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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Conexões: Ameaça de calote dos EUA e desestabilização da Ucrânia


5/2/2014, Nikolai MALISHEVSKI, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

É muito provável que a implementação do plano de “mudança de regime” na Ucrânia aconteça dia 7/2. É dia de dois eventos significativos: início dos Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi e término da moratória que o Congresso deu ao presidente Obama para equacionar a questão da dívida interna dos EUA.

John Kerry saúda os "novos dirigentes" da Ucrânia na Conferência de Munique
Na Conferência de Segurança de Munique a oposição ucraniana e os EUA concordaram em implementar um plano para forçar a capitulação de Viktor Yanukovich. Arseniy Yatsenyuk contou do seu projeto de ação, que foi desenvolvido com a participação direta de representantes do ocidente, depois de uma reunião com o secretário de Estado John Kerry dos EUA e funcionários da União Europeia. 

Ao mesmo tempo em que a ‘praça Europa’ vai-se enchendo de barracas, para mostrar que ali está e ali ficará, o Departamento de Estado já conhece a data em que a operação ‘mudança de regime’ estará concluída: 24 de março. 

É o que se lê em mensagem publicada no website oficial do Departamento de Estado dos EUA, dia 24 de janeiro:

Clique na imagem para visualizar o trecho traduzido logo abaixo


ALERTA DE VIAGENS PARA A UCRÂNIA
O Departamento de Estado dos EUA alerta os cidadãos norte-americanos para os riscos de viajar à Ucrânia, por causa da agitação política e dos violentos confrontos entre policiais e manifestantes. A violência relacionada aos protestos, sobretudo em Kiev, aumentou de forma aguda desde 19 de janeiro, e já resultou em vários mortos e centenas de feridos. Os manifestantes ocuparam a Praça da Independência e inúmeros prédios do governo em Kiev e em outras cidades na Ucrânia. Grupos de jovens, conhecidos como “titushky,” já atacaram jornalistas e manifestantes e cometeram atos indiscriminados de violência em Kiev e outras cidades.
Recomendamos que cidadãos norte-americanos evitem todos os protestos, manifestações e grandes comícios. Cidadãos norte-americanos hospedados em hotéis ou residentes em áreas próximas de onde ocorrem os protestos devem abandonar essas áreas ou permanecer dentro de casa, provavelmente por vários dias, no caso de ocorrerem confrontos.
Este alerta de viagem expira dia 24/3/2014.

É muito provável que a implementação do plano de “mudança de regime” na Ucrânia aconteça dia 7/2. É dia de dois eventos significativos:

(I) - início dos Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi; e
(II) - término da moratória que o Congresso deu ao presidente Obama para equacionar a questão da dívida interna dos EUA. 

Hoje, como há seis meses, quando a situação na Síria deteriorou abruptamente e todos esperavam o início de ataque militar dos EUA contra aquele país, os patrões do dólar do Federal Reserve e o governo dos EUA mais uma vez enfrentam o mesmo dilema autodestrutivo: ou dão calote na dívida e declaram a falência dos EUA, ou aumentam o limite da dívida mais uma vez e aplicam medidas ainda mais duras de “austeridade”. Na arena internacional, esse dilema está diretamente ligado à necessidade de reavaliar o status e o papel da moeda norte-americana.

Os patrões do dólar não sabem resolver o problema que torna tão dolorosamente difícil a vida dos norte-americanos. Já há vários anos nada fazem além de adiar qualquer solução, o que têm conseguido, sempre, inventando cataclismos para distrair a atenção do mundo e desviar os olhos de todos para bem longe da dramática situação da moeda norte-americana. Agora, outra vez a reignição do mesmo problema ficará adiada até fevereiro. 

É situação muito similar à que se viu no outono passado, com os eventos dramáticos que atraíram todas as atenções do mundo para a Síria: foi quando terroristas islamistas instigados por aliados dos EUA infiltrados entre eles forjaram um “ataque químico”, em agosto de 2013. A atenção da mídia mundial está sendo desencaminhada também hoje.

Agora, o agente “para distrair” são agitações e pogroms nas ruas de Kiev e outras cidades ucranianas. (...)

Clique na imagem para visualizar melhor
Compare estas duas ilustrações, elas são idênticas. Na ilustração emoldurada em vermelho estão as instruções em árabe desenvolvidos por especialistas norte-americanos durante a primeira fase do «protesto popular» na Síria (2011). Emoldurado em amarelo estão as instruções em ucraniano para ativistas da Praça Maidan de Kiev

O problema do calote norte-americano apareceu como problema grave pela primeira vez em 2008, logo depois de Moscou anunciar que a Rússia passava a trabalhar para a integração econômica dos países da Eurásia. 

