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terça-feira, 23 de junho de 2015

Em meio às TORTURAS, dizem especialistas, há outro crime da CIA: “Experimentação Humana”


15/6/2015, [*] Jon Queally - Common Dreams
Traduzido por Emerx




Documentos desclassificados expõem como as tentativas da CIA de legitimar o programa de interrogatórios abusivos constituíram, elas mesmas, crimes de outro nível.


Participante de simulação de afogamento em frente ao prédio do Departamento de Justiça dos EUA em 2007. (Foto: Kevin Lamarque/Reuters)

É sabido que a CIA (Central Intelligence Agency) foi autorizada a torturar suspeitos de terrorismo depois do ataque de 11/9/2001.
Novos documentos publicados mostram outro programa de transgressões que constituiu brutal violação da ética médica. Autorizou a agência a conduzir atos análogos a “experimentação humana” sobre pessoas que se tornaram objetos de experiência sem seu consentimento.

A tortura foi o primeiro crime. O segundo crime foi a pesquisa sem consentimento para dizer que aquilo não era tortura — disse Nathaniel Raymond, Harvard University.

Reportadas exclusivamente por The Guardian na segunda-feira (15/6/2015), partes de um documento desclassificado da CIA —obtido em primeira mão pela ACLU (American Civil Liberties Union – União Americana pelas Liberdades Civis) — revelam que uma política de longa data contra o uso sem consentimento das pessoas em pesquisas médicas ou científicas permaneceu em vigor e estava sob a alçada do diretor da agência na época em que a CIA começou a jogar pessoas contra paredes, espancá-las, expô-las a prolongados períodos de privação do sono, submetê-las a repetidas sessões de simulação de afogamento e a praticar outras formas de abuso físico e psicológico.
O documento detalha as diretrizes da agência – estabelecidas primeiramente na presidência de Ronald Reagan e subsequentemente atualizadas — as quais empoderam tanto o diretor da CIA quanto seu conselho consultivo a tomar decisões sobre programas de “pesquisas com seres humanos”.
Spencer Ackerman
Como reportou o jornalista Spencer Ackerman:
A parte relevante do documento da CIA, “Lei e Política na Governança da Conduta das Agências de Inteligência”, determina que a agência “não pode patrocinar, contratar ou conduzir pesquisas com seres humanos” fora das normas sobre práticas médicas e humanas responsáveis determinadas pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos para todos os órgãos do governo dos Estados Unidos. A pedra angular destas normas, como observa o documento, é o “consentimento informado da pessoa”.
Trata-se do eco de outra linguagem pública, ainda que obscura, aquela da Ordem Executiva 12333 – documento seminal da era Reagan – definindo os poderes e os limites das agências de inteligência, inclusive as regras de vigilância governamental pela NSA (National Security Agency – Agência Nacional de Segurança).
Mas o livre arbítrio concedido ao diretor da CIA para “aprovar, modificar ou desaprovar todas as propostas pertinentes à pesquisa com seres humanos” não foi tornado previamente público.
Toda a página 41 do documento da CIA se propõe a instruir a agência sobre o que a Ordem Executiva 12333 permite e proíbe, depois da ação legislativa dos anos 1970s, que restringiu os poderes das agências de inteligência em resposta a abusos de conhecimento público – inclusive a velha prática da CIA de fazer experimentos em seres humanos através de programas como o infame projeto MK-Ultra, o qual, entre outras coisas, administrou LSD a participantes sem conhecimento.
A previamente desconhecida sessão das tais diretrizes dá poderes ao diretor da CIA e a seu conselho consultivo para realizar “pesquisas com seres humanos” e para “avaliar toda documentação e certificação pertinentes à pesquisa com seres humanos patrocinada, contratada ou conduzida pela CIA.
Por muito tempo, críticos detonaram todos os membros da comunidade médica que participaram do programa de tortura como traidores de sua ética e de suas obrigações profissionais, mas, com observa The Guardian:
A CIA, que não admite formalmente ter torturado pessoas, insiste em que a presença de pessoal médico garantiu que suas técnicas de tortura fossem aplicadas segundo o rigor médico.
Steven Aftergood
Mas Steven Aftergood, estudioso das agências de inteligência da Federação de Cientistas Americanos, disse ao The Guardian que esses homens que foram torturados pela agência estavam sendo, na verdade, estudados por profissionais médicos para ver como eles responderiam a tais tratamentos.
Além do crime inerente a este abuso, as vítimas eram também sujeitos involuntários, que nunca deram seu consentimento para serem estudados daquela forma.
Há uma desconexão entre o requerimento dessa regulação [contida no documento] e a condução do programa de interrogatórios.
Segundo Aftergood, “eles não apresentam uma política consistente”.
E Nathaniel Raymond, ex-investigador de crimes de Guerra da associação Physicians for Human Rights (Médicos pelos Direitos Humanos) e hoje pesquisador da Harvard University’s Humanitarian Initiative (Iniciativa Humanitária da Universidade de Harvard), explica tudo isso nestes termos:
A tortura foi o primeiro crime. O segundo crime foi a pesquisa sem consentimento pra dizer que aquilo não era tortura.
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[*] Jon Queally é editor sênior e escritor; edita o sítio CommonDreams desde 2007 cobrindo política interna, externa, direitos humanos e de animais, alterações climáticas, e muito mais nos EUA. Além de seu papel como o editor de opinião, ele trabalha diariamente sobre a criação, seleção e gestão de conteúdo de notícias.
Facebook: https://www.facebook.com/jon.queally

