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terça-feira, 10 de agosto de 2010

A impunidade das petroleiras

Reston, na Virgínia, está a quilômetros do Golfo do México e de suas costas cheias de óleo. No entanto, foi lá que tudo começou. Lá estão os escritórios da International Registries, empresa que sugere aos seus clientes que contornem a regulamentação marítima e instalem suas plataformas num país com leis mais amenas

por Khadija Sherife*

Na sede da companhia de exploração de petróleo Transocean, no cantão de Zoug, na Suíça, a explosão da plataforma Deepwater Horizon foi celebrada em um hotel de luxo. No dia 14 de maio de 2010, três semanas após o desastre, o proprietário da plataforma – avaliada em US$ 650 milhões antes do acidente – esperava um primeiro depósito de sua seguradora, no valor de US$ 401 milhões, pela perda ocasionada. Logo depois, em uma reunião a portas fechadas, o diretor da empresa, Steven Newman, decidiu conceder a seus acionistas US$ 1 bilhão em dividendos – bastante otimista e sensato, diga-se de passagem.

As plataformas petrolíferas, segundo o Direito marítimo internacional, são consideradas embarcações, de modo que os advogados da Transocean podem reivindicar a redução da responsabilidade financeira da empresa no acidente até ao valor da plataforma pós-desastre: meros US$ 27 milhões. Essa operação jurídica é fundamentada por uma lei do século XIX, o Decreto de Limitação de Responsabilidade (Limitation of Liability Act), publicado em 1851; o mesmo que, em 1912, permitiu aos proprietários do Titanic pagar apenas US$ 95 mil às vítimas do naufrágio – correspondentes ao valor dos equipamentos de segurança e dos botes salva-vidas.

Enquanto autoridades e empresários buscam soluções para deter o vazamento e limpar a costa do estado da Luisiana, as famílias dos 11 operários mortos em 20 de abril e milhares de vítimas da maré negra – como trabalhadores do litoral e representantes de movimentos sociais de proteção ao meio ambiente – já entraram no braço de ferro jurídico. A Transocean, contudo, espera se desresponsabilizar com a brecha fornecida pela norma internacional e passar a responsabilidade para a frente. Nesse empurra-empurra, a British Petroleum (BP), operadora da plataforma, tem sido o foco das críticas. Outras grandes petrolíferas retiraram a solidariedade em relação à multinacional britânica, com a justificativa de que o acidente poderia ter sido “evitado” e que, da parte delas, “não teriam perfurado esse poço”1.

Já a Casa Branca prepara um acordo segundo o qual os dividendos da BP deveriam ser suspensos durante este ano e depositados na conta corrente de um terceiro, enquanto a avaliação financeira dos estragos estiver em curso. A moratória de seis meses para as plataformas flutuantes, decretada pelo presidente norte-americano, Barack Obama, inquieta os petroleiros, que esperam retornar ao regime habitual o mais rápido possível – embora esse mesmo regime tenha forjado as bases da catástrofe.

Reston, no estado da Virgínia, periferia de Washington DC, está a milhares de quilômetros do Golfo do México, de suas costas cheias de óleo e do desastre ecológico. No entanto, foi lá que tudo começou, onde estão os escritórios da corporação International Registries (IRI).

São escritórios pequenos, já que a atividade da IRI não requer mão de obra abundante. A empresa propõe a seus clientes contornar a regulamentação marítima e instalar suas plataformas em um país com leis mais amenas: a República das Ilhas Marshall, um arquipélago de 62 mil habitantes situado no meio do Oceano Pacífico. Na sua área de atuação, a IRI se autodenomina a empresa “mais experiente” do mundo; ocupa-se da exploração e transporte do petróleo. Entre seus clientes, está a Transocean, e claro, a BP.

Paraíso fiscal

Em 2009, o número de registros marítimos das Ilhas Marshall foi o maior do mundo, com 221 plataformas de petróleo – quatro vezes mais que os registros concedidos nos Estados Unidos, país com as maiores empresas petroleiras. Assim como o Panamá e a Libéria, as Ilhas Marshall propõem uma “jurisdição do sigilo”. Reduto de condescendência, as Ilhas servem também de paraíso fiscal e centro financeiro não continental. Nem sequer é necessário estar de corpo presente para adquirir uma “porção de permissividade” no arquipélago para criar “uma firma, uma sociedade limitada, uma empresa de responsabilidade limitada ou uma entidade marítima estrangeira”. Alguma troca de correspondência, fax ou e-mail é suficiente, como pudemos verificar.

