quinta-feira, 2 de maio de 2013

Novo quadro conceitual para a segurança: China repensa a Defesa


“A gente aqui aproveita, da CIA, o que nos interesse”

26/4/2013, Timothy Heath, The Jamestown Foundation
Traduzido e comentado pelo pessoal da Vila Vudu

Essa The Jamestown Foundation é um think-tank, instituto de pesquisa e análise, com sede em Washington, fundado em 1984, como plataforma de apoio para dissidentes soviéticos. É instituto de propaganda pró-EUA, que sempre manteve contato muito estreito com a CIA. Mas tem duas interessantes qualidades: não publica exclusivamente “opinionismo acadêmico de repetição” pró-EUA; e só resenha documentos de primeira mão, o que nos interessa, sobretudo em temas, como o que aqui se discute, que absolutamente não aparecem na pauta dos interesses da esquerda brasileira, por mais crucialmente importantes que sejam para a própria esquerda. No instante em que começa a propaganda pró-EUA, paralela à resenha, excluímos os parágrafos. Ver Nota [2].


Esse ano, a China organizou o protocolo oficial anual sobre Defesa em torno do conceito de missões históricas como quadro principal para compreender a missão e as atividades do Exército Chinês [orig. People’s Liberation Army (PLA) (Exército de Libertação do Povo)]. O conceito de “interesses-núcleo”, motor chave das missões históricas, também aparece com destaque no documento anual. [1] O alto destaque que se dá a esses conceitos reflete o maior peso de autoridade que passam a ter, tanto quando o maior poder e influência da China no mundo. Por essas razões, deve-se esperar que Pequim amplie seus esforços para consolidar o controle sobre seus direitos de soberania e para modelar uma ordem internacional favorável.

O título do documento anual de Defesa, “O uso diversificado das Forças Armadas Chinesas” [orig. “The Diversified Employment of China’s Armed Forces”] refere-se às “tarefas diversificadas” (duoyanghua renwu), coração das “missões históricas das forças armadas no novo período do novo século”, referidas quase sempre, mais simplificadamente, como “missões históricas”. O conceito de missões refere-se à orientação estratégica que o (então) presidente da Comissão Militar Central, Hu Jintao, deu aos militares no final de 2004 e que continuou a ser mencionado nos documentos anuais da Defesa até 2006. As missões históricas definem-se por quatro exigências:

(1) oferecem considerável garantia de segurança ao Partido para consolidar sua posição de governante;
(2) oferecem forte garantia de segurança para salvaguardar o período de oportunidade estratégica importante para o desenvolvimento nacional;
(3) oferecem poderoso suporte estratégico para salvaguardar interesses nacionais; e
(4) têm papel importante para salvaguardar a paz mundial e promover o desenvolvimento comum (Constituição do Partido Comunista Chinês [orig. Constitution of the Chinese Communist Party [CCP]). O Exército de Libertação Popular oferece essencialmente substrato fundamental para a primeira exigência, mas não se trata dele, diretamente, no documento. Os demais fatores aí listados dão o quadro geral de todo o conteúdo do documento.

Os interesses núcleo ganham mais importância

O documento de 2012 revisto e agora divulgado dá maior destaque e eleva em importância o conceito de “interesse-núcleo” (hexin liyi). Esse conceito já apareceu de alguma forma nos documentos anuais da Defesa desde 2002. O termo é um conceito do partido que se refere aos mais importantes interesses nacionais, definidos pelos analistas chineses como o coletivo “das demandas materiais e espirituais de um estado e povo”.

A imprensa chinesa explicou com riqueza de detalhes como a evolução de interesses nacionais levou os militares a alterar, atualizando sempre, a própria missão. O desenvolvimento mais recente foi a adição de “interesses do desenvolvimento” [pode-se traduzir também como “interesses desenvolvimentais” (NTs)], ao grupo mais antigo de interesses da segurança e da soberania, assim como um refinamento do significado de todos os três grupos de interesses à luz do crescente poder da China e de sua integração na economia global. Em artigo típico, o Diário do Exército Chinês explicava que o crescimento econômico da China exige agora que o Exército Chinês proteja os “interesses do desenvolvimento” (fazhan liyi) tanto quanto os “interesses da sobrevivência” (shengcun liyi). Comparava as missões e as funções dos militares na “era da agricultura e da indústria”, que se focava no “controle das fronteiras e em defender os territórios”, com as novas exigências das novas missões, de “proteger o desenvolvimento pacífico e o status de grande potência da China” na “era da informação” (Diário do Exército Chinês, 8/12/2005).

Mao Tse Tung
Como as missões históricas, o conceito de “interesse-núcleo” oferece modo mais claro para organizar o pensamento sobre segurança, que a linguagem política das eras Mao (Tse Tung) e Deng (Xiaoping).

Discutir ameaças de segurança em termos furiosamente hiperbólicos, rigidamente ideológicos, é um luxo que se podem dar países comunistas autárquicos, economicamente debilitados; mas que não se possa permitir uma grande potência emergente, sobretudo quando cercada por nações modernas, desconfiadas e pesadamente armadas.