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Fala a Rússia: — A “histeria militar da OTAN” mina qualquer esperança de paz na Ucrânia

2/9/2014, [*] Jon Queally, Commondreams
Excerto traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ver também:
(Robert Perry, 3/9/2014 − em inglês)

Sergei Ordzhonikidze, Vice-Secretário Geral da Câmara Pública da Rússia
Em resposta a ameaças da OTAN, de que expandirá suas capacidades militares na direção leste, a Rússia reagiu ontem, 3ª-feira (2/9/2014), dizendo que tais movimentos só provocarão uma recalibração das forças militares da Federação Russa.

A reação, que mobilizou o alto comando militar russo, veio pouco antes de reunião de cúpula da OTAN, marcada para essa semana e depois de fala do Secretário-Geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, de que uma força “avançada” de 4 mil soldados e de “resposta rápida” seria posicionada no leste da Europa.

O Vice-Secretário Geral da Câmara Pública, Sergei Ordzhonikidze, disse à agência estatal de notícias que os planos de Rasmussen não passam de “histeria militar” e implicam trair promessas históricas. Disse que, diante disso, só restava à Rússia a alternativa de tomar medidas recíprocas, também pelo seu lado.

Quando tropas da OTAN se aproximarem de nossas fronteiras, é claro que teremos um plano implantado, disse Ordzhonikidze. Há ameaça real, se temos tropas estacionadas junto às nossas fronteiras. Lembro do compromisso da OTAN, de que não expandiria o território do bloco na direção leste... Agora, só nós resta impedir, seja como for, essa expansão da OTAN.

Secretário-Geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen
Rasmussen começou a falar da “expansão” da OTAN para o leste exatamente na semana passada, em entrevista convocada com jornais europeus. Aquelas “novidades” viraram manchete exatamente quando o Presidente Vladimir Putin da Rússia e Petro Poroshenko da Ucrânia, estavam reunidos em Minsk, Bielorrússia, para a primeira reunião presidencial para começar a discutir uma saída para a terrível crise na Ucrânia. A “oportunidade midiática” escolhida a dedo por Rasmussen e o “ocidente” não passou despercebida pelo Ministro Sergei Lavrov, das Relações Exteriores da Federação Russa.

Fato muito interessante – disse Lavrov na 3ª-feira (2/9/2014), em entrevista ao vivo transmitida pela TV – é que essa iniciativa da OTAN apareça imediatamente depois da reunião em Minsk, quando começou o processo do Grupo de Contato que tenta chegar a um acordo aceitável para todos, na atual crise da Ucrânia.

Lavrov classificou as declarações de EUA e a fala de Rasmussen sobre expansão da OTAN como esforço consciente para minar até esses primeiros frágeis esforços em direção à paz entre rebeldes ucranianos no leste e o governo em Kiev.

