Mostrando postagens com marcador Italia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Italia. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Na Itália, a comunicação é estratégica!

29/10/2013, [*] Manlio Dinucci, Il Manifesto, It., L’arte della guerra
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Mario Mauro e o "lobby" dos F-35
Quem suporia que o professor Mario Mauro, graduado em Letras e Filosofia pela Universidade Católica do Sagrado Coração em Milão e, além do mais, com experiência militar de sargento, ter-se-ia convertido em expert em estratégia? Nomeado Ministro da Defesa, ele imediatamente expediu sua “Diretiva para a comunicação estratégica”.

O presidente Napolitano – explica-se na introdução – declarou que é preciso reagir contra a desinformação e as polêmicas que conspurcam o aparelho militar, posto no espírito da Constituição e ao presidir a participação italiana nas missões de estabilização e de paz.

Informar sobre o que faz a Defesa para cumprir seu dever institucional, não é, portanto, apenas um dever, mas uma necessidade, para impedir a difusão de informações erradas. Como aquela – atenção! – que nós, do jornal Il Manifesto, distribuímos em 2011, na qual denunciamos a guerra da Líbia e as verdadeiras razões ocultadas naquela guerra, enquanto o presidente Napolitano garantia que “não entramos em guerra; estamos empenhados numa ação autorizada pelo Conselho de Segurança”.

Giorgio Napolitano
A opinião pública e os meios de comunicação em massa, destaca a “Diretiva”, devem ser postos em condições de compreender e respeitar a necessidade de que haja um instrumento militar capaz, flexível e ágil.

As novas ameaças à segurança impõem que o empenho da Defesa estenda-se até bem além dos limites nacionais, para antecipar e impedir os ataques. Resposta errada ou distorcida à comunidade internacional (leia-se: à OTAN sob comando dos EUA) compromete não só a imagem da Itália, mas também põe em risco os seus interesses estratégicos e econômicos. É preciso aumentar no público a consciência de que as operações militares contribuem para o crescimento do país e de que a Itália deve assumir papéis e funções de responsabilidade cada vez maior.

Um desses papéis-funções é, por exemplo, como Mauro confirmou em recente reunião dos ministros de Defesa dos países da OTAN, participar com contingente de mais 20 mil soldados do exército que permanecerão no Afeganistão depois de 2014, ação que custará 4 bilhões de dólares por ano, para fortalecer o governo afegão (um dos mais corruptos do mundo).

Nas operações militares, como ensina a “Diretiva”, a comunicação estratégica deve ser considerada a base das demais funções operativas. Em outras palavras, quando se empenham forças militares nas guerras, é preciso, simultaneamente, convencer os cidadãos sobre a necessidade de fazê-lo. Essa função específica de convencimento, também ensina a “Diretiva”, deve ser cumprida no contato com as comunidades que vivam em áreas próximas das instalações militares (convencendo, por exemplo, a população de Niscemi a aceitar as antenas-monstrengos do Mobile User Objective System, MUOS [1] dos EUA); e os demais cidadãos, a aceitarem os programas militares de investimento (quer dizer: convencendo todo mundo de que é excelente consumir 15 bilhões de euros para comprar caças F-35).

Sistema MUOS de comunicação
A comunicação estratégica é dirigida em geral aos meios de comunicação, ao mundo da escola, às universidades, às associações culturais. Deve ao mesmo tempo visar aos “atores culturais” (jornalistas, diretores de programas de televisão, blogueiros e outros, para que esses convençam a opinião pública a defender as forças armadas e suas operações) e aos “decisores políticos” (deputados e senadores, porque votam leis que reforçam o setor militar).

Não se trata só de informar os destinatários preferenciais da Defesa, esclarece a “Diretiva”, mas também outros que estejam envolvidos no bom êxito das decisões tomadas pela Defesa. Em outras palavras: a campanha que o Ministério da Defesa da Itália está pondo em marcha não é apenas uma colossal campanha de desinformação, concebida e posta em ação por pessoal escolhido e especialmente formado para a função de desinformar. Ela é também um verdadeiro e amplo plano para militarizar todas as mentes.



Nota dos tradutores
[1] O sistema MUOS (Mobile User Objective System) é sistema de última geração de comunicações militares por satélite, previsto para melhorar significativamente a comunicação em solo para as forças dos EUA que estejam em deslocamento, e para facilitar o emprego dos “usuários combatentes transportadores de unidades celulares de comunicação” (especialmente os drones) por todo o planeta. O sistema MUOS oferece simultaneamente capacidade para voz, vídeo e armazenamento de dados, e usa a tecnologia 3G de comunicação de telefonia celular. O MUOS oferece capacidade dez vezes maior de comunicação que os sistemas atuais. As naves MUOS são o primeiro modelo de um sistema de comunicação por satélite que substituirá o sistema Ultra High Frequency Follow-On (mais, em 27/8/2013, Sicily Against War: Resisting the Niscemi US Military Base [Sicília contra a guerra: resistência contra a base militar dos EUA em Niscemi]. Sobre o sistema MUOS, ver em: Mobile User Objective System-2 Satellite Launch.

População de Niscemi -Sicilia, It. é contra a instalação do MUOS
__________________


[*] Manlio Dinucci é geógrafo e geopolíticólogo italiano. Últimas publicações: Geocommunity Ed. Zanichelli 2013 ; Geografia del ventunesimo secolo, Zanichelli 2010; Escalation. Anatomia della guerra infinita, Ed. DeriveApprodi 2005.

sexta-feira, 16 de março de 2012

A ditadura brasileira aparece na Itália




Publicado em 15/03/2012 por Urariano Motta

Recife (PE) - A recente denúncia do Ministério Público contra o coronel Curió terminou por mencionar um romance escrito por mim. Da Europa aos Estados Unidos, a ditadura brasileira é manchete. E creiam: na Itália, no desenvolvimento dessa notícia, hoje se mencionou Os Corações Futuristas, um romance escrito por este colunista.

