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sábado, 16 de maio de 2015

China x Japão: “Hiroshima e Nagasaki não foram bombardeadas por nada”

13/5/2015, [*] Shannon Tiezzi, The Diplomat
Chinese Diplomat: Hiroshima and Nagasaki Were Bombed for a Reason
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

 
Hiroshima, Japão - Memorial da Paz
Como parte da conferência em andamento para revisão do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares [orig. Treaty on the Non-Proliferation of Nuclear Weapons (NPT), o Ministro de Relações Exteriores do Japão, Fumio Kishida, conclamou os líderes globais a verem de perto as consequências devastadoras dos bombardeios com armas nucleares. Kishida convidou líderes a visitar Hiroshima e Nagasaki, as duas cidades japonesas que os EUA usaram como alvos de ataques nucleares no final da IIª Guerra Mundial, para que “vissem com os próprios olhos a realidade dos bombardeios atômicos”.
Mas o jornal Kyodo News noticia que o comitê revisor do NPT removeu das versões do acordo que estão sendo analisadas todos os trechos que contivessem esse tipo de linguajar, depois de receber objeções do representante da China, Fu Cong.

Fu associou a ênfase nas cidades de Hiroshima e Nagasaki a tentativas do Japão para “distorcer a história”, colocando-se como única vítima.

Como Mina Pollmann já observara antes em coluna para o Tokyo Report blog de The Diplomat, o Japão, como única vítima de ataques atômicos está tendo papel de destaque na conferência de revisão do NPT. Políticos japoneses, incluídos os prefeitos de Hiroshima e Nagasaki, exigiram que os estados signatários do Tratado de Não Proliferação tomem medidas concretas com o objetivo de realmente eliminar as armas nucleares. Vítimas dos bombardeios contra Hiroshima e Nagasaki, conhecidos como hibakusha (em japonês), participaram da conferência para dar mais peso às discussões sobre as horrendas consequências dos ataques dos EUA contra as duas cidades japonesas.

Kishida também se referiu a essa questão em sua fala à conferência revisora do TNP. Disse que:
 
(...) um reconhecimento comum das consequências das armas nucleares no plano humanitário (...) pode servir como força motriz para o desarmamento nuclear.

Na sequência desse comentário, convidou “líderes políticos e jovens” a viajarem a Hiroshima e Nagasaki, particularmente quando os líderes estiverem no Japão para as reuniões do G7 no próximo ano.

China - lançamento das Lanternas da Paz
O Japão estava insistindo muito firmemente para que esse tipo de comentário fosse inserido nos documentos finais da conferência, mas a China (como também a Coreia do Sul) objetou, em termos muito firmes. Fu disse ao jornal Kyodo News que, na 2ª-feira (11/5/2015), requerera que aquela referência fosse removida da versão preparatória que está sendo discutida do documento final. Disse que:
 
(...) essa conferência deve afastar-se desse tipo de referências, porque há excessivas “referências históricas” associadas aos bombardeios contra Hiroshima e Nagasaki.

Fu argumentou que, ao enfatizar o sofrimento causado pelos bombardeios, o governo do Japão “tenta pintar o Japão como vítima da IIª Guerra Mundial, não como agente ativo da própria guerra”. Enfatizou a muitas atrocidades que os japoneses cometeram em guerras na China, Coreia e Sudeste da Ásia, atrocidades que o representante chinês acusou Tóquio de estar tentando negar ou minimizar.
 
Não queremos qualquer menção a Hiroshima [ou] Nagasaki , porque houve razões que determinaram o bombardeio dessas duas cidades, disse Fu.
Fazer referência às duas cidades no documento final do Tratado de Não Proliferação “é como impor à conferência uma interpretação unilateral de eventos da IIª Guerra Mundial” – disse Fu.

A porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da China, Hua Chunying, respondeu de modo semelhante, quando perguntada sobre a conferência revisora do TNP na 3ª-feira (12/5/2015). Disse que todas as partes devem “evitar introduzir fatores complicados e muito sensíveis” nas negociações da conferência revisora. Pressionada a dizer se líderes chineses tinham planos para visitar Hiroshima e Nagasaki, Hua respondeu:
 
Permitam-me perguntar antes: quando os líderes japoneses planejam vir à China e visitar o memorial em homenagem às vítimas do massacre de Nanjing?

