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quinta-feira, 13 de março de 2014

Pepe Escobar: “O Novo Grande Jogo (de ameaças) na Eurásia”

12/3/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O  putsch de Kiev em 22/1/2014
Na Ucrânia, o ocidente apoiou um putsch inconstitucional contra governo eleito, perpetrado, dentre outros, por gangues armadas de fascistas neonazistas (dos partidos Svoboda e Setor Direita [Pravy Sektor]) instrumentalizados pela inteligência dos EUA. Depois de um contragolpe russo, o presidente Barack Obama dos EUA declarou que qualquer referendo na Crimeia seria “violação da Constituição da Ucrânia e da lei internacional”.

A declaração é só o mais recente caso do estupro serial da “lei internacional”. A folha corrida dos estupros é gigante, e inclui: a OTAN bombardeou a Sérvia durante 78 dias em 1999, até conseguir consumar a secessão do Kosovo; os EUA invadiram o Iraque em 2003, invasão seguida de ocupação na qual se consumiu um trilhão de dólares, e, na sequência, criaram uma guerra civil; OTAN/AFRICOM bombardearam a Líbia em 2011, invocando a “responsabilidade de proteger” (R2P, “responsibility to protect”) como cobertura para provocar “mudança de regime”; os EUA investiram na secessão do Sudão do Sul, rico em petróleo, para que a China tivesse de enfrentar mais uma dor de cabeça geopolítica; e os EUA continuam perenemente a investir na guerra na Síria.

Pois mesmo assim, Moscou ainda crê (tolamente?) que a lei internacional deva ser respeitada – e apresentou ao Conselho de Segurança da ONU informação secreta de que dispunha, sobre todos os movimentos da inteligência/guerra psicológica e outras operações “psi” conduzidas pelo ocidente e que levaram ao golpe em Kiev, incluindo “treinamento”, dado na Polônia e na Lituânia, para nem falar da inteligência turca, envolvida na preparação de um segundo golpe na Crimeia.

Os diplomatas russos exigiram investigação internacional independente. Nunca acontecerá, porque a narrativa de Washington seria completamente desmascarada. Correspondentemente, os EUA vetaram a iniciativa dos russos na ONU.

Sergey Lavrov, Ministro de Relações Exteriores da Rússia
O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, também pediu que a Organização para Segurança e Cooperação na Europa investigue objetivamente os atiradores que atiraram contra os dois lados e todos que aparecessem à frente deles em Kiev – como o ministro das Relações Exteriores da Estônia na União Europeia informou à La Suprema da diplomacia da UE, Catherine “Adoro Yats” Ashton. Segundo o embaixador russo à ONU, Vitaly Churkin, “obter-se-ia quadro completamente diferente do que está sendo pintado pelo jornalismo dos EUA e, infelizmente, também por alguns políticos norte-americanos e europeus”. Desnecessário dizer que não haverá investigação objetiva alguma.

Oi! Sou seu neonazista “do bem”...

Todos recordam os “bons Talibã”, com os quais os EUA podiam negociar no Afeganistão. Depois, foi a “boa al-Qaeda”, jihadistas que os EUA podiam apoiar na Síria. Agora chegou a vez dos “bons neonazistas” com os quais o ocidente pode fazer negócio em Kiev. Logo logo haverá os “bons jihadistas que apoiam os neonazistas” e que podem ser mandados para promover antecipadamente os desígnios anti-Rússia de EUA/OTAN na Crimeia e além-Crimeia. Afinal de contas, o mentor de Obama, Dr. Zbigniew “O Grande Tabuleiro de Xadrez” Brzezinski é o padrinho dos bons jihadistas, armados até os dentes para lutar contra a ex-União Soviética no Afeganistão.

Como mostram os fatos em campo, os neonazistas voltaram definitivamente como os mocinhos.

Pela primeira vez desde o fim da IIª Guerra Mundial, fascistas e neonazistas estão no timão de uma nação europeia (embora a Ucrânia deva ser caracterizada, sobretudo, como nação-oscilante-chave na Eurásia). Poucos no ocidente parecem ter percebido isso.

Os cabeças do putsch e representantes dos interesses dos EUA/Europa na Ucrânia
O elenco de personagens inclui o ministro interino de Defesa da Ucrânia e ex-aluno no Pentágono, Ihor Tenyukh; o vice-primeiro-ministro para assuntos econômicos e ideólogo do partido (neonazista) Svoboda, Oleksandr Sych; o agro-oligarca ministro da Agricultura Ihor Svaika (a Monsanto, afinal, precisa de um propagandista-em-chefe); o chefe do Conselho de Segurança Nacional e comandante dos neonazistas do Setor Direito (Pravy Sektor) na praça Maidan, Andry Parubiy; e o vice-chefe do Conselho Nacional de Segurança, Dmytro Yarosh, fundador do Setor Direita (Pravy Sektor). Para nem falar do líder do partido Svoboda, Oleh Tyanhybok, amigo íntimo de John McCain e de Victoria “Foda-se a União Europeia” Nuland, e ativo defensor de uma Ucrânia livre da “máfia judaico-moscovita”.

