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quarta-feira, 14 de março de 2012

Um mundo de petróleo cada vez mais difícil



Michael T. Klare
Os preços do petróleo agora estão mais altos do que jamais estiveram – exceto em uns poucos momentos frenéticos antes do colapso econômico global de 2008. Muitos fatores imediatos estão contribuindo para esta alta, inclua-se ameaças do Irã de bloquear o trânsito de petróleo no Golfo Pérsico (Estreito de Ormuz), temores de uma nova guerra no Oriente Médio e perturbações na Nigéria, rica em petróleo.

Algumas destas pressões podem diminuir nos meses pela frente, proporcionando alívio temporário no preço da gasolina. Mas a causa principal dos preços mais elevados – uma mudança fundamental na estrutura da indústria petrolífera – não pode ser revertida e, assim, os preços do petróleo estão destinados a permaneceram altos por mais um longo tempo.

Em termos de energia, estamos agora entrando num mundo cuja natureza implacável ainda tem de ser plenamente apreendida. Esta mutação essencial foi provocada pelo desaparecimento do petróleo relativamente acessível e barato – o “petróleo fácil”, na linguagem dos analistas da indústria. Em outras palavras, a espécie de petróleo que impulsionou uma expansão vertiginosa da riqueza global ao longo dos últimos 65 anos, bem como a criação de infindáveis comunidades suburbanas orientadas para o carro. Este petróleo está agora quase acabado.

O mundo ainda dispõe de grandes reservas de petróleo, mas estas são difíceis de alcançar, difíceis de refinar, a variedade “petróleo árduo”. A partir de agora, todo barril que consumirmos será mais custoso para extrair, mais custoso para refinar – e, assim, mais caro na bomba de gasolina.

Aqueles que afirmam que o mundo permanece “inundado” de petróleo estão tecnicamente corretos: o planeta ainda dispõe de vastas reservas. Mas os propagandistas da indústria petrolífera geralmente deixam de enfatizar que nem todos os reservatórios de petróleo são semelhantes: alguns estão localizados próximos à superfície ou próximos à costa e estão contidos em rocha porosa; outros localizados em subsolo profundo, no off shore distante ou presos em formações rochosas impenetráveis. Os locais anteriores são relativamente fáceis de explorar e proporcionam um combustível líquido que pode ser prontamente refinado em novos líquidos utilizáveis; os locais atuais só podem ser explorados através de técnicas custosas, ambientalmente arriscadas e muitas vezes resultam num produto que deve ser fortemente processado antes que a refinação possa sequer começar.

A simples verdade sobre o assunto é esta: a maior parte das reservas fáceis do mundo já foram esgotadas – exceto aquelas em países espinhosos como o Iraque. Virtualmente todo o petróleo que resta está contido em reservas mais difíceis de serem atingidas. Isto inclui o petróleo do off shore profundo, o petróleo do Ártico e o petróleo de xisto, juntamente com as “areias betuminosas” do Canadá – as quais não são compostas de petróleo de modo algum, mas sim de lama, areia e alcatrão semelhante a betume. As chamadas “reservas não convencionais” destes tipos podem ser exploradas, mas muitas vezes a preço desconcertante, não apenas em dólares mas também em danos para o ambiente.

No negócio do petróleo, esta realidade foi reconhecida primeiramente pelo presidente e CEO da Chevron, David O'Reilly, numa carta de 2005 publicada em muitos jornais americanos. “Uma coisa é clara”, escreveu ele, “a era do petróleo fácil está acabada”. Não só muitos dos campos existentes estavam em declínio, observou ele, como “novas descobertas de energia estão a ocorrer principalmente em lugares onde os recursos são difíceis de extrair, fisicamente, economicamente e mesmo politicamente”.

Nova prova desta mutação foi proporcionada pela Agência Internacional de Energia (IEA) numa revisão de 2010 das perspectivas do petróleo mundial. Na preparação deste relatório a agência examinou os rendimentos históricos dos maiores campos produtores do mundo – o “petróleo fácil” sobre o qual o mundo ainda repousa para o grosso da sua energia de forma esmagadora. Os resultados foram espantosos: esperava-se que aqueles campos perdessem três quartos da sua capacidade produtiva ao longo dos 25 anos seguintes, eliminando 52 milhões de barris de petróleo por dia da oferta mundial, ou cerca de 75% a atual produção mundial. As implicações eram estarrecedoras: ou descobrir petróleo novo para substituir aqueles 52 milhões de barris/dia a Era do Petróleo chegará logo a um fim e a economia mundial entraria em colapso.

Naturalmente, como a IEA tornou claro em 2010, haverá novo petróleo, mas só da variedade difícil que exigirá um preço de todos nós – e do planeta, também. Para apreender as implicações da nossa crescente dependência do petróleo difícil, vale a pena dar uma olhadela a alguns dos mais apavorantes pontos sobre a Terra. Assim, apertem os vossos cintos de segurança: primeiro estamos a ir para o mar para examinar o “prometedor” novo mundo do petróleo do século XXI.

Petróleo de águas profundas

As companhias de petróleo têm pesquisado em áreas off shore há algum tempo, especialmente no Golfo do México e no Mar Cáspio. Até recentemente, contudo, tais esforços verificavam-se invariavelmente em águas relativamente rasas – umas poucas centenas de metros, na maior parte – o que permitia às companhias utilizar perfuradores convencionais montados sobre colunas extensas. A perfuração em águas profundas, em profundidades que ultrapassam os 300 metros, é um assunto inteiramente diferente. Ela requer plataformas de perfuração especializadas, refinadas e imensamente custosas que podem custar bilhões de dólares para produzir.
 

A Deepwater Horizon (foto), destruída no Golfo do México em Abril de 2010 devido a uma explosão catastrófica, é bastante típica deste fenômeno. A plataforma flutuante foi construída em 2001 por US$500 milhões e custa cerca de US$1 milhão por dia para conservar e manter. Parcialmente devido a estes altos custos, a BP estava com pressa de acabar o trabalho do seu malfadado furo Macondo e mover a Deepwater Horizon para outro local de perfuração. Tais considerações financeiras, acreditam muitos analistas, explicam a pressa com a qual a equipe de perfuração selou o furo – levando a uma fuga de gases explosivos dentro do poço e a explosão resultante. A BP agora terá de pagar algo para além de US$30 bilhões para atender as todas as reclamações pelo dano feito com a fuga maciça de petróleo resultante da desastre.