Calçada com estátuas homenageando as vítimas do massacre de Nanjing - China


Para muitos chineses, a violência que houve depois que as tropas japonesas conquistaram Nanjing dia 13/12/1937 é emblemática das atrocidades que os japoneses cometeram em tempos de guerra – e do revisionismo histórico japonês. O governo chinês, que recentemente converteu o dia 13 de dezembro em dia nacional de homenagem aos mortos naquele massacre, diz que 300 mil chineses civis foram mortos pelos soldados japoneses. Alguns funcionários do governo japonês, inclusive um diretor da rede nacional de notícias NHK
, têm negado até que o massacre tenha acontecido.

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[*] Shannon Tiezzi tem como foco principal a China. Escreve sobre as relações internacionais da China, política interna e economia. Atuou anteriormente como participante em pesquisas na Fundação Política de US-China, onde apresentou o programa semanal de televisão China Forum. Recebeu seu mestrado pela Universidade de Harvard e seu bacharelado pela Faculdade de William e Mary. Estudou na Universidade de Tsinghua, em Pequim.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Pepe Escobar: “Ardo em febre!” E a única receita é bombardear o Irã?!


7/8/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Onde está o grande Christopher Walken, quando se precisa dele? “Ardo em febre!” [1] E a única receita é bombardear o Irã?! É o resumo da história, pelo menos em Israel. E pelo menos nos próximos seis meses, a febre subirá.

No fim de semana passado, o jornal Israel Hayom – financiado pelo magnata de cassinos e companheiro de Mitt Romney, Sheldon Adelson – dedicou um suplemento inteiro à febre. Os artigos levavam manchetes do tipo “Bombardear ou levar bomba: no pôquer, esconda as cartas junto ao peito”.

Antes, semana passada, vazamento para o diário Yediot Ahronot [2] revelou que la crème dos comandantes militares israelenses estão contra a guerra ao Irã – conhecida, em versão asséptica, como “ataque preventivo”.

O elenco de atores é impressionante: o comandante do Estado-Maior Benny Gantz; o Chefe de Operações do Exército de Israel Ya'akov Ayash; Tamir Pardo, Chefe do Mossad; Aviv Kochavi, encarregado da Aman, comando superior dos serviços de inteligência; os chefes de divisão do Mossad; o Comandante da Força Aérea de Israel Amir Eshel; para nem falar de pelo menos quatro ministros dos oito que compõem o “gabinete de cozinha” do Primeiro-Ministro Bibi Netanyahu.

Aiatolá Khamenei
Há nuances. Alguns admitem que só apoiariam ataque ao Irã, no caso de o Supremo Líder Aiatolá Khamenei – ou inspetores da Agência de Energia Atômica (AIEA) – anunciarem alguma nova hiper arma, que mude o jogo. Outros admitem que só apoiariam ataque ao Irã, se os EUA se engajassem: é o que dizem dois ex-chefes aposentados do Mossad, Meir Dagan e Efraim Halevy; e o ex-comandante do Estado-Maior, Gabi Ashkenazi.

O jogador chave aqui, é claro, é Gantz, que sempre manteve sobre a mesa a opção de ataque. Mas também fez vazar que sabe que nenhum ataque, mesmo que bem-sucedido, conseguirá destruir o programa nuclear iraniano; e, além disso, teme as repercussões geopolíticas. Quando Gantz admitiu apenas uma pequenina porção de tudo isso, num canal de televisão em Israel, o Ministro da Defesa Ehud Barak ordenou que a entrevista “desaparecesse”. [3]

Assim sendo, temos, essencialmente, só Bibi e Barak contra todos os supramencionados. O que impõe, no mínimo, duas perguntas chaves. Como Bibi ordenaria algum ataque, se as mentes mais bem informadas em Israel sabem que o ataque provocaria, no máximo, adiamento de seis meses no programa nuclear iraniano, como o demonstram os detalhados cálculos dos EUA? E que qualquer ataque levaria Teerã a abandonar de vez o “período de latência” atual, prudente, e partir, de vez, para o front bélico superarmado?

