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segunda-feira, 7 de abril de 2014

Conflicts Fórum: Comentário semanal de 21 a 28/3/2014

5/4/2014, [*] Conflicts Forum
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Mensagem que recebemos cá na Vila Vudu: Muito obrigado, vudus. Muito obrigado, mesmo. Mas... leio artigo como esse, essa maravilha, e fico tremendo de medo. Deus nos acuda! Será que o Brasil conseguirá salvar-se, apesar de, em pleno século 21, ainda continuarmos perdidos e sem bóia em pleno mar da mais escura e total ignorância sobre tuddddddddo que se passa na mundo, por culpa dos jornalistas do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão) e dos professô-dotô da tucanaria uspeana e dessa tal de Marina Silva, a insuportável, e seus marketeiros salafrários?
Resposta que já despachamos: Obrigado a você, compás. Calma. Só a luta ensina. Vamkemamo. Ah! E não é “tuddddddddo”, prestenção. É (quase) “tuuuuuuuudo”. É só ler em voz alta, na praça ou no bar, que você não erra. Grande abraço. VV

Barack Obama e seu "staff" de segurança nacional em 6/3/2014 na Casa Branca
Essa foi semana na qual as iniciativas da política externa do presidente Obama azedaram; e, para piorar, todas parecem ter azedado ao mesmo tempo.

Moshe Ya'alon
Não é fácil dizer por que essa constelação de eventos aconteceu numa espécie de sincronia, mas há poucas dúvidas de que o presidente Obama está diante de um muro de truculência que emana de toda a região. Dos sauditas, sobre virtualmente tudo; de Abu Mazen [Mahmoud Abbas] e da Liga Árabe, sobre reconhecer Israel como estado judeu e a libertação de prisioneiros; ou o desprezo de Moshe Ya'alon, pelo plano de segurança (“engenhoca”) dos EUA; ou a ira dos egípcios, pela acanhada reação dos norte-americanos ante a matança e a condenação à morte em massa de Irmãos da Fraternidade Muçulmana; ou como resultado dos sucessos do presidente Assad, que criou fatos militares suficientes para virar o jogo em campo; ou resultado do humor pendular do Irã que, agora, vê as possibilidades das conversações do grupo P5+1 sob luzes mais escuras; ou as ações de um touro ferido, com sangue nos olhos, que chifra para todos os lados em Ancara.

Feitas todas essas contas, o presidente Obama tem pela frente tempos políticos nada fáceis e, isso, no momento crucial da campanha para as eleições parlamentares de meio de mandato.

Rei Abdullah da
Arábia Saudita
Para que não pairassem dúvidas, os sauditas disseram com todas as letras que Obama não espere vida fácil em Riad – a menos que esteja preparado para mudar de rota sobre o Irã, ser militarmente proativo na Síria e dar apoio a Sisi, no serviço de esmagar a Fraternidade Muçulmana. Para o caso de o recado não ter sido ouvido, foi repetido, com o anúncio, na véspera da visita de Obama, de que o príncipe Muqrin será o próximo, na linha de sucessão, depois do atual Príncipe Coroado. Em outras palavras, o Reino Saudita está declarando: “EUA, nem pensem em interferir na sucessão, com o favorito de vocês, príncipe Mohammad bin Naif”.

E para deixar bem claro ao presidente Obama que as coisas não serão fáceis tampouco nas conversações Israel-palestinos, a Liga Árabe alinhou-se – com Abbas – em declarações que parecem estar comprometendo todos os membros da Liga Árabe com a posição de “rejeição absoluta” a qualquer reconhecimento de Israel como estado judeu. Foi tranco suficiente para que o secretário de Estado deixasse Roma e voasse diretamente a Amã, para tentar salvar pelo menos em parte as conversações de depois do fim de abril, e conseguir, que seja, alguma espécie de “mapa do caminho” desbotado.

Abdel Fattah al-Sisi
E no Egito, um dia antes da visita do presidente Obama, Sisi anunciou que é candidato à presidência, notícia há muito tempo adiada. Em resumo, está dizendo aos EUA “Estou aqui para ficar. Vocês não têm escolha: têm de trabalhar comigo, gostem ou não gostem”.