Seguindo-se ao referido desastre, a administração Obama impôs uma proibição temporária à perfuração no offshore profundo. Mal se passaram dois anos, a perfuração nas águas profundas do Golfo está outra vez em níveis de pré desastre. O presidente Obama também assinou um acordo com o México que permitia perfurar na parte mais profunda do Golfo, ao longo da fronteira marítima estadunidense-mexicana.

Enquanto isso, a perfuração em águas profundas está ganhando velocidade no mundo inteiro. O Brasil, por exemplo, movimenta-se para explorar seus campos “pré sal” (assim chamados porque jazem abaixo de uma camada de sal) nas águas do Oceano Atlântico muito longe da costa do Rio de Janeiro. Novos campos offshore estão analogamente a ser desenvolvidos nas águas profundas do Gana, Serra Leoa e Libéria.

Em 2020, diz o analista de energia John Westwood, estes campos de águas profundas fornecerão 10% do petróleo mundial, quando eram apenas 1% em 1995. Mas este acréscimo de produção não sairá barato: a maior parte destes novos campos custará dezenas ou centenas de bilhões de dólares para desenvolver e só se demonstrará lucrativo desde que o petróleo continue a ser vendido por US$90 ou mais por barril. 

Os campos offshore do Brasil, considerados por alguns peritos como as mais prometedoras novas descobertas deste século, demonstrar-se-ão especialmente caras porque jazem sob 2400 metros de água e 4000 metros de areia, rocha e sal. Serão necessários os mais avançados e custosos equipamentos de perfuração do mundo – alguns deles ainda a serem desenvolvidos. A Petrobrás, a empresa de energia controlada pelo estado, já comprometeu US$53 bilhões para o projeto em 2011-2015 e a maior parte do analistas acredita que isto será apenas um modesto pagamento inicial de um estarrecedor preço final.

Petróleo ártico

Espera-se que o Ártico proporcione uma fatia significativa da futura oferta mundial. Até recentemente, a produção no extremo Norte fora muito limitada. Exceto na área de Prudhoe Bay no Alasca e num certo número de campos na Sibéria, as grandes companhias tem geralmente evitado a região. Mas agora, ao verem poucas outras opções, elas estão se preparando para grandes investidas num Ártico em fusão.

De qualquer perspectiva, o Ártico é o último lugar para se querer ir a fim de perfurar por petróleo. As tempestades são frequentes e as temperaturas no Inverno mergulham muito abaixo do ponto de congelamento. A maior parte do equipamento comum não operará sob estas condições. São necessários substitutivos especializados (e custosos). As equipes de trabalho não podem viver na região por muito tempo. A maior parte dos abastecimentos – comida, combustível, materiais de construção – devem ser trazidos de milhares de quilômetros a um custo exorbitante.

Mas o Ártico tem os seus atrativos: bilhões de barris de petróleo inexplorado. Segundo o U.S. Geological Survey (USGS), a área Norte do Círculo Ártico, com apenas 6% da superfície do planeta, contém uma estimativa de 13% do seu petróleo remanescente (e ainda maior fatia do seu gás natural não desenvolvido) – números com que nenhuma outra região pode competir.

Sobrando poucos lugares para ir, as grandes empresas de energia agora estão a preparar-se para uma corrida a fim de explorar as riquezas do Ártico. Neste Verão, espera-se que a Royal Dutch Shell comece furos de teste em porções dos Mares Beauforte Chukchi, ao Norte do Alasca (a administração Obama se demorando na concessão das autorizações finais de operação para estas atividades, mas espera-se a aprovação). Ao mesmo tempo, a Statoil e outras firmas planeiam perfurar no Mar de Barents, ao Norte da Noruega.

Com estes cenários energéticos extremos, o aumento da produção no Ártico impulsionará significativamente os custos operacionais das companhias de petróleo. A Shell, por exemplo, já gastou US$4 bilhões só nos preparativos para furos de teste no offshore do Alasca, sem produzir um único barril de petróleo. O desenvolvimento em plena escala nesta região ecologicamente frágil, tenazmente contrariado por ambientalista e povos nativos locais, multiplicará este número muitas vezes mais.

Areias betuminosas e petróleo pesado

Espera-se que outra fatia significativa do futuro abastecimento mundial de petróleo venha das areias betuminosas do Canadá (também chamadas “areias petrolíferas”) e do petróleo super-pesado da Venezuela. Nada disto é petróleo tal como é normalmente entendido. Não sendo líquidos nos seu estado natural, eles não podem ser extraídos pelos materiais de furação tradicionais, mas existem em grande abundância. Segundo o USGS, as areias betuminosas do Canadá contêm o equivalente a 1,7 trilhões de barris de petróleo convencional (líquido), ao passo que os depósitos de petróleo pesado da Venezuela dizem abrigar outro trilhão de petróleo equivalente – embora nem tudo seja considerado “recuperável” com a tecnologia existente.

Aqueles que afirmam que a Era do Petróleo está longe de ultrapassada apontam estas reservas como prova de que o mundo ainda pode extrair imensas quantidades de combustíveis fósseis inexplorados. E certamente é concebível que, com a aplicação de tecnologias avançadas e uma indiferença total para com as consequências ambientais, estes recursos na verdade serão colhidos. Mas não é petróleo fácil.

Até agora, as areias betuminosas do Canadá foram obtidas através de um processo análogo à mineração a céu aberto, utilizando pás monstruosas para arrancar uma mistura de areia e betume do solo. Mas a maior parte do betume próximo à superfície nas areias betuminosas ricas da província de Alberta foi exaurida, o que significa que toda extração futura exigirá um processo muito mais complexo e custoso. Terá de ser injetado vapor nas concentrações mais profundas para fundir o betume e permitir a sua recuperação através de bombas maciças. Isto exige um investimento colossal em infraestrutura e energia, bem como a construção de instalações de tratamento para todos os resíduos tóxicos resultantes. Segundo o Canadian Energy Research Institute, o pleno desenvolvimento das areias petrolíferas de Alberta exigiria um investimento mínimo de US$218 bilhões ao longo dos próximos 25 anos, não incluindo o custo de construir oleodutos para os Estados Unidos (tal como o proposto Keystone XL) para processamento em refinarias estadunidenses.