Deng Xiaoping
A modernização do Exército Chinês da era Deng e da era Jiang não se deixou prender nessa armadilha, mas a sempre presente influência da ortodoxia comunista contribuiu para o baixo nível de rigor e para a falta de clareza no pensamento. Por outro lado, delinear categorias de interesses-núcleo que se ligam diretamente às mais altas prioridades estratégicas da China, facilitam as análises mais precisas e permitem que o Exército Chinês priorize responsabilidades; avalie ameaças; e desenvolva planos e capacidades de maneira racional e mais adequada às necessidades de uma grande potência com interesses globais.

Por que os conceitos cresceram em importância

Ambos, os interesses-núcleo e as missões históricas derivam de avaliações formalizadas por volta do ano 2000 – início do que o Partido Comunista Chinês refere como o “novo período no novo século”. Dois importantes desenvolvimentos levaram ao aumento de importância dos conceitos que se constata no documento de 2012: um aumento da capacidade política para decidir [orig. political authoritativeness]; o crescimento relativo do poder chinês, que fez aumentar a viabilidade e a urgência de implementar novas orientações.

A capacidade dos conceitos estratégicos do Partido para conduzir a política é determinada em parte pelo nível de autoridade dos conceitos. Quanto maior a autoridade de um conceito estratégico, maior a probabilidade de que políticas relacionadas a ele encontrem apoio. O mais alto status que um conceito estratégico pode alcançar é ser adotado como parte da “ideário guia” (zhidao sixiang) [no orig. “ideologia guia”, que é tradução errada ou, no mínimo, enviesada (NTs)]. Quando um conceito estratégico alcança esse status, tem autoridade suprema e as políticas a ele associadas sobem em prioridade e em importância.

Os dois conceitos, das missões históricas e dos interesses-núcleo, são associados ao Conceito do Desenvolvimento Científico articulado por Hu Jintao, pouco depois de assumir o poder em 2002. Quando o 17º Congresso do Partido incorporou o Conceito de Desenvolvimento Científico à Constituição do Partido Comunista Chinês, ele acrescentou legitimidade extra aos conceitos de missões históricas e interesses núcleo. No 18º Congresso do Partido, o Conceito do Desenvolvimento Científico ganhou status de “ideário guia”, refletindo forte consenso em toda a liderança (“The 18th Party Congress Work Report: Policy Blueprint for the Xi Administration”, China Brief, 30/11/2012). Assim se afirmou que os conceitos relacionados, de missões históricas e de interesses núcleo, desempenhariam papel definitório no pensamento chinês de segurança. O lançamento do documento da Defesa em formato já revisto é evidência desse desenvolvimento.

18º Congresso do Partido Comunista Chinês (nov/2012)
Além disso, a China viu seu poder nacional relativo continuar a crescer nos anos recentes. Quando a economia chinesa sobrepujou a do Japão, e passou a ser a segunda maior do mundo, em 2010, os chineses viam a economia da União Europeia sempre patinando, e os EUA permanentemente presos em impasses políticos, enquanto os militares chineses continuavam a ganhar poder. Sintoma desse aumento de poder, os esforços de Filipinas e Japão para melhorar suas posições relativas em disputas marítimas contra a China foram contidos pelas reações firmes de Pequim nos casos de Scarborough Reef e das ilhas Diaoyu/Senkaku.
 
Ilhas Diaoyu/Senkaku
O maior poder da China não apenas reforçou sua alavancagem; também fez aumentar o senso de urgência no que tenha a ver com segurança. Em particular, a crescente ansiedade na região, alvo de maior atenção dos EUA (o “reequilibramento” e o “movimento de pivô”) aumentou a importância, para Pequim, de ajustar sua estratégia de segurança, para reduzir vulnerabilidades, proteger interesses-núcleo e modelar um ambiente estável e favorável de segurança, para que a nação possa manter-se concentrada no desenvolvimento rápido e equilibrado.

O contexto da Nova Segurança, no documento de 2012

Assim como (i) as implicações do crescente poder da China numa era de globalização estão no coração do conceito de interesses-núcleo, está no coração do conceito de missões históricas (ii) o desafio de equilibrar um ambiente de segurança pacífico e estável; de proteger um conjunto crescente de interesses núcleo; e a necessidade de reduzir vulnerabilidades estratégicas e proteger um crescente conjunto de interesses núcleo. O documento de 2012 trata das duas questões, oferecendo descrição muito mais aprofundada dos interesses núcleos vistos co ponto de vista dos militares; e expondo o modo como os militares implementam a orientação para as missões históricas.

Interesses-núcleo. O terceiro capítulo do documento trata dos interesses-núcleo de “soberania” e “segurança”. O documento reconhece que, de todos, esses são os interesses-núcleo mais básicos e mais importantes. Além de apresentar as “necessidades-núcleo de segurança” como “defesa nacional, resistência contra agressão estrangeira e defesa da pátria”, o capítulo discute questões de integridade territorial no ar, na terra e nos mares.