É muito lamentável que esse ânimo para reforçar as posições do “partido da guerra” seja tão empenhadamente estimulado por Washington e outras capitais europeias, e cada vez mais frequentemente também por Bruxelas e pelos quartéis generais da OTAN, de onde sai o Secretário-Geral, com notícias que absolutamente ele não é autoridade competente para distribuir – disse Lavrov.

Sergey Lavrov, Ministro de Relações Exteriores da Federação Russa
Em comentários separados, o Vice-Secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Mikhail Popov, disse a RIA Novosti que, em resposta ao ímpeto expansionista da OTAN, já há planos em preparação para modificar a doutrina militar da Rússia.

Esses planos − disse ele − foram desencadeados por fatores geopolíticos, inclusive essa movimentação da OTAN próxima das fronteiras russas e a situação na Ucrânia.


(...)

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Equador aos EUA: “Não nos deixaremos chantagear na questão Snowden”

 27/6/20134, Jon Queally, Commondreams
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Jon Queally
Essa a clara mensagem do governo do Equador, hoje, de que não se deixará abusar ou “chantagear” pelo governo dos EUA na questão de um possível asilo político para Edward Snowden.

Em conferência de imprensa em Quito, funcionários do governo do Equador disseram que os EUA estão tentando golpes de “chantagem”, com ferramentas de economia internacional, no processo de conseguir acesso a Edward Snowden, vazador de informações secretas, mas que as ameaças não surtirão qualquer efeito.

Edward Snowden, 30 anos, ex-funcionário terceirizado da Agência Nacional de Segurança, que constrangeu o governo dos EUA ao revelar detalhes de programas de vigilância  para telefonia e computadores via internet, pediu asilo político ao Equador (Foto: scmp.com)
Snowden, que permanece no terminal de um aeroporto russo, tornou-se objeto de disputa entre Equador e os EUA, depois que se confirmou a notícia de que ele procura asilo nesse país da América Latina.

Robert Menendez 
Ontem, 4ª-feira, em declarações do senador Robert Menendez (D-NJ), os EUA ameaçaram retirar do Equador o status de parceiro comercial preferencial, caso o país conceda asilo político a Snowden, depois do vazamento de grande quantidade de documentos secretos que expuseram ao mundo os vastos programas de vigilância mantidos pela Agência de Segurança Nacional dos EUA, contra cidadãos norte-americanos e inúmeros outros, por todo o mundo.


“Nosso governo não recompensará o mau comportamento de outros países” – disse Menendez em declaração em Washington. “Se o Equador conceder asilo político a Snowden, eu, pessoalmente, liderarei um movimento para impedir a renovação da garantia de acesso privilegiado que o Equador tem hoje em termos de PNB [orig. Gross State Product] e para impedir a renovação do acordo “Andean Trade Promotion and Drug Eradication Act”. “O acesso privilegiado é privilégio que os EUA concedemos a alguns países, não é direito”.

O Equador ofereceu “assistência em Direitos Humanos” aos EUA, a qual  poderia ser usada para ajudar a resolver os problemas recentes com tortura, execuções ilegais e ataque à privacidade dos seus cidadãos.

Já no dia seguinte, o Equador neutralizou completamente as ameaças dos norte-americanos e cancelou aquele acordo comercial. Deixou claro que não se intimidou ante as ameaças da superpotência global.

“O Equador está cancelando unilateralmente e irrevogavelmente os direitos de tarifa aduaneira preferencial” – disse o porta-voz do governo do Equador, Fernando Alvarado, naquela conferência de imprensa.

Fernando Alvarado
“O Equador não aceitará pressões nem ameaças de ninguém e não faz concessões no campo dos valores nacionais nem os deixa subjugar por interesses mercantis” – disse Alvarado.

Alvarado classificou as ameaças norte-americanas envolvendo acordos comerciais, como uma espécie de “chantagem”. Disse que o governo do Equador não apenas abria mão de cerca de 23 milhões que são direito seu, nos termos daquele acordo enquanto vigente. E que o país também daria um presente aos EUA, na forma de pacote de ajuda humanitária de valor equivalente, para dar treinamento aos norte-americanos no campo dos direitos humanos e civis.

