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quarta-feira, 14 de março de 2012

Um mundo de petróleo cada vez mais difícil



Michael T. Klare
Os preços do petróleo agora estão mais altos do que jamais estiveram – exceto em uns poucos momentos frenéticos antes do colapso econômico global de 2008. Muitos fatores imediatos estão contribuindo para esta alta, inclua-se ameaças do Irã de bloquear o trânsito de petróleo no Golfo Pérsico (Estreito de Ormuz), temores de uma nova guerra no Oriente Médio e perturbações na Nigéria, rica em petróleo.

Algumas destas pressões podem diminuir nos meses pela frente, proporcionando alívio temporário no preço da gasolina. Mas a causa principal dos preços mais elevados – uma mudança fundamental na estrutura da indústria petrolífera – não pode ser revertida e, assim, os preços do petróleo estão destinados a permaneceram altos por mais um longo tempo.

Em termos de energia, estamos agora entrando num mundo cuja natureza implacável ainda tem de ser plenamente apreendida. Esta mutação essencial foi provocada pelo desaparecimento do petróleo relativamente acessível e barato – o “petróleo fácil”, na linguagem dos analistas da indústria. Em outras palavras, a espécie de petróleo que impulsionou uma expansão vertiginosa da riqueza global ao longo dos últimos 65 anos, bem como a criação de infindáveis comunidades suburbanas orientadas para o carro. Este petróleo está agora quase acabado.

O mundo ainda dispõe de grandes reservas de petróleo, mas estas são difíceis de alcançar, difíceis de refinar, a variedade “petróleo árduo”. A partir de agora, todo barril que consumirmos será mais custoso para extrair, mais custoso para refinar – e, assim, mais caro na bomba de gasolina.

Aqueles que afirmam que o mundo permanece “inundado” de petróleo estão tecnicamente corretos: o planeta ainda dispõe de vastas reservas. Mas os propagandistas da indústria petrolífera geralmente deixam de enfatizar que nem todos os reservatórios de petróleo são semelhantes: alguns estão localizados próximos à superfície ou próximos à costa e estão contidos em rocha porosa; outros localizados em subsolo profundo, no off shore distante ou presos em formações rochosas impenetráveis. Os locais anteriores são relativamente fáceis de explorar e proporcionam um combustível líquido que pode ser prontamente refinado em novos líquidos utilizáveis; os locais atuais só podem ser explorados através de técnicas custosas, ambientalmente arriscadas e muitas vezes resultam num produto que deve ser fortemente processado antes que a refinação possa sequer começar.

A simples verdade sobre o assunto é esta: a maior parte das reservas fáceis do mundo já foram esgotadas – exceto aquelas em países espinhosos como o Iraque. Virtualmente todo o petróleo que resta está contido em reservas mais difíceis de serem atingidas. Isto inclui o petróleo do off shore profundo, o petróleo do Ártico e o petróleo de xisto, juntamente com as “areias betuminosas” do Canadá – as quais não são compostas de petróleo de modo algum, mas sim de lama, areia e alcatrão semelhante a betume. As chamadas “reservas não convencionais” destes tipos podem ser exploradas, mas muitas vezes a preço desconcertante, não apenas em dólares mas também em danos para o ambiente.

No negócio do petróleo, esta realidade foi reconhecida primeiramente pelo presidente e CEO da Chevron, David O'Reilly, numa carta de 2005 publicada em muitos jornais americanos. “Uma coisa é clara”, escreveu ele, “a era do petróleo fácil está acabada”. Não só muitos dos campos existentes estavam em declínio, observou ele, como “novas descobertas de energia estão a ocorrer principalmente em lugares onde os recursos são difíceis de extrair, fisicamente, economicamente e mesmo politicamente”.

Nova prova desta mutação foi proporcionada pela Agência Internacional de Energia (IEA) numa revisão de 2010 das perspectivas do petróleo mundial. Na preparação deste relatório a agência examinou os rendimentos históricos dos maiores campos produtores do mundo – o “petróleo fácil” sobre o qual o mundo ainda repousa para o grosso da sua energia de forma esmagadora. Os resultados foram espantosos: esperava-se que aqueles campos perdessem três quartos da sua capacidade produtiva ao longo dos 25 anos seguintes, eliminando 52 milhões de barris de petróleo por dia da oferta mundial, ou cerca de 75% a atual produção mundial. As implicações eram estarrecedoras: ou descobrir petróleo novo para substituir aqueles 52 milhões de barris/dia a Era do Petróleo chegará logo a um fim e a economia mundial entraria em colapso.

Naturalmente, como a IEA tornou claro em 2010, haverá novo petróleo, mas só da variedade difícil que exigirá um preço de todos nós – e do planeta, também. Para apreender as implicações da nossa crescente dependência do petróleo difícil, vale a pena dar uma olhadela a alguns dos mais apavorantes pontos sobre a Terra. Assim, apertem os vossos cintos de segurança: primeiro estamos a ir para o mar para examinar o “prometedor” novo mundo do petróleo do século XXI.

Petróleo de águas profundas

As companhias de petróleo têm pesquisado em áreas off shore há algum tempo, especialmente no Golfo do México e no Mar Cáspio. Até recentemente, contudo, tais esforços verificavam-se invariavelmente em águas relativamente rasas – umas poucas centenas de metros, na maior parte – o que permitia às companhias utilizar perfuradores convencionais montados sobre colunas extensas. A perfuração em águas profundas, em profundidades que ultrapassam os 300 metros, é um assunto inteiramente diferente. Ela requer plataformas de perfuração especializadas, refinadas e imensamente custosas que podem custar bilhões de dólares para produzir.
 

