Por
toda a parte, a Fraternidade Muçulmana beneficia-se de uma democratização que
não foi proposta por ela. Há um vácuo político, porque a vanguarda liberal (não
de esquerda, como se entendem essas divisões no ocidente) que iniciou a
Primavera Árabe não tentou e não deseja, tomar o poder. Essa é revolução sem
revolucionários e sem líderes. Apesar disso, a Fraternidade Muçulmana é a única
força política organizada.
Os
Irmãos têm raízes sociais profundas nas sociedades árabes e décadas de luta de
resistência contra regimes autoritários. A luta deu-lhes experiência,
legitimidade e o direito de serem respeitados. Sua agenda conservadora é
adequada a uma sociedade conservadora, que pode acolher avanços democráticos,
mas nem por isso se converteu à esquerda ou liberalizou-se.
Nessas
circunstâncias, já há quem tema o espectro de um estado islamista totalitário, o
espectro da Xaria imposta como lei geral e o fechamento de um curto parêntese
democrático. Mas nada, na realidade, sugere que as coisas tomem esse rumo.
Para
começar, os islamistas mudaram muito: são hoje “burgueses” de classe média, que
se beneficiaram da liberalização das economias locais nas últimas décadas do
século 20, sobretudo nos países não produtores de petróleo. Os islamistas
extraíram proveitosas lições do fracasso dos regimes ideológicos e do sucesso do
partido AKP turco. Já não pregam a jihad em todos os contextos e
compreendem as limitações geoestratégicas, dentre as quais a necessidade de
preservar a paz, mesmo que paz fria, com Israel. E o realismo é o ponto de
partida da clareza política.
Os
islamistas foram eleitos com agenda clara: estabilidade, bom governo e melhores
práticas econômicas. Se atraíram os votos de mais eleitores que os apoiadores
linha-dura da Xaria, foi precisamente porque podem combinar uma agenda
reformista, sem abrir mão de valores religiosos, identidades e tradições locais.
O
Partido Nahda obteve a maioria dos votos depositados na urna instalada no
Consulado da Tunísia em San Francisco, EUA. E os expatriados tunisianos que
vivem no Vale do Silício não se definem por qualquer espécie de fundamentalismo
islâmico.
Essa
mistura de modernidade tecnocrática e valores conservadores é marca típica dos
candidatos egípcios “religiosos”. Se dessem as costas ao multipartidarismo e ao
legalismo, alienariam grande parte de seus eleitores, num momento e num contexto
nos quais não têm meios para confiscar o poder. Não têm nem forças militares nem
lucros do petróleo que lhes permitam esquecer a importância do voto popular: são
obrigados a negociar no mundo político e têm de cumprir o que prometam. Os
eleitores egípcios querem estabilidade e paz. Não querem guerra e absolutamente
não querem revolução como a entende o ocidente.
A
Fraternidade Muçulmana está pondo os pés, pela primeira vez, numa nova paisagem
política: em democracia, embora frágil e fugidia. O único modo de preservarem a
própria legitimidade democrática é expor-se em eleições. Embora sua cultura
política imaculada nunca tenha sido propriamente democrática, todos foram
criados em “paisagem” democrática. De fato, o que se vê no Egito hoje é parte de
um processo semelhante àquele pelo qual até a Igreja Católica Romana foi
obrigada a aceitar as instituições democráticas. Mas é preciso tempo.
Mesquita e Universidade Al-Azhar (fundada em 972 DC)
Outra mudança importante, se se
considera o período “revolucionário” dos anos 70s e 80s, é que os Irmãos
muçulmanos não monopolizam o Islã, na esfera pública. De fato, o renascimento
religioso que engolfou as sociedades árabes levou à diversificação e à
individualização do campo religioso. Instituições religiosas do Estado, como a
tradicional mesquita (e
universidade) Al-Azhar, recentemente desautorizada, estão
novamente reconquistando a autonomia que tiveram. O patriarca da mesquita
Al-Azhar, Xeique Ahmed Al-Tayyeb, falou abertamente a favor da democracia e de
separar as instituições religiosas, do Estado. Fenômeno novo é, também, a
decisão dos salafistas, seita sunita ultraconservadora, de constituir partidos
políticos. Por um lado, trabalharão a favor de uma agenda mais islamista,
tentando ganhar terreno hoje ocupado pela Fraternidade Muçulmana no campo do
Islã, mas o movimento dos salafistas também forçará os Irmãos a esclarecer a
própria posição e a encontrar meio para distanciar-se da implantação da Xaria
ortodoxa.
Para
fazer isso, a Fraternidade Muçulmana terá de “traduzir” as normas puramente
islâmicas em valores conservadores mais universais – como a proibição de venda e
consumo de álcool, aproximando-a, por exemplo, de algo mais próximo do que é lei
em Utah,
EUA, do que das leis vigentes na Arábia Saudita; e promover
“valores da família”, em vez de impor a Xaria só às mulheres.
Fraternidade Muçulmana (Logo/Armas em árabe)
Nos
próximos meses, a questão candente no Egito, além do status das mulheres, será a
liberdade religiosa. Não no sentido de suprimir liberdades de culto, por
exemplo, dos cristãos coptas – e, de fato, havia inúmeras limitações de culto
implantadas pela ditadura chamada “secular” de Hosni Mubarak - mas na direção de
definir a liberdade religiosa não como direito de minorias, mas como direito
humano individual, com o corolário de admitir-se o direito de o crente
converter-se do Islã ao Cristianismo.
A
questão é a institucionalização da democracia, não a promoção de políticas “de
esquerda”. A democracia só se implantará se for baseada em valores bem
estabelecidos na sociedade. O liberalismo ou alguma política dita “de esquerda”
não são etapas que precedam a democracia. Nos EUA, os Pais Fundadores eram
conservadores fundamentalistas puritanos europeus. Mas, depois que a democracia
deita raízes, baseada em instituições e numa cultura política, então a discussão
sobre liberdade, censura, normas sociais e direitos individuais pode ser gerida
mediante garantias à liberdade de manifestação e trocas nas maiorias
parlamentares. Fato é, porém, que nenhuma democracia se instituicionalizará no
Egito, sem a participação da Fraternidade Muçulmana.
O
mundo árabe e, de fato, o mundo inteiro, esperava ansiosamente para saber o que
diria o novo presidente do Egito, recém eleito, quadro da Fraternidade Muçulmana
(FM), Mohammed Mursi, em matéria de política externa, no discurso da vitória.
