domingo, 3 de novembro de 2013

A Casa Branca aliviará as sanções contra a Síria

1/11/2013, [*] Franklin Lamb, Countercurrents.org
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Depto do Tesouro dos EUA - Gabinete de Controle de Ativos Financeiros
Damasco. Espera-se para meados de novembro mais alívio nas sanções contra a Síria, segundo o pessoal do Gabinete de Controle de Ativos Financeiros [orig. Office of Financial Asset Control (OFAC)] do Departamento do Tesouro dos EUA.

Putin pressionar Obama é parte do “preço” a ser pago pelos EUA em retribuição ao que a Rússia fez, quando “resgatou” o presidente dos EUA, cuja “linha vermelha” das armas químicas transformou-se, de praticamente nada, num albatroz gigante. Mas há outra razão para o afrouxamento: a Casa Branca entende que tem de dar a conhecer a Damasco que há possibilidade de melhores relações, e até, talvez, de alguma cooperação; que essas possibilidades não estão mortas e enterradas, apesar dos 32 meses de crise na República Árabe Síria.

Esse segundo relaxamento das sanções mostrará mais equilíbrio e neutralidade que o primeiro, de junho passado, que foi interpretado como de apoio à ajuda que sauditas e monarquias do Golfo davam aos “rebeldes” e para enfraquecer o governo Assad, exatamente no momento em que o Exército Sírio começava a ganhar terreno na guerra contra os “rebeldes”. Naquele momento, foram liberadas algumas licenças para exportar determinados bens relacionados à reconstrução da infraestrutura em áreas controladas, então, pelos “rebeldes”. Especificamente, o OFAC sinalizou que aceitaria pedidos de licença para mercadorias, tecnologia e softwares relacionados ao abastecimento de água e a serviços sanitários, à produção agrícola e ao processamento de alimentos, à geração de energia, à produção de petróleo e gás, à construção e engenharia, aos transportes e à infraestrutura educacional. As áreas mais beneficiadas seriam áreas que, então, estavam sob controle dos “rebeldes”.

Deliberação sobre sanções contra a Síria

Da esquerda para a direita: o líder da maioria no Senado Whip Durbin (D-IL); a assistente de Segurança Nacional, Susan Rice; o porta-voz da Casa Branca, Boehner (R-OH); o presidente Obama; a líder da minoria no Congresso Pelosi (D-CA) e o líder da minoria no Senado, McConnell (R-KY)
Não que alguém esteja duvidando do profundo espírito patriótico dos setores do Departamento do Tesouro dos EUA que mais ferozmente tendem a favor dos sionistas, e que mandam os cidadãos dos EUA “consultar nossa página de “Questões mais frequentes” [orig. Frequently Asked Questions (FAQ)] “para encontrar respostas às suas insistentes dúvidas sobre como as sanções aplicadas à Síria e ao Irã são importantes para as famílias e os negócios de vocês”.

Mas não será trabalho fácil, dada a obsessão para dar ares “legais” aos textos das sanções.

Há atualmente três tipos de sanções impostas contra a Síria pelo governo dos EUA. A sanção mais ampla, chamada “Lei de Transparência para a Síria” [orig. Syria Accountability Act (SAA)] de 2004, proíbe a exportação para a Síria da maioria das mercadorias que contenham mais de 10% de partes manufaturadas nos EUA. Outra sanção, resultante da “Lei Patriota dos EUA” [orig. USA Patriot Act], foi aplicada especificamente contra o Commercial Bank of Syria, em 2006. O terceiro tipo de sanções inclui várias Ordens Executivas, do presidente, que especificamente negam a alguns cidadãos e entidades sírias acesso ao sistema financeiro dos EUA, por uma sua alegada participação na proliferação de armas de destruição em massa, associação com a Al-Qaeda, os Talibã ou Osama bin Laden; ou por atividades de desestabilização no Iraque e no Líbano.

Lei “Transparência para a Síria e Devolução da soberania ao Líbano” [orig. Syria Accountability and Lebanese Sovereignty Restoration ACT, SAA]

Em maio de 2004, o presidente assinou a Ordem Executiva n. 13.338 que implementou a lei “Transparência para a Síria e Devolução da Soberania ao Líbano” [orig. Syria Accountability and Lebanese Sovereignty Restoration ACT, SAA], que impõe uma série de sanções contra a Síria por seu apoio ao terrorismo, envolvimento no Líbano, programas de armas de destruição em massa e participação na desestabilização do Iraque.

