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quinta-feira, 19 de julho de 2012

Pepe Escobar: “China quer saber de negócios, não de sanções”


16/7/2012, Pepe Escobar, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
O Irã é, sabidamente, o terceiro maior fornecedor de petróleo para a China, atrás só da Arábia Saudita e de Angola. O comércio bilateral ultrapassará US$ 50bi em 2015 [1]. Em junho, a China importou 524 mil barris/dia de petróleo do Irã [2] – quase 40% a mais que em abril.

Vejamos pois como a China respeita as “sanções” contra o Irã.

O ministro do Petróleo do Irã, Rostam Qasemi, anunciou que a China investirá $20 bilhões – para começar – no desenvolvimento de dois dos maiores campos de petróleo do Irã: Azadegan (dos maiores do mundo, com reservas estimadas de 42 bilhões de barris [3]) e Yadavaran (no Khuzestão, perto da fronteira com o Iraque) [4]. São maná, para Pequim, no longo prazo, esses 700 mil barris/dia de petróleo a mais.

Mapa de exportação de petróleo do Irã (antes das sanções)
(clique na imagem para aumentar) (em inglês)

Ao mesmo tempo, o Paquistão garantiu contratos – sem concorrência [5]– à Gazprom russa para o gasoduto IP (Irã-Paquistão), projeto que foi conhecido como IPI (Irã-Paquistão-Índia), antes de a Índia pular fora. Significa que Moscou ajudará Islamabad a construir o trecho paquistanês do gasoduto (o trecho iraniano já está pronto).

Adivinhem quem mais pode associar-se ao projeto? A China, claro. Nesse caso, o gasoduto IPC estender-se-á do porto de Gwadar, no Mar da Arábia, pela rodovia Karakoram até Xinjiang, no extremo oeste da China.

Mapa da rede do Oleogasodutostão
Queremos nosso mar, e já!

No Oleogasodutostão, onde as placas tectônicas vivem em perpétuo movimento, esses são apenas dois dos recentes desenvolvimentos estrelados pela China. E são projetos em terra. A coisa fica realmente espinhosa, é quando se observar o front marítimo.

A China tem nada menos que 14 fronteiras terrestres. A maioria das questões de fronteiras foram satisfatoriamente resolvidas, exceto duas escaramuças menores que envolvem o Butão e a Índia.

E a China tem nada menos que 14.500 quilômetros de litoral. No total, Pequim reclama soberania total ou parcial sobre nada menos que 4 milhões de quilômetros quadrados de mar. Não surpreende que a regra sejam as crises – potenciais ou reais. E ainda nem falamos sobre Taiwan.

A China disputa, com o Japão, as ilhas Diaoyu (Senkaku, em japonês), próximas de Okinawa, onde há uma base asiática dos EUA, ilhas por isso mesmo consideradas chaves. Como se pode adivinhar, há aí também um ângulo que conecta a área ao Oleogasodutostão: um campo de gás onde podem estar reservas de 200 bilhões de metros cúbicos.

A China também tem disputas com Taiwan, Vietnã, as Filipinas, Malásia, Brunei e Indonésia, em torno das ilhas Spratly (Nansha, em mandarim) e o arquipélago Pratas (Dongsha, em mandarim). E há disputa também com o Vietnã e Taiwan pelo arquipélago Paracel (Xisha, em mandarim).

China e suas fronteiras
Enviados de 26 nações pacífico-asiáticas e da União Europeia (EU) reuniram-se em Pnom Pen, Camboja [6], para discutir segurança regional. Mas já antes de começar a reunião, a China pediu que não se discutisse a confusão marítima; a posição oficial da China é negociar um desenvolvimento conjunto das fontes de energia em todas essas áreas em disputa – segundo o porta-voz Zhang Jianmin.

As Filipinas e o Vietnã – ambos membros da Association of Southeast Asian Nations (ASEAN)/Associação das Nações do Sudeste da Ásia (ANSA) – definitivamente não concordam com o mapa traçado pelos chineses. Querem construir uma posição para os países ANSA e depois negociar com a China, como bloco. Faz sentido, se se considera que virtualmente a metade dos países membros da ANSA reivindicam partes do Mar do Sul da China.
Para ter ideia do que está em jogo, é possível que, em toda essa área, haja algo em torno de 30 bilhões de toneladas métricas de petróleo e 16 trilhões de metros cúbicos de gás. Correspondem a, pelo menos, um terço dos recursos de petróleo e gás da China, segundo a Agência Xinhua.

