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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

“Lobby” de Israel contra o favorito do Pentágono


19/12/2012, Jim Lobe, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Jim Lobe
Os neoconservadores e líderes do poderoso lobby de Israel estão mobilizando forças para o que parece ser campanha fortíssima par impedir que o presidente Barack Obama nomeie um ex-senador Republicano, herói condecorado da Guerra do Vietnã, para substituir Leon Panetta como secretário da Defesa.

A campanha foi lançada semana passada, depois que altos funcionários da Casa Branca vazaram o nome de Chuck Hagel, que também dirige o Grupo de Conselheiros do Presidente para Inteligência Estrangeira [orig. President’s Foreign Intelligence Advisory Board (PFIAB)], como provável nomeado, tão logo Panetta anuncie formalmente a aposentadoria, agora esperada a qualquer momento. E ganhou fôlego nos últimos dias, com grandes nomes dos neoconservadores iniciando a carga contra o ex-senador por Nebraska.

Barack Obama e Chuck Hagel (foto WSJ)
Se Obama insistir na nomeação, poderá sinalizar importante mudança na política dos EUA para o Oriente Médio, dentre outros motivos, porque Hagel – Republicano realista, da tradição do ex-presidente, Dwight Eisenhower e do secretário de Estado, James Baker – tem sido ativo crítico das políticas de Israel e advogado empenhado de os EUA abraçarem a via da negociação diplomática com o Irã.

Natanyahu
Para alguns observadores, a nomeação seria “dar o troco” ao primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu, que várias vezes confrontou Obama, no primeiro mandato, na questão da expansão das colônias israelenses na Cisjordânia; e repetidas vezes ameaçou atacar o Irã. Netanyahu tampouco fez segredo de que seu candidato à presidência dos EUA não era Obama, mas o governador Republicano, Mitt Romney.

O núcleo mais conhecido do lobby de Israel em Washington, que parece temer que Obama pretenda pressionar Israel no segundo mandato, pode estar motivando a crescente campanha contra a possível nomeação de Hagel.

O lobby está trabalhando, portanto, para convencer Obama de que pagará preço político excessivamente alto, se insistir no nome de Hagel. Se for realmente nomeado, muitos observadores creem que dificilmente a indicação será rejeitada no Congresso, dada a relutância que muitos senadores Republicanos sempre manifestam quando se trata de negar aprovação a um dos seus (embora Hagel tenha feito campanha pró-Obama em 2008).

A principal carga feita até aqui contra Hagel, que também trabalha no Conselho Atlântico, think tank muito influente, é que ele seria “anti-Israel” – e há até os que o chamam de “antissemita” – e que várias vezes manifestou não crer na possibilidade de algum ataque ao Irã, mesmo que o país não reduzisse – ou preferentemente, para Israel, abandonasse totalmente – seu programa nuclear.


“Hagel com certeza tem um viés anti-Israel e é favorável a “amolecer” com o Irã – escreveu William Kristol, editor-chefe de The Weekly Standard, em editorial, essa semana.

“Quando ainda senador, Hagel disse que nenhum ataque militar contra o Irã, como nenhuma opção militar, seria opção viável, realizável ou responsável” – anotou Kristol, co-fundador do Projeto para um Novo Século Americano [orig. Project for a New American Century (PNAC)], dos conservadores, que teve papel chave na propaganda a favor de ataque ao Iraque, há uma década; e, mais recentemente, no controverso Comitê de Emergência pró-Israel [orig. Emergency Committee for Israel (ECI)].


Na 3ª-feira, na mesma linha, dois outros influentes neoconservadores ofereceram empenhado apoio ao Partido Likud, de Netanyahu e da direita israelense: Elliott Abrams, membro do Conselho de Relações Exteriores, auxiliar direto de George W Bush para o Oriente Médio; e Bret Stephens, jornalista que assina a coluna “Global View” [Visão Global] do Wall Street Journal.

Relembrando que Hagel disse certa vez a um entrevistador seu aliado que “o lobby judeu intimida muita gente por aqui [no Congresso]”, Stephens sugeriu que a expressão cheira a antissemitismo, sobretudo à luz da crítica que o Senador fizera, contra Israel, durante a segunda Intifada palestina e a guerra de 2006 contra o Líbano, e sua oposição a várias sanções impostas aos Irã.

