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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Oposição social na era da Internet: Militantes “de teclado” e intelectuais públicos


James Petras

por James Petras [*]

A relação entre as tecnologias da informação, e mais precisamente a internet, com a política é uma questão central para os movimentos sociais contemporâneos. Tal como outros avanços tecnológicos no passado, as tecnologias da informação (TI) servem um duplo propósito: por um lado contribuem para acelerar os movimentos de capitais (sobretudo de capitais financeiros), facilitando uma globalização imperialista. Por outro, a internet fornece importantes fontes alternativas de análise, assim como uma forma fácil de comunicação, que pode servir para a mobilização dos movimentos populares.

A indústria das tecnologias da informação criou uma nova classe de multimilionários, que se estende de Silicon Valey na California até Bangalore na India. Estes desempenham um papel central na expansão do colonialismo econômico através do controle monopolista que exercem sobre as mais diversas esferas de difusão da informação e do entretenimento.

Parafraseando Marx: “a internet tornou-se o ópio do povo”. Novos e velhos, empregados e desempregados, todos eles passam horas passivamente contemplando espetáculos, pornografia, videojogos, consumindo online e até acedendo a “notícias”, isolados dos restantes cidadãos e trabalhadores.

Em muitas ocasiões, a superabundância de “notícias” na internet, absorve tempo e energia, desviando os “observadores” da reflexão e da ação propriamente dita. Assim como a escassa e tendenciosa informação dos meios de comunicação de massas distorce a consciência popular, o excesso de mensagens na internet pode imobilizar a ação dos cidadãos.

A internet, propositadamente ou não, “privatizou\particularizou” a vida política. Muitos ativistas potenciais foram levados a acreditar que o envio de manifestos a outros cidadãos é um ato político, esquecendo-se que apenas a ação pública, incluindo a confrontação com os seus adversários no espaço público, nos centros das cidades assim como no campo, é a base da transformação política.

As tecnologias da informação e o capital financeiro

Recordemos que o ímpeto original que presidiu ao crescimento das tecnologias da informação partiu das necessidades das grandes instituições financeiras, bancos de investimento e dos especuladores, que pretendiam mover bilhões de dólares, de um país para o outro, de uma empresa para outra, de uma mercadoria para outra, com um simples toque de dedos.

A Internet foi a tecnologia motora do crescimento da globalização ao serviço do capital.

As tecnologias da Informação desempenharam um papel central na precipitação das duas crises financeiras da última década (2001-2002; 2008-2009). A bolha das ações de empresas ligadas às tecnologias da informação em 2001 foi o resultado da promoção e da sobrevalorização das empresas de software, desligadas da economia real. O crash financeiro global de 2008-2009, que se extende até hoje, foi consequência de pacotes computadorizados de ativos fraudulentos e de empréstimos imobiliários sub-financiados. As “virtudes” da internet, a velocidade com que transmite informação, revelaram-se, no contexto da especulação capitalista, um fator determinante da pior crise do capitalismo desde a Grande Depressão dos anos 30.

A democratização da Internet

A internet tornou-se acessível às massas enquanto mercado aberto à exploração comercial, alargando-se posteriormente a usos sociais e políticos, e, mais importante ainda: tornou-se um meio fundamental para informar o grande público da exploração e pilhagem que os bancos multinacionais impunham aos mais variados países e aos seus habitantes. A internet ajudou também a expor as mentiras que subjazem às guerras imperialistas dos Estados Unidos e da União Europeia no Médio-Oriente e no Sul da Ásia.

A internet tranformou-se assim num terreno contestado, numa nova forma de luta de classes, que engloba movimentos pró-democracia e de libertação nacional. Os maiores movimentos e os seus líderes, desde os guerrilheiros no Afeganistão aos ativistas pró-democracia no Egito, passando pelo movimento estudantil chileno e pelo movimento pela habitação popular na Turquia, todos eles contam com a internet para informar o mundo das suas lutas, dos seus programas, da repressão estatal de que são alvos, bem como das suas vitórias. A internet liga as diferentes lutas muito para lá das fronteiras nacionais – é uma ferramenta central para a construção de um novo internacionalismo que faça face à globalização capitalista e às suas guerras imperialistas.

Parafraseando Lenine poderiamos dizer que o socialismo do século XXI pode resumir-se na formula: “os sovietes mais a internet = socialismo participativo”.

A internet e a política de classe

É bom recordar que as tecnologias computadorizadas de informação não são “neutras” – o seu impacto político depende dos utilizadores e ativistas que determinam quem, e que interesses de classe, é que servem.