Murphy, atenda o telefone!

Negativas que nada negam saltarão de todos os cantos, mas só a população nativa de Alice no País das Maravilhas ainda crê que Israel atacaria o Irã sem ter recebido luz absolutamente verde de Washington. Rússia, China, Paquistão, todo mundo conhece em detalhe a movimentação do jogo das cadeiras de EUA-Israel, antes de algum possível ataque ao Irã. [4]

Ira Sharkansky
Ira Sharkansky, professor de Ciência Política da Universidade Hebraica, que assina um blog do jornal Jerusalem Post, menciona mais um ex-chefe do Mossad a dizer que Israel não deve – e provavelmente nem tentará – agir sem claro consentimento dos EUA.

Um novo blog coletivo de política externa  tentou responder alguns dos imponderáveis. Mas, no frigir dos ovos, é aquela velha máxima de Hollywood: ninguém sabe de nada.

Ninguém sabe se os militares israelenses arranjarão alguma espécie de rota aérea mágica (que, por exemplo, não sobrevoe o Iraque; e ninguém nem pense em atacar por terra, ou usar a bomba atômica). Embora Israel tenha meios para lançar uma operação “Mini-Choque e Pavor” contra posições do Hezbollah no Líbano; embora ainda guarde número suficiente de mísseis estoura-bunker de modelo antigo para atingir instalações iranianas escondidas em montanhas.

A Lei de Murphy aplica-se aqui. Até o Pentágono sabe que tudo que pode dar errado, pode, sim-senhor, dar muito, muito errado, mesmo. [5]

E ainda que nada disso fosse assim, permanece a pergunta de um trilhão de dólares: que tipo de jogo joga, de fato, o presidente Barack Obama dos EUA?

Tudo seria perdoado, se se tratasse de delírio causado por exposição prolongada ao sol do verão. Mas estamos falando de guerra, guerra preventiva, ação de quem finge que não vê a lei internacional – e baseada um conjunto concêntrico de hipóteses fracas, para nem falar das mentiras.

A AIEA - Agência Internacional de Energia Atômica, o “US National Intelligence Estimates (NIEs)” e até a inteligência israelense já sabem que não há programa iraniano de armas nucleares. A Rússia – que tem milhares de técnicos trabalhando no Irã – também sabe.

A noção de que o Irã seria ameaça a Israel é fantasia brotada de manifesto Dadaísta. Israel é real – não apenas suposta ou declarada – potência nuclear (e nunca assinou o Tratado de Não Proliferação). O Irã (signatário do TNP) não é potência nuclear.

John Glazer
Como John Glazer, da página Antiwar.com, resume bem: “os EUA já cercaram militarmente o Irã, já organizaram e executaram operações clandestinas, com Israel, vivem a ameaçar o Irã com ataques militares preemptivos, e impões as mais duras sanções econômicas contra o Irã”. [6] Ameaça? Quem, aqui, ameaça quem?

Pois é verdadeiramente incrível o modo como Telavive consegue perpetrar, uma depois da outra, as mais fabulosas operações de propaganda – pelo menos no que tenha a ver com manter a opinião pública nos EUA em estado permanente de lavagem cerebral – só mudando a linha vermelha. [7]

Basta ler atentamente a entrevista de Barak à CNN que se vê em 30/7/2012.

Está tudo ali. Não há qualquer tipo de programa iraniano de armas nucleares. O Irã não ameaça ninguém – nem imediatamente nem de qualquer outro modo. O que se conhece naquela entrevista é um Ministro da Defesa de um país declarando que outro país fica proibido de pôr o pé numa “zona de imunidade” dentro da qual estaria protegido e nunca seria perturbado, atacado, bombardeado, invadido.

Imagine se fosse um ministro chinês ou russo da Defesa (chinesa ou russa) que dissesse, em tom de quem discute futebol, o que Barak disse com todas as letras na televisão dos EUA.

