quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O nacionalismo ucraniano – natureza e raízes

24/2/2014, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
Outra vez, por falta de tempo e espaço, não entrarei na história da Organização dos Ucranianos Nacionalistas [orig. Organization of Ukrainian Nationalists, OUN] de Stepan Bandera ou da Divisão SS Galizien “Ucraniana” – vocês podem ler sobre isso na Internet.

Direi apenas que essas forças estiveram entre as mais mortíferas e cruéis de todas, na IIª Guerra Mundial. De fato, as piores atrocidades da IIª Guerra Mundial, não foram cometidas pelas forças de Hitler, nem pela SS, mas por forças integralmente inspiradas e apoiadas pelo Vaticano: a Croatian Ustashe de Ante Pavelic e os nacionalistas ucranianos.

Afinal, a Ustashe e os Banderovsty foram derrotados, mas muitos de seus membros não apenas sobreviveram à guerra como também prosperaram no exílio, a maioria nos EUA e Canadá, onde a Anglosfera os manteve longe da política real, mas suficientemente ativos para serem “descongelados” no caso de haver necessidade deles.

Não há dúvida possível de que, depois do final da Guerra Fria, o Império Anglo-sionista viu uma oportunidade para subverter e enfraquecer seus inimigos: os descendentes dos Ustashe foram encarregados de destruir a Iugoslávia; e os descendentes de Bandera foram encarregados de destruir a Ucrânia, pondo os restos o mais longe possível da Rússia. Ao mesmo tempo, nos dois locais, na Iugoslávia e na Rússia, os anglo-sionistas dirigiram outra de suas franquias terroristas – o wahabismo internacional, também chamado “al-Qaeda”, para unir-se aos neonazistas e papistas, numa luta comum contra a Iugoslávia e a Rússia ortodoxa/socialista. Depois disso, todos sabemos o que aconteceu na Iugoslávia.

Parte III: Ucrânia, de volta para o futuro

2014 – O ventre do qual nasceu a besta continua fértil

Agora, quero falar um pouco sobre a (agora ex-) “oposição” ucraniana. Durante os últimos meses, fomos informados de que estaria representada por três homens: Vitalii Klichko e seu movimento UDAR; Arsenii Iatseniuyk e seu Partido Batkivshchyna; e Oleh Tiagnibok, conhecido líder do Partido Liberdade. Claro que o verdadeiro líder do Partido Batkivshchyna sempre foi Yulia Timoshenko; mas dado que estava na cadeia, para onde foi mandada por Yanukovich, ela não podia participar diretamente dos mais recentes eventos.

A maioria dos observadores ocidentais descuidaram de perguntar se qualquer dessas figuras políticas realmente poderia controlar os “manifestantes” da Praça Maidan. Tampouco cuidaram de verificar como uma multidão armada só de pedras, tacos de beisebol, barras de ferro e coquetéis molotov foi “repentinamente” substituída por uma força bem organizada e bem armada que só se pode chamar de insurgentes. A força que realmente reunia mais poder de fogo, não era constituída de membros do UDAR, nem do partido Batkivshchyna, nem sequer do partido Liberdade. Os reais senhores da Praça Maidan e agora já de toda a capital Kiev é o chamado “Setor Direita” (Pravy Sektor), organização terrorista chefiada por Dmytro Yarosh

Dmytro Yarosh fala às suas tropas
Se a foto acima parece ter sido feita na Chechênia durante a guerra, é porque bem pode ter sido feita lá mesmo: muitos nacionalistas ucranianos combateram ao lado dos wahabistas na Chechênia, não raro sob a bandeira da organização terrorista UNA-UNSO. Também combateram na Geórgia contra a Rússia, daí as duas visitas de Saakashvili à Praça Maidan.

Seria lógico perguntar qual porcentagem do povo ucraniano apoia Yarosh e seu Setor Direita. É difícil dizer, mas não passa de minoria considerável, mas pequena. Segundo muitas estimativas, os líderes mais populares do novo governo são Timoshenko e Klitschko, seguidos por Tiagnibok – ou pelo menos eram, antes do golpe armado de domingo passado. Mas é detalhe pouco importante: a maioria dos chechenos nunca foi wahabista; a maioria dos croatas nunca foi Ustashe; e a maioria dos albaneses do Kosovo não era pró Exército de Libertação do Kosovo [ing. KLA]. E nada disso impediu que esses grupos minoritários, mas bem armados, obtivessem controle decisivo dos eventos.

Isso põe o novo governo da Ucrânia em posição muito difícil: ou aceita a agenda de gente como Yarosh e seu Setor Direita, ou arrisca-se a ser varrido por insurreição armada. Não esqueçamos que as forças militares da Ucrânia só existem no papel, e que as forças policiais não estão em condições de impor sua autoridade aos terroristas.

Selo emitido pelo Governo Yushchenko com o retrato de Stepan Bandera
Pior que isso: a presidência de Yushchenko demonstrou que os chamados nacionalistas “moderados” constantemente unem-se aos terroristas. Yushchenko chegou a fazer de Bandera “herói da Ucrânia” (decisão depois rescindida) e imprimiu selos com o retrato dele. O problema é que esse tipo de ação aparentemente inócua é, na realidade, a reabilitação de uma ideologia de genocídio; e envia mensagem aterrorizante e revoltante aos ucranianos do leste e aos russos que vivem na Ucrânia: estamos de volta e não viemos para brincar.