A internet serviu para mobilizar milhares de trabalhadores na China contra os exploradores corporativistas, na Índia mobilizou milhares de camponeses contra os especuladores latifundiários. Por outro lado, a OTAN utilizou sistemas de guerra fortemente computorizados para bombardear e destruir a Líbia independente. Os Estados-Unidos também utilizaram “drones” para enviar mísseis para matar civis no Paquistão e no Iêmen; ora esta técnica é controlada por uma inteligência computadorizada. A localização da guerrilha colombiana e os bombardeios aéreos utilizam a mesma tecnologia computadorizada. Em suma, as tecnologias da informação podem ter um duplo uso: podem ser utilizadas para a libertação dos povos, mas também podem servir os ataques imperialistas contra-revolucionários.

O neoliberalismo e o espaço público

A discussão acerca do “espaço público” assume frequentemente que “público” é sinônimo de uma maior intervenção estatal em prol do bem-estar da maioria: de uma maior regulação do capitalismo e de uma crescente proteção ao meio-ambiente. Por outras palavras aos atores “públicos” benignos opor-se-iam às forças privadas exploradoras dos mercados.

Num contexto de proliferação da ideologia e das políticas neoliberais, muitos autores progressistas escrevem sobre “o declínio da esfera pública”. Esta perspectiva negligencia o fato de a “esfera pública” ter vindo a ganhar uma importância crescente na sociedade, na política e na economia, beneficiando sempre o grande capital; mais concretamente o capital financeiro e os investidores estrangeiros. A “esfera pública”, neste caso o estado, é muito mais intrusiva na sociedade civil como força repressiva num momento em que as políticas neoliberais aumentam as desigualdades. Graças à intensificação e ao aprofundamento das crises financeiras, a esfera pública (o estado) assumiu um papel fundamental no resgate dos bancos falidos.

Devido aos enormes déficits fiscais provocados pela fuga aos impostos do capital, às despesas com as guerras coloniais e aos subsídios públicos às grandes empresas, a esfera pública (o estado) impõe uma austeridade de classe, cortanto despesas sociais e prejudicando os funcionários públicos, os reformados e os trabalhadores assalariados das empresas privadas.

A esfera pública reduziu o seu papel no setor produtivo da economia. No entanto, o setor militar cresceu com a expansão das guerras coloniais e imperialistas.

A questão fundamental que subjaz a qualquer discussão acerca da esfera pública e da oposição social não é a do seu crescimento ou declínio, mas antes a dos interesses de classe que definem o papel dessa esfera pública.

No contexto do neoliberalismo, a esfera pública está orientada para a utilização do tesouro público no resgate dos bancos, para o militarismo e para uma larga intervenção policial estatal. Uma esfera pública dirigida pela “oposição social” (trabalhadores, agricultores, profissionais, empregados) alargaria o campo de ação da esfera publica no que toca à saúde, à educação, às pensões, ao ambiente e ao emprego.

O conceito de “esfera pública” tem duas faces (como Jano): uma olha para o capital e para o setor militar; a outra para a oposição laboral/social. A internet está também subordinada a esta dualidade: por um lado, facilita grandes movimentos do capital e rápidas intervenções militares imperialistas; por outro, fornece à oposição social um fluxo de informação rápido que permite a sua mobilização. A questão fundamental é a de saber que tipo de informação é transmitida, a que atores políticos ela é transmitida e que interesse social serve?

A Internet e a oposição social: a ameaça da repressão estatal

Para a oposição social, a internet é antes de mais uma fonte vital de informação alternativa crítica, capaz de educar e mobilizar os dirigentes progressistas, os profissionais, os sindicalistas e os líderes camponeses, os militantes e os ativistas. A internet é uma alternativa aos meios de comunicação capitalistas e à sua propaganda, uma fonte de notícias e informações que transmite manifestos e informa os activistas acerca dos locais das intervenções públicas. Graças a este papel progressista como instrumento da oposição social, a internet está sujeita a uma forte vigilância por parte do aparelho repressivo policial e estatal.

Nos Estados Unidos, por exemplo, mais de 800 mil funcionários são utilizados pela policia de “Segurança Interna” para espiar milhares de milhões de emails, faxes e chamadas telefônicas de milhões de cidadãos americanos.

Saber quão efetivo é o policiamento diário de toneladas de informação é outra questão. Mas o fato é que a internet não é uma “fonte livre e segura de informação, debate e discussão”. Com efeito, quanto mais eficaz se torna a internet na mobilização de movimentos sociais que se opõem ao estado imperialista e colonial, mais provável se torna uma intervenção por parte da polícia e do estado com o pretexto de “combater o terrorismo”.