De volta ao Grande Jogo

Todos os enroladíssimos conversa & pressupostos que garantiriam a possibilidade de um ataque de Israel ao Irã não passa disso: enrolação.

Vários países – dentre os quais Japão, Coreia do Sul e Brasil – têm toda a capacidade necessária para montar uma bomba atômica: a tecnologia é velha, de décadas. Não significa que terão bomba atômica.

A evidência de que Teerã permite as inspeções imensamente intrusivas da AIEA e de que fez várias concessões ao longo de vários anos, muito maiores do que as concessões às quais seria obrigada pelo TNP, prova que o Irã não deseja construir uma bomba amanhã (nem ontem, segundo Israel). E mesmo que desejasse, a construção sempre seria detectada a tempo.

Barack Obama
No pé em que estão as coisas, Obama parece estar apostando que Bibi, jogador de pôquer, não terá coragem para ordenar ataque contra o Irã enquanto ele, Obama, habitar o Salão Oval. É argumento bem plausível para explicar por que Obama poderia ser tentado a lançar uma surpresa de outubro; mas o mais provável é que Obama, pragmático ultracauteloso, só decida pelo ataque em situação de absoluto desespero. Quanto a Bibi, ele adoraria que Washington fizesse por ele o serviço sujo (que Israel, como Benny Gantz sabe muito bem, não tem meios para fazer). Portanto, Bibi já está operando em modo “À espera de Mitt”.

Quanto ao Grande Quadro – o Novo Grande Jogo na Eurásia – o programa nuclear iraniano é só um pretexto; de fato, o único que resta hoje no mercado. Vai muito além de Israel e sua própria febre regional.

Se se perscruta a densa neblina que envolve 33 anos de desconfianças entre Washington e Teerã, a febre de Washington nunca cedeu, desde Clinton I e II até Bush I e II e até Obama e depois: precisamos mudar aquele regime; precisamos lá de uma satrapia persa como havia antes; precisamos de todo aquele petróleo e aquele gás do Golfo Persa e do Mar Cáspio, para o Ocidente, não para o Oriente; temos de controlar esse nódulo estratégico vital na Eurásia. Essa é febre, parece, incurável.

Notas de rodapé:
1. Assista a seguir:

Diz ele (em tradução tentativa, mais literal): “Tô pegando fogo! E só me receitam chocalhinho?!”, referência a uma gravação de rock pesado, da qual o personagem reclama.
Cowbell” (lit. “chocalho de vaca”, cincerro) é um instrumento musical.

2. 31/7/2012, Jewish Daily Forward, J.J. Goldberg em: Bibi Can't OK Iran Strike As Defense Chiefs Demur.

3. Assista a seguir:

4. 6/8/2012, Russia Today, Reuters, Issei Kato em: “Israel arranging roles in Iran war theater?.
5. 16/3/2012, New York Times, Mark Mazzetti e Thom Shanker em: U.S. War Game Sees Perils of Israeli Strike Against Iran.
6. 3/8/2012, Antiwar.blog John Glazer em: Ehud Barak Admits Iran Has Defensive Posture, No Weapons Program
7. 6/8/2012, The Atlantic, Micah Zenko em: “Can We Still Tell if Iran Decides to Build a Nuclear Bomb?”

terça-feira, 10 de julho de 2012

Pepe Escobar: “O Irã não vai rachar”


8/7/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online - THE ROVING EYE
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
Comecemos ao estilo marreta. O Irã não vai rachar. O Irã não vai rachar. O Irã não rachará.

Mas nem à marreta se consegue perfurar a carapaça de fantasia que envolve a elite dos EUA, que numa incansável campanha de propaganda tenta vender como “a comunidade internacional”.

Veja-se, por exemplo, essa simples coluna de jornal, na qual se descobre que “a comunidade internacional está agora à espera de rachaduras na posição desafiadora de Teerã: mais sanções forçarão Teerã a fazer reais concessões e admitir uma solução diplomática para o impasse?” [1]

Resposta curta: NÃO.