E acima e em torno de todos esses itens, paira o relacionamento dos EUA com a Rússia. Já argumentamos em vários “Comentários” anteriores que a política de Obama para o Oriente Médio tornou-se pesadamente dependente de uma relação necessariamente privada, nunca comentada, com o presidente Putin. Já seria necessário que assim fosse – sem cenas públicas, próxima, pode-se dizer íntima, próxima do coração de Obama – por causa das animosidades residuais da Guerra Fria que persistem, se não também em muitos outros pontos, pelo menos dentro da própria “equipe de rivais” do governo Obama, que está furiosa por causa da Síria, furiosa por causa das negociações com o Irã e profundamente ressentida, obrigada a assistir ao ressurgimento da Rússia.

Parece que, empurrado para as cordas do confronto contra Putin, por membros neoconservadores de seu governo, na disputa pelo mais improvável dos butins (só não é improvável, é claro, para o contingente neoconservador de seu próprio governo), o presidente Obama ficou sem escolhas, obrigado a reconhecer que a Ucrânia sobretudo, para muitos norte-americanos, é um símbolo psicológico. O que, se não isso, explicaria que um estado remoto, pequeno, falido, assuma tal significação e desperte emoções tão apaixonadas entre as elites políticas?

É profundamente perturbador, e desperta ódios só parcialmente sublimados, que o mundo não esteja caminhando pela história linear, como “deveria”.

Vladimir Putin
O presidente Putin está, efetivamente, negando a narrativa de um “fim da história” pela qual todos nós convergiríamos para a órbita da globalização liberal norte-americana e seu séquito, sempre presente, sempre de autoperpetuação, de “conjunto de regras”. E ao fazê-lo, os russos estão pondo em questão algo muito fundamental sobre como alguns norte-americanos e europeus se autodefinem.

Parece que Obama vê isso, e está entendendo que, a menos que ele responda à psicologia do momento, a ira sublimada dirigida contra a Rússia, virar-se-á contra ele.

Em Bruxelas essa semana ele, portanto repetiu a questão da Ucrânia nos termos da mesma narrativa simples: desafiando o presidente Putin, Obama diz que os eventos na Ucrânia nada têm a ver com a aliança ocidental explorar o sul vulnerável da segurança da Rússia, mas devem ser corretamente compreendidos como nada além de um ocidente civilizado que apoia o progresso linear, regular, em direção à liberdade, ao individualismo e à democracia. E, com todos progredindo e ascendendo por essa trajetória, todos naturalmente nos dirigimos para aceitar o ‘'conjunto de regras'’ que governa e difunde-se por esse mundo conectado, globalizado. Não há lugar para os que recusem a ordem internacional ou desrespeitem o “conjunto de regras” que subjaz e dissemina a conectividade liberal global.

Barack Obama
Provavelmente, o presidente Obama não tinha outra escolha que não fosse essa posição simplória de apoio à história linear – pelo menos, para se autovacinar contra acusações de ter contribuído para que a liderança excepcional dos EUA fosse diluída e deixada perecer. Afinal, o excepcionalismo norte-americano depende existencialmente da história linear.

Mas essa abordagem – embora talvez obrigatória, em termos do eleitorado doméstico de Obama – põe abaixo a política de Obama para o Oriente Médio.

Ao negarem à Federação Russa, ao Irã ou à Síria o direito a uma visão alternativa coerente de seu próprio futuro, os EUA tentam outra vez prender-se pelas próprias garras à narrativa de uma sua liderança global – e retomar o papel de “moralizador-em-chefe” e único árbitro do que sejam pensamento e comportamento normais e anormais. Essa ideia mancha e complica qualquer negociação de política externa, e dificulta muito todas elas.

Já está dividindo a Europa (adiante, mais sobre isso); chineses e russos sentir-se-ão repelidos; e fará o Irã resistir mais firmemente a todas as demandas dos EUA.

Em termos práticos, Obama – ante um Oriente Médio truculento – deve desejar que as tensões com a Rússia sejam discretamente desescaladas (apesar do discurso que fez em Bruxelas) e que ele consiga reencontrar algum tipo de relacionamento de trabalho com o presidente Putin. Assim, terá ainda alguma probabilidade de salvar alguma coisa de sua política exterior, ante o assalto que lhe movem seus adversários ideológicos. Resta uma pequena possibilidade de que consiga [e depende de Putin]: embora a Rússia deva, com certeza, orientar de outro modo sua política externa à luz dos eventos na Ucrânia, o presidente Putin sempre se mostrou muito hábil no trabalho de separar ‘os casos’. Putin pode manter-se em posição de oposição em alguns casos chaves, e mesmo assim cooperar em outros.