Estranho e contraditório é o mundo. Ou a vida é um magnífico escritor de ironia. Lembro que “Os corações futuristas” foi escrito em um quartinho no quintal da casa onde eu morava, e se completou sem nenhuma esperança de publicação. E de tal modo, que contraí um empréstimo bancário para com ele inaugurar o ano de 2.000, com direito a coquetel e juros que até hoje não saldei. Há exatos seis anos, em 16 de março de 2006, sobre o livro falei em uma entrevista publicada no La Insignia, de onde recupero alguns trechos:

- Como você teve a inspiração para escrever Os Corações Futuristas?

- A inspiração, nesse caso, se houve, não foi um estalo. Não veio assim de repente, caída no cérebro sem que se esperasse. Os Corações Futuristas é um romance de formação, é a narrativa de uma geração que se fodeu e quis amar sob a pior ditadura brasileira. É o romance de uma época do lema ‘Brasil, ame-o ou deixe-o’. E nós amávamos muito, muito e muito o Brasil. Disse ‘nós’ como num ato falho. Isso é esclarecedor porque Os Corações Futuristas é um livro que veio sendo escrito, sem que disso eu tivesse consciência. A vida vinha escrevendo-o comigo e para mim. Às vezes, eu dizia, numa brincadeira e meio sério, ‘no dia em que eu escrever um livro sobre a militância, ela não vai gostar’. Mas não foi bem assim, porque depois, durante a escrita, vi que meu olhar alcançava tanto a crueldade quanto a compreensão. É o livro sobre a melhor juventude que eu conheci. Uma gente generosa a ponto de jogar a vida pela força das idéias. Mas, ao mesmo tempo, assim impunha a verdade, que eu não podia alisar a cabeça, vendo-a só no heroísmo. Gente capaz de covardias também, de traições sórdidas, porque é dessa massa que a vida é feita.

- Você disse que Os Corações Futuristas fala da melhor juventude que você conheceu. Então podemos dizer que é autobiográfico?

- Todo livro, por mais estranho à pessoa do autor, é autobiográfico, na medida em que fala de uma forma ou de outra sobre acontecimentos ou interesses dele. Mas responder assim é uma fuga, reconheço. A sua pergunta, bem sei, é mais precisa e específica: trata-se de saber onde o autor, a vida do autor, acontecimentos íntimos da sua vida, estão nas páginas ali apresentadas. Sim, mais uma vez, sim, a vida e as pessoas que eu conheci estão em Os Corações Futuristas. Ele é verdadeiro, nada nele é falso, postiço, quero crer. É o mundo da ditadura que eu senti. É o mundo terrível que faz até hoje ex-presos políticos levantarem-se de madrugada, e dizerem para a mulher, ‘arruma a mala, arruma a mala, que a polícia vem aí’.

- Que influência, então, representa viver no Brasil, para sua escrita e a de outros escritores?

- Fundamental. Este é o nosso berço e identidade. E dizer isso não é reivindicar um exclusivismo de nação, uma estreiteza nacionalista. É apenas dizer que estar e viver no Brasil é ir além de um acidente geográfico. É a língua e a vida da nossa infância, são as pessoas e a gente que nos fizeram e que levaremos conosco aonde formos, ainda que não estejam ao lado como pessoas físicas. O ser múltiplo, a gente múltipla da nossa memória. Como pode ver, isso é universal, cada escritor, cada pessoa é história da sua gente, em todo e qualquer lugar do planeta.

O particular da nossa literatura, a diferença, se se busca isso, está em que ninguém poderá falar com mais autoridade sobre a nossa dor quanto nós mesmos. Na literatura não há brazilianistas. Pode haver críticos literários, mas em dor brasileira nenhuma autoridade virá de laboratório exterior...

Pois o Brasil é não só o país do grande futebol e da maravilhosa música popular. O Brasil é uma imensa contradição, é a miséria material e humana que vê o paraíso ao lado, a menos de 50 metros. Combater isso é um pequeno assalto aos céus.

Na Itália, hoje, o romance volta à notícia: Brasile alla resa dei conti con la dittatura militare. Parte il primo processo”.

Jamais poderia imaginar que uma denúncia contra o coronel Curió, o bárbaro que cortava cabeças de jovens presos, terminasse por lembrar aqueles corações de futuro.

Urariano Motta* é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997).

Enviado por Direto da Redação

quarta-feira, 8 de junho de 2011

BEM VINDO BATTISTI, AO BRASIL

Rui Martins

Rui Martins

Logo depois da prisão de Battisti no Rio de Janeiro, colunista lançava seu apelo contra a extradição, uma luta que se prolongou por muitas colunas nestes quatro anos.

A decisão do STF negando a extradição de Cesare Battisti, apesar do ministro Gilmar Mendes, reconhece nossa soberania e conclui com justiça um longo processo. É a vitória de muitos companheiros, como Celso Lungaretti e Carlos Lungarzo, que lutaram com insistência e denunciaram a ilegalidade de se manter preso alguém já reconhecido como não extraditável pelo então ministro da Justiça Tarso Genro.  

É igualmente a vitória de políticos como Eduardo Suplicy e Fernando Gabeira, dos primeiros a defenderem Battisti, quando a esquerda brasileira, confundida pela revista Carta Capital e Mino Carta, não sabia se apoiava ou rejeitava o apelo de militantes europeus, entre eles com destaque para a escritora Fred Vargas.

Mas é também uma vitória do Direto da Redação, pois logo depois da prisão de Battisti no Rio de Janeiro, publicávamos a primeira coluna contra a extradição do combatente italiano, da qual lembramos alguns trechos.