Daquela vez, os norte-americanos conseguiram burlar a atenção do mundo, desviando-a para o massacre na Ossetia Sul, iniciado ali pelos fantoches dos EUA na Georgia, no mesmo dia da abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim; e para o que a imprensa-empresa ocidental chamou de “início da crise econômica global”.

O calote da “superpotência global” e o colapso do sistema monetário e do dólar não acontecerá tampouco imediatamente depois de 7 de fevereiro, apesar da crise econômica e financeira mais aguda que o mundo conheceu desde a Grande Depressão e das proporções astronômicas da dívida agregada dos EUA. Os patrões do dólar norte-americano já iniciaram a produção de várias crises que podem dar algum fôlego extra ao dólar.

A crise mais “promissora”, dessa vez, foi criada em torno da Ucrânia, para cujo litoral os EUA já se preparam para enviar navios de guerra, sob o pretexto dos Jogos Olímpicos de Sochi. Na fumaça criada em torno do que se passa na Ucrânia, desaparecem de vista fatos chaves que, se bem examinados, comprovariam os problemas pelos que passa a economia dos EUA. Na mesma fumaça, a imprensa-empresa encontra material para encher páginas e páginas, sem precisar falar do dólar norte-americano; e sem ter de falar, tampouco, por exemplo, da extensão da queda da renda familiar disponível [orig. real disposable income (RDI): a renda disponível para cada família, depois de pagos os impostos] dos norte-americanos desde 1974 (é o que se vê no gráfico seguinte):

Clique na imagem para aumentar até ficar perfeitamente legível

Esses eventos também afetam a Europa.

Mesmo políticos poloneses pró-EUA como o ex-presidente da Polônia A. Kwasniewski, representante do Parlamento Europeu na Ucrânia para o caso Tymoshenko, já dá sinais de alarme:

A situação na Ucrânia, diz Kwasniewski, pode ficar completamente incontrolável e ter consequências extremamente trágicas não só para os ucranianos, mas também para a União Europeia (...). O fato de gente inocente estar sendo morta na Ucrânia pode gerar uma onda de migração e de problemas econômicos. (...) Há risco real de uma grande tragédia. Acho que diplomatas europeus, de países vizinhos e da Polônia, devem mostrar-se sensíveis a esses assuntos. Isso pode resultar numa espiral de eventos que nós não conseguiremos conter para sempre.

Além da crise na Ucrânia, que está distraindo a opinião pública para que não dê atenção à futura batalha de vida ou morte que se travará no Congresso dos EUA, outras três “crises” estão em construção ou em andamento: na Tailândia, no Egito e na Síria. 

Nikolai Malishevski
Na véspera da abertura dos Jogos de Sochi, Damasco tem de apresentar um relatório sobre a liquidação de suas armas químicas. O plano adotado em novembro previa que todas as armas estariam fora da Síria no dia 5/2. Sabe-se que o processo está atrasado, na Síria. Mas, de fato, Damasco cumprir ou não cumprir o prometido (vale dizer, desarmar-se ante agressor potencial, ou recusar-se a desarmar-se) são situações que pouco alteram os planos de Washington, que sempre conseguirá obter algum outro pretexto para escalar suas ações contra a Síria – a última fronteira russa no Oriente Médio.

Não por acaso, na Conferência de Segurança de Munique, os EUA mais uma vez tentaram falar com a Síria em tom de ultimatum. E os islamistas radicais do Emirado do Cáucaso, que se uniram aos ‘rebeldes’ sírios contra o governo de Bashar al-Assad, já se preparam para entrar em ação também na Ucrânia, depois da recente convocação para que todos os militantes partam “em Jihad” ao mesmo tempo na Síria e no Norte do Cáucaso.




domingo, 2 de fevereiro de 2014

Ucrânia: “Know-How” de desestabilização posto em prática

26/1/2014, Nikolai Malishevski, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Neonazistas ateiam fogo em barricadas de pneus
A intensificação repentina da ação dos extremistas da Ucrânia parece ser provocada por norte-americanos que não podem esperar até as eleições presidenciais de 2015. A principal tarefa é impedir a reaproximação entre Ucrânia e Rússia e, de modo algum, permitir que Kiev se mova na direção do leste, sob influência do que chamam de “expansão econômica de Putin”, que é como os norte-americanos designam os acordos bilaterais entre Rússia e Ucrânia, de 17/12/2013.