Já se observam superposições complexas. Por exemplo, a PetroVietnam quer que a China National Offshore Oil Corporation (CNOOC) cancele um convite para que empresas estrangeiras explorem blocos que se sobrepõem com áreas já entregues à ExxonMobil, à Open Joint Stock Company Gazprom (OAO Gazprom) russa e à indiana Oil & Natural Gas Co..

E, seja como for, a ANSA já chegara a um importante acordo antes da reunião em Pnom Pen [7], para o que pode ser um código regional de conduta, cogente e aplicável no Mar do Sul da China, segundo Albert del Rosario, secretário de Assuntos Externos das Filipinas.

Na verdade, ANSA e China já tinham um acordo não cogente há mais de dez anos. Só têm de sentar e por tudo no papel. Qualquer exploração de recursos energéticos terá de ser conduzida “passo a passo e baseada em consenso”. Isso explica por que Pequim não está sendo exatamente intimidada pelas ameaças da secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton, sobre iminente apocalipse no Mar do Sul da China.

Um passo além da linha

Muito mais do que com quem explora petróleo e gás no Mar do Sul da China, Pequim preocupa-se muito seriamente com o acesso de seus navios a águas internacionais. Normal: 90% do massivo comércio internacional chinês depende de rotas marítimas.

Pequim quer ser potência hegemônica incontestada a oeste de uma “linha verde” que vai do Japão à Malásia passando por Taiwan e Filipinas. O problema aqui é que os chineses estão em competição direta com a marinha japonesa.

O próximo passo para Pequim será saltar das águas traiçoeiras do Mar do Sul da China para as águas azuis de uma segunda vasta área, que vai do Japão à Indonésia e passa por Guam – onde acontece de haver instalada a principal base aeronaval dos EUA no Pacífico Ocidental.

E é aí que a coisa aperta realmente – porque é onde entra Taiwan. Taiwan é a barreira com que os EUA contam para bloquear uma projeção do poder chinês entre a “linha verde” e a “linha azul”.

O jogo paralelo é igualmente importante para Pequim, para preservar seus corredores navais para abastecimento de energia no sudeste da Ásia.

Estreito de Malaca e região
O primeiro corredor é o Estreito de Malaca – pelo qual transitam os navios petroleiros de menos de 100 mil toneladas que vêm da África e do Oriente Médio para o Mar do Sul da China. O segundo corredor, para superpetroleiros, passa pelos estreitos de Sunda e Gaspar.

O terceiro, para o petróleo que vem da América do Sul, especialmente da Venezuela, atravessa águas filipinas. E o quarto é uma rota reserva, entre os estreitos de Lombok e Makassar, e daí ao largo das Filipinas.

Já mostrei em outro artigo [8] como a estratégia de energia dos chineses, extremamente sofisticada, move-se em torno de ultrapassar o que Pequim considera gargalos-monstros – os estreitos de Ormuz e Malacca. Nada menos de 80% das importações chinesas de petróleo passam pelo estreito de Malacca.

Não surpreende que Pequim esteja multiplicando seus investimentos em abrir vias alternativas. A China está construindo uma estrada de ferro, como uma Nova Rota da Seda, que interliga a maioria das nações da ANSA e um oleoduto China-Myanmar que conecta Sittwe a Kunming, na província de Yunnan; está estimulando a produção de gas natural no oceano na Tailândia, mas sobretudo em Myanmar, através de 60 empresas chinesas de petróleo; e está construindo um canal pelo istmo de Kra, no sul da Tailândia.

Estreito de Sunda
Por tudo isso, há poucas coisas mais importantes para o governo coletivo em Pequim, nesse universo, que esses quatro corredores. Devem ser mantidos em perfeita segurança (se necessário, à moda chinesa). Os estrategistas chineses têm simulado todas as espécies de pesadelos navais que EUA, Japão, Índia ou todos esses juntos possam tentar inventar.

Uma das consequências desse estado de coisas é a implantação do que os estrategistas norte-americanos chamam de “o colar de pérolas” – série de bases permanentes chinesas por todo o Oceano Índico: Marao, nas Maldivas; Gwadar no Paquistão; as ilhas Coco em Myanmar; Chittagong em Bangladesh. E acrescentem à lista Port Sudan, na África Oriental.  

Esse frenesi naval levou a um inevitável boom na indústria de construção de navios na China, do Mar Amarelo ao Mar do Sul da China. Mediante duas empresas gigantescas – a China State Shipbuilding Corporation (CSSC) e a China Shipbuilding Industry Corporation (CSIC), o Império do Meio, em 2020, será o maior estaleiro do planeta.

Nem seria preciso dizer que, como consequência disso tudo, os relatórios anuais do Pentágono sobre o poder militar chinês ganham tons cada diz mais alarmistas.

