segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Moon of Alabama: “Temas sobre os quais eu já deveria ter blogado há mais tempo”

Quando um blogueiro sério vale (muito!) mais que milhares de jornalistas do jornalismo-que-há

1/12/2013, [*] Moon of Alabama  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

(Eliane Cantanhede, FSP, 1/12/2013, MENTINDO que “não acha nada”, quando não faz outra coisa além de plantar propaganda tucanófila antecipada e ilegal e achando e “se achando”, como sempre, muito).

1. Ucrânia

O russo como língua dominante na Ucrânia
(clique na imagem para aumenter)
O sul e o leste da Ucrânia são etnicamente russos. Aí é onde estão as indústrias da Ucrânia. Essas indústrias não são (ainda) capazes de competir com indústrias da Europa Ocidental e dependem de negócios com a Rússia. Diferente do leste do país, o oeste é predominantemente agrícola e alguns ali provavelmente lucrariam com associação mais profunda com a União Europeia. Mas, sobretudo, a recente tentativa de firmar um pacto comercial entre Ucrânia e União Europeia é absoluto nonsense. Muitos países da União Europeia (França, Espanha) são contrários ao pacto comercial com a Ucrânia e essa oposição reduziu o patamar de suborno ao qual a União Europeia poderia ter chegado para comprar a Ucrânia. E a União Europeia foi forçada a oferecer “valores”, onde a Rússia pode fornecer gás barato e um mercado viável para os bens e serviços ucranianos. Considerando-se a Grécia e a Espanha, os “valores” europeus não parecem, atualmente, assim lá muito valiosos. Era direito, portanto, do presidente da Ucrânia rejeitar a proposta da União Europeia. Uma claque bem paga pela União Europeia e o refugo de uma “Revolução Laranja” estão fazendo comícios a favor do negócio com a União Europeia. Ignorem.

2. Irã

Acordo nuclear provisório entre Irã e P5+1
A atividade da política exterior do Irã é excepcional, de tirar o fôlego. Recentemente, o ministro de Relações Exteriores da Turquia visitou Teerã. Em seguida, chegou o ministro de Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos. O ministro de Relações Exteriores do Irã está atualmente no Kuwait e na sequência viajará a Omã. A proposta de visitar também a Arábia Saudita foi rejeitada por Riad. Considerada com o recente nuclear acordo temporário firmado com o P5+1, essa parece ser estratégia para isolar a Arábia Saudita e assim construir unidade contra um ataque saudita-israelense contra a Síria. Isso, quando o presidente Assad (finalmente) declarou guerra contra a Arábia Saudita, e diplomatas europeus já retornam a Damasco. Confio mais do que nunca que a Síria, apesar dos altos custos, pode vencer e acabará vencendo essa guerra.

3. EUA

Têm havido conversas sobre uma “América Saudita”, porque a exportação de gás e de petróleo de xisto permite agora que os EUA produzam internamente mais de 50% dos hidrocarbonetos que os EUA estão usando. Na minha opinião, é delírio. O preço pelo qual os produtos de xisto pagam o que custa produzi-los [orig. break even price] é quase sempre acima de $50 dólares (em alguns casos, muito acima) por barril.


O preço para produzir hidrocarbonetos no Oriente Médio fica em $1-$5 por barril. Com a volta de Iraque e Irã à produção, os preços cairão e a produção doméstica de xisto nos EUA deixará de ser competitiva. Como a produção a partir do xisto é de curto prazo (as fontes perfuradas esgotam-se rapidamente) qualquer pequena queda nos preços bastará para torná-la comercialmente inviável.

4. China

Muitos anos depois que os japoneses e outros países asiáticos declararam suas respectivas Zonas Aéreas de Identificação de Defesa (ZAIDs), nas quais se exige que os aviões que ali circulem informem sobre o voo ao país que seja sobrevoado, a China declarou sua ZAID. Nada de excepcional. O mapa abaixo mostra que a ZAID chinesa é menor que a ZAID japonesa. 

