segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Os “hackers” não devem divulgar as falhas de segurança que descubram


29/11/2012, *Andrew (‘weev’) Auernheimer, Wired
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


*Andrew (‘weev’) Auernheimer é rato de internet, condenado duas vezes por crimes consecutivos de hacking de computadores; tem nos costados mais de uma década de trabalho com C, asm, Perl e de furiosa militância no IRC  [2]. É militante ativo na luta pela liberdade e, em breve, será prisioneiro numa prisão federal dos EUA.


NOTA DO EDITOR: O autor dessa coluna, também conhecido como “weev”, foi condenado, semana passada por invasão de computadores, depois de capturar, da página internet da empresa AT&T, uma lista não protegida de endereços de e-mails de mais de 100 mil proprietários de iPad, e entregá-la a um jornalista. A sentença definitiva deverá ser pronunciada dia 23/2/2013.

Nesse exato momento há um hacker por aí, em algum lugar, produzindo uma exploração zero-day  [3]. Quando terminar, sua exploração permitirá que qualquer pessoa que conheça o caminho tenha acesso a milhares – eventualmente, a milhões – de sistemas de computadores.

Mas o momento crítico não é a produção; é a distribuição. O que o hacker fará com o que obtiver em sua exploração? Eis o que pode acontecer depois de a falha/brecha no programa ter sido descoberta:

O hacker decide vender a terceiros o que encontrou. O hacker pode vender sua exploração a agentes inescrupulosos que vivem de comprar e vender informações de segurança, oferecendo o produto como “a proteção”. Ou o hacker pode vender o que encontrou a governos repressores, que podem usar a descoberta para espionar ativistas que protestam contra o mesmo (ou outros) governos opressores. (Há casos conhecidos de governo, entre os quais o governo dos EUA, que usam saberes obtidos de hackers para invadir qualquer coisa, inclusive outros serviços de inteligência doméstica e de países estrangeiros).

O hacker avisa o proprietário do sistema falhado, o qual pode – ou não – “remendar” [to patch] a falha. O proprietário/vendedor do sistema falhado pode “remendar” o programa vendido a clientes preferenciais (tradução: os que pagam mais caro), antes de remendar o programa vendido a clientes “comuns”. Ou o proprietário/vendedor pode decidir não distribuir o remendo, porque a análise custo-benefício feita por um de seus MBAs-empregados “mostra” que é mais barato não fazer, simplesmente... coisa alguma.

O proprietário/vendedor distribui o “remendo”, mas os clientes demoram a baixá-lo e instalá-lo. Não é raro que grandes usuários procedam, eles mesmos, às suas próprias testagens – e muitas vezes encontram falhas em programas, antes do proprietário/vendedor do programa; nesses casos, acontece frequentemente de o usuário produzir e distribuir “em casa”, para ele mesmo, remendos melhores. Tudo isso significa que os “remendos” distribuídos pelo proprietário/vendedor podem permanecer durante meses (às vezes, anos), sem serem usados pela grande maioria dos clientes/compradores/usuários.

O proprietário/vendedor cria um executável blindado com métodos anti-investigação e peritagem policial, para impedir a engenharia reversa. É o modo certo para aplicar remendos. Também é procedimento caríssimo, intensivo em mão de obra – o que implica dizer que só muito raramente é usado. Assim sendo, descobrir vulnerabilidades é tão simples quanto desarrolhar o executável velho e meter ali o novo executável, num IDA Pro debugger com BinDiff, para comparar e ver o que mudou num código disassembled. Já disse: é fácil.

Basicamente, explorar as vastas massas não remendadas é jogo fácil para qualquer explorador. Todos têm, cada um, seus próprios interesses a proteger. E os interesses de cada proprietário nem sempre coincidem com os interesses dos usuários.

As coisas não são tão preto ou branco

Proprietários/vendedores são motivados a proteger os próprios lucros e os interesses dos acionistas, acima de qualquer outro interesse. Os governos são motivados a valorizar acima de tudo os interesses da própria segurança, muito mais que os interesses e direitos individuais dos próprios cidadãos, e muito mais, ainda, que os interesses e direitos de outras nações.

E, para muitos atores do campo da segurança da informação, é muito mais lucrativo vender novos tratamentos, que nunca param de surgir, para tratar sintomas de doenças, do que vender a cura definitiva.

