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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Mais jogos de sombra no Golfo Persa


8/1/2012, *M K Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


 A visita do ministro de Relações Exteriores da Turquia Ahmet Davutoglu ao Irã parece não ter ido muito bem. A retórica ficou por conta da Turquia – e a imprensa oficial do Irã sutilmente ironizou (“Os laços entre Irã e Turquia alcançam o ponto mais alto em 400 anos: Ministro turco”). Fato é que a Turquia não tem como manter relações complicadas com quase todos os seus vizinhos – com Irã, Síria, Iraque, Armênia, Chipre, Israel. E também com França e União Europeia os contatos são espinhosos. 

Teerã não vê com bons olhos as operações turcas de subversão clandestina na Síria, nem a interferência dos turcos no Iraque, nem o “eixo” que a Turquia constituiu com Arábia Saudita e Qatar. Mais importante, a Turquia está admitindo que os EUA instalem seu sistema de mísseis antibalísticos em território turco, sistema cujo único objetivo é monitorar, para Israel, os mísseis iranianos. 

Por tudo isso, a declaração de Davutoglu, de que a Turquia estaria fazendo funções de mediação na questão nuclear iraniana, não passa, se se o diz claramente, de vento. O ministro de Relações Exteriores do Irã Ali Akbar Salehi usou seu tato persa para enunciar, exclusivamente como ‘opinião pessoal’, que o Irã não tem problemas com Istambul para uma rodada de negociações. 

As negociações sobre a questão nuclear serão duras, sobretudo sob a sombra da ameaça, pela União Europeia, de suspender os negócios com petróleo iraniano. O Irã trabalhará sob a desconfiança de que o ocidente usará as conversações para finalidades de propaganda. Trita Parsi, que conhece excepcionalmente bem o tema, que estudou por dentro (e como conselheiro do governo dos EUA), publicou artigo muito certeiro no Independent, sobre o duplifalar dos EUA e países ocidentais.   

Além do mais, o Irã também alimentará profundas desconfianças quanto à propaganda do salvamento, pela marinha dos EUA, de marinheiros iranianos ameaçados por piratas somalianos. A mídia iraniana deu pouco destaque ao evento; a mídia ocidental superinflou-o. O Irã tem longa e sólida experiência com as armadilhas no front da propaganda. A propaganda EUA-Israel trabalhará muito para apresentar o Irã como irracional e impenetrável aos atos “amigáveis” do ocidente. 

As atenções voltam-se agora para a visita que o presidente Mahmoud Ahmedinejad fará a cinco países da América Latina, em movimento de publicidade. Há um aspecto diplomático , também, porque a viagem mostrará que o Irã absolutamente não está isolado, nem no próprio “campo” dos EUA. As declarações de Ahmedinejad serão acompanhadas de perto, em suas andanças pela Venezuela, Nicarágua, Equador e Cuba; e como convidado de honra na cerimônia de posse do presidente (de esquerda) recentemente eleito na Guatemala. 

É modo de responder a Obama, que iniciou sua presidência com uma rápida passagem pela América Latina. Simultaneamente, Teerã toma precauções em relação aos planos de guerra de EUA e Israel. O que mais importa, do ponto de vista de Teerã, são ações reais em campo. Por exemplo, o deslocamento dos britânicos será tratado com máxima atenção, dado o longo currículo de Londres na linha de identificar-se com a opinião dos falcões do lobby israelense em Washington, e a disposição da Grã-Bretanha para, em algum momento, tentar “acertar as contas” com o Irã, depois do recente rompimento de laços diplomáticos.

O Irã não está baixando a guarda. Os Guardas Revolucionários Islâmicos iniciaram exercício de manobras militares na região leste do país, na fronteira com o Afeganistão. A mensagem é clara – “mais de 100 mil soldados estão estacionados como patos-alvos em suas bases afegãs e podem ser as primeiras vítimas de qualquer ataque de EUA-Israel contra o Irã”. E no sábado o Irã anunciou a intenção de promover outro grande exercício de manobras navais no Estreito de Ormuz. 

