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quarta-feira, 24 de abril de 2013

Guerras Sujas: Washington enche de alvos o campo de batalha


cria seus próprios inimigos para a era pós 11/9 

23/4/2013, Tom Engelhardt, Tom Dispatch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


O livro Blowback [tiro pela culatra/revide]: The Costs and Consequences of American Empire [Os Custos e Consequências do Império Americano] de Chalmers Johnson foi publicado em março de 2000 – praticamente sem ser percebido. Até então, “tiro pela culatra” era uma expressão obscura cunhada pela CIA, que Johnson definiu como “as consequências não desejadas de políticas que foram mantidas secretas, ignoradas pelo povo norte-americano”. No prólogo, o ex-consultor da CIA e especialista em Mao Tse Tung (revolução camponesa) e em Japão moderno, apresentava-se, como personagem da Guerra Fria, como “ator coadjuvante do Império”.

Depois que desapareceu a União Soviética em 1991, Johnson surpreendeu-se ao descobrir que a estrutura global essencial do outro colosso da Guerra Fria, a superpotência norte-americana, com suas muitas bases militares, permanecia absolutamente intocada, como se o fim da URSS nada tivesse modificado. Quase uma década adiante, quando o Império do Mal já não passava de memória histórica, Johnson novamente correu os olhos pelo planeta e descobriu um “império norte-americano informal” de imenso alcance e grande poder. Convenceu-se então de que, na ambição planetária, Washington cultivava o terreno “em todo o planeta (...) para futuras novas modalidades de tiros pela culatra-revides”.

Johnson observou “sinais muito claros de uma crise do século XXI”. No primeiro capítulo de Tiro pela Culatra, o livro, o autor concentra-se na análise de “um ex-protégé dos EUA”, de nome Osama bin Laden, e na Guerra Afegã contra os soviéticos, da qual emergiram o próprio Osama e uma organização chamada al-Qaeda. Naquela guerra, Washington apoiara ao máximo possível – e a CIA forneceu dinheiro e armas – aos mais extremistas dos fundamentalistas islamistas, o que abriu caminho para que, adiante, os Talibã tomassem o Afeganistão.

Em matéria de “consequência não desejada”, difícil achar melhor exemplo! O objetivo daquela guerra fora aplicar uma sova à União Soviética, de arrasar, estilo Vietnam. O que foi feito. Mas o que ali se fez plantou as sementes do que... Em 1999, quando Johnson escreveu, ainda não se sabia o que viria. Mas ali estava uma pista, uma intuição, um palpite que, dia 12/9/2001 já convertera em “profético” o livro de Johnson. E ele falava também de outro fenômeno: os norte-americanos, ao que lhe parecia, “separamo-nos de qualquer consciência genuína de como outros povos do mundo nos veem e olham para nós”. 

Com o livro “Tiro pela Culatra” [Blowback], Johnson almejava corrigir esse vício; pintar um quadro de como aquele império informal e sua gigantesca rede de bases militares distribuídas por todo o mundo, maior que qualquer outra que o mundo jamais conhecera, viam os outros; assim, planejava explicar por que o antiamericanismo crescia; e por que os tiros pela culatra e os revides estavam, de fato, em gestação, pelo planeta. Depois do 11/9/2001, o livro de Johnson saltou imediatamente para o topo de todas as listas de livros mais vendidos nos EUA; e as expressões “tiro pela culatra”, “revide” e “consequências não desejadas” entraram para a linguagem diária. Pode-se dizer que Chalmers Johnson foi o primeiro intelectual norte-americano especialista em tiros pela culatra e revides.

Agora, mais de dez anos depois, surge outro livro. Dessa vez, o autor é o primeiro repórter norte-americano especialista em tiros pela culatra e revides. Chama-se Jeremy Scahill.

Jeremy Scahill
Em 2007, Scahill já publicara um best-seller “surpresa”: Blackwater: The Rise of the World's Most Powerful Mercenary Army [Blackwater: Ascensão do mais poderoso exército mundial de mercenários] [1]. Beneficiou-se de um momento quando o governo Bush, preparando-se para suas guerras longínquas, trabalhava como maníaco para “privatizar” a segurança nacional e os militares norte-americanos, contratando espiões-de-aluguel, pistoleiros-de-aluguel e empresas de aluguel para suas guerras que proliferavam feito praga.

Nos anos seguintes, foi como se Scahill tivesse tomado a peito, como desafio pessoal, a observação de Johnson – que os norte-americanos não sabem ver o mundo como ele é. E nem chegava a surpreender, porque grande parte do “modo norte-americano de guerrear” já mergulhara nas sombras. Dois governos em Washington  já se haviam arrogado cada vez mais poderes para fazer guerras e arrochar a (in)segurança interna; começaram então a desenvolver novos, clandestinos, ocultados métodos de guerra. No processo, transformaram uma CIA cada vez mais militarizada e uma equipe “técnica” conhecida como Comando Conjunto de Operações Especiais [orig. Joint Special Operations Command (JSOC)] e uma sua “arma perfeita”, nova em folha, um objeto de desejos e delírios high-tech, o drone [veículo aéreo pilotado à distância, por joystick], no exército privado, privatizado, do próprio presidente.
 
Naqueles anos, a guerra e o caminho para produzir mais guerras já se haviam convertido em assunto privado e propriedade da Casa Branca e do estado de segurança nacional – e de mais ninguém. Praticamente nada disso, claro, era segredo para os que operavam na ponta rumo à qual o dinheiro andava. Só os norte-americanos nada sabiam e nada deveriam saber do que era feito em seu nome. Resultado disso tudo, havia ali uma história da guerra secreta produzida nos EUA para o século 21, que bradava aos céus para ser narrada.  