Nikolai Malishevski
Washington e Bruxelas têm pressa, porque a decisão da Ucrânia de estreitar a cooperação com a União Aduaneira fará crescer rapidamente o apoio eleitoral para Viktor Yanukovich, o que pode levá-lo a vencer as eleições de 2015...

O momento para começar a “sacudir o bote” parece ter sido escolhido tendo em vista as lições aprendidas no “cenário georgiano” montado em 2008. Dessa vez, a coisa está sendo encenada antes dos Jogos Olímpicos de Sochi. Os ativistas estão ocupando prédios públicos, já se ouvem os primeiros tiros e já há notícia de um morto.

O almirante John Kirby do Pentágono, diz que aviões dos EUA permanecerão em alerta em solo alemão durante os jogos, a duas horas de voo de distância de Sochi, para garantir socorro médico e material e evacuar cidadãos norte-americanos no caso de emergência. Navios dos EUA mover-se-ão para o Mar Negro com o mesmo objetivo (o Pentágono não explicou como, exatamente, navios de guerra podem ajudar a impedir atos terroristas).

Alguns “especialistas” em organizar protestos de rua, como o cidadão norte-americano Fink Brian, que chegou a Kiev dia 27/10/2013, recomendou que a oposição ucraniana recorra à ação violenta, mesmo que haja vítimas, para preparar o cenário indispensável à derrubada do governo. O processo estava marcado para começar dia 8/12, com uma declaração a ser feita na praça central que apresentaria à opinião pública um novo governo comandado por Arseniy Yatsenyuk, com discurso dirigido aos militares e à população, tomada de prédios públicos etc. O plano foi coordenado com algumas embaixadas de outros países, mas a implementação foi suspensa, ao que se sabe, porque Yatsenyuk deu sinais de indecisão.

Taras Stetskiv
Agora, no cenário atual, o plano está sendo implementado. Um ativista na praça, o ex-deputado Taras Stetskiv, do Parlamento, já disse publicamente que a praça já declarou que Yanukovych é presidente ilegítimo, e que um novo governo revolucionário de transição está sendo formado. Os clérigos da Igreja Ucraniana Unida [orig. Ukrainian Uniate Church] estão trabalhando ativamente na incitação à agitação e às hostilidades armadas; por exemplo, o cardeal Lyubomir Guzar já falou a favor da insurgência, e Arsenich quer a eliminação dos “inimigos ucranianos da Ucrânia”. As forças da oposição estão recebendo armas, inclusive armas de fogo. Já se derramou sangue.

Um deputado do Partido das Regiões, que está no governo, Yevgeny Balitsky, disse que um atirador especializado foi recrutado pelo ocidente:

Não se pode excluir a possibilidade de que um profissional atirador tenha sido recrutado num dos países da OTAN, e que foi trazido para cá sob ordens de grupos radicais – disse ele.

Circulam panfletos na praça que clamam por “10 inimigos da Ucrânia mortos, por cada patriota da oposição”.

Segundo o Departamento de Combate ao Crime Organizado, subdivisão do Departamento Central do Ministério de Assuntos Internos da Ucrânia, são cerca de 20 os grupos criminosos organizados em Kiev, que reúnem cerca de mil extremistas armados com rifles Kalashnikov. O Departamento diz em Kiev que a oposição já está armazenando armamento nos prédios “capturados”. O presidente do Partido Liberdade para Todos os Ucranianos, Oleg Tyagnibok, usou o palanque da praça para declarar o início da mobilização do seu partido e convocou “todos os não indiferentes” a ir a Kiev e enfrentar o governo. O deputado Andrey Pavlovsky, do “Batkivschyna” foi ainda mais longe: anunciou o início da guerra civil na Ucrânia:

Oleh Tyahnybok denunciou o governo “da máfia judeu-moscovita” na Ucrânia e que “alemães e o resto da escória” querem “nos roubar nosso estado ucraniano”. É um dos líderes dos protestos na praça – e, com Vitali Klitschko - está negociando com o presidente Viktor Yanukovych.
Marcus Papadopoulos, editor-chefe da revista britânica Politics First, diz que os protestos em Kiev foram organizados pela União Europeia e pelos EUA. O ex-embaixador dos EUA à ONU, John Bolton, disse que “placas tectônicas estão sendo realinhadas na Europa” e que “o grande prêmio” é a Ucrânia. Pogroms e sangue são o argumento derradeiro que o ocidente usa para fazer a Ucrânia tender na direção da “escolha europeia”.