Muito claramente, nem todos os atores agirão eticamente ou competentemente. Além e acima de tudo, o hacker original raramente é pago por seu trabalho altamente qualificado, que exige alta e raríssima disciplina científica, e que visa a melhorar o programa do vendedor/proprietário e, em última análise, a proteger os usuários.

A quem contar o que só você sabe? Resposta: a ninguém; a absolutamente ninguém.

White Hat Hackers
Os cartolas brancas [4] são os hackers que decidem revelar o que descobrem: ao proprietário/vendedor ou ao grande público. Esses chamados “cartolas brancas” do mundo têm seu papel, distribuindo, com suas descobertas, também novas armas digitais.

O pesquisador Dan Guido fez a engenharia reversa de todas as ferramentas (“vírus”) usadas atualmente para exploração em massa (como Zeus, SpyEye, Clampi e outras). Suas descobertas sobre a fonte das explorações/ataques, divulgadas pelo Exploit Intelligence Project [5], são bem claras:

Os chamados cartolas brancas do mundo vêm desempenhando um papel na distribuição de armas digitais.

- Nenhuma das explorações usadas para exploração em massa foi desenvolvida por autores de programas-vírus [mal-intencionados].

– Diferente disso, todas as explorações vieram de “Advanced Persistent Threats” [Ameaças Persistentes Avançadas] (termo que a indústria usa para designar estados-nação) ou de descobertas feitas por cartolas brancas.

– Descobertas feitas por cartolas brancas correspondem a 100% das falhas lógicas usadas para ataques.

Os criminosos, segundo Guido, realmente “preferem o código dos cartolas brancas”, porque funciona de modo muito mais confiável que códigos distribuídos por fontes do submundo. A maioria dos autores de vírus não têm, de fato, a sofisticação necessária para alterar explorações já operantes e aumentar-lhes a efetividade.

Navegar pelo cinza

Alguns hackers de visão ampla da rede de computadores EFnet [6], rede de membros anônimos, anteviram com clareza, há 14 anos, o atoleiro de conflitos morais em que se converteria a questão da segurança de dados. Sem qualquer interesse em acumular riqueza pessoal, eles deram o primeiro passo do movimento de defesa da ética no campo dos computadores conhecido como Anti Security [literalmente, “antissegurança”] [7], ou “antisec”.

Os hackers do movimento Antisec focaram-se no movimento de investigação/exploração como atividade de disciplina intelectual, quase espiritual. Os Antisec não eram – não são – “grupo”; são, mais, uma filosofia com uma única posição nuclear:

Uma exploração é arma poderosa, que só deve ser exposta a pessoa que você tenha certeza (por conhecimento resultante de experiência-contato pessoal) que sempre agirá no interesse da justiça social. [8]

Afinal de contas, entregar o resultado de uma exploração a entidades sem essa ética fará de você parte dos crimes que venham a ser cometidos. É exatamente como entregar um rifle a quem você saiba que matará alguém.

Entregar o resultado de uma exploração a entidades sem ética fará de você parte dos crimes que a entidade cometa

Lulz Sec
Apesar de o movimento já ter mais de uma década de existência, a expressão “antisec” voltou recentemente aos noticiários. Mas, agora, creio que atos criminosos sancionados pelo Estado, estão sendo apresentado como se fossem atos de antisec. Por exemplo: Sabu, do movimento Lulzsec, foi preso pela primeira vez dia 7/6/2011; seus atos foram rotulados como “antisec” no dia 20 do mesmo mês. Significa que tudo que Sabu tenha feito sob esse rótulo foi feito com pleno conhecimento e, provavelmente, com a cumplicidade, do FBI. (O que inclui a divulgação pública de tabela de dados de autenticação que comprometeram a identidade de, possivelmente, milhões de indivíduos, pessoais e privados).  

Essa versão de antisec nada tem a ver com os princípios sobre os quais se baseia o movimento antisec do qual estou falando.

Mas o pessoal envolvido em atividade criminosa – os hackers que tomaram a decisão moralmente falhada de vender suas explorações a governos – já começa a defender publicamente os seus pecados indefensáveis.

Nesse ponto, precisamente, é onde o movimento antisec oferece contexto e quadro cultural útil, além de uma filosofia-guia, para que se pense sobre as áreas cinzentas da atividade de hacking. Por exemplo, a função-chave, nuclear, do movimento antisec, define como absolutamente inadequado, para jovens hackers, cultivar qualquer tipo de relacionamento com o complexo militar-industrial.