Agora, essa história já aí está, na forma do novo livro de Scahill: Dirty Wars: The World Is a Battlefield [Guerras Sujas: o mundo é um campo de batalha].

Scahill rastreou, com especial detalhe, a ascensão do Comando Conjunto das Forças Especiais. No Iraque, assumiu as feições de uma espécie de Assassinatos Inc., “um ramo empresarial-executivo, para assassinatos”, como disse Seymour Hersh, que operava a partir do gabinete do vice-presidente Dick Cheney. Em seguida a mesma unidade militar/empresa serviu-se dos seus métodos de caça/assassinato contra o Afeganistão e, dali, para o planeta, à medida em que as próprias forças especiais iam-se convertendo em exército secreto caro, cevado entre os militares norte-americanos. Naqueles anos, Scahill começou a seguir as pegadas de tipos das forças especiais em campo, sem deixar de acompanhar fontes dentro daquela comunidade e em outros pontos do mundo militar e da inteligência.
 
No novo livro, retraça as guerras burocráticas de inteligência em Washington, enquanto o Pentágono, a CIA e o resto da comunidade de inteligência nos EUA ia ganhando músculos e ordens secretas, diretamente da presidência, davam ao Comando Conjunto das Forças Especiais, principalmente, autoridade sem precedentes para converter o planeta em área de tiro livre.

Finalmente, como repórter, viajou a vários “cenários” perigosos – Somália, Iêmen, Paquistão – aos quais os norte-americanos absolutamente não davam qualquer atenção, e onde militares norte-americanos e a CIA (trabalhando lado a lado com empresas privadas de segurança contratadas) faziam testes e desenvolviam novos métodos para fazer avançar o alastramento das guerras secretas de Washington.

Como Scahill escreve nos “Agradecimentos”, agradecendo a colaboração de outro repórter que viajou com ele, “Estávamos juntos quando atiravam contra nós, em telhados de Mogadishu, dormimos lado a lado no chão úmido no interior do Afeganistão e atravessamos juntos terras do sul do Iêmen”. Aí se vê algo do espírito do livro, produzido por repórter dedicado, independente - nunca “incorporado” às forças militares – trabalho impressionante, inspirador, às vezes assustador.

No processo, Scahill, o qual, naqueles anos, publicou várias reportagens impressionantes, como correspondente de segurança nacional da revista The Nation, descortina para nós aqueles esquadrões norte-americanos da morte operantes no Iraque; raids noturnos, coisa de pesadelo, no Afeganistão (nos quais morriam alvos “errados”; entrega secreta de suspeitos de terrorismo a uma prisão que a CIA mantém na Somália (e já depois de o presidente Obama ter proibido a “entrega extraordinária” de prisioneiros); o uso de drones e mísseis Cruisers em ataques desastrados contra civis no Iêmen; a caçada, até o assassinato de cidadãos norte-americanos (ditos “suspeitos de atos terroristas”, embora Abdulrahman Awlaki, de 16 anos, um dos assassinados, com certeza absoluta jamais tenha praticado qualquer ato terrorista) também no Iêmen e ordenados pelo presidente; o complexo mundo das operações do Comando Conjunto das Forças Especiais/CIA/Blackwater no Paquistão – e muito mais, incluindo uma indicação de que o Comando Conjunto das Forças Especiais chegou a iniciar operações em solo, também no Uzbequistão. (Quem ouvira falar disso?!).

Ann Jones
Dirty Wars [Guerras Sujas] é também, nos termos de Johnson, uma história do futuro; uma história de tiros pela culatra/revides potenciais; uma mensagem na garrafa que nos é enviada de dentro das linhas ocultas dos campos de combate secretos globais dos EUA – e aí há uma história dos EUA, que desconhecemos.

Preparando o campo de batalha

Há poucos anos, Ann Jones, correspondente de Tom Dispatch, contou-me algo que nunca esqueci. Tendo passado algum tempo incorporada às tropas dos EUA no Afeganistão, ela assim descreveu as patrulhas que faziam pelo interior do país: sim, há perigo, principalmente as bombas nas estradas [orig. IEDs (roadside bombs)], mas no geral as áreas patrulhadas diariamente, dia após dia, eram estranhamente desertas, “vazias”. Em certo sentido, era quase como se não houvesse ninguém, como se combatessem uma guerra fantasma num – palavras dela – campo de batalha vazio.

Essas palavras têm um análogo planetário, no notável novo livro de Scahill. Como tantos lembram, imediatamente depois dos ataques de 11/9, Bush e seus assessores logo se puseram a pensar grande. Inesquecível, o Secretário da Defesa Donald Rumsfeld pôs-se a exigir que seus assessores lhe apresentassem um plano contra Saddam Hussein do Iraque, apenas cinco horas depois que o avião do voo 77 da American Airlines se espatifasse contra o Pentágono. Em semanas, já altos funcionários do governo falavam com firmeza sobre a necessidade de a OTAN drenar o pântano dos terroristas e dos inimigos dos EUA em escala global. Sabe-se que houve planos para atacar entre 60 e 80 países, entre um terço e metade dos países do planeta. Em outras palavras, quando rapidamente declararam uma Guerra Global ao Terror, não estavam brincando. Tratava-se disso, bem literalmente, e, como Scahill relata, imediatamente se puseram também a construir o tipo de exército – secreto, que só obedeceria a eles – capaz de combater em qualquer canto do mundo.