O detalhe tem passado despercebido, mais houve situação semelhante na Croácia, no momento em que a Iugoslávia partiu-se: os croatas, mesmo os chamados “moderados” não acharam nada mais inteligente a fazer que reintroduzir imediatamente a conspurcada bandeira dos Ustashe de Pavelic, como “símbolo nacional da Croácia”. Pode-se discutir até que ponto isso estimulou os sérvios de Krajinas a pegar em armas, mas com certeza contribuiu.

O mesmo está acontecendo agora na Ucrânia. Ao lado das bandeiras amarelo-azuis do oeste da Ucrânia, já se veem muitas bandeiras preto-vermelhas, a bandeira do Banderovsty, ao lado de todos os tipos e variantes de símbolos neonazistas. Outra vez, não importa, de fato, como muitos ucranianos estejam manifestando tendências genocidas; o que importa é como essas bandeiras genocidas são vistas no leste da Ucrânia ou pelos 7 milhões de russos que vivem na Ucrânia.

A reação ao golpe em Kiev foi imediata. Este foto mostra um comício na cidade de Sebastopol:

Manifestação pró-Russia (ver bandeiras) em Sebastopol em 23-2-2014
Estão vendo as bandeiras? Antes do golpe, comícios no leste mostravam quase exclusivamente a bandeira amarelo-azul da Ucrânia. Agora, as bandeiras são quase todas russas, com algumas bandeiras, também, da Marinha da Rússia: o povo está ou furioso ou assustado. Provavelmente as duas coisas. E o potencial de violência, assim, aumenta rapidamente.

Observem esse vídeo de uma tentativa de ativistas pró-governo organizarem uma manifestação na cidade de Kerch e vejam, vocês mesmos, como a situação sai rapidamente de controle. A multidão enfurecida começa a gritar “Fora!” e “Fascistas!”, mas os policiais perdem logo o controle da situação, e uma multidão ataca os ativistas nacionalistas. É olhar e ver o vídeo:


Exatamente como aconteceu na Croácia e na Bósnia, políticos da União Europeia e dos EUA ignoraram (por estupidez ou deliberadamente) que o medo gera violência a qual gera mais medo, depois mais violência, num ciclo de realimentação positiva praticamente impossível de deter.

Assim sendo, vamos, daqui, para onde?

Bem francamente, tinha alguma esperança de que Yulia Timoshenko conseguiria salvar a Ucrânia. Não porque goste dela, mas porque reconheço a força da personalidade dela, sobretudo se comparada aos políticos ucranianos terminalmente imbecis (Tiagnibok, Klichko) ou sem espinha dorsal (Iatseniuk, Yanukovich). Como disse ontem um jornalista russo: é bom ver aparecer, afinal, “um homem de verdade” no cenário político da Ucrânia. E, apesar dos seus muitos erros, Yulia tem, pelo menos, três coisas a seu favor: é muito inteligente; é mulher de vontade forte e é muito popular. Ou, pelo menos, era, antes de Yanukovich metê-la na cadeia.

Mas quando a vi, pela televisão, falando na Praça Maidan, numa cadeira de rodas, o rosto inchado, soando histérica e completamente indiferente ao fato de que estava cercada por neonazistas, comecei a ter minhas dúvidas. É claro que ela passou tempos muito difíceis nos calabouços de Yanukovich. E aos que digam que ela sempre foi tão completamente corrupta quanto os demais oligarcas, eu responderia o seguinte: enquanto os demais oligarcas veem o poder como meio para fazer dinheiro, Timoshenko vê o dinheiro como meio para chegar ao poder. Aí há enorme diferença.

Assim sendo, e diferente de Tiagnibok ou Yarosh, Timoshenko não tem ares de genocida, nem jamais se interessou pelo papel de “um Bandera moderno”. E, também diferente dos neonazistas típicos, Yulia é nominalmente ortodoxa, não “católica grega” (quer dizer, latina). Não que eu suponha que alguém aí seja muito religioso, não. Mas Timoshenko pelo menos não foi criada no ódio maníaco contra tudo que seja russo, no qual os “católicos gregos” são tipicamente criados.

Por fim, Timoshenko, com certeza absoluta, é suficientemente esperta para compreender que não há meio para manter a Ucrânia como estado unitário, se os neonazistas forem o poder de facto, seja diretamente ou através de fantoches “moderados”.

Yulia Timoshenko em cadeira de rodas  fala aos ocupantes da Praça Maidan 22/2/2014
Fui provavelmente ingênuo, mas tive esperanças de que Yulia pudesse manter a Ucrânia unida. Não, não, não porque eu seja defensor da “Ucrânia Independente”, mas porque entendo que qualquer solução será preferível à divisão da Ucrânia que, inevitavelmente se tornará violenta.

Por que a violência é aí inevitável?

Paradoxalmente, a principal causa, aqui, não são os seguidores de Bandera. Alguns deles, até, já falaram a favor de uma separação do oeste da Ucrânia, do resto do país. Tanto quanto sei, são minoria, mas mesmo assim é interessante que pelo menos alguns deles estejam percebendo que a ideia de converter toda a Ucrânia numa Galícia é simplesmente ridícula. Muitos nacionalistas, contudo, opõem-se furiosamente a qualquer divisão, por duas razões. Prestígio: sabem que a Ucrânia “deles” é, de fato, muito menor que a Ucrânia herdada da era soviética. E dinheiro: eles sabem que toda a real riqueza da Ucrânia está no leste. E também, por último mas não menos importante, os verdadeiros patrões dos fantoches nacionalistas ucranianos (os EUA) querem privar a Rússia de toda a riqueza do leste da Ucrânia, e da costa ucraniana do Mar Negro. Assim sendo, se há alguém à espera que os nacionalistas cedam graciosamente o divórcio civil entre oeste e sudeste do país, desista. É delírio. Não acontecerá, não, pelo menos, por referendo ou qualquer outra modalidade de consulta ou conversações.