Cesare Battisti
Existem momentos em que uma decisão da Justiça brasileira pode transmitir ao mundo uma mensagem de serenidade, equilíbrio e ponderação. Esta coluna hoje quer ter mais uma função de manifesto para propor às personalidades brasileiras, muitas das quais viveram o exílio político, uma mobilização para pedir ao nosso Supremo Tribunal a rejeição do pedido de extradição do antigo militante da extrema-esquerda Cesare Battisti, preso no Rio de Janeiro.

Condenado à revelia à prisão perpétua, na Itália, por quatro crimes dos quais nega ser o autor, Cesare Battisti tinha se beneficiado, na França, de uma decisão do presidente Mitterrand contrária à extradição de antigos militantes revolucionários italianos. Julgando-se em lugar seguro, depois de ter fugido para o México, onde sobreviveu com pequenos empregos, Battisti começou ali a escrever livros policiais, talvez obcecado pela sua própria história de foragido – uma espécie de Jean Valjean italiano - perseguido todo tempo por um obsessivo Javert.

Para ter com o que sustentar a esposa e as duas filhas, se tornou zelador de um prédio em Paris. Zelador-escritor, o antigo militante italiano do PAC, Proletários Armados pelo Comunismo, esperava viver na França o resto de sua vida.

Entretanto, o fim do governo Mitterrand, pos fim à sua anistia política. Um novo pedido de extradição pela Itália foi acatado pelo governo francês de Jacques Chirac. Não querendo passar o resto da vida na prisão, Cesare Battisti retomou sua vida de foragido. Na sua defesa, no julgamento da extradição, Battisti, além de negar os crimes, destacou a desumanidade da pena – “o que será de minha mulher e minhas filhas, que não poderei mais ver e nem sustentar? Na verdade, serão elas também condenadas comigo”.

Por que o Brasil não deve extraditar Cesare Battisti ?

Além da questão humanitária, pois os crimes dos quais é acusado ocorridos no começo dos anos 70 normalmente já estariam prescritos, os crimes dos quais é acusado fazem parte de outra época da história política européia – o das Brigadas Vermelhas, cujas manifestações ocorreram tanto na Alemanha como na Itália.

Essa página política foi encerrada e revista, tanto os envolvidos em atos de violência como os ideólogos se reconverteram em partidários de uma lenta, mas pacífica evolução social pelo mecanismo democrático.

Todos nós viramos as páginas. O Cesare Battisti de hoje nada tem a ver com o dos anos 70. Além disso, o Brasil anistiou todos quantos participaram dessa época, durante a ditadura militar. Uma anistia que beneficou também os profissionais da tortura, mesmo se não eram movidos por nenhum ideal de mudar o mundo e justiça social. Fazer exceção a esse princípio já adotado no nosso País seria um contrassenso e uma injustiça.

Mesmo porque o governo brasileiro de hoje tem muitos militantes desse passado, cuja vida não é de foragidos. Se a Justiça brasileira quiser aplicar o tratado de extradição com a Itália, caberá ao presidente Lula, com seu senso de equilíbrio, já demonstrado, anistiar Cesare Battisti e permitir-lhe viver no nosso país com sua família. Será um decisão humana.

Berlusconi
O caso Battisti teve lances estranhos, como de jornalistas, políticos e juízes do STF defenderem a intromissão de outro país, a Itália, mas a Itália neofascista de Berlusconi, na nossa soberania. Porém, relendo esse trecho escrito em março de 2007 me surpreendo com a premonição de imaginar, com mais de três anos de antecedência, que caberia a Lula a principal decisão e, depois dos deslizes e dos comprometimentos de togados como Mendes e Peluzo, a retomada da consciência de nossa independência pelo STF.

Sim, porque houve momentos em que se temia mesmo um comportamento golpista do STF, querendo se sobrepor, como bem gostaria Gilmar Mendes, à decisao de Lula. Assim, o caso Battisti poderia ser o pretexto para se submeter ao STF todas as decisões da presidência da República. A esse respeito, escrevíamos em setembro de 2009:

Extraditar Cesare Battisti não é o alvo principal da direita brasileira e de seus representantes no Supremo Tribunal Federal. O objetivo é o de criar uma situação de impasse que, de uma ou outra forma, leve a um desgaste e a uma dimuição da imagem e do poder do governo do presidente Lula.

Em outras palavras, uma versão jurídica de golpe institucional, pela qual se possa questionar a real competência do poder executivo e, aberta essa brecha, se submeter todas as importantes decisões governamentais, envolvendo interesses estrangeiros, à aprovação pelo STF.

A importância atual dada à questão da extradição de Battisti confirma se estar submetendo o governo a um teste que, pelo visto, poderá dar resultado. Na análise do relator do processo Battisti surgiu, por diversas vezes, a intepretação jurídica de que uma decisão favorável do STF à extradição de Battisti, será definitiva, e, diante do acordo bilaterial de extradição entre Brasil e Itália, obrigará nosso país a um rápido cumprimento, sem a possibilidade legal de uma intervenção do presidente Lula suspender a extradição.

Terá assim sido criada a jurisprudência de que, pelo menos em casos bilaterais de direito internacional, a última palavra não será mais a do presidente da República mas do STF. E, mais rápido do que se pensa, o STF assumirá o poder de estatuir o que o executivo pode ou não fazer no país.

Nossa soberania não dependerá mais do executivo eleito pelo povo, mas de um grupo de juristas togados que, segundo a tendência de grupos dominantes, assumirá feições de junta decisória, e, no momento, o verdadeiro presidente brasileiro passaria a ser Gilmar Mendes. Tudo isso no estilo light e clean, sem tropas na rua e sem edição de atos institucionais.

Apesar de derrotado, Mendes não abandonou sua interpretação de que nosso judiciário e nossa presidência teriam de se sujeitar a um antigo colonizador europeu, como se fôssemos uma Abissínia.