Angela Merkel
O “melhor amigo” de Obama na tentativa de salvar alguma coisa do imbróglio na Ucrânia será provavelmente Angela Merkel. A chanceler alemã disse que “não está interessada” na escalada de tensões com a Rússia. “Ao contrário”, disse ela, “estou trabalhando para desescalar a situação”. Disse que o ocidente “não alcançou posição que implique impor sanções econômicas” à Rússia. “E espero que consigamos evitar isso”, acrescentou.

Helmut Schmidt
Outro político alemão, e ex-chanceler, Helmut Schmidt, que mantém coluna regular em Die Zeit, escreveu que a abordagem de Putin na questão da Crimeia é “completamente compreensível”. As primeiras sanções ocidentais (contra indivíduos) foram “completamente estúpidas”, continuou ele, e “sanções econômicas mais sérias ferirão o Leste, tanto quanto o Oeste”. A decisão de reduzir o G8 para G7 pensando em punir a Rússia é erro grave, Schmidt alertou: “Muito bom seria reunir os oito agora, exatamente agora. Com certeza seria melhor serviço, com vistas à paz, que a ameaça das sanções”.

Mas também essa esperança, o presidente Obama está obrigado a manter guardada no peito: há muitos velhos (e uma nova geração) de Guerreiros da Guerra Fria, tanto nos EUA como na Europa, que temem, mais que qualquer outra coisa, a emergência na Europa, de um eixo russo-alemão. O caso Ucrânia já abriu fissuras entre os EUA e a União Europeia, quando, vale lembrar, o objetivo original (declarado por John Kerry na Conferência de Segurança de Munique) do “movimento” na Ucrânia era unir a Europa sob uma liderança revigorada de EUA-OTAN.

A OTAN, hoje, está sem “missão” crível (assim, portanto, está sem justificativa para os gastos com defesa). A Ucrânia só deu à OTAN causa clara para, no máximo, reforçar uma “linha Maginot” da Estônia ao Azerbaijão. Com isso, a OTAN pode, pelo menos, reformular sua missão. Na direção exatamente contrária aos interesses da Alemanha de Merkel, o que interessa à “indústria da defesa” é manter sempre crescentes as tensões com a Rússia.




[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.



domingo, 18 de agosto de 2013

Pepe Escobar: “Oi, aqui fala seu novo Eixo do Mal”

16/8/2013, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online- The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Procura de pessoa entre centenas, talvez milhares de assassinadas pelo
exército egípcio no "banho de sangue que não é banho de sangue"

Escrevi em outro artigo que o que está acontecendo no Egito é um banho de sangue que não é banho de sangue, promovido por uma junta militar responsável por um golpe que não é golpe, sob o disfarce de uma “guerra ao terror” à egípcia. Mas esse gambito em novilíngua – que facilmente pode ter sido escrito na Casa Branca – é só parte do quadro.

Sob o denso nevoeiro de opiniões e agendas concorrentes, um fato impressionante se destaca. Pesquisa feita há apenas dez dias, pelo Egyptian Center for Media Studies and Public Opinion já mostrava que 69%   dos egípcios opunham-se ao golpe militar de 3 de julho orquestrado pelo pinochetesco Abdel Fattah al-Sisi. 

O banho de sangue que não é banho de sangue, pois, não pode de modo algum ser considerado legítimo – se não por um bando de mubarakistas privilegiados (os chamados fulool), grupelho de oligarcas corruptos e o “estado profundo” egípcio controlado pelos militares.

Mohamed Mursi
O governo da Fraternidade Muçulmana liderado por Mursi pode ter sido supremamente incompetente – tentando re-escrever a Constituição; incitando os fundamentalistas linha duríssima; e curvado em reverência ante o Fundo Monetário Internacional. Mas não se pode esquecer que tudo isso veio junto com sabotagem total, permanente, pelo “estado profundo”.

É verdade que o Egito estava – e continua – à beira do total colapso econômico; o banho de sangue que não é banho de sangue sobreveio depois de uma mudança em quem assinava os cheques, antes os qataris, agora os sauditas (e os Emirados Árabes Unidos). Como Spengler já demonstrou nesse portal (ver “Islam’s civil war moves to Egypt”,  Asia Times Online, 8/7/2013), o Egito permanecerá uma república de bananas sem bananas e dependente de estrangeiros até para comer banana. O desastre econômico não se apaga – e tampouco se apaga o ressentimento cósmico dos Irmãos da Fraternidade Muçulmana.

Vencedor, no pé em que estão as coisas é o eixo Casa de Saud/ Israel/ Pentágono. Como conseguiram?