Dado que o Kremlin recusa-se a negociar com essa gangue e o próximo referendo do dia 16 de março na Crimeia é dado por detonado, a Equipe “Yats” está plenamente legitimada, com honras, pela Equipe Obama, o líder incluído, em Washington. Para citar Lênin, o que fazer? Leitura atenta dos movimentos do presidente Putin sugere uma resposta: nada.

Basta esperar, ao mesmo tempo em que se terceiriza para a União Europeia uma Ucrânia em espetacular bancarrota futura próxima. A União Europeia não tem potência nem para resgatar os países do Clube Med. Inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, ameaças de sanções ou não, a Ucrânia voltará rastejando para Moscou, suplicando “concessões”, e pode acontecer de a Rússia pagar a conta.

Entrementes, no Oleogasodutostão...

Entrementes, o Novo Grande Jogo (de ameaças) na Eurásia avança sem se deter. Moscou até cederia e aceitaria uma Ucrânia neutra – mesmo com neonazistas no poder em Kiev. Mas uma Ucrânia ligada à OTAN é linha vermelha absoluta. Por falar dela, a OTAN já está “monitorando” a Ucrânia com Sistemas Aéreos Embarcados de Alerta e Controle [orig. Airborne Warning And Control System, AWACS] que partem do espaço aéreo polonês e romeno.

Airborne Warning And Control SystemAWACS (Esquema)
Assim sendo, o tão elogiado “reset” entre o Kremlin e o governo Obama está, para todas as finalidades práticas, enterrado sob sete palmos de terra (sem que as cartas prevejam qualquer “o retorno” à moda Hollywood); e restou só o perigoso jogo de ameaças. Lançadas não só pelo Império, mas também por vassalos.

Aquela seleção monstro de burocratas sem cara ao estilo Magritte na Comissão Europeia, fazendo avançar sem parar a ameaça de sanções pela União Europeia, decidiu adiar a decisão sobre se a Gazprom pode vender mais gás pelo gasoduto OPAL na Alemanha, e também adiou negociações sobre o estatuto legal do Ramo Sul [orig. South Stream], o gasoduto que passa pelo fundo do Mar Negro e que deve tornar-se operacional em 2015.

Como se a União Europeia tivesse algum Plano B viável para escapar à dependência do gás russo (para nem citar a possibilidade – zero – de que abra mão do jogo financeiro muito lucrativo jogado entre as principais capitais europeias e Moscou). Farão o quê?! Importarão gás em aviões da Qatar Airways? Comprarão gás natural liquefeito dos EUA – que não estará disponível ainda por muitos anos?

Grande parte do gás que abastece a Europa sai da Rússia e passa abastecendo a Ucrânia
Fato é que, no instante em que começar uma guerra pelo gás, se algum dia acontecer, a União Europeia estará pressionada por legiões de estados-membros para que mantenha (e, até, para que amplie) os acertos de gás com os russos – mesmo que contra os desejos dos “nossos filhos da puta (neonazistas)” em Kiev. Bruxelas sabe disso. E, o mais importante: Vlad, a Marreta, também sabe.
_____________________

[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política do blog Tom Dispatch e correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

A Doença da Ucrânia...e a Cura da Europa

24/2/ 2014, [*] Eric Draitser  Counterpunch
Traduzido por João Aroldo


Manifestantes do "Pravy Sektor" (Setor Direita) enfrentam policiais com barricadas móveis (20/2/2014)
A situação na Ucrânia está evoluindo a cada hora. Ultranacionalistas de direita e seus colaboradores "liberais" tomaram o controle da Rada (Parlamento ucraniano) e depuseram o presidente democraticamente eleito, embora totalmente corrupto e incompetente, Yanukovich.

A ex-primeira-ministra e condenada criminalmente, Yulia Timoshenko, foi libertada, e agora está a fazer causa comum com o Setor da Direita, Svoboda, e os outros elementos fascistas, enquanto os líderes nominais da oposição, como Arseny Yatsenyuk e Vitali Klitschko, começam a ir para o segundo plano.

Em Moscou, o presidente russo, Vladimir Putin, sem dúvida, observa com ansiedade. Em Washington, Victoria Nuland e a administração Obama se alegram. No entanto, talvez o desenvolvimento mais importante esteja prestes a surgir na Europa, enquanto as forças do capital financeiro ocidental se preparam para receber a Ucrânia no rebanho. Eles virão com os presentes neoliberais de sempre: austeridade e “liberalização econômica”.

Destroços da Praça Maidan em 20/2/2014
(clique na imagem para aumentar)
Com a derrubada do governo Yanukovitch, os 15 bilhões de dólares em assistência financeira que a Rússia prometeu à Ucrânia estão em dúvida. De acordo com a agência de classificação Moody's:

A Ucrânia vai exigir 24 bilhões de dólares para cobrir um déficit orçamental, o pagamento da dívida, contas de gás natural e apoio a pensões apenas em 2014.