Foi na defesa de nossa soberania que em fevereiro de 2009, aqui esreváimos:

Existe uma maneira, Senhor Presidente, para se resolver de maneira rápida a questão Battisti, evitando-se que, com tantas mentiras e imprecisões espalhadas por setores entreguistas da imprensa, ela envenene a opinião pública e provoque uma gangrena.

O Brasil não pode aceitar que um premiê italiano, mal visto e tantas vezes acusado de corrupto, numa Itália cujo prefeito de sua capital, Roma, é conhecido por sua antiga militância neofascista, assim como são neofascistas confessos deputado e membros do governo pertencentes à Liga separatista do Norte, nos diga que medidas devem ser tomadas com relação ao ex-militante italiano Cesare Battisti.

Berlusconi é o pai da Diretriz do Retorno, que tanto mal tem causado aos nossos emigrantes na Europa, e acaba de instituir a delação, a deduragem como lei para os médicos italianos, obrigados a denunciarem todo emigrante clandestino que for ao consultório ou hospital, para ser rapidamente expulso. É com ele, que muitos de nossos jornalistas, alguns de renome, decidiram colaborar, mesmo se o clima já é mal cheiroso na Europa.

Não podemos simular surdez diante das palavras do deputado neofascista Ettore Pirovano, da Liga do Norte, de que “o Brasil é mais conhecido por suas dançarinas (putas) do que por seus juristas” numa ofensa a nossos advogados, magistrados e ao nosso povo, nem podemos tolerar a petulância do partido Aliança Nacional de levar ao Conselho da Europa a questão Battisti, com o apoio do Grupo Europa de Nações de direita e extrema-direita, num gesto digno da época colonial.

Nem podemos aceitar que um país estrangeiro tente criar conflitos e incompatibilidades entre órgãos institucionais brasileiros, numa clara intervenção na nossa política interna, fomentando divergências, fazendo ameaças e chantagens, utilizando-se de jornais, revistas e jornalistas que, por interesses políticos e pessoais, reforçam as pressões italianas com o objetivo de provocar uma crise política no Brasil e atingir seu prestígio de Presidente do País.

Berlusconi: il nuovoDuce
Silvio Berlusconi representa hoje a Europa próxima da extrema-direita, num clima que faz pensar nos anos 30 do século passado, quando se fazia a caça a judeus, ciganos e comunistas. Berlusconi reinventa Mussolini e faz a caça aos imigrantes, entre eles os brasileiros, os africanos, os árabes, os ciganos, os rumenos e ainda tem tempo para correr atrás de um antigo militante dos anos 70, de uma época italiana ainda mais podre que a atual, quando os julgamentos e processos era feitos ao interesse do governo, chefiado por um premiê mafioso.

Foi defendendo Battisti, que surgiu o conflito com a revista Carta Capital, considerada por tantos como revista de esquerda, pois Mino Carta defendia a extradição de Battisti e exercia influência junto a jovens brasileiros. Escrevemos uma Carta a Mino Carta, que provocou o fechamento de seu blog, da qual transcrevemos o trecho inicial:

Mino Carta
Não sei porquê você, Mino Carta, tomou a peito apoiar a embaixada italiana, desejosa de obter de toda maneira a extradição do ex-militante de um pequeno e inexpressivo grupo armado italiano de uma época já tão distante. Infelizmente, e isso pode acontecer com todos nós jornalistas, você pisou na bola. Não chega a ser tão grave, porque um pequeno grupo decidido de simples cidadãos, juristas e políticos com o apoio do ministro da Justiça resolveu a parada, mas podia ser muito grave.

Foi-me difícil decidir escrever este comentário, porque sua trajetória é praticamente inatacável e sua contribuição ao restabelecimento da democracia no Brasil ficou evidente nas denúncias que corajosamente fazia, como editor de suas revistas, enfrentando os ditadores militares.

Evidentemente respeito sua opinião, talvez baseada num bom informante quanto à decisão do ministro da Justiça de dar refúgio a Battisti, mas péssimo quanto à real participação do Battisti naquele momento político italiano. Você vive felizmente numa democracia no Brasil e eu numa outra democracia exemplar na Suíça, e sabemos que o debate franco como este, é que nutre essas duas sociedades na livre expressão.

Ora, escrevo porque sua influência como editor da revista Carta Capital poderia ter sido bastante nefasta e significar para um homem, batido pela vida, em nada diferente dos “subversivos” brasileiros que você tanto entendeu, o retorno à Itália na condição de um condenado a apodrecer na prisão.

Marina Petrella, também italiana e muito mais envolvida na luta contra o establishement daqueles anos de chumbo, estava morrendo de desgosto e de tristeza num hospital parisiense, já em estado semi-comatoso, sem querer se alimentar, nos dias que precediam sua extradição para a Itália. Depois de trinta anos de vida normal, depois de ter abandonado o extremismo, ia ser separada de suas filhas, do marido, de seus alunos, para ir envelhecer e morrer numa prisão. Porém, foi graças à compaixão da esposa do presidente francês Sarkozy, e sua irmã, atriz conhecida aqui na Europa, ambas italianas, que se decidiu perdoar, porque a nova vida de Marina Petrella, dispensava uma tão tardia punição.

Quando em março, publiquei nos pequenos jornais e sites que escrevo, (proibido que fui e sou de participar da grande imprensa já depois da ditadura), um artigo em favor de Cesare Battisti, contando para os brasileiros a triste sina desse foragido, que quase foi sequestrado, em 2004, pelos italianos, mesmo sendo um simples zelador de prédio e pequeno escritor de romances policiais, alguns amigos, companheiros como se diz, se senbilizaram.