Na dúvida, chame Bandar

Em teoria, Washington tinha (relativo) controle tanto sobre a Fraternidade Muçulmana como sobre o exército de Sisi. Assim, na superfície, é situação de ganha-ganha. De fato, os falcões de Washington são pró-exército de Sisi, enquanto os “imperialistas liberais” são pró-Fraternidade; é a cobertura perfeita, porque a Fraternidade Muçulmana é islamista, local, populista, economicamente neoliberal, quer trabalhar com o FMI e não ameaçou Israel.

A Fraternidade Muçulmana não é exatamente um problema nem para Washington nem para Telavive; e os hiper ambiciosos qataris ali estavam como leva-e-traz. A política externa do Qatar, como todos sabem, resume-se a agir como torcida organizada dos Irmãos, por todos os cantos.

Daí se conclui que Mursi deve ter cruzado alguma linha vermelha muito séria. Pode ter sido a conclamação para que os sunitas egípcios se unissem em jihad contra o governo de Bashar al-Assad na Síria (embora, nisso, estivessem formalmente sintonizados com a política de “Assad tem de sair” de Barack Obama). Pode ter sido talvez o estímulo que Mursi deu à instalação de uma espécie de paraíso jihadista, do Sinai até Gaza. O Sinai, para todas as finalidades práticas, é governado por Israel. Tudo isso sugere que Pentágono e Telavive podem ter dado luz verde para o golpe.

Hamad bin Khalifa
 al-Than
i
Telavive vive em perfeita harmonia com o exército de Sisi e os apoiadores sauditas da junta militar. A única coisa que conta, para Israel, é que o exército de Sisi manterá os acordos de Camp David. A Fraternidade Muçulmana talvez tivesse outras ideias para o futuro imediato.

Mas para a Casa de Saud, essa jamais foi situação de ganha-ganha. A Fraternidade no poder no Egito era anátema. Nesse facinoroso triângulo –Washington, Telavive e Riad – ainda falta determinar quem é o mais ardiloso no departamento rabo-que-sacode-o-cachorro.

E onde entra a cena inacreditável do “Qatar que Desapareceu”. A ascensão e (súbita) queda do Qatar, da ribalta da política externa, estão diretamente conectadas ao atual vácuo de liderança no “arco de instabilidade” que o Pentágono definiu. O Qatar era no máximo figurante em filme arrasa-quarteirão – considerando os movimentos de iô-iô que o governo Obama e Rússia e China estão jogando, em ritmo de espera.

Bandar bin Sultan
ou Bandar Bush
Sheikh Hamad al-Thani, o emir que terminou por se autodepor, claramente se excedeu, não só na Síria, mas também no Iraque; estava financiando aliados dos Irmãos, mas também financiava jihadistas de linha ultra dura por todo o deserto. Não há provas, porque ninguém fala, nem em Doha, nem em Washington, mas tudo faz crer que o emir foi “convidado” a autoderrubar-se do trono. E não por acaso, os “rebeldes” sírios passaram a ser completamente comandados pela Casa de Saud, via Bandar Bush, também conhecido como príncipe Bandar bin Sultan, espetacularmente ressuscitado. 
Os vencedores foram mais uma vez os sauditas – com o governo Obama estimando que ambas, a Fraternidade Muçulmana e a nuvem al-Qaeda, já teriam, nessa altura, caído no esquecimento na Síria. Isso ainda não está definido. É possível que doravante o Egito passe a atrair muitos jihadistas saídos da Síria. De um modo ou de outro, permanecerão no MENA (Middle East-Northern Africa/Oriente Médio-Norte da África).

Martin Dempsey
Sisi parece ter sido esperto o bastante para se apropriar do tema “terror” e difundir, preventivamente, a equação Fraternidade = al-Qaeda no Egito, construindo assim o cenário para o banho de sangue que não é banho de sangue. O resumo da história é que se pode conjecturar que o governo Obama, de fato, terceirizou sua política para o Oriente Médio, entregando-a à Casa de Saud.

Escolha o seu eixo

Apenas dois dias antes do banho de sangue que não é banho de sangue, o Comandante do Estado-Maior das Forças Conjuntas dos EUA [orig. Chairman of the Joint Chiefs of Staff], general Martin Dempsey, estava em Israel confraternizando com o general Benny Gantz e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e discutindo as proverbiais “ameaças que podem emanar da região – globalmente e para a pátria-mãe – e como continuar a trabalhar juntos para tornar nossos dois países mais seguros”. É inconcebível que não tenham discutido o que ambos teriam a extrair, como lucros, do (então) iminente banho de sangue que não é banho de sangue.

