quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A guerra de Israel contra Gaza reforçou a posição do Irã


28/11/2012, Kaveh L Afrasiabi, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Kaveh L. Afrasiabi
NEW YORK – Agora que a poeira de sete dias de guerra contra Gaza já baixou, vê-se que a roda da fortuna geoestratégica da guerra girou, sem dúvida alguma, a favor do apoio militar que o Irã dá ao Hamás.

Os líderes israelenses podem falar o quanto queiram do pesado dano que teriam infligido à capacidade de ataque do Hamás, fato é que Israel não alcançou seu principal, quase único objetivo: comprometer a capacidade dos foguetes do Hamás. É fato, sim, também, que o dano que tenha havido será rapidamente reparado pelo Hamás, o qual, nos meses vindouros, poderá reabastecer e fortalecer seus arsenais.

A impressionante capacidade dos foguetes do Hamás, que resistiu à fúria de cerca de 1.500 incursões dos jatos israelenses que bombardearam sem cessar área densamente povoada, e o fracasso do “Domo de Ferro” de Israel, que não impediu que cerca de 420 foguetes atingissem Israel, reflete o que está sendo chamado no ocidente de novo “equilíbrio do terror”, denominação que já se afasta consideravelmente da versão tradicional da supremacia militar de Telavive e aponta para novas áreas de vulnerabilidade dos israelenses, as quais, por sua vez, incidem de forma dramática sobre a posição anti-Irã, de Israel.

Ali Baqeri
É o que já se depreende da declaração de Ali Baqeri, subsecretário do Conselho Superior de Segurança Nacional do Irã:

Se o regime sionista já não tem condições para derrotar a Resistência na Faixa de Gaza sitiada, é claro que, definitivamente, já não tem o que dizer, tampouco, sobre a força e a potência da República Islâmica.

Sentimentos semelhantes foram manifestados também pelos comandantes militares iranianos, entre os quais o comandante dos Guardas Revolucionários, General Mohammad Ali Jafari, que já admitiu publicamente que o Irã forneceu ao Hamás a tecnologia para montar os foguetes Fajr-5, e que “os foguetes foram produzidos rapidamente”.

Mohammad Ali Jafari
“Se a intenção de Israel ao provocar essa guerra foi usá-la como prelúdio para um ataque contra o Irã, foi fracasso completo, principalmente porque a guerra terminou com vitória do Hamás, do Irã e do Hezbollah [libanês], triunvirato de poder que impõe hoje desafio formidável, em qualquer cenário de guerra contra o Irã” – disse um professor de ciência política da Universidade de Teerã, que pediu para não ser identificado.

A impressão generalizada de que qualquer ataque de Israel contra o Irã é hoje ainda menos provável do que no passado, como resultado direto da guerra de Gaza, deve, com certeza, influenciar o clima de negociações entre o Irã e as nações do grupo “5+1” – os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU plus Alemanha – marcadas para breve.

A “opção militar” que Israel usou para coagir o Irã na mesa de negociações perdeu agora, embora pouco se fale sobre isso, grande parte da serventia prevista, o que faz pesar a balança geral, consideravelmente, na direção de solução diplomática.

“No mínimo, o resultado favorável ao Irã, da Guerra de Gaza, implicou abertura mais ampla da janela diplomática, o que se traduz em maior flexibilidade e maior disposição, entre os governos ocidentais, para negociar e para ceder” – disse o professor de Teerã.

Conversações nucleares: estrada aberta à frente

Antes da próxima rodada de conversações multilaterais, reuniões bilaterais entre o Irã e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), marcadas para a segunda semana de dezembro em Teerã, podem preparar o caminho para uma modalidade de “cooperação estruturada” que vise a resolver as questões invocadas no mais recente relatório da AIEA, de  novembro desse ano.

Yukiya Amano
O diretor-geral da AIEA, Yukiya Amano, já admitiu tacitamente que parte do relatório de inteligência citado no “Anexo” do relatório que a Agência divulgou em novembro de 2011 pode ser considerado ‘questionável’, posto que, como disse o diretor-geral, “todo” aquele anexo é pouco confiável; em outras palavras, a AIEA já sabe que nem todas as informações de inteligência que lhe foram encaminhadas merecem ser tomadas como material confiável.