Embora não seja novidade, a maior alavancagem que lhe é assegurada pelo poder crescente forçou Pequim a reinterpretar seus interesses de soberania e segurança. Para dar apenas um exemplo, o documento menciona que a Marinha do Exército Chinês faz agora “treinamento para águas profundas” [orig. blue water training], que inclui “alerta remoto precoce” e “interceptação em águas internacionais” [orig. open sea interception].”

A China ampliou, em profundidade, o que entende como saudável necessidade de segurança. O documento também menciona que a China agora tem “interesses de segurança espacial e de cibersegurança”, conceitos que não apareciam em documentos oficiais de dez anos passados.

O quarto capítulo trata dos interesses relacionados ao desenvolvimento nacional. Dois grandes grupos são destacados: direitos e interesses marítimos e interesses no exterior da China [orig. overseas interests]. Os primeiros referem-se a direitos econômicos e legais – minérios, pescado e outros recursos – aos quais a China se sente com direitos. O crescente apetite da China por recursos fez aumentar a importância das regiões marítimas. Além disso, muitas das áreas que envolvem interesses marítimos chineses diretos sobrepõem-se com seus interesses de segurança e soberania, o que faz aumentar o valor estratégico daquelas águas.

Os interesses em regiões distantes do território chinês [orig. overseas interests] destacam linhas marítimas de comunicação e cidadãos chineses que vivem em outros países. Essa é uma área crescente de responsabilidade militar, como se vê na discussão que o documento oferece sobre as missões continuadas para evacuar cidadãos do Golfo de Aden e da Líbia. Essas semelhanças refletem a expansão dos interesses estratégicos chineses, como parte de seu poder crescente e integração na economia global.

Missões históricas. O documento está organizado, em grande parte, em torno do desafio militar para equilibrar o imperativo de garantir segurança ao conjunto crescente de interesses-núcleo, com o imperativo de ajudar a modelar um ambiente favorável de segurança. Isso exige que o Exército Chinês responda a ameaças não tradicionais, como desastres e terrorismo, que podem ameaçar interesses chineses no próprio território e fora dele. O documento usa a expressão ocidental “operações militares não bélicas” [orig. military operations other than war (MOOTW)] para falar desses deveres. Mas o documento deixa claro que a expressão “tarefas diversificadas” [orig. diversified tasks] refere-se à habilidade do Exército Chinês para executar operações de guerra e de não guerra, em apoio ao desenvolvimento nacional. O segundo capítulo do documento relata como a modernização do Exército Chinês o está capacitando para atender a essas novas responsabilidades.

Os capítulos 3 e 4 destacam o papel dos militares, em íntima coordenação com autoridades civis, para proteger a soberania, a segurança e os interesses do desenvolvimento chineses. O quadro mostra que os militares devem oferecer apoio direto a todos os esforços do governo para ampliar incrementalmente o controle administrativo, legal e econômico, de-facto, nas disputas de questões marítimas e outros interesses. Como exemplo, o documento relata como a Marinha do Exército Chinês assegura “apoio de segurança” às polícias marítimas, aos pesqueiros e à exploração de petróleo e gás. Também discute a cooperação com corpos internacionais, para proteger interesses chineses em outras regiões do mundo, fora do território chinês.

O capítulo 5 refere-se à necessidade de “salvaguardar a paz mundial e a estabilidade regional” e trata do papel do Exército Chinês na modelagem de um ambiente favorável de segurança. O Exército Chinês desempenha papel crucialmente importante para promover a estabilidade global e regional, fator crítico para que o desenvolvimento chinês seja possível. Participação nas Operações do Corpo de Paz da ONU [orig. United Nations Peacekeeping Operations (PKO)] também fornece útil cobertura política para aumentar a segurança dos interesses em territórios não chineses; o Exército Chinês já participou em operações da ONU contra a pirataria, para proteger suas linhas marítimas de comunicação, na área próxima do Chifre da África. (...) [2]



Notas dos tradutores

[1]  O documento “The Diversified Employment of China’s Armed Forces” [Uso diversificado das forças armadas chinesas], aqui comentado, é acessível, na íntegra, na página Internet do Ministério da Defesa Nacional da China.  
Outros documentos chineses anteriores sobre a Defesa são encontráveis na página Internet do Governo da China. 

[2]  No item seguinte dessa resenha (“Implicações”), o autor - resenhista separa-se da resenha e põe-se a COMENTAR o documento resenhado, numa intromissão de caráter pragmático, na qual o autor dessa resenha interpreta o documento resenhado PARA O SEU GRUPO DE INTERESSE.
Aproveitamos da resenha o que é resenha interessante e excluímos o comentário dirigido à CIA, que não nos interessa (“Implicações”).

Do conjunto de missões do Exército Chinês, a mais desafiadora parece ser a missão de promover a estabilidade regional. A China procura evitar o que considera concessões inadmissíveis no campo de seus interesses, ao mesmo tempo em que evita também instabilidade causada por disputas quanto àqueles interesses.

Fator chave para escapar desse dilema, é colaboração íntima do Exército Chinês com autoridades civis, que desempenham a função sensível de promover as reivindicações marítimas da China.