A internet e a luta contemporânea: uma relação revolucionária?

É tão importante reconhecer a importância da internet enquanto detonador de determinados movimentos sociais como relativizar a sua importância global.

A internet teve um papel fundamental na divulgação e mobilização de “movimentos espontâneos”, como o dos “indignados” espanhóis, na sua maioria jovens desempregados e sem filiação partidária, ou na americana “Ocupação de Wall Street”. Noutros casos, como o das massivas greves gerais em Itália, Portugal, na Grécia e em tantos outros sítios, as confederação sindicais organizadas tiveram um papel central e a internet um impacto apenas secundário.

Em países altamente repressivos, como o Egito, a Tunísia e a China, a internet tem um papel fundamental na divulgação de intervenções públicas e na organização de protestos de massas.

No entanto, a internet não levou a qualquer revolução bem sucedida – ela pode informar, ser um local de debate, e mesmo mobilizar, mas não pode oferecer a liderança e a organização necessárias a uma ação política consistente e muito menos fornecer uma estratégia de tomada do poder estatal. Comprova-se assim que a ilusão, alimentada por alguns gurus da internet, de que a ação "computadorizada" pode substituir um partido político disciplinado, é falsa: a internet pode facilitar o movimento, mas apenas uma oposição social organizada lhe pode dar uma direção tática e estratégica capaz de o manter vivo face à repressão do estado e de levá-lo a lutas bem sucedidas.

Ou seja, a internet não é um “fim em si mesmo” – a postura autocongratulatória dos ideólogos da internet, anunciando uma nova época de informação “revolucionária”, ignora o fato de que OTAN, Israel e os seus aliados e clientes utilizam a internet para lançar vírus e destruir economias, para programas de defesa anti-sabotagem e para promover levantamentos étnico-religiosos. Israel enviou vírus danosos para travar o programa nuclear pacífico do Irã; os Estados Unidos, a França e a Turquia instigam, na Líbia e na Síria, uma oposição social capaz de servir os seus interesses.

Em resumo, a internet tornou-se um novo terreno de luta de classes e de luta antiimperialista. A internet é um meio e não um fim. A internet é parte dessa esfera pública, cujos objetivos e resultados são determinados pela estrutura de classe em que se integra.

Comentários finais: “militantes de teclado” e intelectuais públicos

A oposição social é definida pela intervenção pública: pela presença das coletividades nos comícios políticos, pelos indivíduos que discursam em encontros públicos, por ativistas que se manifestam em praças públicas, sindicalistas militantes que defrontam os patrões, pessoas pobres que exigem aos governantes locais para morar e serviços públicos...

Discursar ativamente num comício público, formular ideias e programas, propor estratégias através da ação política, constitui o papel de um intelectual público. Sentar-se a uma secretária num escritório para, num esplêndido isolamento, enviar cinco manifestos por minuto define um “militante de teclado”. Esta é uma forma de pseudo-militância que separa as palavras dos atos. A “militância” de teclado é um ato de inação verbal, de "ativismo" inconsequente, uma revolução mental de faz-de-conta.

A comunicação via internet torna-se um ato político quando se enquadra em movimentos sociais que desafiam o poder. Necessariamente, isto envolve riscos para um intelectual público: desde ataques policiais no espaço público até represálias econômicas na esfera privada. Os “ativistas de teclado" não arriscam nada e pouco realizam. O intelectual público faz a ligação entre o descontentamento dos indivíduos e o ativismo social da coletividade. O professor universitário vem ao local de ação, fala e regressa ao seu gabinete. O intelectual público fala e faz um compromisso pedagógico de longo termo com a oposição social na esfera pública, tanto através da internet como de frequentes encontros diários cara a cara.
20/Novembro/2011

[*] Intervenção como convidado no “Symposium on Re-Publicness”, Patrocinado pela Chamber of Electrical Engineers. Ancara, Turquia, 9-10/Dezembro/2011

Tradução de MQ.

Esta tradução foi extraída de Resistir.

sábado, 26 de março de 2011

EUA: a rua em marcha: Dia Nacional de Agir, 4/4/2011 [1]

Amy Dean

25/3/2010, *Amy Dean, Commondreams
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Dia 4/4/2011, nos EUA, em todo o país, no trabalho, na escola, nas comunidades, nas ruas, vamos nos manifestar e dizer aos eleitos que direitos dos trabalhadores também são direitos humanos.

“Unidos somos fortes. Estamos em todos os lugares”

Michigan? Ohio? Indiana? Ante os inaceitáveis ataques do governador Republicano Scott Walker contra os trabalhadores do setor público em Wisconsin, muitos norte-americanos perguntam-se qual será o próximo estado dos EUA a ser atacado. Mas, se se examinam esses ataques por governos locais ultraconservadores, como batalhas separadas, corre-se o risco de não ver o todo. 