Sem continuidade da compra de títulos por Moscou e outras formas de ajuda financeira, e com as forças pró-UE assumindo o controle da política econômica e externa do país, o resultado não é difícil de prever: um pacote de resgate da Europa com todas as condições de austeridade habituais.

Em troca de “ajuda” europeia, a Ucrânia será forçada a aceitar a redução dos salários, cortes significativos no setor público e nos serviços sociais, além de um aumento dos impostos sobre a classe trabalhadora e corte de pensões. Além disso, o país será obrigado a aderir a um programa de liberalização que permitirá à Europa despejar mercadorias no mercado ucraniano, a desregulamentação e a maior abertura do setor financeiro do país à especulação e à privatização predatória.

Não são necessários poderes psíquicos para prever esses acontecimentos. Basta olhar para a onda de austeridade nos países europeus, como Grécia e Chipre. Além disso, os países do Leste Europeu, com as condições econômicas e históricas semelhantes à Ucrânia - a Letônia e a Eslovênia especificamente - fornecem um roteiro para o que a Ucrânia deve esperar.

Yulia Timoshenko
O modelo de "sucesso”

Quando a “liderança” pró-UE da Ucrânia sob Timoshenko & Cia. (e a direita fascista) começar a olhar para futuro, eles imediatamente vão olhar para a Europa para resolver os problemas econômicos mais urgentes. O povo ucraniano no entanto faria bem em examinar o precedente da Letônia para entender o que os aguarda. Como os renomados economistas Michael Hudson e Jeffrey Sommers escreveram em 2012:

O que permitiu à Letônia sobreviver à crise foram os resgates da UE e do FMI... Elites à parte, muitos emigraram... Demógrafos estimam que 200.000 partiram na última década - cerca de 10% da população ... A Letônia experimentou os efeitos da austeridade e do neoliberalismo. As taxas de natalidade caíram durante a crise - como é o caso em quase toda parte, são impostos programas de austeridade. Ela continua tendo uma das maiores taxas da Europa de suicídio e de mortes nas estradas causadas por dirigir embriagado. O crime violento é alto, sem dúvida, por causa do desemprego e cortes orçamentários prolongados da polícia. Além disso, há a fuga de cérebros em conjunto com a emigração de trabalhadores.

Manifestantes eslovenos contra "austeridade" em Liubliana (20/8/2013)
O mito da prosperidade a acompanhar a integração e resgates da UE é apenas isso, um mito. A realidade é a dor e o sofrimento em uma escala muito maior do que a pobreza e o desemprego que a Ucrânia já experimentou, especialmente na parte ocidental do país. O mais educados, os mais preparados para assumir a liderança, vão fugir em massa. Os líderes que permanecerem vão fazê-lo enchendo seus bolsos e insinuando-se aos financistas europeus e norte-americanos que migram para a Ucrânia como abutres em cima de carniça. Em suma, a corrupção e a má administração do governo Yanukovitch vão parecer uma memória agradável.

A “liberalização” que a Europa demanda criará enormes lucros para os especuladores, mas muito poucos empregos para as pessoas que trabalham. A melhor terra será vendida às empresas estrangeiras e grileiros, enquanto os recursos, incluindo o setor agrícola altamente cobiçado, serão tomados e vendidos no mercado mundial deixando, tanto os agricultores como os moradores das cidades, em pobreza extrema, os seus filhos irão para a cama com fome. Este será o “sucesso” da Ucrânia. É assustador pensar que como seria o fracasso

Na Eslovênia, outro país do Leste Europeu que tem experimentado o “sucesso” que a Europa deseja, os ditames econômicos de Bruxelas têm devastado as pessoas que trabalham no país e suas instituições. A Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou um relatório de 2013, em que se recomenda que, como primeiro passo, a Eslovênia aja para “ajudar o setor bancário a ficar de pé outra vez”, acrescentando que “são necessárias medidas adicionais e radicais o mais rápido possível”.

Protestos em Liublana (Eslovênia) contra a privatização dos bancos públicos (20/6/2013)
Além disso, a OCDE recomendou a privatização total dos bancos da Eslovênia e outras empresas importantes, apesar de prever uma contração maior que 2% da economia. Em termos leigos, a Europa recomenda que a Eslovênia e seu povo se sacrifiquem para as forças do capital financeiro internacional, nada menos. Esse é o custo da “integração” europeia.

A Ucrânia está passando por uma transformação da pior espécie. Suas instituições políticas foram pisoteadas por uma coleção heterogênea de liberais delirantes, políticos espertos em ternos extravagantes e extremistas nazistas. O tecido social está se rasgando, com cada região em busca de uma solução local para os problemas do que costumava ser sua nação. E, no meio de tudo isso, o espectro de financistas em busca de lucros com cifrões nos olhos é tudo o que o povo ucraniano pode esperar."