Clima
de anticlímax. Do Egito, falou só de passagem (que respeitará “seus acordos
internacionais” – expressão em código, referindo-se aos acordos de Camp David,
de 1979, com Israel. Telavive e Washington que não se preocupem. Quanto à rua
árabe, pode continuar preocupada.
Lacônico,
Mursi parece ter evitado o grande problema. Mas nesse ambiente volátil,
ccntrolado de facto pelo orwelliano Conselho Supremo das Forças Armadas,
aparelho da ditadura militar egípcia, é como se a FM tivesse dito que não
pensará duas vezes, se tiver de jogar os palestinos debaixo de um ônibus lerdo,
se esse for o preço para manter-se no poder.
Pois
nem isso bastou para acalmar a direitosfera nos EUA – com os cães
raivosos de sempre pontificando sobre como o presidente Barack Obama “perdeu” o
Egito, como se os EUA estivessem às vésperas de serem soterrados sob uma
tempestade de areia movida a al-Qaeda.
As'ad AbuKhalil
Mais
uma vez, coube ao blogueiro Angry
Arab, As'ad AbuKhalil, introduzir algum muito necessário bom-senso na
discussão. As'ad escreveu que:
“...
as eleições, no mundo árabe, ficaram resumidas a uma disputa entre o dinheiro
saudita e o dinheiro do Qatar”.
E,
no Egito, a Casa de Thani, do Qatar venceu.
É
sempre importante lembrar que a Casa de Saud e a FM vivem empenhadas em furiosa
discussão sobre o significado do Islã puro. A política exterior do Qatar é
apoiar a FM, sempre que possível. Do ponto de vista de Doha, a vitória é imensa:
há hoje um islamista, na presidência da nação-chave no mundo árabe. Todos os
islâmicos comprometidos, do Maghreb a Benghazi, e de Teerã a Kandahar, também
têm motivos de júbilo.
Paralelamente,
o candidato oficial à presidência dos EUA, a União Europeia, Israel, a Casa de
Saud e o Ancient Regime egípcio – o ex-general da Força Aérea do Egito,
Ahmed Shafik – perderam. Assim também, em teoria, a contrarrevolução no Egito,
perdeu. Não. De fato, não. Ainda não.
Só os
ingênuos terminais acreditarão que o orwelliano Conselho Supremo das Forças
Armadas governa de facto o Egito sem consultar Washington e a Casa de
Saud, a cada passo. Antes de Mursi ser oficialmente declarado vencedor, houve um
acerto por trás das cortinas – noticiado em AhramOnline[1].
O
acerto CSFA-FM resume-se a Morsi ter sido obrigado a aceitar trabalhar “segundo
os parâmetros definidos pelo CSFA”. Implica que o aparelho da ditadura militar
mandará em Mursi e mandará no parlamento. Só depois de sacramentado esse acerto,
Mursi foi “legitimamente anunciado como presidente eleito”.
Droga!
Apostamos no cavalo errado
Mohamed Mursi
A
Casa Branca cumprimentou devidamente Mursi – e cumprimentou também o Conselho
Supremo das Forças Armadas, aparentemente sem escolher lado. Mas Washington
apressou-se a lembrar que o governo egípcio “deve continuar a cumprir o papel de
pilar da paz, segurança e estabilidade regionais” (expressão em código
equivalente a “nem pensem em rediscutir Camp David”.
A Casa Branca também prometeu “manter-se ao lado do povo egípcio”. Com amigos
desse tipo, o “povo egípcio” – metade do qual está passando fome – tem,
garantido, um luminoso futuro.
Salomônico,
Obama telefonou a Mursi e Shafiq, à FM e ao CSFA. Só ingênuos terminais
acreditariam que o governo dos EUA tivesse algum temor de que Shafiq – seu
candidato preferido – fosse declarado presidente. Por falar em Shafik, ele já
não está no Egito: teve de fugir, coberto de infâmia, já na 3ª-feira, quando o
Procurador Geral do Egito iniciou processo para investigar seus imundos
negócios, durante os oito anos em que serviu como ministro civil da Aviação do
governo Mubarak.
Assim
sendo, pode-se dizer que, doravante, o Egito seguirá dois projetos de política
exterior: o da Fraternidade Muçulmana e o do Conselho Supremo das Forças
Armadas. O jogo de forças dependerá de se a Fraternidade Muçulmana conseguirá
restaurar o Parlamento (a Câmara Baixa) que foi dissolvido; se obtiver tantos
votos num segundo turno de eleições parlamentares quantos obteve no primeiro
turno (que foi anulado). Tampouco se sabe que tipo de poder terá o presidente
egípcio: a nova constituição ainda não foi redigida.
Ahmed Shafik
Do
ponto de vista de Washington, aconteça o que acontecer, nada alterará o rumo do
dhow [veleiro] real: apoio cego a Israel, faça o que fizer; mal
disfarçado apoio cego à Casa de Saud e ao Conselho de Cooperação do Golfo (CCG),
faça o que fizerem (incluindo repressão violentíssima contra levantes da
Primavera Árabe na Arábia Saudita, Bahrain e Omã); e se alguém nos desafiar,
bombardeamos ou dronamos o desgraçado, até a morte.
Do
ponto de vista de Washington, a Fraternidade Muçulmana, com Mursi, pode ser
declarada facilmente “contível”. Mursi não se atreverá a confrontar Israel.
Morsi, muito provavelmente, dará uma de Erdogan – o primeiro-ministro da
Turquia. Protestos fortes contra o brutal gulag em Gaza imposto por
Telavive; apoio firme ao Hamás... mas nada que tire do lugar as relações
diplomáticas e o comércio. Eventualmente, pode acontecer de a liderança
israelense aceitar, finalmente, que os palestinos também são seres humanos. Mas
não se recomenda a ninguém apostar nisso.
Fraternidade Muçulmana
Resta
saber, nesse cenário de “dois projetos de política exterior”, que lado
prevalecerá no longo prazo, a Fraternidade Muçulmana ou o Conselho Supremo das
Forças Armadas. O teste crucial é o Irã. Mursi, se obtiver alguma liderança
efetiva, não seguirá cegamente Washington em sua obsessão de “incapacitar” o Irã
– como o Iraque foi incapacitado nos anos 1990s (o longo prelúdio antes do golpe
“mudança de regime”). Vê-se uma pista do que pode estar por vir: Mursi disse à
Agência de Notícias Fars, iraniana, que que que as relações Cairo-Teerã voltem
ao normal. Imediatamente depois veio o desmentido do Egito, que só pode ter sido
orquestrado pelo Conselho Supremo das Forças Armadas.