Quem examina o quadro geral vê que os mais recentes golpes da extrema direita dos EUA no plano estadual são parte de uma estratégia coordenada. Somados, os vários ataques contra os cidadãos norte-americanos no plano estadual compõem um movimento nacional.

A manifestação dos trabalhadores do setor 
público em frente ao Capitólio estadual em 
Maryland dia 14/3/2011 em Annapolis-Md, foi 
organizada para protestar contra mudanças 
propostas pelo governador Martin O'Malley's 
(Democrata-Md) para reduzir pensões 
aposentadorias 
(Foto de Mark Wilson/Getty Images).
A estratégia dos governadores conservadores é atribuir toda a responsabilidade pelos complexos problemas econômicos em que os EUA estão mergulhados a três bodes expiatórios: aos professores, aos imigrantes ou aos funcionários públicos.

A mesma tática ‘dos bodes expiatórios’ aparece e reaparece sempre, por uma razão: agarante aos políticos e à imprensa-empresa uma saída fácil. Em vez de ter de enfrentar a substância real de suas respectivas agendas, os políticos conservadores e a imprensa-empresa podem contar história simples, sempre com vilão simples – e o vilão nunca é nem os políticos conservadores, nem a imprensa-empresa nem suas respectivas agendas.

Num momento em que os EUA enfrentam dificuldades tão terríveis, políticos e imprensa-empresa escolhem um determinado grupo para culpar por todas as dificuldades.

Apesar de essa estratégia ser sempre a mesma em todos os estados governados por políticos conservadores, ela é hoje mais ridícula do que nunca. Os problemas econômicos que os EUA enfrentam hoje são terrivelmente complexos. Vivemos em economia global, na qual as fronteiras nacionais que, antes, protegiam a indústria norte-americana já não existem; e os mercados são afetados por decisões econômicas e políticas que se tomam em todo o planeta. Pois mesmo assim, os conservadores norte-americanos insistem em suas soluções simplórias: a culpa por todas as desgraças que assolam os EUA é dos professores, dos imigrantes e dos funcionários públicos.

Escondida por trás dessa premissa absurda, a direita organizou seu ataque. Tenta, em todas as câmaras legislativas estaduais aprovar um conjunto de leis que nada têm com gerar empregos ou fortalecer a economia dos EUA. Em todos os casos, são leis que visam a minar a capacidade dos grupos sociais para organizarem-se coletivamente e influenciar politicamente o resultado das eleições.

Os professores e os funcionários públicos foram escolhidos como alvos preferenciais, porque são os grupos menos organizados de toda a vasta oposição à agenda das grandes corporações e da imprensa-empresa. Foram selecionados como alvos preferenciais porque ainda guardam os últimos vestígios de uma América conscientizada e politizada.

Observadas de longe, as leis que estão sendo votadas em vários estados parecem variadas e diferentes. Mas se se as examinam mais de perto, vê-se que todas são iniciativas de grupos conservadores e podem ser classificadas em três grandes grupos. Essa estratégia de três braços é a estratégia nacional dos grupos conservadores e é por isso que o que parece história estadual é, de fato, nos EUA, uma estratégia nacional.

Primeiro, ao acusar os professores de “trabalhar pouco” e de terem “salários inaceitavelmente altos”, os conservadores trabalham para desmantelar a educação pública. Se se eliminam os direitos de os professores negociarem com o Estado como sindicato e de participar da organização das escolas – como fizeram em Wisconsin – estamos ante o primeiro passo rumo ao fim da educação pública: limparam o caminho para andarem rumo à educação totalmente privatizada e desmontaram a oposição à privatização total da educação nos EUA.

O esforço, dos conservadores na Flórida, de por fim à estabilidade dos professores é parte desse mesmo processo. Assim também, a legislação que está para ser aprovada na Pennsylvania que criará um programa de gastos que tira ainda mais recursos da educação pública. Como se não bastasse, todos esses movimentos surgem no momento em que se implementam nacionalmente “orçamentos de austeridade” para as escolas públicas. Esses movimentos estão em andamento em vários estados dos EUA – inclusive no Kansas, onde o governador Republicano Sam Brownback está retirando mais de 50 milhões de dólares do orçamento público para educação.

Em segundo lugar, em nome de ‘equilibrar’ os orçamentos estaduais, os governadores conservadores procuram minar a capacidade de o setor público prover serviços sociais essenciais. Já há décadas, sucessivos governos conservadores tentam matar de fome o Estado, numa política que chamam de “matar a besta que nos devora”. Atacam os servidores públicos, de modo a entregar os serviços públicos a empresas privadas, para que sejam administrados como empresa e gerem lucros.