ZAIDs da China (fucsia) e do Japão (azul)
(clique na imagem para aumentar)
Alguns jornais-empresa dos EUA dizem que a China teria declarado uma “Zona de Defesa Aérea” e estaria disposta a ir a guerra por causa dela. Tudo errado. Só mais da sempre estúpida propaganda jornalística pró-guerra. Uma zona de identificação (também chamada “de informação”) é sempre muito maior que uma zona de defesa e visa a servir-se da identificação para não desperdiçar poder aéreo de defesa em voos inocentes. Aliás, a ZAID dos EUA (mapa abaixo) impõe regras muito mais ferozes que as chinesas.

Mapa da ZAID do Canadá e dos EUA (cinza)
(clique na imagem para aumentar)

 
ZAID do Estado do Alaska (quadriculado)
(clique na imagem para aumentar)



[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como“Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). No Brasil, produzimos versão SENSACIONAL, na voz de Cida Moreira, gravada em “Cida Moreira canta Brecht”, que incorporamos às nossas traduções desse blog Moon of Alabama, à guisa de homenagem. Pode ser ouvida a seguir:



Ucrânia “colorida”: abrem-se as portas do inferno

30/11/2013, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu: Chegaram ordens do alto do morro pra gente “estudar muito essa p*rra de Ucrânia”, que é prá gente aprendê como é essa p*orra de “revolução colorida”, que é igual às outras p*rra de “revolução” da TV branco & preto, desde 1964, mas a gente aki ainda não sabe nem isso. Mande quem mande, só obedece kemké. Tamos aí.

The Saker
Como já previ em postado anterior sobre os eventos na Ucrânia, políticos europeus e partidos da oposição ucraniana entraram em modo de frenesi para tentar mais uma “revolução colorida” em Kiev. Os euroburocratas, normalmente lentos, resolveram que é hora de castigar a Rússia com declarações iradas sobre uma “inaceitável interferência russa”, ao mesmo tempo em que seus próprios diplomatas sobem ao palco para estimular “manifestações” (ilegais) em Kiev.

Quanto à oposição, usou seus formidáveis recursos para arregimentar gente de toda a Ucrânia, estados do Báltico e da Polônia, trazidos para Kiev, para um comício monstro. Para garantir que haveria “massa”, abriram o comício com um show de rock gratuito. Para completar, os partidos da oposição declararam que estão criando “um quartel-general da resistência”, cuja primeira tarefa será organizar uma greve geral nacional na Ucrânia.

Muito impressionante.

E quanto ao governo “pró-Rússia” de Yanukovich?

Savik Shuster
Como também previ, ziguezagueia. Depois do surpreendente “zig” da semana passada, agora começa o “zag”. Tudo que Yanukovich & Co. fizeram foi mandar o Primeiro-Ministro Azarov explicar a mais recente mudança de ideia do Presidente Yanukovich. Foi num programa de TV apresentado pelo conhecido russófobo judeu “Savik Shuster” (seu nome verdadeiro é Shevelis Shusteris – trabalhou para a Radio Free Europe/Radio Liberty, da CIA; depois para veículos russos “democráticos”, antes de começar a trabalhar para a TV “ucraniana” depois da “Revolução Laranja” em Kiev. É mesmo “cosmopolita”: tem cidadanias italiana e canadense e, provavelmente, também israelense). Mas ninguém ouviu coisa alguma do que o primeiro-ministro disse; a cada número da economia que Azarov enunciava na defesa de seu argumento, os nacionalistas ucranianos respondiam com slogans emocionados, promessas de um futuro radiante e a retórica usual de ódio à Rússia.

Viktor Yanukovich
O próprio presidente Yanukovich deu pistas de que o que aconteceu não passou de “adiamento temporário”, e que a Ucrânia talvez assine o acordo [de comunidade econômica com a União Europeia], só que “um pouco adiante”, talvez na primavera.