“(...) O comentário do Sr. Hagel sobre o lobby dá boa dimensão do seu padrão de pensamento”, escreveu Stephens. Na sequência, citou outros trechos da entrevista que Hagel deu a um diplomata norte-americano aposentado que servira no Oriente Médio em 2006, como prova do antissemitismo ou da hostilidade do (então) senador Hagel contra Israel.

“Sou senador dos EUA, não de Israel” – disse Hagel a Aaron David Miller. “Sou senador dos EUA. Apoio Israel. Mas jurei servir à Constituição dos EUA, não a um presidente, nem a um partido. Não jurei que serviria a Israel, no meu mandato”.

Por menos que haja aí questão a discutir ou discordar, as palavras de Stephens foram imediatamente repetidas e repercutidas por Abraham Foxman, diretor da Liga Antidifamação [orig. Anti-Defamation League (ADL)], pilar do lobby de Israel mais convencional.

“Chuck Hagel não seria o primeiro, nem o segundo, nem o terceiro nome a ser escolhido pela comunidade judeu-americana dos amigos de Israel” – disse à blogueira neoconservadora Jennifer Rubin, do Washington Post.

“Seu currículo no que tenha a ver com as relações EUA-Israel é, no mínimo, preocupante, e, no máximo, muito constrangedor” – disse Foxman, acrescentando que os sentimentos de Hagel em relação ao lobby judeu beiram o antissemitismo.

Mas Foxman, o qual, diferente dos neoconservadores, tenta manter-se a igual distância dos dois partidos, disse ao Times of Israel que se oporia à nomeação, se a ideia avançasse.

O Comitê de Relações Públicas EUA-Israel [orig.  American Israel Public Affairs Committee (AIPAC)], o mais influente grupo de lobby pró-Israel nos EUA, está mantendo silêncio discreto, embora um porta-voz de muitos anos, Josh Block, que hoje chefia o Projeto Israel [orig. The Israel Project], já se tenha manifestado fortemente contra o nome de Hagel, por sua oposição às sanções contra o Irã e sua recusa a assinar cartas e resoluções e abaixo-assinados contra o Irã, o Hezbollah e o Hamás, apoiados, quando não concebidos, redigidos e promovidos pelo próprio AIPAC.


Em vários sentidos, a atual campanha faz lembrar outra, contra Chas Freeman, embaixador aposentado e muito prestigiado nos EUA, que foi nomeado para presidir o Conselho Nacional de Inteligência nos primeiros dias do primeiro governo Obama, e em seguida foi tomado como alvo de violenta campanha movida contra ele, pelos jornais, por neoconservadores e pelo lobby de Israel.

Mas, naquele caso, a campanha focou-se menos em críticas de Freeman contra políticas dos EUA para Israel e, mais, em ditas relações muito próximas que Freeman manteria com líderes chineses.

No caso de Hagel, a questão é bastante mais importante, dada a importância do Pentágono para as políticas exteriores, particularmente para o Oriente Médio, onde Obama – de acordo, nisso com o pensamento de Hagel – tenta tirar o pé do Oriente Médio, no movimento de “pivô”, para reorientar as forças militares dos EUA na direção, mais, do Pacífico Asiático.

Frank Gaffney
Diferente, também, do caso Freeman, os inimigos de Hagel não encontrarão facilmente outras questões, fora do Oriente Médio, para mobilizar a oposição a uma já provável nomeação. Frank Gaffney, que dirige o Centro de Política de Segurança [orig. Center for Security Policy (CSP)], neoconservador de linha dura, denunciou Hagel em coluna assinada na 3ª-feira no Washington Times, por jamais ter apoiado as guerra no Iraque e no Afeganistão; por acreditar que o Pentágono estaria “inchado”; e por apoiar, com outros Republicanos realistas, um gradual desarmamento nuclear.

Outro argumento que está emergindo é que, se, como se espera, Obama nomear o senador John Kerry para o posto de secretário de Estado, e puser mais um homem, branco e de idade na chefia do Pentágono, estará desmentindo o projeto de fazer, de seu Gabinete, um projeto de diversidade demográfica.

No curto espaço de tempo desde que se começou a falar da possibilidade de Hagel vir a ser nomeado, várias vozes de judeus conhecidos falaram a seu favor, dentre os quais Miller, que disse ao blog “Open Zion” [Sion Aberto], do portal Daily Beast, que “Hagel é forte apoiador de Israel”.