Mais de 200 estrangeiros já foram evacuados do país: são os que trabalharam no planejamento dos pogroms e deram treinamento aos militantes. A maioria deles são cidadãos de estados ocidentais que trabalham sob o disfarce de jornalistas. 35 especialistas em “mudança de regime”, dos EUA, União Europeia e da Georgia, entre os quais o norte-americano Alexander Ross, já foram declarados persona non grata na Ucrânia.

Doug Bandow
Até especialistas norte-americanos, como Doug Bandow, diretor do Cato Institute em Washington, D.C., admite que Washington e Bruxelas não têm nenhuma razão formal que justifique a interferência sem precedentes nos assuntos internos da Ucrânia. Por isso, inventaram a questão de “leis antidemocráticas” aprovadas pelo Parlamento ucraniano dia 16/1 (o momento em que aquelas leis entraram em vigência está sendo apresentado como a oportunidade e a razão para o “aquecimento” dos confrontos).

É significativo que muitas declarações oficiais ocidentais relacionadas às “leis de 16/1” estejam sendo insistentemente distribuídas, apesar de o texto das leis nunca ter sido publicado!

De fato, se comparadas a leis vigentes nos EUA, as novas leis ucranianas são exemplo de extrema moderação e retidão política. Nem na Alemanha, na França, na Espanha ou na Polônia, ou em inúmeros outros países a lei é tão equilibrada e moderada: nesses países, a ação de extremistas é punida com muito mais rigor.

Na França, por exemplo, a pena pelo crime de incitar agitação popular é de cinco anos de cadeia; e no caso de a incitação levar a movimentos de massa de grandes proporções, a pena sobe para 30 anos; 15 anos, para quem construa barricadas e tome prédios públicos, dentre outras leis que tratam de idêntica ação de agitação.


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Sobre as drogas dos “Pacificadores”

24/1/2014, Nikolai Malishevski, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Militar dos EUA-OTAN patrulha uma plantação de papoula (ópio) no Afeganistão
Pelo 3º ano consecutivo, o Afeganistão ocupado pela OTAN cultivou número recorde de papoulas do tipo que produz ópio. Segundo relatório do Gabinete da ONU para Drogas e Crimes [orig. United Nations Office on Drugs and Crime (UNODC)], em 2013 as culturas de papoula de ópio no Afeganistão ocuparam a maior superfície de terra, ultrapassando todos os registros anteriores. Apesar das condições climatológicas desfavoráveis, sobretudo em áreas no oeste e no sul do país, as plantações para produção de ópio ocupavam um total de mais de 209 mil hectares, 36% a mais que no ano anterior.

Taxa de crescimento das plantações de papoula-ópio.
Tabela 1. Em duas décadas, segundo o relatório.
Tabela 2. Comparação (em %), de 2012 e 2013.
Oficialmente, o cultivo da papoula-ópio – principal componente para a produção de heroína – é proibido por lei no Afeganistão, embora o número de províncias nas quais a planta está sendo cultivada não pare de crescer. A produção de ópio alcançou a marca de 5.500 toneladas, mostrando crescimento de 49% em comparação com 2012.

A propaganda ocidental culpa os Talibã pela produção de ópio, ou representantes do regime, que estariam imersos no tráfico de drogas. Mas essas alegações não se confirmam, se se observa o que está realmente acontecendo.

O comando da OTAN diz que os Talibã

(...) opunham-se inicialmente às drogas, mas agora ou cultivam eles próprios, ou criam “impostos” sobre as colheitas das fazendas produtoras .

Mas os comandantes dos Talibã têm repetido, com insistência, que os mujahideen afegãos estão em luta de jihad contra as forças de ocupação; e que o Islã proíbe estritamente tanto o consumo de álcool quanto de drogas. E deve-se dizer que, sim, os islamistas fanáticos seguem essa regra ao pé da letra.

Militares da OTAN e plantadores de papoula (ópio) no Afeganistão
Quanto aos fantoches do ocidente, como Karzai e os que o cercam, aí, sim, há provas mais do que suficientes de envolvimento deles na produção e no comércio de drogas. Em outubro de 2013, eclodiu um escândalo em Kabul quando, durante inspeções no Afeganistão, descobriu-se que 65 altos funcionários da inteligência afegã eram dependentes de heroína. Alguns anos antes, se soubera que a CIA financiava Ahmed Wali Karzai, irmão mais moço do presidente Hamid Karzai, o qual era conhecido, já há mais de oito anos, como um dos principais traficantes de ópio na região.

