terça-feira, 31 de julho de 2012

Sarney age na calada da noite


 


Publicado em 31/07/2012 por Mário Augusto Jakobskind*

Não é de hoje que os proprietários de estações de rádio estão de olho no horário histórico de 19 às 20 horas, de segunda a sexta-feira. É o espaço reservado à Voz do Brasil, o mais antigo programa de rádio no mundo, 77 anos, e com uma audiência garantida de milhões de brasileiros que muitas vezes só têm acesso à informação através desse espaço midiático, além de ter sido um instrumento relevante no projeto de integração nacional, juntamente com a Rádio Nacional.

No início, a atual Voz do Brasil era conhecida como Programa Nacional e em 1938 passou a se chamar Hora do Brasil. Em 1962 recebeu a denominação atual.

Pois bem, neste momento na Câmara dos Deputados há um projeto que pretende flexibilizar o horário da Voz do Brasil, o que na prática representa o início do fim desse importante programa radiofônico com informações dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

O Ministro Paulo Bernardo, em reunião da Associação Brasileira de Radio e Televisão (ABERT), defendeu a flexibilização do horário da Voz do Brasil, para contentamento dos proprietários de rádio do Oiapoque ao Chuí. Como são 5.556 municípios no país, podem imaginar o total de emissoras.

Flexibilizar o horário da Voz do Brasil é na prática acabar com o programa. Se isso acontecer, não haverá como fiscalizar se as emissoras - na verdade concessões públicas - apresentam mesmo o programa.

Os defensores da flexibilização usam argumentos insustentáveis e tentam esconder de todas as formas que o real objetivo é ampliar os lucros no espaço nobre de 19 às 20 horas.

O tema é bem mais sofisticado do que se imagina. Para se ter uma ideia, o Senador José Sarney na calada da noite reativou o Conselho de Comunicação Social (CCS) e nomeou os integrantes sem consultar a sociedade.

Entre os 13 integrantes titulares e suplentes indicados estão dois executivos das organizações Globo: Gilberto Carlos Leifert, diretor comercial da emissora e presidente do Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), como representante das empresas de televisão, e Alexandre Kruel Jobim, filho do ex-ministro Nelson Jobim e vice-presidente jurídico e de relações governamentais do grupo RBS, braço da Globo no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, como representante das empresas da imprensa escrita.

Outros nomes indicados como representantes da sociedade civil destacam-se o Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta e Fernando Cesar Mesquita, secretário de comunicação social do Senado, por sinal também ex-assessor de imprensa de Sarney, interventor nomeado por Sarney em Fernando de Noronha e seu fiel escudeiro, são outros nomes que comporão o CCS.

O Conselho, embora não tendo caráter deliberativo, sempre foi defendido pelos movimentos sociais como um passo importante na área midiática. Foi desativado, em 2006, de forma atabalhoada e ilegal.

Quando foi criado, em 1988, ficou decidido que não poderia integrar o Conselho pessoa ligada direta ou indiretamente a empresas de comunicação. A determinação, sugerida pelo então deputado Paulo Alberto (Arthur da Távola), foi aprovada na Constituinte e, segundo testemunho do jornalista José Augusto Ribeiro, na época cobrindo os debates da Constituinte pela TV Bandeirantes, simplesmente desapareceu, foi suprimida. E tudo ficou por isso mesmo. Se estivesse em vigor, os dois nomes vinculados ao esquema Globo não poderiam ser indicados.

Uma pergunta deve ser feita: qual o motivo de Sarney, que é proprietário de canais de rádio e televisão, ter decretado a reativação do Conselho? E logo Sarney, que em toda a sua história política sempre esteve do lado das elites e, claro, dos barões midiáticos? Até porque ele é um deles.

O tema reativação do Conselho é realmente complexo. A reativação pode ter sido constitucional, mesmo tendo sido feita sem consultas democráticas, na calada da noite e poucas horas antes do recesso legislativo.

Tem mais um detalhe, e é aí que mora o perigo. O esquema adotado da reativação é absolutamente casuístico, porque foi para frente por pressão imediatista da Abert, que não prega prego sem estopa e mistura alhos com bugalhos, ou seja, seus interesses particulares com os da sociedade brasileira.

E tem mais uma sutileza: pela técnica legislativa, não pode ocorrer a aprovação da flexibilização do horário da Voz do Brasil sem antes ouvir a manifestação do CCS. Ou seja, a ABERT consultou os seus advogados e técnicos legislativos chegando a conclusão que sem a manifestação do CCS sobre o tema a flexibilização daria margem a um embargo da matéria no Supremo Tribunal Federal, como se sabe, a instância máxima da Justiça brasileira.

Alertado pelos seus pares, Sarney prontamente decidiu reativar o CCS, que terá como uma de suas missões dar parecer sobre o projeto de flexibilização do horário da Voz do Brasil, caso venha a ser aprovado. E pela composição de forças, não será surpresa recomendar o que desejam os que têm a concessão de emissoras de rádio.

A ofensiva pela aprovação do projeto é muito forte. Mas há resistências. O Deputado Jilmar Tato, do PT de São Paulo, pensa ao contrário do seu colega de partido, o ministro Paulo Bernardo, e conseguiu retirar da pauta de votação o projeto alegando que não foi discutido devidamente e ainda por cima se ocorrer a flexibilização, milhões de brasileiros verão interrompidos a sua fonte informativa. O tema está em debate.