Para destacar esse ponto, o documento oferece o argumento político, para justificar qualquer potencial resposta militar para defender suas reivindicações e outros interesses.

O documento requenta o dictum de Mao: “Não atacaremos a menos que sejamos atacados; mas com certeza contra-atacaremos, se atacados”, num argumento de defesa contra invasão e ataque nuclear, convertendo-o num alerta a potências vizinhas: a China “tomará resolutamente todas as medidas necessárias para salvaguardar a soberania nacional e a integridade territorial”.

Essa abordagem, espertamente, abre a via para permitir à China consolidar silenciosamente seus objetivos, ao mesmo tempo em que joga, sobre as costas das potências vizinhas, o ônus de arriscar-se em qualquer movimento dramático para impedir qualquer invasão ou infiltração chinesa, todos informados, desde já, de que “a China explorará qualquer mínimo passo errado, para consolidar cada vez mais as suas conquistas”.

A viabilidade permanecerá como chave para a rapidez e a profundidade com que a China promoverá seus interesses-núcleo. Se os chineses sentirem que sua capacidade de alavancagem aumentou, a ponto de que possam obter ganhos com mínimo custo, provavelmente agirão nessa direção. Na medida em que suas ações revelem-se desestabilizadoras demais, dada a alavacagem insuficiente, Pequim pode muito bem reduzir a velocidade da consolidação de seus interesses. Além disso, as tensões entre os imperativos para ampliar o controle sobre interesses núcleo e manter ambiente de segurança estável não são manobráveis pela China, cujas capacidades não lhe permitem manobrá-las sozinha.

Esforços para apertar o controle nas questões em disputa, afinal de contas, sempre geram instabilidade, e a China não tem poder de alavancagem para obrigar potências vizinhas, como o Japão, a desistir dos próprios interesses nas disputas marítimas. A China pois continuará a depender do auxílio dos EUA e outras potências, para promover a estabilidade internacional e ajudar a China a consolidar o controle dos interesses dos próprios chineses.

O Documento Defesa 2012 da China mostra quadro mais claro que os documentos anteriores de como a China vê a segurança, considerados já seu crescente poder e novos interesses globais. O consenso político por trás dessa abordagem foi confirmado no recente 18º Congresso do Partido Comunista Chinês e garante que essa será a estratégica de segurança em que a China estará trabalhando no futuro, no mínimo, de curto e médio prazos. Compreender a centralidade dos conceitos de interesses-núcleo e de missões históricas, no pensamento estratégico chinês, pode ajudar os políticos a antecipar e responder mais efetivamente a desenvolvimentos que incluam questões de segurança com os chineses.


quarta-feira, 1 de maio de 2013

Obama pede ajuda a Putin


30/4/2013, MK Bhadrakumar*, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Barack Obama ao telefone
O segundo telefonema do presidente dos EUA Barack Obama, em semanas consecutivas, ao presidente Vladimir Putin, 2ª-feira passada, mostra claramente o quanto é crucialmente necessário, para os norte-americanos, obter a cooperação da Rússia, nas atuais circunstâncias, no front da política externa.

O resumo da conversa, distribuído pela Casa Branca, informa que falaram sobre terrorismo e Síria, como questões mais prementes. A verdade é outra: as bombas na Maratona de Boston evoluíram e já são questão russo-norte-americana.

A rádio Free Europe/rádio Liberty, criada pelo governo dos EUA, divulgou comentário muitíssimo controverso  – curiosamente sem qualquer crédito de autoria – que se detém a um milímetro de insinuar que a inteligência russa pode saber bem mais sobre Tamerlan Tsarnaev do que se deu o trabalho de revelar.

Putin atende...
O comentário, do fim de semana, revela, surpreendentemente, que, enquanto visitava a Rússia – onde a inteligência russa “não se mexeu para impedi-lo nem de entrar nem de sair da Rússia” – Tamerlan desapareceu da face da Terra por longos dois meses, na região do Daguestão no norte do Cáucaso.

Mas Obama optou por “reiterar o quanto apreciou a empenhada cooperação” que a Rússia ofereceu na questão dos ataques à Maratona de Boston. Em troca, Obama ofereceu a cooperação dos EUA, para enfrentar os desafios de segurança durante as Olimpíadas de 2014 em Sochi, um resort no Mar Negro (bem próximo da Trans-Caucasus), questão que Moscou está tratando como prioridade nacional de segurança.

O resumo da Casa Branca dizia que Obama manifestou sua “preocupação com as armas químicas sírias”. É formulação cuidadosa. O resumo não diz que o governo sírio teria usado armas químicas. Em vez disso, reiterou a importância de “consultas próximas” entre Washington e Moscou sobre a situação síria.

Fato é que Obama está fazendo bem triste figura, ao ter de reformular sua própria definição de “linha vermelha” na Síria. É improvável que os EUA algum dia encontrem prova conclusiva de que o regime sírio tenha usado armas químicas. Simultaneamente, reina grave divisão no campo ocidental, também, no plano da construção de políticas: o comandante das forças britânicas manifestou-se fortemente contrário a qualquer tipo de intervenção militar na Síria, pelo risco de “arrastar a Grã-Bretanha para uma guerra total”.