Olivier
Roy, professor do European University
Institute em Florença adverte, com razão, sobre o Egito:
Foi
revolução sem revolucionários. Mesmo assim, a Fraternidade Muçulmana é a única
força política organizada. (...) Sua agenda conservadora é adequada a uma
sociedade conservadora, que pode acolher avanços democráticos, mas nem por isso
se converteu à esquerda.” Para Roy, “a democracia não se institucionalizará no
Egito, sem a Fraternidade Muçulmana.[2]
O
caminho é longo e pedregoso. Mursi terá de prestar contas não só ao Conselho
Supremo das Forças Armadas, mas também aos líderes extremamente conservadores
da Fraternidade Muçulmana; afinal de contas, o próprio Mursi, até ontem, não
passava de quadro desconhecido do grande público. Mursi sabe que confrontar o
Conselho Supremo das Forças Armadas é confrontar Washington. Se tentar qualquer
medida mais ousada, logo acharão um jeito de matá-lo softly, suavemente, método muito prezado
pela secretária Clinton.
Mas... E se Mursi conseguir
mobilizar milhões, nas ruas? Estão abertas as apostas sobre onde está, de fato,
esse Irmão.
Nota de
rodapé
*Orig. O
Brother, Where Art Thou? [lit. “Irmão, onde estais?”] é título de filme dirigido
pelos irmãos Coen, 2002, adaptação da Odisseia, no “sul profundo” dos EUA; três
fugitivos de uma prisão procuram um tesouro escondido, perseguidos,
incansavelmente, pelos guardas e por vários outros tipos de “eventos”.
Informações extraídas de “E aí meu irmão, Cadê você?”
Traduzido pelo Coletivo de
Tradutores da Vila
Vudu
Paul Craig Roberts
Quando
o presidente Reagan nomeou-me para o cargo de vice-secretário do Tesouro para
Política Econômica, disse-me que tínhamos de restaurar a economia dos EUA,
resgatá-la da estagflação, para voltarmos a ter economia forte, para enfrentar
os soviéticos e convencê-los a negociar o fim da Guerra Fria. Reagan disse que
não havia motivo algum para continuarmos a viver sob a ameaça de uma guerra
nuclear. O governo Reagan alcançou os dois objetivos.
Mas,
imediatamente depois, esses dois sucessos do governo Reagan foram descartados
pelos governos que vieram depois dele. Foi o próprio vice-presidente de Reagan e
seu sucessor na presidência, George Herbert Walker Bush, quem primeiro violou o
acordo Reagan-Gorbachev: ao incorporar à OTAN partes do Império Soviético; e ao
instalar bases militares ocidentais junto à fronteira da Rússia.
O
processo de cercar a Rússia com bases militares prosseguiu sem descanso ao longo
de vários governos nos EUA, com inúmeras “revoluções coloridas” pagas pelo Fundo
Nacional dos EUA para a Democracia [orig. US National Endowment for
Democracy, NED] que, para muitos, não passa de fachada para ações
clandestinas da CIA. Washington tentou ‘mudança de regime’ na Ucrânia, para
instalar ali um governo controlado por Washington; e na Georgia ex-soviética,
terra natal de Joseph Stalin, conseguiu.
Mikheil Saakashvili Presidente da Georgia
O
presidente da Georgia, país entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, é reles fantoche
de Washington. Anunciou, há pouco tempo, que a Georgia ex-soviética será
incorporada à OTAN, como membro pleno, em 2014.
Os
mais velhos ainda lembrarão que a Organização do Tratado do Atlântico Norte,
OTAN, é aliança criada entre a Europa Ocidental e os EUA, contra o perigo de o
Exército Vermelho tomar toda a Europa Ocidental. O Atlântico Norte fica muito,
muito longe do Mar Negro e do Mar Cáspio. Por quê a Georgia seria convertida
em membro da
OTAN... a menos que se trate de, assim, oferecer a Washington
uma base militar no “baixo ventre macio da Rússia” [ing. russian softunderbelly, expressão criada por Churchill, no início do século 20]?
É
absolutamente evidente, evidente demais, que os EUA – os dois principais
partidos – já decidiram que Rússia e China são os inimigos “da hora”. Ainda não
se sabe se o “projeto” é destruir os dois países ou apenas incapacitá-los e
torná-los impotentes, para que não se possam opor ao avanço imperial de
Washington. Seja qual for o projeto, todos os caminhos levam à guerra nuclear.
A
prostituída imprensa-empresa norte-americana [orig, presstitute American
press] insiste em que um diabólico governo Sírio “do mal” estaria
assassinando civis inocentes, que só ansiariam por democracia; que se a ONU não
intervier militarmente, os EUA terão de agir, em nome da defesa de direitos
humanos. Rússia e China são pintadas como demônios-assessores do demônio-mor
sírio, até por altos funcionários do governo dos EUA, porque se opõem ativamente
à ideia ensandecida de que a OTAN “deve” atacar a Síria.
"Presstitute" (Imprensa-empresa prostituída)
Os
fatos são muito diferentes e absolutamente não aparecem na prostituída
imprensa-empresa norte-americana e nas “declarações” de altos funcionários do
governo dos EUA. Os “rebeldes” sírios estão armados com armamento militar. Os
“rebeldes” estão lutando contra o exército sírio. Os “rebeldes” massacram civis.
Os mesmos “rebeldes”, em seguida, “informam” às mídias prostituídas que lhes
prestam o sujo serviço de distribuir propaganda no ocidente, que os massacres
seriam obra do governo sírio. E subprostitutas da subimprensa-empresa de
repetição repetem para todo o ocidente a mesma propaganda.
Dado
que as armas que se veem nas mãos dos “rebeldes” não estão à venda nos mercados
sírios nem em banca de frutas, é óbvio que alguém está armando os “rebeldes”. Os
melhores analistas e observadores do mundo têm repetido que aquelas armas são
fornecidas aos “rebeldes” pelos EUA ou por subalternos aos quais os EUA atribuem
a tarefa (local) de armar “rebeldes” (locais), em vários pontos do mundo.