A história também ensina que é impossível obrigar dois grupos a conviver, quando se odeiam e se temem reciprocamente. É impossível, pelo menos, sem MUITA violência.

Viktor Yanukovich
A situação no leste é tão simples quanto desoladora: Yanukovich está politicamente morto. O Partido das Regiões praticamente explodiu e novos políticos estão surgindo em Carcóvia, em Sebastopol e em outras cidades. Estão-se organizando grandes forças de autodefesa local, e a população está basicamente pronta para a luta. Dadas as atuais circunstâncias, são desenvolvimentos positivos. Pelo lado negativo, há o fato de que os oligarcas do leste ainda estão ali, prontos para trair o próprio povo por mais lucros (como as elites ucranianas fizeram durante a União de Brest); e de que as forças políticas locais estão, segundo a maioria dos relatos, sendo organizadas de modo amadorístico. Por fim, ainda há muita incerteza sobre o que a Rússia realmente quer.

E a Rússia, em tudo isso?

Entendo que a Rússia realmente quer evitar uma guerra civil na Ucrânia e que prefere uma Ucrânia separada, a qualquer divisão. Por quê? Consideram o seguinte:

Para a Rússia, uma Ucrânia separada e independente é, em primeiro lugar e principalmente, um meio para evitar ser arrastada para uma guerra civil. Se, digamos, Timoshenko conseguir suprimir os neonazistas e negociar algum tipo de modus vivendi entre, por um lado, o oeste da Ucrânia e Kiev, e, por outro lado, o leste e o sul da Ucrânia, não há dúvidas de que ela e Putin podem encontrar algum meio pacífico e pragmático de coexistência. Oh, não estou falando de um mar de rosas, que não acontecerá, mas pode-se pensar, pelo menos, em relações mutuamente benéficas, civilizadas e pragmáticas. Essa quase certamente é a opção preferencial do Kremlin (e ajuda a demonstrar o quanto são estúpidos e paranoicos os nacionalistas ucranianos – e Susan Rice – quando se põem a alucinar sobre uma invasão russa na Ucrânia).

A outra opção é os nacionalistas tomarem pleno controle de toda a Ucrânia. É extremamente improvável, mas... sabe-se lá. Já me decepcionei tantas vezes com políticos ucranianos, que raciocino como se sempre fossem capazes de tudo, qualquer coisa, por pior que seja.

Isso implicaria converter a fronteira russo-ucraniana em alguma coisa como o Muro que separava as duas partes da Alemanha durante a Guerra Fria, ou a Zona Desmilitarizada entre as duas partes da Coreia. De um ponto de vista militar, não é problema. Já escrevi que, ainda que a OTAN desloque tropas para a Ucrânia, o que farão, a OTAN, ali tão perto do território russo, ficará automaticamente convertida em alvos lucrativos: a Rússia deslocará número suficiente de mísseis Iskander para dar conta da lista de alvos, e estaremos conversados.

Base naval russa em Sebastopol, Crimeia- Mar Negro
Quanto à Frota do Mar Negro, a Rússia pode simplesmente se recusar a sair e pagar para ver se a OTAN tem estômago para tentar expulsá-la; ou pode preferir a opção custosa, mas possível, de voltar a ancorar sua frota em Novorossiysk (não que seja boa opção; não é; mas é melhor que nada). Seja como for, repito, esse cenário é muito, muito improvável.

O que nos deixa com a opção três: os nacionalistas tentam subjugar o sul e o leste, e não conseguem. A violência escalará e, eventualmente, a Rússia acabará envolvida. Em termos puramente militares, a Rússia pode derrotar muito facilmente qualquer exército ucraniano que tente opor-se a ela. Quanto à OTAN e aos EUA, não têm meios para deslocar algum tipo de “força tarefa conjunta combinada” para repelir os militares russos que se instalem na Ucrânia. Assim, ante a iminência de iniciar uma guerra nuclear mutuamente destrutiva, eles terão de aceitar os fatos em campo. Mas imaginem o pesadelo que resultará de uma operação militar russa no leste da Ucrânia! Seria uma volta a uma nova Guerra Fria, mas, dessa vez, inchada com muitos esteroides: políticos ocidentais se engalfinharão entre eles, tentando todos ser o primeiro a denunciar, declarar, ameaçar, condenar, proclamar, sancionar e prometer só deus sabe que tipo de delírios e estupidezes.

A russofobia histérica se tornará ordem do dia, e o Império Anglo-sionista terá finalmente encontrado o tipo de eterno inimigo que procura tão desesperadamente desde o final da 1ª Guerra Fria.

Se a coisa ficar realmente feira, e provavelmente ficará, a China provavelmente também acabará envolvida. Assim teremos exatamente o tipo de planeta com que a plutocracia do 1% sonha há tantos anos: a Oceania presa numa guerra total contra Eurásia e Ásia do Leste, exatamente como Orwell previu em 1984. Vide mapa a seguir:

Clique na imagem para aumentar
Rússia – ou China – absolutamente não precisam de nada disso. Mas, sim, há risco real de guerra civil na Ucrânia. Opção “menos ruim” para evitar esse cenário é providenciar para que os ucranianos do leste e do sul sejam suficientemente fortes, eles mesmos, para repelir uma invasão nacionalista, de modo que os militares russos possam manter-se fora do conflito.

