco; e a bomba propriamente dita é feita de TNT e ureia, quer dizer, de mais esterco. Nada disso se compara aos jatos F-16 super equipados, à frota de barcos de guerra atracados ao largo e que bombardeiam Gaza, ou aos helicópteros Apache.

Fato é que a reunião do Conselho de Segurança deu em nada, porque a reunião foi paralisada. É importante lembrar os discursos moralistas da Embaixadora Susan Rice, quando russos e chineses bloquearam a resolução que os EUA desejavam ver aprovada, em fevereiro de 2012, contra o governo da Síria. Ela esbravejava que o sangue derramado na Síria estaria manchando as mãos de chineses e russos. Se se acredita nela, pode-se dizer que o sangue derramado em Gaza a partir de 14 de novembro mancha, hoje, as mãos do governo Obama. Parece-me muito grave, mas, de fato, é raciocínio que os EUA inventaram.

Comandante Ahmed al-Jaabari, do Hamás, ferido, 14/11/2012 
(Haaretz, Israel)
DESVARIEUX: Vijay, e sobre o líder do Hamás que foi assassinado? A mídia o apresenta como comandante militar, Ahmed al-Jaabari. Você tem melhor informação, de fontes que não sejam norte-americanas?

PRASHAD: Não há qualquer dúvida de que Jaabari era comandante da ala militar do Hamás. Isso é verdade. Mas muito mais importante é uma matéria publicada dia 15 de novembro, matéria de capa do jornal Haaretz  [2], que é jornal liberal publicado em Israel, em que se diz que, algumas horas antes de ser assassinado, o comandante Jaabari recebera a mais recente versão de um documento a ser negociado, o que sugere que o Hamás e alguns setores do governo de Israel já estavam em negociações por canais paralelos ao governo de Netanyahu, para construir um acordo de paz.

Ahmed al Jaabari
A matéria do Haaretz foi a primeira vez que ouvi falar sobre essa negociação “paralela” é um desenvolvimento, de fato, surpreendente. Se o comandante Jaabari estava, de fato, trabalhando com vistas a algum tipo de acordo de paz e nesse preciso momento é assassinado pelo governo Netanyahu... o que se deve pensar sobre a seriedade ou sobre a confiabilidade de quem quer que, dentro do governo israelense, estivesse negociando alguma paz com o Hamás?

Deve-se lembrar também que, em 2006, quando o Hamás venceu as eleições no setor Gaza dos Territórios Palestinos Ocupados, quando o Hamás foi eleito, o líder do Hamás escreveu ao presidente George W. Bush dos EUA e declarou que o seu grupo estava pronto a assinar uma trégua com Israel, desde que Israel devolvesse os Territórios Ocupados e retornasse às fronteiras de 1967.

Na mesma carta, tratou-se também de outros assuntos. E aquela carta, que era simples movimento para começar a abrir negociações, jamais obteve resposta. O governo Bush jogou a carta no lixo e declarou o Hamás “organização terrorista”. Esses fato, a carta sem resposta, de 2006, e, se é verdade que o comandante Jaabari estava trabalhando em algum tipo de negociação de paz, e é assassinado... Tudo isso obriga a desconfiar muito da honestidade dos EUA como negociadores; e obriga a desconfiar também de qualquer suposta agenda de paz que envolva Israel. De fato, tudo isso mostra que Israel não tem interesse algum em fazer paz alguma com o povo palestino, e só se interessa por manter a atual ocupação, sempre modificando os fatos em campo, sempre sufocando Gaza, até que, como por milagre Israel consiga fazer sumir o problema palestino...

DESVARIEUX: Vamos continuar cobrindo os eventos na Palestina, pelo The Real News. Muito obrigado, Vijay, por nos receber.



Notas dos tradutores
[1] Sobre o nome que Israel deu à operação de ataque contra Gaza, ver 16/11/2012, “O fanatismo religioso de Israel”.
[2] 15/11/2012, Haaretz, Israeli peace activist: Hamas leader Jabari killed amid talks on long-term truce[Líder do Hamás assassinado no início das negociações para uma paz de longo prazo].