Por outro lado, a Rússia avança na ofensiva diplomática. O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, atacou de modo inusitadamente forte:

Sergey Lavrov
“Há estados e atores externos que supõem que quaisquer meios sejam bons, se levarem à derrubada do governo sírio. Mas a questão do uso de armas de destruição em massa é grave demais, e ninguém deveria jogar com ela. Considero inadmissível servir-se dessa questão e especular sobre ela. A culpa por ninguém ter investigado até agora o específico evento do dia 19 de março e que ainda provoca indignação universal deve ser atribuída às nações que tentam impedir que o secretário-geral da ONU ofereça resposta simples e direta a uma pergunta simples e direta”. Tradução de excerto da fala de Lavrov em 29/4/2013, Rússia Today: “Political intrigue hampers honest investigation of WMD use in Syria – Lavrov”  

Ainda não se sabe se Obama telefonou ao Kremlin antes ou depois da fala de Lavrov. Seja como for, Moscou não dá sinal algum de disposição para colaborar em qualquer ação ocidental na direção de inventar outro “caso de armas de destruição em massa”, à moda Iraque, dessa vez contra a Síria, na ONU. Ponto. Parágrafo.

Assim sendo, onde fica Obama? Por um lado, a Casa Branca tenta pedalar para trás: é preciso “muito mais trabalho”, antes de acusar o regime sírio de ter usado armas de destruição em massa. Pelo outro lado, o Congresso vai-se tornando cada vez mais furioso: dizem que Obama tem de “fazer mais” contra a Síria.  
O caso é... E o que Obama pode fazer?! Até a operação de armar os “rebeldes” é arriscada demais. Vozes mais sãs têm aconselhado cautela. Quanto a impor uma “zona aérea de exclusão”, com certeza a tentativa seria contestada, à falta de mandado da ONU que autorize ato de beligerância contra estado membro.

Pelo sim, pelo não, a Rússia está deslocando sua força tarefa naval da Frota do Pacífico para o Mediterrâneo, para estacionamento prolongado próximo à Síria; deve chegar em meados de maio. Interessante: os navios de guerra russos pararam, em visita de cordialidade, no porto iraniano de Bandar Abbas, na viagem para o Mediterrâneo via o Canal de Suez. 
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*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

Ahmadinejad, o indescartável


21/2/2013, Thierry Meyssan, Red Voltaire
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Thierry Meyssan
A democracia iraniana está viva e vibrante. As divisões de 2009 já são passado, a tal ponto que até o presidente Obama teve de admitir publicamente que Mahmoud Ahmadinejad foi eleito em eleições legítimas e limpas, pela maioria dos iranianos. O movimento Verde uniu-se à burguesia urbana, e parte da “juventude” já amadureceu.

Hoje, Washington já não acalenta qualquer esperança de derrubar o regime; então, trabalha para dividi-lo. Os EUA bem que gostariam de extrair algum lucro da atual crise entre a corrente religiosa do clã Larijani e a corrente nacionalista da família Ahmadinejad.

A aliança histórica entre as correntes religiosa e nacionalista está abalada pelo fraco desempenho de Ali Larijani nas pesquisas eleitorais e pela avassaladora popularidade de Ahmadinejad. Com as eleições de junho já batendo à porta, a crise acabou por vir a público.

Ali Larijani e Mahmoud Ahmadinejad lado a lado no Parlamento iraniano
A quatro meses das eleições no Irã, ainda não se sabe quem será o candidato que substituirá o carismático Mahmoud Ahmadinejad para os próximos quatro anos. A Constituição proíbe um 3º mandato para Ahmadinejad, mas ele pode manter-se próximo ao poder e pode voltar nas eleições seguintes, como fez Vladimir Putin.

Em 2009, os protestos varreram Teerã e Isfahan: apoiadores do candidato liberal acusavam as autoridades de ter manipulado os resultados das eleições. Esse movimento rapidamente perdeu fôlego, mas deixou feridas profundas no movimento da juventude. O qual foi afinal calado depois de uma massiva demonstração de apoio às instituições da Revolução Islâmica. Os próprios iranianos teriam sido convencidos pelos vencidos? Inúmeras vozes argumentaram que as instituições estimularam os tumultos.

Hussein Moussaoui
A juventude não conhecia o programa de Moussaoui e ignorava completamente que ele promovia o capitalismo global e alinhava-se a ele. Erradamente, os jovens supunham que Moussaoui representasse a moral social liberal. Sem perceber, haviam sido persuadidos de que tinham de escolher entre “liberdades individuais” e “o regime”. E os jovens desapareceram das cerimônias nacionais.

Surpreendidas pela violência do protesto, as autoridades foram lentas em responder.

Primeiro, houve uma defesa pela mídia. Por exemplo: um grupo de especialistas analisou quadro a quadro o famoso vídeo do jovem Neda, apresentado como morto por forças de segurança durante uma manifestação antirregime. Concluíram que o vídeo havia sido forjado. Depois se organizaram grupos de discussão, mediados por instrutores adultos que iniciaram os jovens na compreensão do pensamento dos revolucionários iranianos mais velhos. Todos esses esforços deram fruto, e hoje se vê outra vez forte participação dos iranianos com menos de 30 anos nas recentes cerimônias nacionais oficiais.