Alegando atuar em nome de um cliente que desejava “escapar dos entraves regulamentários de seu país de origem”, entramos em contato com os serviços da IRI alguns dias após a explosão da Deepwater Horizon. Uma primeira mensagem eletrônica nos informou que a criação de uma empresa registrada nas Ilhas não tardaria mais que um dia, por um custo total de US$ 650 mil. “Mais US$ 450 de renovação anual”, precisou ainda o interlocutor.

Informaram-nos que o status de nossa empresa não seria publicado, a menos que “o cliente demandasse expressamente”, de forma que poderíamos desfrutar o máximo da jurisdição local: ausência completa de impostos e níveis de confidencialidade comercial inigualáveis.

Nosso cliente deseja instalar uma plataforma de petróleo nas Ilhas Marshall, do tamanho da plataforma da BP, por exemplo. Na mensagem de resposta, a IRI nos propõe um “parcelamento” em cotas de US$ 15 mil, aos quais convém adicionar um pequeno montante – 15 centavos por barril2 – de honorários anuais. Com bastante traquejo comercial, ele ainda nos oferece voluntariamente “uma redução de 50%” para “registrar uma frota de 10 (ou mais) plataformas com menos de 15 anos”. A oferta é sedutora: permite escapar do pagamento de taxas e royalties, direitos trabalhistas3 e de qualquer regulamentação ambiental.

A Transocean, maior empresa do mundo na terceirização de exploração de petróleo, aproveitou bem a mesma oferta: 29 das 83 plataformas indicadas no site da firma estão instaladas nas Ilhas Marshall, enquanto o restante está quase todo nos mares da Libéria e do Panamá.

Nosso personagem negociante se inquieta, e pergunta: “Que aconteceria, por exemplo, em caso de acidente, se as autoridades questionassem a identidade dos donos da empresa?”. Logo em seguida, nosso interlocutor nos acalma: “Se as autoridades vierem fiscalizar os registros, ou nossa jurisdição, para solicitar a divulgação de informações complementares sobre os acionistas, diretores da empresa etc., notem que não temos essas informações, já que toda organização do negócio e sua condução são efetuadas diretamente por seus advogados e diretores. A menos que os nomes de diretores e acionistas estejam registrados nas Ilhas Marshall – o que não é obrigatório4 –, não somos obrigados a revelar essas informações”. E assim nos sentimos seguros...

Empresas como a IRI são herdeiras diretas da política internacional dos Estados Unidos, cuja tradição remonta ao cenário pós-Segunda Guerra Mundial. Naquele momento, percebeu-se que, com a demanda que ultrapassava a oferta, o ouro negro se tornaria a riqueza natural mais cobiçada do mundo. Com o apoio da Standard Oil5 e de um antigo secretário de Estado do presidente Roosevelt, Edward R. Stettinius, a Libéria criou em 1948 o primeiro “registro marítimo aberto”, gerenciado desde Nova York pela empresa Stettinius Associates–Liberia Inc. De acordo com a historiadora Rodney Carlisle, naquele momento o código marítimo da Libéria foi “lido, referendado e aprovado pela Standard Oil”6.

De olho na Libéria

Até o início dos anos 1990, era a IRI – sucessora de Stettinius Inc. depois de uma história de fusões e compras de Bancos e empresas – que fazia da Libéria um porto pacífico para as petroleiras. No entanto, durante a guerra civil que dilacerava o país, o presidente Charles Taylor se mostrou muito voraz em relação à empresa, o que desencadeou a ruptura de uma relação que, no auge da guerra, resultava em 70% da receita de seu governo. A IRI se voltou então às Ilhas Marshall – antiga colônia japonesa que ficou sob tutela americana de 1947 a 19867 –, onde desenvolveria um novo programa de registros permissivos. A IRI transfere para as Ilhas o conjunto de seus clientes e, em quinze anos, impeliu a República ao topo do ranking dos refúgios fiscais e regulamentários do mundo.