Assim
sendo, já não é segredo que Washington provocou uma guerra civil na Síria,
exatamente como fez na Líbia. Apenas que, dessa vez, russos e chineses
perceberam a tempo e absolutamente não permitirão que se aprove, no Conselho de
Segurança da ONU, resolução-golpe semelhante à que o ocidente conseguiu arrancar
do CS e usou contra Gaddafi.
Para
contornar esse impedimento, peguem aí um avião Phantom velho, dos anos 1960s, da Guerra
do Vietnã, e mandem a Turquia mandar o Phantom voar para dentro das fronteiras
sírias. Os sírios derrubarão o jato velho e, então, a Turquia apelará aos seus
aliados na ONU, para que acorram em seu socorro contra a Síria. Fracassada a
opção ONU, Washington poderá invocar algum neo “dever-de-atacar”, nos termos do
tratado que criou a OTAN, para defender aliado membro da OTAN... contra a Síria
já eficazmente demonizada.
Presstitute (imprensa-empresa protituída)
A
mentira neoconservadora que continua a ser usada como justificativa por trás das
chamadas “guerras de hegemonia” de Washington é a mentira de que os EUA estariam
levando democracia aos países que invade, ocupa e destrói com bombardeios. Mal
parafraseando Mao, “a democracia nasce do cano do fuzil”. Contudo, pouca
democracia há à disposição da Primavera Árabe; menos ainda, no Iraque e no
Afeganistão, dois países que foram “libertados” na invasão-ocupação-bombardeio
“democráticos” dos EUA.
Os
EUA estão distribuindo guerras civis e países estilhaçados, pelo mundo.
Exatamente o que o presidente Bill Clinton distribuiu na ex-Iugoslávia. Quanto
maior o número de países desmontados, reduzidos a cacos e dilacerados por
guerras entre grupos locais rivais... maior o poder de Washington.
A
Rússia de Putin entende claramente que a própria Rússia está sob ameaças, não só
porque Washington paga para criar uma “oposição russa”, mas, também, porque
Washington trabalha para criar guerras entre facções islamistas, também em
estados seculares de população muçulmana, como o Iraque e a Síria. Essas cisões
respingam também sobre a Rússia e fazem despertar questões russas, como o
terrorismo checheno.
Quando
um estado secular é derrubado, as facções islamistas ficam liberadas para
saltar, umas ao pescoço das outras. A guerra interna paralisa o país, torna-o
impotente. Como já escrevi outras vezes, o ocidente sempre conseguiu controlar o
oriente porque as facções islamistas odeiam-se umas as outras mais do que odeiam
o conquistador ocidental. Assim, quando Washington destrói governos seculares
não islamistas, como destruiu o Iraque e, agora, tenta destruir a Síria, os
islamistas emergem e põem-se a disputar a supremacia entre eles mesmos. Nada
melhor, do ponto de vista de Israel e Washington, que esses estados que perdem
as condições de agir como adversário resistente coerente.
A
Rússia é hoje vulnerável, porque Putin é demonizado pela mídia nos EUA em geral
e por Washington em especial, e porque a oposição a Putin, dentro da Rússia é
financiada por Washington e trabalha a favor dos interesses dos EUA, não dos
russos. O inferno que Washington está construindo e espalhando pelos estados
muçulmanos respinga sobre as populações muçulmanas dentro da Rússia.
Já
se sabe que é mais difícil para Washington interferir nos assuntos internos da
China, embora já haja sinais de que a semeadura de discórdia já começa a brotar
em
algumas províncias. Espera-se que, dentro de alguns anos, a
economia chinesa suplante, em valores, a economia dos EUA; pela primeira vez na
história, uma potência asiática aparecerá à frente das demais economias mundiais
e à frente das mais poderosas economias ocidentais .
Essa
possibilidade, já bem real, abala profundamente Washington. Washington, que se
deixou derrotar e é hoje governada por Wall Street e outros grupos de negócios
específicos, é absolutamente impotente para deter o continuado declínio da
economia norte-americana.
Os
especialistas que vivem da jogatina em Wall Street, aos quais só interessam os
ganhos de curtíssimo prazo; o complexo militar/segurança, que lucra com a
guerra; e as empresas que exportaram, com a produção de bens e serviços, também
os postos de trabalho dos norte-americanos, e que hoje lucram com isso são as
forças que elegem representantes e nomeiam autoridades em Washington. E assim,
enquanto a economia norte-americana naufraga, a economia chinesa prospera.
A
resposta de Washington a essa situação? Militarizar o Pacífico. A secretária de
Estado Hillary Clinton “área de interesse nacional dos EUA”, o Mar do Sul da
China.
Os
EUA estão chantageando o governo das Filipinas, usando lá a “carta chinesa” (a
ameaça viria da China) e trabalhando para conseguir que a Marinha dos EUA seja
convidada a voltar para a base naval que ocupou, há tempos, na Baía Subic.
Recentemente, houve manobras conjuntas entre exércitos e marinhas dos EUA e das
Filipinas: treinamento para enfrentar “a ameaça chinesa”.
A
Marinha dos EUA está deslocando navios para o Pacífico e construindo nova base
naval numa ilha da Coreia do Sul. Os Marines dos EUA já estão baseados na
Austrália e estão sendo realocados, do Japão, para outros países asiáticos. Os
chineses nada têm de idiotas. Sabem perfeitamente que Washington está tentando
encurralar a China.
Para
um país incapaz de ocupar o Iraque depois de oito anos de guerra; e incapaz de
ocupar o Afeganistão depois de 11 anos de guerra... imaginar-se capaz de tomar e
ocupar simultaneamente duas potências nucleares é, simplesmente, ato de
insanidade.
A
húbris, a arrogância enlouquecida, alimentada diariamente em Washington por
doidos neoconservadores que ainda não viram, até hoje, o extraordinário fracasso
dos EUA no Iraque e no Afeganistão, meteram-se, agora, a provocar duas potências
gigantes – Rússia e China. A história do mundo, em todos os tempos, jamais,
antes, assistiu a tamanha imbecilidade.
Psicopatas,
sociopatas, doidos varridos e idiotas “normais” que mandam em Washington estão
arrastando os EUA e o mundo, para vastíssima desgraça. Os governos que se
sucedem em Washington – tanto faz que sejam governos Democratas ou Republicanos
– e independente de quem venha a ser o próximo presidente dos EUA são, hoje, a
mais grave ameaça à vida nesse planeta, que jamais houve, em todos os tempos.