[*] Eric Draitser é analista independente de Geopolítica com sede em Nova Yorque e fundador do sítio Stop Imperialism. É colaborador regular de Russia Today, Counterpunch, Research on Globalization, Press TV,New Eastern Outlook e muitos outros meios de comunicação. Produz também podcasts; disponíveis no iTunes e Stop Imperialism, bem comoThe Reality Principle, disponível exclusivamente no sítio BoilingFrogsPost.com.
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Recebe e-mail em: ericdraitser@gmail.com.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Ganha e perde na Ucrânia

22/2/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Arseniy Yatsenyuk (D), Oleh Tyahnybok (E) e Vitali Klitschko (C) após assinatura de acordo com Viktor Yanukovich em Kiev (21/2/2014)
Depois de oito horas de negociações, que avançaram noite adentro na 5ª-feira (20/2/2014), entre o presidente Viktor Yanukovich da Ucrânia e a “troika” da oposição, Arseniy Yatsenyuk, Oleh Tyahnybok e Vitali Klitschko, chegou-se a um acordo, na manhã da 6ª-feira (21/2/2014) em Kiev que, se espera, ponha fim aos violentos confrontos que levaram a muitas mortes essa semana.

Os termos do acordo foram fixados em declaração escrita. O acordo foi examinado por um grupo de enviados europeus e políticos, e por um “representante especial do presidente da Federação Russa”.

Em seguida Yanukovich anunciou eleições antecipadas, a volta a um regime parlamentar de governo e que se constituirá um governo provisório de unidade nacional.

À primeira vista, o acordo tem ares de encobrir uma manobra conjunta de União Europeia e Rússia, quando, de fato, Moscou continua a manter silêncio impenetrável sobre os eventos na Ucrânia. A União Europeia, representada pelos ministros de Relações Exteriores de Alemanha e Polônia, capitalizou a violência crescente e a indecisão de Yanukovich, para forçar um acordo; e Moscou ficou sem escolha, além de deixar-se ver como “vai-com-os-outros”.

Com toda a probabilidade trata-se de um recesso. É o que se vê claramente nos relatórios divergentes publicados por Washington e Moscou do telefonema que o presidente Barack Obama fez para Vladimir Putin, e da conversa que tiveram, na 6ª-feira (21/2/2014).

O relatório distribuído pelo Kremlin não menciona o acordo em Kiev; em vez disso destaca o “trabalho com a oposição radical” que a Rússia culpa por ter criado o perigoso confronto (por instigação do ocidente, é claro). E o relatório distribuído pela Casa Branca prefere destacar a “necessidade de implementar rapidamente” o acordo em Kiev e a necessidade de reformas (neoliberais, claro) para pôr ordem na economia política da Ucrânia.

Evidentemente, o desacordo EUA-Rússia vai-se aprofundando – embora Obama tenha acrescentado uma pitada de açúcar à pílula amarga, dando parabéns a Putin, embora atrasados, pelo sucesso dos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi. Por que “pílula amarga”?

Em resumo: Washington passou a perna em Moscou, num movimento espetacular (embora sujo) na crise ucraniana. Depois de acender os estopins dos protestos contra a decisão de Yanukovich de aceitar o resgate de $15 bilhões que a Rússia ofereceu, o confronto cresceu como bola de neve até se converter em exigência de “mudança de regime” e rapidamente ganhou proporções de crise, com a injeção de elementos radicais nos protestos.

Protestos em Kiev após Yanukovich aceitar resgate da Rússia em 22/1/2014
A violência subsequente, por sua vez, foi pretexto perfeito para a diplomacia ocidental de coerção, que tirou vantagem da personagem política de Yanukovich.

O resultado aí está. Uma “oposição” sem qualquer representação e nutrida por Alemanha e Polônia está sendo catapultada para o poder; e cria-se um governo de “unidade nacional”. A questão difícil, porém, vem agora: como pilotarão o barco ucraniano?

É claro que a geopolítica está no centro de tudo que está acontecendo, como se vê claramente na reignição das ambições históricas de Alemanha e Polônia em relação à Ucrânia como sua “esfera de influência”.

Como o Japão no Pacífico Asiático, a Alemanha também proclamou sua intenção de tornar-se país “normal”; e a Ucrânia é a arena na qual a Alemanha pós-IIª Guerra Mundial pela primeira vez flexiona seus músculos (diplomáticos).

Na recente Conferência de Segurança de Munique, a Alemanha destacou que está pronta para liderar. Como está fazendo também com o Japão, os EUA estão encorajando a Alemanha a tornar-se país “normal”, a inflar suas proezas militares e exibi-las no cenário mundial quando a segurança coletiva está envolvida.

Os EUA esperam assim fortalecer sua própria liderança transatlântica; e, no contexto da Ucrânia, haveria outro ganho adicional para Washington, porque tudo faz crer que a robusta relação Alemanha-Rússia, que os EUA sempre detestaram, começa a ser abalada.