Washington, por sua vez, não poupou esforços para semear a cizânia na sociedade iraniana e trabalhou para acentuar os conflitos generacionais.

Foram criadas mais de uma centena de estações de televisão por satélite, em farsi, para inundar o país com propaganda do “Sonho Norte-americano”. Conseguiram distrair a atenção dos iranianos e afastá-los de suas redes locais e nacionais, mas, no geral, não há sinais de que tenham seduzido a população que vota.

No momento em que tantos se preparavam para mais uma tentativa de “revolução colorida” e “mudança de regime”, a surpresa veio da coalizão governante.

A confrontação clássica entre as facções religiosa e nacionalista endureceu e, afinal, explodiu numa cena pública.

Aiatolá Ali Khamenei
O presidente da República, Mahmoud Ahmadinejad, e o presidente do Parlamento, Ali Larijani, puseram-se a acusar-se mutuamente de proteger assessores corruptos. As redes ocidentais em farsi exibiram imagens dos bate-bocas. Apesar das exortações à calma e ao bom-senso, o Supremo Líder, Aiatolá Ali Khamenei não consegue acalmar os protagonistas.

Além do mais, Ahmadinejad conta com apoio popular massivo em todo o país, exceto, paradoxalmente, em Teerã, cidade da qual foi prefeito. A rápida industrialização do país, programas recentes de redistribuição dos lucros do petróleo, pagos mensalmente a todos os cidadãos adultos, e a construção de moradias por todo o país vendidas a preços subsidiados, conquistaram os votos de trabalhadores urbanos e da agricultura.

Ahmadinejad, que sente que seu candidato será eleito por ampla margem de votos, não hesita em desafiar a oposição mais religiosa, e mostra que, se dependesse dele, as exigências dos jovens seriam atendidas. Permitiu-se inclusive celebrar uma “Miss hijab”, para poder criticar mais livremente a lei que torna obrigatório o uso do véu.

Sadeq Larijani
Ali Larijani e seu irmão Sadeq (presidente do Judiciário) estão forçados a constatar que o candidato rival está avançando no trabalho de promover a candidatura do chefe de gabinete de Ahmadinejad, Rahim Mashaei Esfendiar. Esfendiar dedica-se a reescrever discursos oficiais, trocando as referências religiosas por referências mais universais, não tão exclusivamente xiitas.

Os religiosos temem que essa flexibilização abra a porta para o declínio do Islã. Responderam espalhando boatos de que a família Ahmadinejad perdeu a cabeça; que se creem em contato direto com o Parlamento e, enquanto esperam, tenham garantir lugar, reservando para eles mesmos uma cadeira no Conselho de Ministros.

Para acalmar as coisas e preservar a unidade da Revolução, o Supremo Líder pode exigir que o grupo Ahmadinejad indique candidato menos divisionista e polarizador que Mashaei.

A imprensa-empresa ocidental está em surto de esquizofrenia.

Enquanto as redes em farsi só falam dessa confrontação, as redes europeias não publicam uma linha sobre o caso. Só fazem continuar a induzir os públicos a crerem que o Irã seria uma ditadura monolítica comandada por mulás.

Os jovens, que tomaram as ruas contra “o regime” em 2009, já são hoje aplicados apoiadores de Ahmadinejad e muito provavelmente votarão no candidato que Ahmadinejad indique, em junho.

Os jovens iranianos acreditam que, com Ahmadinejad (e seu candidato às próximas eleições), a Revolução Islâmica conseguirá conciliar a libertação nacional e o respeito pelas liberdades individuais.

Sayyed Nasrallah, do Hezbollah: “Síria não cairá em mãos infiéis de EUA ou Israel”


1/5/2013, Sara Taha Moughnieh, Al-Manar TV (parte 1)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O Secretário-Geral do Hezbollah, Sayyed Hassan Nasrallah fez ontem discurso televisionado, no qual tratou de questões relacionadas ao inimigo sionista, à crise na Síria e a combatentes e mártires do Hezbollah.

Sayyed Nasrallah avisa “Israel: não cometa nenhuma loucura no Líbano”
Sua Eminência repetiu que o Hezbollah nada teve a ver com um drone que teria sobrevoado a Palestina ocupada:

Dada a situação sensível na região, e porque não enviou nenhuma aeronave comandada à distância, o Hezbollah distribuiu imediatamente uma declaração bem precisa, em que nega ter enviado qualquer tipo de aeronave comandada à distância para sobrevoar a Palestina ocupada.

Sayyed Nasrallah continuou:

O Hezbollah sempre assume plena responsabilidade pelas próprias ações, sobretudo quando tenham a ver com o inimigo israelense.

Acrescentou que:

(...) o que foi dito sobre esse drone não foi mais importante ou mais perigoso que a responsabilidade do Hezbollah sobre o drone Ayyoub, que voou sobre a Palestina e chegou a Dimona.