Atualmente, uma porcentagem significativa das plataformas de petróleo do planeta continua registrada na Libéria. Essa área não é mais gerenciada pela Stettinius, e sim pelo Serviço de Registro Internacional Liberiano de Embarcações e Empresas (LISCR), cujos escritórios estão localizados na periferia de Washington, em Vienna, cidade situada a apenas 13 km de Reston. “Mais de 3,1 mil plataformas de mais de 96 milhões de barris brutos, ou seja, 10% de toda a frota mundial” estão registrados na Libéria, festeja a empresa em seu site na internet.8

“Muitas pessoas podem ficar surpresas com o fato de os registros marítimos da Libéria e das Ilhas Marshall estarem a alguns quilômetros de Washington”, observa John Christensen, antigo alto funcionário da Ilha de Jersey (paraíso fiscal britânico) que, desde então, fundou a associação internacional Tax Justice Network (TJN). Contudo, ele não vê nenhum paradoxo: “Na realidade, esses dois espaços ultramarinos foram criados em função de interesses americanos para contornar as regulamentações que protegem os cidadãos dos Estados Unidos, entre outros aspectos, dos custos que nesse preciso momento estão sendo produzidos no Golfo do México”.

Voltemos à nossa negociação com a IRI. O representante da empresa, de repente, introduz um elemento que parece ser uma atenuante ao seu discurso entusiasta: “Para uma plataforma móvel de exploração de petróleo operar nas águas de outro país, o proprietário deve aderir ao conjunto de solicitações formuladas por esse país antes de obter a autorização de funcionamento”. Mas o registro das plataformas nas Ilhas Marshall não faria com que os operadores ficassem fora do alcance da legislação americana? Esse detalhe não parece produzir em nosso interlocutor a inquietação que imaginávamos, quando mencionou o que parecia uma condição.

Durante a investigação pública sobre a explosão da Deepwater Horizon, os americanos ficaram chocados ao se inteirar de que “não existe nenhum tipo de vigilância” às plataformas de petróleo. E isso não era o pior: também descobriram, a partir das audiências realizadas pelo serviço de gestão mineral (Mineral Management Service, MMS)9, que os operadores e proprietários “se autocertificam e estabelecem eles mesmos os critérios que lhes parecem adequados10”. O capitão da marinha costeira, Hung Nguyen, tentou resumir da seguinte forma: as regras são “concebidas segundo os critérios da indústria, fabricadas pela indústria, aplicadas pela mesma indústria sem supervisão do governo durante a construção ou manutenção. Não é assim?”. O diretor regional do MMS, Mike Saucier, não tinha outra escolha a não ser concordar.

Alguns anos antes, outra investigação concluiu que o MMS havia isentado a BP de respeitar as regulamentações petroleiras de segurança. Na ocasião, Earl Devaney, ex-inspetor geral do Ministério do Interior, havia qualificado o serviço de gestão mineral de “eticamente irresponsável”. Esse órgão não teria, talvez, aceitado regularmente “presentes” provenientes de empresas do setor de energia?11

Se, hipoteticamente, a regulamentação da indústria no que se refere à segurança fosse aplicada, isso acarretaria algum verdadeiro problema às grandes empresas? Não necessariamente: a definição dos critérios de vigilância, sobretudo os que regem os sistemas antiexplosão – instrumentos-chave nesse âmbito –, são confiados às próprias empresas ou a organismos profissionais, como o Instituto Americano do Petróleo (AIP), que representa 400 empresas do setor petroleiro e de gás.

Primeiro beneficiário dos fundos da BP destinados aos candidatos presidenciais, Barack Obama herdou um sistema colocado em andamento sob a administração de seu predecessor, George W. Bush – que estava, por sua vez, sob a pressão do (muito discreto) grupo de trabalho para o desenvolvimento de uma política nacional de energia, encabeçado pelo vice-presidente Richard Cheney (ver box sobre Halliburton).

Formado após uma semana da posse de Bush, em janeiro de 2001, esse grupo de trabalho forjou, em oito semanas, o decreto executivo n° 13211, sobre energia. Os trabalhos foram tão rápidos, a ponto do Conselho Nacional pela Defesa dos Recursos Naturais (NRDC) identificar que o texto retomava a “estrutura” e as “conclusões” de um documento da API. Uma das seções mais importantes era, inclusive, “quase idêntica” ao material identificado como base.12 Além disso, as sessões de trabalho se resumiram a encontros reservados com grandes patrões do setor petroleiro, dentre os quais estava John Browne13, da BP.