O Deputado Fernando Ferro, do PT de Pernambuco, apresentou projeto tornando a Voz do Brasil Patrimônio Cultural Imaterial do Povo Brasileiro. Para isso, o projeto deve contar com o apoio do Ministério da Cultura e desta forma seguir caminho para a Presidenta Dilma Rousseff decretar.

O parlamentar quer, em suma, que o Ministério da Cultura se aproprie, consolide e dê estatuto de Patrimônio Imaterial da memória do Brasil ao importante espaço informativo acompanhado por milhões de ouvintes.

Vale lembrar que a Voz do Brasil no horário de 19 às 20 horas, além de ser fonte informativa para milhões de brasileiros, é um programa jornalístico que pode ser até ampliado, por exemplo, com informações sobre os movimentos sociais existentes no país, que geralmente são boicotados pela mídia de mercado, a mesma que defende com unhas e dentes o fim da Voz do Brasil com a flexibilização do horário.



Mário Augusto Jakobskind* é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE.

Enviado por Direto da Redação

As certezas que tenho sobre a Síria


Por Lejeune Mirhan

Lejeune Mirhan é sociólogo, escritor e arabista. Foi professor de Sociologia da Unimep entre 1986 e 2006. Presidiu o Sindicato dos Sociólogos de SP de 2007 a 2010.

Lejeune Mirhan
Na última semana, como nunca antes havíamos visto, na Síria trava-se uma guerra completamente distinta dos campos de batalha: uma guerra de informações. Sem disparar tiros de canhões, mas uma guerra tão ou ainda mais perigosa que a convencional. Fala-se na “mãe de todas as batalhas”.

Fala-se em “combates mortais” em Damasco e Aleppo, a segunda maior cidade. Até o Estadão e a Folha enviaram repórteres para apoiar o levante “rebelde”. Não se tem certeza de tantas coisas sobre o futuro deste que é o mais antigo país do mundo árabe. Mas, qualquer que seja o destino do atual presidente, é preciso que deixemos registrado pelo menos algumas certezas.

Até quando o governo Assad resistirá?

Desde março de 2011, na onda do que a grande imprensa vem chamando de “Primavera Árabe” – não gosto e nunca gostei desse termo – também a Síria vem presenciando levantes que pretendem derrubar o seu presidente legitimo e constitucionalmente eleito, o médico Dr. Bashar El Assad. A imprensa nunca o chama dessa forma. Refere-se a ele como “ditador”. E sabemos que a cobertura dessa “grande” imprensa e sua indignação é completamente seletiva. Nunca chamou Hosni Mubarak de ditador do Egito, ainda que ele tenha sido por 30 anos. Sempre foi amigo dos EUA. Tratava-o de “presidente” Mubarak. A mesma coisa com os ditadores depostos pelas massas árabes da Tunísia e Iêmen. Em ambos os casos, até pouco antes de caírem, eram tratados de “presidentes”.

Já publiquei muitos artigos nestes quase um ano e meio de levantes e revoltas na Síria. Apontei, citando estudiosos e analistas internacionais de maior renome, que a situação na Síria em nada tem a ver com a de outros países árabes, cujos levantes são justos. Também já tratamos do fato que o caráter e o conteúdo de classe de um governo e de um estado não são dados apenas pela forma como ele é escolhido. A apologia que se faz ao voto direto é absurda. Ao acaso os governos que emergiram das revoluções russa, em 1917, chinesa em 1949 e cubana em 1959 podem ser tratados de antidemocráticos? Qual o padrão e o parâmetro com que devem ser comparados? Com a democracia burguesa estadunidense?

Multidão reunida em Damasco em apoio a Bashar al-Assad
O que dá o caráter de classe e o conteúdo de um governo e de um estado são as tarefas que ele assume perante o seu povo, perante a maioria de sua população. Seu projeto político, sua plataforma, seu programa de ação. Como ele se posiciona no cenário internacional, ao lado de que países e de que campos políticos ele se coloca.

Quanto a isso nunca restou dúvidas sobre a Síria. É o último governo laico e republicano que restou em todo o Oriente Médio. Uma região completamente dominada pelos Estados Unidos, que fincaram bases em quase todas as monarquias árabes do Golfo Pérsico-Arábico, em especial Kuwait, Arábia Saudita, Bahrein (onde esta baseada a 4ª Frota dos EUA) e Qatar. Onde não conseguia fincar base militar, acabou por invadir, derrubar e assassinar seus presidentes, como foi no caso do Iraque com Saddam Hussein e na Líbia com Muammar Kadafi.

A própria Liga dos Estados Árabes hoje é instrumento tanto dos EUA, quanto das monarquias feudais do Golfo e à serviço do sionismo. E nisso, os norte-americanos não cochilam. Tudo fazem para proteger Israel e essa é a questão central. Além da ajuda anual de três bilhões de dólares que faz parte do orçamento aprovado pelo Congresso dos EUA, diversas outras formas de ajuda e proteção são ofertadas pela potência imperial aos sionistas. Por isso relutaram até o último dia para abrir mão de seu histórico aliado no Egito. Praticamente morreram abraçados ao ditador Mubarak. Chegaram a fazer acordos inconfessáveis até com a Irmandade Muçulmana, antes execrada, mas agora aliada dos EUA, para que os nasseristas não ganhassem as eleições no Egito (acabaram ficando em terceiro lugar no primeiro turno).