Bem claramente, a exploração de programas de computação pode implicar abuso de direitos humanos e violações de privacidade. E bem claramente também, nós temos de fazer alguma coisa quanto a isso.

Mas não acredito em leis de controle sobre o desenvolvimento e a venda dessas explorações. Os que vendam explorações não devem ser impedidos de vendê-las – mas, se venderem, têm de ser declarados gente-do-mal.

Em tempos de ciberespionagem rampante e invasão dos computadores de dissidentes políticos, o único destino ético que você deve dar aos resultados de suas explorações de zero-day é revelá-los a alguém que os usará no interesse da justiça social. Nunca será o proprietário/vendedor, nunca será algum governo, nem nunca será alguma empresa comercial: sempre será uma pessoa, um indivíduo.

Em raros casos, esse indivíduo talvez seja um jornalista que poderá amplificar o desmascaramento e a vergonha pública de algum operador de aplicativo para a rede. Mas, em muitos casos, o dano de expor as multidões de usuários que usam programas não remendados (e de desperdiçar o potencial da exploração, que deixa de ser usada contra governos opressores) ultrapassa, em muito, qualquer benefício que se obtenha por denunciar o erro ou o crime de uma empresa proprietária/vendedora. Nesses casos, a filosofia de antisec brilha como moralmente superior; e você não deve revelar a ninguém os resultados de sua exploração.

Assim, portanto, é hora de o movimento antisec voltar ao diálogo público sobre a ética de expor explorações. É o único modo que há para armarmos o pessoal do bem – sejam lá quem forem – pelo menos dessa vez, para variar.



Notas dos tradutores

[1]  O verbo to hack significa, originalmente, o movimento que se faz com um facão ou foice, para abrir uma picada em mato fechado. Metaforicamente, passou a designar a ação de abrir acesso a programas e computadores, para ver, copiar ou introduzir dados. Opõe-se ao verbo to crack, em que o processo de entrar em programas (mal) protegidos é feito com intenção criminosa.
[2]  Internet Relay Chat (IRC) é um protocolo de comunicação utilizado na Internet. É usado basicamente para bate-papo (chat) e troca de arquivos, permitindo a conversa em grupo ou privada. Foi documentado formalmente pela primeira vez em 1993.
[3]  Zero Day Exploit – [lit. exploração de dia-zero] Exploração cibernética feita através de uma vulnerabilidade em programa, da qual o desenvolvedor do programa não se tenha apercebido e que é descoberta pelo hacker. A expressão é usada no sentido de que o desenvolvedor do programa terá zero dias para trabalhar num patch [remendo, conserto], antes de um possível ataque (Urban Dictionary).
[4] Orig. Whitehat. Sobre os “cartola-branca”; Urban Dictionary (em inglês)

[5] “The Exploit Intelligence Project v2” (vídeo em inglês)

[6] Ver em Eris Free Network – EFnet. (em inglês)
[7] Ver na Wikipédia: “Antisec Movement” (em inglês)

domingo, 2 de dezembro de 2012

Robert Fisk: “Sderot - os moradores palestinos originais foram varridos do mapa por Israel”


26/11/2012, Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Os moradores de Huj – hoje já praticamente esquecidos – ajudaram o Haganah, milícias de judeus armados, a escapar dos britânicos, em 1948. Como agradecimento, foram expulsos para Gaza, como refugiados.

Acho que, no fim de semana passado, encontrei a vila de Huj – mas a placa na estrada dizia “Sderot”. O mundo conhece a antiga vila, hoje, como Sderot, a cidade israelense atingida pelos foguetes do Hamás. Até Barack Obama apareceu por lá, para visitar. Mas Huj tem muito a ver com essa história.

Robert Fisk
Pelos meus cálculos e mapas, a vila, há muito tempo destruída, fica do outro lado de uns campos, em frente a um centro recreativo, próximo à entrada de Sderot, uma fileira de casas velhas dispostas em círculo, onde crianças israelenses brincavam na tarde do Shabat.

Os habitantes de Huj eram todos palestinos árabes muçulmanos e, ironia das ironias, davam-se muito bem com os judeus da Palestina. Devemos agradecer ao historiador israelense Benny Morris a redescoberta da história deles, tão sombria quanto carregada de dor e tristeza.