O desenvolvimento do petróleo pesado da Venezuela exigirá investimento numa escala comparável. Acredita-se que o cinturão do Orenoco, uma concentração especialmente densa de petróleo pesado adjacente ao Rio Orenoco contenha reservas recuperáveis de 513 bilhões de barris de petróleo – talvez a maior fonte de petróleo inexplorado do planeta. Mas converter esta forma de betume semelhante a melaço num combustível líquido excede em muito a capacidade técnica ou os recursos financeiros da companhia estatal, Petróleos de Venezuela SA. Consequentemente, ela está agora à procura de parceiros estrangeiros dispostos a investir os US$10 a 20 bilhões necessários apenas para construir as instalações fundamentais.

Os custos ocultos

Reservas difíceis como esta proporcionarão a maior parte do novo petróleo do mundo nos próximos anos. Uma coisa é clara: mesmo se puderem substituir o petróleo fácil nas nossas vidas, o custo de tudo o que está relacionado com petróleo – seja a gasolina na bomba, produtos com base no petróleo, fertilizantes, tudo por toda a parte das nossas vidas – está em vias de encarecer. Habitue-se a isto. Se as coisas decorrerem como se planeja atualmente, estaremos pendurados no big oil nas próximas décadas.

E estes são apenas os custos mais óbvios numa situação em que abundam custos ocultos, especialmente para o ambiente. Tal como no desastre do Deepwater Horizon, a extração em áreas do offshore profundo e em outras localizações geográficas extremas garantirá riscos ambientais sempre maiores. Afinal de contas, aproximadamente 22 bilhões de litros de petróleo foram despejados no Golfo do México, graças à negligência da BP, provocando danos extensos a animais marinhos e ao habitat costeiro.

Recordar que, por mais catastrófico que fosse, ele ocorreu no Golfo do México, onde podiam ser mobilizadas forças amplas para a limpeza e a capacidade de recuperação do ecosistema era relativamente robusta. O Ártico e a Groenlândia representam um risco diferente, dado a sua distância das capacidades de recuperação estabelecidas e a extrema vulnerabilidade dos seus ecossistemas. Os esforços para restaurar tais áreas na sequência de fugas de petróleo maciças custariam muitas vezes os US$30 a 40 bilhões que a BP pretende pagar pelo danos do Deepwater Horizon e serão muito menos eficazes.

Além de tudo isto, muitos dos campos de petróleo difícil mais prometedores estão na Rússia, na bacia do Mar Cáspio, e em áreas conflituosas da África. Para operar nestas áreas, companhias de petróleo serão confrontadas não só com os custos previsivelmente altos da extração como também com custos adicionais envolvendo sistemas locais de suborno e extorsão, sabotagem por grupos de guerrilha e as consequências de conflitos civis.

E não esquecer o custo final: Se todos estes barris de petróleo e substâncias afins do petróleo forem realmente produzidos a partir dos menos convidativos lugares neste planeta, então nas próximas décadas continuaremos a queimar combustíveis fósseis maciçamente, criando sempre mais gases com efeito estufa [1] como se não houvesse amanhã. E aqui está a triste verdade: se prosseguirmos no caminho do petróleo difícil ao invés de investirmos maciçamente em energias alternativas, podemos excluir qualquer esperança de impedir as mais catastróficas consequências de um planeta mais quente e mais turbulento.

De modo que, sim, há petróleo não convencional. Mas não, ele não será mais barato, não importa quanto haja. E, sim, as companhias de petróleo podem obtê-lo, mas olhando realistamente quem o desejaria?


Nota dos tradutores
[1] Um falso problema. A situação energética mundial já é suficientemente má por si mesma, dispensando invencionices adicionais como o do mítico aquecimento global. Ver “Acerca da impostura global.

Notas dos Editores
[*] Autor de The Race for What's Left: The Global Scramble for the World's Last Resources” (Metropolitan Books).

O artigo original, em inglês, pode ser lido em: “A Tough-Oil World” 
Esta tradução foi extraída de: Resistir



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quinta-feira, 29 de julho de 2010

BP – Uma bomba relógio no sistema financeiro internacional

BP – Uma bomba relógio no sistema financeiro internacional

Michael R. Kratke*
29.Jul.10 :: Outros autores
Michael R. Kratke

Segundo Michael R. Kratke, Professor de Economia Política e Director do Instituto de Estudos Superiores da Universidade de Lancaster no Reino Unido, a BP é uma bomba de relógio no sistema financeiro mundial. A empresa refinancia-se com derivados creditícios e fundos de pensões que agora, e para infelicidade dos seus clientes, têm grandes perdas. Dois elementos tão centrais como obsoletos do actual capitalismo – uma economia baseada na emergia fóssil e na especulação financeira à escala planetária – levam-nos directamente à próxima catástrofe.


O que começou como uma crise financeira em Setembro de 2008, com a irrevogável falência do banco Lehman-Brothers, pode agora entrar na próxima ronda com a previsível queda da BP. A transnacional britânica é uma bomba financeira de relógio, não só para a Grã-Bretanha mas para todo o Reino Unido. Os custos do desastre petrolífero no Golfo do México estimam-se em 70 mil milhões de dólares.

Para os britânicos, a BP é como instituição nacional, a maior sociedade anónima do país, a blue chip mais brilhante do mercado de valores londrino. Muitas pessoas julgam que a BP é uma empresa petrolífera. E é verdade. A BP fornece petróleo, tem oleodutos e refinarias um pouco espalhados por todo o mundo. Mas a BP é, simultaneamente, um banco com um raio de acção internacional que, tal como a Enron ou a General Motors, actua nos mercados financeiros internacionais.

De AA a BBB

Como, oficialmente, não é uma entidade financeira, a British Petroleum esta a meio caminho de ser um negócio OTC ou fora do mercado organizado de valores, isto é, que actua fora das bolsas, num negócio sem regulação nem controlo. O refinanciamento é através da titularização de derivados creditícios de alto risco, CSOs [obrigações colaterais sintéticas, na sua sigla inglesa], a que não corresponde qualquer valor patrimonial, mas apenas derivados creditícios. São um próspero comércio esses derivados financeiros. A BP é detentora ou tem participações em pelo menos 18% dos papéis deste tipo que circulam por todo o mundo. Recordamos que a crise financeira mundial foi desencadeada pela queda em cadeia de derivados titularizados: as CDOs [obrigações de dívida colateral, na sua sigla inglesa] e os CDS [derivados creditícios de dívida, na sua sigla inglesa]. Agora, os riscos nas CSOs são muito maiores e o alavancamento creditício de maior envergadura e as regulações são desconhecidas.