Nikolai  Malishevski
Pesquisadores norte-americanos insistem que o tráfico de ópio nos EUA está sendo controlado por redes e cartéis que foram descobertos durante o caso “Irã-Contras” e que não suspenderam suas atividades desde os anos 1980s:

O pilar do regime de Karzai é o apoio que recebe do tráfico de drogas, e, para nós, esse pilar é intocável. Os EUA convertemos o Afeganistão no maior fornecedor mundial de heroína. E isso aconteceu sob o comando da CIA – observam aqueles pesquisadores.

Segundo informação recolhida de vários jornais de grande circulação (The Daily Mail, The New York Times, Pakistan Dail etc.), os principais fornecedores de heroína para o mercado global seriam:


  • Izzatullah Wasifi, governador da província Farah; presidente da Administração Geral Afegã Independente contra a Corrupção, cujas atribuições incluem o combate ao cultivo de papoulas e à produção de ópio, e amigo de infância de Hamid Karzai; e que foi preso por autoridades dos EUA, em julho de 1987, por tráfico de heroína de alto grau (!);
  • Jamil Karzai, presidente do Partido Nacional da Juventude Solidária do Afeganistão [orig. National Youth Solidarity Party of Afghanistan], membro do Conselho Nacional Afegão de Segurança e sobrinho de Hamid Karzai, que manteria relações de negócios com Haji Mohammad Osman, proprietário de um laboratório de produção de drogas no distrito de Achin, na província de Nangarhar (na pequena região do Damgal);
  • Abdul Qayum Karzai, membro da Câmara Baixa da Assembléia Nacional Afegã, ex-empregado da Unocal, empresa norte-americana, e irmão de Hamid Karzai, e que seria o grande barão da droga em Kandahar;
  • Shah Wali Karzai, irmão de Hamid Karzai, proprietários de campos de plantação de papoulas nas províncias de Kandahar, Nangarhar, Urozgan, Zabul, Paktia, Paktika e Helmand; e dúzias de autoridades do Executivo e do Judiciário afegãos, além de funcionários do Ministério de Relações Interiores do Afeganistão. 
Família Karzai em foto sem data. Em pé: Shah Wali Karzai, Ahmed Wali Karzai, 
Hamid Karzai, atual presidente, e Abdul Wali Karzai. Sentados: Abdul Ahmad Karzai, 
Qayum Karzai; Abdul Ahad Karzai, o patriarca, e Mahmoud Karzai.
Se se acredita na imprensa-empresa ocidental, os responsáveis pelos crimes de produção e tráfico são fantoches do ocidente, como a família Karzai e seu círculo, aos quais a mesma imprensa-empresa ocidental culpa pelo rápido crescimento do número de dependentes de heroína em todo o mundo.

Mas a verdade é que só 20% das papoulas-ópio são cultivadas nos distritos do norte e do centro do Afeganistão, que são as regiões controladas pelo governo Karzai.

Todo o resto da produção desse veneno tão lucrativo vem das províncias do sul, da fronteira com o Paquistão – áreas controladas pelas forças da OTAN. O principal centro de produção de drogas é a província de Helmand, que está sob comando de forças do exército britânico.

Áreas de cultivo de papoula (ópio/heroína) no Afeganistão em 2012
(clique na imagem para aumentar)
Em vez de ajudar os agricultores afegãos a mudar-se para colheitas alternativas, os “pacificadores” limitam-se exclusivamente a discutir por que a produção só aumenta; e, segundo provas recolhidas de fontes locais e internacionais, os “pacificadores” também participam ativamente do “negócio”. Alguns analistas estão atribuindo essa “participação” ao fato de que os EUA tentam por todos os meios evitar um conflito potencial contra os barões da droga, cujo apoio político é importante para a existência do governo Karzai.

Mas o que se vê, de fato, é que os EUA estão ignorando deliberadamente o elo que há entre o tráfico de drogas, a crescente instabilidade no Afeganistão e o crescimento de atividade terrorista na região. Dito de forma simples: se os EUA estão garantindo aos barões da droga toda a liberdade de que precisam para manter o “negócio” (em troca de apoio político ao governo de Karzai), os EUA estão, de fato, trabalhando contra os próprios objetivos pelos quais invadiram o Afeganistão: garantir paz e segurança ao país.