 Moshe Ya’alon
Ao mesmo tempo, o Ministro da Defesa de Israel,  Moshe Ya’alon, anunciava bombasticamente um novo “eixo do mal”: Irã, Síria e Líbano.  Reuniu Teerã, Damasco e, significativamente, Beirute (tudo, não só os subúrbios do sul da cidade, predominantemente xiitas). Ya’alon disse explicitamente a Dempsey que esse pessoal “está proibido” de vencer a guerra civil na Síria.  

Considerando que a própria CIA já avalia a guerra civil na Síria como “alta ameaça” à segurança nacional dos EUA no caso de grupos aliados e assemelhados à al-Qaeda virem a predominar num eventual quadro pós-Assad; e que, simultaneamente, Washington reluta muito a abandonar a posição de “liderar pela retaguarda”, pode-se conjecturar que Israel planeje invadir outra vez o Líbano. Sempre alerta, Hassan Nasrallah, Secretário-Geral do Hezbollah, já falou sobre a possibilidade. 

Hassan Nasrallah
De Israel, Dempsey foi à Jordânia – que sempre mantém por perto 1.000 soldados dos EUA, F-16s e respectivas tripulações e um sortimento de mísseis Patriot. Dizem os boatos que o Pentágono está ajudando Amã com “técnicas de controle de fronteiras”, uma das siglas preferidas do Pentágono, ISR (“intelligence, surveillance and reconnaissance”/inteligência, vigilância e reconhecimento).

São boatos. Dempsey só passou por lá para supervisionar os progressos da distribuição dos novos mísseis antitanques comprados – e quem poderia ser? – pelos sauditas e fornecidos pela CIA, via Jordânia, a seletos “bons rebeldes” no sul da Síria. Esses “rebeldes”, por falar deles, foram treinados por Forças Especiais dos EUA dentro da Jordânia. Não há dúvidas de que Damasco preparará um contragolpe a essa ofensiva do eixo EUA/Sauditas/Jordânia.

Escolha seu mal

Robert Ford
Já praticamente não existe “credibilidade dos EUA” no Oriente Médio – exceto em entidades fantoches como a Jordânia e entre seletas elites no Golfo feudal, aquele reino “democrático” de corruptos, mercenários e proletários importados tratados como gado.

Pouco ajuda que o Secretário de Estado, John Kerry, tenha indicado Robert Ford, ex-embaixador dos EUA na Síria, para o posto de embaixador dos EUA no Egito.

A reputação precede o homem. A opinião bem informada em todo o Oriente Médio imediatamente identifica Ford como sinistro facilitador de esquadrões da morte. Seu currículo antes da Síria – onde legitimou os “rebeldes” – é insuperável: foi braço direito do famigerado John Negroponte que promoveu a “Salvador Option” no Iraque em 2004. “Salvador Option” é nome-código dos esquadrões da morte patrocinados pelos EUA, tática que foi aplicada pela primeira vez em El Salvador (por Negroponte) nos anos 1980s (e que fez, no mínimo, 75 mil mortos) mas cujas origens profundas jazem na América Latina, do final dos anos 1960s e durante os anos 1970s.

Abdel Fattah al-Sisi
Sisi segue jogando seu jogo, seguindo seu próprio plano master – insuflar a narrativa mítica de que o exército egípcio defende a nação e suas instituições, quando, de fato, só defende seus vastos privilégios socioeconômicos. Esqueçam qualquer supervisão civil. E esqueçam também qualquer possibilidade de partido – ou movimento – político independente no Egito.

Do ponto de vista de Washington, tanto faz a Fraternidade Muçulmana, ou “estado profundo”, e não faz diferença, sequer, uma guerra civil no Egito – árabes matando árabes, dividir para governar ad infinitum: tudo estará sempre tudo bem, desde que nada ameace Israel.

Com Israel possivelmente já cerebrando outra invasão ao Líbano; com o “processo de paz” de Kerry como desculpa para construir mais colônias na Palestina; com Bandar Bush praticando suas artes obscuras; com qualquer possível solução para o dossiê nuclear iraniano já devidamente evitada; com o Egito em guerra civil; com a Síria e também o Iraque sangrando sem parar, só resta, garantida, a proliferação de todos os tipos de eixo e de todos os tipos de mal.


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (“The Roving Eye”) no Asia Times Online; é também analista e correspondente das redes Russia Today, The Real News Network T  e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, no blog redecastorphoto.