A descoberta chave do mais recente relatório, divulgado no início desse mês de novembro, é que os inspetores não encontraram qualquer tipo de prova de que o material nuclear declarado esteja sendo utilizado para fins não declarados pelo Irã – considerados os dados obtidos por todos os mecanismos de verificação, inclusive inspeções anunciadas em prazo curtíssimo, amostras de material recolhido no meio ambiente em períodos regulares de tempo e o emprego de câmeras de vigilância em todas as praças de enriquecimento de urânio no Irã.

Outra constatação chave é que o Irã já converteu alta porcentagem de seu urânio enriquecido a 20% em bastonetes e placas de combustível, e mantém hoje limitada em cerca de 110 kg a quantidade de material enriquecido – provável sinal de boa-vontade, uma vez que o país não reabasteceu metade das centrífugas instaladas na usina superprotegida conhecida como Fordo.

No caso de as conversações Irã-AIEA mostrarem progresso real, como preveem funcionários do governo do Irã, com certeza criar-se-ão condições de melhorar-se o tom da conversa iraniana com os representantes dos “5+1” liderados pela secretária de Relações Externas da União Europeia, Catherine Ashton, a qual, em recente reunião em Bruxelas, destacou a importância de negociações diplomáticas sustentadas.

Catherine Ashton
A questão, evidentemente, é de se os negociadores ocidentais estarão dispostos a levar em consideração o fortalecimento da posição do Irã, resultado da Guerra de Gaza, desenvolvimento que deve ter reduzido o ímpeto de ataque militar contra o Irã. Se raciocinarem nesses termos e nessa direção, é preciso saber ainda como a ideia traduzir-se-á em maior disposição a reduzir as sanções contra o Irã, em comparação ao que se viu em rodadas anteriores, quando os governos ocidentais recusaram-se a considerar qualquer abrandamento nas sanções, mesmo no caso de o Irã concordar com suspender completamente o enriquecimento do urânio a 20%.

Hoje, depois de três rodadas inconclusivas de negociações, no início de 2012, o cenário parece preparado para que se cultive otimismo moderado em relação em relação à próxima rodada. Outro desenvolvimento importante que afeta aquelas conversações, também a favor do Irã, foi a decisão dos EUA de forçar o adiamento da muito esperada conferência sobre um Oriente Médio livre de armas de destruição em massa, prevista para acontecer na Finlândia.

Ali Asghar Soltanieh
A decisão dos EUA, interpretada por muitos como concessão a Israel – principal agente de proliferação de armas de destruição em massa em todo o Oriente Médio –, foi fortemente condenada pelo Irã e por vários países árabes, que denunciaram o papel dúbio que os EUA desempenham, atentos, sempre, a excluir Israel de qualquer tratado ou decisão antiproliferação de armas de destruição em massa. O enviado do Irã à AIEA, Ali Asghar Soltanieh, criticou duramente os EUA sobre esse tema; e Irã e Rússia uniram-se a favor de antecipar-se a data da conferência do próximo ano, na Finlândia. [1]

Certamente, na próxima rodada, o Irã e as nações do “5+1” muito terão a conversar sobre o estimulante objetivo de implantar-se uma zona sem armas nucleares no Oriente Médio – circunstância que muito favorece aos interesses do Irã, interessado em destacar as intenções exclusivamente pacíficas de seu programa.

A possibilidade de que o representante do Irã encontre, como parece afinal possível, público mais receptivo na mesa de negociações, como acima se discute, parece ser efeito, em não pequena medida, da guerra de Israel contra Gaza, que, bem claramente, não levou a bons resultados para Israel.



Nota de rodapé
[1] Ver entrevista com o embaixador Ali Asghar Soltanieh (9/6/2012, “Iran prepares for Moscow”, Kaveh Afrasiabi, Asia Times Online, (em inglês). 

domingo, 25 de novembro de 2012

Sayyed Nasrallah: “Cada palmo da Palestina ocupada é território da Resistência”


25/11/2012, Batoul Wehbe, Al-Manar TV, Líbano
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Em discurso transmitido pela televisão na 10ª noite de Muharram, o Secretário-Geral do Hezbollah, Sayyed Hasan Nasrallah alertou a entidade sionista de que, caso o Líbano seja atacado, cada palmo da Palestina Ocupada é território da Resistência. E renovou seu apoio à Síria, em todos os campos.