A tragédia de Huj tem data conhecida: 31/5/1948. Foi quando o 7º Batalhão da Brigada Israelense do Negev, que tentava escapar do avanço do exército egípcio, chegou à vila. Nas palavras de Morris, “a brigada israelense expulsou os moradores da vila de Huj (...), para a Faixa de Gaza”.

Agradecimentos
Benny Morris

Morris elabora: “Huj, tradicionalmente, era vila amiga dos israelenses; em 1946, os moradores haviam escondido homens do Haganah, que estavam sendo perseguidos por uma brigada inglesa. Em meados de dezembro de 1947, durante visita a Gaza, o mukhtar (prefeito) e seu irmão foram assassinados por um grupo que os acusou de “colaborar com o inimigo”. Mas no final de maio, dada a proximidade da coluna egípcia que avançava, a Brigada do Negev decidiu expulsar os habitantes da vila. Em seguida, os israelenses saquearam e destruíram as casas”.

Quer dizer: o povo de Huj ajudara o exército de judeus do Haganah a escapar dos britânicos; como agradecimento, foram expulsos para Gaza, como refugiados. Segundo Morris, três meses depois da expulsão, os três líderes dos kibbutzim judeus mais próximos chegaram a protestar, em carta dirigida a David Ben Gurion, primeiro primeiro-ministro de Israel, contra o tratamento dado aos seus antigos vizinhos. Bem Gurion respondeu: “Espero que o QG dê atenção ao que vocês contam, e, no futuro, evitarei esse tipo de ação injusta e sem justificativa, e cuidarei para acertar essas contas com o passado, o mais depressa possível”. Mas Ben Gurion não instruiu o novo exército israelense a permitir o retorno dos moradores de Huj.

No mês seguinte, os palestinos pediram para voltar. O Departamento Israelense de Assuntos Domésticos observou que aquelas pessoas mereceriam tratamento especial, porque haviam sido “leais”, mas o exército israelense decidiu que não voltariam. Por isso, os palestinos de Huj tiveram de permanecer em Gaza, onde seus descendentes vivem até hoje, ainda como refugiados.

Walid Khalidi
Mas a atual Sderot, escreve o historiador palestino, Walid Khalidi, foi construída em terra cultivada que pertencia a outra vila árabe palestina chamada Najd, onde os 422 moradores muçulmanos viviam em 20 casas, plantando limões, bananas e cereais. Tiveram destino idêntico ao do povo de Huj. Nos dias 12 e 13 de maio de 1948, a Brigada do Negev do exército de Israel – novamente, segundo Morris – expulsou todos de suas casas. E eles também foram exilados para Gaza.


Ilan Pappé
Assim se fez a limpeza étnica da Palestina, como outro historiador israelense, Ilan Pappé, diz, sem meias palavras, do destino do povo que vivia e trabalhava a terra sobre a qual seria construída Sderot.

Ironia

Veem-se Huj e Najd no mapa que Munther Khaled Abu Khader reproduziu da Palestina do Mandato. Sderot foi fundada em 1951, mas Asraf Simi, que ali chegou em 1962 e depois trabalhou na biblioteca da cidade, nada sabe sobre essa história. Quando lhe perguntei, ela sacudiu os ombros. “Por aqui nada se ouve sobre assuntos árabes. Meu tio chegou no começo, por volta de 1955, e viveu lá, numa tenda – e todos pensávamos que essa seria uma das cidades mais modernas de Israel! Não tenho medo de nada – mas estou feliz com o cessar-fogo. Acho que deveríamos ir até lá e acabar com aquilo de uma vez para sempre”.

Outra ironia. Asraf Simi nasceu no Marrocos e aprendeu a falar árabe com sotaque marroquino, antes de partir para Israel, aos 17 anos. E não sabe que hoje, na miséria de Gaza, vivem bem mais de 6 mil descendentes do povo que vivia em Huj. Dessa matéria se faz a tragédia palestina, a Nakba – catástrofe – tão diretamente conectada com os israelenses de Sderot.


Por isso, precisamente, Israel não pode “ir lá e acabar com aquilo de uma vez para sempre”. Porque os milhares de foguetes que caem sobre os israelenses ao longo dos últimos 12 anos vêm exatamente de onde hoje vivem as famílias que, antes, viviam em terra que lhes pertencia e de onde foram expulsas por Israel. Por isso Sderot tem ligação tão íntima com uma data que o presidente Obama parece ter esquecido completamente quando aqui esteve, em visita: 1948, o ano que não acabou.