Entretanto, quando Carta Capital publicou aquela reportagem tendenciosa e nada imparcial, tudo se comprometeu. Porque sua revista, que se poderia dizer de centro-esquerda, as vezes mesmo bem de esquerda, serve de orientação para muitos jovens e para muitos militantes de esquerda. E ficaram na dúvida. Quem sou eu, simples jornalista expatriado, que como um Joris Ivens terá de sobreviver com seus frilas, enquanto lúcido e não enfartado por não ter mais lugar na grande imprensa, para competir com Carta Capital ? Como ganhar a confiança de meus amigos e companheiros com minhas colunas benévolas diluídas na selva da imprensa brasileira? 

Enfim, Cesare Battisti vai ser um homem livre no Brasil. foi uma longa luta, É uma bela vitória de todos nós.

Bem vindo Cesare Battisti!

Artigo enviado pelo autor

domingo, 20 de março de 2011

O ocaso da Odisséia

21/3/2011, Beppe Grillo’s Blog 
 Odyssey Sunset  
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Caros jornalistas e políticos, por favor, não acreditem nos italianos.

Não há nada de humanitário no que estão fazendo: são atos de guerra. Guerra suja por energia, petróleo, gás. A França, que depois de Fukushima já não tem futuro nuclear, precisa de gás e petróleo. 

Pelo menos desde o tempo do massacre de Ustica [1], França e Itália lutam pelo controle do petróleo da Líbia, quando os céus da Itália viraram teatro da guerra com a França, aviões italianos e Gaddafi, que estava apresente e safou-se por um fio. Gaddafi foi apoiado pelos italianos nos anos 70s, for armado pelos italianos. Parte do exército da Líbia foi treinado na Itália em troca de relações privilegiadas para comprarmos gás e petróleo.

A seguir, os primeiros mísseis Tomahawk disparados contra a Líbia: !9/3/2011


Essa é guerra ensandecida que os europeus não desejam. Do modo como os italianos foram informados, não passaria de notícia de rodapé nos noticiários, como uma partida de futebol. China e Rússia são contra os ataques. A Alemanha absteve-se no CSONU e a União Africana rejeitou “qualquer tipo de intervenção estrangeira na Líbia, seja de que tipo for.” O presidente da Mauritânia Abdel Aziz disse bem claramente: “é crise gravíssima que se abate sobre um país irmão e que exige solução africana”. O presidente Aziz disse também que “nenhum representante da União Africana participou do encontro internacional sobre a Líbia, em Paris”. 

O CSONU aprovou “uma zona aérea de exclusão”. Não aprovou bombardeio que reduzisse a Líbia a ruínas. Centenas de mísseis disparados por EUA e britânicos contra “alvos”, numa operação batizada de “Alvorada da Odisseia”. 

Linguagem de videogame. Não é alvorada. É ocaso: o ocaso da odisséia.

Há hoje mais civis mortos pelas mãos de Obama, Cameron e Sarkozy ou em Benghazi que mortos pelas mãos de Gaddafi. Talvez os líbios mortos por mãos líbias valham, cada morto, duas mortes? 

O art. 11 da constituição da Itália diz que “a Itália rejeita a guerra como instrumento de agressão contra as liberdades de outros povos e também como meio para resolver controvérsias internacionais (...).”  Por que os partidos políticos não estão nas ruas, brandindo a Constituição, contra a guerra?

Estamos bombardeando uma nação muçulmana africana. Nenhuma nação, nem muçulmana nem africana participa do ataque “internacional” das potências ocidentais, ao lado dos “cruzados”, como Gaddafi os chama.

A Arábia Saudita invadiu o Bahrain, agitado por manifestações populares contra a ditadura. Quando começará o ataque dos “cruzados” contra os ditadores-xeiques? 

Gaza foi convertida em cemitério. Ninguém considerou necessária qualquer intervenção humanitária. A Itália é um porta-aviões cercado de navios canadenses, americanos e britânicos que entram e saem de nossos portos. Com que direito? Somos país de soberania limitadas, mas o que está acontecendo é demais. 

Fora! Fora da Itália as bases dos EUA, antes que seja tarde demais! O que sabemos sobre os rebeldes de Benghazi? Opõem-se a Gaddafi por quê? Por razões democráticas, tribais, econômicas ou religiosas? Propõem o quê, para a Líbia? Nada sabemos. Nada. 

Qualquer um aí, que precise de petróleo, que lance o primeiro Tomahawk, para carregar a responsabilidade do ataque. Em seguida os EUA lançaram 110 Tomahawks, para completar o serviço.




Nota de tradução
[1] Sobre o conflito entre Itália e França pelo controle dos recursos energéticos no norte da África. Segundo Priore e Fasanella (autores do livro Intrigo internazionale), esse seria o pano de fundo do massacre de Ustica.  Um avião italiano de passageiros explodiu, em circunstâncias jamais esclarecidas, sobre a cidade de Ustica, dia 27/6/1980. Suspeita-se de que tenha sido abatido por um caça francês. Em 2008, a Itália reabriu as investigações sobre o caso (TG2 Punto di vista, 17/5/2010).

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

“Caso” Battisti: eis por que estamos com Lula

1) a carta abaixo é de 4 professores universitários italianos radicados na França
2) o link é da associação AltraItalia, dos migrantes italianos em Barcelona (Espanha), eles se definem como exilados diante da tristeza da situação italiana: Berlusconi (sic), fascistas no poder, xenófobos querendo separa o país, membros do ex-PC (PD) que defendem a anulação do direito de greve! 
Leia também o artigo de hoje - 5 de janeiro de 2011 - Battisti x Berlusconi (não traduzido) que revela bem o caráter fascista dos atuais dirigentes italianos.