Para arrematar, o governo mandou suas tropas de choque esvaziar a Praça Maidan em Kiev às 4h da madrugada, o que foi feito com o nível usual de violência desbragada (dos dois lados). Vídeo abaixo. Azarov então denunciou sua própria tropa de choque e anunciou a criação de uma comissão especial de inquérito para investigar a violência e descobrir os responsáveis (não se sabe que outros responsáveis podem ser algum dia descobertos, além das tropas de choque do próprio Azarov).

Se querem saber minha opinião: absolutamente patético.

Quanto aos chamados “russos” de Donetsk, organizaram comício anti-União Europeia e pró-Yanukovich, no qual exibiram gigantescas bandeiras amarelo-e-azul da Ucrânia, ao som de “Ode à Alegria” da 9ª Sinfonia de Beethoven – com certeza sem saber que é o hino oficial da União Europeia.


Comparemos os dois lados envolvidos nessa disputa:

Os euroburocratas e os nacionalistas ucranianos

Mykola Azarov
Os euroburocratas e os nacionalistas ucranianos são doidos, completa, absolutamente doidos. São como alguém que, de repente, muda de ideia, renega o que prometera e num gesto, sem mais nem menos, detém um processo no qual investiu um gigantesco capital político. Isso, exatamente, foi o que aconteceu.

Agora, os euroburocratas e os nacionalistas ucranianos estão todos no mesmo pé: os dois lados sentem-se extremamente fracos e os dois lados temem a Rússia e os dois lados estão falidos e os dois lados esperam que uma vitória política esconda o fracasso econômico e os dois lados odeiam a Rússia e os dois lados acham que é crucial negar à Rússia qualquer vantagem (real ou imaginária) que possa extrair de uma união com a Ucrânia.

É. Todos esses são sentimentos negativos, carregados de ódio, sentimentos de insatisfação e inadequação misturados com autoilusão sobre uma sempre esperada, mas para sempre inalcançável grandeza. Mas sentimentos negativos – sobretudo sentimentos nacionalistas – podem ser muito poderosos, como Hitler demonstrou com muita clareza ao mundo.

Os ucranianos do leste, pressupostos “pró-Rússia”

Yulia Tymoshenko
(na prisão)
Estes, não têm visão alguma, não têm ideologia alguma, não têm qualquer objetivo futuro identificável. Só têm a oferecer uma mensagem a qual, em essência, “declara” que “não temos escolha senão entregar tudo aos russos ricos, em vez de entregar tudo aos europeus pobres”. Ou: “da União Europeia só nos vem conversa; a Rússia, pelo menos, oferece dinheiro”. É verdade. Mas absolutamente pequeno e pouco, para dizer o mínimo. Pior: esse ponto de vista reforça, pelo menos por implicação, as teses centrais dos euroburocratas e dos nacionalistas ucranianos: que se trata de rendição à Rússia e que os russos estão chantageando e interferindo.

Ora! Quem chantageia e interfere é, completamente, a União Europeia. É o que se vê, perfeitamente claro, na demanda para libertar Tymoshenko (quando, na Europa, Berlusconi é acusado por exatamente o mesmo crime – e basta isso, para ver o duplifalar).

E quanto à Rússia, nisso tudo?

Começo a temer que isso tudo venha a explodir numa crise real e muito perigosa para a Rússia. Primeiro, assumo que os euroburocratas e os nacionalistas ucranianos podem, sim, prevalecer; e que o presidente Yanukovich ou ficará no “zag” e reverterá a decisão anterior, ou perderá poder. De um modo ou de outro, me parece, os nacionalistas ucranianos prevalecerão. Haverá festa e fogos de artifício em Kiev, tapinhas em mútuas costas arrogantes em Bruxelas, e, na sequência, abrir-se-ão as portas do inferno, para a Ucrânia. Por quê?