Serguey Lavrov: “EUA não podem comandar à bala nenhuma democracia”


1/12/2012, RIA Novosti e Itar-Tass (em STOP NATO)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Serguey Lavrov é o atual Ministro das Relações Exteriores da Rússia

Sergey Lavrov
MOSCOU – “Resolver problemas mundiais pela força, como os EUA tentam fazer, não funciona. A via de tentar comandar a democracia à bala não funciona. Mas foi exatamente o que se viu no caso do Iraque e em outros países. E, hoje, já ninguém sabe o que acontecerá no Oriente Médio, inclusive na Síria” – disse o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, hoje, no discurso de abertura da 20ª sessão do Conselho de Política Externa e Defesa.

Lavrov lembrou o que resultou de várias tentativas anteriores de usar a força e de atropelar decisões do Conselho de Segurança, e manifestou as preocupações da Rússia ante a evidência de que há estados que tentam hoje tomar “o modelo líbio, como precedente”. 

Falando sobre o futuro da ordem mundial, Lavrov disse que “no futuro, veremos que várias regras ainda usadas hoje na política mundial já não existirão. Deve esperar que, nos próximos 20 anos, a ordem mundial seja mais complexa. O fortalecimento das capacidades de defesa da Rússia nesse mundo em turbulência está longe de ser questão de status. É necessidade vital”.

O ministro russo insistiu em que os sentimentos confrontacionais na região do Atlântico europeu parecem excitantes para alguns, mas são via politicamente insustentável, que levam a um beco sem saída. “Essa não é, não, de modo algum, a via que os russos escolhemos” – disse o ministro Lavrov.

Atualmente se fala muito sobre o fator força nas relações internacionais. O acúmulo de tensões é causa de preocupações e, “sim”, disse Lavrov, “as tensões estão-se acumulando. É o que se confirma na maior intensidade, hoje, dos conflitos internacionais. Mas os russos estamos atentos às consequências, que todos conhecemos bem, da intervenção armada de forças estrangeiras não sancionadas pela ONU”.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Congresso uruguaio votará projeto de lei que autoriza produção doméstica de maconha


Depois de legalizar o aborto...

15/11/2012, Pablo Fernandez, Huffington Post
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu: IMPRESSIONANTE! No Brasil, há “teóricos” [só rindo!] de televisão, até para ensinar a macaquear os ternos de Obama (“Na cola de Obama: escolha o terno certo para seu tipo físico”, Rede Globo, 29/11/2012  [1]). Mas NÃO HÁ jornalismo no Brasil que informe sobre o Uruguai, nosso vizinho de porta.
O jornalismo brasileiro é o pior do mundo.
O jornalismo do Huffington Post não é muito melhor. Na matéria abaixo, suprimimos todos os trechos em que O JORNAL E O JORNALISTA manifestam opiniões exclusivamente deles, representam exclusivamente o pensamento da empresa-imprensa que publica a notícia e não interessam a ninguém mais que a eles mesmos.
Assim, corrigimos o enviesamento doentio, também do jornalismo norte-americano. Lá, como cá, todos os jornalistas “ético-fascistas” defendem a “guerra às drogas” à moda do Departamento de Estado dos EUA, vale dizer: à bala e bem preservados os lucros estratosféricos das grandes empresas privadas do tráfico, que vivem de corromper o Estado e as empresas-imprensa.

Processamento de maconha ou marijuana 
Montevidéu, Uruguai – (...) O projeto de lei que será votado [provavelmente em 2013] no Congresso do Uruguai é mais liberal do que o que foi proposto há meses pelo governo do presidente José Mujica (...). [2]

O projeto, se aprovado, criará um Instituto Nacional Cannabis, com competência para autorizar indivíduos e empresas a produzir e vender maconha para consumo recreacional e medicinal e para usos industriais. Permitirá também o cultivo doméstico de pequenas quantidades de maconha e a a posse do produto para consumo pessoal.

Coletta Youngers
“A base do projeto e a mesma: criar mercados controlados pelo Estado. O Estado participa com o quadro legal” – disse à Associated Press Coletta Youngers, especialista em políticas para as drogas do Washington Office para a América Latina, que trabalhou em Montevidéu como assessora dos parlamentares e outros especialistas locais na redação da nova lei. “A principal diferença em relação ao projeto original é que agora se incorporou a possibilidade de cultivo para uso pessoa e criaram-se os “clubes cannabis” (cooperativas de produção e venda), que não havia no projeto inicial”.