Por tudo isso, há uma difícil ponderação-julgamento a ser feita pelo Kremlin. O Kremlin tem de decidir se:

(a) o povo do leste e do sul da Ucrânia são gente desorganizada, desmoralizada, tornada passiva pela ação de oligarcas corruptos e, basicamente, gente incapaz de se autodefender;

ou se

(b) o povo do leste e do sul da Ucrânia são gente unida, organizada e decidida a fincar pé e dar combate aos neonazistas até o último tiro.

No primeiro caso, o Kremlin terá basicamente de proteger as fronteiras russas e preparar-se para gerir as grandes ondas de refugiados que inevitavelmente cruzarão a fronteira.

No segundo caso, o Kremlin garantirá forte incentivo para ajudar os ucranianos do leste e do sul por todos os meios possíveis, até o limite de intervenção militar direta.

As duas vias são perigosas e nenhuma delas é preferível a uma Ucrânia unida e governada por líder que seja, no mínimo, mais ou menos racional. Por isso eu, pelo menos no estágio inicial desse confronto, espero que a Rússia REALMENTE apoie qualquer governo que seja só 50% mentalmente são em Kiev, na esperança de evitar a divisão da Ucrânia.

E EUA e União Europeia, em tudo isso?

Escrevi recentemente que EUA e União Europeia têm objetivos muito diferentes na Ucrânia: a União Europeia quer mercado para seus bens e serviços; os EUA querem ferir a Rússia, o mais possível. Já vimos a total falta de capacidade e competência dos burocratas da União Europeia e suas ingênuas tentativas para encontrar uma solução negociada. O objetivo da política externa dos EUA tem a vantagem de ser simples além de clara: “foda-se a Rússia” e “foda-se a União Europeia”!


Do ponto de vista dos EUA, quanto pior a situação, melhor para o Tio Sam. No pior dos mundos, a Rússia sai ferida; no melhor dos mundos, o sacrifício da Ucrânia dá aos EUA um maravilhoso pretexto para “proteger” a Europa contra o “re-emergente urso russo”, ao mesmo tempo em que defende a civilização, a democracia e o progresso. O sonho molhado de qualquer neoliberal neoconservador...

É onde entra o “Fator E” (“E”, de Estupidez pura e simples). O que muitas vezes parece ser resultado de algum plano maquiavélico cozinhado num porão profundo da Casa Branca, da CIA ou do Pentágono é muitas vezes exemplo quase inacreditável da estupidez verdadeiramente fenomenal de nossos governantes. Eles se creem tão poderosos a ponto de estarem dispensados de compreender uma cultura, uma história, uma língua estrangeira.

Afinal, se alguma política dos EUA fracassar completamente aqui ou ali, a resposta pode ser sempre a mesma: que se fodam! Fodam-se os iugoslavos! Fodam-se os sérvios! Fodam-se os iraquianos! Fodam-se os afegãos! Fodam-se os paquistaneses! Fodam-se os líbios e os egípcios e os palestinos e fodam-se os coreanos, os colombianos e os venezuelanos e, claro, fodam-se os canadenses, os mexicanos, todos os africanos e, claro, fodam-se os russos, fodam-se os chineses e foda-se o mundo inteiro. Não importa o quanto estúpida e destrutiva seja uma política dos EUA contra alguém, ou a política funciona ou fodam-se eles por lá!  A frase da Sra. Nuland bem poderia ser impressa como lema oficial no logotipo do Departamento de Estado ou da CIA.

Minha conclusão? Pessimista, é claro :-)

Os que têm lido meu blog nos últimos tempos não se surpreenderão se eu disser que, mais uma vez, cheguei a conclusão muito pessimista: o futuro da Ucrânia me parece terrível: o país está arruinado, não tem economia, é socialmente, culturalmente e politicamente não viável, e o mais provável é que seja governado ou por imbecis ou por racistas maníacos – e a maior potência do planeta não poupará esforços para acrescentar gasolina à fogueira. Tenham em mente que nenhum político ucraniano, nem um, um, que fosse, tem qualquer coisa remotamente semelhante a um plano para ressuscitar a economia ucraniana que, hoje, jaz morta. A única e última chance que havia para a Ucrânia foi o “respirador financeiro russo” – mas já foi desligado, pelo menos para o futuro próximo: os ucranianos, se quiserem que façam sua Revolução Banderovita; mas os russos não pagarão por ela.

O inferno da Ucrânia está escondido atrás da bandeira...
Em novembro passado publiquei um postado intitulado: Ucrânia “colorida”: abrem-se as portas do inferno, no qual previ boa parte do que aconteceu desde então:

Assumo que os euroburocratas e os nacionalistas ucranianos podem, sim, prevalecer; e que o presidente Yanukovich ou ficará no “zag” e reverterá a decisão anterior, ou perderá poder. De um modo ou de outro, me parece, os nacionalistas ucranianos prevalecerão. Haverá festa e fogos de artifício em Kiev, tapinhas em mútuas costas arrogantes em Bruxelas, e, na sequência, abrir-se-ão as portas do inferno, para a Ucrânia.

Estamos agora nesse ponto: a Ucrânia já atravessou as portas do Inferno e mergulhou já num longo ciclo de tragédia e violência. É verdadeira e imensamente triste. E a culpa por tudo o que acontecerá cabe, em primeiro lugar, àquelas forças que temerariamente abriram a Caixa de Pandora de ódios medievais e do século 20, e que estimularam o demônio nacionalista a atacar novamente; a culpa cabe também aos que a tudo assistiram sem nada fazer: políticos e líderes dos EUA e da União Europeia, dentre os quais não apareceu um, que fosse, para dizer a verdade.