A Deepwater Horizon (foto), destruída no Golfo do México em Abril de 2010 devido a uma explosão catastrófica, é bastante típica deste fenômeno. A plataforma flutuante foi construída em 2001 por US$500 milhões e custa cerca de US$1 milhão por dia para conservar e manter. Parcialmente devido a estes altos custos, a BP estava com pressa de acabar o trabalho do seu malfadado furo Macondo e mover a Deepwater Horizon para outro local de perfuração. Tais considerações financeiras, acreditam muitos analistas, explicam a pressa com a qual a equipe de perfuração selou o furo – levando a uma fuga de gases explosivos dentro do poço e a explosão resultante. A BP agora terá de pagar algo para além de US$30 bilhões para atender as todas as reclamações pelo dano feito com a fuga maciça de petróleo resultante da desastre.

Seguindo-se ao referido desastre, a administração Obama impôs uma proibição temporária à perfuração no offshore profundo. Mal se passaram dois anos, a perfuração nas águas profundas do Golfo está outra vez em níveis de pré desastre. O presidente Obama também assinou um acordo com o México que permitia perfurar na parte mais profunda do Golfo, ao longo da fronteira marítima estadunidense-mexicana.

Enquanto isso, a perfuração em águas profundas está ganhando velocidade no mundo inteiro. O Brasil, por exemplo, movimenta-se para explorar seus campos “pré sal” (assim chamados porque jazem abaixo de uma camada de sal) nas águas do Oceano Atlântico muito longe da costa do Rio de Janeiro. Novos campos offshore estão analogamente a ser desenvolvidos nas águas profundas do Gana, Serra Leoa e Libéria.

Em 2020, diz o analista de energia John Westwood, estes campos de águas profundas fornecerão 10% do petróleo mundial, quando eram apenas 1% em 1995. Mas este acréscimo de produção não sairá barato: a maior parte destes novos campos custará dezenas ou centenas de bilhões de dólares para desenvolver e só se demonstrará lucrativo desde que o petróleo continue a ser vendido por US$90 ou mais por barril. 

Os campos offshore do Brasil, considerados por alguns peritos como as mais prometedoras novas descobertas deste século, demonstrar-se-ão especialmente caras porque jazem sob 2400 metros de água e 4000 metros de areia, rocha e sal. Serão necessários os mais avançados e custosos equipamentos de perfuração do mundo – alguns deles ainda a serem desenvolvidos. A Petrobrás, a empresa de energia controlada pelo estado, já comprometeu US$53 bilhões para o projeto em 2011-2015 e a maior parte do analistas acredita que isto será apenas um modesto pagamento inicial de um estarrecedor preço final.

Petróleo ártico

Espera-se que o Ártico proporcione uma fatia significativa da futura oferta mundial. Até recentemente, a produção no extremo Norte fora muito limitada. Exceto na área de Prudhoe Bay no Alasca e num certo número de campos na Sibéria, as grandes companhias tem geralmente evitado a região. Mas agora, ao verem poucas outras opções, elas estão se preparando para grandes investidas num Ártico em fusão.

De qualquer perspectiva, o Ártico é o último lugar para se querer ir a fim de perfurar por petróleo. As tempestades são frequentes e as temperaturas no Inverno mergulham muito abaixo do ponto de congelamento. A maior parte do equipamento comum não operará sob estas condições. São necessários substitutivos especializados (e custosos). As equipes de trabalho não podem viver na região por muito tempo. A maior parte dos abastecimentos – comida, combustível, materiais de construção – devem ser trazidos de milhares de quilômetros a um custo exorbitante.

Mas o Ártico tem os seus atrativos: bilhões de barris de petróleo inexplorado. Segundo o U.S. Geological Survey (USGS), a área Norte do Círculo Ártico, com apenas 6% da superfície do planeta, contém uma estimativa de 13% do seu petróleo remanescente (e ainda maior fatia do seu gás natural não desenvolvido) – números com que nenhuma outra região pode competir.

Sobrando poucos lugares para ir, as grandes empresas de energia agora estão a preparar-se para uma corrida a fim de explorar as riquezas do Ártico. Neste Verão, espera-se que a Royal Dutch Shell comece furos de teste em porções dos Mares Beauforte Chukchi, ao Norte do Alasca (a administração Obama se demorando na concessão das autorizações finais de operação para estas atividades, mas espera-se a aprovação). Ao mesmo tempo, a Statoil e outras firmas planeiam perfurar no Mar de Barents, ao Norte da Noruega.

Com estes cenários energéticos extremos, o aumento da produção no Ártico impulsionará significativamente os custos operacionais das companhias de petróleo. A Shell, por exemplo, já gastou US$4 bilhões só nos preparativos para furos de teste no offshore do Alasca, sem produzir um único barril de petróleo. O desenvolvimento em plena escala nesta região ecologicamente frágil, tenazmente contrariado por ambientalista e povos nativos locais, multiplicará este número muitas vezes mais.

Areias betuminosas e petróleo pesado

Espera-se que outra fatia significativa do futuro abastecimento mundial de petróleo venha das areias betuminosas do Canadá (também chamadas “areias petrolíferas”) e do petróleo super-pesado da Venezuela. Nada disto é petróleo tal como é normalmente entendido. Não sendo líquidos nos seu estado natural, eles não podem ser extraídos pelos materiais de furação tradicionais, mas existem em grande abundância. Segundo o USGS, as areias betuminosas do Canadá contêm o equivalente a 1,7 trilhões de barris de petróleo convencional (líquido), ao passo que os depósitos de petróleo pesado da Venezuela dizem abrigar outro trilhão de petróleo equivalente – embora nem tudo seja considerado “recuperável” com a tecnologia existente.

Aqueles que afirmam que a Era do Petróleo está longe de ultrapassada apontam estas reservas como prova de que o mundo ainda pode extrair imensas quantidades de combustíveis fósseis inexplorados. E certamente é concebível que, com a aplicação de tecnologias avançadas e uma indiferença total para com as consequências ambientais, estes recursos na verdade serão colhidos. Mas não é petróleo fácil.