Bem claramente, se a estratégia de EUA-Israel visava a “baixar a crista” de Teerã, não está funcionando. No sábado, o Irã anunciou que deixa o dólar norte-americano nas futuras negociações com a Rússia, que passarão a ser feitas nas moedas nacionais. O Irã começa a ver com novos olhos a proposta russa para a questão nuclear. Claro que, se a unidade do grupo 5+1 é minada, é vantagem para o Irã. 

A Rússia criou espaço diplomático  para que o Irã negocie mediante sua proposta flexível, que virtualmente mina a “estrada das sanções” pela qual está andando, até aqui, o Conselho de Segurança da ONU. A Rússia já começou a pedir o fim das sanções da ONU contra o Irã. 

Tudo isso já se reflete no modo confiante como o Irã está recebendo a equipe de inspetores da IAEA que estão, nesse momento, visitando o Irã. O Irã expôs suo moto   suas capacidades locais, em tom de quem, como Parsi relata em seu artigo, esteve realmente disposto a aceitar acordo com os EUA, nos termos da troca negociada entre Brasil-Turquia-Irã. E Teerã prometeu anunciar mais “boas novas”  de capacidade nuclear “nas próximas semanas”. 

A notícia que o Kremlin divulgou, da conversa por telefone entre os presidentes Dmitry Medvedev e Ahmedinejad chama a atenção para o considerável nível de entendimento sobre várias questões regionais. A imprensa russa vê íntima correlação entre a pressão ocidental sobre a Síria e o Irã, partes da mesma estratégia para controlar Oriente Médio, com efeitos diretos sobre os interesses russos. Interessante: a Rússia está fazendo novos deslocamentos navais na Síria – o que sinaliza apoio ao presidente Bashar al-Assad.

*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Pepe Escobar: “Epidemia grave de iranofobia nuclear”


Pepe Escobar


9/11/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu




No auge de um frenesi de “vazamentos” na imprensa-empresa ocidental que chegou – literalmente – à histeria nuclear, os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica [ing. International Atomic Energy Agency (IAEA)] afinal divulgaram relatório no qual, essencialmente, dizem que Teerã, ainda no final do ano passado, tentava projetar uma bomba atômica que se adaptasse a uma ogiva de míssil.

Segundo o relatório, o Irã trabalhou “no desenvolvimento de projeto próprio de uma arma nuclear incluindo teste de componentes”.

Além da acusação de ter-se esforçado para redesenhar e miniaturizar uma arma nuclear paquistanesa, Teerã também é acusada de tentar montar operação clandestina para enriquecer urânio – o “projeto sal verde” [ing. green salt project] – que poderia ser usado “em programa clandestino de enriquecimento”.

Tudo isso levou a IAEA a expressar “sérias preocupações” sobre pesquisa e desenvolvimento “específicos para armas nucleares”.

O relatório vende a ideia de que, enquanto a IAEA tentava, ao longo de anos, monitorar os estoques iranianos declarados de minério de urânio e de urânio processado – hoje, 73,7 kg de urânio enriquecido a 20% em Natanz, mais 4.922 kg de urânio enriquecido a menos de 5% – Teerã, em segredo, tentava construir uma bomba atômica. 

Inteligência fraca

A IAEA repete insistentes vezes que se baseia em inteligência “confiável” – mais de mil páginas de documentação – de mais de dez países, e que se ampara em oito anos de “provas”.

Mas a IAEA não tem meios independentes para confirmar a enorme massa de informação – e desinformação – que recebe mensalmente, a maior parte, das potências ocidentais. Mohammad El Baradei – que antecedeu o japonês Yukya Amano na presidência da Agência Internacional de Energia Atômica – disse isso várias vezes, claramente. E sempre contestou o que o que aparecia como “inteligência iraniana” – porque sempre soube que era informação extremamente “politizada”, atravessada por ondas de boatos e especulação.

Nenhuma surpresa, portanto, que o jornal iraniano Kayhan, ultraconservador, tenha perguntado se se trataria mesmo de relatório da IAEA, ou não passava de diktat ordenado pelos norte-americanos a um Amano fraco, facilmente pressionado.