Por outras palavras: Quando a BP quebrar, a sua falência terá consequências globais. Como supostamente sucedeu no caso Lehman-Brothers, ninguém sabe até que ponto a BP está endividada, nem quem nem em que jogos de azar estão envolvidos os créditos da BP. Mas, como a transnacional é considerada a pérola da coroa da indústria financeira britânica, com fundamento se pode suspeitar que estão aqui metidos todos os que gozam de reputação e hierarquia no mundo financeiro internacional. Não há dúvidas: a próxima bolha está prestes a rebentar. É só uma questão de tempo. Mais provável dentro de semanas que de meses.

O valor patrimonial das instalações da British Petroleum atinge agora o montante de 240 mil milhões de dólares. Muitos dos seus campos petrolíferos e participações estão à venda por todo o mundo. Desde finais de Abril, perdeu metade do seu valor em bolsa. Deverá entrar um investidor estratégico, provavelmente um fundo estratégico árabe. Os líbios querem ser uma opção mas ninguém se abalança a tamanho risco. E os meros boatos de uma entrada de mil milionários árabes não convencem as agências de qualificação do risco.

A Fitch, a mais pequena das três grandes, baixou drasticamente no passado dia 15 de Junho a qualificação do gigante petrolífero, pela segunda vez em duas semanas: e desta vez nada menos do que seis escalões de uma vezada, de AA para BBB. Se as duas grandes – a Moody’s e a Standard & Poor’s – a seguirem, os empréstimos da BP baixarão à categoria de lixo, como os títulos da dívida pública grega. De qualquer modo, grandes investidores destas agências, como Warren Buffet, colocaram milhares de milhões em acções e obrigações da BP, o que explica a moderação da Moody’s e da Standard & Poor’s.

Nada de OPAs hostis

Entretanto, a BP teve que ceder à pressão do governo dos EUA e sujeitar-se a um fundo de garantias num montante de 20 mil milhões de dólares. Pelo menos até ao próximo ano a BP não poderá continuar a pagar dividendos, terá que seguir uma política de poupança férrea e eliminar milhares de postos de trabalho, os primeiros 5.000 já em 2010. Há fortes indícios que levam à suspeita que a explosão do passado dia 20 de Abril no Golfo do México assenta numa implacável política de redução de custos. A segurança e o cuidado, como é sobejamente sabido, custam tempo e dinheiro. Quem louva o capitalismo pela sua eficiência não sabe do que fala. Ou se sabe, dá a entender aquilo em que não acredita.

A questão é que Londres prepara-se para o pior. Debaixo de um clamoroso silêncio acompanhado de rotundos desmentidos, trabalha-se em planos de emergência. A queda descontrolada ou uma tomada de controlo da BP seria uma catástrofe para os britânicos. As acções da BP têm fama em todo o mundo de investimentos seguros e lucrativos. A BP pagava regularmente, trimestre a trimestre, chorudos dividendos.

Os fundos de pensões, os maiores investidores institucionais nos mercados financeiros internacionais, compravam e mantinha enormes quantidades de acções da BP. E no sistema britânico de reformas os fundos de pensões jogam um papel chave. Só que, precisamente os rendimentos de reforma cobertas por capital são tudo menos seguros. Quando rebentou a bolha imobiliária estadunidense em 2008, muitos fundos de pensões resultaram em prejuízos dos depositantes e pensionistas. Para os fundos de investimento britânicos que há alguns anos investiam em acções da BP, a catástrofe petrolífera é ao mesmo tempo um desastre financeiro. Cerca de um sexto de todos os dividendos que se pagam no Reino Unido vêm da BP! Assim, os fundos perderam de três formas: patrimonialmente pela queda livre das acções da BP, pelos dividendos evaporados, e pela diminuída capacidade de crédito.

Os fundos de pensões perderam já muito dinheiro com as acções dos bancos e, agora, cai-lhes em cima a situação da BP. Se se calcularem as possíveis perdas tendo por base uma pensão média entre 12 mil e 13 mil libras esterlinas anuais, falamos de 800 a 1.000 libras esterlinas por ano. Daí, o governo do primeiro-ministro Cameron não ter escolha. Se a BP ajoelha, terá que intervir com um novo pacote milionário de resgate. Se foi necessário para os grandes bancos, não será menos necessário para a BP. Isso significa mais dívida pública e ainda mais desproporcionados pacotes de poupança.

A BP não pode desaparecer, pois ela é, de longe, um dos maiores contribuintes fiscais da Ilha e controla uma boa parte das infra-estruturas vitais do reino insular, como a Forties Pipeline System que liga mais de 50 campos petrolíferos no Mar do Norte, ou o oleoduto Baku-Tiblisi-Ceihan, que possibilita o trânsito de petróleo do Cáucaso para a Europa ocidental. Por isso, David Cameron anuncia que o seu governo fará tudo o que estiver ao seu alcance para impedir o controlo da BP por empresas petrolíferas chinesas, árabes ou russas. Se a BP cai nas mãos das gigantes norte-americanas, acabaram-se as considerações para com os fundos de pensões ou para quaisquer outras necessidades britânicas. Dentro de poucos dias a BP tem que liquidar os pagamentos que se vencem no segundo trimestre de 2010. O seu montante é enorme.

Este caso ilustra com clareza como dois elementos tão centrais como obsoletos do capitalismo – uma economia baseada na energia fóssil e na especulação financeira planetária – nos aproximam do abismo da próxima catástrofe.


* Michael R. Krätke é Professor de Economia Política e Director do Instituto de Estudos Superiores da Universidade de Lancaster no Reino Unido.

Este texto foi publicado dia 26 de Julho de 2010 em www.sinpermiso.info

Tradução de José Paulo Gascão

extraído d'ODiario.info

segunda-feira, 19 de julho de 2010

As continuas mentiras da BP (British Petroleum)


É uma história infinita.
Tristemente infinita.

Afinal o poço não está fechado. E se estiver, então algo não bate certo.
Petrolio, da jornalista Debora Billi, anuncia a existência duma nova fuga de "ouro negro", sempre no Golfo do México, sempre do mesmo poço...