Rumsfeld
Enquanto aquelas forças eram despachadas globalmente, para recolher inteligência, treinar forças estrangeiras (quase sempre ditas “especiais” e secretas), e especialmente para caçar e matar terroristas, uma nova expressão construída entrou rapidamente em circulação, expressão tão crucialmente importante para o livro de Scahill, quanto “tiro pela culatra/revide” foi importante para o livro de Johnson. Estava, como diziam, começando a “preparar o campo de batalha” (ou, como também se dizia, “o espaço de combate” ou “o ambiente de confronto”). Essa preparação não poderia ter sido mais apavorantemente enlouquecida. O Secretário de Defesa Rumsfeld assim resumiu o quadro: “Hoje, todo o mundo é o espaço de combate”.

Aqui, o mais estranho: quando aquelas forças secretas partiram para fazer seu serviço sujo, aquele espaço de combate global era, nas palavras de Jones, espantosa, estranhamente vazio. Não se via ninguém. Talvez algumas centenas, no máximo alguns milhares de jihadis espalhados pelas áreas mais remotas do planeta. Se “preparar o campo de batalha” converteu-se em palavra chave daquele momento, nunca foi expressão descritiva acurada.  Mais preciso seria dizer “criar o campo de batalha” ou, então, “povoar o campo de batalha”.

Campo do Sonhos
O padrão que Scahill traça brilhantemente, bem se pode entender no subtítulo do filme Campo dos Sonhos:se você construir, eles virão. O resultado não foi tanto uma guerra contra o terror: foi, muito mais, uma guerra de terror e pelo terror. Washington, simultaneamente, produzia uma máquina de matar e uma máquina para gerar terror. “Guerras Sujas”, Dirty Wars, de Scahill captura o modo como os altos oficiais convenceram-se de que a única superpotência restante no planeta, a última, com a melhor força de combate que o mundo jamais conheceu (como, hoje, os presidentes dos EUA nunca se cansam de repetir), podia simplesmente abrir caminho à bala e à morte, até a vitória global.

Scahill mostra também que eles são frequentemente bem-sucedidos no processo de matar as pessoas que haja em sua lista de matar [orig. kill list], de Osama bin Laden para baixo: o próprio Bin Laden no Paquistão; Abu Musab al-Zarqawi no Iraque; Aden Hashi Ayro na Somália; Anwar al-Awlaki no Iêmen, além de vários “tenentes” entre altas figuras da al-Qaeda e grupos aliados. E, enquanto vão sendo assassinados os “listados”, com os drones da CIA e os voos do Comando Conjunto das Forças Especiais, assassinam-se também quem esteja por perto. Não raras vezes, foram civis inocentes – e em grande quantidade.

Gente que de modo algum poderia ter tido a porta de casa arrombada, os filhos presos, a esposa grávida assassinada a tiros, gente que para sempre sentirá o horror daqueles momentos. E assim, antes que Washington percebesse, a lista de matar inchava, nunca diminuía; e suas guerras tornavam-se mais, nunca menos, intensas e vastas, já chegando a outras terras. O campo de combate, tão atentamente preparado, começava a encher-se de inimigos.

Uma máquina de moto perpétuo para desestabilizar o planeta

Enquanto Washington lançava suas aventuras pós 11/9, os aliados neoconservadores do governo Bush, acreditando que o vento lhes enchia as velas, punham os olhos no mundo, do Norte da África à fronteira da China na Ásia Central (o chamado “Oriente Médio Expandido”) que gostavam de chamar de “arco de instabilidade”. O serviço dos EUA, imaginavam eles, seria estabilizar o tal “arco” empregando o gigantesco poder militar dos EUA para criar uma Pax Americana na região. Eram, em outras palavras, fundamentalistas, e os militares dos EUA eram sua religião original. Acreditaram que esse tecno-poder derrotaria, forçaria à rendição, qualquer outra forma de poder no mundo.

Em tempos de retirada dos EUA do Iraque e à luz do desastre da guerra no Afeganistão, se se examina o Oriente Médio Expandido hoje – do Paquistão à Síria, do Afeganistão ao Mali – vê-se, agora sim, o que é instabilidade. 12 anos depois, grande parte da região já foi desestabilizada em maior ou menor grau, o que bem se pode tomar como definição do sucesso de Washington no curto prazo; e fragoroso fracasso, no longo prazo.

Na realidade, estiveram errados desde o início. Afinal, por trás da guerra lançada pelo governo Bush e mantida e ampliada pelo governo Obama, sempre esteve uma “remontagem”, para o século XXI, da mesma brutal estratégia com a qual Washington já falhara no Vietnã. A expressão que entrou em moda então foi “o ponto da virada”, um suposto momento crucial no que então já se pensava, declaradamente, como “guerra de atrito”.

A ideia era bem simples. O aterrador poder de fogo ao qual Washington tinha acesso imporia ao inimigo vietnamita o resultado esperado, óbvio: mais cedo ou mais tarde, chegaria o momento em que os EUA estariam matando mais inimigos do que o inimigo conseguiria recrutar no Vietnã do Sul; ou se infiltrariam reforços, vindos do norte. Naquele momento, Washington “viraria” rumo à vitória. Todos sabemos no que deu aquilo – da infame contagem de cadáveres (que o governo Bush tentou desesperadamente evitar no Iraque e no Afeganistão), à carnificina em escala jamais vista e à derrota, quando nem o prodigioso número de inimigos mortos resultou em os EUA conseguirem “virar” rumo à vitória.