“Caso” Battisti: eis por que estamos com Lula

Somos um certo número de italianos residentes no exterior, onde trabalhamos no ensino e na pesquisa, estupefatos com a postura da mídia e da “opinião pública” do nosso país diante do “caso” Cesare Battisti. A jornalista Anais Ginori, em La Reppublica de 2 de janeiro, parece, por exemplo, estigmatizar o “júbilo dos intelectuais franceses” (arbitrariamente identificados com Bernard-Henri Lévy e Fred Vargas) diante da recusa de extraditar Battisti, decidida pela presidente brasileiro Lula da Silva. Quanto à força de oposição ao atual governo Berlusconi, estamos particularmente surpresos ao apreender como alguns parlamentares do PD se recordam repentinamente de sua matriz ideológica, apelando inesperadamente ao presidente Lula enquanto “homem de esquerda”, com o único propósito de questionar seu gesto de precaução em relação aos direitos de um preso.

Contrariamente ao que se tem escrito e dito, nós acreditamos que a decisão de competência do presidente brasileiro não é resultado de um juízo superficial e apressado sobre nosso país, mas resultado de uma avaliação aprofundada e pertinente da situação política e judiciária italiana.

O Brasil é o último de uma longa lista de países, após Grécia, Suíça, França, Grã Bretanha, Canadá, Argentina, Nicarágua, que se recusaram a colaborar com a justiça italiana. Será um acaso?

Na verdade, a fúria do governo italiano em pedir a extradição de Battisti se configura hoje mais como a vontade de exorcizar um inimigo vencido (quase uma obsessão de eliminar), do que como uma sóbria, autêntica exigência de justiça. Surpreendente, em particular, uma tal perseverança “justiceira” da parte de um executivo tragicamente incapaz de lançar luz sobre a carnificina dos anos sessenta e setenta, unanimimente considerada pelos historiadores como a “mãe” de todo o terrorismo.

Recordemos como em seu favor o “zero responsáveis” sobre o atentado da Praça Fontana em Milão e da Praça de Loggia em Brescia tem sido permanentemente consagrado, respectivamente pela Suprema Corte em 3 de maio de 2005 e, mais recentemente, pela Corte de Inquérito em 16 de novembro de 2010. Ou uma magistratura severa que garante a imparcialidade do Estado, como sugerido recentemente por Alberto Asor Rosa [1] em uma de suas freqüentes colunas no Manifesto! Uma tal diferença de tratamento em investigar a responsabilidade, que não tem como não saltar aos olhos da opinião pública internacional, não é apenas o efeito de uma permanência endêmica, na Itália, de uma classe corrupta no governo ou mesmo para-fascista (de Alemanno, ex-membro de esquadra fascista, prefeito de Roma, ao insolente ex-MSI [2] La Russa, Ministro da Defesa). Não, essa tara originária é, antes de tudo, fruto da política de emergência que tem sido o leitmotiv da política italiana do pós-guerra e na qual a esquerda se deixa seduzir, até a morte rápida como uma fatalidade, quando não tranqüilamente acomodada, por uma consolidada incapacidade de propor uma alternativa global a uma ordem capitalista tardia.

Essa “emergência” prolongada foi a base da participação de setores inteiros do Estado nas atrocidades criminais que ensangüentaram o passado recente da história nacional, impedindo a emancipação social e debilitando antropologicamente, molecularmente, a cotidianidade.

Fato altamente significativo; a classe política atualmente no comando na Itália é herdeira direta desses poderes um dia ocultos (“Piano solo”, “Gládio”, “P2” [3]), mas agora definitivamente desembaraçada e bem decidida a ocupar o terreno político e midiático, para defender seu próprio interesse vital ameaçado: aquele de uma vida reduzida a uma pura, absurda axiomática empresarial.

A “anomalia italiana” não é senão o resultado dessa sistemática subordinação dos órgãos garantidores do direito à “exceção” do comando político e ao seu diktat selvagem sobre a consciência.

Basta pensar que um dos mais altos postos da república, abaixo apenas do Presidente Giorgio Napolitano, é hoje confiado a um “magnata” da mídia cuja “acumulação primitiva”, no curso dos anos sessenta e setenta, tem sido caracterizada por aqueles que a definiram eufemisticamente como “ilegalmente comprovada”.

Portanto, acreditamos que o forte envolvimento do Estado italiano na guerra civil “guerreada” que teve lugar na Itália nos anos setenta, paralelamente ao conflito (não somente e nem sempre “frio”) encenado pelos dois blocos internacionais opostos e parcialmente especulares, torna impossível desatar o nó histórico emerso com o “caso” Battisti no quadro das instituições e das leis atualmente vigentes na Itália.

Somente uma medida que reconheça a enorme responsabilidade do Estado na degeneração do embate político entre os anos sessenta e oitenta, e não a grotesca exibição de orgulho nacional a que estamos assistindo nesses dias, pode permitir à Itália sair do “déficit” de credibilidade internacional que danifica fatalmente sua imagem.

Enquanto tal medida não se concretizar, justiça não poderá ser feita e o pedido de extradição de ex-terroristas aparecerá fatalmente como atalhos vexatórios, quando não como tentativas mentirosas de reescrever a história.
  
Saverio ANSALDI – Università di Montpellier III
Carlo ARCURI – Università di Amiens
Giorgio PASSERONE – Università di Lille III
Luca SALZA – Università di Lille III.

Notas
[1] Alberto Asor Rosa é um intelectual conhecido na esquerda italiana desde os anos sessenta. No final dos anos setenta, como quadro do Partido Comunista Italiano, defendia posições teóricas que buscavam se contrapor ao protagonismo nas lutas sociais dos sujeitos do qual Cesare Battisti fazia parte. Vide sua teoria da “primeira” e “segunda sociedade”. (N. do T.)
[2] Partido formado no pós-guerra por aderentes do fascismo. Foi, na prática, o partido fascista italiano até sua dissolução na Aliança Nacional em 1995. (N. do T.).
[3] Gladio era o nome de uma operação clandestina da OTAN no pós-guerra, com objetivos anti-comunistas. Entre suas ações estavam atentados com chamada “bandeira trocada”. P2 era uma loja maçônica, envolvida com a Operação Gladio, com a máfia e em escândalos financeiros. O “Piano solo” foi um plano no qual a Gladio esteve envolvida e que conseguiu tirar do governo italiano os ministros socialistas, em 1964. (N. do T.).

enviado por Max Carlos - Universidade Nômade

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Do embaixador dos EUA em Roma: “Berlusconi propõe ultrapassarmos rapidamente o assassinato de Calipari”

Ou: Quando os italianos querem fazem SEMPRE algum "acerto"...

