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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Conversa de “Putin está isolado” é idiota e perigosa

16/11/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Putin "isolado" com Dilma Roussef...
Algumas manchetes pelo mundo, iguaizinhas e igualmente idiotas:

·  LA Times – Putin enfrenta isolamento no G-20
·  NY Times – Putin recebido com frieza no G-20

Shinzo Abe "isolado"... Tenta abrir garrafa
Ainda mais idiota que essas manchetes foi o Tagesschau alemão, que usou uma foto em que Putin aparece como se estivesse almoçando sozinho, para assim provar seu “isolamento”. Basta examinar as imagens distribuídas pelas agências, para ver que Putin está sentado à mesa com a presidenta Dilma Rousseff do Brasil, à espera de outros comensais que chegam em seguida. Há imagens semelhantes, que poderiam ser usadas para mostrar o “isolamento” do primeiro- ministro do Japão e – sim, senhores! – até de Obama. A foto de Putin foi “escolhida” para ilustrar uma matéria já preparada, sobre o isolamento de Putin. O restante da imprensa-empresa universal reproduziu o mesmo movimento de desinformação seletiva por imagens.

E será que esses “jornalistas” que ganham a vida a inventar manchetes, correspondentes de redes de televisão e políticos sabem o que significa G-20? A turminha que agrediu e ofendeu publicamente o presidente russo em Brisbane são os de sempre: Obama, Cameron, Harper, Abbott e Abe. Não passam de 5, em 20.

Obama "isolado"... Com o garção
Importantes são os líderes que não agrediram e ofenderam Putin frente às câmeras de televisão: Argentina, Brasil, China, França, Alemanha, Índia, Indonésia, Itália, México, Arábia Saudita, África do Sul, República da Coreia e Turquia. Praticamente todos esses governantes tiveram reuniões exclusivas com Putin. Só Merkel, da Alemanha, solicitou e obteve reunião de mais de três horas com Putin. Será que passou três horas com Putin, só para mostrar ao mundo o quanto a Rússia estaria “isolada”?

Fato é que Putin vive “isolado” como o Papa.

Fato é, também, que os tais “líderes mundiais” que disseram frente às câmeras que estariam “isolando” Putin, não passam de poderes já minoritários no mundo, em população, militarmente e economicamente. Como o próprio presidente Putin disse, corretamente, em entrevista à televisão alemã, antes de embarcar para a reunião do G-20:

Na verdade, se se somam os PIBs dos países BRICS, calculados pela paridade do poder de compra, vê-se que já superamos o grupo dos chamados países G-7. Se me lembro corretamente, os países BRICS já têm PIB de US$ 37 trilhões, pela paridade do poder de compra. O G7 está ainda nos US$ 34,5 trilhões. E a tendência daqui em diante favorece os BRICS, não o G-7.

Putin "isolado"... Com os demais BRICS
Assim afinal se vê claramente que toda essa conversa fiada de “Putin isolado” seria até engraçada, se os “poderosos” do dia reconhecessem que só fazem repetir bobagens. 

Infelizmente, muitos “líderes”, políticos, “jornalistas”, colunistas e “especialistas” em Washington DC acreditam, com a fé mais cega, nas mentiras que eles mesmos inventam e põem-se a repetir. Por causa dessa fé cega, esse pessoal erra muito, nas “análises” que fazem das políticas mundiais. É perigoso errar tanto. Nesse campo, os erros de avaliação quase sempre geram consequências sangrentas.


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera  A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Imperialismo australiano: Cão de ataque na guerra dos EUA

20/10/2014, [*] Nick BeamsWorld Socialist Web Site
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Vladimir Putin e Tony Abbott
Declarações recentes do primeiro-ministro australiano Tony Abbott, de que “confrontará, com cabeçada na camisa” o presidente Vladimir Putin da Rússia, na reunião de líderes do G20 em Brisbane no próximo mês, sobre a derrubada na Ucrânia do avião malaio que fazia o voo MH17 podem parecer bizarras, à primeira vista.

Mas, longe de ser alguma espécie de explosão de “oposição” violenta sem sentido, a fala de Abbott é manifestação de um processo para intensificar as tensões geopolíticas, especialmente o movimento dos EUA contra a Rússia, com a crescente substituição da diplomacia pelo militarismo e pela mais ativa provocação.