Agora, é preciso ocupar a Síria. É preciso mudar o regime de qualquer forma. E não se trata aqui de defender a democracia. Esse país árabe de 22 milhões de habitantes, mesmo sem ter petróleo algum, é o maior incômodo para a política estadunidense na região e para Israel. Uma pedra no sapato do imperialismo. O governo Bashar em um ano legalizou dezenas de partidos políticos. Televisões e jornais funcionam amplamente, sem nenhuma censura. Uma nova constituição foi escrita, mantendo a laicidade do Estado sírio. E a população foi ás urnas referendá-la com quase 90% de aprovação, mesmo com o boicote da oposição armada (há outra oposição que participa da política, da mesa nacional de diálogo, que legalizou seus partidos e que é contra o levante armado para derrubar o governo e nunca pede que potências estrangeiras ataquem o país). E, finalmente, um novo parlamento foi eleito e já tomou posse em fevereiro, com 12 partidos que elegeram parlamentares. Eleições limpas, diretas, democráticas.

Que mais querem os EUA? Querem tirar o presidente Bashar. Mas não é porque ele é um “ditador”. Os norte-americanos têm amigos ditadores em todo o mundo. Bashar incomoda exatamente por isso: ele não é amigo do império do Norte. Ao contrário. Ele forma com outro campo, com outro eixo, a que o Departamento de Estado chama de “Eixo do Mal” (sic). Esse campo combate a ocupação estadunidense do Oriente Médio. Esse campo defende a Palestina para os palestinos e isso gera profundas contradições com os sionistas e os israelenses. Esse campo faz aliança com o Irã, o maior demônio que a mídia inventou nos dias atuais. Nesse eixo ainda tem espaço para o Líbano e o Iraque. Os grupos Hezbolláh, a quem a imprensa chama de “terrorista” (sic) e a maior parte dos grupos da resistência palestina.

Mas, mais do que isso, a Síria hoje soma com a China e a Rússia. Essas duas potências, com assento no CS da ONU, já vetaram três resoluções dede 4 de fevereiro, que tentavam impor mais sanções à Síria, mas que, na prática, abririam espaço para uma intervenção armada externa, até com forças da OTAN.

Ainda assim, fica a pergunta: até quando o governo do presidente da Síria vai resistir? Aqui, rigorosamente, é uma pergunta que poucos têm a resposta. Poderia resistir ainda por muito tempo, a depender de fatores diversos que veremos a seguir. Ou, acabar caindo, cedendo lugar para novas forças e grupos políticos ascenderem ao poder central do país, levando a Síria a um rumo completamente imprevisível no momento atual.

Que certezas nos restam sobre a Síria?

Se por um lado não há certezas sobre o destino do governo e do presidente Bashar Al Assad, quais certezas nos restam nesse momento crítico que vivemos? Resumo a seguir as minhas principais certezas pessoais.

1. A Síria sofre ataque externo de potências estrangeiras – Pode parecer estranho, na medida em que a imprensa mostra as coisas como “guerra civil”, “rebeldes em luta” e outras bobagens mais. O que todos os analistas sérios e independentes têm nos alertado é que de 40 a 60 mil insurgentes entraram no país, principalmente pela fronteira com a Jordânia e o Iraque, de várias nacionalidades – são chamados de jihadistas – e financiados fortemente pelas monarquias do Golfo;

2. A chamada “oposição” ao governo não se entende e não tem programa – A imprensa apoia aberta e descaradamente a ação dos grupos externos que chama de “oposição” ao governo. Mas, tais grupos não tem unidade política alguma. Algum leitor já viu algum documento dessa gente? Quais são as suas propostas? Qual é seu programa? A única coisa que os unifica é serem pela deposição imediata do governo e serem amigos dos Estados Unidos. Nada mais;

3. Os EUA apoiam a derrubada de Bashar não por ele ser um “ditador”, mas por ser inimigo dos EUA – Aqui, qualquer que venha a ser o desfecho, essa é uma certeza que temos: se Bashar fosse amigo dos EUA e de Israel, se não apoiasse a causa palestina com firmeza, jamais existiria esse movimento, essa onda forte contra ele que presenciamos na atualidade;

4. A batalha que se trava na Síria é por uma nova ordem mundial – Não nos iludamos: o que estamos presenciando no Oriente Médio em geral e na Síria em particular é a consolidação na prática do que vimos chamando de um novo mundo, multipolar e não mais unipolar, até hoje sob a égide e o comando dos Estados Unidos. O único espaço que tem restado para a China e a Rússia em toda a região é exatamente manter com a Síria as relações amistosas que têm mantido há mais de duas décadas. Perder esse espaço, em especial o espaço geopolítico do estratégico porto de Tartuz, essas duas potências além de não terem mais ponto de apoio algum na região, não terão mais sequer um milímetro de acesso ao Mar Mediterrâneo;

5. O Exército “Livre” da Síria é a OTAN dentro do país – Claro que a imprensa nunca falaria isso, mas quem arma, treina e financia esse grupo de mercenários estrangeiros que age na Síria é a OTAN, braço armado do imperialismo estadunidense, francês e britânico. São apoiados financeiramente pelas monarquias do Golfo e tem apoio tácito do setor de inteligência de Israel;