Vamos ler:

Há semanas, se não desde o começo da história, suspeita-se que as coisas não estejam bem como foram contadas. Agora, torna-se cada vez mais difícil esconder a verdade por trás duma tampa [a tampa posicionada pela BP em cima do poço, NDT]. Ainda não sabemos se a nova falha de seja apenas uma fuga da nova tampa ou se for um temido vazamento do fundo do mar: o facto é que temos as provas de que Matthew Simmons [ver nota abaixo, NDT] não sucumbiu ao Alzheimer, como alegado pelos seus detractores, como também desta vez viu muito bem. Neste ponto, não faltará muito para a BP admitir a perda.

Também porque o bluff da BP foi "desvendado" pelo Almirante Allen em pessoa (o chefe das operações no Golfo), através desta carta na qual pergunta acerca da existência dum buraco longe do poço. A carta foi uma bomba, o que obrigou a empresa, depois de algumas horas, a confessar a existência da perda, embora com informações ainda confusas. Na verdade, presume-se que o governo tenha sido plenamente ciente do segundo vazamento, mas por motivos que podemos imaginar preferiu partilhar o silêncio da BP. Mas agora a empresa tem exagerado: a comunicação urbi et orbi com a qual anunciava a selagem do poço foi bem sucedida na intenção de fazer subir o valor das ações.

É claro que o governo dos EUA, que até agora apresentou um certo grau de cumplicidade com a empresa (para Obama esta catástrofe representou uma enorme perda de apoio popular) não pode continuar a ficar parado enquanto a BP destruir o Golfo do México na tentativa de salvar o poço. Porque vamos ser claros: é isso que estão a fazer. Macondo está agora reduzido a um coador e a única maneira de parar a catástrofe é fechar o poço para sempre com uma boa injecção de cimento. Mas isso significa dizer adeus a uma exploração que tem custado um rio de dinheiro e que prometia muito bem. Isso também significa abdicar e enviar ao público a mensagem de que o petróleo em águas profundas é perigoso e que não estamos tecnologicamente capazes de geri-lo.

A BP tenta ganhar tempo já há meses. Mesmo muito antes do famoso 20 de Abril, data em que a notícia espalhou-se no mundo inteiro, e isso é demonstrado os negócios técnicos e financeiros que têm despertado muitas suspeitas e que ocorreram nas semanas anteriores. Continua a ganhar tempo ao pôr e ao tirar o cap, perfurando e enviando anúncios triunfantes de fechos nunca acontecidos para influenciar Wall Street. Ganha tempo e não se preocupa com a única coisa que daria jeito: parar a maldita fuga de petróleo.mas a perda mínima.

Esclarecimento: Matthew Simmons tem causado surpresa ao declarar recentemente que há um outro grande vazamento no Golfo do México, que sopra enormes quantidades de petróleo no Golfo do México. Esta nova fuga estaria localizada a 7 milhas de distância do poço Macondo.
No programa Fast Money da CNBC, acrescentou que ficaria surpreso se a BP sobrevivesse a este verão, pois o desastre é inteiramente culpa da companhia.

Quanto à carta do Almirante Allen, nela o responsável das operações afirma o seguinte:
"Peço um procedimento escrito para abrir a válvula, logo que possível, se a perda de hidrocarbonetos viesse a ser confirmada"
e fala de "anomalias inexplicáveis na boca do poço".
Mas já ontem tinha exprimido algumas perplexidades:
"Temos de entender porque os valores de pressão são mais baixos do que o esperado tinha dito o almirante numa conferência de imprensa na qual sugeriu também duas hipóteses: ou o poço está a esvaziar-se, como alegado pela BP (!!!), ou não há uma perda ainda não identificada."

Segundo as últimas notícias, a BP admite a existência duma nova fuga mas, avança com a ideia de que não esteja relacionada com o "próprio" poço (!!!!!).

Fonte: Petrolio

sábado, 10 de julho de 2010

Catástrofe do Golfo: BP restringe o acesso dos media

por Dahr Jamail

Petróleo  no Golfo do México. NOVA ORLEANS, (IPS) – Na semana passada, a Guarda Costeira dos EUA, que está a agir em coordenação com a gigantesca empresa petrolífera BP, impôs novas restrições em toda a Costa do Golfo americano que impedem os media de se aproximarem a menos de 20 metros das barreiras de contenção (booms) ou dos barcos de limpeza, tanto na costa como no mar. Mas a astúcia destas restrições vai ainda mais longe.

“Não pode vir cá", disse Don, o guarda de segurança contratado pela BP no Centro para a Reabilitação da Fauna Contaminada pelo Petróleo, em Fort Jackson, Louisiana.

Lá dentro, o Centro Internacional para Investigação e Salvamento de Aves, uma das companhias contratadas pela BP para limpeza dos animais, encarrega-se de limpar o petróleo das aves antes de as devolver ao seu habitat natural. O Centro tem limitado o acesso aos media. Antes estava aberto às segundas, quartas e sextas durante duas horas por dia. A IPS chegou ao Centro numa quarta-feira, e foi informada que os dias para os media tinham sido reduzidos de três para dois dias, e já não abria às quartas-feiras.

Quando a IPS perguntou ao guarda de segurança privada para quem é que trabalhava, ele respondeu, “Trabalho para a HUB, uma companhia de segurança contratada pela BP”. A Hub Enterprises, de Broussard, Louisiana, tem um contrato com a BP para fornecer “funcionários de segurança” e “supervisores”. Don está a receber entre 13 a 14 dólares por hora para manter a imprensa afastada do maior desastre ambiental provocado por uma fuga de petróleo de toda a história dos EUA. Continuam a jorrar mais de 60 mil barris de petróleo por dia no Golfo, mais de dois meses depois da explosão de 20 de Abril na plataforma Deepwater Horizon operada pela BP.

MULTAS ATÉ 40 MIL DÓLARES

As restrições da semana passada que a Guarda Costeira impôs aos meios de comunicação sujeitam os jornalistas e os fotógrafos a uma multa até 40 mil dólares, e à pena de cadeia de um a cinco anos como um crime de classe D, se violarem a regra dos 20 metros, que o Comando Unificado designa por “zona de segurança”.

Tem havido muitos indícios de um amordaçamento maior e mais profundo dos meios de comunicação na região, de muitas outras formas. Na semana passada, a IPS tinha uma entrevista agendada com o Centro de Ciências da Saúde da Universidade Estadual da Louisiana, em Nova Orleans. A entrevista devia ser com um especialista das estratégias de investigação da Universidade, sobre o possível impacto na região do desastre petrolífero da BP. Na manhã em que se devia realizar a entrevista, o entrevistado, que pretende manter-se anónimo, enviou um email à IPS declarando: “Disseram-me para cancelar a entrevista. Lamento quaisquer inconvenientes que vos possa ter causado”. Quando a IPS lhe perguntou se havia alguma razão especial para o cancelamento da entrevista, respondeu, “Não”. Uma fonte anónima revelou posteriormente à IPS que a decisão de cancelar a entrevista fora tomada pelo chanceler Larry Hollier, que chefia o Centro de Ciências da Saúde da Universidade.