Que baita, baita, baita gás! [9]

Pequim, é claro, está extremamente preocupada com a crise na Eurozona. O Banco Central acaba de baixar os juros. Haverá mais um pacote de estímulos – no mínimo, $320 bilhões – para aumentar o consumo interno. O país talvez cresça “só” 7,5% em 2012.

Mas a expansão não para nunca. O premiê Wen Jiabao acaba de propor um acordo comercial entre a China e o MERCOSUL – o Mercado Comum latino-americano. Cataratas de energia, vinda de todos os cantos – Sibéria, Ásia Central, Irã, Oriente Médio, África, América do Sul – têm de continuar a jorrar, para manter ativo o dragão mercantilista.

Por tudo isso, investir bilhões no Irã e promover a exploração conjunta da energia no Mar do Sul da China são, para Pequim, medidas óbvias de desenvolvimento. Não é tempo para sanções ou tambores de guerra. É tempo para fazer negócios. Um negócio de cada vez. Sem parar nunca.



Notas de rodapé

[1] 9/10/2010, Gulf Times, em: Turkey, China looking to boost trade to $100bn by 2020.
[3] 24/10/20122, Teheran Times, em: Iran ahead of schedule in developing S. Azadegan oilfield”.
[5] 8/4/2012, Daily Times, em: Construction of $1.5bn IP gas pipeline project”.
[6] 12/7/2012, Phnom Penh Post, em: China and Japan clash over disputed territory”.
[7] 12/7/2012, Al-Jazeera, em: South China Sea issue dominates ASEAN summit”. (vídeo)
[9] Orig. It's a gas, gas, gas. É verso de Jumpin' Jack Flash, dos Rolling Stones, de 1968.  

quinta-feira, 22 de março de 2012

Pepe Escobar: "A Rússia comanda o Óleo-gasodutostão"


23/3/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Pepe Escobar

O novelão perene do Óleo-gasodutostão chama-se “Nabucco” – o suposto Santo Graal do gás, do Mar Cáspio para a Europa, 4.000km, da Turquia à Áustria.

Parte do gás a ser transportado pelos tubos de Nabucco pode vir do Azerbaijão. Outra parte, talvez – e “talvez” muito problemático – vem do Turcomenistão. Mas analista de questões de energia que se dê ao respeito sabe que Nabucco só poderá funcionar, se receber gás natural do Irã. Só acontecerá sobre o cadáver coletivo do pessoal em Washington.

Assim sendo, vê-se que, mais uma vez, a ‘liderança’ política sem espinha dorsal da União Europeia (UE) – mais uma vez em atuação digna de poodles de desfile – sabotou, gloriosamente, o que sempre fora apresentado como seu mais ambicioso projeto energético; afundou, sob pressão dos EUA; e, bem feitas as contas, sacrificou a própria independência energética da Europa. E, isso, feito por aquela gente que não perde oportunidade de gemer que a Europa é “refém do gás” da Gazprom russa.

Como em tudo, também no Óleo-gasodutostão há camadas e camadas de nuanças. Moscou liberou geral e está usando todas as armas para impedir que o Irã venha algum dia a unir-se ao projeto Nabucco – porque o item 1 da agenda política dos russos é estender a 30% o que controlam do suprimento de gás para a União Europeia.

O aspecto crucial do gás do Azerbaijão depende dos campos gigantes de Shah Deniz 2. Para o que se conhece como Corredor Sul, via Itália, há dois possíveis gasodutos em competição. E há dois outros que competem numa rota Norte/Bálcãs; um deles é o Nabucco; o outro, fiel ao etos das siglas do Óleo-gasodutostão, é o gasoduto SEEP, South East Europe Pipeline (Gasoduto Sul-Leste da Euroa). Só ano que vem o mundo conhecerá o último capítulo desse infindável novelão.

Para o Corredor Sul, o favorito é o TAP (Gasoduto Trans-Adriático), joint-venture suíço-alemã-norueguesa. O TAP usará infraestrutura já implantada e ainda precisa de investimentos só para um pequeno trecho de tubos submersos, da Grécia à Itália. A empresa norueguesa Statoil é sócia, com 25,5%, na exploração dos campos de Shah Deniz 2, o que facilita muito as coisas.

Para a rota Norte/Bálcãs, é possível que a cantora gorda da ópera decida-se a favor de Nabucco. Mas o mais cotado para vencer é o projeto da British Petroleum (BP), muito mais barato que Nabucco, e que não exige, para operar, suprimento de gás do Turcomenistão.