Isso posto, a Rússia enfrenta a possibilidade de um regime assumidamente pró-ocidente substituir Yanukovich. O pior que pode acontecer é esse regime favorecer o alinhamento da Ucrânia como membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN, o que levaria a aliança ocidental literalmente para junto do portão dos russos.

A Rússia apostou que, afrouxando os cordões da bolsa e oferecendo resgate que a depauperada União Europeia não poderia superar para reviver a economia ucraniana, conseguiria impedir que Kiev gravitasse na direção do ocidente.

O ocidente respondeu com mais uma encenação de ‘revolução colorida’. Simples. O anúncio por Moscou, na 2ª-feira (17/2/2014), de que daria mais $2 bilhões à Ucrânia (além dos $3 bilhões dados em dezembro) com certeza precipitou a violência dos confrontos e o atual “desenlace”.

A Ucrânia passará por uma “terapia de choque”, se é que haverá “reformas”, e talvez se qualifique para receber a “ajuda” da União Europeia e do FMI – desregulação, cortes nos “gastos’”sociais, congelamento de salários e demissões, pressão contra os sindicatos, etc..

Viktor Yanukovich desembarca em Carcóvia em 22/2/2014 após deixar Kiev
Mas o país já está virtualmente dividido ao meio, com as regiões do leste ligadas por laços muito fortes com a Rússia.

Não surpreendentemente, a Casa Branca festejou o acordo da 6ª-feira (21/2/2014). Moscou, por sua vez, ainda não se manifestou sobre o acordo – mas Putin aproveitou uma reunião do Conselho de Segurança para “discutir a situação na Ucrânia”. Em todos os casos, permanece o fato de que a Rússia conhece a Ucrânia muito mais e melhor que qualquer de seus rivais ocidentais.

Verdade é que a história está longe de acabar. A cena em Kiev continua tensa e confrontacional, e há muitos rumores de que Yanukovich tenha trocado a capital pró-ocidente, pelo conforto de Carcóvia, no leste do país, área de influência dos russos, e onde tem sua base de apoio.



[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Contra insurreição urbana armada: de volta ao básico

19/2/2014, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
Enquanto se desenrolam os dramáticos eventos na Ucrânia, a questão de o que o presidente Yanukovich pode, ou não pode, fazer volta com regularidade à discussão; e acho que é mais que hora de voltar ao básico e examinar o que um governo – qualquer governo, independente de orientação política – pode e mesmo deve fazer, se confrontado com uma insurreição urbana armada.

Primeiro, um Chefe de Estado, qualquer Chefe de Estado, tem obrigação de defender a Constituição e de manter a lei e a ordem, de proteger seus cidadãos contra abusos e violência contra a pessoa deles e contra as propriedades deles. Soa como frase feita? Sim, mas o conceito importante aqui é o que tudo isso é dever, não é nem direito nem opção.

Segundo, um chefe de Estado, qualquer chefe de Estado, é Comandante-em-Chefe das forças armadas do país no sentido mais geral da palavra: quer dizer, de todas aquelas forças, unidades e indivíduos aos quais são entregues os instrumentos de violência para proteger o país: militares, polícia, forças do Ministério do Interior, polícia antitumultos, guarda nacional, o que houver. Assim, e como qualquer Comandante-em-Chefe, o Chefe de Estado também carrega a responsabilidade radical pela vida e bem-estar não só dos cidadãos que essas forças existem para proteger, mas, também, das próprias forças que obedecem a suas ordens. Outra vez, não é ideia original, mas, ainda assim, tem sido repetidas vezes esquecida na atual situação (mais sobre isso, adiante).

Manifestações pró-União Europeia em Kiev -  nov/2013
Agora, consideremos com que tipo de “oposição” temos de lidar no centro da cidade de Kiev.  Segundo a maioria dos relatos, é grupo muito diversificado de pessoas:

1) Ucranianos “comuns” (“comuns”, no sentido de “não alinhados politicamente”) fartos da corrupção, da pobreza, da incompetência, arrogância e violência das elites governantes. É o tipo de gente que se via pelas ruas de Moscou ou São Petersburgo no início e meados dos anos 1990s, tentando desesperadamente ganhar a vida, ao mesmo tempo em que tentava não se deixar matar nem roubar pelas inúmeras gangues mafiosas e funcionários corruptos que os caçavam pelas ruas. Esses são manifestantes, mas, crucialmente importante, são não violentos. Para nossas finalidades, chamaremos esse grupo de “civis”.

2) Vários tipos de manifestantes que querem usar de violência contra a Polícia, contra outros manifestantes e contra prédios. A esses chamaremos “os vândalos”.

3) O passo acima são os vândalos organizados em equipes ou grupos armados com vários tipos de armas improvisadas, mas letais, incluindo não só barras de ferro e furadores de gelo, mas também coquetéis molotov, facas, porretes, pistolas, rifles e até veículos (caminhões e tratores usados como arma para atropelar policiais). São, aqui, “gangues urbanas”.