A nova lei uruguaia visa a extinguir o mercado ilegal, permitindo que usuários comprem maconha legalmente, sem alimentarem a indústria e o comércio ilegais e violentos, que se servem da maconha para criar dependentes de drogas mais pesadas, como cocaína e seus derivados. (...)

A lei a ser votada permite que qualquer cidadão uruguaio cultive a planta (até seis vasos e produza até 480 g de marijuana por floração) em casa e tenha em seu poder até 40g. As pessoas podem-se unir em grupos legais de até 15 cultivadores e usuários que, juntos, são autorizados a cultivar até 90 plantas e produzir até 7,2 kg por ano. A lei preservará o sigilo quanto à identidade dos compradores.

Vários aspectos da proposta são semelhantes à lei recentemente aprovada no estado do Colorado, EUA, que também permite o cultivo doméstico de seis vasos por floração para consumo pessoal. No estado de Washington, contudo, a lei não permite o cultivo doméstico da planta. As novas leis, em todos os casos, manifestam significativa mudança na opinião pública, sobre a marijuana, disse Youngers.

Pablo Fernandez
“O governo uruguaio ainda está pesquisando para definir o melhor modo de implementar as novas leis” – disse Youngers. “Trata-se de um experimento. Nenhum país tentou nada semelhante a isso. O Uruguai entende que precisa de uma lei geral, que demarque o grande contexto, mas o governo quer preservar a máxima flexibilidade para fazer os ajustes que se revelem necessários na prática”. (...)

Juan Vaz, ativista militante pró legalização da maconha no Uruguai, e que trabalhou com os funcionários do governo uruguaio na redação do novo projeto, declarou-se satisfeito com o texto encaminhado ao Congresso, mas disse que preferiria que as cooperativas de plantação de maconha fossem maiores, com mais de 15 membros.

“Seja como for” – disse ele – “as coisas estão acontecendo. Muitos detalhes ainda podem ser melhorados, mas vivemos tempos de mudança, para os quais não há receitas prontas. Ninguém, antes, tentou esse caminho”.




Notas dos tradutores
[1] 29/11/2012, TVGlobo, Mais Você, em: “Na cola de Obama e 007: escolha o terno certo para seu tipo físico”
[2] Sobre o projeto original, 19/9/2012, Programa de las Americas, Raúl Zibechi em: Uruguay rechaza la “guerra contra las drogas”, (em espanhol).

A nova realidade em Gaza


1/12/2012, Ramzy Baroud, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Ramzy Baroud
Há fenômenos que não se explicam pela lógica ordinária, nem em linguagem técnica, muito menos em discursos oficiais. Como Gaza conseguiu reagir e resistir com tal vigor, enfrentando Israel e sua mais recente guerra, apesar dos anos de sítio sangrento e sob agressão ininterrupta, ainda mais enfraquecida, como parecia, depois dos ataques israelenses de 2008-9? Impossível explicar, na linguagem fora de moda dos “analistas” e “especialistas” da imprensa-empresa que há hoje. Por menos que digam, porém, muitos já viram que está emergindo em Gaza uma nova realidade.

Na “Operação Chumbo Derretido” [ing. Cast Lead] de 2008-09, Israel matou mais de 1.400 e feriu mais de 5.000 palestinos. Foi como pescar num barril. A maioria das vítimas foram civis, como sempre é, nas guerras de “autodefesa” de Israel. Investigação conduzida pela ONU, cujo relatório foi publicado em setembro de 2009 concluiu que há “provas de graves violações de direitos humanos e de leis humanitárias cometidas por Israel durante o conflito de Gaza; de que Israel praticou atos que se definem como crimes de guerra; e, possivelmente, também cometeu crimes contra a humanidade”.

Não faltaram indiciamentos e condenações, como certamente também não faltarão nas análises que se façam dos mais recentes oito dias de guerra de Israel contra Gaza. Muitos já falam de o quanto a opinião pública começa a virar-se contra Israel; de que o autodeclarado Estado Judeu está perdendo o controle sobre a velha narrativa, sempre repetida, de David versus Golias; ou de como os EUA já não conseguem proteger Israel, ante a angústia profunda de milhões de palestinos que vivem sitiados, implorando ajuda e solidariedade ao mundo.