Que ardam no inferno pelo que fizeram à Ucrânia.

The Saker


O Espetáculo em Kiev − A Revolução Marrom na Ucrânia

24/2/2014, [*] Israel Shamir − Counterpunch
Traduzido por João Aroldo

Kiev "by night"- Opera House
Eu sou um grande fã de Kiev, uma cidade afável de caráter burguês agradável, com seus abundantes pequenos restaurantes, ruas arborizadas limpas e bonomia dos seus beer gardens. Cem anos atrás, Kiev era predominantemente um resort russo, e algumas áreas centrais mantiveram este sabor. Agora Kiev é patrulhada por bandidos armados da Ucrânia Ocidental, por combatentes do Setor Direita (Pravy Sektor) neonazista, descendentes de Stepan Bandera, soldados traidores ucranianos e por seus camaradas-em-armas locais de caráter nacionalista.

Membro da ABWEHR alemã Stepan Bandera (centro) com uniforme alemão, com a
patente de Tenente-Comandante, a ordem alemã da "Cruz de Mérito de 2ª classe com
espadas ". Essa ordem alemã era concedida àqueles que exibiam bravura pessoal, sem participar diretamente das hostilidades.
Após um mês de confronto, o presidente Viktor Yanukovitch cedeu, assinou a rendição preparada pela UE − e escapou da dura justiça revolucionária por um triz.

Os deputados do partido governista [Partido das Regiões] foram surrados e dispersos, os comunistas quase linchados, a oposição tem o parlamento só para eles, e nomeou novos ministros e tomou conta da Ucrânia. A Revolução Marrom ganhou na Ucrânia. Este grande país do leste europeu de cinquenta milhões de habitantes seguiu o caminho da Líbia.

Os EUA e a UE venceram nesta rodada, e empurraram a Rússia de volta para o leste, exatamente como eles pretendiam.

Resta saber se os bandidos neonazistas que venceram a batalha vão concordar em entregar os doces frutos da vitória para os políticos, que são, Deus sabe, desagradáveis o suficiente. E mais importante, resta saber se as parte leste e sudeste onde se fala russo vão aceitar o domínio Marrom de Kiev, ou vão se separar e seguir seu próprio caminho, como o povo de Israel (segundo a Bíblia) após morte do rei Salomão se rebelou contra o seu herdeiro, dizendo “para as suas tendas, ó Israel!” e proclamou a independência do seu feudo (I Reis 12:16).

Enquanto isso, parece que o desejo da parte leste de preservar a integridade do Estado ucraniano é mais forte do que sua antipatia pelos Marrons vitoriosos. Apesar de terem reunido os seus representantes para o que poderia ser uma declaração de independência, eles não se atrevem a reivindicar o poder. Essas pessoas pacíficas têm pouca resistência para conflitos.

O seu grande vizinho, a Rússia, não parece abertamente preocupada com esse desenvolvimento ameaçador. Ambas as agências de notícias russas, TASS e RIA, nem sequer colocam as terríveis notícias ucranianas no topo, como a Reuters e BBC fazem: para eles, os Jogos Olímpicos e o biatlon eram de maior importância, como você pode ver nessas telas:


A seguir a imagem aumentada:



Esta atitude “avestruz” é bastante típica da mídia russa: sempre que eles se encontram em uma posição embaraçosa, eles escapam mostrando o balé “O Lago dos Cisnes” na TV. Isso é o que eles fizeram quando a União Soviética entrou em colapso em 1991. Desta vez foram as Olimpíadas, em vez do ballet.

A oposição anti Putin na Rússia aprovou entusiasticamente o golpe ucraniano.

Ontem Kiev, amanhã Moscou, cantavam. Maidan (a praça central de Kiev, o local das manifestações antigoverno) é igual a Bolótnaya (uma praça em Moscou, o local das manifestações antigoverno em dezembro de 2012) é outro slogan popular.

A maioria dos russos ficou irritada, mas não surpresa. A Rússia decidiu minimizar seu envolvimento na Ucrânia algumas semanas atrás como se quisessem demonstrar ao mundo sua não interferência. Seu comportamento beirou a imprudência.

Enquanto ministros do exterior de países da UE e seus aliados se reuniam em Kiev, Putin enviou Vladimir Lukin, um emissário de direitos humanos, um político mais velho de baixo escalão com muito pouca influência, para lidar com a crise ucraniana. O embaixador russo, Sr. Zurabov, outra não entidade, desapareceu completamente de vista. (Agora ele foi chamado de volta a Moscou).

Putin não fez nenhuma declaração pública sobre a Ucrânia, tratando-a como se fosse a Líbia ou o Mali, não um país vizinho tão perto do interior da Rússia.

Esta abordagem de não intervenção se poderia esperar: a Rússia não interferiu nas desastrosas eleições ucranianas de 2004, ou nas eleições georgianas que produziram os governos extremamente antirrussos.

A Rússia se envolve apenas se houver uma verdadeira batalha em campo, e um governo legítimo pede ajuda, como na Ossétia, em 2008, ou na Síria, em 2011. A Rússia apoia aqueles que lutam por sua causa, caso contrário, a Rússia, de maneira um pouco decepcionante, fica de lado.

O Ocidente não tem tais inibições, e seus representantes foram extremamente ativos: a representante do Departamento de Estado dos EUA, Victoria "Foda-UE'' Nuland passou dias e semanas em Kiev, dando biscoitos aos insurgentes, entregando milhões de dólares contrabandeados para eles, se encontrando com seus líderes, planejando e traçando o golpe. Kiev foi inundada com os mais novos dólares americanos que saíram da prensa (de um tipo nunca visto em Moscou, me contaram amigos russos).