A expressão “com cabeçada na camisa” vem das regras do futebol australiano; é uma cabeçada no peito de jogador adversário, com intenção de derrubá-lo e risco assumido de provocar ferimento grave.

Embora a escolha do vocabulário seja obra de Abbott e nesse sentido casual, a beligerância da expressão não é casual. É expressão do aumento no papel global que o imperialismo australiano vem tendo como força avançada do impulso para guerra dos EUA – dirigido contra a Rússia e contra a China. O governo russo deixou claro que compreendia perfeitamente que, embora a voz fosse de Abbott (“desequilibrado, urgentemente necessitado de atenção psiquiátrica”), o “recado” vinha de Washington.

A Austrália já está plenamente integrada no “pivô para a Ásia” dos EUA, contra a China. Seu papel começou a ser preparado com a derrubada do ex-primeiro-ministro do Partido Trabalhista, Kevin Rudd, por golpe interno no partido em junho de 2010, orquestrado por operadores instalados dentro do partido e com laços estreitos com a embaixada dos EUA. A remoção de Rudd, que havia falado sobre a necessidade de o país acomodar-se ao crescente poder econômico da China no Leste Asiático, aconteceu logo depois da renúncia do primeiro-ministro japonêsYukio Hatoyama (“por não ter cumprido promessas de campanha, dentre as quais a relocação da base aérea dos EUA em Okinawa”), apenas poucas semanas depois de o japonês ter exposto a orientação de sua política externa, favorável a uma aproximação com a China.

Yukio Hatoyama

Desde os eventos de junho de 2010, a política externa da Austrália tem andado exatamente sobre as pegadas dos EUA. O “pivô” para a Ásia foi anunciado pelo presidente Obama em discurso no Parlamento Australiano em novembro de 2011; e tem sido seguido por integração sempre crescente da Austrália na ofensiva militar e política dos EUA contra a China. Em novembro passado, depois que a China anunciou a implantação de uma “Zona Aérea de Defesa, com Identificação Obrigatória” incluindo os arredores das ilhas Senkaku/Diaoyu que China e Japão ainda disputam, a Ministra de Relações Exteriores da Austrália, Julie Bishop, lançou contra Pequim uma das mais estridentes “denúncias”. 

Em Janeiro, Bishop, em contradição com a opinião política convencional, segundo a qual a Austrália seria economicamente dependente da China, insistiu que, dados os profundos laços financeiros e o nível de investimentos norte-americanos, os EUA seriam, não só o mais importante parceiro estratégico da Austrália, mas também o mais importante parceiro econômico.

Esse ano está assistindo a um crescimento na atividade política, diplomática e militar em linha com os interesses dos EUA, e que já assumiu caráter cada vez mais beligerante.

Quando o MH17 caiu, dia 17 de junho de 2014, a reação inicial de Abbott foi, de certo modo, cautelosa, lembrando que os fatos do desastre ainda não estavam esclarecidos. Mas horas depois, na sequência de uma conversa com Washington, mesmo que nenhum fato tivesse ainda sido esclarecido, Abbott distribuiu declaração em que denunciava a Rússia como agente naquele caso – posição que todo o establishment político australiano continua a manter ao longo dos últimos três meses.

Quase desde o início já se discutia se a Austrália, nação anfitriã da próxima reunião do G20, deveria cancelar o convite feito ao presidente da Rússia. O assunto foi resolvido nos bastidores da reunião do FMI no fim de semana de 11-12 de outubro de 2014, quando os EUA deixaram claro que não aprovavam a exclusão de Putin. Mas o fator decisivo foi a clara oposição dos demais membros do Grupo BRICS – Brasil, Índia, China e África do Sul – àquele movimento. A Rússia, antes, já fora excluída de reuniões do G8, e os EUA entenderam que não seria possível repetir a exclusão do G20.

Tony Abbott (por Jeremy Goodchild)
Mas os EUA decidiram que a retórica anti-Rússia deve ser intensificada em todas as oportunidades. E, nisso, a Austrália tem papel único. Como potência imperialista de nível intermediário, completamente dependente estrategicamente dos EUA e sem laços, nem econômicos, nem de qualquer tipo com a Rússia, a Austrália está disponível para atuar como uma espécie de cão de guerra a serviço de Washington, enquanto os EUA trabalham para manter a ação de dominação global. A única área onde poderia haver algum conflito seria a China. Mas essa questão já ficou resolvida pelo golpe contra Rudd, há quatro anos.