Além disso, o documento do Departamento do Tesouro indicava que o OFAC consideraria caso a caso os pedidos que lhe fossem encaminhados, para permitir alguns serviços no setor agrícola, da indústria de telecomunicações síria, garantindo melhor acesso para os cidadãos à Internet; e algumas transações de petróleo, que beneficiassem as forças “rebeldes” também foram autorizadas. O OFAC também revisou a Syria General License 11, que foi substituída por uma General License 11A, que autorizava algumas ONGs a participar de atividades para preservar a herança cultural síria, incluindo museus, prédios históricos e sítios arqueológicos.

Assad pede ajuda para que sejam levantadas as sanções contra a Síria
O novo passo, no processo de levantar as sanções, que se supõe que venha a ser anunciado mês que vem, ajudará o governo Assad, porque se espera que sejam reduzidas as proibições relacionadas a transações bancárias internacionais e a proibições de comerciar. Ao mesmo tempo, funcionários dos EUA estão discutindo com seus “parceiros” russos uma lista de propostas para reconhecer o direito do povo sírio de votar livremente nas próximas eleições, sem que os EUA possam impor a condição de que o processo de “transição para a democracia” só comece depois da renúncia do presidente Bashar Assad.

Além disso, a Casa Branca está sinalizando para os líderes no Congresso, em voz tão alta que o mundo já ouviu, que a ideia do presidente Obama de ampliar o fornecimento de armas para os “rebeldes” sírios sempre foi muito mais limitada do que a mídia alardeou. De fato, o aceno – que se lê em alguns itens da Lei de Controle da Exportação de Armas [orig. Arms Export Control Act] – autoriza apenas específicas transferências exclusivamente para membros “aprovados” da oposição e para ONGs na Síria. Os itens de defesa a serem fornecidos são descritos como os “necessários para conduzir operações na Síria ou relacionadas à Síria, ou para impedir a preparação, o uso ou a proliferação das armas químicas sírias”. Quem será responsável por “aprovar” os tais membros da oposição que poderão receber armas não foi especificado, nem os itens aparecem detalhados na lei. Mas, muito significativamente, a Casa Branca tem dito que essa não é uma lei geral, e aplica-se a uma única e específica transação.

Hoje, as empresas fornecedoras de armas para a Defesa já não têm licença em branco para embarcar o que bem entenderem para a oposição síria. Isso, porque a Seção 40(g) da Lei de Controle da Exportação de Armas (22 USC § 2780 g), especificamente dá ao presidente autoridade para suspender a execução de uma autorização do Congresso, numa específica transação, no caso de o presidente entender que a suspensão seja “essencial para a defesa dos interesses da segurança nacional dos EUA”, devendo o presidente informar ao Congresso sobre sua decisão (a lei manda o presidente determinar ao Secretário de Estado que informe ao Congresso).

A mais forte oposição contra os planos da Casa Branca para aliviar as sanções que atingem civis sírios vem, como sempre, do lobby sionista no Congresso dos EUA. Os apoiadores de Israel no Congresso querem impedir qualquer alívio nas sanções impostas pelos EUA – primeiro contra o Irã, depois contra a Síria. Está para começar uma reunião de dois dias, em Viena, entre especialistas do grupo P5+1 (EUA, Rússia, China, Grã-Bretanha, França e Alemanha) e seus contrapartes iranianos, na qual se discutirão detalhes técnicos relacionados ao programa nuclear do Irã e as sanções internacionais. Essa reunião ajudará a traçar o plano para a próxima rodada de negociações diplomáticas, marcada para acontecer em Genebra, nos dias 7-8 de novembro, e já se prevê que a Casa Branca aceitará as propostas de Rússia e União Europeia, no sentido de dar um sinal de boa fé recíproca a Teerã, levantando algumas das sanções que atingem civis no Irã.