Bem... Simplesmente porque atar o Titanic ucraniano na popa do Titanic europeu não salvará ninguém. A União Europeia está naufragando, como a Ucrânia. Nem a União Europeia nem a Ucrânia têm qualquer ideia sobre o que fazer para deter o desastre; e os dois lados estão completamente dedicados a esconder a quebradeira, sob avalanches de retórica cada vez mais estridente, de “conteúdo político” cada dia mais sórdido. Desnecessário dizer que nem promessas ocas nem slogans nacionalistas enchem a barriga dos famintos, e que a economia ucraniana está moribunda e logo entrará em colapso. Quando acontecer, a prioridade da Rússia terá de mudar: de sustentar a Ucrânia, para proteger-se contra o caos ucraniano, ali, ao longo de 2.300 km de fronteira quase completamente desprotegida. Qual o risco para a Rússia?

Divisões linguísticas mostram também divisões étnicas na Ucrânia
(clique na imagem para aumentar)
Os riscos reais para a Rússia

Ser arrastada para o caos e a violência inevitáveis que se espalharão por toda a Ucrânia (inclusive na Península da Crimeia); deter ou, no mínimo administrar com segurança um provável fluxo de refugiados que procurarão segurança física e econômica na Rússia; e proteger a economia russa contra as consequências do colapso da economia ucraniana. A Rússia terá de fazer tudo isso, ao mesmo tempo em que se mantém distanciada da crise que crescerá dentro da Ucrânia – porque é absolutamente garantido que os euroburocratas e os ucranianos nacionalistas culparão a Rússia por todas as suas desgraças.

Nessa situação, o melhor que a Rússia pode fazer é deixar que os ucranianos mergulhem em seu inferno nacional, e esperar que um ou outro lado prevaleça. Isso, antes de tentar enviar alguns “olheiros”, fora dos holofotes políticos, para verificar se alguém do lado de lá da fronteira começa a recuperar a razão e está em posição (e tem competência) para começar a reconstruir a Ucrânia e sua inevitável parceria com a Rússia e o restante da União Eurasiana. Enquanto isso não for possível, a Rússia deve manter-se o mais distante possível dessa “revolução”.

Sarajevo no [rio] Dniepr

Nesse momento, todos os sinais indicam que a Ucrânia descerá pela “estrada bósnia” e que as coisas ficarão realmente muito feias. A mistura explosiva que está fermentando hoje na Ucrânia é exatamente a mesma que explodiu tão terrivelmente na Bósnia: nacionalistas locais apoiados por imperialistas externos absolutamente decididos a ignorar qualquer tipo de bom-senso, que se opõem a qualquer solução negociada – decididos a alcançar a qualquer preço seus objetivos ideológicos.

Gente mais racional e sensível talvez ache esse meu cenário excessivamente pessimista. Os mais céticos, com certeza, nunca ouviram a seguinte piada, muito conhecida:

Um polonês encontra uma lâmpada mágica e, para limpá-la, dá-lhe uma esfregadela. E salta um gênio, de dentro da lâmpada: “Sou o gênio da lâmpada e posso conceder-lhe três desejos”. “Ótimo”, diz o polonês. “Quero que o Exército Chinês invada a Polônia”. Desejo estranhíssimo, pensa o gênio. Mas, ok, concede o desejo ao polonês e o Exército Chinês vem da China, invade a Polônia, e retorna à China. “Agora, o segundo desejo. Por que você não deseja algo mais... construtivo?”, diz o gênio. “Nada disso”, responde o polonês. “Quero que o Exército Chinês invada outra vez a Polônia”. E lá vem o Exército Chinês, lá da China, torna a invadir a Polônia e retorna à China. “Escute aqui”, diz o gênio. “Você tem mais um desejo. Posso fazer a Polônia o lugar mais rico e belo do mundo.” “Não”, diz o polonês. “Se você não se incomoda, eu quero que o Exército Chinês invada a Polônia pela terceira vez.” E assim foi. O Exército Chinês veio, invadiu, acabou de destruir o que restava da Polônia, e voltou para a China mais uma vez. “Não entendo!” Disse o gênio. “Por que você pediu que o Exército Chinês invadisse três vezes a Polônia?” “Ora essa”, respondeu o polonês. “Porque, assim, eles passaram SEIS VEZES por cima da Rússia”.