Sayyed Nasrallah (E) Multidão(D)
‘Israel’ [1] é, de fato, mais fraca que teia de aranha

Sua Eminência congratulou-se com todos os grupos da Resistência em Gaza, pela vitória sobre a entidade sionista. Sayyed Nasrallah disse que “em Gaza vimos vitória real e completa, por mais que alguns mercenários a serviço de ‘Israel’ tentem encobrir os fatos, como também fizeram em julho de 2006 e na vitória de Gaza em 2009”.

O Secretário-Geral do Hezbollah lembrou aos governos árabes, mesmo sabendo que dificilmente o ouviriam, que Gaza e a Palestina “precisam, além de palavras de simpatia e visitas, também de armas, dinheiro e apoio efetivo. Gaza já fez por merecer o apoio de todos os governos árabes, porque nunca desistiu da Resistência e vive hoje de vitória em vitória”.

Sua Eminência, o secretário-geral do Hezbollah, destacou que, no recente confronto em Gaza, ‘Israel’ mostrou que é mais fraca que uma teia de aranha.

“Quando o Irã apoia os movimentos de Resistência, faz o que é seu dever fazer, do ponto de vista ideológico e estratégico, e o Irã não espera qualquer retribuição” – disse Sayyed Nasrallah, que também alertou contra o risco das tentativas superficiais para apresentar o inimigo, como amigo.

“Em todo mundo árabe e muçulmano, há quem tente apresentar ‘Israel’ como amiga e o Irã como inimigo. Mas ‘Israel’ nada dá em troca dessas solidariedades de ocasião, por causa da natureza criminosa e agressiva dos governos sionistas. Digo a todos os que assim falam, que seus esquemas estão condenados ao fracasso”.

“Dia após dia, os povos árabes e islâmicos veem que o Irã é amigo solidário, que os apoia. Foi o que mais uma vez se confirmou na recente confrontação na Faixa de Gaza, como já se vira antes, no Líbano”.

O que distingue o Bahrain é que, ali, o levante é pacífico

O Secretário-Geral do Hezbollah renovou o apoio da Resistência ao povo do Bahrain e à sua revolução pacífica, conclamando o governo do Bahrain a atender às justas demandas do povo bahraini, que mantém consciência clara do que quer, apesar de toda a injustiça e da opressão que sofre.

Sua Eminência também falou dos países da Região “que insistem em impedir qualquer solução positiva para o povo do Bahrain. Disse que aqueles governos que não defendem o povo do Bahrain temem que a luta por reformas que hoje mobiliza os bahrainis venha a alastrar-se para as ditaduras vizinhas”.

Sayyed Nasrallah (telão ao fundo) e plateia (1o. plano)
Estamos com a Síria, com toda a Síria

Sobre a crise na Síria, Sayyed Nasrallah disse que o Hezbollah está ao lado dos oprimidos em todos os países onde haja oprimidos, e que temos de saber discernir claramente quem é oprimido, em cada caso.

“Hoje, na Síria, toda a Síria é oprimida, todo o povo, o exército, a própria existência da Síria está ameaçada, porque a Síria foi convertida em alvo de ataque em vários níveis” – disse Sua Eminência.

“Dissemos, ano passado, que é direito legítimo dos sírios exigir reformas, [2] e continuamos a respeitar esse direito legítimo dos sírios”.

Defender hoje os sírios oprimidos implica exigir o fim dos combates e o fim da matança, para preservar a Síria íntegra e unida, para que o país consiga recuperar-se. Qualquer outra posição é trabalhar pela destruição da Síria”.