Até agora, as areias betuminosas do Canadá foram obtidas através de um processo análogo à mineração a céu aberto, utilizando pás monstruosas para arrancar uma mistura de areia e betume do solo. Mas a maior parte do betume próximo à superfície nas areias betuminosas ricas da província de Alberta foi exaurida, o que significa que toda extração futura exigirá um processo muito mais complexo e custoso. Terá de ser injetado vapor nas concentrações mais profundas para fundir o betume e permitir a sua recuperação através de bombas maciças. Isto exige um investimento colossal em infraestrutura e energia, bem como a construção de instalações de tratamento para todos os resíduos tóxicos resultantes. Segundo o Canadian Energy Research Institute, o pleno desenvolvimento das areias petrolíferas de Alberta exigiria um investimento mínimo de US$218 bilhões ao longo dos próximos 25 anos, não incluindo o custo de construir oleodutos para os Estados Unidos (tal como o proposto Keystone XL) para processamento em refinarias estadunidenses.

O desenvolvimento do petróleo pesado da Venezuela exigirá investimento numa escala comparável. Acredita-se que o cinturão do Orenoco, uma concentração especialmente densa de petróleo pesado adjacente ao Rio Orenoco contenha reservas recuperáveis de 513 bilhões de barris de petróleo – talvez a maior fonte de petróleo inexplorado do planeta. Mas converter esta forma de betume semelhante a melaço num combustível líquido excede em muito a capacidade técnica ou os recursos financeiros da companhia estatal, Petróleos de Venezuela SA. Consequentemente, ela está agora à procura de parceiros estrangeiros dispostos a investir os US$10 a 20 bilhões necessários apenas para construir as instalações fundamentais.

Os custos ocultos

Reservas difíceis como esta proporcionarão a maior parte do novo petróleo do mundo nos próximos anos. Uma coisa é clara: mesmo se puderem substituir o petróleo fácil nas nossas vidas, o custo de tudo o que está relacionado com petróleo – seja a gasolina na bomba, produtos com base no petróleo, fertilizantes, tudo por toda a parte das nossas vidas – está em vias de encarecer. Habitue-se a isto. Se as coisas decorrerem como se planeja atualmente, estaremos pendurados no big oil nas próximas décadas.

E estes são apenas os custos mais óbvios numa situação em que abundam custos ocultos, especialmente para o ambiente. Tal como no desastre do Deepwater Horizon, a extração em áreas do offshore profundo e em outras localizações geográficas extremas garantirá riscos ambientais sempre maiores. Afinal de contas, aproximadamente 22 bilhões de litros de petróleo foram despejados no Golfo do México, graças à negligência da BP, provocando danos extensos a animais marinhos e ao habitat costeiro.

Recordar que, por mais catastrófico que fosse, ele ocorreu no Golfo do México, onde podiam ser mobilizadas forças amplas para a limpeza e a capacidade de recuperação do ecosistema era relativamente robusta. O Ártico e a Groenlândia representam um risco diferente, dado a sua distância das capacidades de recuperação estabelecidas e a extrema vulnerabilidade dos seus ecossistemas. Os esforços para restaurar tais áreas na sequência de fugas de petróleo maciças custariam muitas vezes os US$30 a 40 bilhões que a BP pretende pagar pelo danos do Deepwater Horizon e serão muito menos eficazes.

Além de tudo isto, muitos dos campos de petróleo difícil mais prometedores estão na Rússia, na bacia do Mar Cáspio, e em áreas conflituosas da África. Para operar nestas áreas, companhias de petróleo serão confrontadas não só com os custos previsivelmente altos da extração como também com custos adicionais envolvendo sistemas locais de suborno e extorsão, sabotagem por grupos de guerrilha e as consequências de conflitos civis.

E não esquecer o custo final: Se todos estes barris de petróleo e substâncias afins do petróleo forem realmente produzidos a partir dos menos convidativos lugares neste planeta, então nas próximas décadas continuaremos a queimar combustíveis fósseis maciçamente, criando sempre mais gases com efeito estufa [1] como se não houvesse amanhã. E aqui está a triste verdade: se prosseguirmos no caminho do petróleo difícil ao invés de investirmos maciçamente em energias alternativas, podemos excluir qualquer esperança de impedir as mais catastróficas consequências de um planeta mais quente e mais turbulento.

De modo que, sim, há petróleo não convencional. Mas não, ele não será mais barato, não importa quanto haja. E, sim, as companhias de petróleo podem obtê-lo, mas olhando realistamente quem o desejaria?


Nota dos tradutores
[1] Um falso problema. A situação energética mundial já é suficientemente má por si mesma, dispensando invencionices adicionais como o do mítico aquecimento global. Ver “Acerca da impostura global.

Notas dos Editores
[*] Autor de The Race for What's Left: The Global Scramble for the World's Last Resources” (Metropolitan Books).

O artigo original, em inglês, pode ser lido em: “A Tough-Oil World” 
Esta tradução foi extraída de: Resistir



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quinta-feira, 29 de julho de 2010

BP – Uma bomba relógio no sistema financeiro internacional

BP – Uma bomba relógio no sistema financeiro internacional

Michael R. Kratke*
29.Jul.10 :: Outros autores
Michael R. Kratke

Segundo Michael R. Kratke, Professor de Economia Política e Director do Instituto de Estudos Superiores da Universidade de Lancaster no Reino Unido, a BP é uma bomba de relógio no sistema financeiro mundial. A empresa refinancia-se com derivados creditícios e fundos de pensões que agora, e para infelicidade dos seus clientes, têm grandes perdas. Dois elementos tão centrais como obsoletos do actual capitalismo – uma economia baseada na emergia fóssil e na especulação financeira à escala planetária – levam-nos directamente à próxima catástrofe.


O que começou como uma crise financeira em Setembro de 2008, com a irrevogável falência do banco Lehman-Brothers, pode agora entrar na próxima ronda com a previsível queda da BP. A transnacional britânica é uma bomba financeira de relógio, não só para a Grã-Bretanha mas para todo o Reino Unido. Os custos do desastre petrolífero no Golfo do México estimam-se em 70 mil milhões de dólares.

Para os britânicos, a BP é como instituição nacional, a maior sociedade anónima do país, a blue chip mais brilhante do mercado de valores londrino. Muitas pessoas julgam que a BP é uma empresa petrolífera. E é verdade. A BP fornece petróleo, tem oleodutos e refinarias um pouco espalhados por todo o mundo. Mas a BP é, simultaneamente, um banco com um raio de acção internacional que, tal como a Enron ou a General Motors, actua nos mercados financeiros internacionais.

De AA a BBB

Como, oficialmente, não é uma entidade financeira, a British Petroleum esta a meio caminho de ser um negócio OTC ou fora do mercado organizado de valores, isto é, que actua fora das bolsas, num negócio sem regulação nem controlo. O refinanciamento é através da titularização de derivados creditícios de alto risco, CSOs [obrigações colaterais sintéticas, na sua sigla inglesa], a que não corresponde qualquer valor patrimonial, mas apenas derivados creditícios. São um próspero comércio esses derivados financeiros. A BP é detentora ou tem participações em pelo menos 18% dos papéis deste tipo que circulam por todo o mundo. Recordamos que a crise financeira mundial foi desencadeada pela queda em cadeia de derivados titularizados: as CDOs [obrigações de dívida colateral, na sua sigla inglesa] e os CDS [derivados creditícios de dívida, na sua sigla inglesa]. Agora, os riscos nas CSOs são muito maiores e o alavancamento creditício de maior envergadura e as regulações são desconhecidas.

Por outras palavras: Quando a BP quebrar, a sua falência terá consequências globais. Como supostamente sucedeu no caso Lehman-Brothers, ninguém sabe até que ponto a BP está endividada, nem quem nem em que jogos de azar estão envolvidos os créditos da BP. Mas, como a transnacional é considerada a pérola da coroa da indústria financeira britânica, com fundamento se pode suspeitar que estão aqui metidos todos os que gozam de reputação e hierarquia no mundo financeiro internacional. Não há dúvidas: a próxima bolha está prestes a rebentar. É só uma questão de tempo. Mais provável dentro de semanas que de meses.

O valor patrimonial das instalações da British Petroleum atinge agora o montante de 240 mil milhões de dólares. Muitos dos seus campos petrolíferos e participações estão à venda por todo o mundo. Desde finais de Abril, perdeu metade do seu valor em bolsa. Deverá entrar um investidor estratégico, provavelmente um fundo estratégico árabe. Os líbios querem ser uma opção mas ninguém se abalança a tamanho risco. E os meros boatos de uma entrada de mil milionários árabes não convencem as agências de qualificação do risco.

A Fitch, a mais pequena das três grandes, baixou drasticamente no passado dia 15 de Junho a qualificação do gigante petrolífero, pela segunda vez em duas semanas: e desta vez nada menos do que seis escalões de uma vezada, de AA para BBB. Se as duas grandes – a Moody’s e a Standard & Poor’s – a seguirem, os empréstimos da BP baixarão à categoria de lixo, como os títulos da dívida pública grega. De qualquer modo, grandes investidores destas agências, como Warren Buffet, colocaram milhares de milhões em acções e obrigações da BP, o que explica a moderação da Moody’s e da Standard & Poor’s.

Nada de OPAs hostis

Entretanto, a BP teve que ceder à pressão do governo dos EUA e sujeitar-se a um fundo de garantias num montante de 20 mil milhões de dólares. Pelo menos até ao próximo ano a BP não poderá continuar a pagar dividendos, terá que seguir uma política de poupança férrea e eliminar milhares de postos de trabalho, os primeiros 5.000 já em 2010. Há fortes indícios que levam à suspeita que a explosão do passado dia 20 de Abril no Golfo do México assenta numa implacável política de redução de custos. A segurança e o cuidado, como é sobejamente sabido, custam tempo e dinheiro. Quem louva o capitalismo pela sua eficiência não sabe do que fala. Ou se sabe, dá a entender aquilo em que não acredita.

A questão é que Londres prepara-se para o pior. Debaixo de um clamoroso silêncio acompanhado de rotundos desmentidos, trabalha-se em planos de emergência. A queda descontrolada ou uma tomada de controlo da BP seria uma catástrofe para os britânicos. As acções da BP têm fama em todo o mundo de investimentos seguros e lucrativos. A BP pagava regularmente, trimestre a trimestre, chorudos dividendos.

Os fundos de pensões, os maiores investidores institucionais nos mercados financeiros internacionais, compravam e mantinha enormes quantidades de acções da BP. E no sistema britânico de reformas os fundos de pensões jogam um papel chave. Só que, precisamente os rendimentos de reforma cobertas por capital são tudo menos seguros. Quando rebentou a bolha imobiliária estadunidense em 2008, muitos fundos de pensões resultaram em prejuízos dos depositantes e pensionistas. Para os fundos de investimento britânicos que há alguns anos investiam em acções da BP, a catástrofe petrolífera é ao mesmo tempo um desastre financeiro. Cerca de um sexto de todos os dividendos que se pagam no Reino Unido vêm da BP! Assim, os fundos perderam de três formas: patrimonialmente pela queda livre das acções da BP, pelos dividendos evaporados, e pela diminuída capacidade de crédito.

Os fundos de pensões perderam já muito dinheiro com as acções dos bancos e, agora, cai-lhes em cima a situação da BP. Se se calcularem as possíveis perdas tendo por base uma pensão média entre 12 mil e 13 mil libras esterlinas anuais, falamos de 800 a 1.000 libras esterlinas por ano. Daí, o governo do primeiro-ministro Cameron não ter escolha. Se a BP ajoelha, terá que intervir com um novo pacote milionário de resgate. Se foi necessário para os grandes bancos, não será menos necessário para a BP. Isso significa mais dívida pública e ainda mais desproporcionados pacotes de poupança.

A BP não pode desaparecer, pois ela é, de longe, um dos maiores contribuintes fiscais da Ilha e controla uma boa parte das infra-estruturas vitais do reino insular, como a Forties Pipeline System que liga mais de 50 campos petrolíferos no Mar do Norte, ou o oleoduto Baku-Tiblisi-Ceihan, que possibilita o trânsito de petróleo do Cáucaso para a Europa ocidental. Por isso, David Cameron anuncia que o seu governo fará tudo o que estiver ao seu alcance para impedir o controlo da BP por empresas petrolíferas chinesas, árabes ou russas. Se a BP cai nas mãos das gigantes norte-americanas, acabaram-se as considerações para com os fundos de pensões ou para quaisquer outras necessidades britânicas. Dentro de poucos dias a BP tem que liquidar os pagamentos que se vencem no segundo trimestre de 2010. O seu montante é enorme.

Este caso ilustra com clareza como dois elementos tão centrais como obsoletos do capitalismo – uma economia baseada na energia fóssil e na especulação financeira planetária – nos aproximam do abismo da próxima catástrofe.


* Michael R. Krätke é Professor de Economia Política e Director do Instituto de Estudos Superiores da Universidade de Lancaster no Reino Unido.

Este texto foi publicado dia 26 de Julho de 2010 em www.sinpermiso.info

Tradução de José Paulo Gascão

extraído d'ODiario.info

terça-feira, 27 de julho de 2010

Calma e Privacy



A fuga de petróleo no Golfo do México?
Podem ficar descansados, a fuga continua na boa.

A BP afirma que esta semana irá "sufocar" o poço com cimento e puf!, a fuga já não existirá. Naturalmente se o cimento funcionar.

E se não funcionasse? Não há crise: a BP pode sempre inventar algo de novo. Ou, no limite, é só esperar: cedo ou tarde o petróleo irá acabar. Poucas décadas ou centenas de anos e a BP poderá finalmente afirmar de ter a situação controlada.

Lembrem: depressa e bem não faz ninguém.

Uma vez acabada a fuga no Golfo do México, a British Petroleum, com as outras nobres companhias, poderão dedicar-se a poluir com toda a tranquilidade outras zonas do globo.

Porque entre as consequências do acidente da Deepwater Horizon há também uma maior atenção acerca das atividades sujas (no sentido literal) das companhias petrolíferas em outros Países.
O que, admitimos, é bastante aborrecido. Experimentem poluir, destruir o ambiente, provocar doenças enquanto todos apontam o dedo e gritam "assassino". Não é fácil, certos trabalhos requerem calma em um mínimo de privacy.

A Nigéria, por exemplo.

Ninguém ligava e agora, de repente, todos a ver o que se passa com os poços e as pipelines do País africano. Não é assim que se faz.

Vamos ler o que diz Aldo Piombino no seu óptimo blog
Scienzeedintorni:

Além do desastre no Golfo do México: a situação alarmante da Nigéria

Há meses que o mundo inteiro está a observar o Golfo do México por causa do acidente da Deepwater Horizon. Eu também queria escrever alguns posts sobre isso, mas ainda não o fiz e agora prefiro escrever uma notícia um pouco "alternativa" a esta, embora muito relacionada.

Não nego as dramáticas consequências ambientais do acidente, mas tal como aconteceu com o furacão Katrina (que é discutido desde 2005), estas catástrofes que têm ocorrido nos Estados Unidos obscurecem outras situações semelhantes: a propósito de furacões, desde 2005 as Caraíbas foram atingidas por tempestades que causaram destruição e milhares de mortes.

E a propósito de petróleo, provavelmente só uns poucos conhecem a trágica situação atualmente vivida pelo Delta do Níger.

Da Nigéria ouvimos muitas vezes falar sobre os sequestros de profissionais que trabalham na extração de petróleo e as duras lutas entre muçulmanos e cristãos. Às vezes, nas páginas dos jornais, aparece a notícia duma explosão de pipeline (devido principalmente às pessoas que tentam roubar o petróleo, como em Egba Abul, um bairro de Lagos, onde pelo menos 269 pessoas morreram em 2006). O alarme acerca do qual quero falar é mesmo acerca o preocupante nível dos derrames de petróleo no Delta do Níger a cada ano.

Além de ser presidente da secção nigeriana da organização "
Friends of the Earth International", a única ONG ambientalista com a qual basicamente concordo, Nnimmo Bassey é um dos 30 "heróis do ambiente" da revista Time, em 2009.

Há dezenas de anos que os Nigerianos vivem com os mesmos problemas que hoje afligem a costa da Louisiana: o petróleo flui através dos campos, matas e lagoas do Delta do Níger, onde as empresas ocidentais obtêm o petróleo, provavelmente sem usar as atenções que iriam usar em casa deles.

Em 2006 Friends of the Earth International e o governo nigeriano produziram um relatório no qual estima-se que, desde 1958, quando começaram as primeiras extrações, a cada ano no delta é despejada uma quantidade igual ao derramamento de petróleo da Exxon Valdez, cerca de 275 mil barris, mais ou menos o volume mensal que sai da perfuração da Deepwater Horizon. Somente entre 1970 e 2000, houve 7.000 (!) acidentes com um total de 9 milhões de barris de petróleo. Notamos também como a área é habitada por milhões de pessoas

Assim, enquanto a opinião pública ocidental é cada dia (com razão!) bombardeada com notícias sobre a situação no Golfo do México, ninguém conhece os problemas que a extração de petróleo provoca na Nigéria, um dos 10 maiores produtores de petróleo do mundo .

Nnimmo Bassey afirma nas páginas do jornal Inglês The Observer, que

na Nigéria, as companhias de petróleo ignoram completamente as próprias fugas, destruindo o meio ambiente e causando sérios danos à saúde da população. O incidente do Golfo é uma metáfora do que acontece diariamente nos campos de petróleo da Nigéria e de outras partes da África.