John Kasich, governador republicano de Ohio, quer aprovar um orçamento que privatizará todas as prisões. Em Michigan, o governador quer privatizar todos os serviços de apoio às escolas públicas. Na Georgia, a câmara estadual de deputados quer criar uma comissão que examinará todas as agências estaduais, para determinar quais já estariam ‘no ponto’ de ser privatizadas. Em cada um desses casos, o primeiro passo é enfraquecer a representação política e legal dos servidores públicos e fortalecer a posição econômico-financeira e legal das grandes empresas potencialmente compradoras.

Além disso, os conservadores trabalham também para calar a voz política dos imigrantes nos EUA. Apesar de não haver qualquer prova de que algum dia tenha havido votos ilegais de cidadãos irregulares nos EUA, os Republicanos de New Hampshire já apresentaram e trabalham para aprovar uma lei que está sendo chamada de “lei do eleitor nativo” [ing. “Voter I.D. Bill”]. A lei visa a criar novas barreiras à manifestação política dos cidadãos pelo voto e desestimular eleitores registrados a que compareçam a eleições. Infelizmente, a mesma lei já está sendo discutida em várias câmaras estaduais, entre as quais Colorado, Kansas, Massachusetts, Missouri, Tennessee e outros [2].

Cada um desses três braços do ataque dos Republicanos contra a democracia nos EUA é pensado para paralisar um determinado bode expiatório. Nenhuma dessas leis tem qualquer coisa a ver com os verdadeiros gravíssimos problemas contra os quais se debatem os cidadãos nos EUA.

É perfeitamente evidente e claro que essas propostas de lei nada fazem para resolver os verdadeiros problemas. Mas a situação é ainda mais grave, se se presta atenção ao impressionante silêncio do outro lado – silêncio dos políticos, dos líderes políticos, dos governantes eleitos para mudar os EUA e da imprensa-empresa, que têm o dever de se manifestar contra a política de atacar os bodes expiatórios selecionados e não atacar as causas reais dos problemas reais que atormentam os EUA. 

A paisagem política nos EUA é desesperante: um lado simplificou drasticamente o sofrimento pelo qual os cidadãos dos EUA estão passando, para implantar sua agenda criminosa. O outro lado lado não sabe, sequer, o que dizer ou o que apresentar como contra-argumento.

Assim sendo, temos de agir nós mesmos, os cidadãos.

Todos os norte-americanos preocupados, desgostosos, ofendidos, que se sintam traídos e revoltados, temos de nos levantar. Por todo o país, também, felizmente, já brotam campanhas de cidadãos: de “De pé, Ohio” [ing. “Stand Up Ohio”; ver “Manifestação por mais empregos e comunidades mais fortes em Akron, Ohio”, 15/3/2011, [ ing. Senate Bill Stand Up For Ohio Rally Draws Hundreds in Akron  a “Esse não é o meu Wiscosin!” [ing. Not My Wisconsin].

Cada um de nós tem de unir-se a essas campanhas no plano local, de cada comunidade, ou a campanhas nacionais – como “Unidos somos fortes. Estamos em todos os lugares” [ing. We are one. We are everywhere], que está convocando um dia nacional de ação, para 4/4/2011, 2ª-feira. 

Não importa que grupo os conservadores estejam atacando em cada estado dos EUA. Não importa o que façam para mascarar sua verdadeira agenda. Não podemos permitir que continue a privatização de direitos e bens que foram construídos por todos e que são patrimônio de todos.




Notas de tradução
[1] Dia 4 de abril completam-se 43 anos da morte de Martin Luther King Jr., assassinado em Memphis, em 1968.

[2] Lei de mesmo teor foi aprovada ontem, 25/3, no Texas: “Texas aprova ‘Lei ID’: Sob forte pressão dos Republicanos e apesar de vigorosa oposição dos Democratas, o Senado Estadual do Texas aprovou ontem lei que exige que todos, exceto eleitores idosos, apresentem documento de identidade com foto, para votar (Dallas News ).

*Amy Dean é co-autora, com David Reynolds, do ensaio A New New Deal: How Regional Activism Will Reshape the American Labor Movement”. Ela trabalha há cerca de 20 anos no movimento trabalhista e no desenvolvimento de novas formas de organização e estratégias sociais em comunidades trabalhistas e progressistas. Publica seus ensaios e artigos no sítio: www.amybdean.com e pode ser seguida no twitter em @amybdean.