Somos pelo diálogo, mas nos ergueremos contra os que se ergam contra nós

O secretário-geral do Hezbollah destacou a importância de haver segurança, estabilidade, paz e coexistência civil pacífica entre todos os grupos que constituem a sociedade libanesa. Repetiu que “todas as acusações que se fazem contra o Partido da Resistência são falsas, injustas e sem qualquer prova; são, sempre, ações complementares aos assassinatos e outros atos de violência.” Sua Eminência repetiu que o único inimigo do Hezbollah é ‘Israel’. Que o Hezbollah não tem inimigos no Líbano, nem nos demais partidos políticos, apesar das muitas diferenças de opinião.

“Sempre acreditamos e continuamos a acreditar que o diálogo e a ação política são a única via para superar as crises no Líbano. Não rejeitamos a possibilidade de sentar para dialogar a qualquer momento. Mas não aceitamos que se imponham condições para o diálogo ou que se levantem acusações falsas contra nós. Digo hoje que continuamos, como sempre fomos, a favor do diálogo, da convergência e de uma solução política, mas nos ergueremos contra os que se ergam contra nós”.


Toda a Palestina Ocupada está sob nosso controle
Sayyed Nasrallah

Sayyed Nasrallah revelou que a Resistência islâmica já tem meios para alcançar com seus mísseis todos os territórios ocupados, “da fronteira do Líbano até a fronteira da Jordânia e o Mar Vermelho, de Kiryat Shmona a Eilat. O tempo quando ‘Israel’ podia nos ameaçar acabou. A temida ‘Israel’ já não existe”.

Sua Eminência continuou: “Como um inimigo que se deixa abalar por uns poucos foguetes que caíram em Telavive vindos de Gaza suportará milhares de mísseis que cairão sobre Telavive e outras cidades?”.

A crescente ameaça que enfrentamos é o esquema sionista/norte-americano

O Yazeed dessa era, que temos de enfrentar é o esquema sionista/norte-americano que ameaça nosso povo, nossa dignidade, religiões e locais sagrados. Essa confrontação permanece, como nossa absoluta prioridade” – disse o secretário-geral. Sayyed Nasrallah lembrou as ofensas ao Profeta Maomé “que vimos nos meses recentes”. Disse que hoje, 10º dia de Muharram, “é dia de fazer sacrifícios em defesa do Mensageiro de Alá. Todos os que ofendam nosso Profeta ou tentem fazê-lo saibam que não toleraremos nenhuma ofensa e que estamos prontos a defender nosso Profeta e sua dignidade. E hoje lembramos com o Imã Hussein, em defesa do Profeta Maomé, e que todo o mundo ouça nossa voz: ‘A teu serviço, Mensageiro de Alá”.

“Como todos os anos, no 10º dia de Muharram, relembramos a posição histórica do Imã Hussein e dizemos a todos os tiranos, os corruptos e os que desconfiem de nossa decisão: nenhuma possibilidade é mais remota, que a de nos deixarmos humilhar” – Sayyed Nasrallah concluiu.




Notas dos tradutores
[*] Esse artigo é tradução da versão em inglês, divulgada hoje pela rede Al-ManarTV, do Líbano. Todas as correções, sobretudo as feitas a partir da versão original em árabe, são bem-vindas.
[1] O Hezbollah não reconhece o estado de Israel, ao qual se refere, quase sempre, como “entidade sionista”. Por isso, quando ocorre, a palavra ‘Israel’ é usada com aspas simples, convenção que mantemos nessa tradução.
[2]Sobre a posição do Hezbollah quanto a Síria, ver também “Assange entrevista Nasrallah” (16/4/2012, Russia Today) em português.  

Xeique Zein: “Rixa entre sunitas e xiitas é invenção de Telavive e Nova Yorque”


24/11/2012, Al-ManarTV, Líbano
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Xeique Ahmed Zein
O presidente do Conselho de Guardiões da Reunião de Clérigos Muçulmanos, Xeique Ahmed Zein, disse ontem que o discurso de segregação entre sunitas e xiitas é discurso inventado por Telavive e Nova Yorque. Xeique Zein destacou a importância de preservar-se a união de todas as seitas.

Em sua fala na 10ª noite da Ashoura, no complexo Sayyed Al-Shuhadaa, no subúrbio no sul de Beirute, Xeique Zein criticou as tentativas de apresentar o Irã como inimigo, quando o inimigo é a entidade sionista.