A British Petroleum – de grande fama como poluidora do Golfo do México – é, nada mais nada menos, que acionista majoritária dos campos Shah Deniz 2. O Azerbaijão – atolado em corrupção – pode ser descrito, sem exagero, como terra (e subsolo) da British Petroleum. Até sua mais íntima aliada, Washington, sabe que o presidente Ilham Aliyev do Azerbaijão, é uma variante local de capo mafioso. Os azeris, por falar deles, andam muito populares em Washington, por cortesia do lobby israelense. 

Jogamos xadrez de estilo ganha-ganha 

Vencedora indiscutível, nessa complexa batalha no Óleo-gasodutostão, é a Turquia. Afinal, todo o gás que viaje do Azerbaijão até a Europa tem de cruzar a Turquia. Desde dezembro último, de fato, a Turquia e o Azerbaijão já têm, assinado e vigente um memorandum, pelo qual se comprometem a construir o óleo-gasoduto Trans-Anatólia (Trans-Anatolian Pipeline, TANAP). OTANAP, eventualmente, se integrará ao Corredor Sul.

Ainda que o Azerbaijão decida vender seu excedente de gás à Rússia, mesmo assim a Turquia ganha. A Turquia autorizou que o óleo-gasoduto Corredor Sul Rússia-Itália (Vladimir Putin-Silvio Berlusconi?) atravesse território turco, em troca de comércio e laços energéticos mais robustos com a Rússia.

O caso é que a Rússia ganha sempre. O Corredor Sul é caso de sucesso. E a Gazprom, por sua vez, já ampliou a pegada ofensiva por toda a Ásia Central; significa que quanto mais gás a Gazprom importar deles, menos gás sobrará para a Europa (a menos que decidam comprar gás que só a Rússia terá para vender...).

Com Putin de volta à presidência em maio, a estratégia que traçou em 2000 está muito claramente valendo muito mais do que pesa.

Alexei Miller, presidente da Gazprom – nomeado por Putin – está empenhado de corpo e alma em criar uma complexa economia de escala, com energia fornecida aos países da região, em espírito muito “ganha-ganha” à moda chinesa.

O governo no Azerbaijão, por exemplo, sabe muito bem que a Rússia é o único player capaz de determinar o que se faz no Cáucaso – e, além disso, oferece excelentes negócios com energia. Com o quê se chega facilmente o que os muros já gritam: a Rússia, governada por Putin, será ainda mais influente, do Cáucaso à Ásia Central.

Para que isso funcione, a Rússia tem de torpedear o projeto Nabucco. Em boa parte, já foi torpedeado pela vasta crise financeira europeia. É possível que Nabucco acabe custando gordíssimos $25 bilhões (e aumentando). “É possível” que a construção do complexo Nabucco comece ao final de 2014 e esteja concluída ao final de 2017; mas todas essas datas já foram marcadas e adiadas incessantemente, há anos. O Azerbaijão só pode fornecer menos da metade do gás. Ninguém, em lugar algum, sabe de fato qual será o jogo do Turcomenistão. E o Irã já foi descartado pela Voz do Dono – Washington.

Só o Óleo-gasoduto Trans-Cáspio (TCP Trans-Caspian Pipeline) – entre o Turcomenistão e o Azerbaijão – continua a aparecer nas cartas. Em teoria, poderia ser a ponte para que a Europa finalmente consiga algum acesso (indireto) até a riqueza energética do Mar Cáspio na Ásia Central. Ashgabat e Baku parecem estar sincronizadas – em negociações construídas por negociadores da União Europeia, com endosso dos turcos. Mas a Rússia de Putin fará o diabo, para detonar os planos do Óleo-gasoduto Trans-Cáspio, TCP.

A questão mais dramática, que mais pressiona por todos os lados, parecer ser a seguinte:

– quando, afinal, alguém acordará em Bruxelas, sairá do barato masoquista em que a União Europeia continua mergulhada, porá fim à sandice norte-americana das sanções, e começará a conversar sobre energia com o Irã?!

quinta-feira, 8 de março de 2012

Pepe Escobar: Entra “Vlad - o Putinator”, para en-lou-que-cer Washington


8/3/2012, Pepe Escobar, Ásia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ver também
Pepe Escobar
Esqueçam o passado (Saddam, Osama, Gaddafi) e o presente (Assad, Ahmadinejad). Vale a pena apostar uma garrafa de Petrus 1989 (difícil, só, ter de esperar seis anos para beber o prêmio): no futuro próximo, o top bicho-papão de Washington – e também de seus famigerados parceiros na OTAN e penas-mandadas na grande imprensa – será ninguém menos que o presidente russo Vladimir “de-volta-para-o-futuro” Putin. 