Daniel (Dan) Kurtzer
Além desse, o ex-embaixador dos EUA em Israel, Dan Kurtzer, disse ao jornal Político que a crítica contra Hagel é “terrivelmente mal orientada”; e o grupo J Street, “pró-paz e pró-Israel” disse que Hagel “seria magnífica escolha” para comandar o Pentágono.

Muitos observadores creem que, agora, muito dependerá do que façam alguns dos senadores mais diretamente associados ao lobby de Israel, nos dois partidos, se se manifestarão, ou não, contra Hagel.

Até aqui, dois Republicanos, McCain e Lindsay Graham, cujas atitudes quase sempre refletem a dos demais neoconservadores e que tiveram papel destacado na oposição contra a indicação da embaixadora dos EUA na ONU, Susan Rice, ao posto de secretária de Estado, já disseram que não esquecerão o que Hagel disse sobre “o lobby judeu”, caso seja nomeado, mas não disseram que farão oposição declarada à nomeação, como fizeram, à simples ideia de Rice vir a ocupar a secretaria de Estado.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Irã: A Índia que não prevarique

14/6/2012, MK Bhadrakumar*, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu: Fato é que todos os BRICS são muito mais parecidos uns com os outros do que supõe a nossa vã imprensa brasileira e os muito mais vãos celsoslafers e demétriosmagnollis que entediam semanalmente os assinantes da Globo News & William Waack...
Se Rússia, China e Índia vão, aos poucos, entendendo que ninguém precisa, de fato, temer tanto o sinistro lobby sionista, o mais provável é que ninguém  (exceto Obama e, mesmo assim, só em ano eleitoral) precise, afinal de contas, temer tanto o sinistro lobby sionista.
São tigres de papel.
Sic transit gloria mundi. Quem diria?
Há reflexões interessantes aí, de fato, pra todos os BRICS...

Sergey Lavrov
A Rússia está tentando tirar algo da cartola para próxima reunião, semana que vem, entre o P5+1 e o Irã, que o país hospedará. Na 4ª-feira, o ministro russo das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, esteve em Teerã. Aparentemente, levava ideias novas. De Teerã, foi a Kabul, para participar de encontro lá, na 5ª-feira (sobre o futuro do Afeganistão), para o qual também desembarcou na capital afegã o vice-secretário de Estado dos EUA William Burns (ex-embaixador dos EUA na Rússia). É muito provável que Lavrov e Burns tenham achado tempo para trocar ideias. E o ministro das Relações Exteriores do Irã Ali Akbar Salehi também participou da conferência em Kabul.

Ali Akbar Salehi
Salehi disse a jornalistas, depois de reunir-se com Lavrov em Teerã, que estava otimista em relação à rodada de conversações em Moscou, semana que vem; e que esperava que as conversações fossem “construtivas”. Mas a opinião dominante é que dificilmente haverá grandes novidades na próxima rodada de conversações sobre o Irã.

O presidente Barack Obama dos EUA está sem meios para negociar com o Irã, nesse escorregadio ano eleitoral. E o Congresso não o perde de vista, atento para impedir qualquer concessão que Obama pense em fazer ao Irã. Essa pressão do Congresso não diminuirá. A matrix é mais ou menos a seguinte: Obama tem interesse em relaxar as tensões com o Irã, temeroso de que o preço do petróleo e da gasolina cause alvoroço na opinião pública nos EUA; mas para relaxar as tensões, teria de negociar alguma concessão, o que não pode fazer, apesar da manifesta disposição dos iranianos para retribuir concessão com concessão.

Resultado: as sanções dos EUA contra o Irã só aumentam.

A história demonstra que sanções jamais funcionaram. Mas a discussão, em tom sempre crescente, ajuda o governo Obama a fazer crer, pelo discurso de especialistas e pela mídia, que sua política para o Irã está(ria) gerando algum efeito. Coluna publicada hoje no New York Times, assinada por Trita Parsi [1], iraniano criado na Suécia e premiado especialista em Oriente Médio, que trabalha hoje nos EUA, analisa a fracassada política dos EUA para o Irã.