6. A organização Al Qaeda passa de “terrorista” à aliada dos EUA – Claro também que a imprensa nunca admitirá isso. Nenhum dos seus correspondentes em qualquer lugar do OM dirá qualquer coisa a esse respeito. Apenas colunistas do campo progressista e antiimperialistas mostram isso às claras (vejam estas páginas:  Global Research, Asia Times e Red Voltaire). Atentados que eram considerados terroristas em todos os países que essa rede atua, agora praticados na Síria são apenas “ataques civis de rebeldes contra o governo” (sic). Os recentes atentados que mataram alguns generais sírios, a responsabilidade pelos assassinatos não cabe aos culpados, mas às vítimas, como diz Thierry Meyssan da Rede Voltaire Net;

7. A queda da Síria será o enfraquecimento do Irã e a desestabilização do Líbano – Disso nunca tive dúvidas. O caminho para Teerã passa por Damasco. Para derrubar, isolar ou enfraquecer a República Islâmica do Irã será preciso antes derrubar o governo de Damasco e, se possível, destruir toda a infraestrutura desse país árabe como vem sendo feito. Esse é um dos grandes objetivos do imperialismo;

8. Salafistas e os sunitas da Irmandade Muçulmana sonham com novo Califado na Região – Também aqui está claro. E são fortes essas correntes. Ficaram adormecidas em várias localidades, em especial no Iraque e na Síria, mas agora colocam suas forças às claras e estimulados pelo imperialismo para enfraquecer o setor mais progressista das sociedades árabes, em geral laicos e de esquerda. Esse pessoal sonha com um Califado Árabe, na sua essência conservador e fundamentalista, com a sharia como seu primado;

9. O problema no OM não é religioso, mas político – Apesar da força dos sunitas que menciono acima, a divergência não é religiosa, mas essencialmente política. Existem lutadores antiimperialistas na Síria que são sunitas, xiitas, alawitas, drusos, maronitas, cristãos ou ateus. Tais pessoas sabem exatamente quem são seus inimigos principais. A imprensa e a mídia-empresa ocidental insistem em apresentar o problema como sendo religioso, de lutas de facções muçulmanas, de cristãos e judeus contra muçulmanos. Existem sim, não negamos, componentes religiosos, mas essa não é a questão central;

10. Certa esquerda no Brasil e no mundo insiste em aliar-se ao imperialismo – Não preciso nominar, dar nome aos bois como se diz. Sabemos quem são. Certas pessoas que posam de esquerdistas e alguns de ultraesquerdistas, seguem afirmando que o que vem ocorrendo na Síria é uma “revolução popular” (sic). Quanta ingenuidade. Ou seria mesmo aliança aberta com o imperialismo? Só a história nos dirá. O que lamento profundamente é presenciar todos os dias, em redes sociais, em clubes sírios, em artigos postados em páginas na Internet, pessoas autoproclamadas de “esquerda” fazer eco de suas vozes com as do império norte-americano. Lamentável.

Este artigo não é conclusivo. De fato, quando lemos as páginas internacionais comprometidas na luta anti-imperialista, entendemos a real situação na Síria, o que lá esta em jogo, quais forças estão em disputa na batalha que se trava. No campo das ideias e no chão sírio.

Pessoalmente, sinto falta de uma reação da verdadeira esquerda no país. Em solidariedade ao povo sírio. Em defesa da soberania do país. Não se trata aqui de apoiar e defender o governo. Trata-se de defender que a solução para a Síria deve ser encontrada pelos sírios e não pelas potências estrangeiras. Deveríamos pensar em organizar um ato que diga alto e em bom som: Fora Imperialismo da síria e do Oriente Médio! OTAN, Tirem suas patas da Síria!

Artigo enviado pelo autor

Guerra santa na Síria e o curso da história


25/7/2012, Dmitry Shlapentokh, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Dmitry Shlapentokh 
Washington está visivelmente incomodada com a intransigência de Pequim e Moscou no que tenha a ver com a crise síria e a pouca disposição que os dois países mostram, de querer ajudar a justificar ataque direto dos EUA contra o presidente Bashar al-Assad com autorização da ONU. Representantes dos EUA na ONU descreveram vividamente a brutalidade do regime de Assad, em apelo à moral da “comunidade internacional” e mais ainda, é claro, de China e Rússia.

Nada consegue alterar a posição dos governos desses dois países, e por inúmeras razões. A primeira dessas razões é que não há indignação moral, vinda de Washington, que resista ao teste da história. Washington foi amiga solidária de Josef Stalin, Augusto Pinochet e do Xá do Irã. Washington já demonstrou que não há preconceito ou crime capaz de alterar sua rota, quando a questão são os seus programas geopolíticos. Washington é capaz de conviver e prestigiar ditadores de direita e ditadores de esquerda. Washington nada fez para impedir o início nem o prosseguimento de vários genocídios: do holocausto dos judeus aos massacres de Rwanda.