Esse é o tipo de “humor” que pode brotar de um sentimento de inferioridade profundamente arraigado, combinado a um nacionalismo estridente compensatório. Falem com qualquer um que conheça um ucraniano nacionalista e verão: os nacionalistas ucranianos fazem os nacionalistas poloneses parecer sóbrios e ponderados.


Desnecessário dizer que quando a Ucrânia explodir, os euroburocratas farão ar de quem nada tem a ver com aquilo e trancarão firmemente as fronteiras respectivas. E os líderes dos partidos nacionalistas ucranianos fugirão rapidamente para o ocidente, onde logo arranjarão bons empregos em universidades, think-tanks e ONGs. E o povo ucraniano será deixado lá, matando-se uns os outros, num oceano de lágrimas de crocodilo derramadas pela chamada “comunidade internacional”?

Lasciate ogne speranza, voi ch'entrate? [1]

Espero sinceramente estar errado, e que surja algum indivíduo ou movimento, do atual caos, para impedir que a Ucrânia desabe para um “cenário bósnio”. Mas, infelizmente, não vejo sinal algum de que possa acontecer no curto prazo. Os políticos ucranianos fazem triste figura. Os políticos da União Europeia não fazem melhor. Nos melhores casos, são tediosos, sem imaginação e sem competências. Na maioria, são mentirosos patológicos, politicamente prostituídos e tolos delirantes, arrogantes demais e imbecis demais a ponto de não verem o que salta aos olhos de qualquer analista, nem que apareça diante deles em letras garrafais.

Fiquem sabendo: por treinamento e por personalidade, sou pessimista (alguém algum dia viu analista militar que fosse otimista?). Por exemplo: desde meu primeiro postado nesse blog, prevejo sempre que EUA-Israel atacarão o Irã, o que ainda não aconteceu (pior: continuo a prever que, mais dia menos dia, os israelenses e seu sayanim [heb. “auxiliar, servente”] neoconservador provocarão um ataque norte-americano ao Irã; se for preciso, haverá um primeiro ataque, que será atribuído a outros). Várias vezes, portanto, estive errado, muito errado. E espero, de coração, estar errado também agora. Mas, infelizmente, não vejo fatos nem argumentos que sugiram, mesmo indiretamente, qualquer outro melhor cenário para o futuro da Ucrânia. Alguém vê?
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Nota dos tradutores

[1] “Abandonai toda a esperança, vós que entrais”. Da Divina Comédia, de Dante; sem o ponto de interrogação, é o que se lê sobre o portal de entrada do Inferno.

Bashar al-Assad: “Nossa guerra contra os sauditas continua”

30/11/2013, Al-Akhbar (ed. em inglês), Líbano
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Soldados do exército sírio, com um tanque, patrulham rua devastada no distrito de
al-Khalidiyah, centro da cidade síria de Homs, em 31/7/2013. (Foto: Joseph Eid)

Há dez dias, o presidente da Síria, Bashar al-Assad reuniu-se com uma delegação de políticos e líderes partidários de países árabes. Disse claramente: estamos em guerra contra os sauditas, e a batalha continuará, enquanto os sauditas continuarem a “apoiar o terrorismo” e continuar o fluxo de extremistas armados, dinheiro e mais armas para a Síria.

O presidente sírio Bashar al-Assad disse que o apoio dos sauditas e de outros países aos grupos terroristas adiará qualquer solução para a crise. Disse também que o governo sírio está avançando em mais de um front contra o terror e na guerra contra a Síria. Disse que seu governo não irá a Genebra, se esperarem que entregue o poder.

A fala de Assad aconteceu durante reunião que aconteceu à margem da Conferência de Países Árabes na Síria, há dez dias. Al-Akhbar entrevistou o presidente de um partido político do Maghreb que participou da reunião.