Aviso aos não iniciados: “comunidade internacional” não é o conglomerado CCGOTAN plus Israel. Não apenas os BRICS, grupo das potências emergentes, mas também os mais de 110 membros do Movimento dos Não Alinhados (MNA) – quer dizer, a absoluta maioria de uma verdadeira “comunidade internacional” – estão horrorizados com o modo como é tratado o Irã, como pária, nas negociações com o P5+1, os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU plus Alemanha.

A coluna prossegue, observando que “os iranianos não aproveitaram a chance” (na essência, de submeter-se à diplomacia “desista e morra” que Washington tenta aplicar ao Irã, nas negociações nucleares em curso). “Em vez disso, os iranianos exigem reconhecimento de seu direito de enriquecer”. (É claro que o Irã tem todo o direito de enriquecer urânio – como signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear, TNP).


O que torna especial essa coluna e que não é assinada por algum neoconservador pirado. É assinada por “professora de questões internacionais da Kennedy School da Universidade de Harvard, ex-vice conselheira de Segurança Nacional e membro do Conselho de Relações Exteriores”. Se é medida do nível de debate intelectual em curso na porta giratória em que se misturam academia, colunismo de jornal e políticos, só resta às elites nos EUA temer o futuro como se temeu a peste bubônica.

Veja onde pisa

De volta ao mundo real – onde os fatos desmentem os delírios.

A Rússia é a favor de uma “abordagem passo a passo” nas negociações nucleares em curso. Significa que o Irã aumentará gradualmente a cooperação com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e, em troca, as sanções serão gradualmente revogadas.

Examinem detida e atentamente o documento que se lê [em inglês] em “Iran Nuclear Talks With 5+1, vazado no início da semana pela missão diplomática do Irã na ONU. Ali está a essência da posição do Irã, que fala de “cooperação de longo prazo”, a qual pode vir a derrubar a muralha de desconfiança que separa EUA e Irã desde 1979.

Qualquer observador e participante informado sabe que esse interminável drama geopolítico vai muito além do dossiê nuclear do Irã. Mas qualquer solução tem de começar de algum ponto – e o “algum ponto” é o reconhecimento do direito do Irã a enriquecer urânio; depois disso, trata-se do afrouxamento paulatino das sanções.

É exatamente a “abordagem passo a passo” racional que Moscou apoia. O penúltimo passo seria “um acordo amplo sobre compromissos coletivos nas áreas econômica, política, de segurança e de cooperação internacional”.

Significa reconhecer os direitos e a soberania do Irã – em vez de demonizar e castigar o Irã porque o conglomerado CCGOTAN plus Israel detesta/teme uma República Islâmica de maioria xiita.

Ninguém precisa de poltrona estofada de empregado da Escola Kennedy de Governo para ver que a resposta de Washington será um retumbante “não”. Washington, Londres, Paris e Berlim – mas não Moscou e Pequim – evitarão que as negociações cheguem a algum lugar, se o Irã não abdicar do enriquecimento do urânio.

Charge do Bira
Passa a ser crucialmente importante voltar ao dia 17/5/2010, quando Brasil, Turquia e Irã, depois de 18 horas ininterruptas de trabalho diplomático em Teerã, chegaram a um acordo: o Irã enviaria seu urânio baixo-enriquecido para a Turquia e receberia combustível nuclear para um reator de pesquisas.

Hillary Clinton
Até alguns países árabes – incluídos aí membros do CCG – foram favoráveis àquele acordo, além de Paris. Moscou e Pequim mantiveram um pé atrás – porque lhes parecia que o Irã abdicava de direitos assegurados pelo TNP. Seja como for, no dia seguinte a secretária de Estado Hillary Clinton torpedeou o acordo – essencialmente porque permitia que o Irã continuasse a enriquecer urânio.

Atores rachados

Washington foi soft em relação ao Iraque, durante mais de uma década: só sanções linha-super-duríssima, antes de conseguir disparar a operação “Choque e Pavor” e acabar de destruir uma nação já completamente debilitada e fragmentada. Por mais que insistam os cegos desejantes que esbravejam e batem cabeça envoltos na neblina em que vivem os neoconservadores e os falsos liberais, essa “estratégia” não funcionará no Irã.