E aqui está a ironia. Como seu pai, o qual, no final da primeira Guerra do Golfo, em 1991, discursou, em êxtase,  que “acabamos com a síndrome do Vietnã, de uma vez por todas”, George W. Bush, o filho, e seus principais oficiais padeciam de alergia mortal à memória do Vietnã. Mesmo assim, ainda deram jeito de lançar uma guerra global de atrito contra vários grupos que definiram como “terroristas”. Estavam bem visivelmente planejando assassiná-los, um a um se possível, ou sem nem identificá-los, em  Grupos de assinatura [orig. “signature groups”], se necessário, até alcançar algum ponto onde conseguissem “virar”, quando o inimigo esteja perdendo tantos braços que não possa repô-los, e a vitória raie no horizonte. Como no Vietnã, claro, esse ponto de ‘virada’ jamais chegou e é cada dia mais claro que jamais chegará. Quanto a isso, o livro-reportagem de Scahill é incisivo.

“Guerras Sujas” [Dirty Wars] é realmente a história secreta de como Washington lançou uma série de guerras não declaradas nos confins do planeta e abriu, a fogo e morte, o próprio caminho para algo que cada dia mais se aproxima de total guerra global: criou um oceano de inimigos, a partir de praticamente nenhum inimigo. Pode-se dizer que foi a realização de um desejo inconsciente de morte, e os resultados – sim, alcançados! – chegaram como um campo de pesadelos.

O que se criou naquele processo parece hoje uma máquina de moto perpétuo para desestabilizar do planeta. Basta acompanhar o aumento do número de bases de drones  e  dos raids dos grupos do Comando Conjunto das Forças Especiais, e logo se veem, diante dos olhos e em ação, o processo em andamento de desestabilização do planeta. Ou que se leia o livro de Scahill, para conhecer o relato, golpe a golpe, de como aconteceu. O processo está agora em andamento, já bem avançado, na África,  onde a desestabilização parece tomar rumo sul, da Líbia via Mali.

Reli “Tiro pela culatra/revide” [Blowback] 13 anos depois da primeira leitura, e é difícil acreditar que alguém tenha conseguido ver tão à frente no tempo, dada a preferência, entre os humanos, por jamais tentar ver muito adiante de coisa alguma. O mais triste de tudo que se possa dizer sobre “Guerras Sujas” [Dirty Wars] é que, pelo que já se vê hoje, dentro de outros 13 anos também o livro de Scahill voltará às manchetes, tão atual quanto o noticiário de ontem. Scahill desmascarou um modo de fazer guerras que parece destinado à perpetuidade, não importa que governo os norte-americanos elejamos para nos governar.

Ainda há muito que todos ignoramos sobre as atuais “não guerras” que os EUA estamos guerreando. Daqui a 13 anos talvez saibamos muito mais sobre o que o Comando Conjunto das Forças Especiais, a CIA e outros realmente fizeram nesses anos iniciais do processo. Mas nada disso modificará o padrão que Scahill conseguiu traçar e exibir para todos.

Assim sendo, não hesitemos: “missão cumprida!” Talvez o mundo ainda não fosse um campo de batalha quando começaram a trabalhar. Mas, sim, aquela gente preparou o espaço global de batalha, e fez bem feito: hoje já estamos bem adiantados naquele mesmo processo então iniciado.

E, quase sem que ninguém percebesse, as guerras imperiais encontraram via para também voltarem para casa.  Consideremos a reação às explosões na Maratona de Boston.

A resposta foi sem dúvida a maior, mais militarizada caçada humana de toda a história dos EUA. A seu modo, também foi exemplo de campo de batalha deserto, vazio. Uma área metropolitana de 217 km2  foi quase completamente esvaziada e cercada. Pelo menos 9 mil policiais pesadamente fardados e armados, da Polícia local, da Polícia estadual, policiais federais e centenas de soldados da Guarda Nacional, equipes da SWAT, veículos blindados, helicópteros e sabe-se lá o que mais tomaram as ruas de Boston e arredores, à caça de dois perigosos, enlouquecidos jovens, um dos quais terminou ensanguentado num barco num fundo de quintal, nas fronteiras da zona que a Polícia fechara, em Watertown. Esse espetáculo seria inimaginável nos EUA de antes do 11/9.

O custo dessa operação tem de ter sido estratosférico (sobretudo se se somam os prejuízos a todos os comerciantes da cidade, impedidos de abrir as lojas). No final, claro, um dos suspeitos foi assassinado e o outro foi capturado – e as celebrações  por mais esse sucesso de curtíssimo prazo começaram imediatamente nas ruas de Boston e nos veículos da imprensa-empresa. Mas nem assim se conseguiu provar que abrir caminho a fogo e à morte para o sucesso seria estratégia vencedora. De fato, continuamos no mundo dos tiros pela culatra/revides do livro de Scahill, no qual, não importa o número de mortos, nada sugere que estejamos mais próximo do ponto “da virada”, na guerra.

Depois que Dzhokhar Tsarnaev, o segundo suspeito de autor dos ataques em Boston, foi capturado, o senador Republicano Lindsey Graham tuitou uma nova frase, que se integrou ao discurso norte-americano: exigindo que o rapaz de 19 anos fosse considerado “inimigo não combatente” (como são os detidos sem julgamento e sem acusação formal na prisão de Guantánamo), Lindsey Graham escreveu: “A pátria é o campo de batalha”. Leitores de “Guerras Suja” [Dirty Wars] de Scahill, devem ter estremecido de pavor.