Como se não bastasse, os criminosos de Washington contam com a cumplicidade
incondicional da empresa-imprensa.
Em próxima coluna,
examinarei a chance que talvez ainda haja de os criminosos de guerra que
comandam Washington e sua empresa-imprensa de repetição conseguirem levar a
termo o total colapso da economia dos EUA, antes de que os mesmos criminosos de
guerra consigam por fogo no mundo.
JULIAN
ASSANGE: Durante
os dois últimos anos, surgiram novas formas de revolução. Falo hoje com dois
gigantes da esquerda intelectual: Noam Chomsky, linguista muito conhecido e
pensador rebelde, e com Tariq Ali, cronista de revoltas de rua e especialista
em história
militar. Quero saber o que pensam esses incansáveis ativistas.
Em que direção caminha o mundo? Em que direção deveria caminhar?
Noam,
Tariq, o período 2011-2012 foi momento histórico de imensa envergadura para os
movimentos de independência em muitas partes do mundo. Vocês pressentiram que o
momento se aproximava?
TARIK
ALI: Não,
não, não pressenti nada. Acho que ninguém pressentiu. O mais interessante é que
as revoluções árabes brotaram numa parte do mundo onde os analistas diziam que
lá “as pessoas não se interessam pela democracia, que os muçulmanos são
geneticamente hostis à democracia”...
JULIAN
ASSANGE: É.
TARIK
ALI: ... e
lá surgiram os levantes, que logo se alastraram, porque foi a ocupação da Praça
Tahrir no Cairo que inspirou ativistas nos EUA, até na Rússia. Quem esperaria
que haveria movimentos populares também na Rússia, desafiando a autoridade do
estado? A ‘primavera árabe’ foi muito contagiosa e continua a contagiar, de
diferentes formas.
JULIAN
ASSANGE: Noam
Chomsky?
NOAM
CHOMSKY: Não,
não posso dizer que pressenti ou previ alguma coisa. Sempre assumi que, mais
cedo ou mais tarde haveria reação popular, contra a violenta guerra de classes
que a última geração moveu contra todos os pobres, e guerra de classes muito
consciente: a classe empresária, que sempre foi consciente dos próprios
interesses e que, de fato, teve êxito na promoção dos seus interesses. Nos EUA,
por exemplo, todos sabemos, a geração anterior criou riqueza, mas riqueza que
não se distribuiu pela sociedade e foi só para o bolso de uns poucos. Hoje, a
desigualdade nos EUA é um abismo, 1/10 da população, principalmente gerentes de
fundos de investimentos, diretores executivos de grandes empresas... Estou
falando dos EUA, mas os fenômenos são mundiais. O Egito talvez seja um dos
locais mais impressionantes.
O
movimento que levou às manifestações da Praça Tahrir há um ano chamou-se
“Movimento 6 de Abril”, porque dia 6/4/2008 houve muitas manifestações de
trabalhadores nas principais fábricas egípcias, manifestações de apoio aos
sindicatos, etc. Um pequeno grupo de profissionais de tecnologia queria
participar... e participaram, de onde estavam,, usando os veículos de
comunicação social. O movimento de 2008 foi sufocado pela ditadura, mas esse
grupo de profissionais conservou até hoje o nome “Movimento 6 de Abril”. É sinal
claro de o quanto as manifestações de massa que vimos são profundas. Sim, havia
gente preparada, muita gente trabalhou para que acontecesse o que aconteceu,
muita gente. Para muitos era só uma tentativa de começar a fazer alguma coisa.
Quero dizer: mesmo que nós aqui não tenhamos previsto, houve, sim, muita
preparação. Em Túnis aconteceu o mesmo. Você me pergunta se previ o que viria,
não, eu não previ, mas está acontecendo em todo o mundo, com previsões ou não,
de um modo ou de outro.
JULIAN
ASSANGE: Tariq?
TARIK
ALI: Acho
que Noam tem razão. Acho que, de fato, o que estamos vendo acontecer, além da
economia neoliberal, é uma espécie de contração da política. Tenho dito, já há
algum tempo, que o que estamos vendo na política ocidental não é nem a extrema
esquerda nem a extrema direita, mas uma política de ‘extremo centro’, no sentido
de serem políticas de centro radical. E essas políticas de extremo-centro
abarcam o centro-direita e o centro-esquerda e coincidem nos fundamentos:
provocar guerras por todo o mundo; ocupar países; punir os mais pobres com as
medidas de ‘austeridade’. Não importa que partido esteja no poder, nos EUA, no
ocidente... tudo se repete quase exatamente como antes. Um regime sucede o
outro, um regime depois do outro, uma continuidade que afeta o funcionamento dos
meios de comunicação, que foram ficando cada vez mais rasos, mais estreitos,
diversificação nenhuma, ninguém discute, todos concordam, os principais meios de
comunicação não oferecem debates reais. Essa política de ‘centro radical’ leva
diretamente à ditadura do capital. Os países árabes tiveram ditadores apoiados
pelo ocidente durante muito tempo. Agora, a velocidade e a magnitude das
revoltas populares pegaram todos eles de surpresa. Acho que nenhum de nós
poderia ter previsto o que viria.
JULIAN
ASSANGE: Creem
que a falta de previsibilidade, de fato, influiu para o êxito dessas
revoltas?
TARIK
ALI: Sem
sem dúvida.
JULIAN
ASSANGE: Se
tivessem sido previstas, teriam sido impostos alguns mecanismos, para impedir
que acontecessem?
TARIK
ALI: Sim, e
teriam sido mecanismos radicais: teriam tentado deter as pessoas, massacrar,
torturar, prender, meter na cadeia os ativistas. Mas tudo muito rapidamente
escapou a qualquer controle, e os EUA, com os franceses, na Tunísia e no Egito,
por exemplo, não conseguiram controlar nada. Quero dizer que também foram
apanhados de surpresa. Para subverter o processo, só se reuniram depois de seis
meses de bombardeio, pela OTAN, contra a Líbia. Foi quando conseguiram
recuperar, pelo menos em parte, o controle, novamente, sobre o mundo árabe.
Mesmo assim, tudo continua extraordinariamente instável. E há gente que diz “Mas
nem houve tantas mudanças”. É verdade. Mas, mesmo assim, uma coisa, pelo menos,
mudou: as pessoas, as massas, deram-se conta de que, para fazer mudanças, é
preciso mobilizar-se, agir, ser ativos. Essa é a grande lição dessas revoltas.