A BP disponibiliza a maior parte do financiamento para estudar os efeitos do desastre petrolífero e prometeu 500 milhões de dólares para projectos de investigação e de reabilitação. Robert Gagosian é o presidente do Consórcio para a Direcção Oceânica, que representa instituições de investigação oceânica e aquários e administra um programa de investigação sobre perfuração marítima. Geoquímico marítimo, Gagosian está preocupado com a forma como vai ser utilizado o dinheiro, e espera que seja gerido através de doações aprovadas pelos pares. A sua preocupação, partilhada por outros cientistas e investigadores, tem origem no interesse da BP em preservar o seu negócio. Também têm dúvidas quanto aos critérios adequados para determinar que tipo de investigações é que devem ser feitas.

Jeff Short, um antigo cientista da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, que é actualmente membro do grupo de preservação Oceana, disse que, ao aceitar que a BP pague a investigação, o governo abre mão do controlo sobre que tipo de estudos devem vir a ser feitos. “Pergunto a mim próprio porque é que a BP quer dar dinheiro para projectos que demonstrarão claramente um prejuízo ambiental muito maior do que se viria a saber, se não fossem esses estudos?”, disse.

Os primeiros 25 milhões de dólares dos fundos da BP foram rapidamente distribuídos pela Universidade Estatal da Louisiana, pelo Instituto de Oceanografia da Florida na Universidade da Florida Sul e por um consórcio chefiado pela Universidade Estatal do Mississípi. Muitos cientistas e jornalistas independentes receiam que isto faça parte de uma tentativa para influenciar quais os estudos a fazer e a disponibilidade dessas instituições públicas para falar com os meios de comunicação sobre o desastre da BP.

Num outro incidente, a 2 de Julho, Lance Rosenfield, um repórter fotográfico da publicação de investigação sem fins lucrativos ProPublica, foi detido por breves instantes pela polícia quando tirava fotografias perto da refinaria da BP na cidade do Texas. Rosenfield declarou que foi confrontado por um funcionário da segurança da BP, pela polícia local, e por um homem que se identificou como agente do Departamento da Segurança Nacional. Rosenfield foi libertado depois de a polícia ter analisado as fotografias e registado a data do seu nascimento, o número da segurança social e outras informações pessoais. Depois o agente da polícia entregou essas informações ao guarda da segurança da BP, alegando, segundo disse Rosenfield, “procedimento normal de funcionamento”.

Também foram instituídas restrições no espaço aéreo sobre as zonas onde estão a decorrer operações de limpeza e de contenção. A Administração da Aviação Federal proibiu voos dos meios de comunicação a menos de 900 metros sobre as áreas afectadas pelos lençóis do petróleo.

07/Julho/2010
O original encontra-se em: No Free Press for BP Oil Disaster
Tradução de Margarida Ferreira.

Este artigo foi copiado de Resistir Info.

terça-feira, 6 de julho de 2010

BP procura parceria estratégica no Oriente Médio para sobreviver

Meio ambiente não irá superar tão depressa a catástrofe da Deepwater Horizon
Meio ambiente não irá superar tão depressa a catástrofe da Deepwater Horizon

Em meio a prejuízos bilionários pela catástrofe no Golfo do México, petroleira britânica busca aliados na Ásia e Oriente Médio como meio de evitar incorporação. Posição da BP em mercados ocidentais está comprometida.

O petróleo continua jorrando nas profundezas do Golfo do México, até agora apenas uma pequena parte do vazamento pôde ser contida. Os dois meses e meio desde o naufrágio da plataforma de perfuração Deepwater Horizon são os mais caros na história do antes soberbo conglomerado BP. Mas é possível que os tempos realmente duros ainda estejam por vir.

Pelo menos é o que faz crer o noticiário britânico, segundo o qual Londres estaria desenvolvendo planos de emergência para o caso de a empresa não sobreviver à crise, sobrecarregada com os custos bilionários do acidente. Fontes locais afirmam que o governo está se preparando "para todas as eventualidades". Afinal, um colapso da BP afeta diretamente interesses britânicos, já que ela detém a maior parte da infraestrutura energética do país

"Para além do petróleo"

Duas letras que ainda valem bilhões
Duas letras que ainda valem bilhões

Antes da explosão na costa dos Estados Unidos, "BP" era uma das marcas mais valiosas do planeta. Trata-se originalmente da abreviatura de British Petroleum, a maior empresa do Reino Unido. Porém, após a incorporação pela concorrente norte-americana Amoco, o nome caiu no desagrado dos estrategistas de marketing.

Assim, de uma hora para a outra, "BP" passou a significar "Beyond Petroleum" – "para além do petróleo" –, preparando a era posterior à do combustível fóssil. E a terceira maior entre as multinacionais petroleiras emprega 80 mil funcionários, faturando 239 bilhões de dólares em 2009, dos quais 14 bilhões foram computados como lucro.

Isso parece muito, mas, até agora, o vazamento no Golfo do México já custou mais de 3 bilhões de dólares, e analistas calculam o custo final em 64 bilhões de dólares. Tais projeções se baseiam, entretanto, na tese de que o grande buraco por onde vaza petróleo seja fechado até agosto. Quanto aos danos à imagem pública da BP, é provavelmente impossível expressá-los em números.

Contornando o naufrágio

Nesse ínterim, o valor de mercado da empresa reduziu-se à metade. Suas ações ainda custam respeitáveis 340 pence, porém é a cotação mais baixa em 13 anos. Isso, naturalmente, atrai a concorrência, que fareja a chance de expulsar uma rival do mercado, e incorporá-la a preço relativamente módico.

Não precisa ser todo conglomerado – pois, afinal de contas, ninguém sabe quanto a onda de óleo acabará custando, e qual o risco envolvido na transação. Porém conglomerados como a Exxon Mobile, dos EUA, ou a francesa Total já sinalizaram interesse em setores isolados. No momento, o valor da Total na bolsa é superior ao da BP.