O novo papel global do imperialismo australiano também apareceu plenamente exemplificado no total apoio que a Austrália deu às novas intervenções norte-americanas no Oriente Médio. A Austrália foi um dos primeiros países a assinar a nova “coalizão dos dispostos/desejantes” de Obama, comprometendo sua força aérea para operações de bombardeio no Iraque, além de suas forças militares especiais.

Como parte desse papel no front político e militar, a Austrália também se envolveu pesadamente no serviço de fazer calar a oposição antiguerra, inventando uma “ameaça terrorista” depois de outra, para amplificar a suposta “ameaça” que viria do Estado Islâmico no Iraque e na Síria (ISIS/ISIL/EI). A maior operação policial na história da Austrália aconteceu dia 18/9/2014, supostamente para deter um complô do ISIS que culminaria numa decapitação pública. A ação foi freneticamente divulgada pelo Secretário de Estado, John Kerry, dos EUA, enquanto tentava mobilizar apoio do Congresso e internacional para a ação militar dos EUA. Os raids resultaram na prisão de apenas uma pessoa, que foi acusada da prática de ações só muito duvidosamente relacionadas a algum terrorismo.

Esse é outro aspecto chave do crescente militarismo do governo australiano, que também necessariamente manifesta processos globais – o empenho em projetar para fora do país tensões sociais crescentes.

O capitalismo australiano foi de certo modo isolado do impacto inicial da quebradeira financeira de 2008 – e por causa das conexões econômicas que mantinha com a economia chinesa em expansão. Mas agora os plenos efeitos da crise global estão chegando lá e, em alguns casos, com redobrada força, por causa do adiamento.

Mina de ferro da Rio Tinto Group's Pilbara, Austrália
O boom da mineração, que foi crucialmente importante para sustentar a economia australiana já vai bem longe. Tem havido saques em minas de carvão, ao mesmo tempo em que a renda da venda de minério de ferro, que constitui 1/5 das exportações australianas e é item chave da arrecadação de impostos, está sendo duramente atingida pela queda dos preços, que só até aqui, esse ano, já chegou a 40%.

A desigualdade é crescente, os salários reais permanecem estagnados ou estão sendo cortados, e a pobreza está aumentando. Como se vê acontecer em todas as grandes potências capitalistas, o establishment político oficial é visto com crescente hostilidade por setores cada vez mais amplos da população.

Posta nesse contexto, a “cabeçada na camisa” de Abbott contra Putin é mais uma expressão do crescimento internacional do militarismo norte-americano, que tenta nos empurrar para outra guerra mundial, e que conseguirá o que tanto deseja, se não for contido pela ação política da classe trabalhadora em todo o mundo.


[*] Nick Beams é o Secretário Geral do Partido da Igualdade Socialista (Socialist Equality Party − SEP) e membro do Conselho Editorial do WSWS − World Socialist Web Site. O SEP foi criado em 2010 como partido sucessor da Liga Socialista Trabalhista (Socialist Labour League − SLL) da Austrália que foi fundada em 1972 como a seção australiana do CIQI − Comitê Internacional da Quarta Internacional. O SEP oferece as notícias e informações on-line do CIQI e é um partido político registrado na Comissão Eleitoral Australiana e participa de eleições em todos os níveis de governo. 

domingo, 10 de agosto de 2014

Técnicas de punição dolorosa


Publicado no sítio The Vineyard of The Saker
Traduzido (para o inglês) pela equipe russa do Saker
Tradução (para o português): mberublue



The Saker
O ocidente está tão acostumado ao seu joguinho de um lado só que ficou realmente surpreso com a resposta russa às sanções que o ocidente impôs contra o país.

Tudo bem. Deixe lá que se acostumem com isso. Seja quem for que contra nós vier com uma espada, pela espada perecerá. Isto serve apenas quando estivermos a falar de uma batalha onde se usará a espada, uma “guerra quente”. No entanto, se esta é uma guerra de sanções e proibições, o agressor terá mais do que pediu, certamente.

Apoio em gênero, número e grau a introdução de sanções retaliatórias contra os países que por sua vez sancionaram a Rússia. Por muitas razões:

·        é bom para nossa economia e nossos produtores;
·        é importante para a autoestima de nosso povo, que nunca deixou de punir o infrator que tenha perdido o senso de realidade;
·        é necessário para que se tenha respeito pela Rússia, não apenas no interior do país mas também além de suas fronteiras.