Enquanto o mundo queima e arde e derrete-seWashington se autodeterminou uma missão global crucial: despachar suas forças secretas para aquele campo de batalha global, à caça de jihadis.

Foi o pior erro imperial de avaliação, desde que Nero tomou da harpa e tocou, enquanto Roma queimava.




Nota dos tradutores

[1]  Sobre a empresa, ver 21/10/2010, redecastorphoto, Jeremy Scahill, em: Blackwater & Co. - A “negabilidade total , The Nation, em português.



domingo, 21 de abril de 2013

O estado de guerra orwelliano nos EUA: Carnificina e duplifalar da imprensa-empresa


17/4/2013, Norman Solomon, Commondreams
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Norman Solomon
Depois das bombas que mataram e mutilaram tão horrivelmente na Maratona de Boston, políticos e jornalistas da imprensa-empresa dos EUA [sempre caninamente repetidos por políticos e jornalistas da imprensa-empresa no Brasi] não se cansam de repetir discursos de compaixão – e incansáveis “duplipensar e duplifalar”, que George Orwell definiu como:

...empenho em apagar e fazer esquecer todos os fatos inconvenientes.

Em sincronia com veículos comerciais em todo o país, o New York Times estampou manchete de apavorar, na 1ª página da edição da 4ª-feira:

Bombas de Boston Carregadas para Estraçalhar, dizem autoridades.

A matéria falava de uma panela de pressão cheia de pregos e pedaços de metal;

...montada para disparar fragmentos pontudos de metal, contra todos que estivessem no campo de explosão.

Explosão da bomba caseira próxima da chegada da maratona de Boston
Muito menos improvisadas e pesando quase 500 kg, as bombas CBU-87/B de fragmentação estavam classificadas sob a categoria de “munição de efeitos combinados”, quando foram disparadas, há 14 anos, por um bombardeiro que levava o nome de “Tio Sam”.

A imprensa-empresa nos EUA praticamente nem noticiou o “evento”.

Bomba de fragmentação (ing. cluster bomb) aberta e as "bolinhas" (ing. bomblets)
Numa 6ª-feira, ao meio-dia, forças da OTAN lideradas pelos EUA lançaram bombas de fragmentação sobre a cidade de Nis, na área vizinha de um mercado de legumes e frutas.

As bombas explodiram perto de um complexo hospitalar e de um mercado, causando mortes e cobrindo de estilhaços as ruas da terceira maior cidade da Serbia – leu-se em despacho do San Francisco Chronicle, dia 8/5/1999.

E:

Numa das ruas que leva ao mercado, viam-se corpos estilhaçados, entre cenouras e vegetais, em poças de sangue. Um dos cadáveres coberto por um lençol, de uma mulher, ainda tinha na mão a cesta de compras cheia de cenouras.

Destacando que bombas de fragmentação “explodem no ar e espalham pregos e fragmentos de metal sobre vasta área”, o correspondente da BBC, John Simpson, escreveu no Sunday Telegraph:

Usadas contra alvos humanos, as bombas de fragmentação estão entre as armas mais selvagens do moderno arsenal bélico.

Nos EUA, “armamento selvagem” não significa armamento proibido. De fato, para o então comandante-em-chefe, Bill Clinton e seus cérebros militares belicistas,  assessores em Washington, “selvagem” é um dos atributos positivos das bombas de fragmentação. Cada uma delas dispara cerca de 60 mil fragmentos afiados de metal contra o que o fabricante das bombas descreve como “alvos moles”.

Funcionamento das Bombas de Fragmentação e suas "bomblets" (ing.)
Um raro repórter diligente, Paul Watson do Los Angeles Times noticiou, de Pristina, Yugoslavia:

Em cinco semanas de ataques aéreos, dizem testemunhas locais, os aviões da OTAN têm disparado bombas de fragmentação, que lançam bombas menores, de explosão retardada, sobre vastas áreas. No jargão militar, essa munição menor é chamada bomblets  [ap. “bombinhas”]. O Dr. Rade Grbic, cirurgião e diretor do principal hospital de Pristina, vê, diariamente, provas de que a expressão “bombinha” apenas mascara o trágico impacto desse tipo de munição. Grbic, que salvou a vida de dois meninos albaneses feridos quando outras crianças brincavam com uma bomba de fragmentação não detonada encontrada no sábado, disse que nunca, em toda a vida, fez tantas amputações.

A matéria do LA Times citava o Dr. Grbic:

Sou ortopedista há 15 anos, trabalhando em região de conflito onde sempre se veem ferimentos terríveis, mas nunca antes vimos, nem eu nem meus colegas, o que vimos depois que as bombas de fragmentação começaram a ser usadas. São ferimentos extensos e profundos. Os membros estão de tal modo destroçados, que a única via possível é a amputação. É terrível, terrível.

O relato prossegue:

Só o hospital de Pristina já recebeu entre 300 e 400 feridos por bombas de fragmentação desde que começou a guerra aérea da OTAN, dia 24 de março. Metade das vítimas são civis. Esse número não inclui os mortos pelas bombas de fragmentação, nem os feridos em outras regiões da Iugoslávia. O número total de vítimas é muito superior. A maioria das vítimas são atingidas pelas bombas menores, programadas para explodir algum tempo depois de lançadas, quase sempre já no solo.

Adiante, já durante a invasão e nos primeiros tempos da ocupação, militares dos EUA lançaram bombas de fragmentação no Afeganistão. E também usaram munição de fragmentação no Iraque.