No final de junho, a companhia britânica tomou emprestados 20 bilhões de dólares em espécie e em créditos, a fim de retomar o fôlego. Além disso, em sua central em Londres está sendo estudada a venda de participações e de segmentos de negócios, como meios de angariar 10 bilhões de dólares.

Greenpeace em Londres: 'BP = poluidores britânicos'
Greenpeace em Londres: 'BP = poluidores britânicos'

Poucas opções

Por último, a gerência da BP descobriu mais uma fonte de capital: fundos estatais na Ásia e no Oriente Médio. Antes, a empresa já vinha sondando as possibilidades e se associara a grandes conglomerados como o banco estadunidense Citigroup ou a montadora alemã Daimler.

Agora, segundo noticia a agência Reuters, citando uma fonte dos Emirados Árabes Unidos, a BP está à cata de um parceiro estratégico para evitar a incorporação por outros grandes conglomerados petrolíferos. De acordo com a agência Dow Jones, até mesmo a Líbia mostrou interesse nas ações da BP.

No entanto, analistas veem aí problemas. O banco Société Générale aponta que a entrada de um grande investidor do Oriente Médio, China ou mesmo da Líbia poderia comprometer a posição da BP em outras regiões, como nos Estados Unidos. Por outro lado, essa posição já está mais do que debilitada desde o desastre da Deepwater Horizon. Assim, a BP não tem, na realidade, muita opção.

Autoria: Henrik Böhme (AV)
Revisão: Roselaine Wandscheer

http://www.dw-world.de/dw/article/0,,5766325,00.html

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terça-feira, 29 de junho de 2010

Fuga de petróleo no Golfo do México poderia provocar uma "zona morta", com extinção da vida marinha

por Sheila McNulty

Pantano oleoso na Luisiana. Clique para ampliar. Altas concentrações de metano – em alguns casos quase um milhão de vezes maior do que o nível normal – foram descobertas em torno da fuga de petróleo da BP, aumentando temores de que possa criar uma "zona morta" com oxigénio esgotado onde a vida marinha não possa sobreviver.

Zona mortas são áreas da água onde florescem algas pois elas alimentam-se de nutrientes em altas concentrações de matérias estranhas, tais como o metano, neste caso, ou mais tipicamente os componentes de fertilizantes agrícolas escorridos para dentro da água. As algae gorge reproduzem-se rapidamente e então, por sua vez, são comidas por bactérias num processo que esgota de oxigénio a área imediata. Os peixes e outros seres vivos marinhos não podem sobreviver nestas zonas, o que leva os cientistas a considerá-las "mortas".

Que a fuga possa causar uma zona morta no Golfo seria mais um dado negativo para o ambiente, já a sofrer da destruição de viveiros marinhos e terrenos de nidificação de pássaros nos pântanos e de projecções de impactos negativos sobre a vida marinha ao logo da Costa do Golfo. A reacção em cadeia seria um bolsão no Golfo, onde pescadores deixariam de encontrar peixe ou outras criaturas do mar para capturar.

O sítio onde foram descobertas grandes concentrações de metano está num raio de seis milhas 6 [9,6 km] em torno da fuga, de onde John Kessler, professor assistente do Departamento de Oceanografia da Universidade Texas A&M, retornou após uma viagem de investigação de 10 dias.

Numa viagem anterior à mesma área, no ano passado, ele pode identificar a elevação do metano após o acidente com o Deepwater Horizon. O metano é o componente principal do gás natural, assim como o etano e o propano, e ele representa 40 por cento do peso do material que emana da fuga do poço da BP.

No ano passado as concentrações destes gases estavam em níveis normais, de uma a duas partes por milhão. Este ano, a concentração de metano dissolvido na água do mar é 100 mil vezes maior e, em alguns lugares, a aproximar-se de 1 milhão de vezes mais, afirmou ele.

Se bem que o metano possa ser tóxico para vários organismos marinhos, um dos focos da investigação de Kessler é verificar que a alta concentração de metano poderia conduzir a um furor alimentar por parte das micro-organizações marinhas que se alimentam deste hidrocarboneto, esgotando o oxigénio na área e criando uma zona morta.

"Há algumas baixas no oxigénio", disse Kessler. "Ela é significativa, nós percebemos. Ela está ali".

Mas se isto aumentará o suficiente para provocar uma zona morta ainda está para ser visto, disse ele, com factores significativos sendo quão altas as concentrações de metano permanecerão e quanto tempo permanecerão nestes níveis elevados.

Com a BP a sugar para a superfície quantidades crescentes de hidrocarbonetos, há esperanças de que a quantidade que está a jorrar no Golfo esteja num declínio. Dito isto, espera-se que a fuga continue até que a companhia britânica possa completar pelo menos um dos dois furos de alívio que está a perfurar para interceptar o furo com a fuga e tapá-lo. A BP espera que isto possa ser no fim de Julho ou Agosto.

A National Oceanic and Atmospheric Administration, a US Environmental Protection Agency e o Office of Science and Technology Policy da Casa Branca disseram no seu primeiro relatório sumário analítico, revisto por pares, acerca do monitoramento submarino, que "os níveis de oxigénio dissolvido permaneciam acima dos níveis de preocupação imediata". Mas acrescentava: "Há necessidade de monitorar os níveis de oxigénio dissolvido ao longo do tempo".

O Golfo do México já tem uma das maiores zonas mortas do mundo – cerca de 17 mil quilómetros quadrados, a dimensão do Lago Ontario – nos últimos cinco anos, segundo o Louisiana Universities Marine Consortium.

Mas os investigadores não sabem se o sítio da fuga – a mais de 100 milhas [161 km] da costa – conectar-se-á com aquela que têm estado a observar ao longo de anos. Aquela zona morta bem estudada está próxima à costa, em águas rasas, na zona de drenagem do Rio Mississippi, o qual super-enriquece as águas com nutrientes que levam a uma abundância de algas que consome todo o oxigénio da água de modo que esta deixa de suportar vinha marinha.

29/Junho/2010

O original encontra-se em: Oil spill in Gulf could cause ‘dead zone’, further hitting sea life


Este artigo foi expropriado de: Resistir Info.

"British Petroleum" no Golfo, O Golfo Pérsico

Como a (mesma) BP também envenenou a democracia no Irã

29/6/2010, Stephen Kinzer, Tom Dispatch – Traduzido por Caia Fittipaldi

Americanos frustrados que começaram agora a boicotar a British Petroleum: Bem-vindos ao clube. É ótimo deixar de ser boicotador solitário!