Livros

quarta-feira, 19 de junho de 2013

“A mãe de todas as batalhas”


14/6/2013, Dmitry MININ, Strategic Culture
Traduzido e comentado pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido no buteco do Zóio (Vila Vudu): Traduzimos essa matéria exclusivamente para registrar que a imprensa-empresa brasileira absolutamente não existe para informar coisa alguma sobre o mundo real. Existe, como empresa, para acumular lucro da venda de espaço publicitário. E existe, como aparelho ideológico, para reproduzir propaganda norte-americana, repetindo bobagens selecionadas a dedo, dentre o que de pior as agências internacionais distribuem.
Todas as fontes de notícias, listadas nas notas, são perfeitamente acessíveis para as editorias internacionais dos jornais e redes de televisão brasileiras e para os “especialistas” brasileiros. Nenhuma delas é jamais citada no Brasil, como fonte de informação, na imprensa-empresa.
As empresas de imprensa, no Brasil, se forem fechadas, preencherão uma lacuna.

Visualização da situação estratégica da guerra na Síria
O exército sírio está expandindo com sucesso sua operação mais importante desde o início da guerra civil, lançada dia 9/6 desse ano. Essa operação, “Tempestado no Norte”, visa a libertar o principal ponto conquistado pela oposição – a cidade de Aleppo, maior cidade do país e mais importante centro econômico, próxima da fronteira turca. É possível que seja a batalha decisiva de toda a guerra; não surpreende que o presidente Bashar al-Asad a chame de “a mãe de todas as batalhas”. Depois de meses de erros e confusões, as decisões do líder político e do comando militar chegam a espantar pela antevisão e pela elegância estratégica.

Em vez de correr pelo país, perdendo força, que foi o erro cometido nos primeiros estágios, o exército começa a ocupar pontos chaves, cortando as mais importantes linhas de comunicação e de suprimento do inimigo e, assim, determinando a direção do ataque principal. E a liderança política vai, simultaneamente, assegurando que forças aliadas protejam os flancos do exército.

Atividade "rebelde" na Síria até 8/3/2013. Antes da queda de al-Qusayr
Por exemplo, depois da vitória em al-Qusayr, todos esperavam que o governo começasse a operação de longo prazo de expurgar os rebeldes dos arredores de Homs, a terceira maior cidade do país (mais de 800 mil habitantes); mas limitaram-se a cercar os rebeldes e andaram na direção da Turquia, de onde vem a maior ameaça? Movimento arriscado? Sim, mas completamente justificado.

Não é difícil ver que, para que o exército fizesse esse movimento, o flanco esquerdo do lado do Líbano já estava militarmente protegido, e o flanco direito, do lado do Iraque estava diplomaticamente protegido. Importantes pontos de defesa, próximos da Jordânia já estavam sob controle desde o início do ano. O momento foi escolhido com perfeição, também no que tenha a ver com a situação na Turquia; com aquele país acossado por agitações internas, dificilmente optariam por invadir a Síria. Na essência, em Ancara os rebeldes sírios “perderam simultaneamente apoio militar e cobertura diplomática do Estado mais próximo e seu mais íntimo aliado”.

Fahd Jassem al-Freij

Em grande medida, o sucesso das tropas muito deve ao talento militar do vice-comandante em chefe das Forças Militares sírias desde julho de 2012, coronel-general Fahd Jassem al-Freij (nascido em janeiro de 1950 em Hama, com formação militar no Exército Sírio, incluído na “lista negra” do governo dos EUA), sunita, o que basta para demonstrar a tolerância religiosa do regime de Damasco.

O objetivo do primeiro estágio da operação “Tempestade no Norte” é “retomar o controle da estrada federal que liga Aleppo e Azaz, na fronteira sírio-turca, que há um ano está sob controle da oposição e é estrategicamente importante para o apoio logístico dos combatentes em Aleppo” – disse uma fonte do comando militar à agência de notícias síria. No domingo, os soldados atacaram posições rebeldes ao longo do eixo que passa pelas cidades de Kafar-Hamra, Anadan, Hareytan e Atarib, com apoio de blindados. Prosseguem os combates nos arredores da base militar de Minnigh, perto de Aleppo. 

Bashar al-Assad
As divisões do Hezbollah ainda não estão participando da operação e foram dispostas como reserva estratégica.

O presidente Bashar al-Assad destacou outra razão pela qual a escalada pendeu a favor do exército: uma mudança de atitude na população da província.

Apoiaram os grupos rebeldes nem tanto por falta de patriotismo, mas por que estavam decepcionados. Fizeram-nos acreditar que estaria em curso uma revolução contra os erros do Estado. Agora, mudaram de posição e muitos já se desligaram dos grupos terroristas e retomaram a vida normal.