Reunião de Genebra: P5+1 (EUA, Inglaterra, França, Rússia, China + Alemanha) e Irã 
Apesar de o P5+1 e Teerã terem concordado em manter secretos os conteúdos das discussões, o objetivo geral dessas conversações é conseguir que o Irã reduza sua capacidade para enriquecer urânio e outras atividades nucleares, em troca de um alívio no regime de sanções que está estrangulando a economia iraniana. Estão em discussão os meios para verificar o cumprimento das concessões que o Irã faça e o sequenciamento de qualquer redução nas sanções.

No início dessa semana já se viam sinais de progresso, em comentários feitos depois de conversas em separado entre o Irã e a Agência Internacional de Energia Atômica. Num raro comunicado conjunto, os dois lados declararam as conversas “muito produtivas” – notável diferença em relação a onze reuniões semelhantes em anos recentes, em nenhuma das quais se viu qualquer progresso na conciliação do que a AIEA chamou de “possíveis dimensões militares” do programa nuclear iraniano. O recente comunicado conjunto indica também que um documento discutido em reuniões passadas foi posto de lado, e que se adotou abordagem nova.

Por mais ansioso que esteja, à espera que as negociações sejam bem-sucedidas, o governo Obama também ecoou o argumento do lobby sionista segundo o qual “nenhum acordo é melhor que um mau acordo”. A questão é que, se essas conversações falharem, o apoio internacional às sanções também começará a ruir, o que reduzirá ainda mais a capacidade de alavancagem dos EUA.

O mundo assiste a essa movimentação, sobretudo os aliados dos EUA na Europa e na Ásia, mas também “amigos” regionais como a Jordânia, os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita. Embora já claramente interessada em levantar algumas das sanções contra a Síria e o Irã, a Casa Branca ainda enfrenta rígida oposição de Telavive e de Riad, e ambos esses governos têm criticado os EUA por não tomar decisões firmes na Síria e por uma atitude vista como conciliatória em relação ao Irã.

O secretário de Estado John Kerry, dizem as notícias, continua empenhado em continuadas conversas com funcionários sauditas-israelenses, tentando acalmar neles uma angústia sempre crescente.
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[*] Franklin Lamb foi advogado-assistente do Comitê Judiciário da Câmara dos EUA e professor de Direito Internacional na Northwestern College of Law, Portland,Oregon. Obteve seu diploma de Direito na Boston University, sua pós graduação (LLM), mestrado (M.Phil) e doutoramento (Ph.D). na London School of Economics. Ele está atualmente residindo em Beirute e Damasco. 
Depois de 3 anos advogando no Tribunal de Haia, tornou-se professor visitante na Harvard Law School’s East Asian Legal Studies Center, onde se especializou em Direito chinês.Ele foi o primeiro ocidental admitido pelo governo da China visitar a famosa prisão de “Ward Street”, em Xangai. Lamb está atualmente pesquisando no Líbano e trabalhando com a Palestine Civil Rights Campaign-Lebanon e a Sabra-Shatila Foundation. Seu novo livro, The Case for Palestinian Civil Rights in Lebanon, será lançado em breve.

Pepe Escobar: “Porque Vladimir governa e Obama bombardeia”

1/11/2013, [*] Pepe Escobar, Russia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama
Nos dois casos, na saga da Agência de Segurança Nacional dos EUA e na crise síria, Putin jogou xadrez, e Obama jogou damas com ele mesmo – e perdeu.

Anualmente, a revista Forbes publica sua lista de gigantes, chefes de estado, magnatas das finanças e dos negócios que “realmente governam o mundo”. Quase sempre, o presidente em exercício dos EUA – o comandante-em-chefe da mais letal armada na história do mundo – aparece no pódio máximo.

Mas não em 2010, quando Barack Obama perdeu para o então presidente da China, Hu Jintao, logo depois da crise financeira provocada por Wall Street. Nem em 2013, quando o vencedor é o presidente Vladimir Putin da Rússia.

Não por acaso, China e Rússia são os dois países mais influentes dos BRICS, as potências emergentes. Rankings da imprensa-empresa norte-americana, como “O homem do ano” da revista Time podem ser irrelevantes, e em geral são extremamente provincianos. Mas como golpe de Relações Públicas, o reconhecimento pelos norte-americanos do poder suave de Putin tem valor inestimável, mesmo que apareça na sequência do reconhecimento pela vastíssima maioria da verdadeira “comunidade internacional”: o mundo em desenvolvimento.