Lei do silêncio

Ao obter uma cópia das 13,5 mil páginas dos documentos preparados pelo GT, o NRDC concluiu que “as grandes empresas de energia comandavam o grupo de trabalho da Casa Branca, enquanto os oficiais decidiam sobre um plano de bilhões de dólares de subvenções às empresas e eliminavam das regulamentações medidas preventivas cruciais em termos de saúde e do meio ambiente”.

Com esse cenário favorável dos últimos anos, a BP, encabeçando 294 filiais registradas em países que garantem “sigilo”, decidiu aumentar sua produção – reduzindo sua exposição aos riscos – por meio da prestação de serviços a empresas petroleiras. Foi nesse contexto que a Transocean alugou sua plataforma Deepwater Horizon à BP pelo valor de US$ 1 milhão por dia, até 2013. A partir de operações como essa – e sob a direção de Tony Hayward, ex-diretor do departamento de exploração e produção –, a BP estendeu suas atividades nos campos marítimos de petróleo de modo voluntarista.

No último 20 de abril, os trabalhos de instalação da plataforma Deepwater Horizon estavam quase concluídos, à exceção de um poço que ainda necessitava ser perfurado. Diante do custo diário da plataforma, os gerentes da BP decidiram ignorar os procedimentos de segurança da Transocean. Embora estivessem conscientes dos problemas que o sistema antiexplosão apresentava, perseguiram um único objetivo: perfurar a qualquer custo – “drill, baby, drill”, se retomarmos o slogan da campanha da infeliz Sarah Palin, ex-candidata republicana à vice-presidência dos Estados Unidos.

O ecossistema de Nova Orleans pode levar centenas de anos para se restabelecer. O diretor de comunicação da Transocean, alegando um problema de “emergência dentária”, não respondeu às nossas questões. Quanto ao diretor da BP, Tony Hayward, não será sem certa dificuldade que tentará se esquivar de suas declarações no dia 18 de maio: “O impacto ambiental desse desastre será, provavelmente, bastante modesto”.

Khadija Sherife* é jornalista, coautora de Aid to Africa. Redeemer or coloniser?, Editora Pambazuka, Cidade do Cabo, 2009.

Notas de rodapé:

1 “Oil Executives Testify”, The Wall Street Journal, 16 de junho 2010.

2 Unidade de medida de petróleo líquido que serve para definir a capacidade de uma plataforma: um barril equivale a 2,83 m³.

3 Ler François Ruffin, “Naufrage industriel pour la marine marchande”, Le Monde Diplomatique, novembro de 2005.

4 O grifo é de nosso interlocutor.

5 Standard Oil se tornará Mobil Oil Corp., e depois Exxon.

6 Ler Andrew Leonard, “The Gulf oil spill spreads to the South Pacific” [O vazamento de óleo do Golfo atinge o Pacífico Sul], Salon.com, 13 de maio de 2010, e Rodney Carlisle, “The American Century Implemented: Stettinius and the Liberian Flag of Convenience”, The Business History Review, vol. 54, nº 2, Boston, 1980.

7 Seu atol Kwajalein abriga uma base militar e, no quadro de um pacto de livre associação, o arquipélago se beneficia da proteção militar americana e de um importante auxílio financeiro (cerca de US$ 1 bilhão desde 1990).

8 www.liscr.com

9 Encarregado, no âmbito do Ministério do Interior, de supervisionar a exploração de recursos minerais e coletar os devidos impostos.

10 David Hammer, “Kenner hearing: Some Coast Guard oil rig safety regulations outdated”, The Times-Picayune, Nova Orleans, 12 de maio de 2010.

11 “Sex, Drug Use and Graft Cited in Interior Department”, The New York Times, 10 de setembro de 2008.