O relatório nada traz que pudesse, nem de longe, abalar o mundo – só imagens de satélites e especulação de “diplomatas”, apresentadas ao mundo como se fossem “inteligência” irrefutável. Se parece etapa da construção da guerra contra o Irã, é porque é isso, exatamente. Não passa de regurgitação de farsa já velha, de quatro anos passados, conhecida então como “o laptop da morte”. [1]

Cenário mais próximo da realidade – ainda que se acredite que haja um programa nuclear secreto no Irã, o que nunca foi provado – sugere fortemente que seria contraproducente, para Teerã, construir bomba atômica ou ogiva nuclear.

E, seja como for, o Corpo de Guardas Revolucionários Islâmicos [ing. Islamic Revolutionary Guards Corps (IRGC)] – que comanda todos os programas militares de alto nível – continua a ter a opção de construir, rápidos como raio, uma ogiva nuclear, a ser usada como arma de contenção no caso de terem absoluta certeza de que os EUA invadirão o Irã, ou lançarão alguma modalidade expandida da “Operação Choque e Pavor”. O indiscutível verdadeiro efeito de o Irã vir eventualmente a ter sua bomba atômica será acabar, de uma vez por todas, com a eterna ameaça de o país ser alvo de ataque americano. Quem tenha dúvidas sobre essa questão consulte, por favor, o dossiê Coreia do Norte.

O regime de Teerã pode ser impiedoso, mas eles não são amadores; construir uma bomba nuclear – secretamente ou à vista da IAEA – e mandar tudo pelos ares não os levará a lugar algum. Em termos geopolíticos, o regime – que já está às voltas com complexa e terrível disputa interna entre o Supremo Líder Ali Khamenei e o grupo do presidente Mahmud Ahmadinejad – ficaria completamente isolado.

A população iraniana já vive preocupada demais com inflação, desemprego, corrupção e o desejo de participar mais na vida política do país, para ser jogada no centro de uma disputa nuclear global. Há amplo consenso no Irã a favor do programa nuclear civil. Mas nada sugere que sequer alguma minoria aprovaria uma “bomba islâmica”.

Israel está blefando 

O que arrepia os nervos não só de Israel, mas também dos poderosos interesses norte-americanos que, 32 anos depois, ainda não se conformaram com o fim do seu sentinela preferido na região (o Xá do Irã), é que o Irã os mantém em eterno suspense.

Muito previsivelmente, o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu em Israel continuará a latir latidos ensurdecedores, ao mesmo tempo em que tenta todos os disfarces possíveis para trair os norte-americanos para sua armadilha.

O mesmo Netanyahu que nem Barack Obama nem Nicolas Sarkozy aguentam mais, é homem de estratégia obsessiva: obrigar Washington e alguns outros poucos, dos britânicos à Casa de Saud – o que nada tem a ver com alguma “comunidade internacional” – a aplicar pressão máxima contra Teerã. Ou Israel atacará.

É perfeito absurdo, porque Israel não pode atacar nem cachorrinho de madame. Todo o armamento crucial para Israel é norte-americano. E depende de autorização para cruzar o espaço aéreo iraquiano ou saudita. Nada faz sem luz verde de Washington, de A a Z. Pode-se acusar o governo Obama de várias coisas, não de terem tendências ao suicídio.

Só aquelas não-entidades no Congresso dos EUA – desprezadas pela ampla maioria dos norte-americanos, segundo todas as pesquisas – poderiam ainda acreditar nas marciais ordens de marcha avante que recebem de Netanyahu, via o poderoso lobby do AIPAC (American Israel Public Affairs Committee).

Resta afinal, só, então, o caminho de mais e mais sanções. Quatro rodadas de duras sanções do Conselho de Segurança da ONU já atingem as importações e os setores bancário e financeiro do Irã. Mas é só. Fim da linha.

O relatório da IAEA não convenceu a Rússia, como os russos já disseram claramente; tampouco impressionou a China. A IAEA, simplesmente, não encontrou prova alguma que realmente a autorizasse a acusar o Irã de manter programa ativo para construir bombas atômicas.

Assim sendo, esqueçam a possibilidade de Rússia e China aceitarem mais uma rodada de sanções que os EUA imponham na ONU, e que poderia ser, essa sim, literalmente, nuclear: boicote de facto, que paralise as vendas de gás e petróleo do Irã.