Diga-se a seu crédito, que a revista Forbes anota que

(...) qualquer um que estivesse assistindo ao jogo de xadrez, esse ano, em que se disputavam a Síria e os vazamentos da Agência de Segurança Nacional dos EUA, veria claramente a dinâmica da mudança do poder individual.

Os EUA nos ESPIONA e nos ROUBA
Mas é mais, muito mais que isso. Putin deixou que o caso de Edward Snowden, extremamente sensível, fosse encaminhado com totais, absolutas legalidade e transparência; e, além do mais, sem tripudiar sobre a impotência dos EUA. Putin literalmente salvou o governo Obama, no último segundo, de mais uma guerra no Oriente Médio, de consequências potencialmente devastadoras – momento geopolítico tão grave e perigoso quanto a crise dos mísseis em Cuba.

Como se poderia prever, a Think-thank-elândia dos EUA – com aquele QI coletivo atrofiado por décadas de hubris e de naturalização do complexo orwelliano/Panopticon – resiste contra ver os fatos. Moscou não precisa tentar pintar a hiperpotência como fraca ou indigna de confiança. Os fatos falam por eles mesmos – desde a corrida desenfreada sempre na direção de mais guerras por causa de uma “linha vermelha” demarcada temerariamente por Obama, até a espionagem generalizada, tanto contra “amigos” como contra inimigos potenciais.

Em depoimento à Comissão de Inteligência da Câmara de Representantes, o diretor da Inteligência Nacional, James Clapper, disse, com todas as letras, que a Agência de Segurança Nacional dos EUA e a CIA não podem espionar nenhum líder político grampeando seu telefone celular privado, sem a permissão da Casa Branca. Digam o que disserem, Obama sabia da espionagem contra, dentre outros, a presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, e a chanceler alemã Angela Merkel.

Não é preciso ter lido Orwell para saber que aí está mais uma instância da visão de mundo de “Masters of the Universe”. Espionar contra norte-americanos é “legítimo”. É “legítimo” espionar contra todo o sul global, inteiro – inclusive contra os mais influentes BRICS.

Os EUA além de espionar Angela Merkel espionou Dilma Roussef
Podem chamar de neofeudalismo eletrônico – no qual ninguém, em lugar algum, é cidadão real, plenamente capaz para exercer os próprios direitos; ninguém passa de camponês apagado, sem glória. Com Merkel a história foi um pouco diferente: ela é sócia do clube dos “Masters of the Universe”, e por isso, só por isso, há alguns em Washington que consideram – muito levemente – a possibilidade de que, talvez, talvez, a Agência de Segurança Nacional dos EUA tenha ido longe demais.

Basta de excepcionalismo

Aquela famosa coluna assinada, em setembro, no The New York Times, na qual Putin vergastou o excepcionalismo norte-americano, reverberou furiosamente por todo o mundo em desenvolvimento, porque foi como um grito primal. Os chineses, naturalmente cautelosos, jamais seriam os primeiros a articular a mesma ideia tão claramente (mas a articularam logo depois, quando exigiram mundo “des-americanizado”, com ênfase mais econômica, que política). Esqueçam os europeus, ou mesmo o Brasil. Só Putin teve a autoridade para anunciar o que a vasta maioria do planeta já pensava há bom tempo.

Ninguém mais aguenta o excepcionalismo dos EUA. Outro exemplo: a Assembleia Geral da ONU, ela também devidamente espionada, aprovou – por enorme maioria – a condenação do embargo norte-americano, comercial, econômico e financeiro, pelo 22º ano sem interrupção. Foram 188 votos contra o embargo, 2 a favor e três abstenções. Só EUA e Israel votaram contra o fim do embargo.

Vladimir Putin
Enquanto os cães da guerra e da vigilância latem, a silenciosa caravana russa passa. Putin está estendendo a influência russa na Europa Central e solidificando a parceria com a Alemanha. A parceria estratégica China-Rússia avança suavemente. A Rússia é outra vez ator influente no Oriente Médio. Putin tenta criar uma alternativa multilateral viável, aos diktats imperiais dos EUA. Trata-se de poder soft [suave], tanto quanto de poder hard [duro].