A Rússia é uma superpotência. Recuperamos o status depois da reunificação da Criméia. Portanto não adianta; é futilidade tentar tratar a Rússia como se fosse uma criança birrenta que deve ser punida e aprender uma lição.

Pois a partir de agora qualquer agressor deve ter em mente o fato de que pagará caro por sua agressividade. A retribuição acontecerá na mesma medida e grau da agressão.

Se a agressão for econômica, o agressor pagará caro através de sua própria economia e renda. Pagará igualmente caro em vidas de seus soldados e com a perda de liberdade de manobra na esfera internacional por qualquer agressão militar.

Como os EUA controlam o território da Rússia
Como já aconteceu por várias vezes no decorrer da história, nós não começamos a confrontação. Acontece que a Rússia está sendo “punida” porque... uma guerra está em curso nos arredores de suas fronteiras, depois de apoio explícito e ostensivo ao golpe de estado na Ucrânia pelo ocidente. Ocorre que a OTAN ameaça expandir sua infraestrutura nas proximidades de nossas fronteiras. O nosso território está sendo bombardeado pela zona de conflito.

O ocidente, em si mesmo, não está em perigo. A Rússia jamais tomou qualquer atitude agressiva contra o ocidente a partir de suas fronteiras. No entanto, estamos sendo punidos. Muito bem, também podemos puni-los. Vocês precisam de nós muito mais do que precisamos de vocês.

A partir de agora nenhum canhão tem permissão de disparar perto de nossas fronteiras sem a nossa explícita permissão. Além de entender, o mundo deve recordar. Acontece dessa forma desde os tempos da Imperatriz Elizabeth Petrovna até os tempos de Leonid Brezhnev.

Ninguém tem o direito de disparar perto de nossas fronteiras e especialmente, através delas. É bom que nossos gentis “parceiros” se acostumem com o fato de que toda a parte eurasiana da Europa é território de nossos interesses vitais.

Sempre foi assim e assim deve continuar agora. Entretanto, nesse meio tempo, armas não só militares, mas também econômicas estão disparando não sem nossa permissão, mas em nós. A seu tempo, os atiradores devem ser e serão punidos.

Severamente punidos. Chega! O ocidente equivocadamente interpreta nossa bondade como sendo fraqueza. Está na hora de responder a todas as agressões contra a Rússia com técnicas de punição dolorosa.

Rússia (e China) cercada por bases dos EUA-OTAN
Há apenas uma semana atrás, no artigo “Técnicas para infligir a dor para proteger a Rússia”, escrevi o seguinte:

Já está na hora da Rússia mudar para uma política de técnicas de fazer sentir dor. Ademais, a continuação de nossa política de tentar promover a paz apenas faz nossos inimigos aumentarem suas forças. Temos que parar de sorrir e começar a responder aos ataques desfechados contra nós. Nossas ações tem que ser mais rápidas e proporcionar maior dano que os golpes de nossos inimigos. Como em um ringue, na luta contra um boxeador de maior peso, o atleta mais leve tem apenas uma vantagem: a velocidade.

E distribuir golpes dolorosos aos pontos mais sensíveis de nosso forte adversário. Quais são os pontos que mais doem em nossos “parceiros” geopolíticos? É necessário avaliar, escolher e golpear.

Então, aconteceu exatamente isso. Entendemos, reconhecemos, fizemos nossas escolhas. E respondemos aos golpes.

De acordo com as medidas para implementação da Ordem Executiva Presidencial nº 560, de 06 de agosto de 2014 “Adoção de Medidas Econômicas Especiais para Proporcionar Segurança para a Federação Russa” foi introduzida a proibição, por um ano, das importações de produtos agrícolas, matérias primas e alimentares dos seguintes países:

Estados Unidos da América;
União Europeia;
Canadá;
Austrália;
Reino da Noruega.

A lista inclui:

  1. Carne, porco, aves, salgados, secos ou defumados, peixes e frutos do mar, frescos, refrigerados ou congelados.
  2. Leite e produtos dele derivados, vegetais, frutos e nozes, embutidos e produtos assemelhados e outras variedades de carnes (incluindo produtos alimentícios acabados com base em carne).
  3. Alimentos processados, queijos, requeijão e outros produtos lácteos, baseados em gordura vegetal.