Lembrou também que o inspirador da revolução iraniana, o Imã Khomeini, expulsou de Teerã os sionistas e convidou os palestinos a instalar embaixada palestina na República Islâmica.

“A voz dos expulsos é a voz que apresenta o Irã como inimigo” – disse ele.

Xeique Zein destacou que cristãos e muçulmanos no Líbano devem manter-se unidos na defesa de cada grão de terra libanesa. Destacou também a importância, por um lado, da unidade islâmica de sunitas e xiitas como um só corpo e, por outro lado, a importância da unidade nacional entre muçulmanos e cristãos.

sábado, 24 de novembro de 2012

Israel e Gaza: Robert Fisk entrevista Uri Avnery

Uri Avnery: “Um dos maiores guerreiros da esquerda de Israel quer paz com Hamás e Gaza. Mas e o Knesset?”


23/11/2012, Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Robert Fisk
O velho Uri Avnery tem 89 anos e ainda luta. De fato, escritor mundialmente conhecido, ainda é um dos maiores guerreiros da esquerda de Israel, ainda exige paz com os palestinos, paz com o Hamás, um estado palestino nas fronteiras de 67 – com pequenos acertos de território para um lado e outro. Ainda crê que Israel poderia ter paz, amanhã ou na próxima semana. Se Netanyahu quisesse paz. “Azar de otimista incorrigível” – assim ele descreve o próprio destino. Ou talvez seja, mesmo, só, um velho mágico?

Ainda é o mesmo sujeito que encontrei há 30 anos, jogando xadrez com Yasser Arafat nas ruínas de Beirute. Cabelos e barbas hoje brancos, lança palavras – diz que ultimamente anda um pouco surdo – com a mesma fúria e o humor de sempre. Pergunto a Avnery o que estão fazendo Netanyahu e seu governo. Qual o objetivo deles nessa guerra de Gaza? Os olhos dele brilham e ele responde.

Você pressupõe que eles queiram alguma coisa e que queiram paz – e, nesse caso, a política deles é idiota, ou insana. Mas se você assume que não dão a mínima para a paz, mas querem um estado judeu que vá do Mediterrâneo ao rio Jordão, então, em certa medida, o que estão fazendo tem um certo sentido. O problema é que o que eles querem está levando a um beco sem saída – porque já temos um estado em toda a Palestina histórica, três quartos do qual é o estado judeu de Israel e um quarto do qual são a Cisjordânia e a Faixa de Gaza ocupadas.

Apartheid em Israel

Avnery fala em sentenças perfeitas. Minha caneta corre pelo papel até ficar sem tinta. Tenho de usar uma das dele.

Se anexarem a Cisjordânia como anexaram Jerusalém Leste – diz ele – nem faz muita diferença. O problema é que nesse território que hoje é dominado por Israel, há 49% de judeus e 51% de árabes, e o desequilíbrio aumenta ano a ano, porque o crescimento populacional natural entre os árabes é muito maior que o crescimento natural do nosso lado. Portanto, a verdadeira pergunta é: se essa política continua, que tipo de estado haverá? Como é hoje, é um estado de apartheid; absoluto apartheid nos territórios ocupados e apartheid crescente em Israel. E se isso continuar, haverá absoluto apartheid em todo o país, sem dúvida alguma.

O argumento de Avnery avança, claro.

Se os habitantes árabes tiverem garantidos plenos direitos civis, logo haverá maioria árabe no Knesset [Parlamento], e a primeira coisa que esse Parlamento fará será trocar o nome do país, de “Israel” para “Palestina”, e todo o exercício dos últimos 130 anos será reduzido a nada. Limpeza étnica massiva é impossível no século 21 – diz ele ou espera ele – mas quanto à demografia, não há o que discutir.

É uma supressão. Espera-se que ninguém pense nisso, que se afaste a ideia da nossa consciência. Nenhum dos partidos fala sobre esse problema. A palavra ‘paz’ não aparece em nenhum manifesto eleitoral, exceto no do pequeno partido Meretz –, nem nos partidos da Oposição nem na Coalizão. A palavra ‘paz’ desapareceu completamente em Israel.