Mas, simultaneamente, ninguém deve supor que Washington não tenha amigos e aliados estrangeiros vários nessa sua aventura síria. Um desses aliados, que poucos se lembrariam de listar é o Kavkaz Center, principal página de Internet e veículo de contato entre os jihadis do Cáucaso Norte, na Rússia. Recentemente, Moscou intensificou esforços contra essa página, mas o Kavkaz conseguiu safar-se e continua a operar como blog. Os que militam no Kavkaz Center elogiam as boas almas que lutam contra Assad; nas entrelinhas dos elogios, pregam todos os tipos de ações e esforços para derrubar o governo de Assad.

Não é caso isolado. Autoridades do Iraque também informaram que está havendo fluxo constante de jihadis direção à Síria, para unirem-se na luta contra Assad. Não só elogiam a pressão que os EUA fazem contra Assad, mas até pregam e elogiam o envolvimento direto dos EUA nos assuntos da Síria. Implicitamente, pregam entusiasticamente também o confronto contra o Irã. Na verdade, tudo se passa como se o objetivo final de todas essas discussões fosse mesmo um ataque contra o Irã. Mas, por mais que preguem o imediato e total envolvimento dos EUA nos ataques ao governo de Assad, esses jihadis mantêm-se, simultaneamente, como inimigos figadais dos EUA.

Logo depois dos ataques de 11/9, o Kavkaz Center publicou artigo do russo Pavel Kosolapov, islamista converso – ou de alguém que usou esse nome – no qual os norte-americanos eram apresentados como zumbis horrendos, imorais e infiéis, que muito mereciam a dor pela qual passavam naquele momento. O artigo afirmava que os mortos não eram alguns poucos milhares, mas dezenas, senão centenas de milhares; e elogiava os que se haviam mostrado capazes de demonstrar ao mundo o quanto podia ser fácil desmoralizar e praticamente destruir uma super potência, bastando para tanto mobilizar um punhado de inteligentes e abnegados heróis da Jihad islâmica.

Pode-se assumir que essa posição dos jihadis, inclusive dos que estão combatendo hoje na Síria, não é segredo para ninguém em Washington e, especialmente, não é segredo para os conservadores, que exigem urgência absoluta no engajamento dos EUA. Ninguém aí, é claro, está preocupado com ou dedicado a salvar vidas. Seu único objetivo é destruir o “Obamacare” – e pouco lhes importa quantos milhares de norte-americanos morram anualmente por falta de tratamento médico.

O único objetivo que irmana todos esses “democratas” é enfraquecer o Irã. Porque o Irã, não a Síria, a Rússia ou a China, é o principal problema geoestratégico que os EUA enfrentam no Oriente Médio.

Mas até onde pode levar tão estranha associação de incompatíveis? Analistas de fraque e cartola em Washington – acompanhando, provavelmente o dictum de Edward Luttwak, historiador e estrategista norte-americano – creem que Washington pode(ria) derrotar seus adversários, nessa espécie de jogo bizantino.

Para entender o mais provável resultado dessa estratégia, é preciso deslocar-se para onde nasceu o bizantinismo moderno, a Rússia. Ali se pode ver como, há quase um século, desenrolaram-se eventos similares.

Vladimir Lênin, marxista radical que floresceu no mundo político no início do século passado, convencera-se de que massas satisfeitas jamais se levantariam para derrubar a ordem capitalista global; entendia também firmemente que seu partido, o Bolchevique, era fraco demais para combater diretamente contra o regime do czar, cuja derrubada poderia levar à revolução mundial, a partir da qual as massas poderiam estabelecer uma sociedade socialista ideal, global – que adiante se tornaria comunista, e que lembra o califato global, objetivo pelo qual lutam hoje os jihadis.

Na visão de Lênin, os Bolcheviques, apenas um punhado de militantes no início do século 20, só teriam sucesso em seu projeto político se os próprios imperialistas se autodestruíssem ou, no mínimo, se se enfraquecessem eles mesmos. Sem qualquer simpatia ou amizade pelo kaiser alemão, Lênin sonhava com um confronto entre Moscou e Berlin; na verdade, Lênin sonhava com uma guerra global, para fazer avançar seu projeto revolucionário.

Mas não havia grande guerra europeia à vista; as guerras napoleônicas, de havia quase cem anos, já eram passado. E tudo fazia crer, se se pressupunha a sanidade mental dos grandes líderes europeus, que nenhuma grande guerra houvesse à vista. As armas haviam-se tornado destrutivas demais; grandes blocos em aliança contrabalançavam, uns os outros. E os europeus haviam-se construído uma comunidade tão integrada em termos políticos e econômicos, que só um marginal louco como Friedrich Nietzsche, que antevia naquele momento um devastador banho de sangue, acreditaria que os europeus, em pouco tempo, estariam envolvidos em vastíssima guerra continental.

Lênin extravasou sua frustração em carta a Maxim Gorky, afamado escritor russo radical. “Caro Aleksei Maximovich”, escreveu Lênin em 1912 – usando, como é prática na Rússia e em outros países, os prenomes do amigo – “a grande guerra europeia seria um grande estopim para a revolução. Mas, infelizmente, nem Nesse [o tzar Nicolau da Rússia] nem Willy [o kaiser Wilhelm] nos darão tal prazer”.

Verdade é que Lênin (e não era o único) superestimava “Willy” e seus conselheiros. Esses – como fazem hoje os neoconservadores em Washington – acreditavam que a guerra, naquele momento, seria rápida como relâmpago (umablitzkrieg). Então, “Willy”, aproveitando como pretexto o 11/9 que encontrou à mão (o assassinato do arquiduque Franz Ferdinand da Áustria), inventou a I Guerra Mundial.