Tzipi Livni
Boa parte disso tudo é, sim, verdade. Mas também é verdade que Israel conseguiu arrastar Gaza e o resto da Palestina de volta ao status quo – apesar dos crimes hediondos que cometeu há quatro anos – que precedeu a guerra. A ex-ministra de Relações Exteriores de Israel, Tzipi Livni disse a jornalistas, dia 12/1/2009, que Israel deliberadamente “enlouqueceu” em Gaza, para “restaurar (...) o poder de contenção de Israel. O Hamás entende hoje que, se atirar contra israelenses, Israel reage enlouquecidamente. E isso é ótimo”.

Foi bom, sem dúvida, para os EUA e para muitas potências europeias que jantaram e tomaram vinho alegremente com Livni em Bruxelas, pouco depois da guerra, como se não houvesse milhares de mortos e outros milhares de feridos, ou como se famílias inteiras não tivessem sido assassinadas sem ter praticado crime algum; e como se uma nação inteira não estivesse ainda em luto pelos seus filhos, homens e mulheres.

Não é que Israel tenha sido especialmente competente no trabalho de restaurar a própria posição entre os círculos oficiais ocidentais nos últimos quatro anos, o que lhe daria confiança para novamente assaltar Gaza. De fato, Israel jamais perdeu essa posição. Aquelas potências (a começar por Washington e Londres) nunca deixaram de apoiar Israel com tecnologia assassina de ponta, estimulando a economia de Israel, apesar de, internamente, suas economias estarem em frangalhos e, claro, sempre apoiando, em todas as oportunidades, o direito de Israel “se autodefender”.

Os 22 dias de guerra de Israel contra Gaza em 2008-09 foram, de fato, uma continuação de outra guerra, longa, tão longa que é difícil demarcar datas. Palestinos em Gaza (e em todos os territórios ocupados) morrem ininterruptamente, em levas de mortos que aumentam ou diminuem, conforme o humor político reinante em Telavive.

Em 2008, o enfraquecido partido Kadima usou a guerra para ganhar votos, entre eleitores obcecados por segurança. Em 2012, outra vez, aí estão as eleições gerais em Israel. Nos dois casos, Israel derramou sangue palestino, no mesmo jogo da mesma política sangrenta. E as estrelas em ascensão na política israelense lá estavam, para impressionar seus eleitores subjugados.

Gilad Sharon
Quando “mais de 90% dos judeus israelenses apoiam a guerra de Gaza” (Ha'aretz, 19/11), é menos chocante ler Gilad Sharon (filho do ex-primeiro-ministro de Israel e várias vezes acusado de crimes de guerra, Ariel Sharon) escrever no Jerusalem Post: “Gaza deve ficar sem eletricidade, sem gasolina, sem carros que andem, nada, nada. Então, eles pedirão o cessar-fogo (...). Temos de arrasar, pôr no chão quarteirões inteiros de Gaza. Gaza no chão, toda Gaza, nada em pé. Os americanos não pararam em Hiroshima – os japoneses estavam demorando para render-se – então destruíram também Nagasaki”. [1]

Pois o que estava previsto para ser mais uma temporada de caça de civis e de combatentes em Gaza, como se fossem todos a mesma coisa, não saiu como estava previsto. A “Operação Pilar de Nuvem” foi pensada como coleção de oportunidades que o atual primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu e seu ministro da Defesa, Ehud Barak colheriam festivamente, enquanto erguiam os dedos em gestos ameaçadores, e ganhariam o máximo de pontos políticos possíveis, antes de que a pressão internacional começasse a crescer. Não aconteceu assim. A guerra contra Gaza em 2012 foi fracasso político de proporções históricas para Israel.

Os balões de ensaio de Israel foram postos abaixo por centenas de foguetes palestinos que já chegaram bem perto no norte de Telavive e a oeste de Jerusalém. O que foi planejado para quebrar a resistência, para que nenhum palestino jamais voltasse a ousar reclamar da ocupação, do isolamento político imposto por Israel, do sítio sufocante, nem das guerras “de contenção” de Israel, resultou numa nova estranha realidade que forçou israelenses, por todos os cantos, a buscar abrigo. Quando as sirenes soaram, Israel parou; os israelenses afinal conheceram bem de perto o que os palestinos vivem praticamente sempre, todos os dias.