JULIAN
ASSANGE: Gostaria
de considerar quantas opções existem, na realidade. É ilusão pensar em opções,
em novos regimes, se são obrigados a atuar segundo a situação que os rodeia,
algo que é uma limitação básica nas relações com outras nações? Se se pensa, por
exemplo, que Cuba está a 150 quilômetros de Miami, a
150
quilômetros de uma superpotência agressiva que difunde
propaganda em Cuba, introduziriam a censura? Introduziriam uma polícia nacional
como método para impedir que a independência de Cuba fosse anulada? Acho que
essas são as questões que as nações que estão em luta terão de enfrentar, não só
para derrotar seus governos, mas também para conseguir, depois, ser nações
independentes das potências ocidentais.
NOAM
CHOMSKY: Bem...
Cuba é caso muito específico. Quero dizer: até certo ponto, Cuba tem
características de outros pequenos países, mas é caso único. Há 50 anos os EUA
se dedicam a estrangular e derrotar Cuba. O conselheiro para assuntos
latino-americanos de Kennedy disse que “O problema está na ideia de que Castro
pode tomar os assuntos nas próprias mãos, o que pode fazer com que os outros
países, em circunstâncias semelhantes, tentem seguir o mesmo caminho. Se começar
a acontecer, rapidamente se arruinará todo o sistema norte-americano de
controle.” Por essas razões, que ainda persistem, os EUA começou por mover uma
massiva campanha de terror. Cuba é o país que mais sofreu ações terroristas em
todo o mundo, terror internacional. E, além do terrorismo, o estrangulamento
econômico, de um modo extraordinário.
JULIAN
ASSANGE: Se
você é um povo que quer ser independente, que quer ter um estado independente
(talvez, adiante, possamos falar de outras formas de independência), se se quer
ser estado independente que desafia a OTAN, ou se, se se está perto da China e
você desafia a China, ou a Rússia, no caso das ex-repúblicas soviéticas... Essas
ações sempre custam caro. Para Cuba, provavelmente, o preço seja uma situação de
estado de guerra...
NOAM
CHOMSKY: Se se
olha o mundo em volta, veem-se problemas semelhantes, mas nunca tão graves como
os que Cuba enfrenta. Veja, mais para o sul, a América do Sul. Um dos
desenvolvimentos mais espetaculares e mais importantes do século 20 foi que,
pela primeira vez, desde que os conquistadores europeus chegaram, pela primeira
vez em 500 anos, a América do Sul, afinal, deu passos importantes na direção da
independência, na direção da integração continental. Não resta nenhuma base
militar dos EUA na América do Sul, o que, por si só, já é fenômeno que diz
muito.
JULIAN
ASSANGE: E
você, Tarik, o que pensa?
TARIK
ALI: Acho
também que, nas últimas décadas, as mudanças mais importantes que o mundo viu
aconteceram na América do Sul. Estive na Venezuela, Bolívia, no Brasil... O
ambiente ali é absolutamente diferente. Muita gente diz “Pela primeira vez, nos
sentimos verdadeiramente independentes”. Sejam quais sejam as fragilidades
desses governos (e alguns têm, sim, fragilidades), são estados soberanos e atuam
como tais. Quando Chávez, por exemplo, fala aos EUA, é direto e claro. Uma vez,
Chávez me disse: “Fiz um discurso na ONU e, depois, representantes de vários
países, que não podem dizer isso em público, aproximaram-se para me dar
parabéns. Disseram ‘Obrigado, o senhor falou por todos nós’”. E Chávez
continuou: “Disse a eles que eles podiam dizer o que quisessem! Que podiam falar
também. Que ninguém poderia impedi-los de falar”... Mas sabe como é...
JULIAN
ASSANGE: É
evidente que pensam que não podem falar.
TARIK
ALI: Pensam
que não podem. Mas hoje, o padrão de Chávez começa a ser o padrão para quase
toda a América Latina, com exceção da Colômbia, do México, em parte, do Chile.
Nos outros lugares, as pessoas sentem-se independentes, pela primeira vez. Acho
que esse será um enorme problema para os EUA. Os norte-americanos estão
obcecados com o mundo árabe e com a China, agora, também com o Irã. Mas os EUA
já não estão conseguindo controlar a América do Sul, já faz uma década, um pouco
mais.
NOAM
CHOMSKY: Isso
preocupa imensamente os EUA. Até o Conselho de Segurança, entidade máxima de
planejamento, já alertou: “Se não conseguirmos controlar a América do Sul, como
vamos conseguir impor ordem, com êxito, sobre o resto do mundo?” declaração que
implica que continuam a querer governar o mundo inteiro. “Se não conseguimos
controlar nem o quintal de casa, como controlaremos o mundo”. Mas há questão
mais profunda que essa. No caso do Oriente Médio, uma das grandes preocupações
dos EUA e das outras tradicionais potências imperiais, particularmente Grã
Bretanha e França, o que mais os preocupa agora é que o Oriente Médio também
está escapando do controle dos EUA. É muito sério. É muito mais sério do que
perderem a América do Sul.
TARIK
ALI: Concordo
plenamente. Por isso invadiram a Líbia, Noam, não tenho dúvida alguma. Invadiram
a Líbia, tentando restabelecer o controle.
NOAM
CHOMSKY: Concordo,
mas acho que tudo isso é passado. Se se olha, por exemplo, o que aconteceu na
‘primavera árabe’: os países chave para as potências imperiais, os que produzem
petróleo, estão sob governos duríssimos. Na Arábia Saudita, no Kuwait, nos
Emirados Árabes, que são regiões importantes pela produção de petróleo, não
eclodiu nenhuma revolta semelhante. A intimidação, pelas forças de segurança
apoiadas pelo ocidente, foi e é terrível. As pessoas realmente têm medo de sair
às ruas em Riad. O ocidente, em grande parte a França na Tunísia, e a
Grã-Bretanha no Egito, seguem o padrão tradicional. Há um plano de jogo, um
manual, já pronto, para o caso de alguns ditadores favoritos perderem a
capacidade de governar. O que se faz é apoiá-los até o último minuto. Quando se
torna impossível apoiá-los (quando, por exemplo, o exército também se volta
contra o ditador), então conseguem que os intelectuais ponham-se a fazer solenes
declarações sobre a democracia, e começam a tentar repor no governo o sistema
antigo, se lhes parecer que ainda seja possível. Foi o que os EUA fizeram com
Somoza, Marcos, Duvalier, Mobutu, Suharto. Quero dizer: é rotina. Ninguém
precisa ser gênio para ver o que os EUA fazem.