Explicou que não nega que uma aeronave possa ter entrado nos territórios ocupados, mas

(...) não há provas disso. Até agora, os israelenses não divulgaram nenhuma imagem, nenhum vídeo que comprove que tenham realmente derrubado o veículo aéreo que dizem ter atacado.

Sayyed Nasrallah discutiu várias possíveis explicações sobre quem possa ser responsável por aquele drone. Excluiu a primeira, segundo a qual os Guardas Revolucionários do Irã teriam enviado o drone contra a entidade sionista; considerou-a:

(...) irrealista e fantasiosa.

A segunda explicação que circulou, segundo a qual algum grupo libanês ou palestino teria capacidade para enviar um pequeno drone para sobrevoar a Palestina, tampouco veio acompanhada de qualquer prova.

Uma terceira explicação, de que algum lado inimigo, que não seja a entidade sionista, tenha disparado o drone de território libanês ou não libanês, foi posta em circulação apenas para que “Israel” acusasse o Hezbollah e encontrasse pretexto para operação militar, caso em que o Hezbollah teria de defender-se, o que arrastaria o Líbano para uma situação de confronto, nesse caso, entre Israel e o Hezbollah.

A quarta explicação é que “Israel” tenha enviado o drone para sobrevoar o Líbano, fê-lo voar sobre os territórios ocupados e depois o derrubou. Essa é a explicação mais razoável e mais verossímil.

Sua Eminência disse que:

(...) estamos acompanhando de perto essa questão. Temos recebido informações preocupantes da região, e há massivo deslocamento de tropas para o norte da Palestina, mas acreditamos que estejam relacionados aos desenvolvimentos na Síria.

Sayyed Nasrallah avisa: “Israel: não cometa nenhuma loucura no Líbano”:

Erra quem suponha que a Resistência é fraca ou vaga. Aqui aviso o inimigo e os grupos e subgrupos que se alinham com ele: não cometam nenhuma loucura no Líbano, porque a Resistência está alerta, preparada e determinada a defender o Líbano. Com a ajuda de Deus, triunfaremos em qualquer batalha futura. Os libaneses dedicam-se atentamente e cuidadosamente à análise de todas essas possibilidades.

Erra quem acusar o Hezbollah, porque há muitas mãos trabalhando contra a causa palestina: norte-americanos, árabes e o Golfo trabalham aí e todos relacionam-se entre eles mesmos para impor novas condições aos palestinos. Tudo isso gera preocupação, porque nesses casos, as novas condições sempre vêm precedidas por agressão armada, para abalar a coragem e a firmeza dos palestinos.

Nos orgulhamos de nossos mártires e os sepultamos publicamente

Sua Eminência comentou também o que chamou de:

(...) “mentiras da mídia” sobre comboios e grande número de mártires. A imprensa inventou um leilão de mártires, disputando quem noticia o maior número de mortes; há notícias de que seriam 500. Ontem, a rede Al-Arabiya falava de 30 novos mártires e outra rede falava de covas clandestinas, enterros clandestinos e “em etapas”.

Sayyed Nasrallah lembrou que: “

(...) o Líbano é país de pequeno território. Onde alguém conseguiria esconder essas centenas de mártires? Nunca, em nossa história, o Hezbollah escondeu os cadáveres de nossos mártires ou os enterramos “em etapas”. Em todos os casos, informamos a família de todos os nossos combatentes mártires e os enterramos publicamente, no dia seguinte.

O enterro de nossos combatentes mártires é sempre público. Nós nos orgulhamos dos nossos mártires, especialmente dos que tombaram nos últimos dois dias.

As notícias sobre grande número de mortos são parte de uma guerra psicológica na qual a mentira deliberada é a principal arma: “minta, minta, minta, até que alguém acredite em você”.

Hoje, o objetivo do inimigo é destruir a Síria

Sobre a crise síria, Sayyed Nasrallah disse que:

(...) o objetivo do inimigo, em todos os eventos que se veem hoje na Síria, já não é excluir a Síria do Eixo da Resistência no confronto árabe-israelense. Já não se trata sequer de ganhar poder a qualquer preço. Pode-se dizer que o objetivo de todos que operam na guerra na Síria é destruir a Síria, impedir que se estabeleça ali um estado organizado e forte, e substituí-lo por estado fraco demais para tomar decisões autônomas sobre o petróleo, o mar, as fronteiras sírias.

Desde o início da crise síria, os militares já haviam decidido derrubar o governo. Para isso, massacraram civis, convocaram a intervenção estrangeira, usaram armas químicas. Houve clérigos que emitiram Fatwas bem claras, que autorizavam o assassinato de civis. De nosso lado, que é o lado da Resistência, sempre pregamos e continuamos a pregar que se construa um acordo político. [1]

Sua Eminência acrescentou:

Por causa do que está acontecendo na Síria, a causa palestina está esquecida e corre grave risco de ser apagada. A situação na Síria também afeta o Líbano, o Iraque, toda a região.