Thomas Ruttig
Especialistas ocidentais como Thomas Ruttig, co-diretor do centro de pesquisa independente Afghanistan Analysts Network, observa que:

(...) com a próxima retirada das forças da OTAN do Afeganistão, diminuiu muito a pressão, pelas autoridades, contra os plantadores de papoula-ópio. O relatório divulgado pela ONU diz, dentre outras coisas, que em 2013 as autoridades destruíram 24% de pés de papoula-ópio a menos, que antes.

Resultado: o Afeganistão está-se afirmando, consistentemente, como o maior fabricante de ópio do mundo, produzindo mais de 90% de tudo que o mundo produziu em 2013.

Há três anos, os mesmos analistas da ONU observaram que as papoulas estavam sendo cultivadas em apenas 14, das 34 regiões do país; no início de 2014, esse número já subiu para 20. Enormes plantações reapareceram em províncias do norte do Afeganistão, como Balkh e Faryab, nas quais a papoula-ópio havia sido declarada erradicada. Essas províncias afegãs são vizinhas de dois países da Commonwealth of Independent States (CIS, organização que reúne 11 repúblicas ex-soviéticas, inclusive a Rússia) – o Uzbequistão e o Turcomenistão.

Simultaneamente, se observa que está em andamento um processo para militarizar os grupos internacionais de drogas concentrados na região.

Viktor Ivanov, chefe do Serviço Federal de Controle das Drogas da Federação Russa [orig. Federal Drug Control Service of the Russian Federation (FSKN)], diz:

Viktor Ivanov
Já se vê que estão surgindo grupos armados que, vários deles, são ramificações dos cartéis de drogas no norte do Afeganistão. Esses grupos têm suas próprias unidades de combate (...) No Afeganistão, já está em andamento a rápida militarização de grupos ligados ao tráfico. De modo geral, são bem armados. Têm armas leves, armamento portátil, granadas e lança-granadas, e usam regularmente essas armas. O orçamento de grupos ligados aos tráfico como esses é de cerca de 18 bilhões de dólares norte-americanos. É dinheiro que obtêm da produção da droga, e motivo pelo qual esses grupos converteram-se em fator importante em tudo que tenha a ver com a situação política, econômica e criminal dentro dos estados da Ásia Central.

Já há muitos anos, os EUA vêm usando o tráfico de drogas para manter sua Guerra Fria contra os estados pós-soviéticos, porque consideram que a droga seria elemento eficiente para minar o potencial humano dos exércitos adversários naquelas áreas.


Às vésperas de se retirarem do Afeganistão, as forças de ocupação da OTAN tratam de reforçar a produção de papoulas-ópio, por todos os meios possíveis. Assim, contam com empurrar o conflito para confrontos cada vez mais violentos, usando grupos armados das máfias da droga, que se concentram ao longo da fronteira sul da ex-URSS. Por isso, lá circulam hoje tantas armas e tantos grupos armados mantidos pelo tráfico, mas que se ocultam por trás de “bandeiras” islamistas e de slogans “jihadistas”...

sábado, 2 de novembro de 2013

A “Jihad” universal e o fator xiita

6/10/2013, Nikolai MALISHEVSKI, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Khalid bin
Ahmed al-Khalifa
Há poucos dias, o Ministro de Relações Exteriores do Bahrain, Khalid bin Ahmed al-Khalifa, exigiu o assassinato do Secretário-Geral do Hezbollah, xeique Hassan Nasrallah, dizendo que livrar o Líbano de Nasrallah seria “dever nacional e religioso”. [1] A causa da declaração é que o governo do reino-ilha já perdeu completamente o controle sobre a maioria xiita de sua população, que é simpática ao Hezbollah e tende na direção do Irã xiita. Na primavera passada, o Bahrain tornou-se o primeiro país árabe cujo gabinete de ministros incluiu o Hezbollah, que está dando amplo apoio ao governo de Bashar al-Assad, em sua lista de organizações terroristas.

A agitação entre os xiitas, nas quais muitos veem “a mão de Teerã”, não se tem limitado ao Bahrain. O fator xiita é extremamente preocupante também para os sauditas, para o governo do Iraque e para o governo libanês.

Hassan Nasrallah
Ao mesmo tempo, o Bahrain e outros aliados dos EUA no Oriente Médio – Israel, Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos – têm manifestado grave preocupação com o que veem como uma reaproximação entre EUA e Irã.