Victoria Nuland
A embaixada dos EUA espalhou dinheiro ao redor como um texano embriagado em um night club. Cada jovem disposto a lutar recebeu quinhentos dólares por semana, um lutador qualificado - até mil, um comandante de pelotão, dois mil dólares - um bom dinheiro para os padrões ucranianos.

Dinheiro não é tudo. Pessoas também são necessárias para um golpe bem-sucedido. Não havia uma oposição a Yanukovitch, que ganhou eleições democráticas e, consequentemente, três partidos perderam eleições. Os defensores dos três partidos poderiam reunir um monte de gente para uma manifestação pacífica. Mas eles lutariam na hora da verdade? Provavelmente não. Idem para os recipientes de generosos subsídios dos EUA e da UE (Nuland estimou o valor total de investimento americano na “construção da democracia” em cinco bilhões de dólares). Eles poderiam ser chamados para irem à praça principal para uma manifestação. No entanto, os beneficiários das ONGs são pessoas tímidas, não é provável que arriscassem o seu bem-estar. E os EUA precisavam de melhores combatentes para remover o presidente democraticamente eleito do poder.

Os Ovos da Serpente

No oeste da Ucrânia, eclodiram os ovos da serpente: os filhos e netos de colaboradores nazistas que absorveram o ódio aos russos com seu leite materno.

Seus pais formaram uma rede sob Reinhard Gehlen, o chefe espião alemão. Em 1945, enquanto a Alemanha era derrotada, Gehlen jurou obediência aos EUA e entregou suas redes à CIA. Eles continuaram sua guerra de guerrilha contra os sovietes até 1956. Sua crueldade era legendária, porque eles tinham como objetivo aterrorizar a população até a total obediência. Notoriamente, eles estrangulavam ucranianos suspeitos de serem amigáveis aos russos com suas próprias mãos.

Reinhard Gehlen - General do Exército alemão - Chefe da Inteligência 
A confissão terrível de um participante fala de suas atividades em Volyn:

Uma noite, nós estrangulamos 84 homens. Nós estrangulamos adultos, já as crianças, segurávamos suas pernas, balançávamos e quebrávamos suas cabeças em um batente. Duas crianças bonitas..., Stepa e Olya, 12 e 14 anos de idade... nós retalhamos o mais jovem em duas partes, e não precisamos estrangular sua mãe Julia, ela morreu de ataque cardíaco, e assim por diante.

Mataram centenas de milhares de poloneses e judeus, mesmo o terrível massacre Baby Yar foi feito por eles, com a conivência alemã, um pouco semelhante a conivência de Israel nos massacres de Sabra e Chatila de palestinos pelos fascistas libaneses da Falange.

Os filhos desses “Stepan Bandera” assassinos foram criados para odiar o comunismo, os soviéticos e russos, e na adoração dos atos de seus pais. Eles formaram a ponta de lança dos rebeldes anti-governamentais pró-EUA na Ucrânia, o Pravy Sektor (Setor Direita) liderado pelo fascista descarado Dmytro Yarosh. 
Dmytro Yarosh

Eles estavam prontos para lutar, morrer e matar. Tais unidades atraem potenciais rebeldes de diferentes origens: seu porta-voz é um jovem russo que se tornou nacionalista ucraniano, Artem Skoropadsky, um jornalista do diário mainstream de propriedade de oligarcas, Kommersant-UA.

Há jovens russos similares que se juntam às redes salafistas e se tornam homens-bomba nas montanhas do Cáucaso - jovens cujo desejo de ação e sacrifício não poderiam ser satisfeitas na sociedade de consumo. Esta é uma al-Qaeda eslava - tropas reais de assalto neonazistas, um aliado natural dos EUA.

E eles não lutam apenas pela associação com a UE e contra aderir ao acordo com a Rússia. Seus inimigos são também os russos na Ucrânia, e ucranianos étnicos de língua russa. A diferença entre os dois é discutível. Antes da independência, em 1991, cerca de três quartos da população preferiu falar russo. Desde então, os sucessivos governos têm tentado forçar as pessoas a usar o ucraniano. Para os ucranianos neonazistas, quem fala russo é um inimigo. Você pode comparar isso com a Escócia, onde as pessoas falam inglês, e os nacionalistas gostariam de forçá-los a falar a língua de Robert Burns.

Atrás da ponta de lança do Setor Direita, com seus lutadores anticomunistas e antirrussos fervorosos, há uma organização maior: a neonazista Liberdade (Svoboda), de Tyagnibok. Alguns anos atrás, Tyagnibok chamava para uma luta contra os russos e judeus, agora ele tornou-se mais cauteloso em relação aos judeus.  Ele ainda é tão antirrusso como John Foster Dulles. Tyagnibok foi tolerado, ou mesmo encorajada por Yanukovitch, que queria tomar uma página do livro do presidente francês, Jacques Chirac. Chirac venceu o segundo turno das eleições contra o nacionalista Le Pen, enquanto, provavelmente, teria perdido contra qualquer outro adversário. Do mesmo modo, Yanukovitch desejou Tyagnibok para tornar-se o seu adversário a ser derrotado no segundo turno das eleições presidenciais.

Os partidos parlamentares (o maior deles é o partido de Yulia Timoshenko, com 25% dos assentos, o menor, o partido de Klitschko, o boxeador, com 15%) apoiariam a turbulência como uma forma de ganhar o poder que perderam nas eleições.