A Síria tem amigos verdadeiros na região e no mundo, que não permitirão que caia em mãos infiéis de EUA e Israel, disse o secretário-geral do Hezbollah, que revelou que: o regime sírio já informou aos negociadores russos os nomes que comporão a delegação síria que participará do diálogo com a oposição. Mas o outro lado continua a recusar qualquer tipo de diálogo.

O Hezbollah entende que todos que dizem lamentar o banho de sangue na Síria, os que não admitem que a causa palestina seja apagada e esquecida e os que se preocupam com o destino da Síria devem unir-se para buscar um acordo político, uma solução política para a situação síria.

O Hezbollah tomará todas as medidas necessárias para proteger os moradores dos arredores de Al-Qusayr [2]

Sayyed Nasrallah disse que :

(...) os ataques contra as vilas nos arredores de Al-Qusayr aumentaram nos últimos dias e circulam informações de que haveria libaneses envolvidos naqueles ataques, o que forçaria o exército sírio a confrontar os agressores e proteger as vilas. Mas... O que fez o governo libanês para proteger os libaneses que vivem em Al-Qusayr? O governo libanês pode mandar o exército proteger essas pessoas?

Nesse contexto, Sayyed Nasrallah disse que:

(...) o máximo que o governo libanês pode fazer é apresentar um protesto à Liga Árabe. De que vale apresentar protestos ao carrasco executor?

Já declaramos expressamente que não deixaremos os libaneses que vivem nos arredores de Al-Qusayr expostos a ataques de grupos armados e que tomaremos todas as medidas necessárias para preservar suas condições de vida.

Sua Eminência acrescentou que há grupos libaneses

(...) emitindo fatwas, falando e enviando dinheiro e militantes para a Síria através do Líbano e outros países. Que não digam que são inocentes nos eventos na Síria.

A destruição da mesquita de Sayyeda Zainab [3] terá graves repercussões

O Secretário-Geral do Hezbollah disse que:

(...) na região de Sayyeda Zainab, onde está o santuário de Sayyed Zainab, filha do Imã Ali, há grupos armados ativos. É questão extremamente sensível, sobretudo depois que grupos infiéis anunciaram que, se chegarem ao local, a mesquita será destruída. Há combates ali e muitos mártires da Resistência. Portanto, os grupos da Resistência que combatem ali estão, de fato, impedindo que a sedição se alastre, não incitando a agitação e o tumulto.

E acrescentou:

Não basta que a oposição e a chamada “Coalizão Síria” oponha-se à destruição daquele lugar santo. Todos os países que apoiam aqueles grupos agressores serão responsabilizados pelo crime, se chegar a acontecer.

E Sayyed Nasrallah avisou:

Se esse crime chegar a consumar-se, haverá repercussões graves.

Os sequestrados em Azaz nada têm a ver com o “conflito político”. Têm de ser imediatamente libertados

Sobre os libaneses sequestrados em Azaz, Sua Eminência disse que:

(...) o prolongamento desse caso é muito doloroso. Por isso os familiares dos sequestrados andam, de um lugar para outro, com seu protesto.

Sayyed Nastallah comentou que:

(...) o prolongamento desse caso, até hoje, obriga a pensar mais detidamente sobre as partes envolvidas e as causas do sequestro.

Se queriam fazer pressão política, fracassaram obviamente, desde o início. Houve boatos de que queriam resgate, e eu declarei que iria pessoalmente a Damasco para resolver o impasse. Mas depois negaram que desejassem resgate.

Sua Eminência disse que:

Negociações conduzidas por Qatar, Turquia e Arábia Saudita não produziram qualquer resultado.

E exigiu a imediata libertação dos sequestrados, que nada têm a ver com o “conflito político”.

Não queremos que o conflito sírio mude-se para o Líbano

Não queremos nenhum conflito no Líbano e não queremos que o conflito sírio mude-se para o Líbano. Sabemos de grupos libaneses que atacaram nos arredores de Al-Qusayr. Conhecemos todos, um a um, pelo nome. Mas nada faremos contra eles, porque nosso principal interesse é preservar o Líbano e não envolver o país em qualquer luta – disse Sayyed Nasrallah.

[Ao longo do dia, prosseguirá a publicação do discurso.]



Notas dos tradutores

[1] Sobre isso ver: 18/4/2012., redecastorphoto, The World Tomorrow em: “Hassan Nasrallah (Hezbollah), entrevistado por Julian Assange”

[2] Al-Qusayr é cidade estrategicamente importante, porque está na estrada que liga Damasco à costa. Sobre a situação ali:

Dizem que a oposição controla metade da Síria... Mas não dão conta de um punhado, no máximo mil, combatentes do Hezbollah? Não passa de propaganda da oposição. O Hezbollah tem todo o direito de defender as áreas sob jurisdição no Líbano e ali a oposição está sendo obrigada à retirada. Eles têm de culpar alguém. Então culparam o Hezbollah (Kamel Wazne, diretor do Centre for American Strategic Studies em Beirute, na Al-Jazeera, 28/4/2013: “Al-Qusayr: On the road to Damascus”)
 
[3] Pode-se ler sobre a mesquita Sayyeda Zainab, importante santuário xiita.