S.M. Krishna
É mais importante, a cada dia, que a Índia assuma posição sem ambiguidades, que se posicione claramente contra as sanções norte-americanas contra o Irã. O ministro dos Assuntos Externos da Índia, S.M. Krishna, deveria ter-se manifestado com firmeza e sem meias palavras sobre o assunto, como fazem hoje a Rússia e a China. Em Teerã, Lavrov não tergiversou. [2]

Funcionários dos EUA já sinalizam que é impensável, para Washington, impor sanções contra a China, caso não se deixe pautar pelas sanções norte-americanas contra ao Irã. Por que os indianos estamos falando como poodles que tivessem satisfações a dar, ao decidir sobre nossas posições? Convenhamos: quais seriam as tais “situações internacionais” às quais se referiu em tom enigmático o ministro dos Assuntos Internos da Índia, que obrigariam a Índia a reduzir as importações de petróleo iraniano e a aumentar as importações da Arábia Saudita?

Quanto ao sempre referido e temido lobby israelense, que a Índia não quereria incomodar, e se o problema é esse, por que não pedimos que os judeus norte-americanos garantam à Índia a posição de membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, em troca do que façamos no caso do Irã? Pois se tanto já nos exaurimos em rompantes de que nunca mais deixaríamos a cadeira no Conselho de Segurança à qual chegamos ano passado, com mandato de dois anos!

Recep Tayyip Erdoğan
Por que, afinal, o lobby israelense em Washington não consegue que os EUA apertem o garrote no pescoço da Turquia, que anda fazendo o diabo contra Israel? A Turquia impediu que Israel tivesse acesso à reunião de cúpula da OTAN em Chicago, da qual Israel queria desesperadamente participar. Líderes israelenses estão sendo processados, acusados de vários tipos de crime, em cortes judiciais turcas. E o que, me digam, o lobby do Estado Judeu pode fazer para vingar as dificuldades que o governo de Recep Tayyip Erdoğan vem impondo a Israel já há dois, três anos? Zilch. Nada.

E mais importante: a atitude da Turquia contra o governo israelense maculou as relações EUA-Turquia? Exatamente o contrário: as relações EUA-Turquia são hoje as melhores e mais sólidas de toda a era pós-guerra fria.

Às vezes tenho a impressão de que nosso próprio pessoal indiano, que pode ter sido “conversado” por Israel por vias obscuras, está deliberadamente espalhando essa lorota, para assustar nossos ministros com a tese risível de que os EUA buscam parceria com a Índia por sugestão de algum lobby israelense. Que sandice! As relações EUA-Índia são baseadas em interesses mútuos. E a Índia deve confiar nela mesma, o suficiente, pelo menos, para entender a raison d’etre do relacionamento EUA-Índia.




Notas de rodapé
[1] 14/6/2012, Abram espaço para Obama, na negociação com o Irã”, Trita Parsi, (em inglês).
[2] 16/6/2012, A Rússia rejeita quaisquer sanções unilaterais contra o Irã”, FarsNews, Teerã, (em inglês). 

*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.




sexta-feira, 25 de maio de 2012

O Irã e a encruzilhada de Obama


22/5/2012, MK Bhadrakumar*, Indian Punchline – Rediff Blogs
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O presidente dos EUA Barack Obama meteu-se, literalmente, numa encruzilhada iraniana, na qual, como escreveu o poeta Robert Frost, Two roads diverged in a yellow Wood  [1] [Duas estradas divergiram num bosque Amarelo]. Evidentemente, não pode viajar pelas duas, porque é “[só um] o viajante”. A grande pergunta é se tomará a estrada na qual a grama é mais alta porque por ali bem poucos transitam, o que, como Frost descobriu, pode fazer toda a diferença.

No fim de semana, já havia notícias de que Obama aproximava-se da encruzilhada nas conversações sobre o Irã. A conversa evoluía lenta, firmemente, sem dúvida já ganhando tração [2] , desmentindo os detratores e os atiradores. Agora, chega a confirmação, quando o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica Yukiya Amano voltou a Viena, na tarde ventosa, chuvosa, depois de viagem surpresa a Teerã  [3].