Mas a guerra não seguiu o roteiro nem o cenário alemães. Há quase um século, os eventos tomaram rumo muito semelhante ao que se vê acontecer hoje no Oriente Médio. A guerra prevista para ser blitzkrieg converteu-se em longa e sangrenta guerra de atrito; os recursos da Alemanha foram incinerados na guerra, numa versão europeia local do que já se vê no horizonte dos EUA: o orçamento militar “sequestrou” todos os recursos da nação.

Com europeus morrendo aos milhões, Lênin via confirmar-se o que previra: o sofrimento das massas reforçou sofrimentos históricos antigos e tornou possível a revolução comunista na Rússia. Berlim também observava os movimentos de Lênin e seus seguidores e – exatamente como Washington faz hoje – supôs que seria fácil manipular aqueles russos radicais para desestabilizar a situação na Rússia, o que levaria a Alemanha à vitória. 

Berlin então forneceu meios a Lênin e permitiu que ele e alguns de seus companheiros radicais viajassem para a Rússia em “trens blindados”, quando o Governo Provisório liberal, que emergira da revolução de fevereiro-março de 1917, permitiu que voltassem à Rússia. Esses bolcheviques, como a história ensina, levaram realmente a Rússia a uma nova revolução; e puseram fim à guerra, com o que Lênin chamou de “o tratado obsceno” de Brest-Litovsk.

Berlin, contudo, não teve tempo para beneficiar-se dos frutos de seu estratagema. Os germes da revolução leninista rapidamente se alastraram até a Alemanha e a nova revolução empurrou para o fim a monarquia germânica. Poucas gerações adiante, herdeiros espirituais e políticos de Lênin já entravam com seus tanques em Berlin.

Claro que a história não se repete linha a linha e palavra a palavra, mas os eventos guardam semelhanças estruturais. Os jihadis – do norte do Cáucaso ao Oriente Médio – creem que o colapso de Assad e, melhor ainda, a guerra contra o Irã, obterão o que a guerra dos EUA ao Iraque não conseguiu: incendiar, não só o Oriente Médio, mas com o tempo, todo o planeta. Esse é o cenário de sonho dos jihadis.

Se acontecer, porém, a maré já montante do terrorismo não atingirá só Moscou e Pequim, inimigos que Washington definiu para ela mesma, mas também Jerusalém. Esse é o motivo pelo qual o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu não dá sinais de entusiasmo ante o espetáculo do massacre contra Assad.

Pois Washington não dá sinais, sequer, de ouvir as vozes sóbrias que vêm de Jerusalém, não só porque acredita que poderia calá-las facilmente, como no Egito de Hosni Mubarak, apesar de todos os indícios contrários; não só, também, porque Washington inventou que não será afetada pelo caos e pela maré montante do terrorismo e crê firmemente em sua invenção; mas, também, pelas mudanças políticas pelas quais passam os EUA.

À medida que as dificuldades econômicas vão-se tornando evidentes demais para serem ignoradas, as elites norte-americanas sentem que não só sua dominância econômica e geopolítica escapa-lhe por entre os dedos em alta velocidade. Os EUA não são mulher que envelheça com graça e prepare-se para um futuro – nesse caso uma nova ordem global – no qual a riqueza, o american way of living e a influência norte-americana serão bem menos prestigiados, além de bem mais modestos.

O presidente dos EUA Barack Obama e legiões de comentadores continuam a repetir que os problemas atuais são temporários e que, depois, virá novo apogeu. E que “ela” poderia continuar a meter-se em aventuras, em affairs sem amanhã, das quais não ela, mas seu potente e carismático amante jihadi, que além de pote nte e carismático é perseverante, paciente e capaz de sacrifícios – qualidades que os EUA jamais aprenderam a cultivar – será o único beneficiário no longo prazo.

Pode acontecer, pois de a história mover-se em outra direção, completamente diferente da prevista, como aconteceu em 1914, quando pouquíssimos haviam ouvido falar de Lênin e nem Lênin jamais ouvira falar de Stálin, Adolf Hitler e Benito Mussolini, quando praticamente ninguém previu o que fariam em futuro nem tão distante.

Como Georg Wilhelm Friedrich Hegel ensina corretamente, “a coruja de Minerva só abre as asas depois que cai a noite” – quer dizer: só em retrospectiva se conhece o significado dos eventos.

O vergonhoso “Memorando de Downing St” será requentado para o Irã?


23/7/2012, Annie Machon e Ray McGovern, Consortium News

Will Downing St. Memo Recur on Iran?

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Exclusivo:
Uma década depois do infame “Memorando de Downing Street” [orig. Downing Street Memo] e sua inteligência “reformada” para a invasão do Iraque, volta a pressão para que se ‘reformem’ os fatos – quase todos – de modo a viabilizar mais uma guerra, dessa vez contra o Irã. O MI6 britânico e a CIA curvar-se-ão outra vez?
É o que perguntam dois ex-analistas de inteligência, Annie Machon e Ray McGovern.

Comentários recentes vindos de Sir John Sawers, atual chefe do MI6 britânico (serviço secreto de inteligência, equivalente britânico da CIA norte-americana), nos obrigam a considerar a possibilidade de que Sawers se prepare para “reformar” a inteligência sobre o Irã, exatamente como fez seu antecessor Sir John Scarlett, que “reformou” a inteligência reunida sobre o Iraque.