O boicote tem realmente alguma serventia? Provavelmente, não. Afinal, muitos dos postos de gasolina da BP são propriedade de terceiros, não da própria corporação. Além do que, ao abastecer o carro num posto da Shell ou da ExxonMobil, ninguém, de fato, experimenta alguma sensação moral de triunfo. Mesmo assim, faço questão de jamais abastecer em postos da BP, e, isso, desde muito antes do vazamento no Golfo do México.

Minha decisão de não entregar meu dinheiro àquela empresa foi tomada quando eu soube do papel que tivera em outro tipo de “envenenamento”, de tipo completamente diferente – a destruição da democracia iraniana, há mais de meio século.

A história da empresa que hoje conhecemos como British Petroleum acompanha, ao longo dos últimos cem anos, o arco do capitalismo transnacional. Começa nos primeiros anos do século 20, quando um aventureiro rico e bon vivant chamado William Knox D'Arcy decidiu, encorajado pelo governo britânico, começar a procurar petróleo no Irã. Conseguiu um acordo de concessão, dado a ele pela dissoluta monarquia iraniana, usando o sempre eficaz expediente de subornar os três funcionários iranianos com os quais negociava.

Sob a garantia desse contrato, que ele mesmo redigiu, D'Arcy tornar-se-ia proprietário de todo o petróleo que encontrasse no Irã, mediante pagamento ao governo de apenas 16% dos lucros – e sem jamais permitir que os iranianos examinassem sua contabilidade. Depois do primeiro poço do qual o petróleo jorrou, em 1908, tornou-se único proprietário do oceano de petróleo sob o qual navega o território iraniano. Ninguém mais podia pesquisar, perfurar, refinar, extrair ou vender o petróleo “iraniano”.

“Quis a fortuna premiar-nos com riquezas além de nossa mais feérica imaginação”, escreveu Winston Churchill, que mais tarde seria o First Lord do Almirantado em 1911. “O controle, premiando a audácia.”

Pouco depois, o governo britânico comprou a concessão de D'Arcy, criando uma empresa chamada Anglo-Persian Oil Company. Essa empresa construiu a maior refinaria do mundo no porto de Abadan no Golfo Persa. Entre os anos 1920s e 1940s, o alto padrão de vida dos britânicos foi sustentado pelo petróleo do Irã. Carros, caminhões e ônibus eram abastecidos por petróleo (iraniano) barato. Fábricas em toda a Grã-Bretanha eram movidas a petróleo (iraniano). A Marinha Britânica, que levou o poder britânico a todos os cantos do mundo, abastecia seus navios com petróleo iraniano.

Depois da II Guerra Mundial, os ventos do nacionalismo e do anticolonialismo sopraram por todo o mundo em desenvolvimento. Arrastado por essas paixões, o Parlamento iraniano, dia 28/4/1951, elegeu, para o posto de primeiro-ministro, seu mais apaixonado campeão e empenhado defensor da nacionalização do petróleo, Mohammad Mossadegh. Dias depois, em sessão histórica, o mesmo Parlamento aprovou, por unanimidade, a lei que nacionalizou a Anglo-Persian Oil Company. Mossadegh prometeu que, daquele dia em diante, os lucros auferidos do petróleo seriam usados para desenvolver o Irã, não para enriquecer a Grã-Bretanha.

Aquela empresa de petróleo era a mais lucrativa empresa britânica do planeta. Para os britânicos, a nacionalização soou, no primeiro momento, como uma espécie de gigantesca piada, tão absurdamente contrária às regras não escritas que regiam o universo, que, simplesmente, não podia ser verdade. No primeiro momento, os diretores da Anglo-Iranian Oil Company e seus parceiros no governo britânico decidiram a estratégia: nenhum mediador, nenhuma concessão, não aceitar a nacionalização, como se não tivesse acontecido.

Os britânicos tomaram vários passos com vistas a obrigar Mossadegh a desviar-se de sua trilha nacionalista. Retiraram todos os técnicos da refinaria de Abadan, bloquearam o porto, cortaram todas as exportações para o Irã, de artigos essenciais à sobrevivência e tentaram arrancar resoluções anti-Irã na ONU e no Tribunal Internacional. A violência da campanha só conseguiu intensificar a determinação da resistência iraniana. Por fim, os britânicos recorreram diretamente a Washington e pediram um favor: que os norte-americanos derrubassem o governo daquele maluco, para que os britânicos pudessem recuperar sua empresa de petróleo.

O presidente Dwight D. Eisenhower dos EUA, encorajado pelo secretário de Estado John Foster Dulles, representante vitalício do poder das corporações transnacionais, acolheu o pedido dos britânicos e mandou a CIA ao Irã, para depor Mossadegh. A operação durou menos de um mês, no verão de 1953. Foi a primeira vez que a CIA derrubou governo eleito, no mundo.

À primeira vista, pareceu ter sido operação excepcionalmente bem-sucedida: o Ocidente depusera líder político que não lhe interessava manter, e o substituíra por um perfeito governo fantoche – Mohammad Reza Shah Pahlavi. A empresa inglesa de petróleo voltou a reinar soberana.

Considerada porém de uma perspectiva histórica, é visível, hoje, que a Operação Ajax, como foi chamada, teve efeitos devastadores. Derrubou o governo de Mossadegh, sentou o Xá no “Trono do Pavão” e, também, matou a democracia que começava a brotar, no Irã. Depois, foram os desmandos do Xá e a repressão brutal a qualquer oposição, que levaram à eclosão, no final dos anos 1970s, da revolução que entronizou no poder o Aiatolá Khomeini – e seu regime amargamente anti-ocidente que lá está, até hoje.

A empresa de petróleo foi rebatizada “British Petroleum”, depois “BP Amoco” e afinal, em 2000, “BP”. Durante décadas, no Irã, tem operado como bem entende, praticamente sem qualquer atenção às condições da população local. Essa é a única tradição corporativa da BP que jamais foi alterada, ou fraquejou.

Hoje, os norte-americanos supreendem-se com as imagens assustadoras do petróleo que não para de vazar do poço Horizonte de Águas Profundas, nas águas do Golfo do México. Os que conhecem a ação da mesma empresa no Irã e conhecem a história iraniana surpreenderam-se menos.

O artigo original, em inglês, pode ser lido em: BP in the Gulf -- The Persian Gulf