Necessário se faz enfatizar que os embargos da Federação Russa em relação aos produtos dos países ocidentais não se estendem à comida importada para bebês nem para compras individuais de bens originários de países sancionados pela Rússia.

Alimentos dos países sancionados
Adicionalmente, a Rússia impôs a proibição de vôos de companhias aéreas ucranianas em seu espaço aéreo.

Esta foi uma resolução acordada pelo governo. Refere-se à suspensão do trânsito de aeronaves ucranianas sobre o espaço aéreo russo para certo número de países – Azerbaijão, Geórgia, Armênia e Turquia, disse o Primeiro Ministro Medvedev.

Sanções que ainda podem vir a ser implementadas:

  1. Uma proibição de vôo contra aeronaves da Europa e dos Estados Unidos que voem sobre o nosso espaço aéreo para a Ásia Oriental, que seja, a região Ásia/Pacífico.

  1. Alterar as chamadas de entrada e pontos de saída no espaço aéreo russo para qualquer vôo regular ou charter da Europa, o que vai acarretar aumento de custos de transporte e tarifas para transportadores aéreos ocidentais.

Nosso país está pronto para revisar as regras de uso da rotas transsiberianas, quer dizer, denunciar os princípios acordados de modernização do sistema existente na atualidade – declarou o Primeiro Ministro Medvedev – a revisão será aplicável em sua plenitude aos países europeus. Interromperemos também as conversações com as autoridades aéreas dos Estados Unidos sobre o uso das rotas transsiberianas.

Rússia deve bloquear voos da UE sobre a Sibéria
A resposta às agressões não somente é justificada, como também é a única iniciativa correta para a Rússia. Entretanto, a Rússia sempre estará pronta para cessar a confrontação e reiniciar uma pacífica e mútua cooperação benéfica.

Contra esses países que declararam suas sanções econômicas contra nós, a Rússia foi forçada a introduzir suas próprias sanções. Para todo o mundo, o sinal é muito claro: nem tente! Tem um custo. Leve-se em consideração que nossas sanções tem um período de duração de um ano. É o suficiente para que nossos “parceiros” também sintam a dor das sanções e mudem seu modo de pensar. Se nada disso ajudar, o período pode ser estendido à vontade. Apresentaremos aos nossos “parceiros” novos setores nos quais serão ainda mais machucados, e mais apropriados para nós.

Este é o nosso país e o país é nosso, portanto as regras serão as nossas. Já jogamos por suas regras o tempo suficiente. Agradecemos a vocês, parceiros queridos que já desistiram das próprias regras. Claro que esse fato nos livra da necessidade de nos retirarmos unilateralmente.

Surpreso? Não esperava por isso?

Acostume-se. Estamos de volta...

[*] Nikolai Starikov nasceu em 23/8/1970 em Leningrado. E escritor, jornalista Op-Ed e figura política. É casado e tem duas filhas. Em 1992 graduou-se na Saint Petersburg State University of Engineering and Economics (com licenciatura em economia). Iniciou como especialista em economia em documentários tais como: Parvus in the Revolution e Storm of the Winter Palace. Refutation. Hoje, Starikov é líder de várias organizações políticas, incluindo a União de Cidadãos Russos (Профсоюз граждан России), fundada em 25/4/2011 e o Grande Partido Pátria (Партия Великое Отечество), registrado em 10/4/2013. O autor descreve o gênero de suas obras, como sendo de um “Detetive da História Política", mistura emocionante de geopolítica, economia, História da Rússia e de vários países. Baseia seus livros em memórias de participantes e testemunhas de um determinado evento. Starikov é o organizador do “Goebbels Award”, que é concedido a “pessoas que mentem sobre, caluniam e difamam a Rússia". Publica em seus sítios os resultados da votação entre os leitores.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Consequências estratégicas das revelações de Snowden (I)

17/1/2014, Dmitry Minin, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

“Se desertei, desertei do governo para o público” – E. Snowden

Nossos agradecimentos a Edward Snowden pelo seu sacrifício
Um dos eventos mundiais mais importantes de 2013 foi a revelação, por Edward Snowden, de que os EUA trabalham para manter toda a humanidade sob vigilância, usando equipamento eletrônico e tecnologia de ponta.