É relativamente bem conhecido o papel de Scarlett no período que antecedeu a invasão do Iraque, quando se inventaram “dossiês pré-arranjados”, que ampliavam a ameaça das inexistentes “armas de destruição em massa”. Dia 4 de julho passado, outra vez acenderam-se as luzes de alerta contra manipulação política de informes de inteligência, luminosas, em Londres, quando Sawers disse a altos funcionários da burocracia britânica que o Irã está “a dois anos de tornar-se estado nuclear”. De onde terá Sawers tirados esse preciso prazo de “dois anos”?

Comentários recentes vindos de Sir John Sawers, atual chefe do MI6 britânico (serviço secreto de inteligência, equivalente britânico da CIA norte-americana), nos obrigam a considerar a possibilidade de que Sawers se prepare para “reformar” a inteligência sobre o Irã, exatamente como fez seu antecessor Sir John Scarlett, que “reformou” a inteligência reunida sobre o Iraque.

É relativamente bem conhecido o papel de Scarlett no período que antecedeu a invasão do Iraque, quando se inventaram “dossiês pré-arranjados”, que ampliavam a ameaça das inexistentes “armas de destruição em massa”. Dia 4 de julho passado, outra vez acenderam-se as luzes de alerta contra manipulação política de informes de inteligência, luminosas, em Londres, quando Sawers disse a altos funcionários da burocracia britânica que o Irã está “a dois anos de tornar-se estado nuclear”. De onde terá Sawers tirados esse preciso prazo de “dois anos”?

O primeiro-ministro britânico Tony Blair e o
presidente dos EUA George W. Bush  apertam-se
 as mãos depois de conferência de imprensa em que
 apareceram juntos, na Casa Branca, dia 12/11/2004
 (Foto de Paul Morse, da Casa Branca)  
Desde 2007, o parâmetro para avaliar o programa nuclear iraniano é a conclusão unânime de todas as 16 agências de inteligência dos EUA, segundo as quais o Irã suspendeu seu programa nuclear no final de 2003 e, até meados de 2007, não o havia reativado. Essas conclusões têm sido validadas anualmente todos os anos, desde então, apesar do que digam Israel e seus apoiadores neoconservadores, sem apresentar qualquer prova.
O documento conhecido como US National Intelligence Estimate (NIE) de 2007 ajudou a conter o projeto de atacar o Irã em 2008, último ano do governo Bush/Cheney. É fato registrado até nas memórias de George Bush, Decision Points, nas quais o autor lastima a “surpreendente declaração da NIE: ‘Estamos muito fortemente convencidos de que, no outono de 2003, Teerã suspendeu seu programa de armas nucleares.’”

E Bush continua: “Mas depois da NIE, como poderia eu explicar o uso dos militares para destruir instalações nucleares de um país do qual a comunidade de inteligência dizia não ter programa ativo de armas nucleares?” (Decision Points, p. 419)

De mãos atadas na frente militar, floresceram as operações clandestinas dos EUA, que, à época, apropriaram-se de $400 milhões para uma enorme escalada do lado obscuro da força na luta contra o Irã, segundo fontes militares, de inteligência e do Congresso citadas por Seymour Hersh em 2008.

A guerra tão clandestina quanto real contra o Irã incluiu ataques de vírus de computadores, assassinato de cientistas iranianos e o que os israelenses chamam de desaparecimento “não natural” de altos funcionários, dentre os quais o major-general da Guarda Revolucionária Hassan Moghaddam, pai do programa iraniano de mísseis.

Moghaddam foi morto numa violentíssima explosão, em novembro passado, com a revista Time citando “uma fonte da inteligência ocidental” que teria dito que o Mossad estaria por trás da explosão. Mais perigosas para o Irã são as severas sanções econômicas impostas ao país e cuja imposição equivale a ato de guerra.

O primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu e neoconservadores pró-Israel nos EUA e por toda a parte têm pressionado a favor de imediato ataque ao Irã, recolhendo cada pretexto que consigam encontrar ou inventar. Exemplo recente é Netanyahu, que foi suspeitamente rápido ao aparecer com denúncias de que o Irã estaria por trás do trágico atentado terrorista que matou turistas israelenses na Bulgária, dia 18 de julho passado, apesar de as autoridades búlgaras e até a Casa Branca já terem alertado no sentido de ainda precipitado atribuir responsabilidades, naquele caso.

A acusação instantânea, automática, feita por Netanyahu contra o Irã sugere fortemente que ele esteja já à caça de desculpas ‘prévias’. Com o Golfo Persa em situação de acidente à espera de acontecer, congestionado como está com navios de guerra dos EUA, da Grã-Bretanha e outros – e sem canais de comunicação segura com os comandantes da Marinha iraniana – nunca, mais do que hoje, esteve preparado o cenário para um acidente, ou para ato de ativa provocação que gere rápida escalada no conflito.