Todos estes crimes são causados por empresas conhecidas, como BP, Shell e Exxon Mobile, acusadas de operar com equipamentos antigos e inseguros. As organizações ambientalistas falam pelo menos de dois mil locais para serem recuperados (para não mencionar a situação da água) numa área onde vivem mais de 20 milhões de pessoas que, apesar dos lucros obtidos ao longo dos anos por várias empresas e vários governos, no meio de toda esta riqueza vivem em média com menos de um Dólar por dia.

A defesa das empresas petrolíferas fornecer uma realidade completamente diferente, atribuindo os derrames aos atos de vandalismo ou de terrorismo e afirma que são tratados de forma tempestiva.


Por exemplo, a Shell declara, mais uma vez ao The Observer, que só em 2009 substituiu mais de 300 km de gasodutos e que têm uma equipe especializada que atua de forma eficaz, "usando todos os sistemas conhecidos para a limpeza, inclusive os de bactérias" e sem perguntar acerca da causa do derrame.
Mas nesta altura, por causa da situação no Golfo do México, a imagem das companhias petrolíferas em geral é um pouco "desfocada" e muitos não acreditam nessas palavras, especialmente quando se referem aos Países pobres e aos governos geralmente servos das multinacional .

A propósito, eis o que declara ao mesmo jornal Judith Kimerling, professora de ciência política da City University of New York

derramamentos, vazamentos e fugas ocorrem nos campos de petróleo de todo o mundo e parece que ninguém se importa. O incidente no Golfo do México mostra que as empresas petrolíferas estão fora de controle e, de facto, influenciam a política dos EUA e de outros Países também, bloqueando qualquer instrumento no assunto. Na Nigéria, sempre viveram acima da lei e são agora claramente um perigo para o planeta.


É claro que aqui há duas versões muito diferentes sobre o mesmo problema. Relatei os dois, e todos podem tirar as próprias conclusões.


Fonte: Scienzeedintorni
Traduzido, comentado e editado por: Informação Incorrecta

segunda-feira, 19 de julho de 2010

As continuas mentiras da BP (British Petroleum)


É uma história infinita.
Tristemente infinita.

Afinal o poço não está fechado. E se estiver, então algo não bate certo.
Petrolio, da jornalista Debora Billi, anuncia a existência duma nova fuga de "ouro negro", sempre no Golfo do México, sempre do mesmo poço...

Vamos ler:

Há semanas, se não desde o começo da história, suspeita-se que as coisas não estejam bem como foram contadas. Agora, torna-se cada vez mais difícil esconder a verdade por trás duma tampa [a tampa posicionada pela BP em cima do poço, NDT]. Ainda não sabemos se a nova falha de seja apenas uma fuga da nova tampa ou se for um temido vazamento do fundo do mar: o facto é que temos as provas de que Matthew Simmons [ver nota abaixo, NDT] não sucumbiu ao Alzheimer, como alegado pelos seus detractores, como também desta vez viu muito bem. Neste ponto, não faltará muito para a BP admitir a perda.

Também porque o bluff da BP foi "desvendado" pelo Almirante Allen em pessoa (o chefe das operações no Golfo), através desta carta na qual pergunta acerca da existência dum buraco longe do poço. A carta foi uma bomba, o que obrigou a empresa, depois de algumas horas, a confessar a existência da perda, embora com informações ainda confusas. Na verdade, presume-se que o governo tenha sido plenamente ciente do segundo vazamento, mas por motivos que podemos imaginar preferiu partilhar o silêncio da BP. Mas agora a empresa tem exagerado: a comunicação urbi et orbi com a qual anunciava a selagem do poço foi bem sucedida na intenção de fazer subir o valor das ações.

É claro que o governo dos EUA, que até agora apresentou um certo grau de cumplicidade com a empresa (para Obama esta catástrofe representou uma enorme perda de apoio popular) não pode continuar a ficar parado enquanto a BP destruir o Golfo do México na tentativa de salvar o poço. Porque vamos ser claros: é isso que estão a fazer. Macondo está agora reduzido a um coador e a única maneira de parar a catástrofe é fechar o poço para sempre com uma boa injecção de cimento. Mas isso significa dizer adeus a uma exploração que tem custado um rio de dinheiro e que prometia muito bem. Isso também significa abdicar e enviar ao público a mensagem de que o petróleo em águas profundas é perigoso e que não estamos tecnologicamente capazes de geri-lo.

A BP tenta ganhar tempo já há meses. Mesmo muito antes do famoso 20 de Abril, data em que a notícia espalhou-se no mundo inteiro, e isso é demonstrado os negócios técnicos e financeiros que têm despertado muitas suspeitas e que ocorreram nas semanas anteriores. Continua a ganhar tempo ao pôr e ao tirar o cap, perfurando e enviando anúncios triunfantes de fechos nunca acontecidos para influenciar Wall Street. Ganha tempo e não se preocupa com a única coisa que daria jeito: parar a maldita fuga de petróleo.mas a perda mínima.

Esclarecimento: Matthew Simmons tem causado surpresa ao declarar recentemente que há um outro grande vazamento no Golfo do México, que sopra enormes quantidades de petróleo no Golfo do México. Esta nova fuga estaria localizada a 7 milhas de distância do poço Macondo.
No programa Fast Money da CNBC, acrescentou que ficaria surpreso se a BP sobrevivesse a este verão, pois o desastre é inteiramente culpa da companhia.

Quanto à carta do Almirante Allen, nela o responsável das operações afirma o seguinte:
"Peço um procedimento escrito para abrir a válvula, logo que possível, se a perda de hidrocarbonetos viesse a ser confirmada"
e fala de "anomalias inexplicáveis na boca do poço".
Mas já ontem tinha exprimido algumas perplexidades:
"Temos de entender porque os valores de pressão são mais baixos do que o esperado tinha dito o almirante numa conferência de imprensa na qual sugeriu também duas hipóteses: ou o poço está a esvaziar-se, como alegado pela BP (!!!), ou não há uma perda ainda não identificada."