Traduzido pelo Coletivo da 
Vila Vudu

Nicola Calipari é o agente do serviço secreto italiano que foi assassinado em março de 2005, quando transportava a jornalista Giuliana Sgrena, do jornal Il Manifesto, que havia sido seqüestrada, seqüestro reivindicado por terroristas jihadistas. As versões italiana e norte-americana dos eventos que resultaram na morte de Calipari apresentam várias diferenças, mas as duas versões elaboravam sobre a tese de morte acidental: num ponto de controle dos EUA em Bagdá, o Toyota dirigido pelo agente italiano foi confundido com um carro-bomba e recebeu mais de 400 tiros, um dos quais atingiu Calipari na cabeça, matando-o. A tese da morte acidental foi confirmada por vários testemunhos, inclusive da própria jornalista Sgrena, mas persistem as diferenças entre a versão oficial e a versão da Procuradoria italiana.


O telegrama WikiVazado: Viewing cable 05ROME1506

 
Reference ID
Created
Released
Classification
Origin
Esse registro é extrato parcial do telegrama original. O texto integral do telegrama original não está acessível.Tradução não oficial, para simples leitura.

031518Z May 05 / S E C R E T  ROME 001506 / SIPDIS
SUBJECT: IRAQUE/ITÁLIA: BERLUSCONI PROPÕE ULTRAPASSARMOS RAPIDAMENTE O INCIDENTE CALIPARI – INQUÉRITO ITALIANO NÃO ENCONTROU RESPONSABILIDADE INDIVIDUAL

1. (S) RESUMO E RECOMENDAÇÃO: Pouco antes da divulgação, dia 2 de maio, do resultado do inquérito italiano sobre o assassinato dia 4 de março do agente de segurança Nicola Calipari num posto de controle e revista em Bagdá, o Embaixador, o Conselheiro de Defesa e Conselheiros Políticos Militares fomos chamados ao gabinete do primeiro-ministro Berlusconi, para recebermos cópia prévia do inquérito e ouvir a opinião de altos funcionários do governo italiano [orig. GOI] sobre encaminhamentos futuros. Os italianos destacaram que o governo italiano desejava ultrapassar rapidamente o incidente; que isso não abalaria nossa forte amizade nem nossa aliança, e que não afetaria o comprometimento dos italianos no Iraque. Os italianos disseram que, embora a cooperação que os norte-americanos deram aos italianos na investigação conjunta tenha sido total e absolutamente profissional, a Itália tinha de confirmar os resultados que os italianos encontraram na reconstrução do incidente de 4 de março. O inquérito italiano, disseram, concluiu que os tiros não foram intencionais e não era possível atribuir qualquer responsabilidade individual pelo tiroteio; assim sendo, era pouco provável que o inquérito viesse a ser convertido em processo criminal.

2. (S) RECOMENDAÇÃO (ver também parágrafo 9): Apesar de o inquérito dos italianos discrepar de muitas das descobertas e de parte significativa da metodologia do inquérito US AR 15-6 sobre o incidente, teremos mais vantagens se resistirmos à tentação de atacar item por item a versão dos italianos, e devemos pois continuar a deixar que as conclusões do nosso inquérito falem por elas mesmas. Embora o movimento instintivo nessa embaixada seja no sentido de defender os resultados do nosso inquérito e criticar o italiano, entendemos que as consequências de assim procedermos seriam assimétricas: é pouco provável que nossa crítica ao inquérito italiano tenha consequências negativas sérias para o governo dos EUA, se o governo italiano aparecer como desleal aos seus próprios funcionários – ou se aparecer como tendo agido apenas para satisfazer o governo dos EUA nesse assunto. Mas as consequências para o comprometimento do governo Berlusconi no Iraque podem ser severas. Assim sendo, recomendamos fortemente que todo o pessoal da comunicação do governo dos EUA [orig. “all USG spokespeople” confirme o relatório italiano 15-6 e evite qualquer crítica detalhada ao texto proposto pelos italianos. FIM DO RESUMO E RECOMENDAÇÃO.

3. (S) O Embaixador, o Conselheiro de Defesa e Conselheiros Políticos Militares fomos convidados ao gabinete do Primeiro-ministro dia 2 de maio passado, para receber cópia não divulgada do inquérito italiano sobre o incidente Calipari (4 de março), resultado da investigação conduzida conjuntamente com os EUA, e para conhecer a opinião de altos funcionários do governo italiano sobre o assunto. Presentes, do lado italiano, Fini (Ministro das Relações Exteriores), U/S Letta, PM Dip Advisor (equivalente à Agência Nacional de Segurança dos EUA e embaixador designado para os EUA) Castellaneta, Pollari, Chefe do SISMI, alguns de seus altos assessores, os dois investigadores italianos BG Campregher e Ragaglini, do ministério de Relações Exteriores. (Berlusconi não participou da reunião e, cremos, esteve ausente de Roma até a manhã seguinte.)

4. (S) Os italianos apresentaram os seguintes pontos:

-- O objetivo do governo italiano é que esse incidente não tenha qualquer efeito negativo em nossas excelentes relações bilaterais.

-- Especificamente, não deve haver qualquer efeito sobre o comprometimento dos italianos no Iraque.