Só alguma trupe de palhaços assumiria que a China votaria contra os interesses de sua própria segurança nacional no Conselho de Segurança da ONU. O Irã é o terceiro maior fornecedor de petróleo para a China, depois de Arábia Saudita e Angola. A China importa cerca de 650 mil barris de petróleo por dia, do Irã – 50% a mais, em comparação ao ano passado. É mais de 25% do total das exportações de petróleo do Irã.

O próprio governo Obama já teve de admitir publicamente que um boicote é inimaginável: tiraria da economia global já deprimida nada menos que 2,4 milhões de barris de petróleo por dia. O barril chegaria a $300, $400.

Teerã tem – e continuará a encontrá-los – meios para contornar as sanções financeiras. A Índia pagou o que tinha a pagar ao Irã, nos negócios de importação, através de um banco turco. E Teerã também já está usando um banco russo.

O que também prova que o mantra de Israel, segundo o qual a “comunidade internacional” teria isolado o Irã não passa de monumental blefe. Atores chaves, como os BRICS - Rússia, China e Índia - mantêm relações comerciais muito próximas com o Irã.

E, sobretudo: em pleno surto de histeria iranofóbica, a Organização de Cooperação de Xangai [ing. Shanghai Cooperation Organization (SCO)] – China, Rússia e os quatro “-...stões” da Ásia Central – iniciou sua reunião de cúpula em São Petersburgo. O Irã lá está – como observador – representado pelo ministro de Relações Exteriores Ali Akbar Salehi. Mais dia, menos dia, o Irã será admitido como membro pleno.

Se, ainda antes de o Irã tornar-se membro da Organização de Cooperação de Xangai, China e Rússia já veem qualquer ataque contra o Irã como ataque contra esses próprios países (além de ataque, também, contra a ideia da integração de toda a energia da Ásia), será realmente muito interessante observar o que Israel fará, tentando convencer os EUA a atacarem... a Ásia! 




Nota dos tradutores
[1] 11/12/2007: “Trata-se ainda do que se conhece como “o laptop da morte” – um computador portátil obtido, em meados de 2004 de uma fonte “não conhecida”, que supostamente o teria recebido no Irã, de outra pessoa não identificada, e que no qual estavam armazenados planos “volumosos” para a construção de um míssil no qual estaria instalada uma ogiva nuclear. Autoridades norte-americanas usaram esse computador para convencer os europeus de que a “ameaça iraniana” seria real e gravíssima: o computador foi elemento crucial do clima de pânico no qual surgiu o alarmante relatório National Intelligence Estimate 2005. A verdade é que esse inestimável tesouro no qual a inteligência dos EUA teria tropeçado por acaso vai-se tornando cada dia menos inestimável e menos tesouro. Dafna Linzer noticia, no Washington Post, que “o computador foi roubado de um iraniano preso pela inteligência alemã, quando tentava, sem sucesso, recrutá-lo como informante. E foi contrabandeado para fora do país por outro iraniano, que o entregou a espiões na Turquia, como prova da existência de um programa nuclear” (“Iran, nukes and the laptop of death”, Justin Raimondo). Ver também, “Laptop of Death”: Revising the NIE on Iran IPS news - 8/12/2007.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Convite iraniano e desconfiança ocidental

7/1/2011, Kaveh L Afrasiabi, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Os EUA e alguns de seus aliados ocidentais reagiram com desconfiança ao convite que o Irã fez a vários países, para visitarem suas instalações nucleares, em vez de tomar o movimento como sinal de boa vontade e disposição para maior transparência, na rodada de conversações com potências mundiais sobre o programa atômico da República Islâmica. 

O ministro das Relações Exteriores do Irã disse na 4ª-feira que convidara países representados na Agência Internacional de Energia Atômica [ing. International Atomic Energy Agency (IAEA)] para visitarem as instalações nucleares em Natanz e Arak, sugerindo para a visita as datas de 15 e 16 de janeiro, antes da reunião em Istambul. Diplomatas na sede da Agência em Viena disseram que o Irã convidara apenas dois – Rússia e China – dos seis que constituem o grupo chamado “Irã 6” e que devem participar das conversações marcadas para logo depois, em Istambul; não foram convidados EUA, França, Grã-Bretanha e Alemanha. Teerã também convidou Egito, Turquia, Brasil, Cuba e Hungria, que atualmente ocupa a presidência da União Europeia.