Vlad - o "Putinator"
E “que ninguém se engane” (make no mistake, como gosta de dizer o presidente Obama): “Vlad - o Putinator” não está para brincadeiras. Voltou exatamente para onde quer estar, comandante-em-chefe da Rússia, encarregado de todas as questões militares, de política exterior e da segurança nacional. 

As elites anglo-norte-americanas ainda tremem à menção do hoje legendário discurso de Putin em Munique 2007 [1], quando açoitou o então governo George W Bush por sua agenda obsessivamente unipolar imperial “implantada mediante um sistema que nada tem a ver com a democracia” e que “nunca se cansa de saltar sobre as fronteiras nacionais em quase todas as esferas”.

Quer dizer: Washington e seus mamulengos estão avisados. Antes da eleição do domingo passado, Putin até publicou seu mapa do caminho. Na essência: nada de guerra contra a Síria; nada de guerra contra o Irã; nada de “bombardeio humanitário” nem fomentar “revoluções coloridas” – todas essas práticas sinistras reunidas num novo conceito: “instrumentos ilegais de poder soft”. Putin é não-e-não, sobre qualquer Nova Ordem Mundial arquitetada por Washington. O princípio que governa é “o princípio, consagrado na história, da soberania do Estado”. 

Claro. Quando Putin olha para a Líbia, vê, graficamente, as consequências regressivas da “liberação” à moda OTAN, mediante “bombardeio humanitário”: um país fragmentado, controlado por milícias ligadas à al-Qaeda; a atrasada Cirenaica amputada da Tripolitania desenvolvida; e um parente do último rei posto no poder para governar o novo “emirado” – para delícia daqueles democratas-modelos da Casa de Saud. 

Mais essencialmente importante: nada de bases dos EUA cercando a Rússia; nadas de escudo de mísseis de defesa sem compromisso claro, assinado, de que o sistema jamais será usado como arma contra a Rússia; e cooperação cada vez mais próxima entre as potências emergentes do grupo dos BRICSs. 

Grande parte disso tudo já estava implícito no mapa do caminho que Putin publicou em outubro do ano passado – o artigo “A new integration project for Eurasia: The future in the making” [Um novo projeto de integração para a Eurásia: o futuro da humanidade], publicado no jornal Izvestia[2] Foi o ippon de Putin – que adora judô – contra a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o neoliberalismo linha-dura. Putin vê uma União Eurasiana como “uma união econômica e monetária moderna” que se estende por toda a Ásia Central. 

Para Putin, a Síria é detalhe importante (se por mais não fosse, porque lá está a base naval russa no porto mediterrâneo de Tartus, que a OTAN adoraria abolir). Mas o cerne da questão é a integração da Eurásia. Os atlanticistas entrarão em surto coletivo, em massa, quando Putin começar a trabalhar aplicadamente para montar “uma poderosa união supranacional que se pode converter em um dos polos do mundo contemporâneo, ao mesmo tempo em que conectará a Europa e a dinâmica região do Pacífico asiático”. 

O mapa do caminho exatamente oposto a esse viria a ser, aparecido depois, a doutrina do Pacífico de Obama e Hillary. Que lhes parece? Super excitante, né-não?

Putin está no jogo do Óleogasodutostão

Putin, praticamente sozinho, comandou o renascimento da Rússia como mega superpotência energética (as exportações de petróleo e gás respondem por 2/3 das exportações russas, metade do orçamento federal e 20% do PIB russo). Deve-se esperar que o óleo-gasodutostão permaneça como questão chave.

E estará mais centrado no gás; embora nada menos que 30% das reservas globais de gás estejam na Rússia, a produção de gás natural liquefeito [orig. liquid natural gas (LNG)] corresponde a menos de 5% da demanda do mercado global. A Rússia ainda não está nem entre os dez principais produtores. 

Putin sabe que a Rússia precisará de toneladas de investimentos estrangeiros no Ártico e sobretudo na Ásia – para manter a produção de petróleo acima de 10 milhões de barris/dia. E precisa acertar um negócio complexo, amplo, de trilhão de dólares, com a China, para os campos de gás da Sibéria Oriental; a parte do petróleo já está encaminhada com o oleoduto ESPO (East Siberian Pacific Ocean – Sibéria Oriental-Oceano Pacífico). Putin sabe que, para a China – em termos de segurança energética –, esse negócio é contragolpe vital contra a sombria, sinistra “deriva” [orig. pivoting] dos EUA na direção da Ásia. 

Putin também fará de tudo para consolidar o óleogasoduto South Stream, que pode acabar custando espantosos $22 bilhões (o acordo dos acionistas já está assinado entre Rússia, Alemanha, França e Itália. South Stream é gás russo entregue pelo subsolo do Mar Negro ao sul da União Europeia, através de Bulgária, Sérvia, Hungria e Eslováquia). Se o óleogasoduto South Stream sair, o seu rival, Projeto Nabucco, estará sob xeque-mate: será grande vitória dos russos contra a pressão de Washington e dos burocratas de Bruxelas.

Tudo está ainda em disputa nessa crucial intersecção entre geopolítica hardcore e o Óleo-gasodutostão. Mais uma vez, Putin enfrentará outro mapa do caminho criado em Washington – o não exatamente muito bem sucedido projeto Nova Rota da Seda [orig. New Silk Road] (ver 3/11/2011, “EUA: sem lugar no Afeganistão depois de 2014”).

E há ainda o coringa do baralho – a Organização de Cooperação de Xangai [orig. Shanghai Cooperation Organization (SCO)]. Putin quererá que o Paquistão torne-se membro pleno, tanto quanto a China tem interesse em incorporar o Irã. As repercussões serão tectônicas – com Rússia, China, Paquistão e Irã coordenando não só a própria integração econômica, mas também a segurança mútua dentro de uma SCO fortalecida, cuja palavra-de-ordem é “sem alinhamento, sem confrontação e sem interferência nos assuntos internos de outros países”. 

Putin vê que com a Rússia, a Ásia Central e o Irã controlando nada menos que 50% das reservas mundiais de gás; e com Irã e Paquistão como membros virtuais da SCO, o nome do jogo passará a ser “integração asiática” – se não “integração euroasiática”. A Organização de Cooperação de Xangai cresce como uma usina econômica/de segurança, enquanto, paralelamente, o Óleo-gasodutostão acelera a plena integração da Organização de Cooperação de Xangai como contrafrente da OTAN. Os próprios atores regionais decidirão o que lhes parecer mais interessante: isso, construído ali mesmo, ou alguma Nova Rota da Seda inventada em Washington.

Make no mistake. Por trás da incansável demonização de Putin e das inumeráveis tentativas para deslegitimar as eleições presidenciais da Rússia, o que há é grupos muito poderosos e muito furiosos das elites de Washington e anglo-norte-americanas em geral.

Todos esses sabem que Putin será negociador ultra duro em todas as frentes. Sabem que Moscou trabalhará em coordenação cada dia mais próxima com a China; que farão de tudo para que não haja bases permanentes da OTAN no Afeganistão; que lutarão pela autonomia estratégica do Paquistão; que se oporão ao sistema de mísseis de defesa; que impedirão a guerra contra o Irã. 

E o demônio da “outra possibilidade”; e não poderia haver oponente mais formidável no cenário mundial, contra os planos de Washington – chamem-nos “Oriente Médio Expandido”, “Nova Rota da Seda”, “Doutrina da Dominação de Pleno Espectro” ou “Século Pacífico-Americano”.

Ladies and gentlemen, haverá turbulência à frente.



Notas dos tradutores
[1] Vladimir Putin: “Discurso à 43ª Conferência sobre Políticas de Segurança”, Munich, Alemanha, 2/10/2007 (em inglês) 
[2] 4/10/2011, artigo de Vladimir Putin: “A new integration project for Eurasia: The future in the making”  (em inglês).

sábado, 30 de julho de 2011

Pepe Escobar: “O fascínio do Afeganistão”

Pepe Escobar

29/7/2011, Pepe Escobar, Al-Jazeera, Catar
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Potências asiáticas disputam politicamente as reservas minerais e construção de oleodutos estratégicos enquanto os EUA/Europa via OTAN bombardeiam o Afeganistão.
O Afeganistão contém enorme riqueza mineral e de pedras preciosas, como esmeraldas
[GALLO / GETTY]
  
Poucos vêem o Afeganistão como um Santo Graal dos minérios.

Mas a verdade é que, no Hindu Kush, repousa inexplorada uma riqueza de entre 1 e 3 trilhões de dólares em minérios. Há ali urânio, lítio, cobre e ferro suficientes para converter o Afeganistão em uma usina de commodities 

O Pentágono sabe de tudo [1] – e como não saberia? E os russos também sabem de tudo desde, no mínimo, os anos 1970s, quando mapearam todas as jazidas de urânio do norte do Afeganistão. 

É possível que Washington tenha as mais complexas razões geopolíticas e de energia para permanecer no Afeganistão – como comentei em outro artigo para Al-Jazeera  [2] que gerou muitas respostas dos leitores.  