-- O governo italiano deseja ultrapassar rapidamente o incidente e espera que o relatório do inquérito contribua para esse objetivo (ver adiante, explicação sobre como servirá a esse objetivo).

-- Um versão não sigilosa do relatório deve ser divulgada no website do governo italiano dia 2 de maio, com os trechos sensíveis editados [orig. “with classified sections redacted”]. O relatório do inquérito, completo, só será entregue ao primeiro-ministro Berlusconi, mas o governo dos EUA poderá obter cópia depois de Berlusconi tomar conhecimento dele.

-- Berlusconi discutirá o relatório no Parlamento na 5ª-feira, 5 de maio.

-- Seria útil que o presidente Bush telefone a Berlusconi na 4ª.-feira, de modo que o italiano possa dizer, no Parlamento, dia seguinte, que falou com o presidente sobre o assunto.

5. (S) Quanto ao próprio relatório do inquérito, os italianos dizem que confirma a tese do “trágico acidente” e destacam o seguinte:

-- O relatório diz que é impossível atribuir responsabilidade individual pelo assassinato.

-- Diz também que os investigadores italianos não encontraram qualquer prova de que o assassinato tenha sido intencional.

-- Esse último ponto visa especificamente a desestimular investigações futuras pelos Procuradores, uma vez que, pela lei italiana, eles podem investigar casos de homicídio intencional contra cidadãos italianos fora da Itália, mas não casos de homicídio não intencional. (NOTA: Nossos contatos alertam que os magistrados italianos têm má fama de ‘entortar’ essas leis, de modo a atender aos seus objetivos. Assim sendo, nada assegura que a tática do governo italiano funcionará, quanto a esse ponto.) Além disso, Castellaneta contou-nos mais tarde que o governo italiano conta com que os Procuradores aceitem a tese, porque, sendo o assassinato não intencional, não haverá base para alegar “excesso, em legítima defesa”.

-- O relatório italiano foi escrito com vistas aos advogados da procuradoria. Os italianos destacaram que as regulações 15-6 permitiram que se encobrissem algumas coisas na investigação conjunta, mas não outras, enquanto os magistrados italianos tinham objetivos mais amplos a serem atendidos.

-- O governo bloqueará tentativas de comissões parlamentares para abrir investigações próprias (a oposição sempre encaminha pedidos dessa natureza), sob o argumento de que as respostas desse relatório são suficientes.

-- O relatório está conforme os depoimentos de Sgrena [a jornalista de Il Manifesto], do motorista e do chefe do escritório em Bagdá do SISMI; isso é, está conforme a “reconstrução italiana” [orig. “the “Italian reconstruction” (aspas no original)] do incidente.

6. (...)[Não relevante]

7. (S) O Embaixador Sembler disse aos italianos que o governo dos EUA compartilha o desejo dos italianos, de ultrapassar rapidamente esse incidente e de não permitir que afete nossas relações bilaterais. Quanto a isso, é importante que o governo italiano não ponte dedos acusadores na direção dos EUA, e que não reclame de falta de cooperação. De nossa parte, corresponderemos. Fini disse que a Itália não poderia reclamar de falta de cooperação dos EUA; o relatório do inquérito italiano esclareceu que os investigadores italianos tiveram pleno acesso; que recomendaria a Berlusconi que destacasse esse fato no Parlamento, dia 5 de maio. Ragaglini e BG Campregher foram efusivos sobre a cooperação “total e completa” que receberam dos investigadores dos EUA, incluído o pleno acesso a todas as provas. (...)
8. (S) Os italianos estão visivelmente insatisfeitos quanto às partes secretas do USA 15-6 que foram tão facilmente postadas na internet antes de serem “editadas” e pediram explicações ao embaixador. Não insistiram depois que o embaixador explicou que não passara de erro técnico. Os italianos disseram que removeram de Bagdá o comandante do SISMI local, cujo nome foi revelado na versão “não editada” do 15-6; ele não retornará.

9. (S) Recomendações da embaixada para os próximos passos imediatos:

-- O Conselho de Segurança Nacional deve tentar agendar o telefone de Berlusconi ao POTUS [President Of The United States], na 4ª.-feira.

-- A reação pública do governo dos EUA, por hora, deve limitar-se a “Acabamos de receber o relatório do inquérito italiano e estamos examinando”. (A imprensa italiana vasculhará tudo furiosamente, e de nada nos servirá contestar um a um os itens do inquérito, pelo menos nesse momento, embora possamos vir a querer fazê-lo mais tarde, sem alarde [orig. backgrounders], em Bagdá, Washington ou Roma.)

-- O Departamento [de Estado] deve considerar um telefonema ao secretário de Estado Fini nos próximos dias, para confirmar que partilhamos o desejo da Itália, de superar rapidamente o incidente.

10. (U) Tradução informal, feita pela Embaixada, das Conclusões do Relatório do Inquérito italiano:

“Os representantes italianos – baseados nas evidências que puderam reunir – não encontraram elementos que comprovassem que os fatos indicam assassinato deliberado.

É hipótese realista que a tensão vivida pelos soldados, uma certa inexperiência e o estresse podem tê-los levado a reagir instintivamente e com pouco controle.

A falta de referências formais a regras claras a serem observadas torna problemática a atribuição de responsabilidade pessoal específica.

As afirmações da Sra. Sgrena, do motorista do carro e do chefe do serviço do SISMI em Bagdá podem ser consideradas plausíveis e verdadeiras. Conforme a análise geral, a reconstrução é coerente e plausível.” --- FIM DA TRADUÇÃO INFORMAL FEITA PELA EMBAIXADA, DAS CONCLUSÕES ---

11. (U) Assim se dá por resolvida a minimização de Bagdá [orig. Baghdad minimize considered]. [assina] SEMBLER