Morreram 167 palestinos e mais de 1.000 foram feridos. Seis israelenses morreram, entre eles um soldado ferido que morreu depois de implantado um cessar-fogo, mediado pelo Egito, dia 21 de novembro. Mas não é a quantidade de sangue derramado que torna diferente essa guerra, porque a proporção de mortos manteve-se horrendamente a mesma.

A guerra de 2012 foi diferente por causa da natureza da mensagem que o Hamás e outros grupos da Resistência tornaram, afinal audível.

Mesmo sitiados e famintos, os habitantes de Gaza são capazes de resistir, mesmo depois de seis anos de bloqueio hermético que os forçou a cavar centenas de túneis pelos quais buscaram salvação no vizinho Egito.

Mahmoud Abbas (Latuff)
Em Ramallah, a Autoridade Palestina – já com baixa credibilidade, deve-se dizer – tornou-se ainda mais irrelevante que nunca. Mahmoud Abbas tentou impor-se, ele mesmo, como um lado do conflito, falando de uma resistência popular, mas pacífica, em discurso televisionado. Convenientemente, explicou que a guerra israelense era tentativa de coagi-lo a não reivindicar o status de membro (quase) sem direitos para a Palestina, na ONU. E, enquanto os líderes israelenses tentavam entender a nova variável na velha equação israelense sempre injusta da guerra contra os palestinos, altos dignitários árabes não paravam de desembarcar em Gaza, sinal de que viam, também, que daquela vez as coisas seriam diferentes. Os norte-americanos também perceberam.

Ao mesmo tempo em que a mídia nos EUA falava sobre uma mudança na política externa dos EUA, que passaria a focar-se no sul e sudeste da Ásia, a alarmante natureza da nova guerra obrigou a secretária de Estado Hillary Clinton a voar para Israel, a oferecer mais apoio e mais solidariedade. Líderes europeus fizeram o mesmo, forçados a redemarcar as linhas. Dessa vez, Gaza foi um ponto de divisão e virada, na política regional e na política internacional: a resistência de Gaza foi fator decisivo, numa mudança tectônica.

Muitos em Israel tentaram distorcer os fatos, explicando que um cessar-fogo com o Hamás seria bom para Israel, porque daria “sossego” às comunidades de fronteira. E os objetivos de Israel teriam sido alcançados, de certo modo. O correspondente militar do jornal Ha'aretz, Amos Harel muito se esforçou para suavizar o golpe, dizendo que “A arte de medir o nível do poder de contenção não é ciência exata. Ninguém esperava que ações falhadas contra o Hezbollah em 2006 levariam a seis anos e meio de calma (que por hora ainda persiste) na fronteira do Líbano”.

Mas a questão é que Israel não tinha intenção alguma de obter paz e tranquilidade. Por décadas, Israel obrou para assegurar monopólio completo da violência e, com ele, o poder de punir, prender, intervir, ocupar e “dar lições” a quem bem entendesse, quando quisesse. Os ataques recentes de Israel contra o Sudão, os ataques passados contra o Iraque, a Tunísia, a Síria, as horrendas guerras contra o Líbano e as infinitamente repetidas ameaças ao Irã são eventos vivos na memória.

Não há dúvidas de que houve mudança, e grande. Não que os palestinos tenham conseguido reduzir o desequilíbrio do poder, mas conseguiram impor sua resistência como fator na equação da “segurança” de Israel que, antes, sempre foi determinada exclusivamente por Israel.

Palestinos festejam trégua na Faixa de Gaza
Apesar das pesadas perdas, milhares de palestinos dançaram de alegria em toda a Faixa de Gaza. Ajoelharam-se e rezaram ombro a ombro com os combatentes, agradecendo a Deus pela “vitória”. Havia homens armados, com o rosto coberto, às centenas, entre os gazenses em festa unidos aos combatentes. Israel e seus protetores começaram logo a apontar dedos acusatórios na direção, sobretudo, do Irã. Mas suas palavras naufragaram nos ecos dos cantos palestinos.

Todos os partidos e lados sabem que algo fundamental mudou, embora a batalha esteja longe de decidir-se. Está para começar guerra de outro tipo.



Nota de rodapé
[1] 19/11/2012, The Telegraph, Demien McElroy em: Ariel Sharon's son Gilad calls on Israel to “flatten Gaza”.