Segundo agências equatorianas, o Equador mantém um programa de “assistência para questões de direitos humanos”, que os EUA poderiam usar com grande proveito, para dar conta de seus graves problemas com torturas, assassinatos de cidadãos norte-americanos por drones norte-americanos e ataques sistemáticos, por agências dos EUA contra a privacidade de cidadãos norte-americanos.

A Agência France-Presse noticia que o referido acordo comercial entre EUA e Equador é vigente há décadas (...) E expirará dia 31 de julho, se não for renovado pelo Congresso dos EUA.

Autoridades do Equador explicaram que o Acordo em questão oferece benefícios aduaneiros, em troca de empenho na luta contra o tráfico de drogas. E que os EUA agem muito mal, se cedem no combate ao tráfico, para tentar alcançar objetivos políticos.



sábado, 27 de abril de 2013

Por todos os lados, só se vê o fracasso da austeridade


26/4/2012, Jon Queally, Commondreams
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Jon Queally
Semana passada, houve uma chuva de manchetes sobre o completo, total fracasso do “experimento da austeridade” por todo o planeta [exceto, é claro, nos jornais brasileiros -- que são os piores do mundo -- e insistem na propaganda da mesma velha, falhada “austeridade” à moda tucana/Opus Dei (NTs)]. Um documento publicado por influentes economistas de Harvard converteu-se em manifestação exemplar, não só de incompetência “acadêmica”, mas também da mais patética falta, até, do mais comezinho bom-senso.

Paul Krugman
Em sua coluna no New York Times, o economista e Prêmio Nobel, Paul Krugman escreveu, na 6ª-feira:

Debates econômicos raramente acabam em nocaute. Mas o grande debate político de anos recentes entre os keynesianos, que advogam a favor de os governos manterem altos e, de fato, até aumentarem, os investimentos, em tempos de depressão; e os “austeristas”, que exigem cortes imediatos de gastos, já se aproxima, de fato, de nocaute – pelo menos no mundo das ideias.

Hoje, a posição dos pró-austeridade já é indefensável. Além de todas as suas previsões para o mundo real terem falhado completamente, o que já se vê é que a própria pesquisa acadêmica que os “austeristas” invocam para sustentar sua posição é material carregado de erros, omissões, estatísticas duvidosas.

Carmen Reinhart e Ken Rogoff
A pesquisa acadêmica mencionada no trabalho de dois economistas de Harvard, Carmen Reinhart e Ken Rogoff [1], está eivada de erros grosseiros, como se constatou semana passada; e aqueles erros comprometem todas as conclusões do trabalho. Mas as mesmas conclusões erradas estão sendo fartamente usadas como argumentos pelos inventores de “austeridade” nos dois lados do Atlântico, para justificar cortes e mais cortes de investimento público, nos programas sociais e nos benefícios para trabalhadores.

Joseph Stiglitz
E economistas como Krugman, Joseph Stiglitz, Dean Baker e outros exigem mais investimentos públicos, massivos, para tentar superar o também massivo buraco deixado pela crise financeira que começou pelas práticas nefandas de Wall Street e pela “bolha imobiliária” nos EUA.

Em entrevista à rede Bloomberg no início desse mês, Joseph Stiglitz da Columbia University foi claro sobre o registro histórico:

Não há uma única grande economia que tenha conseguido crescer com austeridade – disse ele. – A austeridade leva a economia a desempenhos miseráveis. Leva a mais desemprego, menores salários e mais desigualdade.

E que importância teria o tal trabalho de Reinhart e Rogoff? Como explica Dean Baker,

O trabalho, por si só, não é base para qualquer economia. Mas aquelas conclusões foram usadas para dar cobertura aos que querem cortes na Social Security, Medicare e outros programas que têm forte apoio popular. Seria impossível obter o apoio político necessário para apoiar cortes e mais cortes naqueles programas, com argumentos sérios. Então, os políticos que pregam os cortes adoraram as conclusões erradas de Reinhart e Rogoff e usaram-nas para defender a própria agenda.