TARIK
ALI: Mas,
Julian, acho que o verdadeiro problema é que a própria democracia enfrenta hoje
problemas muito sérios – por causa das grandes empresas. A prova é que já há
dois países europeus, Grécia e Itália, onde os políticos já entregaram os
pontos. Nesses países, os políticos já abdicaram, já disseram: “os banqueiros
que governem...”
JULIAN
ASSANGE:
É.
TARIK
ALI: O que
quero dizer é... E onde isso tudo vai parar? O que estamos vendo é que a
democracia, cada dia mais, está ficando vazia de conteúdo. É uma carcaça vazia.
E isso é o que enfurece os mais jovens, que dizem “Não importa o que nós
façamos, não importa quem elejamos, não importa em quem votemos... Nada
muda nem mudará”. Daí estão nascendo todos os protestos de rua que se veem, em
todo o mundo.
JULIAN
ASSANGE: Você
acha que esse problema está nos meios de comunicação? É problema estrutural?
Pode-se dizer que os veículos têm hoje mais poder que os governos, e podem
controlar tudo? Pode-se dizer que é resultado de haver telecomunicações mais
sofisticadas? Quero saber: o que está movendo aqueles
jovens?
TARIK
ALI: São
movidos... por uma democracia que se petrificou. Mas os meios de comunicação
chegaram a ser um pilar, o pilar central, hoje, do sistema. Mais hoje do que
foram durante a Guerra Fria. Naquele momento, os EUA queriam mostrar aos russos
e chineses que “nosso sistema é melhor que o de
vocês”...
JULIAN
ASSANGE:
É.
TARIK
ALI: ...
Agora, acham que já não precisam mostrar coisa alguma, que não haveria o que
provar. Então... fazem o que querem.
JULIAN
ASSANGE: Usaram
a liberdade de expressão como porrete para bater na União Soviética. Agora, já
não é necessário. Acho que... mantiveram esse tipo de aliança entre liberais e
militares e a elite ocidental, todos unidos por interesses comuns, para
comprovar a supremacia do Ocidente sobre a URSS. Agora, se rompeu esse tipo de
aliança muito antinatural.
TARIK
ALI: (a)
Rompeu-se; e (b) no mundo ocidental, eles já controlam de tal modo e a tal
ponto, que podem até assassinar, sem ser punidos. Quero dizer: Obama assinou uma
lei, segundo a qual o presidente dos EUA tem pleno direito de ordenar o
assassinato de um cidadão norte-americano, sem precisar prestar contas e sem
agredir a lei. Sem acusação, nem processo, nada! Obama pode fazer hoje o que
nenhum presidente dos EUA jamais foi autorizado a fazer, em toda a
história...
JULIAN
ASSANGE:
É.
TARIK
ALI: ...
Nem na Guerra Civil. O grupo que planejou o assassinato de Lincoln – os
conspiradores foram julgados por tribunal, houve processo, acusação, defesa, por
mais culpados que se soubesse que eram. Não é admissível que alguém tenha
‘direito’ de ordenar um assassinato. Esse é um ataque às liberdades civis
extremamente preocupante. E afeta realmente a
democracia.
JULIAN
ASSANGE: Se
consideramos o modo como a América Latina adotou a tecnologia, foi mais ou menos
como nos EUA em 1970. Os movimentos sociais que estão acontecendo na América
Latina são resultado de interações tecnológicas? É impossível para um país mais
industrializado adotar o modelo de um país menos industrializado. Será que...
Seria preciso descartar a industrialização? Seria preciso [prescindir da
industrialização] para fazer [o que os países menos industrializados] estão
fazendo?
TARIK
ALI: Não
acho. A maioria dos estados ocidentais se desindustrializaram (felizmente) e
converteram a China em potência econômica que domina o mundo, como os britânicos
dominaram no século 19.
A China é a fábrica do
mundo...
JULIAN
ASSANGE:
É.
TARIK
ALI:
Enquanto a mão de obra vai diminuindo no ocidente, vai triplicando [na China].
Passou de um bilhão nos anos 70s e 80s, para mais de três bilhões hoje, por
causa do que está acontecendo na China, na Índia, em partes da América do Sul.
Acho é que as chamadas “potências avançadas” têm muito que aprender das boas
coisas que estão acontecendo na América do Sul, por que
não?
JULIAN
ASSANGE: Noam,
existe um modelo? Um modelo que funcione?
NOAM
CHOMSKY: Acho
que... Concordo com Tarik – há, mesmo, muitos modelos –, mas... Não acho que as
forças populares preocupadas com mudar suas sociedades devam procurar modelos.
Acho que devem criar modelos. E é justamente o que está acontecendo. Então, na
América do Sul, onde houve muito progresso, estão desenvolvendo modelos a serem
adotados, por exemplo, na Bolívia. Uma das coisas mais impressionantes que
aconteceu ali foi que a parte mais oprimida da população em todo o hemisfério, a
população indígena, chegou ao campo político. De fato, o que aconteceu é que
tomaram o poder político e agora trabalham para promover seus próprios
interesses. Está acontecendo também no Equador e também, até certo ponto, no
Peru. Estão desenvolvendo modelos novos e significativos. Há vários aspectos
desses modelos, que o ocidente bem faria se tratasse de adotá-los rapidamente,
em vez de só pensar em derrubar governos e tentar acabar com seus
projetos.
JULIAN
ASSANGE: Sempre
se disse que “capitalismo e democracia caminham juntos”. A China parece ser
exemplo perfeito de que... De fato, parece ser mais eficiente como estado
capitalista que como estado democrático.
TARIK
ALI: Ora...
Eu nunca acreditei que capitalismo e democracia andassem juntos. Os chineses,
hoje o país capitalista mais bem-sucedido do mundo, não parecem ser democracia
exemplar a ser copiada, no modo de funcionar. Mas também historicamente, por
séculos, o capitalismo funcionou perfeitamente sem democracia alguma, até o
começo do século 20. As mulheres só passaram a ter direito de votar, depois da I
Guerra Mundial; e o capitalismo operou perfeitamente, mesmo sem democracia
alguma. Há muitos casos de casamento feliz entre democracia-zero e capitalismo
em perfeito funcionamento.