Porta-voz da União Europeia disse na 5ª-feira que o bloco não respondera à carta-convite e reiterou que “quem tem de inspecionar as instalações nucleares iranianas é a IAEA”. 

Rotulando o convite como simples artifício tático para dividir a “coalizão internacional” contra o Irã, a imprensa ocidental e vários comentaristas midiáticos desqualificaram a iniciativa, apesar da imensa potencialidade de um gesto que bem poderia fazer aumentar a confiança da comunidade internacional na natureza pacífica do programa nuclear iraniano. 

Dentre outros, artigo publicado no Christian Science Monitor reproduz opinião de um especialista em Irã, Shahram Chubin, que diz exatamente o que se lê acima e não faz qualquer referência sequer à possibilidade de o Irã ser movido por outras intenções, menos sinistras, que não sejam só desejo de “dividir para conquistar”. 

No New York Times, mais da mesma rotulagem. O jornal diz que a usina nuclear de Bushehr no Irã “não chega a ameaçar”, porque é vistoriada pelos inspetores da IAEA, mas não diz que, segundo os próprios relatórios da própria IAEA, a agência continua a vistoriar plenamente as atividades de enriquecimento, usando câmeras de vigilância em todas as paredes da usina de enriquecimento de Natanz, com relatórios de cerca de 27 inspeções pontuais nos últimos dois anos, além das inspeções regulares. 

“Não havia convite algum em nossa caixa de correspondência”, disse, sério, o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Philip Crowley. Mas, afinal, por que o Irã convidaria os EUA, país com o qual não tem relações diplomáticas, para que inspecionasse suas instalações nucleares? 

Se há alguma honestidade na política norte-americana de “engajamento” com o Irã, seria para festejar que o Irã convidasse a União Europeia, o Egito, Cuba e o Movimento dos Não Alinhados, que elogiaram a iniciativa como mais uma evidência de que o programa iraniano visa a finalidades pacíficas. 

Movimento que ocorre em boa hora, o convite feito pelos iranianos também ajuda a esfriar a fornalha que Israel insiste em manter acesa e aquecida contra o Irã, embora não consiga esfriá-la completamente, dado o vício dos israelenses, dependentes irremediáveis do recurso à guerra ante a primeira suspeita de ameaça externa. 

O principal dilema de Israel é que qualquer ataque militar ao Irã só teria o efeito, indesejável, de empurrar o Irã diretamente no rumo da proliferação nuclear, com o apoio de toda a nação. Efeito desse dilema é que a melhor opção para Israel é conviver com um Irã potencialmente nuclear, que se autolimita, felizmente, e não constrói a bomba, não porque lhe seja proibido, mas por astúcia, cálculo de segurança nacional e razões morais e religiosas. Por isso, para Israel, tornou-se indispensável a mediação diplomática com o Irã – o que só é possível se Israel recorrer à diplomacia dos EUA, seu Estado-patrão. 

Sobre o modo como os EUA abordam a questão iraniana

Confrontada com um Congresso dominado por Republicanos e provavelmente mais linha-dura, a política exterior do governo Barack Obama, inclusive o modo como aborda a questão iraniana, parece exposta a oposição político-partidária ainda mais feroz do que antes. 

Sob o impacto de cisão crescente na discussão de questões da segurança nacional dos EUA, ainda longe de acabar, a política da Casa Branca para o Irã enfrentará de agora em diante novo nível de complexidade, em parte por influência de senadores como Mark Kirk (Republicano de Illinois) que prega sanções cada vez mais duras contra o Irã. 

É certo que, com olhos já postos na eleição de daqui a dois anos, o presidente aspirante à reeleição não dará aos opositores ocasião para acusá-lo de ser responsável por alguma “paz com o Irã”. Mas, se se analisa o quadro com as precauções devidas, Obama tem, simultaneamente, uma oportunidade única para converter em vantagem a fraqueza de sua política exterior – basta que consiga articular, a tempo, uma saída para o impasse da nuclearização do Irã. 