Hoje, o Departamento de Estado ainda se opõe à proibição desse tipo de arma, como se lê na página oficial 
As bombas de fragmentação são comprovadamente úteis do ponto de vista do interesse militar. A eliminação delas do arsenal dos EUA poria em risco a vida de nossos soldados e dos soldados de nossos parceiros de coalizão.

E o Departamento de Estado prossegue:

Além disso, as bombas de fragmentação frequentemente resultam em muito menos dano colateral que bombas unitárias, como o que seria causado por bombas maiores ou fogo mais amplo de artilharia, se usados para a mesma missão.

Vai-se ver... Os que encheram uma panela de pressão com pregos e pedaços pontiagudos de metal e a explodiram em Boston raciocinaram exatamente como, e tão pervertidamente quanto, o Departamento de Estado!

Mas que ninguém espere esse tipo de leitura dos jornais comerciais diários ou das redes comerciais de televisão – nem, sequer, de redes “públicas” do tipo da National Public Radio (NPR) em programas como “Morning Edition” e “All Things Considered”, ou do Public Broadcasting System (PBS) e seu “NewsHour”.

Quando o assunto é matança e mutilação de seres humanos, esses veículos imediatamente assumem o pressuposto “alto padrão moral” preventivo da Casa Branca.

Em seu romance 1984, Orwell escreveu sobre o reflexo condicionado de:

...paralisar, encurtar, como que por instinto, parar sempre um passo antes de qualquer pensamento ousado, considerado perigoso (...), para não ser perturbado, entediado ou repelido por qualquer ideia ou linha de pensamento que leve a alguma heresia.

Esse duplipensar e duplifalar – incansavelmente reforçado pelo jornalismo comercial de massa – preserva-se ainda dentro de uma zona proibida à crítica, na qual nenhuma ironia radical é admitida, e que admite, no máximo alguma autossátira, pressuposta menos danosa à coerência intelectual e moral.

Todo o noticiário distribuído por veículos das empresas de jornalismo comercial sobre as crianças mortas e feridas em Boston, cada relato da horrenda mutilação de braços e pernas, faz-me lembrar de Guljumma, uma menina que tinha sete anos quando a encontrei em um campo de refugiados afegãos, num dia do verão de 2009.

Guljumma
Naquela época, escrevi que 
Guljumma contou o que aconteceu uma manhã, ano passado, quando ela dormia em casa, no vale Helmand, no sul do Afeganistão. As bombas explodiram às 5h da manhã. Morreram parentes seus. Ela perdeu um braço.

Os EUA não ofereciam qualquer tipo de ajuda humanitária às várias centenas de família que viviam, em condições miseráveis, no campo de refugiados nos arredores de Cabul. O único contato significativo que jamais houve entre Guljumma, o pai dela e o governo dos EUA foi quando a casa deles foi bombardeada.

A guerra favorece todo tipo de abstrações jornalísticas, mas Guljumma não é abstrata. É tão concreta quanto as crianças cujas vidas foram arruinadas para sempre, pelas bombas na Maratona de Boston.

Problema é que os mesmos veículos de jornalismo comercial que não se cansam de falar da preciosidade das crianças feridas em Boston mantêm-se absolutamente indiferentes às crianças como Guljumma.

11 crianças assassinadas pelo terrorismo dos EUA-OTAN no Afeganistão em 7/4/2013
Pensei também nela quando vi o noticiário e uma foto horrenda, dia 7/4/2013, de um dia em que 11 crianças, no leste do Afeganistão, tiveram ainda menos sorte que Guljumma. Aquelas crianças morreram num ataque aéreo da OTAN-EUA.  
Para os jornalistas empregados do jornalismo comercial norte-americano, ali nem havia notícia; para os militares norte-americanos, não foi grande coisa.

Os cachorrinhos de circo dançam quando o domador estala o chicote – escreveu Orwell – mas os cachorrinhos realmente bem treinados são os que dão seus saltinhos, quando nem se ouve o chicote.


sábado, 20 de abril de 2013

Os suspeitos (Os culpados)


David Remnick, New Yorker, ed. 29/4/2013
Traduzido (só o que interessa) e comentado pelo pessoal da Vila Vudu

David Remnick
Entreouvido na Vila Vudu: Esse artigo não é nenhuma maravilha. Longe disso. Começamos por ter de corrigir o título. E decidimos excluir as manifestações nada jornalísticas de simpatia “por Boston”, que não interessam e distorcem todas as avaliações, a começar pelo que diz o presidente Obama; não interessam a ninguém, como informação – que não são: são puro opinionismo falso-jornalístico – e ajudam a criar o clima ideológico necessário para justificar todas as práticas policiais, por mais violentas e menos democráticas que sejam.

Além disso, o artigo é carregado de “interpretações” gratuitas, sem qualquer fundamento – como a “conclusão” de que, “porque” alguém assiste a determinados vídeos ou escreve coisas pelo Twitter, estaria “provada” alguma culpa.

Mas, dado que até quando é tão ruim e manipulatório quanto qualquer jornalismo (The New Yorker é uma espécie de revista (não)Veja, mas dirigida a público menos analfabeto); o jornalismo norte-americano ainda assim é melhor que o jornalismo brasileiro – que é o pior do mundo –, decidimos traduzir.

Aproveitam-se daí, pelo menos, algumas linhas objetivas sobre os dois acusados.

Evidentemente não são, ainda, culpados de coisa alguma. E até que sejam julgados e condenados, são, evidentemente, inocentes – embora um já tenha sido morto e o outro, no hospital, só tenha, de futuro, a tortura, como todos já sabem, mas o “jornalismo” de The New Yorker não informa.