Nos últimos dias do ano passado, o ex-empregado de uma empresa que prestava serviços terceirizados à Agência de Segurança Nacional dos EUA falou por televisão à comunidade mundial, para, mais uma vez, alertar para a gravidade do problema. Em sua fala, Snowden referiu-se ao romance 1984 de George Orwell. [1] Disse que os significados da vigilância descritos por Orwell (o romance foi escrito em 1948) parecem ingênuos e engraçados, à luz do que está sendo feito hoje.

A discussão que se faz hoje determinará o quanto confiaremos doravante, tanto na tecnologia que nos cerca por todos os lados, como no governo que a regulamenta – Edward Snowden

Vídeo a seguir legendado pelo Jornal GGN:


Infelizmente, o vídeo da fala de Snowden só foi distribuído pelo Canal 4 britânico. Os grandes veículos da imprensa-empresa mundial fizeram o máximo que puderam para diluir e diminuir o significado das palavras de Snowden. A rede BBC (em russo), por exemplo, só fez lembrar que, antes, o mesmo Canal 4 havia entrevistado o ex-presidente do Irã, Mahmud Ahmadinejad e até Marge Simpson, personagem de um desenho animado norte-americano.

Contudo, por mais que Washington [e Grã-Bretanha] tente esquecer e fazer esquecer o mais depressa possível o pesadelo das revelações de Snowden, elas continuam a influenciar a política mundial e, em algumas regras, já assumiram traços de influência propriamente estratégica.

1. Pode até haver quem diga que nos próprios EUA o programa de monitoramento eletrônico da humanidade será reformado; mas não há dúvida de que o programa sobreviverá, sobretudo no que tenha a ver com monitorar e vigiar o resto do mundo.

Por exemplo, a Comissão de Inteligência do Senado aprovou lei que aumenta o controle sobre os programas do governo norte-americano de cibervigilância em larga escala, mas não os extinguirá completamente. Em audiências secretas, a Comissão aprovou a introdução de novas limitações à operação de agências de inteligência que trabalham com grandes quantidades de dados de comunicações, e a limitação do período de armazenamento desses dados por cinco anos: 11 votos a favor das limitações e 4 contra. Depois da esperada aprovação dessa lei pelo Congresso e de o presidente ter sancionado a lei, um tribunal especial nomeará especialistas ‘independentes’ que serão encarregados de examinar questões de interpretação da lei. E o Senado terá de confirmar o nome que o presidente indique para os postos de diretor e de inspetor geral da Agência de Segurança Nacional [orig. National Security Agency (NSA)] dos EUA.

Especialistas já escreveram que “se os EUA pretendem reduzir sua perigosa dependência do duplifalar, terão de submeter-se a supervisão real e a um debate aberto e democrático sobre suas políticas. A era da hipocrisia acabou” .

A Era da Hipocrisia ACABOU
Houve momento em que essa virada deu sinais de que talvez viesse a ser efetiva e mais decisiva. Dia 16/12/2013, uma Corte Federal Distrital em Washington julgou a favor de dois norte-americanos que processavam o Estado e a Agência de Segurança Nacional dos EUA pela gravação ilegal de dados de uma conversa telefônica. A Corte decidiu que os programas de coleta de dados de conversas telefônicas violam a 4ª Emenda, que protege os cidadãos dos EUA contra escutas não autorizadas judicialmente. O mundo chegou a ver aí um prelúdio da possível reabilitação de Snowden.

Mas poucos dias depois, dia 3/1/2014, o Tribunal FISA [oficialmente Foreign Intelligence Surveillance Court] dos EUA autorizou as agências de segurança a continuar a coleta em massa de dados de conversações telefônicas dos cidadãos norte-americanos. No mesmo dia, o Departamento de Justiça protocolou um protesto na Corte de Apelação dos EUA contra a decisão da Corte Federal Distrital que bloqueara o programa de escutas clandestinas. Até agora, o “Grande Irmão” está vencendo esse round.

Michael Rogers
Espera-se que, por efeito do escândalo, o atual diretor da Agência de Segurança Nacional dos EUA, general Keith Alexander, deixe o posto na primavera de 2014, fim de seu atual mandato. Alexander dirige a Agência desde 2005. O jornal britânico The Guardian fala do vice-almirante Michael Rogers, atual comandante do Cibercomando da Marinha dos EUA [orig. U.S. Navy Fleet Cyber Command], como provável sucessor de Alexander no comando da ASN-EUA.