Dean Baker
O trabalho de Reinhart e Rogoff não foi usado só para argumentar a favor de cortes nos programas sociais populares: também foi usado como argumento contra os esforços do governo para estimular a economia e criar empregos. Os que se opõem a esses esforços encontraram argumentos para insistir em que os programas seriam contraproducentes, porque Reinhart e Rogoff deram jeito de “comprovar” que altos níveis de déficit público implicariam menor crescimento.

O paper da dupla foi usado para “comprovar” que qualquer melhoria na criação de empregos e melhor crescimento custariam caro, no longo prazo. A versão corrigida, com dados corrigidos, absolutamente não ajuda nessa direção.

Enquanto isso, e fora do mundo acadêmico e seus truques e seus políticos que usam armas semelhantes, o mundo real está mostrando os fracassos das políticas impostas sob os argumentos desse tipo de pensamento.

Como mostram os números divulgados essa semana pelo Eurostat (o serviços de estatísticas da União Europeia), os países que impuseram as mais duras medidas de austeridade, como Portugal e Espanha, viram os seus déficits de orçamento aumentarem em 2012 — o que desmente todos os argumentos segundo os quais cortes de gastos governamentais, como medida para estabilizar as finanças públicas, estariam dando os resultados apregoados.

E a dor gerada pelas medidas de austeridade é mais visível na ira popular que se manifesta contra essas políticas. Da Espanha à Grécia, da Irlanda à Bulgária, não cessam os protestos populares – mesmo que tenham desaparecido das manchetes dos grandes jornais-empresa.

Ambos, Krugman e Baker, perguntam-se quando o acúmulo de evidências contra as políticas de austeridade levarão os políticos – especialmente os políticos norte-americanos – a mudar de rota. Nenhum dos dois dá sinais de estar muito esperançoso.

Para Krugman, ninguém jamais entenderá:  

(...) a influência da doutrina da austeridade, se não se pensa em desigualdade e diferenças de classe.

E continua:

O que, afinal, as pessoas querem da economia política? A resposta, como se vê, depende da pessoa que se considere – aspecto documentado em recente pesquisa dos cientistas sociais Benjamin Page, Larry Bartels e Jason Seawright. Esse estudo compara as preferências políticas dos norte-americanos comuns e dos muito ricos, com resultados muito esclarecedores.

O norte-americano médio está medianamente preocupado com os déficits de orçamento, o que não surpreende, dada a furiosa artilharia de material “jornalístico”, com histórias escabrosas sobre o déficit; mas os ricos, em vasta maioria, consideram o déficit de orçamento como o principal e mais importante problema que enfrentamos. E o que fazer para reduzir o déficit? Os ricos pregam cortes no gasto federal na assistência à saúde dos mais pobres e na Social Security – para eles, nesses “favores”. Enquanto a maioria dos norte-americanos médios quer que o estado invista cada vez mais nesses serviços.

A tendência geral é clara: a agenda da austeridade aparece como clara expressão das preferências dos mais ricos, embalada numa fachada de “rigor científico” ou “prestígio acadêmico”. O que o 1% quer, virou “conclusão” da ciência econômica e prescrição “científica” para toda a sociedade.

E Baker concorda:

(...) os interesses dos mais ricos tendem a reaparecer como interesse dos políticos eleitos, mesmo que se oponham aos interesses da maioria da população.

E conclui:

Por isso se veem esforços para cortar programas como Social Security e Medicare, mesmo quando esses cortes encontrem oposição em grandes maiorias, em todo o espectro político.

Novidade é que a revisão corrigida do artigo, que desmente e desqualifica totalmente as conclusões de Reinhart e Rogoff, deixou tudo muito mais claro. A liderança dos dois principais partidos não está procurando modos de reduzir o déficit de orçamento porque haja qualquer motivo que os levem a crer que a redução traria algum benefício à economia. Querem-porque-querem encontrar meios para reduzir o déficit de orçamento, apenas porque os ricos desejam que se preserve uma situação na qual o alto desemprego enfraquece o poder de barganha dos empregados e mantém achatados os salários. Não é situação que permita alimentar qualquer esperança sobre a situação já terminal da democracia nos EUA.



Nota dos tradutores
[1]  São autores reverenciados pelo O Estado de S.Paulo e O Globo, mas a lista é longa [NTs]. Ver, p. ex.  em: