quarta-feira, 29 de junho de 2011

O desmonte da Líbia

Um banquete de mendigos

Vijay Prashad
27/6/2011, Vijay Prashad, Counterpunch 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Os quartéis-generais da OTAN partilham, com as cavernas da Al-Qaeda, o erro da húbris. O jihadis crêem que os seus mujahideen em farrapos expulsaram a União Soviética do Afeganistão. Nada, na visão de mundo dos jihadis permite que aceitem partilhar a mesma glória com os EUA, os sauditas e os paquistaneses, muito menos com as cupins econômicos que corroeram o coração da base industrial soviética. 

Praticamente do mesmo modo, os estrategistas da OTAN crêem que sua campanha de 78 dias de bombardeio libertou o Kosovo das garras dos soldados de Slobodan Milosevic. Nos relatórios da OTAN arquivados em Bruxelas não se encontra nem uma linha sobre a importância do que fizeram os russos naquela guerra, quando retiraram o apoio que davam a Milosevic e o deixaram “olhando estrelas” – como se lê em sua famosa invocação da Batalha do Kosovo de 1389. 

A verdade é que nem os mujahideen nem os bombardeiros da OTAN são, cada um por si, capazes de vitórias militares com real impacto político. Uma escaramuça aqui, um bombardeio acolá, ok. Mas nenhum golpe decisivo capaz de inverter o rumo de um movimento político.

O secretário demissionário da Defesa dos EUA Robert Gates reclama que os europeus não estão assumindo a responsabilidade que deveriam assumir, na campanha da OTAN. Sarkozy da França replica que Gates está deprimido por causa da aposentadoria. Por isso, “usa palavras amargas”. 

Só quando chegam às vésperas da aposentadoria, ou já aposentados, esses sensíveis guardiães-protetores da ordem hierárquica mundial dizem a verdade. 

Eisenhower alertou os EUA contra o complexo industrial militar, mas só no discurso de despedida em 1961. Robert McNamara e James Wolfensohn, ambos presidentes do Banco Mundial, só questionaram as respectivas empedernidas certezas, depois que as portas do Banco fecharam-se às costas deles. Gates sugere que os EUA já não são capazes de usar o poderio bélico para manter uma hegemonia que se esgarça todos os dias: por isso, dependem cada dia mais dos “parceiros” europeus. As naves europeias fazem água, enquanto o sorvedouro grego cresce. A Europa estrebucha.

As críticas de Gates apareceram no momento em que o Congresso produzia sentença confusa, sobre a Casa Branca: não autorizou a aventura na Líbia; não autorizou maior participação dos EUA na operação da OTAN. Mas, ao mesmo tempo, não cortou os fundos necessários para manter a operação lá. Os aviões-robôs [ing. drones] dos EUA podem continuar a operar em conjunto com outras aeronaves de guerra da OTAN para cavar ravinas entre os bairros civis de Trípoli. Muitos no Congresso temem que, além do impasse que cresce na Líbia, cresçam também as pressões que a claque humanitária-intervencionista (Samantha Powers, Susan Rice) e Telavive fazem sobre Obama, para que endureça contra a Síria e, talvez, também contra o Irã. “Será que já não estamos metidos em guerras que cheguem?! – perguntou Dennis Kucinich (D-Ohio). – “Inventaremos agora de fazer guerra contra mais uma nação que não nos atacou?!”

A discussão sobre tecnicalidades legais do “War Powers Act” dará em nada. Poucos presidentes dos EUA algum dia deram atenção àquela lei. 

Mais importante e mais significativa, isso sim, é a quebra do consenso em torno da doutrina da guerra perpétua que governa a economia política dos EUA: dinheiro dos cidadãos-contribuintes queimado em guerras sempre gera os estímulos econômicos de longo prazo de que são feitas as reeleições; mas dinheiro investido no lado social do livro-caixa é considerado “dinheiro morto”. 

Por essa brecha, bem aí, vem Wen Jiabao, o premiê chinês, com “How China Plans to Reinforce the Global Recovery" (Os planos da China para reforçar a recuperação global”, 23/6/2011, Financial Times). Wen paga para ver. A China está a postos, mas não, ainda, para assumir sozinha os desafios políticos. A China tentará operar através do grupo BRICS (Brasil-Rússia-Índia-China-África do Sul).

Um banquete de mendigos

Os 12 mil ataques da OTAN e os 2.505 alvos atingidos nada conseguiram, do objetivo de impedir que o regime de Gaddafi continue a trabalhar para afirmar-se. O exército da Líbia continua a atacar Misrata, a cidade do perpétuo medo. A linha da fronteira entre leste e oeste da Líbia permanece inalterada. O regime de Bashar al-Assad da Síria talvez caia antes que o de Gaddafi. A filha de Gaddafi, Aisha, já iniciou em Bruxelas o processo contra a OTAN pelo assassinato de sua irmã Mastoura, de um irmão e de dois netos de Gaddafi. Depois do ataque de 30 de abril último, o ministro russo das Relações Exteriores disse que “a destruição física de Gaddafi e de membros de sua família impõe sérias considerações”. 

O almirante da Marinha dos EUA Samuel Locklear disse ao deputado Mike Turner em maio que as forças da OTAN trabalham para assassinar Gaddafi (ou, em termos mais contidos, como Turner relatou, “o escopo da proteção civil está sendo interpretado de modo que admite a remoção da cadeia de comando do exército de Gaddafi, o que inclui o próprio Gaddafi”). Gaddafi luta cada dia com mais astúcia. Com tudo a perder, está decidido a insistir.

O tempo trabalha a favor de Gaddafi. A cada dia que passa, mais detalhes do golpe de propaganda da OTAN vêm à tona. 

Donatella Rovera (da Anistia Internacional) passou três meses na Líbia, investigando várias acusações. Em relatório, diz agora que a maioria das acusações são absolutamente falsas, forjadas. Uma dessas, e não pequena nem acusação nem falsidade, é a acusação de que Gaddafi estaria distribuindo Viagra aos soldados, para “animá-los” a estuprar mulheres em massa (acusação que Luis Moreno-Ocampo, da Corte Criminal Internacional da ONU, repetiu como se fosse fato). Há vários outros crimes em andamento, como bombardeio militar de áreas civis, mas são cometidos tanto pelos soldados líbios como pelos jatos bombardeiros da OTAN. Nem um lado, nem outro está em posição de julgar seja lá quem for, no campo moral.

A guerra da OTAN na Líbia já nada tem a ver com a Resolução n. 1973 da ONU e seu pressuposto filosofado (a Responsabilidade de Proteger Civis). O relatório de 6 de junho do International Crisis Group (“Making Sense of Libya”) declara com todas as letras que ninguém, por lá, parece preocupado com os civis, dado que a crise dos refugiados explode sem qualquer controle e o número de civis mortos só aumenta. Ninguém criou qualquer “corredor humanitário” em nenhuma das duas metades do país, para permitir que os civis tentem salvar-se do que já é, plena e completamente, guerra civil. A situação é vergonhosa.

O impasse afeta o moral em Benghazi. As potências do Atlântico não avançam e os Estados do Golfo pouco dão, o que deixa o Conselho “de Transição” preso entre estacas apertadas. Mas o vice-presidente do Conselho, Abdel Hafiz Ghoga, cantou canção diferente dia 25 de junho, quando esperava nova proposta política de Gaddafi. “Queremos preservar a vida. Queremos por fim a essa guerra o mais rapidamente possível. Temos algum espaço aberto para negociar”. O “espaço aberto” não existe nem nunca existiu, mas o que conta é o sentimento: Gaddafi está encurralado entre as bombas da OTAN e a condenação comandada por Ocampo. Os dois andares da cobertura Novotel Hotel em Jeddah (Arábia Saudita), onde Idi Amin foi acolhido, já não estão para alugar. E Chávez, da Venezuela, já voltou atrás, da oferta de casa e comida no Palácio de Miraflores. De importante e significativo, é que Ghoga dá sinais de que até a liderança em Benghazi, apesar dos firmes laços que a une a Paris e Langley, já percebeu que lhes servem, na Líbia, a todos, um banquete de mendigos, só de comidas sem gosto.

Até o International Crisis Group já chegou à conclusão de que “um acordo político é, sem qualquer dúvida, a melhor solução para a difícil situação criada pelo impasse militar”. Os dois lados devem aceitar um cessar-fogo imediato, a ser monitorado pelos soldados dos batalhões de paz da ONU que já estão por lá. Não se cogita de negociações diretas entre Benghazi e Tripoli, mas uma terceira parte poderia mediar o acordo. Não se cogita de essa terceira parte ser uma das potências do Atlântico – que não gozam da confiança de nenhum dos lados em confronto. 

Segundo o relatório do Crisis Group, “Iniciativa política conjunta da Liga Árabe e da União Africana – a primeira, preferida da oposição; a segunda, do regime – é uma possibilidade, para conduzir um acordo de paz”. Há base para esse diálogo, construída nas visitas do “Painel Líbia”, da União Africana, a Trípoli e Benghazi; e no trabalho do Enviado Especial da ONU à Líbia, o jordaniano Abdul Ilah Khatib (famoso por ter dito das potências do Atlântico, que “Só quando há uma crise, elas [as potências do Atlântico] percebem que têm de fazer alguma coisa.” Mas, como também se lê no relatório do Crisis Group, nada disso servirá para coisa alguma “se os líderes da revolta e a OTAN não repensarem suas atuais posições.”

A União Africana vai reunir-se na Guiné Equatorial no próximo dia 30/6. O presidente do “Painel Líbia” da União Africana, o presidente da Mauritânia Mohamed Ould Abdel Aziz já declarou que “Gaddafi não pode continuar a governar a Líbia”. Mas a União Africana, diferente da OTAN e de Benghazi, não imporá a saída de Gaddafi como precondição para negociar. A ideia de que “Gaddafi tem de sair”, como diz o Crisis Group, é receita para truncar qualquer diálogo. É bem provável que as negociações resultem em fim do reinado de Gaddafi; mas, se acontecer, será como resultado possível de negociação entre os dois lados. Uma reunião preparatória para o Painel da União Africana, dia 26/6, não sugeriu nenhuma ideia diferente dessa. O problema não é esse. O problema é que o mapa do caminho que a União Africana já traçou só funcionará se a OTAN afastar-se da Líbia.

E então? Será que a OTAN e as potências do Atlântico admitirão que os países dos BRICS e da União Africana assumam o manche? 

A Guerra Fria acabou no exato momento em que o projeto do Terceiro Mundo foi derrotado. Durante os anos 1990s, os países da África, Ásia e América Latina tentaram desenvolver um novo conjunto de instituições que neutralizassem as potências do Atlântico como potências dominantes. O Movimento dos Não-Alinhados formou o Grupo dos 15 (G15), depois estreitado para formar o bloco IBSA (Índia-Brasil-África do Sul), que hoje é o bloco BRICS.  

Os BRICS já se candidatam à governança planetária, com plataforma muito mais decididamente multipolar e policêntrica que a das velhas potências do Atlântico. A União Africana agiria muito mais como agente dos BRICS que de Washington e Paris. A Líbia é um bom teste, no processo de transferência de poder, do moribundo G-7, para a formação mais robusta e potente dos BRICS. Mas as potências do Atlântico tentam impedir que aconteça. Por isso, estão trabalhando no desmonte da Líbia.

Doutrina Monroe e Doutrina ONU & OTAN

*José Flávio Abelha

James Monroe
A Doutrina Monroe surgiu de uma mensagem do presidente norte-americano James Monroe, em 1823. Visando evitar quaisquer interferências de países europeus na América, ficou estabelecido como princípio de direito e regra de governo que:

“Os continentes americanos, pela posição livre e independente que tinham assumido e mantinham, não poderiam mais ser considerados como domínio próprio para futura colonização por nenhma nação europeia”.

A mensagem também aludia à possibilidade das potências européias estenderem seu sistema político à América, considerando tais atos como “... ameaçar a paz, segurança e integridade dos Estados Unidos da América.

Surgiu dessa Doutrina a frase sintetizadora de todo o pensamento dos EUA, face qualquer problema que interfira nas suas relações com os demais países do continente americano...

A América para os americanos!

Ruy Barbosa
O argentino PANTOJA citado por RUI BARBOSA (1) assim se refere à Doutrina Monroe:

La América para los Americanos, quiere decir en romance: la América por los Yankees, que suponen ser destinados manifestamente a dominar todo el continente hasta Magallanes, puesto que South-América para ellos es algo semi-selvage”.


Mais adiante RUI compõe um rodapé que merece maior divulgação, pela sua importância:

“Mr. Evarts, publicista, jurisconsulto, senador federal nos EUA, onde era um dos homens de reputação nacional descobre, assim, as tendências americanas dissimuladas no “monroísmo”: A Doutrina de Monroe é, decerto, boa coisa; mas, como todas as boas coisas, quando envelhecem, necessita ser reformada. Essa doutrina resume-se nesta frase: A América para os americanos. Ora, eu proporia com prazer um aditamento: Para os americanos do norte. Comecemos pelo nosso caro vizinho, o México, de quem já comemos um bocado em 1848. Tomemo-lo. A América Central virá depois, abrindo-nos o apetite, para quando chegue a vez da América do Sul”.

O presidente Buchanan, na sua mensagem de 7 de janeiro de 1857, dizia ao Congresso:

“Está no destino da nossa raça o estender-se por toda a América do Norte; o que se verificará dentro em breve, se os acontecimentos seguirem o seu curso normal (...). A América Central, em pouco tempo, conterá uma população americana, que trabalhará para o bem dos indígenas”.

O senador G. Brocon tinha, em 1858, esta linguagem:

“Temos interesse em possuir Nicarágua. Temos manifesta necessidade de nos apossarmos da América Central e, se a tivermos, o melhor é entrarmos logo como donos daquelas terras. Se os seus habitantes quiserem um bom governo, tanto melhor. Se não, que se mudem. Digam-me embora que há Tratados. Que importam Tratados se precisamos da América Central! Apoderemo-nos dela; e, se a França e a Inglaterra quiserem intervir, avante ó Doutrina Monroe”. (Eduardo Prado: Ilusão Americana, pp. 61-8).

Como que seja, porém, há um esquecimento capital nos excessos da “monroelatria”; não sabem esses inimigos da influência européia que a própria doutrina de Monroe devemo-la à Europa absolutista (J.B. Alberdi: Intereses, peligros y garantias de los Estados del Pacífico em las regiones orientales da la America del Sur, XXVI, Obras Completas, vol. VI p.495).

A declaração de Monroe, como o Congresso do Panamá, foi inspiração da política de Canning, o célebre Ministro inglês, em defesa da independência americana contra a Santa Aliança.

Para completar, surge em 1904 o “Corolário de Roosevelt” (Theo) à Doutrina de Monroe:

Se uma nação mostra saber como agir com razoável eficiência e decência em questões sociais e políticas, se mantêm a ordem e paga seus compromissos, não precisa temer interferência dos EUA. O mau procedimento crônico ou uma impotência que resulte na frouxidão geral dos vínculos próprios de uma sociedade civilizada, seja na América ou alhures, exigem, em última instância, a intervenção de alguma nação civilizada e, no hemisfério ocidental, a adesão dos EUA à Doutrina Monroe poderá forçar este país, ainda que com relutância, ao exercício dos poderes de política internacional, nos casos flagrantes de tal má conduta ou importância”. (2)

Esse “na América ou alhures” do Corolário Roosevelt, desde 1904 até agora vem se ampliando de forma avassaladora. Podemos deixar de lado as intervenções do passado recente ou não e olhar o presente. Quantas “intervenções” alhures os EUA têm feito atualmente? Em nome do quê?

Temos agora a ONU & OTAN fazendo coro aos ditames da super potência e decidindo acatar de joelhos o que determinam a “Doutrina” e o seu Corolário.

É certo, todas as ocasiões em que o Tio Sam, “ainda que com relutância”, força um país a comportar-se de acordo com a sua filosofia, sua cultura, sua religião, seus costumes... e seu comércio internacional, faz uma tremenda lambança e sai com o rabo entre as pernas, mas sempre há uma outra nação ou seu mandatário que, sob a ótica da “Doutrina”, não está “se comportando bem”. Em casos assim, para os EUA, o amigo de ontem passa, hoje, a ser o inimigo nº 1 e, tentando não se expor em demasia, manda a ONU & OTAN agir com a sua força, física ou não, determinando embargos, sabotagens, assassinatos, bombardeios, saques de depósitos em bancos internacionais, tudo em nome da correção de rumo, da “democracia e dos bons costumes”. Os civis que se protejam porque as bombas com baixo de urânio empobrecido são detonadas visando tão somente destruir as forças armadas do governo que não está se comportando... bem como, corolariamente, envenenando e deformando a população civil.

Tudo, em nome da democracia.

Nesse vale tudo, vale financiar mercenários, destruir “sem querer” residências, colégios e hospitais, bombardeando tudo e todos, não importando se crianças, velhos e mulheres que nada têm com uma guerra não declarada. O fogo amigo é justificado pelo “descuido de programação”, ou “erro de cálculo” ou mesmo “dano colateral” visto que os aviões não são tripulados (drones) e sim dirigidos por satélites, e computadores não tem qualquer sensibilidade, nada enxerga. Cumpre o programado. Depois, uma desculpa e uma declaração hipócrita de algum militar que promete enviar “ajuda humanitária”.

É preciso ter-se em mente que a “Doutrina Monroe” foi elaborada para ser aplicada na nossa América, depois, visando “alhures”, e esse “alhures” já rompeu as fronteiras européias e se localiza, hoje, no Oriente Médio, Asia Central... e alhures!.

E nós não estamos isentos dessa praga.

Será que teremos de consultar os gringos se explorar o pré-sal é um comportamento que se adequa aos ditames “da matriz?” E o etanol? E mais tudo que estamos produzindo agora em escala mundial?

Simples hipótese? Ledo engano!

Um diretor da VALE , segundo um “cable” vazado por WikiLeaks, queixou-se ao embaixador dos EUA em Brasília, sobre a implicância de Lula com a empresa, visto o então Presidente desejar que ela produzisse bens que agregassem valor e não exportar matéria prima bruta para, no futuro, importarmos aço e outros produtos acabados. Foi o noticiário de 28/6/11, através da publicação de um informe da agência “Pública” que traduziu e comentou este e outros documentos obtidos pelo Wikileaks sobre essa verdadeira obediência ao país governado pelo Obama.

Diante da maligna Doutrina e seu Corolário, resta alertar:

Te cuida, Zé Brasil! 


Notas de rodapé:
[1]. BARBOSA, Rui, Cartas de Inglaterra, Livraria Editora Ipanema, São Paulo, SP.2a.ed. 1966
[2]. LEUCHTENBURG, William E., O Século Inacabado - A América Desde 1900 (organizador) Trad. De Álvaro Cabral, Zahar Editora, RJ, vol.1, p. 158.

*Mineiro, Inspector of Ecology da empresa Soares Marinho Ltda.. Quando o serviço permite o autor fica na janela vendo a banda passar . Agora, agitante do blog JANELA DO ABELHA. Correspondência e colaboração favor enviar para: jfabelha@terra.com.br
Enviado pelo autor

A Líbia é o nosso futuro

Luís Britto Garcia

25/6/2011, Blog de Luis Britto Garcia, Venezuela - Luís Britto Garcia
Traduzido pelo pessoal do Plisnou


1 Nenhum homem é uma ilha; a morte de qualquer pessoa me atinge, pregava John Donne. Nenhum país está fora do planeta: o genocídio cometido contra um povo me assassina.
Tudo o que acontece na Líbia me fere, te machuca e nos afeta.

2 Falemos como homens e não como chacais ou monopólios de informação/comunicação. A Líbia não está sendo bombardeada para proteger a sua população civil. Nenhum povo é protegido lançando-lhe explosivos, nem despedaçando-o com 4.300 ataques “humanitários” durante mais de cem dias. A Líbia é incinerada para lhe roubarem seu petróleo, suas reservas internacionais, suas águas subterrâneas. Se o latrocínio triunfa, todo os países com seus recursos serão saqueados.
Não perguntes sobre em quem caem as bombas: cairão sobre ti.

3 Encarceraram os comunistas; não me importei porque não sou comunista”, ironizava Bertold Brecht. O Conselho de Segurança da ONU aprova uma zona de “exclusão aérea” a favor dos divisionistas líbios, mas permite um bombardeio infernal; a China e a Rússia se abstêm de vetar a medida porque como não são líbios nada poderia importar-lhes menos. De imediato os Estados Unidos ameaçam a China com a declaração de uma “moratória técnica” da sua impagável dívida externa e agridem o Paquistão. A China replica que “toda nova ingerência dos Estados Unidos no Paquistão será interpretada como ato não amistoso” e arma o país islâmico com cinquenta caças JF-17.
Nenhum povo está fora da humanidade: se não proibires a agressão contra outro povo, a desencadeias contra ti e teu povo.

4 Tolstoi contava que um urso ataca dois camponeses: um sobre a uma árvore, cedendo ao outro o privilégio de defender-se só. Este vence e conta que as últimas palavras da fera foram: “Quem te abandona não é teu amigo”. A Liga Árabe, a União Africana, a OPEP trepam a árvore da indecisão esperando a vez de serem esquartejadas.
Ao abandonar as vítimas abandonas a ti mesmo.

Resultado do "bombardeio humanitário"
5 Tal como nos tempos em que o fascismo assaltava a África, hoje a Itália, Alemanha, Inglaterra, França e outros pistoleiros da OTAN sacrificam armamentos e soldados numa guerra que só favorecerá os Estados Unidos. Impedido pelo seu Congresso de investir abertamente fundos no conflito, Obama queixa-se dos seus cúmplices da OTAN porque sacrificam à despesa militar menos de 2% dos seus PIB e ordena-lhes que imolem pelo menos 5% (“El futuro de la OTAN”, Editorial El País, 15/06/2011). São instruções inaplicáveis quando o protesto social, a crise financeira, a dívida pública impagável e o próprio gasto armamentista minam os governos do G-7. Perante tais exigências, a Itália opta por não participar mais dessa súcia criminosa.
A Agência Internacional autoriza a gastar das reservas que não tem 60 milhões de barris de petróleo em dois meses. Os Estados Unidos desbaratam em 2010 uma despesa militar de 698 bilhões de dólares, 43% do total mundial de 1,6 trilhões de dólares (Confirmado.net 17/06/2011). Assim se dilapidam em forma de morte os recursos que deveriam salvar vidas.
Se construíres guerras para devorar o outro, as guerras te devorarão a ti.

6 Como na época de Ali Babá e os quarenta ladrões, os banqueiros internacionais que tão benevolamente receberam 270 bilhões de dólares em depósitos e reservas da Líbia assaltam o butim e estudam trespassá-lo àqueles que tentam assassinar os legítimos donos. Também criam para os monárquicos de Bengazi um banco central e uma divisa própria.
São os mesmos financistas cujo latrocínio custa à humanidade o atual colapso econômico: não perguntes a quem os banqueiros roubam: assaltam a ti.

7 No estilo das blitzkrieg nazis, o presidente dos Estados Unidos inicia guerra sem a autorização dos seus legisladores e prolonga-as ignorando o Congresso, onde dez deputados denunciam o presidente e o secretário da Defesa cessante Robert Gates e vetam os fundos para a agressão contra a Líbia tachando-a de ilegal e inconstitucional.
Não verifiques se deves impor a tiros a democracia a outros povos: acaba antes com os vestígios que restavam dela no seu próprio país.

8 Cada homem é peça do continente, parte do todo, insiste John Donne. Os inimigos do homem não cessam de fragmentá-lo para destruí-lo melhor. Os impérios, que são quebra-cabeças instáveis de peças juntadas à força, no exterior fomentam ou inventam o conflito de civilização contra civilização, o rancor do iraniano contra o curdo, do xiíta contra o sunita, do hindu contra o muçulmano, do sérvio contra o croata, do descendente contra o ascendente, do ancestral contra o menos ancestral, do líbio contra o líbio, do venezuelano contra o venezuelano. De cada variante cultural pretendem fazer um paisinho e de cada paisinho um protetorado. Quem nos separa nos faz em pedaços, quem me divide me mutila.
Não indagues como despedaçam a Líbia: esquartejam a ti.

9 Toda pilhagem arranca com promessa de golpe fácil e atola-se na carnificina insolúvel. As guerras do Afeganistão, Iraque, Líbia, Iêmen e a agressão contra o Paquistão arrancam passeios triunfais, espatifam-se em holocaustos catastróficos e nenhuma conclui, nem se decide. A resistência dos seus povos retarda a imolação da qual não te livrarão, nem vetos omitidos, nem organizações abstencionistas, nem banqueiros cartelizados, nem Congressos olvidados.
Não perguntes por que são assassinados os patriotas líbios: estão morrendo por ti.  

terça-feira, 28 de junho de 2011

Fim de festa



Publicado em 28/6/2011 por Urariano Mota.

- Deus não está do nosso lado – João fala.

- Ainda acredita em Deus? – Vevê pergunta.

- Que pergunta! – João responde. – Se existe ou não, Ele não está do nosso lado. Isso é o que importa.

- Fecho – Miro diz. – Há muito que Deus não está por nós. Às vezes está conosco, mas é contra nós. 

- Eu sinto Dele um desprezo solene – João fala. – Não se trata nem de ser contra. O problema é que de nós Ele nem toma conhecimento. Somos uns grãozinhos sem significação. Com tantas estrelas no infinito, nós somos menos que grãozinhos de pó. Poeirinha de matéria dispersa, só. O meu pau, o meu pênis, vai se esfarelar. O meu cérebro é toucinho que se dissolve. O que é que fica do toucinho quando uma bomba se acende? Devíamos viver em permanente bebedeira. Que diferença faz entre o nosso ser inútil e o inútil bêbado? Quando chegar a minha hora eu quero estar bêbado.

- Eu prefiro estar lúcido – Miro fala. – Se eu fosse fuzilado, no muro, eu queria estar sem a venda nos olhos. Ia ser o meu último gole. Um gole duro de engolir, mas seria o último. É o último. A dor é vital, entende? A gente não pode deixar de senti-la, pra ser vida.

- E pra quê existe a anestesia, Miro? – Vevê pergunta, querendo sorrir. – Por que é que inventaram a anestesia? Pra morrer, se eu pudesse mandar alguém em meu lugar, eu mandaria.

- Vevê, isso não é muito digno – Miro diz. – Eu te conheço: não tás falando sério.

- Eu não sei se estou brincando – Vevê responde.

- Falar é fôlego – João diz. – Lorca se borrou. Morreu obrado, é o que dizem.

- Eu já li isso – Miro diz. – Mas pode ter sido também da dor. Ou pode ser até mesmo uma invenção dos fascistas de Franco. Pode ser. Mas isso não diminui a grandeza de Lorca.

- Salpica, salpica – João fala a sério. – Pra quê negar?

- Eu não sei – Miro fala, com um movimento na perna cruzada, para evitar um muxoxo nos lábios. – Eu não sei. Eu diria que isso até deixa o poeta mais perto de nós.

- É verdade – João assente. – Mas isso também mostra que nós temos uma exigência baixa. Que esperamos de nós próprios um comportamento sem heroísmo.

- Pode ser – Miro diz. – Mas a gente não pode perder a esperança de ser um pouquinho melhor do que a gente sabe que é.

- Eu respeito muito vocês – Samuel fala. E se cala, perturbado.

- Fala, Samuca – Vevê provoca. – Desembucha.

- Besteira – Samuel diz. – Eu tava ouvindo e pensando, será que João está certo? Será que tudo pelo que lutamos é inútil? Será que toda nossa luta é inglória, é em vão? Porque, se for, então essa luta da gente é delírio. Eu vou ficar muito puto. Eu não acredito nem posso acreditar que seja dessa maneira. Porra, a gente vai afundar, feito macaco. Quando vem a cheia, o macaco sem saída afunda tapando os olhos. E a gente veio pra ser macaco, porra?

- Entre o macaco e o delírio – João diz,  – tem que haver um meio termo. Um termo justo. Tem que haver. Ou do contrário o melhor é cair na anarquia, na farra sem medidas.

- É uma proposta – Miro fala, sério. – Não sei, eu não abraço, mas é uma proposta.

- Assim, meu caro… – Samuel diz, com a voz embargada. – Assim não existe futuro. Desse lado não existe futuro. Desse lado vamos terminar ficando doidos.

- A inteligência está em nós, companheiro – Miro fala. – A nossa consciência faz com que a gente resista à loucura, entende?

Samuel cala. Tem medo de dizer “eu tenho visões”, para que não concluam, “estás ficando louco”, e mais adiante afirmem, “isso é porque a tua consciência não é boa”. Ele não está bêbado, nem lhes tem tamanha confiança para se desnudar tão íntimo. No entanto uma visão o assalta, e por isso diz:

- Prefiro este meu caminho. E eu não tenho outro. É um caminho de rosas brancas, eu passo entre elas, e vou me furando de espinhos. No fim do caminho parece que está uma bomba. Vai explodir em cima de mim. Mas eu não tenho outro. Porque, se não fosse o socialismo, eu já estaria bem morto antes.

Os outros rapazes ficam em silêncio.

 Eu venho da Ladeira do Sapoti – Samuel continua. – Vocês sabem o que é viver naquela ladeira? Não sabem. É querer sair, pra atingir no máximo Beberibe. Vocês sabem o que é viver em Beberibe? Ter somente o Beberibe como horizonte? É morrer com o fígado inchado, esperando o céu de Jesus como paga.

- E se nós tivermos outro Jesus? – João pergunta, num impulso, que Samuel recebe como um insulto:

- Quê, que Jesus?

- E se o socialismo não for outro Jesus? – João insiste.

- Conversa, João – Samuel responde. – O socialismo existe, é concreto. Está aqui, ó, na palma da mão da gente. Nós é que fazemos o socialismo.

João se cala. A manhã vem chegando. A conversa prossegue numa interiorização que se aprofunda.

Naquela manhã , ao atingir a Suassuna, João estragou o sapato chutando muros dos jardins de casas na avenida. Miro, mais sereno, acompanhou aquela angústia como um personagem que tudo vê, num pesadelo. Aquela angústia também era sua, mas amenizada, por temperamento e crença. Vevê ficou em casa, para dormir. Terminou por “furar um ponto”, às onze horas do dia. Samuel, nem feliz nem contente, apenas dizia, “João, João” e não sentia em si forças para conter aquele assalto de desespero. O certo é que todos tinham os olhos vermelhos, marejados, e os corpos dissolutos. Cada um guardava no íntimo, e sabiam que este era um segredo comum, que não se diziam: vida, tu és amarga.

 ***

*Do romanceOs corações futuristas”.

Urariano "in labor"
Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista; publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife,  Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às  terças. 

Alguns dos seus trabalhos podem ser lidos na redecastorphoto utilizando a tag Urariano na barra Pesquisar este blog

Enviado pelo autor

Pepe Escobar: De crimes contra a humanidade

Pepe Escobar

28/6/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

PHNOM PENH – A foto não datada, que se vê no Centro de Documentação do Cambodia[1],é assustadora, de tão ‘normal’: ao lado de um Mercedes preto, fazendo pose de descontraídos, todo o alto comando do Khmer Rouge [2]. Veem-se o “Irmão número 1” Pol Pot, seu braço direito Nuon Chea, Ieng Sary, Son Sen e Vorn Vet. É ao que se referia Hannah Arendt, quando denunciou a “banalidade do mal”. 

Na 2ª-feira, 20 de junho, num prédio especialmente construído para esse julgamento nos arredores de Phnom Penh, aconteceu a audiência inicial do “Tribunal Khmer Rouge”[3], para a qual foram convocados alguns dos personagens mais publicamente amaldiçoados da história mundial recente – entre os quais o “Irmão número 2” Nuon Chea e o relativamente sofisticado ‘ministro de Relações Exteriores’ Ieng Sary, que convenceu diplomatas norte-americanos e europeus de que o Khmer Rouge tentava apenas construir uma nova sociedade agrária; o que implicaria a necessidade de promover a matança ritual de mais de dois milhões de cambodianos, num holocausto asiático do século 20. 

Sary já admitiu, em audiências anteriores do Tribunal, que o Khmer Rouge trabalhara para reduzir a população do Cambodia, de 7 milhões para 1 milhão de habitantes, mais do que suficientes para realizar seu sonho agrário – que foi exposto em termos teóricos e conceituais por Khieu Samphan em tese defendida na Sorbonne, muito elogiada pelos franceses à época. 

O anjo da história interveio, quando o Vietnã derrotou o Khmer Rouge em janeiro de 1979 – o que desagradou muitíssimo à Washington da Guerra Fria, que adiante ofereceu ao mundo o lastimável, vergonhoso espetáculo de apoiar o Khmer Rouge na ONU. 

O Cambodia é hoje governado por um dos chamados “ditadores democráticos” – o esperto Hun Sen –, que tomou as necessárias providências para que seus ex-colegas do Khmer Rouge fossem julgados por seus crimes contra a humanidade. E Hun Sen fez tão bem feitas as coisas – e com o Cambodia hoje incluído entre os 10 países da Associação das Nações do Sudeste Asiático [ing. Association of Southeast Asian Nations] e alvo de investimentos chineses massivos –, que seu país absolutamente não corre o risco de ser libertado pela OTAN e está a salvo de qualquer guerra humanitária. Hun Sen é um dos “nossos” filhos da puta, ou equivalente. 

Mesmo assim, duas gerações de Khmers – que no passado construíram império dos mais sofisticados da Ásia – continuam a esperar que um tribunal patrocinado pela ONU aplique medidas de alguma justiça contra o Khmer Rouge. Há poucos indícios de que algum dia aconteça. Hun Sen decidiu que esse será o último julgamento pelo qual passará o Khmer Rouge. 

Só Duch – conhecido torturador que dirigiu a horrenda prisão do Khmer Rouge em Tuol Sleng – já foi julgado e condenado no julgamento conhecido como “Caso 001”. Pol Pot já planejara a própria saída estratégica, por morte, em 1998. 