Por seu lado, Islamabad continua obcecada, insistindo em ver o Afeganistão como satrapia manipulável. Mas a situação torna-se muito mais suculenta, se se observam outros atores chaves na Eurásia, como Rússia, Índia e China e suas próprias razões, não-Pentagonizadas, para quererem chegar àquele Walhalla dos minérios.

Negócios, ok. Bombas, não! 

No início do próximo mês começa em Kabul uma guerra crucial, em forma de concorrência-leilão. Tem a ver com o Hajigak, onde estão as maiores jazidas de ferro do mundo, localizadas na região central do Afeganistão (são pelo menos 1,8 bilhões de toneladas, segundo estimativa dos russos, nos anos 1960s). Ao som dos rugidos de previsível insatisfação dos Talibã, todas as 15 empresas que se apresentaram à concorrência são indianas – entre elas as gigantes Tata Steel e JSW, a terceira maior empresa privada de produção de aço da Índia.

Um Afeganistão estável, acolhedor para os grandes negócios, é absolutamente essencial para a Índia – ponto de passagem de petróleo e gás que vem do Irã, da Ásia Central e do Cáspio. A Índia está construindo usinas e estradas estratégicas, como a que ligará o Afeganistão ao porto iraniano de Chahbahar.

Poucos sabem, provavelmente, mas nem só a África é objeto de feroz ‘guerra’ comercial entre Índia e China. O Afeganistão também é tabuleiro em que se disputam prêmios importantíssimos. No horizonte afegão, há cinco tipos de riquezas minerais – ouro, cobre, jazidas de ferro e, inevitavelmente, petróleo e gás – e indianos e chineses estão, todos, de olho nelas.

A China Metallurgical Corporation já comprou a mina de cobre Aynak em Logar, sudeste de Kabul –, por $3,4 bilhões. Por quê? Porque as empresas ocidentais dormiram no ponto (ou lá ficaram, presas na paranóia da “segurança”); porque os chineses não perdem tempo; e, segundo o Ministério de Minas do Afeganistão, “por causa do pacote dos chineses” (no estilo típico dos chineses, incluíram no negócio a construção de uma estrada de ferro de $6 bilhões, que ligará o norte do Afeganistão, o Uzbequistão e o Paquistão, à China ocidental).

Kabul receberá mais de $350 milhões por ano, em royalties. Serão criados pelo menos 5 mil novos empregos, além dos benefícios (clínicas médicas, estradas e escolas). É possível que a segurança seja problema gravíssimo; há guerra por ali, e estradas seguras são miragem. Mas, como os afegãos já fartos de guerra não se cansam de dizer, já é um começo.

As vias comerciais, no Afeganistão, correm paralelas às vias políticas.

O presidente paquistanês Asif Ali Zardari visitou duas vezes Teerã, em apenas três semanas. Teve duas reuniões pessoais com o Supremo Líder Aiatolá Ali Khamenei. A Casa de Saud, para dizer o mínimo, surtou.

Afinal, esse festim amoroso entre Islamabad e Teerã põe por terra o mito de que algum chamado “crescente xiita” seria perigosíssima ameaça aos sunitas no Oriente Médio e sul da Ásia.

Washington, previsivelmente, não gostou nada, nada. As ocupações do Afeganistão e do Iraque podem ser interpretadas como tentativa, dos EUA, de cercar o Irã por leste e oeste (essa, com certeza, é a interpretação de Teerã); e Washington acreditava que o Paquistão faria o mesmo papel contra o Irã, pela fronteira sudeste.

Em diálogo fascinante, que deve ter feito gelar mais de uma garganta às margens do Potomac, Khamenei disse a Zardari que o “verdadeiro inimigo” do Paquistão é o ocidente, “e os EUA, acima de todos”; e Zardari disse a Khamenei que o Irã “é modelo de resistência e via rumo ao progresso”. O que mais precisa acontecer? Que os táxis em Karachi exibam ímãs com fotos de Khomeini?

Mas a parte mais fascinante é que Teerã e Islamabad discutem hoje não só “questões de segurança”, mas também negócios, como um próximo acordo de livre comércio e um esquema de câmbio de moedas que afastará os dois países para longe do dólar norte-americano.

No front da segurança, Islamabad propôs o que pode vir a ser um Regime Integrado de Administração de Fronteiras [ing. Integrated Border Management Regime] – quer dizer: Paquistão, Irã e Afeganistão unidos no combate ao tráfico de drogas. Essa também é prioridade absoluta dos russos na Ásia Central e no sul da Ásia. Mais de 12 toneladas de heroína pura – mais de 3 bilhões de doses individuais – chegam à Rússia anualmente, saídas do Afeganistão. 