12 Comunicado de 27 de março de 2002, “Cheney Energy Task Force Documents” .

13 Na época, Browne dirigia a BP. Hoje, é designado pela coalizão conservadora britânica para gerenciar um comitê de “especialistas” (oriundos, sobretudo, do patronato) encarregados de validar os orçamentos dos ministérios do Reino Unido

extraído do Le Monde Diplomatique

quinta-feira, 29 de julho de 2010

BP – Uma bomba relógio no sistema financeiro internacional

BP – Uma bomba relógio no sistema financeiro internacional

Michael R. Kratke*
29.Jul.10 :: Outros autores
Michael R. Kratke

Segundo Michael R. Kratke, Professor de Economia Política e Director do Instituto de Estudos Superiores da Universidade de Lancaster no Reino Unido, a BP é uma bomba de relógio no sistema financeiro mundial. A empresa refinancia-se com derivados creditícios e fundos de pensões que agora, e para infelicidade dos seus clientes, têm grandes perdas. Dois elementos tão centrais como obsoletos do actual capitalismo – uma economia baseada na emergia fóssil e na especulação financeira à escala planetária – levam-nos directamente à próxima catástrofe.


O que começou como uma crise financeira em Setembro de 2008, com a irrevogável falência do banco Lehman-Brothers, pode agora entrar na próxima ronda com a previsível queda da BP. A transnacional britânica é uma bomba financeira de relógio, não só para a Grã-Bretanha mas para todo o Reino Unido. Os custos do desastre petrolífero no Golfo do México estimam-se em 70 mil milhões de dólares.

Para os britânicos, a BP é como instituição nacional, a maior sociedade anónima do país, a blue chip mais brilhante do mercado de valores londrino. Muitas pessoas julgam que a BP é uma empresa petrolífera. E é verdade. A BP fornece petróleo, tem oleodutos e refinarias um pouco espalhados por todo o mundo. Mas a BP é, simultaneamente, um banco com um raio de acção internacional que, tal como a Enron ou a General Motors, actua nos mercados financeiros internacionais.

De AA a BBB

Como, oficialmente, não é uma entidade financeira, a British Petroleum esta a meio caminho de ser um negócio OTC ou fora do mercado organizado de valores, isto é, que actua fora das bolsas, num negócio sem regulação nem controlo. O refinanciamento é através da titularização de derivados creditícios de alto risco, CSOs [obrigações colaterais sintéticas, na sua sigla inglesa], a que não corresponde qualquer valor patrimonial, mas apenas derivados creditícios. São um próspero comércio esses derivados financeiros. A BP é detentora ou tem participações em pelo menos 18% dos papéis deste tipo que circulam por todo o mundo. Recordamos que a crise financeira mundial foi desencadeada pela queda em cadeia de derivados titularizados: as CDOs [obrigações de dívida colateral, na sua sigla inglesa] e os CDS [derivados creditícios de dívida, na sua sigla inglesa]. Agora, os riscos nas CSOs são muito maiores e o alavancamento creditício de maior envergadura e as regulações são desconhecidas.

Por outras palavras: Quando a BP quebrar, a sua falência terá consequências globais. Como supostamente sucedeu no caso Lehman-Brothers, ninguém sabe até que ponto a BP está endividada, nem quem nem em que jogos de azar estão envolvidos os créditos da BP. Mas, como a transnacional é considerada a pérola da coroa da indústria financeira britânica, com fundamento se pode suspeitar que estão aqui metidos todos os que gozam de reputação e hierarquia no mundo financeiro internacional. Não há dúvidas: a próxima bolha está prestes a rebentar. É só uma questão de tempo. Mais provável dentro de semanas que de meses.

O valor patrimonial das instalações da British Petroleum atinge agora o montante de 240 mil milhões de dólares. Muitos dos seus campos petrolíferos e participações estão à venda por todo o mundo. Desde finais de Abril, perdeu metade do seu valor em bolsa. Deverá entrar um investidor estratégico, provavelmente um fundo estratégico árabe. Os líbios querem ser uma opção mas ninguém se abalança a tamanho risco. E os meros boatos de uma entrada de mil milionários árabes não convencem as agências de qualificação do risco.

A Fitch, a mais pequena das três grandes, baixou drasticamente no passado dia 15 de Junho a qualificação do gigante petrolífero, pela segunda vez em duas semanas: e desta vez nada menos do que seis escalões de uma vezada, de AA para BBB. Se as duas grandes – a Moody’s e a Standard & Poor’s – a seguirem, os empréstimos da BP baixarão à categoria de lixo, como os títulos da dívida pública grega. De qualquer modo, grandes investidores destas agências, como Warren Buffet, colocaram milhares de milhões em acções e obrigações da BP, o que explica a moderação da Moody’s e da Standard & Poor’s.