Tamerlan e Dzhokar Tsarnaev
Durante a 2ª Guerra Mundial, Joseph Stálin declarou que o povo da Chechênia  seria desleal à URSS e expulsou os chechenos de sua terra original, no norte do Cáucaso, para a Ásia Central e o fundo da Sibéria. Dezenas de milhares de chechenos, com membros de outros grupos étnicos menores do Cáucaso e da Península da Criméia, morreram durante a operação de deportação em massa ou logo depois – muitos de frio, muitos de fome.

A família Tsarnaev acabou por se instalar numa cidade chamada Tokmok, no Quirguistão, não distante da capital Bishkek. Muitos dos que sobreviveram aos 13 anos seguintes de exílio foram afinal autorizados a voltar para casa, no final dos anos 1950s, no governo de Nikita Khrushchev, e reconstituíram um senso de pertencimento e de identidade. Alguns continuaram expatriados. Os chechenos falam russo com sotaque típico; e praticamente todos mantém o próprio idioma, noxchiin mott. A região do Cáucaso é extremamente multicultural, mas a religião predominante no norte é o Islã. O espírito nacional checheno aparece sempre, invariavelmente definido como “furiosamente independente”.

Localização da Chechênia
No colapso da União Soviética em 1991, rebeldes nacionalistas lutaram duas guerras terríveis contra o Exército Russo pela independência da Chechênia. No fim, os grupos rebeldes foram ou dizimados ou passaram para o lado dos russos. Mas a rebelião persiste, na Chechênia e em regiões vizinhas – Daguestão e Inguchétia – e agora já tem caráter fundamentalista. A palavra-de-ordem é “jihad global”. As táticas são sequestros, assassinatos, bombas.

Anzor Tsarnaev, checheno por etnia, que viveu grande parte da vida no Quirguistão, emigrou há uma década para a área de Boston com a esposa, duas filhas e dois filhos. Apesar da artrite nos dedos, ganhou a vida como mecânico de automóveis. Membros da família assistiam aos serviços religiosos, apenas ocasionalmente, numa mesquita da rua Prospect em Cambridge, mas nada jamais houve de fundamentalista no modo de viver ou conviver da família.

O filho mais velho de Anzor, Tamerlan, jamais deu a impressão de ter-se conectado plenamente com a vida nos EUA. “Não tenho nenhum amigo norte-americano”, contou a um fotógrafo, Johannes Hirn, que fotografava Tamerlan num treino de boxe. “Não compreendo os norte-americanos”. Frequentou aulas no Bunker Hill Community College, na turma preparatória para Engenharia. Descreveu-se como “muito religioso”; não bebia nem fumava. 26 anos e 90 quilos, boxeava regularmente no centro Wai Kru de artes marciais. Adorou “Borat” (apesar de algumas piadas, que são “um pouco demais”). Teve uma filha, mas nenhuma família estável. Foi preso, há três anos, por agressão doméstica. (“Nos EUA, não se pode nem encostar numa mulher” – Tamerlan disse ao Times).

David Bernstein, matemático aposentado, natural de Moscou, que emigrou há 33 anos, disse que conhecia a família, porque costumava levar o carro regularmente à oficina de Anzor. Observou que Tamerlan trabalhava às vezes na oficina, mas que não parecia satisfeito. “Conversei conversas à toa com Tamerlan” – Bernstein recordou:

Perguntei-lhe se sabia o significado de seu nome, “o grande guerreiro”. Ele falava às vezes de política e religião. Disse-lhe que, em certo sentido, todo mundo é religioso; ele me disse que eu deveria me converter à religião muçulmana. Respondi que “cada um inventa a própria religião” e encerrei a discussão.

Quando Bernstein soube que seu conhecido estava sendo considerado acusado por um ato de terrorismo na linha de chegada da Maratona de Boston, ficou zonzo. “Senti-me como um Forrest Gump”, disse ele. “De repente, ele fica famoso por causa desse ato, e eu, lá, tantas vezes conversando com ele. Mas quem poderá dizer que realmente o conhecia?”.

Dzhokhar, 19 anos, concluiu o ginásio na Cambridge Rindge and Latin School, onde era localmente famoso como lutador de luta livre, descrito como ágil, rápido e um pouco tímido. Ganhou uma bolsa de estudos da cidade de Cambridge. Trabalhou durante alguns anos como salva-vidas numa das piscinas do campus, em Harvard. Outro salva-vidas, seu colega, lembra dele como rapaz “agradável”, com “bom senso de humor”. Colegas de ginásio também recordam Dzhokhar com prazer. “Era bom sujeito” – disse Ashraful Rahman. “Nunca senti nele qualquer vibração ruim. Não era estudante-gênio, mas era esperto. Nos encontramos algumas vezes na mesquita em Cambridge. Dzhokhar ia mais à mesquita que eu, mas não era devoto absoluto. Penso no que aconteceu e me pergunto se teria sido obrigado a fazer o que fez. Terá sofrido lavagem cerebral? Nada, aí, parece ter a ver com ele. Mas não se pode esquecer que “estava na erva”. Fumava muito. Marijuana. E esse pessoal é calmo, mesmo, sempre devagar”.