As proverbiais cassandras carpideiras, da Think-tank-elândia norte-americana, serão deixadas a gemer infinitamente contra a “estagnante” economia russa, contra a “tensão” étnica e religiosa, contra a “atrofia” política devida ao “autoritarismo” de Putin e males equivalentes. Bobagem.

Em ensaio importante, o top-blogueiro The Saker traça meticulosamente todas as idas e vindas chaves e as principais subcorrentes dos últimos 20 anos das relações EUA-Rússia – aí incluída a, hoje, já proverbial demonização de Putin.

Voltemos aos fatos do chão geopolítico. Putin colheu o momento e agora é, pode-se dizer, o ator chave que tenta construir uma emergente e alternativa, ordem multilateral. Quanto a Obama, imperial pato manco, parece destinado a manter o bombardeio, em vários sentidos.




[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista político do blog Tom Dispatch e correspondente das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:

sábado, 2 de novembro de 2013

A “Jihad” universal e o fator xiita

6/10/2013, Nikolai MALISHEVSKI, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Khalid bin
Ahmed al-Khalifa
Há poucos dias, o Ministro de Relações Exteriores do Bahrain, Khalid bin Ahmed al-Khalifa, exigiu o assassinato do Secretário-Geral do Hezbollah, xeique Hassan Nasrallah, dizendo que livrar o Líbano de Nasrallah seria “dever nacional e religioso”. [1] A causa da declaração é que o governo do reino-ilha já perdeu completamente o controle sobre a maioria xiita de sua população, que é simpática ao Hezbollah e tende na direção do Irã xiita. Na primavera passada, o Bahrain tornou-se o primeiro país árabe cujo gabinete de ministros incluiu o Hezbollah, que está dando amplo apoio ao governo de Bashar al-Assad, em sua lista de organizações terroristas.

A agitação entre os xiitas, nas quais muitos veem “a mão de Teerã”, não se tem limitado ao Bahrain. O fator xiita é extremamente preocupante também para os sauditas, para o governo do Iraque e para o governo libanês.

Hassan Nasrallah
Ao mesmo tempo, o Bahrain e outros aliados dos EUA no Oriente Médio – Israel, Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos – têm manifestado grave preocupação com o que veem como uma reaproximação entre EUA e Irã.

Outra das razões para essas preocupações tem a ver com algo que o rei Fahd saudita anunciou ao mundo em meados dos anos 1980s: “A santa jihad é revolução sem limites, como o comunismo”. Desde os anos 1970s e até recentemente, os sauditas, inflados pelo apoio de Washington, acreditavam que estivessem, como sunitas devotos, do “lado mais forte” dessa jihad e que lideravam os muçulmanos do mundo para uma nova ordem mundial. Mas, depois da Revolução Iraniana de 1979, surgiu outro aspirante ao papel de líder no mundo do Islã – e esse não era controlado pelos EUA.

Exposição da Sociedade Hojjatieh em Mashhad, Irã
O Irã tem suas organizações globalistas unidas em organizações influentes, como a Sociedade Hojjatieh – uma “mão invisível” na Revolução Iraniana na qual se reuniam os clérigos conservadores, diplomatas, militares, altos funcionários do governo, pessoal de inteligência, empresários, comerciantes e tecnocratas. Sua esfera de influência é muito ampla, de bancos e alto comércio a venda de armas e embarque de moderno equipamento eletrônico. Além disso, a Sociedade Hojjatieh (um de seus representantes no governo foi o ex-presidente Mahmud Ahmadinejad) apoia ativamente o lobby iraniano nos EUA. 

Aiatolá Yazdi e Ahmadinejad, membros da Sociedade Hojjatieh
Os líderes da Sociedade fazem tudo que podem para que o Irã expanda suas conexões políticas também com a Europa, sobretudo com a Grã-Bretanha, onde a Sociedade mantém laços estreitos com organizações da elite britânica como a Astrum Argentum [2] e a Ordem do Golden Dawn in the Outer, as quais têm conexões de longo alcance com círculos políticos e intelectuais ocidentais.