23 de julho, Dia da Infâmia

Estranhamente, o discurso de Sawers dia 4 de julho aconteceu às vésperas de data importante – o décimo aniversário de um triste dia para a inteligência britânica e norte-americana que trabalhava sobre o Iraque. Dia 23 de julho de 2002, em reunião em 10 Downing Street, o então chefe do MI6, John Dearlove, comunicou ao primeiro-ministro Tony Blair e a outros altos funcionários do governo a conversa que tivera com George Tenet, diretor da CIA, em Washington, três dias antes.

Nos termos oficiais do briefing (hoje conhecido como “Memorando Downing Street”), que foi vazado para o London Times e publicado dia 1/5/2005, Dearlove explica que George Bush decidira atacar o Iraque; e que a guerra devia ser “justificada pela conjunção de terrorismo e armas de destruição em massa”.

Quando o então secretário de Assuntos Exteriores Jack Straw chamou a atenção para o argumento “ralo”, Dearlove explicou como se nada houvesse, ali, de espantoso: “A inteligência e os fatos estão sendo reformados em torno da política”.

Não há anotação, nos registros da conversa, de que alguém tenha tido crise de soluços – muito menos que alguém tenha protestado contra declarar-se ali guerra absolutamente injustificável, ou de que alguém tenha tentado abalar a determinação de Blair de unir-se a Bush para fazerem o tipo de “guerra de agressão” que o Tribunal de Nuremberg tornou expressamente ilegal depois da IIa. Guerra Mundial e ilegal também nos termos da Carta das Nações Unidas.

Ajudado pela conivência de seus espiões-chefes, o governo Blair abraçou ali uma prática política sem qualquer controle democrático, indiferente aos informes e avaliação de qualquer inteligência e regida por documentos falsificados, com desastrosas consequências para o mundo.

Os cidadãos britânicos foram empanturrados, pelo Dossiê de Setembro (2002), com quantidades astronômicas de inteligência forjada e em seguida, seis semanas antes do ataque ao Iraque, meteram-lhes goela abaixo o “Dossiê Reformado”, baseado principalmente numa tese de PhD já velha de 12 anos, baixada da Internet – requentada por espiões e políticos mancomunados naquele golpe, como se lá existisse alguma obscena inteligência premonitória.
Assim se fez a guerra do Iraque. Só mentiras, que resultaram em centenas de milhares de mortos e mutilados além de milhões de iraquianos sem casa, que vagam sem destino ou futuro. Até agora, ninguém respondeu por esse crime.

Sir Richard Dearlove, que poderia ter evitado tudo isso, se fosse íntegro o suficiente para falar, foi premiado com aposentadoria com honras e salário integrais e foi nomeado Master de uma faculdade de Cambridge. John Scarlett, o qual, como presidente do Comitê Conjunto de Inteligência, assinou os dossiês falsificados, foi recompensado com um título de Cavaleiro e o emprego de top espião no MI6. George W. Bush condecorou George Tenet com a Medalha Presidencial da Liberdade – a mais alta condecoração civil nos EUA.

Quem precisa de mais provas? “São eles, todos eles, homens honrados” –– lembrança dos aliados do assassino Brutus, na peça de Shakespeare, mas sem Marco Antônio que os exponha e faça despertar a adequada resposta popular.

Aí de fato está o problema: em vez de denunciados, acusados e julgados, para que respondam pelos seus crimes, os tais “homens honrados” foram, ora... Foram homenageados. A evidência de que todos se safaram oferece tenebroso exemplo a burocratas ambiciosos, sempre prontos a deixar o jogo sujo correr solto e a navegar para onde os mandem os ventos dominantes.

A homenagem fácil e o favor nem detêm nem desincentivam os atuais e futuros chefes de inteligência tentados a produzir e seguir inteligência corrompida, em vez de impor fatos aos seus chefetes políticos, simples fatos não adulterados. Integridade? Nesse milieu, a integridade atrai perigos, não homenagens. E pode acontecer de você ser expulso do clube.

A operação de “reformar” informação, no caso do Irã

Estaremos entrando em mais uma rodada de informação “reformada” – agora sobre o Irã? Logo saberemos. O primeiro-ministro de Israel Netanyahu, sobre o ataque terrorista na Bulgária, já forneceu quantidade gigantesca de uma variação do mote de Dearlove de dez anos atrás. Já opera na direção de justificar a guerra “pela conjunção de terrorismo e armas de destruição em massa”.

Segundo o Jerusalem Post do dia 17 de julho, Netanyahu disse que todos os países que entendem que o Irã é exportador mundial de terrorismo devem unir-se a Israel e “declarar claramente o fato” – enfatizando a importância de impedir que o Irã produza armas nucleares.

Em aparições no domingo, no programa Face the Nation da rede CBS e em Fox News Sunday, Netanyahu voltou àquele tema. Culpou o Hizbollah libanês, apoiado pelo Irã, pelo ataque terrorista na Bulgária. E convidou os telespectadores a imaginar o que aconteceria se o regime mais perigoso do planeta obtivesse a mais perigosa das armas.

Já se ouviu coisa semelhante... Há dez anos.

O chefe Sawers do MI6 modelará sua conduta hoje pela dos predecessores que, há dez anos, “justificaram” a guerra ao Iraque? Cuidará, por sua vez, de “reformar” a inteligência, para fazê-la caber na política de EUA/Grã-Bretanha para o Irã? Cabe ao Parlamento exigir que Sawers se manifeste, antes que o um dia bulldog britânico seja arrastado, feito poodle, para mais uma guerra desnecessária.