4) Por fim, há alguns poucos indivíduos bem treinados, que atuam em pequenas equipes para tarefas especiais, como fogo de atiradores postados em pontos estratégicos, demolições, sequestros, tomada de reféns e assassinatos. São “terroristas”.

Hoje, e dado que todos os lados mentem, é difícil estimar com precisão a proporção de cada um desses grupos nos confrontos em Kiev, mas pode-se afirmar com segurança que todos esses elementos estão ativos na cena.

Polícia antitumultos (Berkut) é atacada por terroristas com coquetéis Molotov
Agora, consideremos o que o governo usou, como forças suas, contra esses elementos: polícia comum, polícia antitumultos (os Berkut) e, segundo notícias recentes, cerca de 500 soldados de infantaria para proteger alguns depósitos de armas nos arredores de Kiev (que não participam nos eventos no centro de Kiev). Tanto quanto sei, as forças de polícia regulares foram mantidas na retaguarda, e os combates propriamente ditos só envolveram os policiais antitumulto, os Berkut. Outra vez, é difícil afirmar se é verdade ou não, mas funcionários ucranianos têm afirmado que os Berkut não estão usando munição real, só balas de plástico. Têm granadas de efeito moral, cassetetes e canhões de água. Todos os vídeos e imagens que examinei até agora confirmam isso, pelo menos em Kiev.

Acabo de assistir a um vídeo do que parece ser tentativa, por vândalos, para invadir um prédio do Serviço Ucraniano de Segurança [orig. Ukrainian Security Service (SBU)], que resultou em uma rajada de tiros de arma automática de dentro do prédio, que atingiu e possivelmente matou um ou mais vândalos. Considerado o nível dos buracos de bala na janela, parece-me que os tiros foram dados de cima para baixo, de uma posição mais alta dentro do prédio, e que os vândalos podem ter sido atingidos por balas ricochetadas. Parece-me que aconteceu na cidade de Khmelnytskyi, no oeste da Ucrânia.

Apesar de saber que as dinâmicas podem ser diferentes noutros locais, quero focar o que está acontecendo no centro de Kiev, na Praça Independência (vulgo “a Maidan”) e ruas circundantes.

O que um governo deve fazer, se posto diante do tipo de ganguesterismo e caos que se veem em Kiev?

Meu parecer é que a primeira tarefa, imediata, é conter a violência e tentar separar, o mais completamente possível, os civis, dos vândalos, gangues urbanas e terroristas. Dado que é absolutamente impossível mandar os policiais e retirar os civis um a um, muito menos pela força, o governo pode, por alto-falantes ou por panfletos lançados por helicópteros, tentar convencer os civis (não violentos) a voluntariamente deixar uma área na qual a violência está onipresente. Esses tipos de medidas em geral têm efetividade mínima, mas cumprem uma importante função legal: são indicativas dos esforços, pelas autoridades, para discriminar entre os vários grupos em cena, e da tentativa para preservar a segurança de passantes ou manifestantes inocentes.

Nazi-fascistas do Pravy Sektor armados para enfrentar os Berkut
No mínimo, esses alertas põem a responsabilidade pelas consequências de rejeitar a ordem para dispersar sobre os próprios civis que, ao se recusarem a dispersar, tomam voluntariamente a decisão de permanecer ao lado de vândalos, gangues urbanas e terroristas violentos. Em todos os casos, entendo que o governo sempre terá como argumentar a seu favor que, depois de os alertas terem sido repetidos por tempo razoável, já não se pressupõe que ainda haja civis nas áreas conflagradas. Pode soar ‘duro’ ou cruel contra os civis ingênuos ou simplesmente estúpidos que inevitavelmente ignorarão os alertas, mas é preciso não esquecer que os governos têm a obrigação de proteger não só a vida de civis envolvidos em agitação de rua, mas, também, do restante da população, e a lei e a ordem em geral.

Uma vez a área esteja em condições de ser considerada “área onde não há civis inocentes”, a questão seguinte a ser enfrentada pelo governo é a questão da proporcionalidade. Não se pode mandar a Força Aérea bombardear tudo, com napalm ou bombas de fragmentação, até reduzir a ruínas, todo o centro de Kiev, nem se pode ordenar um ataque de artilharia. Assim sendo, o que se pode fazer para tentar conter os vândalos?

Em primeiro lugar e principalmente, há meios não violentos que podem ser usados e complicarão consideravelmente a situação dos vândalos. Como?

Primeiro, o centro da cidade pode ser completamente cercado e isolado do resto da cidade. Pode-se criar um cordão de forças policiais, bloqueios de rua, barreiras de rolos de arame farpado, veículos blindados, pontos de passagem, etc. que isolarão completamente a área de combate, do resto do planeta.

Unidades de ciberguerra têm de ser usadas para cortar todas as comunicações, inclusive celulares, Internet e conexões por satélite. Todos os sinais das mídias de massa têm de ser localmente derrubados. Devem-se mobilizar todos os esforços para estabelecer uma barreira impenetrável entre a zona de combates e o resto do mundo.