Nada de OPAs hostis

Entretanto, a BP teve que ceder à pressão do governo dos EUA e sujeitar-se a um fundo de garantias num montante de 20 mil milhões de dólares. Pelo menos até ao próximo ano a BP não poderá continuar a pagar dividendos, terá que seguir uma política de poupança férrea e eliminar milhares de postos de trabalho, os primeiros 5.000 já em 2010. Há fortes indícios que levam à suspeita que a explosão do passado dia 20 de Abril no Golfo do México assenta numa implacável política de redução de custos. A segurança e o cuidado, como é sobejamente sabido, custam tempo e dinheiro. Quem louva o capitalismo pela sua eficiência não sabe do que fala. Ou se sabe, dá a entender aquilo em que não acredita.

A questão é que Londres prepara-se para o pior. Debaixo de um clamoroso silêncio acompanhado de rotundos desmentidos, trabalha-se em planos de emergência. A queda descontrolada ou uma tomada de controlo da BP seria uma catástrofe para os britânicos. As acções da BP têm fama em todo o mundo de investimentos seguros e lucrativos. A BP pagava regularmente, trimestre a trimestre, chorudos dividendos.

Os fundos de pensões, os maiores investidores institucionais nos mercados financeiros internacionais, compravam e mantinha enormes quantidades de acções da BP. E no sistema britânico de reformas os fundos de pensões jogam um papel chave. Só que, precisamente os rendimentos de reforma cobertas por capital são tudo menos seguros. Quando rebentou a bolha imobiliária estadunidense em 2008, muitos fundos de pensões resultaram em prejuízos dos depositantes e pensionistas. Para os fundos de investimento britânicos que há alguns anos investiam em acções da BP, a catástrofe petrolífera é ao mesmo tempo um desastre financeiro. Cerca de um sexto de todos os dividendos que se pagam no Reino Unido vêm da BP! Assim, os fundos perderam de três formas: patrimonialmente pela queda livre das acções da BP, pelos dividendos evaporados, e pela diminuída capacidade de crédito.

Os fundos de pensões perderam já muito dinheiro com as acções dos bancos e, agora, cai-lhes em cima a situação da BP. Se se calcularem as possíveis perdas tendo por base uma pensão média entre 12 mil e 13 mil libras esterlinas anuais, falamos de 800 a 1.000 libras esterlinas por ano. Daí, o governo do primeiro-ministro Cameron não ter escolha. Se a BP ajoelha, terá que intervir com um novo pacote milionário de resgate. Se foi necessário para os grandes bancos, não será menos necessário para a BP. Isso significa mais dívida pública e ainda mais desproporcionados pacotes de poupança.

A BP não pode desaparecer, pois ela é, de longe, um dos maiores contribuintes fiscais da Ilha e controla uma boa parte das infra-estruturas vitais do reino insular, como a Forties Pipeline System que liga mais de 50 campos petrolíferos no Mar do Norte, ou o oleoduto Baku-Tiblisi-Ceihan, que possibilita o trânsito de petróleo do Cáucaso para a Europa ocidental. Por isso, David Cameron anuncia que o seu governo fará tudo o que estiver ao seu alcance para impedir o controlo da BP por empresas petrolíferas chinesas, árabes ou russas. Se a BP cai nas mãos das gigantes norte-americanas, acabaram-se as considerações para com os fundos de pensões ou para quaisquer outras necessidades britânicas. Dentro de poucos dias a BP tem que liquidar os pagamentos que se vencem no segundo trimestre de 2010. O seu montante é enorme.

Este caso ilustra com clareza como dois elementos tão centrais como obsoletos do capitalismo – uma economia baseada na energia fóssil e na especulação financeira planetária – nos aproximam do abismo da próxima catástrofe.


* Michael R. Krätke é Professor de Economia Política e Director do Instituto de Estudos Superiores da Universidade de Lancaster no Reino Unido.

Este texto foi publicado dia 26 de Julho de 2010 em www.sinpermiso.info

Tradução de José Paulo Gascão

extraído d'ODiario.info

segunda-feira, 19 de julho de 2010

As continuas mentiras da BP (British Petroleum)


É uma história infinita.
Tristemente infinita.