Essa tendência se confirmou, depois que grupos islamistas em Aleppo executaram um rapaz de 15 anos, por ter feito uma declaração não aprovada.

Elemento radicalmente novo e do qual praticamente não se fala nos desenvolvimentos na Síria, que torna ainda mais precária a situação dos rebeldes, é o ativo envolvimento do Iraque, no conflito.

Nouri al-Maliki
Fontes israelenses, por exemplo observam que, enquanto os especialistas concentram-se nas ações do Hezbollah libanês no oeste da Síria, a entrada na guerra do Primeiro-Ministro do Iraque, Nouri al-Maliki, ao lado de Assad, é evento muito mais significativo. Diferente do Irã, que está sob sanções, os fundos ocidentais fluem livremente para o Iraque em troca de petróleo, e “estão sendo passados em quantidades crescentes de Bagdá para Damasco”. O governo do Iraque até já fez aprovar lei especial que estipula que armas e munições compradas nos mercados internacionais, assim como o petróleo e lubrificantes para o exército, serão repassadas para a Síria, em condições especiais. 

No passado, nem sempre as relações entre Síria e Iraque foram tranquilas, porque os dois países competiam pela liderança regional. Mas, agora, o governo xiita do Iraque percebeu que a ascensão de sunitas ao poder na Síria tem potencial para desestabilizar significativamente a situação também no Iraque. A nova onda de ataques terroristas por iraquianos aliados aos rebeldes sírios (e aliados portanto, embora indiretamente, das potências ocidentais) sugere o mesmo. Só em maio deste ano, mais de mil iraquianos foram mortos nesse tipo de ataques terroristas.

Além disso, por ordem de al-Maliki, cerca de 20 mil soldados iraquianos foram deslocados para a fronteira síria, para cortar as linhas de suprimento para a oposição síria que partiam do Iraque. Relatórios da DEBKAfile de 9/6/2013 dão notícia dos primeiros grandes confrontos entres forças do governo iraquiano e rebeldes sírios, em dois pontos de passagem da fronteira. Os iraquianos sofreram baixas, mas o rebeldes tiveram de recuar. Fontes israelenses dizem que parte dessas forças especiais preparam-se atualmente para raids em território sírio, para dar combate aos rebeldes.

Na reunião do Conselho de Ministros do Iraque, que aconteceu no mesmo dia na cidade de Erbil na porção norte do país, o Primeiro-Ministro, Nouri al-Maliki, alertou que a região estava sendo tomada por um onda de extremismo provocada por organizações terroristas, como al-Qaeda e Jabhat al-Nusra; e conclamou os ministros iraquianos a resistir contra essa invasão.

Telavive também enfrenta dificuldades cada vez maiores em relação ao seu envolvimento no conflito sírio. Nos círculos militares em Israel ouvem-se reclamações contra seus próprios comandantes, que não se ouviam desde a fracassada 2ª Guerra do Líbano em 2006. As reclamações aparecem em vários sites e blogs. Forças militares especiais e da inteligência militar israelenses mostram-se incomodadas, principalmente, com a aliança de-facto entre Israel e “barbudos fundamentalistas” na Síria, dos quais “só se pode esperar ser esfaqueado pelas costas” a qualquer momento, porque estão a poucos quilômetros de bases israelenses; e, também, porque os sucessos da oposição têm sido descabidamente exagerados.[Sobre isso, as publicações da agência mignews.com, russa, dizem muito].

Moshe Ya'alon
Esses especialistas israelenses temem que avaliações falsas da real situação no teatro de operações “levem a decisões erradas”. Por exemplo, o site DEBKAfile, próximo da inteligência militar israelense, criticou abertamente o discurso do Ministro da Defesa, Moshe Ya'alon, no Parlamento quando, dia 3/6/2013, afirmou que al-Assad controla apenas 40% do território sírio, com os rebeldes no controle de parte significativa de Damasco. Na realidade, a inteligência israelense tem informação confiável de que a oposição foi quase completamente expulsa da capital; e que ali só restam bolsões isolados da oposição. O quadro é semelhante em outros fronts, onde o exército, “graças a suprimentos russos e iranianos” pressiona os rebeldes por todos os lados, em vários pontos.

Vários interlocutores, nesses círculos, admitem que a interferência de Israel no conflito sírio, inclusive o bombardeio de arsenais, só faz reacender o espírito combativo do Exército sírio e enfraquece a oposição, porque a faz perder legitimidade aos olhos da população.