A esquerda em Israel? Como que, mais ou menos, hiberna – desde que a esquerda foi destruída por Ehud Barak, em 2000. Ele voltou de Camp David – como autoproclamado líder do “campo da paz” – e decidiu que “não temos parceiro para a paz”. Foi golpe mortal. Quem disse isso não foi Netanyahu, mas o líder do Partido Trabalhista. Foi o fim do movimento Paz Agora.

Esperança

Então, o otimista ressurge, com a nuvens escurecendo o mar que se avista do apartamento de Avnery, sétimo andar, em Telavive.

Quando encontrei-me com Arafat em 1982, os termos estavam ali. O mínimo e o máximo do que os palestinos queriam era a mesma coisa: um estado palestino junto a Israel, que compreenderia a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém Leste como capital, com pequenos acertos de território e uma solução simbólica para a questão dos refugiados. Lá está sobre a mesa, como flor murcha. Olha para nós todos os dias. Já cedemos a Faixa de Gaza – para ganhar o controle sobre a Cisjordânia, assim como [Menachem] Begin cedeu todo o Sinai, para ganhar toda a Palestina.

Avnery está convencido de que o Hamás aceitaria proposta semelhante – como disse a eles, em Gaza, em 1993;

... lá estava eu, frente a 500 xeiques de barbas negras, eu falando hebraico. Aplaudiram e me convidaram para o almoço.

Várias vezes, reuniu-se com delegados do Hamás depois daquele dia. Para eles, defender a Palestina é waqf [dever absoluto, sob a lei islâmica], não podem ceder a Palestina. Mas um acordo pode ser reconhecido e santificado também em termos religiosos. “Se oferecessem uma trégua de 50 anos, para mim, pessoalmente, seria suficiente”. “Claro – diz Avnery - o Hamás mantém, em seu manifesto, que quer destruir Israel. Abolir um manifesto é coisa muito difícil de fazer. Os russos algum dia aboliram o Manifesto Comunista? Pois a OLP aboliu o manifesto deles”.

E assim seguem as coisas. Os grupos da paz, pequenos mais muito ativos – Gush Shalom [Bloco da Paz], o projeto Paz Agora, que monitora as colônias, os Combatentes da Paz (ex-soldados israelenses e ex-combatentes palestinos) e outros assemelhados preparam-se para as eleições de janeiro. Curiosamente, Avnery acredita que o terrível – e muito execrado – Relatório Goldstone sobre a matança que foi a guerra de Gaza de 2008-2009, foi o que impediu, daquela vez, a invasão por terra.

Goldstone pode orgulhar-se do que fez – de fato, salvou muitas vidas.

Não poucos, na esquerda de Israel, sonham com que Uri Avnery viva outros 89 anos.

Hamás sempre quis acordo baseado nas fronteiras de 1967


24/11/2012, Gareth Porter , The Real News Network, TRNN
Vídeo-entrevista traduzida pelo pessoal da Vila Vudu


PAUL JAY, editor-chefe, TRNN: Sou Paul Jay, em Baltimore. Apresentamos a edição semanal do Porter Report, com o jornalista Gareth Porter. Gareth é historiador e jornalista investigativo. Trabalha regularmente para a rede Inter Press Service sobre políticas dos EUA para Irã, Iraque, Afeganistão e Paquistão. Em 2012 recebeu o Prêmio Gellhorn de Jornalismo. É colaborador regular de The Real News. Obrigado, Gareth, por nos receber.

GARETH PORTER: Obrigado, Paul. Ótimo estar aqui outra vez.

JAY: Gareth fala de nosso estúdio em Washington. Claro, a matéria dessa semana é Gaza. Você escreveu várias vezes sobre isso.