Afinal o poço não está fechado. E se estiver, então algo não bate certo.
Petrolio, da jornalista Debora Billi, anuncia a existência duma nova fuga de "ouro negro", sempre no Golfo do México, sempre do mesmo poço...

Vamos ler:

Há semanas, se não desde o começo da história, suspeita-se que as coisas não estejam bem como foram contadas. Agora, torna-se cada vez mais difícil esconder a verdade por trás duma tampa [a tampa posicionada pela BP em cima do poço, NDT]. Ainda não sabemos se a nova falha de seja apenas uma fuga da nova tampa ou se for um temido vazamento do fundo do mar: o facto é que temos as provas de que Matthew Simmons [ver nota abaixo, NDT] não sucumbiu ao Alzheimer, como alegado pelos seus detractores, como também desta vez viu muito bem. Neste ponto, não faltará muito para a BP admitir a perda.

Também porque o bluff da BP foi "desvendado" pelo Almirante Allen em pessoa (o chefe das operações no Golfo), através desta carta na qual pergunta acerca da existência dum buraco longe do poço. A carta foi uma bomba, o que obrigou a empresa, depois de algumas horas, a confessar a existência da perda, embora com informações ainda confusas. Na verdade, presume-se que o governo tenha sido plenamente ciente do segundo vazamento, mas por motivos que podemos imaginar preferiu partilhar o silêncio da BP. Mas agora a empresa tem exagerado: a comunicação urbi et orbi com a qual anunciava a selagem do poço foi bem sucedida na intenção de fazer subir o valor das ações.

É claro que o governo dos EUA, que até agora apresentou um certo grau de cumplicidade com a empresa (para Obama esta catástrofe representou uma enorme perda de apoio popular) não pode continuar a ficar parado enquanto a BP destruir o Golfo do México na tentativa de salvar o poço. Porque vamos ser claros: é isso que estão a fazer. Macondo está agora reduzido a um coador e a única maneira de parar a catástrofe é fechar o poço para sempre com uma boa injecção de cimento. Mas isso significa dizer adeus a uma exploração que tem custado um rio de dinheiro e que prometia muito bem. Isso também significa abdicar e enviar ao público a mensagem de que o petróleo em águas profundas é perigoso e que não estamos tecnologicamente capazes de geri-lo.

A BP tenta ganhar tempo já há meses. Mesmo muito antes do famoso 20 de Abril, data em que a notícia espalhou-se no mundo inteiro, e isso é demonstrado os negócios técnicos e financeiros que têm despertado muitas suspeitas e que ocorreram nas semanas anteriores. Continua a ganhar tempo ao pôr e ao tirar o cap, perfurando e enviando anúncios triunfantes de fechos nunca acontecidos para influenciar Wall Street. Ganha tempo e não se preocupa com a única coisa que daria jeito: parar a maldita fuga de petróleo.mas a perda mínima.

Esclarecimento: Matthew Simmons tem causado surpresa ao declarar recentemente que há um outro grande vazamento no Golfo do México, que sopra enormes quantidades de petróleo no Golfo do México. Esta nova fuga estaria localizada a 7 milhas de distância do poço Macondo.
No programa Fast Money da CNBC, acrescentou que ficaria surpreso se a BP sobrevivesse a este verão, pois o desastre é inteiramente culpa da companhia.

Quanto à carta do Almirante Allen, nela o responsável das operações afirma o seguinte:
"Peço um procedimento escrito para abrir a válvula, logo que possível, se a perda de hidrocarbonetos viesse a ser confirmada"
e fala de "anomalias inexplicáveis na boca do poço".
Mas já ontem tinha exprimido algumas perplexidades:
"Temos de entender porque os valores de pressão são mais baixos do que o esperado tinha dito o almirante numa conferência de imprensa na qual sugeriu também duas hipóteses: ou o poço está a esvaziar-se, como alegado pela BP (!!!), ou não há uma perda ainda não identificada."

Segundo as últimas notícias, a BP admite a existência duma nova fuga mas, avança com a ideia de que não esteja relacionada com o "próprio" poço (!!!!!).

Fonte: Petrolio