Apesar de o Irã estar vendendo menos petróleo, e ainda que esteja, de fato, banido do sistema financeiro internacional, Teerã encontrará meios para contornar as novas sanções e o embargo ao petróleo impostos pela União Europeia, e o preço do petróleo será puxado para cima. A China continuará como firme compradora de petróleo – pagando menos (em yuan) pelo petróleo iraniano, mas comprando maiores quantidades. A Eurozona não rachará – não, pelo menos, por hora – o que implica que a demanda por petróleo não cairá.

Sobretudo, o Majlis (Parlamento) iraniano está às vésperas de aprovar a lei que autorizará inspeções de todos os navios-petroleiros que passem pelo Estreito de Ormuz em viagem para países que participem do embargo. Mesmo que não passem de inspeções policiais de rotina, o principal efeito será mais um aumento no preço do petróleo. A principal vítima será – mais uma vez – a União Europeia, confirmando a infinita capacidade de Bruxelas para agir contra os interesses nacionais dos estados-membros.

Se se cruzam os artigos de Kaveh Afrasiabi (5/7/2012, Iran's Persian Gulf gambit takes shape/O gambito do Irã no Golfo Persa toma forma [2]) e de Chris Cook (4/7/2012, Introducing the E-3/O “E-3” [3]: Apresentação [4]), neste Asia Times Online, surgem mais inúmeras vias para explorar dimensões inexploradas de “O Irã não vai rachar”.

O governo Obama tem de tomar uma decisão no mundo real, uma via ou outra: ou a escola de diplomacia “desista e morra”, ou negociação às veras. Tratar o Irã como se fosse estado pária só igualará o governo Obama ao governo Bush – cuja operação “Choque e Pavor” resultou no que hoje se vê: Bagdá firmemente aliada a Teerã (e os EUA não se transformaram em “nova OPEP”, como Paul Wolfowitz, pregador de guerras e mais guerras, “previu” que aconteceria).

Mas tudo isso some do cenário, se se vêem Irã, Rússia e China já negociando energia em outras moedas (como já fazem): é o começo do fim do petrodólar como pilar da política global de energia; é o começo do fim também, portanto, da hegemonia dos EUA. A turma de “especialistas” que esperam que o Irã rache tem de voltar à escola e recomeçar os estudos.


Notas de rodapé
[1] 6/7/2012, Los Angeles Times, Meghan L. O'Sullivan em: “Will Iran crack? .
[2]  6/7/2012 Asia Times Online, Kaveh L Afrasiabi em: “Iran's Persian Gulf gambit takes shape
[3]  “E-3” é nova sigla proposta para um novo grupo global no qual se estão unindo: os dois maiores produtores de energia do mundo (Irã e Rússia) e o país cujo consumo de energia cresce mais rapidamente hoje, no mundo: a China.
[4] 4/7/2012, Ásia Times Online, Chris Cook em: “Introducing the E-3 (em tradução).

terça-feira, 29 de maio de 2012

Pepe Escobar – “Irã e Europa, até que a morte nos separe”


25/5/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
Quer dizer então que a grandiosa estratégia da política externa do governo Barack Obama, de tentar demonstrar a quadratura do círculo nas duas frentes (tentar obter um acordo nuclear com o Irã e, simultaneamente, repor nos trilhos a economia da Eurozona), afinal deslanchou. Só não se sabe para aonde (Ver “Pepe Escobar: Guerra e cheeseburgers” de 22/5/2012).

Nem Zeus sabe. Todas as discussões da semana passada em Bagdá e Bruxelas só fizeram empurrar a bola cada vez mais na direção de Moscou e de Paris/Berlin.

A história em Bagdá

Conselho de Segurança da ONU
A muito esperada reunião dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU – EUA, China, Rússia, Grã-Bretanha e França, “mais” a Alemanha (P5+1) – com o Irã, em Bagdá, pelo menos produziu um resultado: uma terceira rodada de negociações em Moscou, mês que vem.