Alguma coisa por aí sugere qualquer tipo de restrição ao arsenal de vigilância eletrônica dos EUA? Absolutamente não. Apesar do barulho em torno do sistema de vigilância global, a Casa Branca não cogita de abrir mão da força que criou; em vez disso, cogita, isso sim, de tornar aquela estrutura ainda mais secreta, escondendo-a nos porões do Pentágono, para o qual passarão muitas das atuais funções da Agência de Segurança Nacional dos EUA, por ser “mais confiável” no que tenha a ver com preservar segredos. Essa é uma das recomendações de uma comissão especial que o presidente Obama criou, depois das revelações de Snowden. Essa comissão sugeriu especificamente que o serviço de gestão da segurança de informações da Agência de Segurança Nacional dos EUA seja transformado em agência separada e posta sob jurisdição do Pentágono.

Para os próximos cinco anos, o Pentágono planeja multiplicar por cinco as atuais dimensões do Cibercomando, uma estrutura especializada dentro das Forças Armadas dos EUA: passará dos atuais 900, para 4900 funcionários. E especialistas não descartam a possibilidade de que esse número seja aumentado. Outras divisões do Pentágono estão ameaçadas com cortes massivos de pessoal. Além disso, o Cibercomando poderá ganhar status de órgão independente. Atualmente, faz parte do Comando Estratégico dos EUA, com as forças estratégicas nucleares, os mísseis de defesa e as forças espaciais. Espera-se que o novo comando, além de proteger redes e coletar informação, conduzirá ciberataques “contra estados e organizações hostis”, a partir do território dos EUA ou de seus aliados.

Simultaneamente, surgiram sérias linhas de discordância entre a comunidade de inteligência e o governo dos EUA, quando funcionários da Casa Branca repetidas vezes tentaram fazer crer que o governo e o presidente nada teriam a ver com a atividade da inteligência, como se os agentes da inteligência espionassem por vontade própria e para finalidades só deles. A comunidade de inteligência vê essa atitude da Casa Branca como desleal e inescrupulosa, e a atitude causou indignação. Em artigo publicado no Los Angeles Times, representantes da comunidade de inteligência dos EUA refutaram a ideia de que o presidente Barack Obama e seus assessores não soubessem coisa alguma sobre as escutas implantadas, dentre outros, em gabinetes e até nos telefones privados de autoridades de outros países. Todas as gravações ilegais obtidas de telefones de governantes de países aliados dos EUA foram feitas com a aprovação da Casa Branca e do Departamento de Estado, afirmam agentes da inteligência dos EUA, em serviço e aposentados. “Há gente furiosa” – disse uma fonte de alto escalão. “É como se a Casa Branca tivesse oficialmente renegado a comunidade de inteligência”.

2. Além disso, os EUA e os demais países membros da aliança conhecida como “Cinco Olhos” [orig. Five Eyes] – Grã-Bretanha, Canadá, Austrália e Nova Zelândia [também chamado de Aliança Anglo-sionista (NTs)] – também vivem dificuldades de relacionamento político com outros países, depois que o papel deles foi revelado como elos do sistema global de ciberespionagem. E já se sabe também que os EUA não foram inteiramente honestos sequer com os seus aliados mais próximos.

Antenas operacionais da ASN em Teufelsberg Hill ou Devil's Mountain, Berlim em 5/11/2013
Os EUA assinaram tratado de não espionagem mútua com Grã-Bretanha, Austrália, Nova Zelândia e Canadá. Outros países parceiros, dentre os quais Alemanha e França, esperam ainda por acordo similar. Mas, seja como for, o que todos viram é que nenhum acordo impede a espionagem global norte-americana. Não há dúvida alguma de que a Grã-Bretanha também está sob vigilância e, muito provavelmente, também Canadá e Austrália.

Relações nessa esfera entre Londres e Bruxelas ficaram gravemente tensas; Bruxelas se organiza para mostrar diretamente aos britânicos que as práticas das agências britânicas de inteligência violam a política de segurança da União Europeia. Em conexão com o que aconteceu, a Comissão Europeia planeja recorrer à Corte Europeia, em Luxemburgo, para que ponha fim à vigilância eletrônica pelos britânicos, se violam leis da União Europeia. Decisão da Corte Europeia prevalece sobre a legislação nacional britânica. A Comissão Europeia já requereu que os britânicos apresentem justificativa legal para as atividades de espionagem do Quartel-General das Comunicações de Governo [orig. Government Communications Headquarters (GCHQ)], que recolhe informações de contatos pela Internet em mais de 200 canais de comunicação por fibra ótica. A Alemanha não está contente. A inteligência britânica comandava uma rede inteira de “postos de escuta eletrônica” instalada a poucos passos do Bundestag e espionava o gabinete da chanceler Angela Merkel, usando equipamento instalado no telhado da embaixada britânica.