Aiatolá Khomeini
O fato de a Grã-Bretanha estar advogando o fim das limitações que os EUA impuseram a contatos com o Irã prova o quanto são consideráveis os laços não oficiais entre iranianos e europeus. Nas pegadas de Londres já vêm também Berlin e Paris, de onde, uma vez, o Aiatolá Khomeini partiu triunfante, rumo a Teerã, para iniciar sua revolução. Por isso, alguns membros de vários governos dos EUA há muito tempo chamam Grã-Bretanha, França e Alemanha de “a troika de Teerã”.

Alguns representantes do establishment da República Islâmica do Irã [ing. Islamic Republic of Iran, IRI] jamais esconderam seus objetivos globalistas. Praticamente no mesmo momento em que o rei saudita enunciava sua tese sobre a “santa jihad” e o comunismo, um candidato à presidência do Irã, Jaleleddin Farsi, dizia que considerava como prioridade converter a revolução islâmica iraniana em revolução islâmica mundial. O primeiro passo nessa via seria uma revolução islâmica no Afeganistão sunita; o segundo seria o início de uma “verdadeira revolução islâmica mundial”, que seria “mais poderosa que a Revolução Francesa e todas as revoluções que a precederam”. E, finalmente, o terceiro passo seria uma revolução islâmica na Ásia Central.

Hoje já praticamente ninguém lembra que houve tempo em que a ação militar contra a Rússia no Afeganistão foi apoiada não só pelos EUA e pela Arábia Saudita, mas também pela República Islâmica do Irã. Parte da elite iraniana desenvolveu uma estratégia de longo prazo para preparar e exportar a revolução islâmica global. O primeiro experimento bem-sucedido nessa área foi o Líbano, onde, em 1982, o movimento do Hezbollah (Partido de Deus) foi criado pelos iranianos e declarou-se em jihad contra Israel e o ocidente.

Hoje, o Hezbollah, que opera efetivamente no Bahrain e em todo o Oriente Médio, tem milhares de apoiadores em vários países, inclusive em países da União Europeia e nos EUA onde, conforme dados do FBI, mantém células em mais de dez cidades. Além do Hezbollah, há inúmeras organizações revolucionárias islâmicas em operação em regiões do Oriente Médio e da Ásia Central, que são intimamente ligadas a seitas míticas do Islã xiita. Por exemplo, a Sociedade Roshaniya (“Clarividentes”), surgida na Idade Média e que operou no território do Irã, do Afeganistão, do Paquistão e da Caxemira indiana modernos (o seu mais recente análogo europeu são os Illuminati, o braço revolucionário da Maçonaria). Um dos principais dogmas dessa sociedade é a abolição dos governos nacionais e o estabelecimento de uma supersociedade mundial.

Aga Khan IV
Outra sociedade secreta conectada à Roshaniya, inclusive no nível ideológico, é a Ordem Xiita dos Hashishinos [de hashish (árabe), raiz etimológica das palavras (port.) “assassino” e “haxixe” (NTs)], ou Nizari Ismailis, que se formou no Irã e aterrorizou todo o Oriente. Sua principal arma eram agentes treinados para o suicídio e o uso controlado de drogas. Atualmente, o imã dos Ismailitas é Aga Khan IV, um dos principais representantes oficiais na ONU dos interesses da Grã-Bretanha, favorito da família real britânica e uma das maiores fortunas do planeta. [3] Ao mesmo tempo, é imã de um ramo do Islã que, nos idiomas europeus, converteu-se em sinônimo de assassinos de aluguel, além de ser figura chave de um dos maiores casos da política contemporânea, o “caso Irã-Contras”; do financiamento aos partidos de mujahideens no Afeganistão; do movimento pró-independência da Caxemira, pró-Grã-Bretanha etc..