Nem poderia ser diferente. Um P5+1 rachado (de um lado, EUA e Europa e, de outro, os países BRICS, China e Rússia) queria que o Irã parasse completamente de enriquecer urânio a 19,75% – apesar de o Irã ter pleno de direito de fazer esse enriquecimento, como signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP). Em troca, o P5+1 ofereceu aliviar (pouco) o pacote de sanções, permitindo que os EUA vendam ao Irã peças de reposição para aviões e uma vaga “assistência” para desenvolver o setor de energia solar no Irã.

Conversações de Bagdá - Irã  e P5+1
Teerã não mudou um milímetro na posição inicial. Para ser considerada, a proposta do P5+1 teria de ser “significativamente revista e reformada” – segundo informe da agência de notícias IRNA. O principal objetivo do Irã, nessas negociações, é aliviar as sanções do Conselho de Segurança. Para a liderança iraniana, há diferença bem demarcada entre a ONU como um todo, e a muralha de desconfiança que envolve qualquer governo dos EUA. Rússia e China apoiam os iranianos.

Teerã até aceita, em princípio, a ideia de receber do exterior o suprimento de urânio enriquecido a 19,75% de que precisa para produzir combustível para seu reator de uso médico. E talvez até aceite que a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) inspecione a base militar em Parchin (embora a AIEA não tenha competência para tanto).

Mas o ponto chave ainda é que o grupo P5+1 reduziu a poeira o Tratado de Não Proliferação. O mantra é sempre o mesmo, repetido desde 2006: Teerã tem de suspender qualquer tipo de enriquecimento de urânio. E a exigência tem sido imposta a ferro e fogo, mediante violentíssimo bloqueio financeiro, cujo objetivo principal é paralisar a economia do Irã, impedindo que o país venda petróleo através do sistema bancário internacional. Dizer que é ação injusta, é dizer escandalosamente pouco.

É quando entra em cena a União Europeia (UE) – com sanções extra e bloqueio ao petróleo, que, em teoria, entrarão em vigor dia 1º/7, que ultrapassam as sanções impostas pelo Conselho de Segurança e, para começar, são virtualmente ilegais. E a isso se acrescenta uma lei norte-americana a entrar em vigor dia 28/6, que proíbe bancos estrangeiros de operarem em negócios para pagar por petróleo iraniano.

Mas o governo Obama precisa de algum acordo – seja firmado em Moscou, ou onde for. É essencial, para que Obama o apresente como triunfo de sua política exterior. – De fato, é muito mais substancioso, como ‘triunfo’, que o assassinato de Osama bin Laden em ataque em território do Paquistão (Ver “Pepe Escobar: Como Osama reelege Obama”, 24/5/2012. 

Se não chegarem a acordo algum, o governo Obama será forçado a pressionar ainda mais a União Europeia para que, até pelo menos o final de 2012, implante a proibição de empresas europeias darem cobertura de seguro a petroleiros que transportem petróleo iraniano (empresas da União Europeia controlam praticamente todo o mercado global de seguros marítimos). [1]

Quem sofre os efeitos das sanções? Não a liderança em Teerã – alvo do muito suspeito projeto de “mudança de regime”. A ditadura militar do mulariato permanece confortavelmente no poder, com o preço do petróleo acima de $54/barril (hoje, o petróleo cru Brent está custando cerca de $106; o West Texas Intermediate, $90 [2]. E Teerã está vendendo energia em várias moedas, do Yuan à Rúpia indiana; e está engajada também em venda “no varejo” a clientes – sobretudo na Ásia.

Moral da história: a União Europeia terá de esquecer para sempre esse absurdo bloqueio contra o petróleo iraniano, para evitar problemas graves para si mesma e, por tabela, para a economia dos EUA.

A história em Bruxelas

Merkollande
O festivo nascimento da Merkollande foi registrado pela revista semanal alemã Der Spiegel. [3] 

O novo presidente francês François Hollande arrastou multidão monstro à sua primeira conferência de imprensa depois de reunião de Cúpula da União Europeia – que começou bem depois da 1h da manhã e durou mais de uma hora, quando a chanceler alemã Angela Merkel falou, por cinco minutos, para sala já metade vazia.