Outra das razões para essas preocupações tem a ver com algo que o rei Fahd saudita anunciou ao mundo em meados dos anos 1980s: “A santa jihad é revolução sem limites, como o comunismo”. Desde os anos 1970s e até recentemente, os sauditas, inflados pelo apoio de Washington, acreditavam que estivessem, como sunitas devotos, do “lado mais forte” dessa jihad e que lideravam os muçulmanos do mundo para uma nova ordem mundial. Mas, depois da Revolução Iraniana de 1979, surgiu outro aspirante ao papel de líder no mundo do Islã – e esse não era controlado pelos EUA.

Exposição da Sociedade Hojjatieh em Mashhad, Irã
O Irã tem suas organizações globalistas unidas em organizações influentes, como a Sociedade Hojjatieh – uma “mão invisível” na Revolução Iraniana na qual se reuniam os clérigos conservadores, diplomatas, militares, altos funcionários do governo, pessoal de inteligência, empresários, comerciantes e tecnocratas. Sua esfera de influência é muito ampla, de bancos e alto comércio a venda de armas e embarque de moderno equipamento eletrônico. Além disso, a Sociedade Hojjatieh (um de seus representantes no governo foi o ex-presidente Mahmud Ahmadinejad) apoia ativamente o lobby iraniano nos EUA. 

Aiatolá Yazdi e Ahmadinejad, membros da Sociedade Hojjatieh
Os líderes da Sociedade fazem tudo que podem para que o Irã expanda suas conexões políticas também com a Europa, sobretudo com a Grã-Bretanha, onde a Sociedade mantém laços estreitos com organizações da elite britânica como a Astrum Argentum [2] e a Ordem do Golden Dawn in the Outer, as quais têm conexões de longo alcance com círculos políticos e intelectuais ocidentais.

Aiatolá Khomeini
O fato de a Grã-Bretanha estar advogando o fim das limitações que os EUA impuseram a contatos com o Irã prova o quanto são consideráveis os laços não oficiais entre iranianos e europeus. Nas pegadas de Londres já vêm também Berlin e Paris, de onde, uma vez, o Aiatolá Khomeini partiu triunfante, rumo a Teerã, para iniciar sua revolução. Por isso, alguns membros de vários governos dos EUA há muito tempo chamam Grã-Bretanha, França e Alemanha de “a troika de Teerã”.

Alguns representantes do establishment da República Islâmica do Irã [ing. Islamic Republic of Iran, IRI] jamais esconderam seus objetivos globalistas. Praticamente no mesmo momento em que o rei saudita enunciava sua tese sobre a “santa jihad” e o comunismo, um candidato à presidência do Irã, Jaleleddin Farsi, dizia que considerava como prioridade converter a revolução islâmica iraniana em revolução islâmica mundial. O primeiro passo nessa via seria uma revolução islâmica no Afeganistão sunita; o segundo seria o início de uma “verdadeira revolução islâmica mundial”, que seria “mais poderosa que a Revolução Francesa e todas as revoluções que a precederam”. E, finalmente, o terceiro passo seria uma revolução islâmica na Ásia Central.

Hoje já praticamente ninguém lembra que houve tempo em que a ação militar contra a Rússia no Afeganistão foi apoiada não só pelos EUA e pela Arábia Saudita, mas também pela República Islâmica do Irã. Parte da elite iraniana desenvolveu uma estratégia de longo prazo para preparar e exportar a revolução islâmica global. O primeiro experimento bem-sucedido nessa área foi o Líbano, onde, em 1982, o movimento do Hezbollah (Partido de Deus) foi criado pelos iranianos e declarou-se em jihad contra Israel e o ocidente.

Hoje, o Hezbollah, que opera efetivamente no Bahrain e em todo o Oriente Médio, tem milhares de apoiadores em vários países, inclusive em países da União Europeia e nos EUA onde, conforme dados do FBI, mantém células em mais de dez cidades. Além do Hezbollah, há inúmeras organizações revolucionárias islâmicas em operação em regiões do Oriente Médio e da Ásia Central, que são intimamente ligadas a seitas míticas do Islã xiita. Por exemplo, a Sociedade Roshaniya (“Clarividentes”), surgida na Idade Média e que operou no território do Irã, do Afeganistão, do Paquistão e da Caxemira indiana modernos (o seu mais recente análogo europeu são os Illuminati, o braço revolucionário da Maçonaria). Um dos principais dogmas dessa sociedade é a abolição dos governos nacionais e o estabelecimento de uma supersociedade mundial.