O Presidente Assad fala durante a reunião com políticos árabes em 20/11/2013
Em resposta sobre o que está acontecendo na Síria, Assad disse:

Fomos alvo de guerra de grandes proporções. Na primeira fase, tivemos de nos focar em nos defender, e foi o que fizemos no primeiro ano. Em seguida, passamos a lutar para desalojar o inimigo. Agora estamos derrotando os que nos atacaram. Há experiências na história recente, inclusive o que aconteceu com a Resistência no Líbano, que teve de defender suas posições durante longos anos, até começar a alcançar suas grandes vitórias em 2000 e 2006.

Sempre soubemos, desde o início, que o alvo da guerra era nossa capacidade para decidir com independência. E essa capacidade para decidir com independência foi um dos principais fatores de nossa firmeza e de nossa vitória. Mas apreciamos todo o apoio que recebemos de nossos aliados, e alguns aliados tiveram papel chave, como a Rússia, que permanece ao nosso lado, porque seus interesses também estão sendo ameaçados. Ouvi diretamente da liderança russa, que estão ao lado da Síria para defender Moscou, não só para defender Damasco.

Logo da al-Qaeda
O tempo necessário até o fim da crise da Síria depende, em larga medida, do apoio e do dinheiro que grupos armados recebem de atores na região. A Arábia Saudita e outros países são fortes apoiadores declarados do terrorismo. 

Despacharam dezenas de milhares de takfiris para a Síria. E a Arábia Saudita está pagando salário de até US $2,000 por mês a todos que se alistem para lutar ao seu lado. Há outro problema também, relacionado à infiltração, pela al-Qaeda, através da fronteira com o Iraque. As autoridades em Bagdá estão lutando contra isso, mas ainda sem completo sucesso. 

Consequentemente, pôr fim ao apoio que os sauditas dão aos terroristas terá impacto decisivo, especialmente porque os militantes e os que lhes pagam foram surpreendidos por nossa capacidade militar de defesa. Nós sabemos, e todo o mundo sabe, que a al-Qaeda não ameaça só a Síria. Por isso esperamos que surjam soluções racionais nos próximos meses. Mas tudo também depende de nossa capacidade para fazer frente aos sauditas, e estamos decididos a lutar até o fim.

À luz da situação em campo, não acreditamos que seja possível alcançar algum acordo em breve. Enquanto persistir o fluxo de milicianos, armas e dinheiro para dentro da Síria, pelas fronteiras, continuaremos a caçá-los. Ninguém no mundo pode impedir-nos de exercer o direito de nos defender. Além do mais, hoje, vemos que é muito pouco o que possa ser acordado em Genebra, sobretudo porque há quem ainda creia, erradamente, que o que estamos fazendo aqui é feito para entregar o poder a eles.

Ainda que consigam indicar algum nome como líder da oposição [Coalizão Nacional] al-Jarba para a presidência, como conseguirão pôr os pés na Síria?

A Arábia Saudita está liderando a mais extensa operação de sabotagem direta contra todo o mundo árabe. A Arábia Saudita arrastou os países do Conselho de Cooperação do Golfo para a guerra contra todas as nações e partidos que se opõem a Israel. Os sauditas deram cobertura aos acordos de Camp David, apoiaram a guerra contra o Líbano em 1982 e, hoje, estão engajados em guerra aberta contra a Síria. Aqui dizemos abertamente que estamos em guerra contra eles. É verdade: noutras ocasiões, fizemos acomodações com eles. Mas os sauditas querem tudo conforme os interesses deles, a visão deles.

Sobre a posição de países ocidentais que apoiam a oposição armada na Síria, Assad disse que:

O ocidente colonialista ainda age com a mesma mentalidade vã. Agem como se os últimos 20 anos não tivessem existido. Ignoram que os EUA foram derrotados no Iraque. E agem como se a União Soviética tivesse acabado ontem.