Yukiya Amano e Saeed Jalili
Amano confirmou que a AIEA e o Irã chegaram a um acordo [4] sobre as inspeções da ONU às instalações nucleares iranianas. Até o The Guardian, que já disse mais de uma grosseria contra o Irã no passado, admite que “a música ambiente está mudando”. Em matéria sobre a grande notícia que Amano trouxe, o Guardian comentou: “Um movimento de otimismo cauteloso irrompeu na frenética atividade dos diplomatas que acontece nos bastidores das conversações nucleares iranianas em Bagdá, na 4ª-feira. Pela primeira vez, parece que há possibilidade real de que se iniciem negociações sérias”.  [5]

Obama apostou e venceu. Mas agora começa a parte mais difícil. Obama tem de continuar pressionando. Abraçar esse tipo de diplomacia de alto risco em ano eleitoral é extraordinariamente perigoso. Os abutres sobrevoam nos céus à procura de carcaças no cenário do impasse EUA-Irã, já povoado de ossos ressequidos. O Senado dos EUA aprovou por unanimidade, na 2ª-feira, resolução que exige que Obama imponha novas sanções contra o Irã, como reforço ao que o lobby israelense está fazendo, incansável, para torpedear as iniciativas de Obama para o Irã [6].

Que bizarra coincidência, que os veneráveis senadores tenham votado o que votaram, apenas poucas horas antes das produtivas conversas de Amano em Teerã! Será que a história se repetirá? Houve ocasiões no passado, quando EUA e Irã, como estranhos na noite, cruzaram-se e trocaram olhares, apenas para cada um seguir seu caminho. Obama enfrenta agora o maior desafio da política externa de todo seu governo: como agir com o Irã. A parte curiosa é que ainda terá de lutar e vencer uma batalha em casa, [7] antes de aventurar-se por outras plagas.

Saeed Jalili, principal negociador do Irã, acaba de voar para Bagdá, hoje cedo, indiferente à violenta tempestade de areia que assola a capital iraquiana [8]. Obama escolherá a estrada pouco trilhada, nas conversação entre o P5+1 e o Irã, em Bagdá, na 4ª-feira? Nesse momento, ironicamente, é o lado iraniano que exibe a audácia da esperança[9].



Notas de rodapé

[1] FROST, Robert (1874-1963), Mountain Interval, 1920, The road not taken .
[2] 22/5/2012 – Asia TimesIran nuclear talks gaining traction
[3] 22/5/2012 - Fars news agency, Iran Asks for IAEA's Balanced Approach towards Member States
[4] 22/5/2012 - Bloomberg, Iran Gives UN Atomic Inspectors Access Before Talks
[5] 22/5/2012 – The Guardian, Iran nuclear talks: signs of cautious optimism emerge”. 
[6] 22/5/2012 – AFP, US Senate approves sanctions against Iran 
[9] 21/5/2012 Fars news Agency, Salehi Hopeful about Good Outcomes of Baghdad Talks


MK Bhadrakumarfoi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e seu blog Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Gilad Atzmon: “Tragédia Americana”


22/9/2011, Gilad Atzmon, em seu blog
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Para ler ao som de Gilad Atzmon e Nizaral-Issa,
 “Culturas da Resistência”, 2007

O repórter Yitzhak Ben-Horin de Ynet, em Washington, produziu ontem leitura clara e sucinta do recente discurso de Obama à Assembléia Geral da ONU: 

“Um Likudnic [1] na Casa Branca.” / “Netanyahu não teria escrito melhor.” / “Obama hoje, está alinhado com o partido Likud.” / “Obama é presidente pró-Israel (...) Desde janeiro de 2009, ofereceu a Israel tudo de que Israel precisou no campo diplomático e em termos de segurança”. [2]

Obama vai mal nas pesquisas. Claramente precisa ter o lobby Judeu ao seu lado. Ontem, o presidente dos EUA “entregou”; e o lobby reagiu rapidamente – “Israel não tem melhor amigo no mundo, hoje [que Obama]”, escreveu o presidente do Conselho Nacional dos Judeus Democratas [ing. National Council of Jewish Democrats], David Harris.

Segundo Ynet, horas antes do discurso à Assembleia Geral da ONU Obama tomou providências para que eleitores judeus prestassem atenção ao que diria lá.

“Três assessores de Obama organizaram reunião com apoiadores do presidente e líderes da comunidade judaica. Os assessores, todos judeus, pediram aos apoiadores que “divulgassem a palavra” de que Obama faria discurso pró-Israel, que “manifesta suas posições mais sinceras e genuínas” e “implorou que todos prestassem muita atenção ao discurso do presidente.”

Os três assessores judeus “destacaram que os Republicanos distorceram intencionalmente as palavras de Obama, para mostrá-lo como presidente anti-Israel, sem, de fato, qualquer argumento que confirme as palavras dos Republicanos.”