A
fantasia de que capitalismo e democracia sempre andariam juntos é invenção da
propaganda da Guerra Fria, para desqualificar os russos, os europeus do leste e
os chineses. É ideia de propaganda, sem qualquer fundamento em fatos
históricos.
JULIAN
ASSANGE:
Noam?
NOAM
CHOMSKY: Acho que, em primeiro lugar, não vivemos em sociedades propriamente
capitalistas. Só conhecemos uma ou outra variedade de capitalismo de Estado –
onde o Estado é o principal capitalista. Por exemplo... Nos EUA a influência do
Estado no capitalismo é gigantesca. Nós três, agora, estamos reunidos nessa
teleconferência, graças a uma revolução tecnológica, Internet, computadores,
satélites, microeletrônica etc. A maior parte de tudo isso foi desenvolvido
em agências
estatais. Nos anos 50s e 60s, nesse prédio onde estou agora, no
Instituto Tecnológico de Massachusetts, o MIT, estavam em desenvolvimento
praticamente todos ou quase todos os projetos que levaram aos objetos
tecnológicos que conhecemos hoje – quase todos, ou muitos deles, desenvolvidos
com financiamentos do Pentágono. Houve financiamento para praticamente tudo,
invenção, criação, produção, compra, ao longo de décadas. Tudo que, depois,
chegou ao setor privado para ser comercializado e gerar lucro dependeu, antes,
do setor estatal. E antes disso...
JULIAN
ASSANGE: Na
década dos 30s, segundo literatura da época, os soviéticos também diziam que o
sistema deles era mais eficiente; e que, como era o mais eficiente também na
indústria, seria fatalmente dominante. E os nazistas, idem, diziam exatamente a
mesma coisa do sistema de produção nazista, que quem investisse mais
massivamente em tecnologia e produzisse indústria mais eficiente dominaria todas
as forças em volta. Talvez, algum dia, cheguemos todos a entender o que todos
tentaram; e consigamos ser condescendentes uns com os outros. Talvez se chegue à
simples decência humana.
Por
hora, o que se sabe é que, independente do ideal do sistema a que aspiremos, se
um sistema novo não é comparativamente mais eficiente que o velho, o sistema
velho, o mais eficiente, sim, dominará o menos eficiente e, imediatamente depois
o incorporará, como mais um obstáculo ideológico a ser superado por quem prefira
outro tipo de sistema.
TARIK
ALI: É,
acontece exatamente assim, mas só se o sistema mais eficiente for mais eficiente
também militarmente. Hoje, por exemplo, os EUA são sistema econômico
fraquíssimo, em frangalhos. EUA está naufragado na própria dívida interna, vive
crise estrutural profunda, como Noam já explicou tantas vezes. Mas é país
militarmente muito poderoso e usa a própria força militar para dominar outras
regiões do planeta... Algumas delas talvez estejam em melhor situação econômica
que os EUA... mas não têm a mesma força militar. Esse é o problema do mundo,
hoje.
JULIAN
ASSANGE: O
conflito entre o desejo de fazer algo por razões ideológicas e a realidade
prática é consequência de que o totalitarismo capitalista talvez seja o sistema
mais eficiente. E que portanto dominará.
NOAM
CHOMSKY: Não. O
sistema capitalista, totalitário ou não totalitário, não é sistema eficiente.
Veja a China. Teve crescimento espetacular mas... A China cresceu como linha de
montagem. De fato, a China ainda é, sobretudo, a linha de montagem dos países
industrialmente avançados que a cercam: Japão, Taiwan, Coreia do Sul. Mas veja,
por exemplo, a Foxconn, essa enorme e horrível fábrica na China, cujas condições
de trabalho são grotescas. A fábrica pertence a Taiwan, produz computadores
Apple, iPods, computadores Dell, etc. O que aconteceu nos últimos anos é que a
China serviu como linha de montagem para os países industriais avançados de sua
periferia e para as multinacionais ocidentais. Claro que, mais cedo ou mais
tarde, a China começará a subir os degraus do progresso tecnológico. De fato, já
está acontecendo. A China já começou a inovar com células de energia solar e,
nisso, já está à frente de outros países. E o mesmo acontecerá em outros campos.
Mas é progresso longo e lento.
JULIAN
ASSANGE: Tariq,
você e Noam têm longo passado como ativistas. Quando se vê a atual geração de
ativistas no Ocidente, que começa a radicalizar nas posições políticas, acho que
é uma juventude ‘radicalizada pela Internet’. Acho que essa é a melhor maneira
de descrevê-los. O que você gostaria de dizer a eles? Que experiência vocês
acumularam nessas muitas batalhas ao longo de décadas, e podem transmitir a
eles? Porque acho que num certo momento, talvez nos anos 80s ou 90s, a tradição
de dissidência no ocidente sofreu uma interrupção.
Tariq?
TARIK
ALI: Cuido
de não dar conselhos aos mais jovens, porque as gerações são muito diferentes
umas das outras; e dado que o mundo também mudou muito, o único conselho
universal que posso dar é que não se rendam. Estão passando por tempos difíceis
e sabem, ou pelo menos sentem, que está tudo perdido. Com isso, muitos se tornam
passivos. E a passividade muitas vezes leva ao desespero. Acho extremadamente
importante para os jovens que estão crescendo hoje, que se deem conta de que têm
de manter-se ativos: nada lhes será dado de bandeja. É minha única lição, frente
aos novos radicais. Não se rendam. Tenham fé. Não acreditem no que ouçam. Sejam
críticos do sistema que nos domina. Mais cedo ou mais tarde, se não for para
essa geração, para a próxima, as coisas mudarão.
JULIAN
ASSANGE: Noam?
NOAM
CHOMSKY: Muitas
coisas já mudaram ao longo desses anos. Muitas vezes, para melhor, e mudaram
porque muita gente empenhada, dedicada, comprometeu-se com o que faz. A história
não acabou. Há caminhos à frente e se pode fazer alguma coisa. E, sim, há
problemas muito, muito sérios. Se tudo continuar pelo caminho que se vê hoje, o
mais provável é que enfrentemos a destruição de qualquer possibilidade de
sobrevivência digna, simplesmente porque o mundo consome combustível fóssil.
Claro que é assunto sério. Parece... aqueles lêmures que, [quando falta comida],
se atiram no precipício.