Segundo as últimas notícias, a BP admite a existência duma nova fuga mas, avança com a ideia de que não esteja relacionada com o "próprio" poço (!!!!!).

Fonte: Petrolio

sexta-feira, 16 de julho de 2010

BP interrompe totalmente vazamento de petróleo no Golfo


Por Kristen Hays - 15 de julho de 2010

HOUSTON (Reuters) - A British Petroleum realizou nesta quinta-feira um teste de pressão na estrutura do seu poço danificado no golfo do México e disse que pela primeira vez desde 20 de abril o petróleo parou totalmente de jorrar no mar.

O teste consiste em fechar as válvulas de uma tampa recém-instalada na boca do poço e aferir se isso controlará o vazamento e se a estrutura resistirá à pressão. A operação começou na quinta-feira à tarde e deve durar de 6 a 48 horas.

Os primeiros resultados positivos fizeram as ações da BP, que já vinham em fase de recuperação, registrarem alta de 10 por cento nos Estados Unidos.

Por outro lado, o almirante da reserva da Guarda Costeira Thad Allen, principal autoridade norte-americana envolvida no caso, recuou das garantias que havia dado anteriormente de que a nova tampa poderia selar completamente o poço, até que seja concluída a escavação dos poços auxiliares que permitirão "sufocar" definitivamente do vazamento.

Retificando-se, Allen disse que a tampa poderá eventualmente vedar o poço, mas que isso só deve acontecer em situações de emergência, como um furacão, quando seria preciso interromper o processo hoje usado, que consiste em recolher o petróleo que jorra para queimá-lo ou armazená-lo em navios.

"A intenção da tampa nunca foi fechar o poço por si só", disse Allen a jornalistas em Nova Orleans. "A melhor razão para podermos fechar o poço atualmente ... é nos permitir abandonar o local se houver um furacão."


O vazamento iniciado em 20 de abril causou enormes prejuízos ambientais e econômicos, e por pressão do governo a BP reservou 20 bilhões de dólares para indenizações, o que lhe obriga a vender parte do seu patrimônio.

Segundo a CNBC, a empresa norte-americana de energia Apache negocia a aquisição de instalações da BP avaliadas em 10 bilhões de dólares, inclusive em importantes áreas de extração petrolífera no Alasca.

A notícia de que a Apache estaria buscando no mercado 6 a 7 bilhões de dólares para fechar o negócio contribuiu com a alta nas ações da BP nos Estados Unidos, que mesmo antes das notícias sobre o poço já operavam em alta de 3 por cento.

(Reportagem adicional de Chris Baltimore, em Houston; de Matthew Lynley, em Nova York; e de Ayesha Rascoe e Andrew Quinn, em Washington)

reportagem
SwissInfo.ch

domingo, 11 de julho de 2010

ONDE ESTÃO OS AMBIENTALISTAS?

autor: Adriano Benayon*

Que fazem as ONGS ambientalistas diante do vazamento de petróleo no Golfo do México, causado pela British Petrol (BP) – o que já mostra ser o maior desastre ambiental de toda a história?

Simplesmente, nada. Mantém silêncio. Omitem-se por completo.

Por que? Porque são pagas pela oligarquia financeira mundial para ajudar a pôr grandes espaços territoriais, dotados dos mais valiosos minerais estratégicos, sob controle da família real britânica e outros expoentes dessa oligarquia, além de obstaculizar projetos necessários ao desenvolvimento do Brasil.

Entre os grandes acionistas da BP está exatamente a família real britânica, a qual lidera a intervenção no Brasil a pretexto de meio ambiente e de direitos indígenas;

Quem não conhece o espalhafato com que costumam agir, no Brasil e em outros países, as ONGs “ambientalistas”, Greenpeace e WWF (Fundo Mundial para a Natureza)?

Umas das principais finalidades dessas ONGs é tirar a atenção do público dos verdadeiros destruidores do meio-ambiente, e os maiores desses destruidores são as companhias de petróleo, notadamente as mega-transnacionais anglo-estadunidenses, a saber Exxon-Mobil e Chevron-Texaco (EUA); British Petrol (BP) e Shell (britânicas).

Estas financiam e sustentam aquelas ONGS do “meio-ambiente”. Aí está mais uma das infinitamente numerosas fraudes que pratica a oligarquia mundial.

Observações:

1.“Acredito que a investigação independente mostrará que esta tragédia poderia ter sido evitada”. Essa declaração é do diretor-executivo da Chevron, John Watson.

2. As TVs deram destaque em seus noticiários à reunião de Obama com executivos da BP (16.06.2010) e a uma anunciada ajuda desta, de US$ 20 bilhões, para vítimas (norte-americanas) da insólita calamidade.

Conclusão:

Especialistas estimam em 18 meses o tempo em que o vazamento terá comprometido boa parte dos oceanos, acabando com o plâncton, responsável por 70% da produção do oxigênio planetário. O que está em risco, portanto, é a sobrevivência da humanidade e de outras espécies. Cabe, portanto, perguntar:

1) A questão se limita a indenizar vítimas norte-americanas diretamente atingidas?

2) Por que o governo dos EUA não tratou nem trata o assunto como questão de Estado, intervindo diretamente nas causas da continuação do desastre e mobilizando os recursos técnicos e materiais de que dispõe para estancar a contaminação dos oceanos, em vez de deixar as coisas (e a propriedade) com a BP?

3) Por que os governos dos demais países ainda não exigiram essas medidas do governo norte-americano, nem fizeram questão de tomar parte nelas, uma vez que a catástrofe produz efeitos em todo o Mundo?