PORTER: É, escrevi algumas vezes. E, claro, a crise em curso em Gaza, a guerra que Israel fez contra Gaza, semana passada, lembra-me a Operação Chumbo Derretido, de janeiro de 2009. As semelhanças entre as duas operações, são realmente muito visíveis. Para começar, os israelenses sentiram-se perfeitamente livres para lançar vastíssimo ataque aéreo contra Gaza, sabendo, obviamente, que haveria centenas e centenas de mortos, sobretudo civis, porque sempre sabem que podem alegar, que podem argumentar que fazem o que fazem porque estão sendo atacados por foguetes disparados de dentro da Faixa de Gaza.

Na matéria que escrevi há quatro anos, precisamente há quatro anos, em janeiro, noticiei que, de fato, Israel rejeitara uma proposta de cessar-fogo, feita pelo Hamás. E aquele acordo, não na essência, mas precisamente aquele acordo proposto pelo Hamás, já havia sido acertado antes, entre Israel e o Hamás. Tudo isso está demonstrado no que escrevi naquela época. Mas os israelenses decidiram não fazer acordo algum, porque já haviam decidido, estavam decididos, determinados, a usar a força.

Aquela mesma história, me parece, repete-se, praticamente a mesma história, mais uma vez, no caso atual, porque já se sabe que os israelenses assassinaram o mediador, o homem que recebera uma proposta de cessar-fogo, assassinaram um mediador que trabalhava também com Israel, que já trabalhara na negociação da volta de Gilad Shalit, o soldado israelense que o Hamás capturara alguns anos antes. E o mesmo mediador estava também trabalhando com egípcios e com o Hamás, numa proposta de cessar-fogo, que o general Jaabari já recebera. O general Jaabari era o comandante encarregado da questão dos foguetes e das negociações de cessar-fogo com Israel, até poucas horas antes de ser assassinado. Por isso acho que aqui, essencialmente, aconteceu uma daquelas repetições da história. Não são situações exatamente iguais, mas muito, muito parecidas.

JAY: A posição dos israelenses sobre Gaza sempre foi de querer que Gaza fosse problema do Egito. Nunca quiseram Gaza como parte de uma possível solução de dois estados. Pelo menos, com certeza, não querem Gaza sob liderança do Hamás e como parte de um cenário de dois estados. O que aconteceu parece ser desdobramento do mesmo plano. E agora, com a Fraternidade Muçulmana no poder no Egito, e com o Qatar cada dia mais envolvido na situação, talvez tenham pensado em mandar a bola mais fundo, para dentro do campo, quero dizer, fazer de Gaza um local inabitável, a menos que Gaza deixe de ser parte de algum estado palestino, não sob controle do Hamás, mas, sabe-se lá, como alguma espécie de estado dependente do Egito, de algum modo.

PORTER: De garantido, é que os israelenses entendem que os egípcios devem ajudar Israel a impedir que o Hamás ganhe condições de, basicamente, defender-se contra Israel, ou que tenham meios para conter ataques israelenses. O serviço dos egípcios e a ideia dos israelenses – e, claro, também dos EUA – é, há muito tempo, impedir que o Hamás consiga ter economia interna em Gaza que lhe permita sustentar a população que ali vive. Por isso Israel sempre quis controlar tudo o que entra e tudo o que sai de Gaza, manter esse fluxo num nível mínimo, e, assim, claro, impedir também que o Hamás acumule qualquer tipo de capacidade militar.

Tudo isso, penso eu, esteve em discussão nas conversas sobre um cessar-fogo, porque os EUA e Israel, é claro, estão pressionando os egípcios, os EUA à frente, dizendo, basicamente, que, se o Egito quer manter acesso continuado ao sistema de ajuda do mundo capitalista, então terá de desempenhar o papel que EUA e Israel desejam que desempenhe ali.

Por tudo isso, a guerra em curso em Gaza deixa à luz, muito claramente, a desigualdade fundamental que há na estrutura do sistema global. Na essência, o destino de Gaza está, em vasta medida, nas mãos dos egípcios, e os egípcios dependem, pelo menos por enquanto, dos EUA e de seus aliados capitalistas em todo o mundo, para conseguir impedir uma grave deterioração da economia egípcia.