Dentre os ensinamentos dessas organizações, há a crença de que o poder da irmandade torna-se maior cada vez que incorpora o espírito de um dos irmãos mortos. Quanto mais irrepreensivelmente crente fiel for o mártir, mais poder ele transfere para sua irmandade. Hoje, os hashishinos medievais “reincarnaram” em shahids [ar. “testemunhas”] suicidas que, sob a forma que têm hoje, apareceram num tempo relativamente recente no mundo islâmico. Em escala massiva, surgiram durante a guerra Irã-Iraque, quando o Irã usou soldados suicidas que se lançavam com explosivos sob tanques iraquianos; em escala individual, apareceram em outubro de 1983, quando o Hezbollah assumiu publicamente a responsabilidade por um ataque de suicida-bomba que matou mais de 300 soldados e pessoal militar dos EUA e França.

Jihadistas da al-Qaeda
Essas organizações para-xiitas, ou quase-xiitas, formam uma rede transnacional. É perfeitamente possível que ela se converta em alternativa à rede transnacional terrorista de sociedades para-sunitas, ou quase-sunitas, como a Fraternidade Muçulmana e a al-Qaeda – as duas criadas pela anglosfera [os anglo-saxões; países de língua inglesa (NTs)]. Apesar de terem objetivos semelhantes, a principal diferença entre as duas redes é que a base dos métodos dos xiitas é a disposição ao autossacrifício pelo qual o mártir liberta-se do poder de autoridades mundanas; e a base dos métodos dos sunitas é uma espécie de impulso canibal para sacrificar qualquer um em nome da liberdade para continuarem a fazer o que desejem fazer ao resto da humanidade.

Hoje, ante a crescente atividade que se vê entre agentes do fator xiita no Oriente Médio; consideradas a resistência dos sírios e a próxima saída dos norte-americanos do Afeganistão; e considerados os cada dia mais graves problemas internos nos EUA e na Arábia Saudita, os monarcas do Golfo e os EUA estão, sim, gravemente preocupados. Todos esses temem, hoje, sobretudo, duas coisas:

a) que venham a perder o controle sobre as organizações pan-islâmicas sunitas radicais que rejeitam qualquer ideologia de estado nacional em países muçulmanos, em nome da unidade global da Ummah [comunidade mundial dos muçulmanos]; e

b) a promoção do Irã e dos xiitas, como um todo, para os papéis chaves no segmento islâmico da globalização; e o fim do controle de Washington sobre esse segmento, no caso de os EUA não encontrarem meio para influenciar o processo.

Só isso explica os recentes eventos no Bahrain e no Iraque; o apoio aberto dos EUA à al-Qaeda na Síria; a ameaça de ataque contra o Hezbollah no Líbano; e o diálogo entre Washington e Teerã, que tanto alarmou aliados dos EUA no Oriente Médio.



Notas de rodapé
[1] Ver também 28/9/2013, Asia Times Online - redecastorphoto (port.) em: Pepe Escobar:“Como os EUA estão criando o Siriastão”. [NTs].
[2] “Estrela de Prata”. Esta organização com esse nome mantém página em português do Brasil.
[3] Sobre ele, ver New York Times, 2/7/2007, “Islã e negócios se misturam?” (ing.) [NTs].


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Na Itália, a comunicação é estratégica!

29/10/2013, [*] Manlio Dinucci, Il Manifesto, It., L’arte della guerra
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Mario Mauro e o "lobby" dos F-35
Quem suporia que o professor Mario Mauro, graduado em Letras e Filosofia pela Universidade Católica do Sagrado Coração em Milão e, além do mais, com experiência militar de sargento, ter-se-ia convertido em expert em estratégia? Nomeado Ministro da Defesa, ele imediatamente expediu sua “Diretiva para a comunicação estratégica”.

O presidente Napolitano – explica-se na introdução – declarou que é preciso reagir contra a desinformação e as polêmicas que conspurcam o aparelho militar, posto no espírito da Constituição e ao presidir a participação italiana nas missões de estabilização e de paz.

Informar sobre o que faz a Defesa para cumprir seu dever institucional, não é, portanto, apenas um dever, mas uma necessidade, para impedir a difusão de informações erradas. Como aquela – atenção! – que nós, do jornal Il Manifesto, distribuímos em 2011, na qual denunciamos a guerra da Líbia e as verdadeiras razões ocultadas naquela guerra, enquanto o presidente Napolitano garantia que “não entramos em guerra; estamos empenhados numa ação autorizada pelo Conselho de Segurança”.