Vitali Klitschko e John McCain em Kiev

União dos nacionalistas e liberais

Assim, uma união de nacionalistas e liberais foi formada. Esta união é a marca registrada de uma nova política dos EUA na Europa Oriental. Ela foi testada na Rússia, há dois anos, onde os inimigos de Putin são compostos por estas duas forças, liberais pró-ocidentais e seus novos aliados, os nacionalistas étnicos russos, neonazistas suaves e os mais radicais.

Os liberais não vão lutar, eles são impopulares com as massas, que incluem um percentual acima da média dos judeus, gays, milionários e colunistas liberais; os nacionalistas podem incitar as grandes massas quase tão bem quanto os bolcheviques, e vão lutar. Este é o coquetel anti Putin preferido pelos EUA.

Essa aliança, na verdade, levou mais de 20% dos votos nas eleições da cidade de Moscou, depois de sua tentativa de tomar o poder por golpe foi rechaçada por Putin. A Ucrânia é sua segunda ação conjunta, bem-sucedida.

Tenham em mente: os liberais não precisam apoiar a democracia. Eles fazem isso somente se eles estão souberem que a democracia vai proporcionar o que eles querem. Caso contrário, eles podem unir forças com a al Qaeda, como agora na Síria, com os extremistas islâmicos, como na Líbia, com o Exército, como no Egito, ou com neonazistas, como agora na Rússia e na Ucrânia.

Historicamente, a aliança liberal-nazista não funcionou, porque os velhos nazistas eram inimigos dos banqueiros e do capital financeiro, e, portanto, antissemitas.

Este obstáculo poderia ser evitado: Mussolini foi amigável com judeus e tinha alguns ministros judeus em seu governo, ele contestou a atitude antissemita de Hitler dizendo que “os judeus são úteis e amigáveis”. Hitler respondeu que se ele permitisse isso, milhares de judeus iriam entrar para seu partido. Hoje em dia, este problema desapareceu: os neonazistas modernos são amigáveis com os judeus, os banqueiros e os gays.

O assassino norueguês Breivik é uma amostra exemplar de um neonazista simpático aos judeus. Assim são os ucranianos e russos neonazistas.

Enquanto os bandidos originais de Bandera matavam todos os judeus (e poloneses) que cruzavam seu caminho, seus herdeiros modernos recebem algum apoio judeu valioso.

Os oligarcas de origem judia (Kolomoysky, Pinchuk e Poroshenko) os financiam, enquanto um proeminente líder judeu, presidente da Associação das Organizações Judaicas e Comunidades da Ucrânia, Josef Zissels, apoiou-os e os justificou.

Há muitos apoiadores de Stepan Bandera em Israel, pois eles geralmente afirmam que Bandera não era um antissemita, porque ele tinha um médico judeu (assim como Hitler). Os judeus não se importam com nazistas que não os incomodem.

Os russos neonazistas atacam trabalhadores imigrantes tadjiques, e os ucranianos neonazistas atacam os falantes de russo.

Revolução: Esboço

A revolução pode ser descrita em poucas linhas: Yanukovitch não foi um presidente tão ruim, prudente, mas fraco. Ainda assim, a Ucrânia chegou à beira do abismo financeiro. (Você pode ler mais sobre isso no meu artigo anterior). Ele tentou salvar a situação, aliando-se à UE, mas a UE não tinha dinheiro de sobra. Em seguida, ele tentou fazer um acordo com a Rússia, e Putin ofereceu-lhe uma saída, sem sequer exigir dele que a Ucrânia se juntasse ao grupo liderado pela Rússia. Isto provocou a resposta violenta da UE e dos EUA, já que estavam preocupados que isso iria fortalecer a Rússia.

Yanuk, como as pessoas o chamam, tinha poucos amigos. Oligarcas poderosos ucranianos não ficaram impressionados por ele. Além das razões de costume, eles não gostavam dos hábitos predatórios do filho de Yanuk, que rouba as empresas dos outros. Aqui eles podem ter razão, porque o líder da Bielorrússia, o valente Lukashenko, disse que as formas não ortodoxas de aquisição de empresas do filho de Yanuk causaram desastre.

O eleitorado de Yanuk, as pessoas falantes de russo da Ucrânia (e eles são a maioria no país, como os escoceses que falam inglês são maioria na Escócia) ficaram desapontados com ele porque ele não lhes deu o direito de falar e educar seus filhos em russo.

Yulia Timoshenko
Os seguidores de Yulia Timoshenko não gostavam dele porque ele prendeu sua líder (ela mereceu: contratou assassinos, roubou bilhões de dinheiro do Estado ucraniano em conluio com um ex-primeiro-ministro, fez um acordo escuso com a Gazprom às custas dos consumidores ucranianos, entre outras coisas).

Os nacionalistas radicais o odiavam por ele não erradicar o idioma russo. O ataque ao presidente eleito orquestrado pelos EUA seguiu as instruções de Gene Sharp para um golpe, a saber:

(1) tomar uma praça central e organizar uma manifestação pacífica,
(2) falar sem parar do perigo da dispersão violenta,
(3) se as autoridades não fizerem nada, provocar derramamento de sangue,
(4) acusar assassinato,
(5) a autoridade fica horrorizada e estupefata e
(6) é removida e
(7) novos poderes assumem.

O elemento mais importante do sistema nunca foi expressado pelo astuto Sharp, e é por isso que o movimento Occupy Wall Street (que folheou o livro) não conseguiu alcançar o resultado desejado. Você tem que ter os Mestres do Discurso™, isto é, a mídia ocidental, do seu lado. Caso contrário, o governo vai esmagar você como fizeram com o Occupy e muitos outros movimentos similares. Mas aqui, a mídia ocidental ficou totalmente do lado dos rebeldes, porque os eventos foram organizados pela embaixada dos EUA.