No front comercial, trata-se sempre do gambito crucial no Oleo-gasodutostão, o Oleoduto IP (Irã-Paquistão), também chamado de “Oleoduto da Paz”. O oleoduto IP pode suprir cerca de 50% de todas as necessidades de energia do Paquistão.

Há atrasos, claro. Ao final de 2012, o Irã já terá instalado todos os dutos em seu território, até a fronteira do Paquistão. O Paquistão, porém, só iniciará a construção do trecho que lhe cabe, nos primeiros meses de 2012.

Mas em 2015, o IP já deve estar operando, como cordão umbilical estratégico entre o Irã xiita e o Paquistão de maioria sunita – o que será como reconstruir toda a equação geopolítica da Eurásia. O oleoduto IP atravessará o ultraestratégico Baloquistão, que não só transborda de tantos recursos, mas será também corredor de trânsito – e a linha mais curta de acesso às águas tépidas do Mar da Arábia.

Irã e Paquistão... aliados?

Pois vejam aí mais uma inesperada e não desejada consequência da obsessão de Washington com a “guerra ao terror”: Irã e Paquistão são hoje, cada dia mais, aliados próximos. Já quase se pode ver Teerã partilhando inteligência de campo com Islamabad... sobre os milhares de espiões norte-americanos que operam em território paquistanês.   

Outra inesperada consequência também indesejada – e impensável há apenas dois, três anos – é que agora Teerã, que é tremendamente influente no noroeste do Afeganistão, descreve os Talibã como o Mulá Omar os descreve: como movimento nativo “de resistência nacional” contra a ocupação por EUA/OTAN e o programa de bases norte-americanas perpétuas. Como se não bastasse, Teerã também opera agora em sincronia com Islamabad no apoio ao espertíssimo Hamid Karzai, o qual, a cada dia, mais se distancia de Washington.

Há dificuldades gigantescas, é claro. Apesar de Zardari ter dito a Khamenei que Islamabad apóia Karzai e um processo de paz “liderado pelo Afeganistão e de propriedade do Afeganistão”, dificilmente haverá qualquer avanço nessa direção sem que se façam mudanças substanciais na política oficial do Paquistão para o Afeganistão; no pé em que estão as coisas hoje, o Paquistão vê o Afeganistão como pouco mais que “profundidade estratégica” no confronto com a Índia, fazendo o que pode para conter a influência indiana no Afeganistão.

Sobretudo, as prioridades regionais são diferentes. Moscou preocupa-se com sua própria “guerra às drogas”, não quer ver a OTAN no seu quintal e não quer saber de bases norte-americanas no Afeganistão. Pequim não quer saber de ter os Talibãs influenciando os uigures em Xinjiang. E Teerã continuará a cultivar as relações especiais que a ligam aos tadjiques, hazaras e uzbeques – não pashtuns.  

O que é certo é que qualquer mapa unilateral do caminho “made-in-USA” para o Afeganistão, do tipo “avançar, subornar e ficar”, está condenado ao fracasso, sem o aval desses atores eurasianos chaves.

Tragédia à parte, a guerra de EUA/OTAN no Afeganistão já flerta seriamente com o surrealismo – basta ver os Talibã acusando os EUA de terem invadido seus websites, telefones e e-mails para distribuir mentiras sobre a morte do Mulá Omar. Esqueçam os Talibã “medievais, cabeça-de-pano-de-prato e chapados de haxixe”. Os Talibã contemporâneos usam iPhones, vivem tuitando e postam no Facebook – e têm muitos admiradores. Não surpreendentemente, a sombria máquina de guerra da OTAN “não comentará” as acusações.

Será fascinante ver que esquemas a Casa de Saud armará para demolir o novo eixo comercial Teerã-Islamabad; afinal, a Arábia Saudita trata o Paquistão como uma espécie de “puxadinho” político/econômico.

Mas nada se compara, em termos de espetáculo fascinante, a assistir ao movimento das empresas russas, chinesas e indianas, em operação para tomar conta das riquezas minerais do Afeganistão, enquanto o ocidente atlântico, em “aliança”, insiste em bombardear-se, ele mesmo, até a total irrelevância.




Notas do autor
[1]Mineral Resources Could Give Afghans New Hope”, Army Sgt. 1st Class Michael J. Carden, American Forces Press Service
[2]Why the US won't leave Afghanistan”, Pepe Escobar, 12/7/2011, Al-Jazeera. .