Se ainda havia alguém idiota o bastante para crer que os EUA poderiam algum dia ajudar a construir alguma paz no Oriente Médio, a verdade, agora, apareceu, à vista, inegável. O mundo político nos EUA está evidentemente sequestrado por um lobby estrangeiro, que representa interesses estrangeiros. Os EUA não conseguirão salvar-se, sozinhos, desse sequestro. O que vemos hoje, frente aos nossos olhos, é, basicamente, uma tragédia.

A tragédia grega sempre mostra a queda de um herói nobre, que cai, quase sempre, por uma combinação de húbris, destino e a vontade dos deuses. A tragédia dos EUA contém os mesmos elementos. Os EUA sempre se viram eles mesmos como ‘herói nobre’ desde a fundação da nação, e a húbris não é estranha à cultura norte-americana. O destino dos EUA está escrito na parede já há algum tempo. E, sobre deuses, alguém adivinha de que deuses se trata? Acho que Obama e seu partido acreditam que conheçam muito bem os que tentavam acalmar, ontem à noite. Acham que conhecem muito bem os deuses deles, porque vergonhosamente se misturam, o presidente e aquelas pessoas, uma vez por ano, na reunião anual do AIPAC [American-Israel Public Affairs Comittee].

Mas é possível que Obama e seus “assessores” estejam errados, nesse ponto. Os “deuses” deles não são absolutamente estúpidos, e já entenderam o que Obama está tentando arquitetar, como escreveu Ben Horin ontem. Eles sabem o que “segundo mandato de Obama” significa para Israel, em termos de política. Lembram, por exemplo, que na campanha eleitoral em 2000, George Bush prometeu transferir a embaixada dos EUA, de Telavive para Jerusalém; mas, quando foi reeleito, pressionou Sharon a retirar-se da Faixa de Gaza. Lembram também que o mesmo George Bush foi o presidente que apareceu ao lado de Mahamoud Abbas (Abu Mazen) e declarou que as negociações com os palestinos deveriam considerar a fronteira do armistício de 49.

Obama ilude-se, se supõe que tenha conseguido seduzir os “deuses”, e que eles agora estariam ao seu lado.

Ontem Obama cometeu grave erro pessoal. Mas pelo qual pagarão os norte-americanos, os israelenses e os palestinos. O que se vê aí é uma tragédia clássica, porque os EUA não têm poder político para salvarem-se, eles mesmos, dessa sua própria tragédia.

A única questão que talvez ainda interesse, nesse ponto da história, é quanto tempo os EUA demorarão para conseguir emancipar-se desses “deuses. 




Notas dos tradutores
[1] Do partido Likud (“União”, em hebraico), israelense, da direita conservadora; é uma coligação liderada pelo partido Herut dos sionistas conservadores. O Likud lidera o governo hoje em Israel, tendo como primeiro-ministro Benjamin Netanyahu; o partido tem 27 cadeiras no Parlamento, numa coligação que conta com 66 votos. 
[2] 19/9/2011, em: “Obama is the best thing Israel has going for it

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Obama, o estado palestino e a esquizofrenia sionista

16/2/2011, Gilad Atzmon 

 (distribuído pelo autor, para a Rede Tlaxcala de Tradutores)
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu

Lembrança dos tradutores: 
para ler ao som de “Liberating the american people


Os que monitoram a imprensa israelense e conhecem o Estado Judeu talvez sintam-se intrigados ao ver que, enquanto a imprensa em hebraico dá pouca, quase nenhuma atenção ao movimento dos palestinos para verem reconhecido o seu estado independente, os veículos que publicam em inglês, em Israel, estão cheios de notícias sobre a possibilidade de a Assembleia Geral da ONU manifestar-se a favor dos palestinos, na próxima semana.

Quem queira entender essa clara discrepância entre a imprensa judaica em hebraico e em inglês, deve saber que lidamos aqui com uma clara cisão na psiquê coletiva dos judeus.

É possível que alguns ainda se surpreendam ao descobrir que Israel e muitos israelenses realmente desejam que a iniciativa dos palestinos vá adiante e tenha sucesso. Querem um Estado Palestino, porque é a única solução que talvez salve o “único estado dos judeus” de uma catástrofe demográfica.