Por essa razão, é caso de todos nos preocuparmos com os desenvolvimentos daquela crise, quero dizer, com a possibilidade de o status quo não se alterar, continuar o que sempre se viu ali, no passado. É possível que, como resultado desse cessar-fogo, não se veja nenhuma abertura das passagens, nenhum alívio no bloqueio e que aumentem as restrições de Israel contra o governo do Hamás, depois do cessar-fogo.

JAY: Obrigado por falar conosco, Gareth.

PORTER: Obrigado a você, Paul.

O Egito se agita ante um novo faraó


24/11/2012, MK Bhadrakumar*, Indian Punchline
Traduzido Pelo pessoal da Vila Vudu


É virtualmente impossível capturar, em imagens, o tumulto de uma revolução – especialmente a revolução no Egito, que prossegue, sem final à vista. Está em curso outra revolução dentro da revolução.

Os cinegrafistas chineses capturaram visuais fantásticos, com as margens do Nilo outra vez agitadas pelas ininterruptas paixões humanas. Veja álbum de fotos da rede Xinhua.

O Egito se agita. O país está rachando. A esquerda, virou direita. A Fraternidade Muçulmana, o azarão vencedor, tornou-se establishment. E uma Nova Esquerda apareceu, incluindo, paradoxalmente, os centristas, liberais, secularistas e esquerdistas de estilo ocidental – todo mundo, de fato; exceto os islamistas.

Mohamed Mursi discursa em 23/11/2012 (Cairo-Egito)
Aparentemente, a questão é o movimento autoritário que, pelo que se diz, marcaria o recente decreto assinado pelo presidente Mohamed Mursi, que o torna imune à corte constitucional, no momento em que o Egito está às vésperas de dar o importante passo de redigir uma nova constituição. O grande medo é que os islamistas estejam empurrando a maioria silenciosa para o total alinhamento.

Mohamed El Baradei
É perigo real. Até um liberal como Mohammed El Baradei já chamou Mursi de “um novo faraó”. Mas Mursi não dá sinais de remorso. É raposa esperta, que já conjurou os militares e os vestígios remanescentes da era Mubarak, essa semana, no desempenho que teve na questão de Gaza, demonstrando a Washington que pode servir aos interesses ocidentais na região, com mais efetividade e mais credibilidade que qualquer outro, no Egito.

Mursi converteu o conflito de Gaza em jogo de xadrez político-diplomático de primeira classe. Alcançou acordo que traz alívio aos EUA e a Israel. Mas enquanto o ferro ainda está quente, age também para consolidar-se no poder, quando assinou o catastrófico decreto, calculando que, hoje, nada tenha a temer dos militares pró-EUA e do aparelho de segurança.

Para o governo Barack Obama, Mursi tornou-se presente caído do céu: é voz legítima, democraticamente eleito, preparado para subservir a agenda dos EUA. E, além do mais, é islamista. O exemplo de Mursi como colaborador encoberto encoraja Washington a ajudar os Irmãos da Fraternidade Muçulmana a assumir o comando também na Síria – e na Jordânia, Inshah Allah.

Mursi, de fato, trabalhou excepcionalmente bem. Conseguiu até o pacote de resgate do FMI, de $4,2 bilhões, para a economia egípcia – com os cumprimentos de Obama, claro. E tem também o presentinho de $2 bilhões de dólares de cada lado, do Qatar e da Turquia. Só os sauditas mantêm-se a uma distância suspeitosa.

Mas, para consolidar-se, Mursi tem de, antes, livrar-se do desafio barulhento da Nova Esquerda. Como fará, ainda falta ver. Haverá sangue em suas mãos, no final de tudo?

Tudo isso gera tempos de alta ansiedade também para o governo Obama. Obama precisa saber logo, mais uma vez, qual é “o lado certo da história” no Egito. Mursi é grande dádiva – preciosa demais para deixar escapar. Por outro lado, se Mursi vencer decisivamente o round em curso da revolução dentro da revolução na Praça Tahrir, o islamismo estará incontivelmente em marcha na região.

A ironia disso tudo é que Mursi, nesse caso, terá esmagado irreparavelmente todo o eleitorado que se esperaria que fossem os “aliados naturais” dos EUA – os liberais, os centristas, os secularistas, etc.

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MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialistaem questões do Afeganistãoe Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu,Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.