Por último, mas não menos importante, absolutamente nada, nada, entra na área cercada: nada de comida, nada de remédios, nada de água, nada de suprimentos de nenhum tipo. Nada.  Seja qual for o número real de pessoas que estão reunidas atualmente na Praça Maidan, a situação de falta d’água e acúmulo de detritos só se tornará absolutamente inadministrável depois de passadas 24 horas.

Na preparação para a saída de vândalos e gangues urbanas da área conflagrada, devem-se montar quatro pontos de triagem, fortemente protegidos, a serem implantados em torno da área: norte, leste, sul e oeste. Os vândalos que se rendam e decidam abandonar a área só poderão sair por um desses pontos.

Observe-se que, agora, já não se fala de “dispersar civis”: trata-se de “render vândalos”.

Todos os que deixem a praça por um daqueles pontos devem ser imediatamente presos, desarmados, revistados, registrados e conduzidos a locais de detenção temporária, até que a Polícia possa examinar cada caso e, sendo o caso, possam ser levados a julgamento.

Praça Maidan ocupada. Foto realizada do alto de um edifício (nov/2013)
No plano político, o presidente deve parar completamente qualquer tipo de discussão, consultas ou outros “contatos por telefone” com diplomatas estrangeiros que estão garantindo apoio às gangues urbanas. “Desculpe, mas estou ocupado restabelecendo a lei e a ordem. Deixe seu número, que telefonarei quando puder” – isso, e nada além disso, será a única resposta que “negociadores” estrangeiros ouvirão de um chefe de Estado, nessas circunstâncias.

Internamente, o chamado “líder da oposição” que deseje render-se deve receber tratamento idêntico ao de qualquer outro vândalo ou membro de gangues urbanas. Nada mais, nada menos.

Negociar oficialmente com gangues urbanas é atitude absolutamente irresponsável e só faz induzir a escalada da violência.

Observem que nenhuma das medidas acima listadas implica uso de violência, contra pessoa alguma. Mas alguma violência terá, inevitavelmente, de ser mobilizada.

As polícias antitumulto não são a força correta a usar contra gangues urbanas e terroristas. Nesse caso, têm de ser usadas exclusivamente forças especialmente treinadas.

Contra gangues urbanas é preciso usar forças especiais anti-insurgência; contra terroristas é preciso usar forças antiterroristas. Parece óbvio? Bem, talvez pareça a você e a mim, mas não é o que se está vendo acontecer na Ucrânia. Até aqui, Yanukovich só enviou policiais antitumulto para enfrentar todo o espectro das ameaças.

É. Por natureza não sou muito simpático a policiais antitumulto. Sempre me parecem “cães-de-guarda” humanos, que mordem qualquer um que sejam mandados morder. 

Francamente, não consigo pensar em pior escolha profissional.

Mas tenho de admitir duas coisas: todos os países têm de ter esse tipo de força; e os Berkut ucranianos estão sendo submetidos a situações absolutamente inadmissíveis: receberam ordens para não se mover, sob um dilúvio de pedradas e coquetéis Molotov; estão sendo atropelados por caminhões e tratores; receberam ordens para atacar agitadores pesadamente armados e bem organizados, sem sequer uma pistola para defender a própria vida. Estão sendo batidos, dia após dia, e todos os dias o próprio Comandante-em-Chefe deles, o presidente Yanukovich, culpou os próprios policiais pela violência. É comportamento desprezível. Muito me surpreende que aqueles policiais ainda não se tenham levantado contra o próprio Yanukovich.

Não tenho qualquer comprovação, mas suspeito fortemente que as forças especiais e as forças de segurança da Ucrânia estejam hoje como estavam as correspondentes forças russas no início, até meados, dos anos 1990s: absolutamente em frangalhos. E talvez – talvez! – aí esteja o motivo pelo qual Yanukovich não pode usá-las: porque estão imprestáveis. É possível, mas num país do tamanho da Ucrânia, custo a acreditar que não se encontre sequer uma pequena força, suficiente para enfrentar a crise nas ruas do centro de Kiev.  Será que os SBU realmente não têm esse tipo força? Se for assim, então o governo deve ser condenado por crime de negligência.

Tropa ODON (Rússia) especializada e desbaratar gangues urbanas tipo "Black Bloc"
Na Rússia, pode-se dizer que situação como a que se vê em Kiev seria praticamente impossível por muitas razões; mas, imaginando-se que acontecesse lá algo semelhante, o governo poderia usar a força OMON para o caso dos vândalos “comuns”; a força ODON para o caso das gangues urbanas; e os Spetsnaz FSB para o caso dos terroristas. Em nenhum caso e sob nenhuma circunstância os militares devem ser diretamente envolvidos nessas operações (mas, sim, podem ser usados nas áreas de ciberguerra e bloqueio das comunicações).