Aga Khan IV
Outra sociedade secreta conectada à Roshaniya, inclusive no nível ideológico, é a Ordem Xiita dos Hashishinos [de hashish (árabe), raiz etimológica das palavras (port.) “assassino” e “haxixe” (NTs)], ou Nizari Ismailis, que se formou no Irã e aterrorizou todo o Oriente. Sua principal arma eram agentes treinados para o suicídio e o uso controlado de drogas. Atualmente, o imã dos Ismailitas é Aga Khan IV, um dos principais representantes oficiais na ONU dos interesses da Grã-Bretanha, favorito da família real britânica e uma das maiores fortunas do planeta. [3] Ao mesmo tempo, é imã de um ramo do Islã que, nos idiomas europeus, converteu-se em sinônimo de assassinos de aluguel, além de ser figura chave de um dos maiores casos da política contemporânea, o “caso Irã-Contras”; do financiamento aos partidos de mujahideens no Afeganistão; do movimento pró-independência da Caxemira, pró-Grã-Bretanha etc..

Dentre os ensinamentos dessas organizações, há a crença de que o poder da irmandade torna-se maior cada vez que incorpora o espírito de um dos irmãos mortos. Quanto mais irrepreensivelmente crente fiel for o mártir, mais poder ele transfere para sua irmandade. Hoje, os hashishinos medievais “reincarnaram” em shahids [ar. “testemunhas”] suicidas que, sob a forma que têm hoje, apareceram num tempo relativamente recente no mundo islâmico. Em escala massiva, surgiram durante a guerra Irã-Iraque, quando o Irã usou soldados suicidas que se lançavam com explosivos sob tanques iraquianos; em escala individual, apareceram em outubro de 1983, quando o Hezbollah assumiu publicamente a responsabilidade por um ataque de suicida-bomba que matou mais de 300 soldados e pessoal militar dos EUA e França.

Jihadistas da al-Qaeda
Essas organizações para-xiitas, ou quase-xiitas, formam uma rede transnacional. É perfeitamente possível que ela se converta em alternativa à rede transnacional terrorista de sociedades para-sunitas, ou quase-sunitas, como a Fraternidade Muçulmana e a al-Qaeda – as duas criadas pela anglosfera [os anglo-saxões; países de língua inglesa (NTs)]. Apesar de terem objetivos semelhantes, a principal diferença entre as duas redes é que a base dos métodos dos xiitas é a disposição ao autossacrifício pelo qual o mártir liberta-se do poder de autoridades mundanas; e a base dos métodos dos sunitas é uma espécie de impulso canibal para sacrificar qualquer um em nome da liberdade para continuarem a fazer o que desejem fazer ao resto da humanidade.

Hoje, ante a crescente atividade que se vê entre agentes do fator xiita no Oriente Médio; consideradas a resistência dos sírios e a próxima saída dos norte-americanos do Afeganistão; e considerados os cada dia mais graves problemas internos nos EUA e na Arábia Saudita, os monarcas do Golfo e os EUA estão, sim, gravemente preocupados. Todos esses temem, hoje, sobretudo, duas coisas:

a) que venham a perder o controle sobre as organizações pan-islâmicas sunitas radicais que rejeitam qualquer ideologia de estado nacional em países muçulmanos, em nome da unidade global da Ummah [comunidade mundial dos muçulmanos]; e

b) a promoção do Irã e dos xiitas, como um todo, para os papéis chaves no segmento islâmico da globalização; e o fim do controle de Washington sobre esse segmento, no caso de os EUA não encontrarem meio para influenciar o processo.

Só isso explica os recentes eventos no Bahrain e no Iraque; o apoio aberto dos EUA à al-Qaeda na Síria; a ameaça de ataque contra o Hezbollah no Líbano; e o diálogo entre Washington e Teerã, que tanto alarmou aliados dos EUA no Oriente Médio.



Notas de rodapé
[1] Ver também 28/9/2013, Asia Times Online - redecastorphoto (port.) em: Pepe Escobar:“Como os EUA estão criando o Siriastão”. [NTs].
[2] Estrela de Prata. Esta organização com esse nome mantém página em português do Brasil.
[3] Sobre ele, ver New York Times, 2/7/2007, Islã e negócios se misturam? (ing.) [NTs].