Pesquisas recentes em Israel provam que a maioria dos israelenses mostra-se entusiasmada com a “Solução dos Dois Estados”. Os israelenses não só não se sentem ameaçados pela ideia de um Estado Palestino como, mais que isso, gostam da ideia, que resolverá a situação em que vivem, em quadro de normalidade ante a lei internacional. É preciso ter em mente também que o Partido Kadima, que venceu as duas últimas eleições em Israel, sempre foi a favor de um “desengajamento”, quer dizer, de haver completa separação entre “judeus” [aspas no original] e palestinos, com retirada unilateral dos israelenses. Em outras palavras, a declaração de um estado palestino visa exatamente ao mesmo objetivo: tira dos israelenses qualquer responsabilidade sobre os territórios palestinos que Israel ocupou e destruiu. 

É óbvio que alguns elementos em Israel opõem-se à iniciativa dos palestinos na ONU: creio que o ministro de Negócios Exteriores Avigdor Lieberman não anda muito feliz. Os que vivem em colônias exclusivas para judeus na Cisjordânia também não estão felizes, mas, sabe-se lá por que, andam relativamente calmos nos últimos dias.

E, claro, o Lobby Judeu [orig. Jewish Lobby] em todo o mundo opõe-se total e completamente ao reconhecimento, pela ONU, de um Estado Palestino: o lobby, agarrado, sempre, a uma imagem muito simplória de um Estado Judeu expansionista, “do rio ao mar”. E nada sugere que, em futuro próximo, o lobby desista de seu sonho.

O que se vê aqui, na prática, é evidente crise de identidade, ou, mesmo, contra fluxo esquizofrênico: de um lado os israelenses; de outro, a diáspora sionista. Os israelenses estão rapidamente voltando à atitude do velho Gueto Judeu [orig. reverting to the old Jewish Ghetto attitude], preferem encolher, manter-se juntos e cercar-se com altos e impenetráveis muros de concreto. E a narrativa da Diáspora Sionista é confrontacional, beligerante, militantemente linha-dura e expansionista. Querem tudo, com ou sem palestinos.

Mais uma vez, vê-se que Israel e o sionismo evoluíram para dois discursos opostos e separados. Enquanto Israel busca manter a identidade racialmente orientada, com políticas de segregação, o discurso da Diáspora Sionista ainda insiste em resolver a Questão Judaica [orig. the Jewish Question] mediante conflito sem fim.

Mas consideremos, por um momento, os EUA: tentemos entender como a expressão “única superpotência” está lidando com o aparelho esquizofrênico judeucêntrico. 

O presidente Obama e sua administração estão evidentemente muito confusos. Por um lado, estão sujeitos à incansável pressão que sobre eles faz o lobby judeu. O lobby não deixa muito espaço de manobra para o governo dos EUA. Mas, por outro lado, os dois governos, de Israel e dos EUA, percebem que, no que tenha a ver com Israel e sua “segurança”, a iniciativa dos palestinos na ONU não é ideia, afinal, tão má. De fato, é o máximo que Israel pode rezar para que aconteça.

É claro, hoje, que o presidente Obama não será salvo por qualquer dos chamados “melhores amigos dos EUA”. Para o AIPAC [America-Israel Public Affairs Committee] e o Lobby Judeu, Obama é um instrumento. Hoje, o Lobby já está acostumado a ver os políticos dos EUA como fantoches subservientes. E Israel, por outro lado, tampouco salvará os EUA. Israel desconfia muito do governo Obama. Israel está basicamente farta do atual governo Obama. Israel gostará muito que Obama seja derrotado.

Consequentemente, o governo dos EUA anda célere rumo a uma humilhação inevitável na ONU. Será obrigado a vetar decisão aprovada por muito aliados dos EUA. É clara catástrofe para Obama. Mas há quem ainda possa salvar os EUA desse destino catastrófico: ninguém menos que o presidente palestino Mahmoud Abbas. Só Abbas e a Autoridade Palestina podem salvar os EUA da forca.

Examinem-se as coisas por seja qual lado for, tudo é muito embaraçoso. Significa que o presidente Abbas (figura relativamente fraca na política palestina e na diplomacia internacional) é a única figura em todo o mundo que pode salvar “a única superpotência” de nosso mundo de um fracasso diplomático.  

Ainda não sei dizer se tudo isso é triste ou cômico – mas não há dúvida de que a situação é volátil. A hora é agora, sem dúvida alguma, para que EUA, Grã-Bretanha e o Ocidente encontrem a coragem necessária para resistir ao Lobby Sionista e ao poder de Jerusalém.