Nouri al -Maliki
Sobre a atual situação do mundo árabe e da Liga Árabe, o presidente Assad disse que:

Se a Liga permanecer sob influência e tutela de regimes retrógrados como os dos países do Golfo, ela não terá papel ou valor algum. Mas nem todos os países árabes tiveram roubada a própria independência. Hoje, há um bravo homem no Iraque, o Primeiro-Ministro Nouri al-Maliki. É homem de posições importantes, apesar de seu país estar em ruínas e de haver quem queira continuar a destruição. Também a posição da Argélia pode ser vista como adiantada, em relação a outros. Mas, mais importante, temos de prestar atenção ao que está acontecendo hoje no Egito.

Vemos, como o resto dos árabes veem, que alguém, no Cairo, já está dizendo aos norte-americanos, abertamente, claramente: “Vocês nada têm a ver com assuntos internos do Egito”. Essa é posição importante, que tem de ser apoiada.

O presidente da Síria também falou sobre a situação dos partidos políticos na Síria e no mundo árabe:

O vácuo político é uma das razões pelas quais os grupos extremistas se disseminaram. Mas outra razão tem a ver com o fato de que os partidos não se atualizaram, não rejuvenesceram, e continuam fracos. Nós, como estado, temos interesse em estimular o trabalho deles. Também temos observado o reflexo da força da Síria, na realidade árabe em geral, e especialmente no Maghreb o qual, tememos, pode vir a ser submetido ao poder da OTAN.

Colin Powell
O presidente Assad também alertou contra a disseminação da ideologia wahhabista no mundo árabe:

Para opor-se a isso, é preciso uma nova abordagem das instituições religiosas, mas, em primeiro lugar e sobretudo, exige que se apoie um estado civil baseado na co-cidadania. A geração de hoje foi submetida a um processo de promoção sempre crescente da ignorância. A geração que nos antecedeu tinha mais informação, e esse processo de disseminar a ignorância tem a ver com manter o mundo árabe sempre em estado de atraso perene.

Devo lembrá-los de que o ocidente não quer ver evolução nessa nossa parte do mundo. Lembro da visita que nos fez o Secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, em 2003, para dizer-nos o que os EUA queriam da Síria depois da ocupação do Iraque. Queriam, principalmente, que não recebêssemos os cientistas iraquianos. Rejeitamos o pedido dele. Então, a inteligência dos EUA e de Israel liquidou vários daqueles cientistas. Hoje, querem matar todos os cientistas iranianos.

Gamal Abdel Nasser
Mas Assad observou que, diferente disso, a inteligência parece estar despertando novamente entre os povos árabes. Ver cartazes com fotos do falecido presidente Gamal Abdul-Nasser do Egito, em muitas manifestações árabes, é sinal disso. Disse também que:

Não somos contra a religião. Mas somos contra invocar a religião em todos os aspectos da vida diária do povo. Mesmo nós, que somos seculares, garantimos o lugar da religião em nossa Constituição síria, que declara, explicitamente, que a Xaria é fonte de direito. Mas recusamos qualquer politização da religião, no sentido qe leva a resultados negativos. Exemplo de que nós não somos contra a religião é o caso do Hezbollah no Líbano. É partido ideológico cujas ideias são derivadas da religião. Nós não discordamos politicamente do Hezbollah. É prova de que não temos posição contra a religião. Mas recusamos qualquer força religiosa que opere em acordo com takfiri ou com a ideologia wahhabista.

Por isso, dizemos que não negociamos com a Fraternidade Muçulmana. Entendo que os sírios não podemos tolerar essa facção. Jamais, em momento algum, nos ofereceram modelo positivo. Operam a partir de uma posição sectária. E de que outro modo se explicaria a oposição que fazem ao Hezbollah? Aceitam a politização de qualquer assunto e usam seu discurso sectário para incendiar a luta entre sunitas e xiitas.

A Síria, como o Irã e o Hezbollah toleramos muitas coisas, para evitar a sedição. Exatamente por essa razão, temos abordagem muito cuidadosa para a situação no Bahrain.

(Al-Akhbar)