Ayman al-Zawahiri
Não só o ocidente, mas também o atual líder da al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, tem tido problemas com as seguidas derrotas da oposição na Síria. Em junho, gravou uma mensagem em vídeo na qual pede apoio aos seus seguidores em todo o mundo para que aumentem os reforços aos jihadistas na Síria, e que os diferentes grupos unam-se sob uma só orientação unificada. A alta prioridade da al-Qaeda na mensagem de al-Zawahiri não é atualmente o Afeganistão, nem o Iraque, mas a Síria.

O centro norte-americano de consultoria Flashpoint Global Partners divulgou que a maioria dos combatentes estrangeiros mortos na Síria, entre julho de 2012 e maio de 2013 eram ligados à al-Qaeda. O relatório desse centro enfatiza, por exemplo, que, no mesmo período, foram mortos pelo menos 280 combatentes estrangeiros, dos EUA, Chechênia, Kosovo, Egito, Jordânia, Tunísia, Líbia e Arábia Saudita. A baixa mais recente é um mercenário belga, morto há alguns dias.

Michael Young, conhecido especialista em Oriente Médio, crê que, considerando os avanços do presidente al-Assad na guerra civil, a exigência feita pela oposição, de que não seja admitido na Conferência de Genebra 2, “não é realista”; e que a recusa dos líderes da oposição que não querem, eles também, participar daquela conferência, é “erro”, porque, nesse caso, toda a responsabilidade pelo fracasso de qualquer tentativa de fazer a paz recairá sobre a oposição. Para a oposição síria, esse erro “pode ser fatal”. Não faz muito, eram poucos os que acreditavam que Bashar al-Assad permaneceria na presidência da Síria. “Parece que erramos” – lamenta Young.

Infelizmente, os principais políticos ocidentais não dão sinais de ver as coisas com a mesma clareza.

Tropas dos EUA na Jordânia
É o que se vê, por exemplo, nas manobras dos EUA e aliados, e no deslocamento de 4.500 soldados para a Jordânia, no auge da “Tempestade no Norte”. Ao encenar falsos preparativos para invadir a Síria pelo sul, tentam, apenas, conter o avanço do exército sírio. De fato, os sírios já têm forças suficientes alocadas para impedir ataque que provenha daí, sem precisar abandonar o avanço em direção a Aleppo.

Como fontes oficiais na Casa Branca já relataram à Associated Press, o presidente Barack Obama também tomará essa semana a decisão sobre fornecer armas aos rebeldes sírios. Obama muito provavelmente aprovará a decisão, “dado que, nos últimos dias, a situação da oposição tornou-se absolutamente precária”. Segundo a AP, o secretário de Estado John Kerry adiou sua viagem pelo Oriente Médio por vários dias, uma vez que deve participar de reuniões do Conselho de Segurança Nacional nas quais se discutirá o fornecimento de armas.

Seja como for, qualquer tentativa de alterar o rumo dos acontecimentos bombeando dinheiro e armas para a oposição dificilmente conseguirá salvá-la, e só causará novas e terríveis calamidades para o povo sírio.

Se a Europa e os EUA “progressistas” não querem defender o Oriente Médio de mergulhar em nova era medieval de perfil al-Qaedista, deveriam, no mínimo, tentar defender-se contra destino semelhante.

ATUALIZAÇÃO:

18/6/2013: A rede Al-Jazeera noticia o início de “conversações de paz diretas” entre os EUA e os Talibã, que se realizarão no Qatar: “onde os Talibã acabam de inaugurar um escritório de representação ‘diplomática’”. Diz a matéria:

Sohail Shaheen
Porta-voz dos Talibã, Mohammad Sohail Shaheen, membro do gabinete político do grupo disse à rede Al Jazeera que o grupo continuará armado e continuará a atacar alvos dos EUA no Afeganistão, mas, simultaneamente, iniciará conversações em busca de solução pacífica para o conflito.

Shaheen insistiu que não há qualquer tipo de acordo de cessar-fogo com os EUA e seus aliados, e que os Talibã trabalharão simultaneamente com opções políticas e militares.

Não há qualquer tipo de cessar-fogo com os EUA. Eles nos atacam e nós os atacamos – disse Shaheen.

O presidente Obama disse que a abertura do escritório dos Talibã é importante primeiro passo rumo à reconciliação entre os Talibã e o governo afegão. Mas alertou que o processo será longo. E insistiu que os Talibã devem romper quaisquer laços com a al-Qaeda e desistir de métodos violentos.


Obama, como se vê, já está dizendo e fazendo absolutamente qualquer coisa...