O cenário está montado para um confronto de nível Gotterdammerung/ Crepúsculo dos Deuses wagneriano. Hollande fará o diabo para provar a Merkel que a ideia de lançar Eurobônus é a única saída para escapar do desastre da Eurozona.

Hollande insiste que seria útil para países que enfrentam hiper dificuldades, como a Espanha, por exemplo, em termos de economizar no pagamento de juros estratosféricos e poder usar o dinheiro em investimento produtivo. Espanha, Itália, Irlanda e Áustria apoiam Hollande.

O argumento de Merkel é o argumento da Troika (Banco Central Europeu, Comissão Europeia e Fundo Monetário Internacional): Eurobônus violam a lei da União Europeia. Suécia, Finlândia e Países Baixos apoiam Merkel. Hollande admite que os tratados da União Europeia terão de ser reformados para acomodar os Eurobônus – o que implica enorme confusão, porque Grã-Bretanha e República Tcheca já rejeitaram uma proposta de emenda aos tratados, ano passado.

Toda a situação é imensamente complexa. Hollande admite que só num futuro distante se pode supor que alguns membros da União Europeia venham a aceitar os Eurobônus; alguns talvez aceitem, para objetivos muito específicos; e alguns, de saída, já rejeitam a ideia.

Joseph Stiglitz
Os banqueiros europeus, por sua vez, refugiam-se num difuso conceito de “sustentabilidade da dívida”: alguém tem de pagar, e são os assalariados. Pouco importa que Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel, esteja soltando fogo pelas ventas com “as pontificâncias” desses que, “no reino dos bancos centrais, ministros das finanças e banqueiros privados, arrastaram o sistema financeiro global até a beira da ruína e criaram toda a confusão”. [4]

Ninguém parece estar apontando em subsídios multianuais, dos países do núcleo da Europa para os países da periferia, a maioria dos quais são parte do Club Med. Ao mesmo tempo, todos sabem que jamais haverá placa de “Saída” na Eurozona. Mas, atualmente, o impensável já é pensável.

Seja como for, o que está sendo descrito como um orwelliano “pacote de crescimento” só será decidido na próxima reunião formal da União Europeia no final de junho – depois de dois eventos cruciais dia 17/6: as eleições parlamentares na França e a possível vitória da Coalizão Syriza, de esquerda, na Grécia, cujo principal ponto de plataforma eleitoral é renegociar o resgate que Berlin/Bruxelas impuseram ao país.

A verdade, vale registrar, é que os líderes políticos da União Europeia absolutamente não sabem o que fazer com a Grécia. Ao mesmo tempo em que querem acalmar o deus do mercado e dizem que a Grécia nunca deixará o euro, também ameaçam os gregos: “Se não votarem certo, serão expulsos do euro”. Não surpreende que o governo Obama esteja tomado de perplexidade. Comparado a isso, assassinar Osama foi mamão com açúcar.



Notas dos tradutores

[1] Sobre essa questão, ver matéria de atualização em 23/5/2012: REUTERS: “Japão pode garantir cobertura de seguro aos petroleiros que transportem petróleo iraniano”.

[2]Brent crude e West Texas Intermediate (WTI) são dois tipos de cotação: WTI é a cotação do petróleo comercializado na Bolsa de Nova York; aplica-se em geral ao produto extraído principalmente na região do Golfo do México; o Brent é comercializado na Bolsa Londres; aplica-se ao petróleo extraído no Mar do Norte e no Oriente Médio. O Brent é referência de valor mais usada no mercado europeu; e o WTI, no mercado americano. Mas as diferenças não são apenas geográficas. O WTI é cotação usada para petróleo mais leve e mais fácil de ser refinado (que, por isso, tem preço superior ao Brent)” [Nívea Terumi, O Estado de S.Paulo].

[3] 24/5/2012, Spiegel Online Internetional: Hollande Steals the Show from Merkel.

[4]13/5/2012, Joseph Stiglitz, Real Clear Politics: Rush to Austerity Will Doom Europe; Slate.