Adriano Benayon* é Doutor em Economia. Autor de “Globalização versus Desenvolvimento”, editora Escrituras.

e-mail abenayon@brturbo.com.br

sábado, 10 de julho de 2010

Catástrofe do Golfo: BP restringe o acesso dos media

por Dahr Jamail

Petróleo  no Golfo do México. NOVA ORLEANS, (IPS) – Na semana passada, a Guarda Costeira dos EUA, que está a agir em coordenação com a gigantesca empresa petrolífera BP, impôs novas restrições em toda a Costa do Golfo americano que impedem os media de se aproximarem a menos de 20 metros das barreiras de contenção (booms) ou dos barcos de limpeza, tanto na costa como no mar. Mas a astúcia destas restrições vai ainda mais longe.

“Não pode vir cá", disse Don, o guarda de segurança contratado pela BP no Centro para a Reabilitação da Fauna Contaminada pelo Petróleo, em Fort Jackson, Louisiana.

Lá dentro, o Centro Internacional para Investigação e Salvamento de Aves, uma das companhias contratadas pela BP para limpeza dos animais, encarrega-se de limpar o petróleo das aves antes de as devolver ao seu habitat natural. O Centro tem limitado o acesso aos media. Antes estava aberto às segundas, quartas e sextas durante duas horas por dia. A IPS chegou ao Centro numa quarta-feira, e foi informada que os dias para os media tinham sido reduzidos de três para dois dias, e já não abria às quartas-feiras.

Quando a IPS perguntou ao guarda de segurança privada para quem é que trabalhava, ele respondeu, “Trabalho para a HUB, uma companhia de segurança contratada pela BP”. A Hub Enterprises, de Broussard, Louisiana, tem um contrato com a BP para fornecer “funcionários de segurança” e “supervisores”. Don está a receber entre 13 a 14 dólares por hora para manter a imprensa afastada do maior desastre ambiental provocado por uma fuga de petróleo de toda a história dos EUA. Continuam a jorrar mais de 60 mil barris de petróleo por dia no Golfo, mais de dois meses depois da explosão de 20 de Abril na plataforma Deepwater Horizon operada pela BP.

MULTAS ATÉ 40 MIL DÓLARES

As restrições da semana passada que a Guarda Costeira impôs aos meios de comunicação sujeitam os jornalistas e os fotógrafos a uma multa até 40 mil dólares, e à pena de cadeia de um a cinco anos como um crime de classe D, se violarem a regra dos 20 metros, que o Comando Unificado designa por “zona de segurança”.

Tem havido muitos indícios de um amordaçamento maior e mais profundo dos meios de comunicação na região, de muitas outras formas. Na semana passada, a IPS tinha uma entrevista agendada com o Centro de Ciências da Saúde da Universidade Estadual da Louisiana, em Nova Orleans. A entrevista devia ser com um especialista das estratégias de investigação da Universidade, sobre o possível impacto na região do desastre petrolífero da BP. Na manhã em que se devia realizar a entrevista, o entrevistado, que pretende manter-se anónimo, enviou um email à IPS declarando: “Disseram-me para cancelar a entrevista. Lamento quaisquer inconvenientes que vos possa ter causado”. Quando a IPS lhe perguntou se havia alguma razão especial para o cancelamento da entrevista, respondeu, “Não”. Uma fonte anónima revelou posteriormente à IPS que a decisão de cancelar a entrevista fora tomada pelo chanceler Larry Hollier, que chefia o Centro de Ciências da Saúde da Universidade.

A BP disponibiliza a maior parte do financiamento para estudar os efeitos do desastre petrolífero e prometeu 500 milhões de dólares para projectos de investigação e de reabilitação. Robert Gagosian é o presidente do Consórcio para a Direcção Oceânica, que representa instituições de investigação oceânica e aquários e administra um programa de investigação sobre perfuração marítima. Geoquímico marítimo, Gagosian está preocupado com a forma como vai ser utilizado o dinheiro, e espera que seja gerido através de doações aprovadas pelos pares. A sua preocupação, partilhada por outros cientistas e investigadores, tem origem no interesse da BP em preservar o seu negócio. Também têm dúvidas quanto aos critérios adequados para determinar que tipo de investigações é que devem ser feitas.

Jeff Short, um antigo cientista da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, que é actualmente membro do grupo de preservação Oceana, disse que, ao aceitar que a BP pague a investigação, o governo abre mão do controlo sobre que tipo de estudos devem vir a ser feitos. “Pergunto a mim próprio porque é que a BP quer dar dinheiro para projectos que demonstrarão claramente um prejuízo ambiental muito maior do que se viria a saber, se não fossem esses estudos?”, disse.

Os primeiros 25 milhões de dólares dos fundos da BP foram rapidamente distribuídos pela Universidade Estatal da Louisiana, pelo Instituto de Oceanografia da Florida na Universidade da Florida Sul e por um consórcio chefiado pela Universidade Estatal do Mississípi. Muitos cientistas e jornalistas independentes receiam que isto faça parte de uma tentativa para influenciar quais os estudos a fazer e a disponibilidade dessas instituições públicas para falar com os meios de comunicação sobre o desastre da BP.

Num outro incidente, a 2 de Julho, Lance Rosenfield, um repórter fotográfico da publicação de investigação sem fins lucrativos ProPublica, foi detido por breves instantes pela polícia quando tirava fotografias perto da refinaria da BP na cidade do Texas. Rosenfield declarou que foi confrontado por um funcionário da segurança da BP, pela polícia local, e por um homem que se identificou como agente do Departamento da Segurança Nacional. Rosenfield foi libertado depois de a polícia ter analisado as fotografias e registado a data do seu nascimento, o número da segurança social e outras informações pessoais. Depois o agente da polícia entregou essas informações ao guarda da segurança da BP, alegando, segundo disse Rosenfield, “procedimento normal de funcionamento”.

Também foram instituídas restrições no espaço aéreo sobre as zonas onde estão a decorrer operações de limpeza e de contenção. A Administração da Aviação Federal proibiu voos dos meios de comunicação a menos de 900 metros sobre as áreas afectadas pelos lençóis do petróleo.

07/Julho/2010
O original encontra-se em: No Free Press for BP Oil Disaster
Tradução de Margarida Ferreira.

Este artigo foi copiado de Resistir Info.