Essah Chisholm, colega de luta livre, disse também que “ele era bom sujeito”. Mas quando Chisholm e alguns amigos viram fotos dos irmãos Tsarnaev pela televisão, na 5ª-feira à noite, ligaram para o número criado pelo FBI para receber informações. Na mesma noite, mais tarde, começou o confronto armado – tiroteiro, caçada furiosa, bombas. “Não dá p’ra entender” – disse Chisholm na 6ª-feira à tarde. “Cada vez que vejo o nome dele na televisão, é sempre inacreditável. Ler o nome de Dzhokhar, ver fotografias. Acho que tem a ver com o irmão mais velho. A menos que ele fosse alguma espécie de agente à espera. Acho que o irmão teve forte influência. Tamerlan talvez se sentisse excluído, diferente, e pode ter feito lavagem cerebral em Dzhokhar, para convencê-lo de ideias radicais, que distorcem o que diz o Corão.” (...)

Feiz Muhammad
Mas a impressão de alheamento – “Parecia bom sujeito” – começa a desaparecer, à medida que nos aproximamos dos irmãos Tsarnaev. O canal Youtube de Tamerlan exibe vários vídeos de apoio ao fundamentalismo e à jihad violenta, dentre os quais uma fala de Feiz Muhammad, clérigo australiano e ex-boxeador que vive na Malásia; num dos vídeos, o clérigo critica o “paganismo” pervertido dos filmes de Harry Potter. Noutro, vê-se uma dramatização da profecia do Armageddon dos Bandeiras Negras de Khurasan, poderosíssima força militar islamista que se levantará na Ásia Central para derrotar os infiéis; é uma das principais profecias marciais-religiosas de que se alimenta a Al-Qaeda.

A conta de Dzhokhar na (empresa) Twitter (@J_tsar) é estranha combinação de banalidade e desesperança. (Ele parece ter continuado a tuitar mesmo depois das explosões da 2ª-feira passada). Se se lê o que escrevia, descobre-se um pouco do que pensa: suas piadas, seus ressentimentos, seus preconceitos, sua fé, os desejos.

14/3/2012: “uma década já nos EUA, quero cair fora”

16/8/2012: “A vida humana não vale nada hoje em dia É #tragic”

22/8/2012: “Sou o melhor jogador de beer pong em Cambridge. Eu sou #verdade”. Vídeo a seguir:

1/9/2012: “não sei por que tão difícil para tantos de vocês aceitar que 11/9 foi serviço interno. Quero dizer, fodam-se os fatos, vcs são mesmo #patriots #gethip [abram o olho]”

24/12/2012: “Irmãos na mesquita pensam que sou convertido, ou da Argélia ou Síria Outro dia me perguntaram como cheguei ao Islã”

15/1/2013: “Não discuto com idiotas q dizem que Islã é terrorismo e não vale nada. Idiotas, continuem idiotas”

13/3/2013: “Não tente espetar o garfo num minitomate, se estiver de camisa branca: ele explodirá”.

10/4/2013: “Ganhe conhecimento, ganhe mulheres, arranje dinheiro #livestrong” 
 
15/4/2013: “Não há amor no coração da cidade Se cuidem, pessoal”.

15/4/2013: “Tem gente que sabe a verdade mas cala & tem gente que diz a verdade mas ninguém ouve porque são a minoria”.

16/4/2013: “Sou do tipo que não estressa”. 


Gregory Shvedov
Gregory Shvedov, editor de uma página Web com base em Moscou, “Caucasian Knot” [Nó caucasiano], visita regularmente o Cáucaso e estuda o movimento jihadista, o governo russo e sua ação militar na região. Não manifestou qualquer surpresa ante a notícia de que dois chechenos étnicos, criados há longo tempo nos EUA, mas ainda profundamente ligados ao país de origem, possam ter praticado um ato “tipo bomba soft”, como o da Maratona. “Hoje há redes sociais, e as pessoas as usam para tomar decisões” – disse ele, de Moscou. “Não me surpreenderia que tivessem outra vida, nas mídias sociais. Que vídeos veem? O que leem e o que veem por YouTubes, sobre jihad?”.

Mas se Tamerlan fez o que é suspeito de ter feito, pode não ter sido educado, ou instruído, exclusivamente por meios digitais. Dia 12/2/2012, viajou de New York para Moscou, alvo regular da ira dos chechenos. Só retornou sete meses depois. (...)

Já no final do dia de ontem, era impossível não sentir alguma simpatia também pelos pais dos acusados, nenhum dos quais aceita sequer a possibilidade de que seus filhos sejam culpados. Entrevistados no apartamento onde vivem em Makhachkala, capital do Daguestão, falaram de “armação” urdida pelo FBI. A mãe, Zubeidat Tsarnaeva, disse à rede de televisão Russia Today: -Meu filho me telefonava todos os dias e perguntava “Como está, mamãe?” Os dois telefonavam. “Mamãe, amo você”. Meu filho não tinha segredos”. O pai falou de Dzhokhar como “um anjo”.

No final da 6ª-feira, já manhã de sábado no Daguestão, o destino dos dois filhos do casal mudara completamente: um estava morto; o outro, ferido, hospitalizado e preso.

A família Tsarnaev já sofreu o peso da história antes – a fúria do império, a dor do deslocamento, por exílio e emigração. O asilo numa nova terra promissora pouco ajudou. Quando o pai, Anzor, sentiu-se doente, há alguns anos, decidiu retornar ao Cáucaso: era impensável, para ele, morrer nos EUA. Atravessara meio mundo, para bem longe da terra dos antepassados, mas algo o arrastou de volta ao Cáucaso. O sonho americano não é igual para todos. Mas nunca poderia prever o destino terrível que teriam seus dois filhos, destruídos pelo terror. A era digital não garante asilo a nenhum extremismo, muito menos à combinação tóxica de fanatismo religioso e doloridas decepções de homens fortes e jovens. Uma década já nos EUA, quero cair fora.