No início, eles reuniam algumas pessoas conhecidas para uma manifestação pacífica na Praça da Independência (ou “Praça Maidan”): beneficiários de subvenções da USAID através da rede de ONGs, escreveu um especialista ucraniano, Andrey Vajra, redes de oligarca fugitivo Khoroshkovski, neonazis do Setor Direita e radicais de causa comum.

A reunião pacífica foi ricamente entretida por artistas, alimentos e bebidas foram servidos gratuitamente, sexo livre foi encorajado − era um carnaval no centro da capital, e começou a atrair as massas, como aconteceria em todas as cidades do universo conhecido. Este carnaval foi pago pelos oligarcas e pela embaixada dos EUA.

Sergey Levochkin
Mas o carnaval não poderia durar para sempre. De acordo com (2), rumores de dispersão violenta foram espalhados. As pessoas ficaram com medo e se afastaram. Apenas uma pequena multidão de ativistas permaneceu na praça. Provocação de acordo com (3) foi fornecida por um agente ocidental dentro da administração, o Sr. Sergey Levochkin. Ele escreveu sua carta de demissão, a enviou e ordenou à polícia dispersar violentamente a manifestação. A polícia chegou e dispersou os ativistas. Ninguém foi morto, ninguém ficou gravemente ferido – hoje, depois de cem mortos, é ridículo sequer mencionar essa surra – mas a oposição acusou que houve mortes na época.

A mídia mundial, essa poderosa ferramenta nas mãos dos Mestres do Discurso, denunciou “Yanukovitch massacrador de crianças”.

A UE e os EUA ameaçaram sanções, diplomatas estrangeiros vieram, todos alegando que queriam proteger os manifestantes pacíficos, enquanto, ao mesmo tempo melhorar a multidão de Maidan com homens armados e combatentes do Setor Direita.

Nós citamos Gene Sharp, mas a Maidan teve uma influência adicional, o de Guy Debord e seu conceito de Sociedade do Espetáculo.

Não era uma coisa real, mas um faz-de-conta muito bem-feito, como foi o seu antecessor, o golpe de Moscou de agosto de 1991. Yanukovitch fez de tudo para formar a resistência Maidan: ele enviava a polícia de choque para dispersar a multidão, e depois que eles faziam apenas metade do trabalho, ele os chamava de volta, e ele fez isso todos os dias. Após esse tratamento, mesmo um cão muito tranquilo mordia.

A qualidade irreal de espetáculo dos eventos de Kiev foi enfatizada pela chegada do belicista imperial, o filósofo neo-com, Bérnard-Henri Levy. Ele foi a Maidan como foi à Líbia e à Bósnia, reivindicando direitos humanos e ameaçando sanções e bombardeios. Sempre que ele aparece, a guerra está por vir. Espero estar longe de todos os países que ele pretenda visitar.

Bernard-Henri "Lévyshenko"
As primeiras vítimas da Revolução Marrom foram os monumentos - os de Lenin, porque eles odeiam o comunismo em todas as formas, e os da IIª Guerra Mundial, porque os revolucionários se solidarizam com o lado derrotado, os nazistas alemães.

A história nos dirá até que ponto Yanukovich e seus assessores entenderam o que eles estavam fazendo. De qualquer forma, ele incentivou o fogo de Maidan por seus ataques ineficientes por uma força policial desarmada. Os neonazistas de Maidan usaram snipers (franco-atiradores) contra a força policial, dezenas de pessoas foram mortas, mas o presidente Obama mandou Yanukovich desistir, e ele desistiu.

Após novo tiroteio, ele enviava a polícia novamente. Um diplomata UE ameaçava com o tribunal de Haia, e ele chamava sua polícia de volta. Nenhum governo pode funcionar em tais circunstâncias.

Eventualmente, ele caiu, assinou na linha pontilhada e partiu para destino desconhecido.

Os rebeldes tomaram o poder, proibiram o idioma russo e começaram a saquear Kiev e Lvov. Agora, a vida das pessoas tranquilas de Kiev foi transformada em um verdadeiro inferno: assaltos diários, espancamentos, assassinatos.

Os vencedores estão preparando uma operação militar contra as áreas de língua russa no sudeste da Ucrânia. O espetáculo da revolução ainda pode ficar realmente sangrento.

Alguns ucranianos esperam que Yulia Timoshenko, recém-libertada da prisão, será capaz de controlar os rebeldes. Outros esperam que o presidente Putin vá prestar atenção aos eventos da Ucrânia, agora que seus Jogos Olímpicos, felizmente, terminaram.

O espetáculo não acabou até que a gorda senhora (ref. à Russia) cante, mas ela vai cantar – sua canção será vista e ouvida.
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[*] Israel Shamir é um escritor, colunista da e jornalista antissionista. De origem russa, ele nasceu em Novosibirsk, na Sibéria, e emigrou para Israel em 1969. Lá, trabalhou como jornalista e tradutor. Seus artigos sobre a ocupação da Terra Santa pelo sionismo estão reunidos no sítio eletrônico e em três livros: Galilee Flowers, Cabbala of  Power e Masters of  Discourse, também disponíveis em francês, espanhol, italiano, alemão e russo. Em 2004, ele abraçou a fé cristã ortodoxa, sendo batizado na Igreja Ortodoxa de Jerusalém e Terra Santa pelo arcebispo Theodosius Attalla Hanna.  Shamir. Vive atualmente em Jaffa e viaja frequentemente a Moscou e Estocolmo.