Giorgio Napolitano
A opinião pública e os meios de comunicação em massa, destaca a “Diretiva”, devem ser postos em condições de compreender e respeitar a necessidade de que haja um instrumento militar capaz, flexível e ágil.

As novas ameaças à segurança impõem que o empenho da Defesa estenda-se até bem além dos limites nacionais, para antecipar e impedir os ataques. Resposta errada ou distorcida à comunidade internacional (leia-se: à OTAN sob comando dos EUA) compromete não só a imagem da Itália, mas também põe em risco os seus interesses estratégicos e econômicos. É preciso aumentar no público a consciência de que as operações militares contribuem para o crescimento do país e de que a Itália deve assumir papéis e funções de responsabilidade cada vez maior.

Um desses papéis-funções é, por exemplo, como Mauro confirmou em recente reunião dos ministros de Defesa dos países da OTAN, participar com contingente de mais 20 mil soldados do exército que permanecerão no Afeganistão depois de 2014, ação que custará 4 bilhões de dólares por ano, para fortalecer o governo afegão (um dos mais corruptos do mundo).

Nas operações militares, como ensina a “Diretiva”, a comunicação estratégica deve ser considerada a base das demais funções operativas. Em outras palavras, quando se empenham forças militares nas guerras, é preciso, simultaneamente, convencer os cidadãos sobre a necessidade de fazê-lo. Essa função específica de convencimento, também ensina a “Diretiva”, deve ser cumprida no contato com as comunidades que vivam em áreas próximas das instalações militares (convencendo, por exemplo, a população de Niscemi a aceitar as antenas-monstrengos do Mobile User Objective System, MUOS [1] dos EUA); e os demais cidadãos, a aceitarem os programas militares de investimento (quer dizer: convencendo todo mundo de que é excelente consumir 15 bilhões de euros para comprar caças F-35).

Sistema MUOS de comunicação
A comunicação estratégica é dirigida em geral aos meios de comunicação, ao mundo da escola, às universidades, às associações culturais. Deve ao mesmo tempo visar aos “atores culturais” (jornalistas, diretores de programas de televisão, blogueiros e outros, para que esses convençam a opinião pública a defender as forças armadas e suas operações) e aos “decisores políticos” (deputados e senadores, porque votam leis que reforçam o setor militar).

Não se trata só de informar os destinatários preferenciais da Defesa, esclarece a “Diretiva”, mas também outros que estejam envolvidos no bom êxito das decisões tomadas pela Defesa. Em outras palavras: a campanha que o Ministério da Defesa da Itália está pondo em marcha não é apenas uma colossal campanha de desinformação, concebida e posta em ação por pessoal escolhido e especialmente formado para a função de desinformar. Ela é também um verdadeiro e amplo plano para militarizar todas as mentes.



Nota dos tradutores
[1] O sistema MUOS (Mobile User Objective System) é sistema de última geração de comunicações militares por satélite, previsto para melhorar significativamente a comunicação em solo para as forças dos EUA que estejam em deslocamento, e para facilitar o emprego dos “usuários combatentes transportadores de unidades celulares de comunicação” (especialmente os drones) por todo o planeta. O sistema MUOS oferece simultaneamente capacidade para voz, vídeo e armazenamento de dados, e usa a tecnologia 3G de comunicação de telefonia celular. O MUOS oferece capacidade dez vezes maior de comunicação que os sistemas atuais. As naves MUOS são o primeiro modelo de um sistema de comunicação por satélite que substituirá o sistema Ultra High Frequency Follow-On (mais, em 27/8/2013, “Sicily Against War: Resisting the Niscemi US Military Base” [Sicília contra a guerra: resistência contra a base militar dos EUA em Niscemi]. Sobre o sistema MUOS, ver em: “Mobile User Objective System-2 Satellite Launch”.

População de Niscemi -Sicilia, It. é contra a instalação do MUOS
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[*] Manlio Dinucci é geógrafo e geopolíticólogo italiano. Últimas publicações: Geocommunity Ed. Zanichelli 2013 ; Geografia del ventunesimo secolo, Zanichelli 2010; Escalation. Anatomia della guerra infinita, Ed. DeriveApprodi 2005.