Oportunidade para construir essa saída bem poderia ser as próximas conversações nucleares em Istambul, assumindo-se que os dois lados utilizem todos os seus recursos, inclusive diplomacia secreta, antes da reunião, para limpar o caminho e construir o sucesso do encontro. 

Pré-requisito importante seria preparar a opinião pública nos EUA – o que hoje ninguém cuida de fazer –, de modo a tornar mais difícil que a Casa Branca assine acordo ‘marginal’ com Teerã – que, conforme se sabe hoje pelos telegramas vazados por WikiLeaks, prefere que o combustível nuclear para seu reator médico venha de Washington, em vez de vir de Moscou. Questão importante aí é: O que Obama pensa disso tudo, hoje? 

A partir da informação disponível, pode-se, no máximo, conjecturar. Obama não tem falado muito sobre o Irã nos últimos tempos, ao que parece mais focado em questões domésticas, desde o resultado desastroso das eleições de meio de mandato, que alteraram o equilíbrio de forças políticas em Washington, com prejuízo para os Democratas. Mesmo assim, se podem considerar algumas observações, que são chaves para saber se como os EUA conduzir-se-ão na reunião de Istambul: 

  1. A Casa Branca já não se tem mostrado tão alarmista ante alguma iminente proliferação nuclear pelo lado do Irã, ideia recentemente transmitida aos israelenses por funcionários norte-americanos, e pode-se inferir disso que Obama esteja convencido de que de fato não há prova alguma de que o Irã mantenha algum programa clandestino de armas nucleares.

  1. Além da percepção de que o Irã, em qualquer caso, está a anos de dominar as competências necessárias para construir armas atômicas, inclusive algum sistema de transporte e detonação, a Casa Branca está também satisfeita com os desastres na tecnologia das centrífugas iranianas; a visível falta de progresso com as centrífugas P2 mais avançadas, devida em parte ao controle das exportações, que resultou em número menor de centrífugas esse ano, que há um ou dois anos. 

  1. Também importante, do ponto de vista dos EUA, é o efeito da ciberguerra que, como o próprio Irã anunciou, afetou seu programa nuclear, para não falar do efeito psicológico de campanhas coordenadas de sequestros e assassinatos de cientistas nucleares iranianos. 

Consideradas essas evidências, os EUA, que dependem de as usinas iranianas serem funcionais, para manter ativada a ‘ameaça iraniana’, que interessa ao complexo militar-industrial norte-americano, terão de formular política mais consistente, que sirva como pilar de sua política de ‘contenção’, ao mesmo tempo em que marcham na direção da détente com o Irã. 

Esse movimento seria ditado pelas exigências da política de segurança regional, com Washington e Teerã apostando nos mesmos cavalos políticos em Bagdá e Cabul, além da antipatia que ambas manifestam contra o terrorismo wahhabista. O ex-embaixador do Irã no Iraque, Hassan Kazemi Ghomi, em entrevista publicada em Iranian Diplomacy, disse que “ao contrário do que se lê nos telegramas publicados por WikiLeaks, o papel do Irã no Iraque foi construtivo”. 

É impossível que Obama não considere isso, que já se refletiu na visita a Bagdá, essa semana, do ministro de Relações Exteriores do Irã, Ali Akbar Salehi. 

Mas também aí, outra vez, os “linhas-duras” na Casa Branca, liderados por Dennis Ross, podem ainda insistir na abordagem maximalista, exigindo total suspensão de todas as atividades de enriquecimento de urânio em Teerã, em vez da alternativa de enriquecimento limitado e monitorado (em níveis seguros), em parte por causa dos recentes sucessos que os EUA conseguiram na ampliação das sanções contra o Irã. 

A partir daí, tecendo a já conhecida abordagem “de duas vias”, a Casa Branca pode bem decidir que a via diplomática deve ter substância real, em vez de ser só alguma espécie de braço ativo da outra via, a da coerção e da violência. 

Resposta mais saudável ao convite dos iranianos, para um tour nuclear, seria sinal muito oportuno de que o presidente dos EUA estaria realmente inclinado a dar à diplomacia uma genuína chance.