Algumas das acusações contra Nuon Chea, Ieng Sary e sua mulher, também da alta hierarquia do governo, a ministra da Ação Social Ieng Thirith, zombam do Holocausto promovido pelo estado e pelo governo de que participaram: o casal é acusado, dentre outras coisas, de ter sequestrado e assassinado velejadores norte-americanos e pescadores vietnamitas. Chea, 84 anos, e Sary alegam que estão velhos e doentes. Sary chegou a obter o perdão do então rei Norodom Sihanouk em 1996, depois de condenado à revelia pelos vietnamitas, em 1979. Khieu Samphan sempre tomou todas as necessárias providências para sempre estar doente demais para ser julgado. 

Não haverá audiências substanciais no “Caso 002”, pelo menos, nos próximos vários meses. A parte boa, até agora, é que as audiências da semana em curso estão sendo televisionadas e retransmitidas ao vivo para o Reino. Mas ninguém sabe se Chea, Sary e outros falarão durante as audiências, ou se colaborarão com o tribunal. Chea petulantemente tirou os imensos óculos escuros no Tribunal, na 2ª-feira, para dizer que “Não estou feliz com essa audiência”. E deixou os detalhes, para os advogados. 

Have war will travel (A guerra como tarefa)

É uma tentação deixar esvair-se a perspectiva histórica, nessa Phnom Penh barulhenta, entre os jovens graduados e plugados que bebericam mojitos pelos bares de frente para o rio Tonle Sap, entre os fulgurantes prédios-sedes das empresas comerciais panasiáticas. Mas é impossível não associar diretamente o Khmer Rouge e o Império Americano. 

Foi a guerra ilegal de Richard Nixon no Cambodia – hoje, seria “Viet-Cam”, guerra avó da atual guerra “Af-Pak” –, somada ao apoio a outro ditador pirado, Lon Nol, contra o rei Sihanouk, que criou as condições para que o Khmer Rouge crescesse e tomasse o poder em 1975. A vitória do Khmer Rouge aconteceu praticamente no instante em que o último helicóptero dos EUA escapulia, coberto de vergonha e desgraça, de Saigon. 

Washington não deu qualquer atenção ao holocausto de asiáticos e ainda reclamou depois, quando o Vietnã derrubou o Khmer Rouge. 

O que nos leva aos caminhos circulares pelos quais se move o Império: os Khmers representam esses caminhos do Império, na imagem de uma cobra que come o próprio rabo. 

Basta lembrar esse eterno guerreiro da Guerra Fria, o secretário de Defesa dos EUA Robert Gates, que, recentemente ainda argumentava que o fracasso no Afeganistão é “inaceitável”, por maiores que venham a ser os custos da guerra (exatamente como o fracasso dos EUA no Vietnã também foi “inaceitável”). 

Pensem em Gates, falando à revista Newsweek: “Vivi toda a minha vida adulta nos EUA-superpotência. E superpotência que nunca se incomodou com gastar o que tivesse de gastar para manter-se superpotência”. Nenhum agente do Império, dos que papagueiam a Voz do Dono, será jamais mais claro que Gates. E ele disse mais: “Francamente, não consigo acreditar que faço parte hoje de uma nação e de um governo (...) que estão sendo forçados a reduzir dramaticamente nosso engajamento com o resto do mundo”. 

“Engajamento” significava expandir ilegalmente a guerra, do Vietnã para o Cambodia, e criar as condições necessárias para um holocausto asiático. 

“Engajamento”, hoje, significa expandir ilegalmente a guerra, do Afeganistão para o Paquistão, e semear caos extra no sul da Ásia. 

“Engajamento” significa expandir ilegalmente mais uma guerra ilegal para o norte da África, contra a Líbia, e semear caos extra no norte da África.

“Engajamento” significa deixar que a Casa de Saud suborne todos os que encontre, espalhando sua força reacionária, contrarrevolucionária, por todo o Oriente Médio e norte da África [ing. Middle East/Northern Africa, MENA). 

Se se consideram essas “realidades em campo”, Nuon Chea, assassino serial, que matou em massa, bem pode ter alguma razão. Ontem, ele disse que “Pessoalmente, eu só tentava implantar o sonho de uma sociedade agrária igualitária. O Império deveria estar sendo julgado aqui, acusado de crimes contra a humanidade. Não eu”.

É. Acho que o Ano Zero ainda nem começou. 



Notas dos tradutores
[1] Em http://www.dccam.org/Documentation_Center_of_Cambodia.htm (em inglês). Em http://www.dccam.org/Archives/Protographs/Photographs.htm vêem-se várias fotos, mas não localizamos a foto aí comentada.
[2] “Khmer Rouge” (fr.) [“Khmer Vermelho” (port.)] é expressão criada pelo rei Norodom Sihanouk, em seguida adotado em vários idiomas. Designava vários partidos comunistas no Cambodia, que formaram depois o Partido Comunista de Campuchea [ing. Communist Party of Kampuchea (CPK)] e depois o Partido da Campuchea Democrática [ing. Party of Democratic Kampuchea (PDK) [ com informações da mídia].
[3] Para saber detalhes da primeira audiência, ver “A Time of Transparency. Not Sealed Envelopes”, 27/6/2011, Christine Evans (Northwestern University School of Law e International Human Rights), que está acompanhando o julgamento, em inglês.