A Embaixada dos EUA, à direita, fica próxima do edifícios do legislativo da Alemanha em Berlim. A chanceler Angela Merkel está entre os líderes das nações aliadas dos EUA que mais se queixaram sobre os relatórios de espionagem dos EUA
Houve problemas também nas relações entre Londres e vários países do Oriente Médio, quando se divulgou que as ações de espionagem contra seus governantes (inclusive em Israel) eram conduzidas em estreita cooperação com agências de inteligência dos EUA, a partir da base militar Dhekelia (território britânico) em Chipre, próximo da linha que separa as áreas grega e turca da ilha. Tudo isso foi confirmado por jornalistas investigativos do jornal grego Ta Nea. 

Muitos países na região do Pacífico Asiático apresentaram queixas contra Canberra, quando documentos da ASN-EUA revelaram que a Austrália também permitira que suas embaixadas na Indonésia, Tailândia, Vietnã, China e Timor Leste fossem usadas pelos norte-americanos para atividades de espionagem.

Canadá, como se soube, especializou-se em espionagem econômica para a aliança dos “Cinco Olhos”, contra México e Brasil, especialmente contra as respectivas empresas nacionais de petróleo.

3. Apesar da disposição que os EUA manifestaram para resolver “amigavelmente” as complicações geradas por suas ações de espionagem contra aliados próximos, o verme da dúvida implantou-se e não desaparecerá facilmente. Já não é possível explicar esses fatos por necessidades do combate ao terrorismo. Tornou-se óbvio para os governos de países aliados de Washington que os EUA os mantém sob constante vigilância, o que põe os norte-americanos em posição de vantagem desleal inadmissível em todas as negociações. Poucos falam sobre isso, mas não há dúvida de que todos conjecturam e concluem. (...)

Viviane Reding
Viviane Reding, Comissária de Justiça, Direitos Fundamentais e Cidadania da União Europeia, já disse que: “Não se pode negociar num amplo mercado transatlântico, se houver qualquer mínima suspeita de que nossos parceiros mantêm escutas dentro do gabinete de nosso negociador chefe”.

Mesmo assim, seria ingenuidade assumir que Washington, que tem posições estáveis e de raízes profundas na Europa, cederá facilmente nesse seu forte ciberabraço pouco amistoso. Foi o que ficou bem evidente, ano passado, quando se cogitou de convocar Edward Snowden para uma audiência do Parlamento Europeu dia 18 de dezembro, ou de ouvi-lo por videoconferência. Um representante do Partido Popular Europeu [orig. European People’s Party] “consistentemente pró-atlanticista”, com ampla maioria no Parlamento Europeu, comunicou, dia 12/12, que membros conservadores do Parlamento haviam votado contra qualquer contato, mesmo por vídeo, entre Snowden e parlamentares europeus; e a proposta foi bloqueada. Segundo esse deputado europeu “consistentemente atlanticista”, tal iniciativa teria “consequências negativas nas relações transatlânticas, altamente indesejáveis nesse momento, às vésperas da assinatura de um acordo de livre comércio entre EUA e União Europeia”.

Jonathan Pollard - Cana brava por espionagem nos EUA pró Israel...
Até Israel, aliado estratégico dos EUA já se inclui entre as vítimas; soube-se que líderes israelenses estavam sob total vigilância, inclusive em quartos de hotel em Jerusalém, alugados como base de escutas clandestinas, próximos de instalações do governo. E, isso, quando os EUA recusam-se, há muitos anos, a devolver a Israel o agente israelense Jonathan Pollard, condenado a prisão perpétua e mantido numa prisão norte-americana, por sentença que declara que seus atos de espionagem são comportamento “amoral e inaceitável em relações entre aliados próximos”. Agora, Israel já fala da “hipocrisia monstruosa da Casa Branca” e já exigiu a imediata libertação de Pollard, em termos de, praticamente,  um ultimato.

[Continua]




Nota dos tradutores

[1] ORWELL, George [1948], 1984, São Paulo: Companhia das Letras, 2009, 416 p. (Há outras edições.)