Outra vez: ou Yanukovich têm forças equivalentes àquelas russas e, nesse caso, está sendo criminosamente negligente por não as usar; ou não as tem e, nesse caso, é criminosamente negligente por não as ter organizado e treinado. Seja como for, há aí responsabilidade direta do governo.

Supondo-se que Yanukovich tenha à sua disposição forças similares, o que poderia fazer? Equipes de atiradores especiais contra-atiradores (convocados das unidades especiais antiterroristas) podem ser distribuídas na área para neutralizar o fogo de atiradores que estejam atacando as forças de segurança.

Batalhões contrainsurgência do tipo ODON russo podem ser usados para dar combate aos “grupos combatentes” (por falta de melhor designação) nacionalistas e de extrema direita. Essas forças têm de poder contar com meios e com o direito de usar força letal, mas há muitas coisas que podem fazer para intimidar vândalos e gangues urbanas (fogo de 30 ou 50mm contra a parede de um prédio fará milagres no sentido de convencer gangues urbanas neonazistas de que é hora de voltarem para o oeste da Ucrânia). Podem-se usar APCs e AIVs para desmontar rapidamente qualquer barricada e neutralizar qualquer “veículo de assalto improvisado” (caminhões, tratores, ônibus, escavadeiras) usado contra os policiais. Basicamente, uma praça como a Maidan pode ser esvaziada em bem poucas horas e com número relativamente baixo de feridos ou mortos. Claro, pode haver vítimas, mas não será um banho de sangue.

Veículo Blindado tipo APC para transporte de pessoal 
Tendo demonstrado que existem todos esses instrumentos de poder de Estado, quero voltar a um ponto que já referi acima: conter a violência e restaurar a lei e a ordem não é opção, é obrigação para qualquer chefe de estado responsável. E se Yanukovich não tem coragem para fazer o que a lei o obriga a fazer, deve renunciar.

Mas o quê Yanukovich faz? Negocia ad nauseam com diplomatas ocidentais e os chamados “líderes da oposição”; fez concessões absolutamente irresponsáveis; tentou mandar os infelizes policiais antitumultos para restaurar a ordem, apesar de eles não poderem, por definição, fazer tal coisa; e, na sequência, culpou os policiais pela violência resultante. Em cada um desses passos, só fez mostrar e mostrar sempre a mesma coisa: fraqueza, fraqueza, fraqueza. E o resultado?

Não só a violência aumentou dramaticamente, a zona conflagrada já espalhou-se para além da praça Maidan e da rua Gruchevski. Nessa imagem fotografada de um mapa de TV russa, vê-se a área dos combates: 

"Screen shot"do centro de Kiev. A áream hachurada em vermelho é o local dos combates
Agora que a violência espalhou-se para parte muito maior do centro de Kiev, será preciso força muito maior para controlá-la?

Só posso esperar que as gangues urbanas não tenham pessoal suficiente para se infiltrar e fixar-se em áreas maiores que antes, porque, se isso acontecer, aumentará muito o custo humano de conter a violência.

Em conclusão, quero dizer o seguinte: não posso aceitar o argumento de que Yanukovich não pode lidar com a violência por questões políticas. Nenhuma sabedoria política é desculpa para que um chefe de governo não cumpra o juramento de proteger as pessoas comuns, defender a Constituição e manter a lei e a ordem. Rejeito categoricamente a noção de que mandar policiais desarmados, ou armados só com armas não letais, seria o modo correto de enfrentar o tipo de situação que está criada em Kiev. Entendo que as “negociações” e “consultas” sem fim, sempre com inimigos jurados do povo ucraniano, como diplomatas da União Europeia e os chamados “líderes da oposição”, são, não apenas inúteis, mas, pior que isso, altamente contraproducentes; e só induzem à escalada da violência.

Viktor Yanukovich, atual Presidente da Ucrânia
Assim sendo, não só Yanukovich fez tudo errado no passado, como continua a fazer tudo absolutamente errado. Vejo-o como culpado número 1 pela situação atual e temo pelo muito que ele ainda pode fazer para danar totalmente com tudo, antes que seja varrido para fora do poder.

Tudo isso é muito trágico e triste, e a única coisa boa que vejo como fruto desse caos, dessa miséria e dessa violência é a possibilidade de que o leste e o sul da Ucrânia finalmente percebam que não têm futuro num mesmo país com os Zapatentsy doidos, as milícias neonazistas e outros nacionalistas; e que têm de retomar para eles a própria soberania, unidos à Rússia, que seja, ou, pelo menos, que rompam completamente os laços que ainda os ligam ao oeste da Ucrânia.

Quanto a Yanukovich, já tem lugar garantido nos livros de história ao lado de gente como Kerensky e Ieltsin; e nada de bom acontecerá na Ucrânia, enquanto esse patético fantoche oligárquico permanecer no poder.

The Saker

PS: A única boa notícia dessa manhã é a seguinte: Dmitry Peskov, porta-voz de Vladimir Putin, confirmou que a Rússia de modo algum se envolverá no atual conflito na Ucrânia. Graças a Deus!