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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Carta do Zé agricultor


Prezado Luis, quanto tempo.

Eu sou o Zé, teu colega de ginásio noturno, que chegava atrasado, porque o transporte escolar do sítio sempre atrasava, lembra né? O Zé do sapato sujo? Tinha professor e colega que nunca entenderam que eu tinha de andar a pé mais de meia légua para pegar o caminhão por isso o sapato sujava.

Se não lembrou ainda eu te ajudo. Lembra do Zé Cochilo... hehehe, era eu.

Quando eu descia do caminhão de volta pra casa, já era onze e meia da noite, e com a caminhada até em casa, quando eu ia dormi já era mais de meia-noite. De madrugada o pai precisava de ajuda pra tirar leite das vacas. Por isso eu só vivia com sono. Do Zé Cochilo você lembra né Luis?

Pois é. Estou pensando em mudar para viver ai na cidade que nem vocês.

Não que seja ruim o sítio, aqui é bom. Muito mato, passarinho, ar puro...

Só que acho que estou estragando muito a tua vida e a de teus amigos ai da cidade.

To vendo todo mundo falar que nós da agricultura familiar estamos destruindo o meio ambiente.

Veja só. O sítio do pai, que agora é meu (não te contei, ele morreu e tive que parar de estudar) fica só a uma hora de distância da cidade. Todos os matutos daqui já têm luz em casa, mas eu continuo sem ter porque não se pode fincar os postes por dentro uma tal de APPA que criaram aqui na vizinhança.

Minha água é de um poço que meu avô cavou há muitos anos, uma maravilha, mas um homem do governo veio aqui e falou que tenho que fazer uma outorga da água e pagar uma taxa de uso, porque a água vai se acabar. Se ele falou deve ser verdade, né Luis?

Pra ajudar com as vacas de leite (o pai se foi, né?) contratei Juca, filho de um vizinho muito pobre aqui do lado. Carteira assinada, salário mínimo, tudo direitinho como o contador mandou.

Ele morava aqui com nós num quarto dos fundos de casa. Comia com a gente, que nem da família.

Mas vieram umas pessoas aqui, do sindicato e da Delegacia do Trabalho, elas falaram que se o Juca fosse tirar leite das vacas às 5 horas tinha que receber hora extra noturna, e que não podia trabalhar nem sábado nem domingo, mas as vacas daqui não sabem os dias da semana ai não param de fazer leite.

Ô, bichos aí da cidade sabem se guiar pelo calendário?

Essas pessoas ainda foram ver o quarto de Juca, e disseram que o beliche tava 2 cm menor do que devia. Nossa! Eu não sei como encumpridar uma cama, só comprando outra né Luis?

O candeeiro eles disseram que não podia acender no quarto, que tem que ser luz elétrica, que eu tenho que ter um gerador pra ter luz boa no quarto do Juca.

Disseram ainda que a comida que a gente fazia e comia juntos tinha que fazer parte do salário dele.

Bom Luis, tive que pedir ao Juca pra voltar pra casa, desempregado, mas muito bem protegido pelos sindicatos, pelo fiscais e pelas leis. Mas eu acho que não deu muito certo.

Semana passada me disseram que ele foi preso na cidade porque botou um chocolate no bolso no supermercado. Levaram ele pra delegacia, bateram nele e não apareceu nem sindicato nem fiscal do trabalho para acudi-lo.

Depois que o Juca saiu, eu e Marina (lembra dela, né? casei) tiramos o leite às 5 e meia, ai eu levo o leite de carroça até a beira da estrada onde o carro da cooperativa pega todo dia, isso se não chover.

Se chover, perco o leite e dou aos porcos, ou melhor, eu dava, hoje eu jogo fora.

Os porcos eu não tenho mais, pois veio outro homem e disse que a distância do chiqueiro para o riacho não podia ser só 20 metros. Disse que eu tinha que derrubar tudo e só fazer chiqueiro depois dos 30 metros de distância do rio, e ainda tinha que fazer umas coisas pra proteger o rio, um tal de digestor. Achei que ele tava certo e disse que ia fazer, mas só que eu sozinho ia demorar uns trinta dia pra fazer, mesmo assim ele ainda me multou, e pra poder pagar eu tive que vender os porcos as madeiras e as telhas do chiqueiro, fiquei só com as vacas.

O promotor disse que desta vez, por esse crime, ele não vai mandar me prender, mas me obrigou a dar 6 cestas básicas pro orfanato da cidade.

Ô Luis, ai quando vocês sujam o rio também pagam multa grande né?

Agora pela água do meu poço eu até posso pagar, mas tô preocupado com a água do rio.

Aqui agora o rio todo deve ser como o rio da capital, todo protegido, com mata ciliar dos dois lados.

As vacas agora não podem chegar no rio pra não sujar, nem fazer erosão.

Tudo vai ficar limpinho como os rios ai da cidade. A pocilga já acabou, as vacas não podem chegar perto.

Só que alguma coisa tá errada, quando vou na capital nem vejo mata ciliar, nem rio limpo.

Só vejo água fedida e lixo boiando pra todo lado. Mas não é o povo da cidade que suja o rio, né Luis? Quem será?

Aqui no mato agora quem sujar tem multa grande, e dá até prisão.

Cortar árvore então, Nossa Senhora!. Tinha uma árvore grande ao lado de casa que murchou e tava morrendo, então resolvi derrubá-la para aproveitar a madeira antes dela cair por cima da casa.

Fui no escritório daqui pedir autorização, como não tinha ninguém, fui no Ibama da capital, preenchi uns papéis e voltei para esperar o fiscal vim fazer um laudo, para ver se depois podia autorizar. Passaram 8 meses e ninguém apareceu pra fazer o tal laudo ai eu vi que o pau ia cair em cima da casa e derrubei. Pronto! No outro dia chegou o fiscal e me multou.

Já recebi uma intimação do Promotor porque virei criminoso reincidente. Primeiro foi os porcos, e agora foi o pau.

Acho que desta vez vou ficar preso.

Tô preocupado Luis, pois no rádio deu que a nova lei vai dá multa de 500 a 20 mil reais por hectare e por dia. Calculei que se eu for multado eu perco o sítio numa semana. Então é melhor vender, e ir morar onde todo mundo cuida da ecologia. Vou para a cidade, ai tem luz, carro, comida, rio limpo.

Olha, não quero fazer nada errado, só falei dessas coisas porque tenho certeza que a lei é pra todos.

Eu vou morar ai com vocês, Luis. Mais fique tranquilo, vou usar o dinheiro da venda do sítio primeiro pra comprar essa tal de geladeira. Aqui no sitio eu tenho que pegar tudo na roça.

Primeiro a gente planta, cultiva, limpa e só depois colhe pra levar pra casa. Ai é bom que vocês e só abrir a geladeira que tem tudo. Nem dá trabalho, nem planta, nem cuida de galinha, nem porco, nem vaca é só abri a geladeira que a comida tá lá, prontinha, fresquinha, sem precisá de nós, os criminosos aqui da roça.

Até mais Luis.

Ah, desculpe Luis, não pude mandar a carta com papel reciclado pois não existe por aqui, mas me aguarde até eu vender o sítio.

 (Todos os fatos e situações de multas e exigências são baseados em dados verdadeiros)

A carta acima - tão somente adaptada por Barbosa Melo - foi escrita por Luciano Pizzatto que é engenheiro florestal, especialista em direito sócio ambiental e empresário, diretor de Parques Nacionais e Reservas do IBDF-IBAMA 88-89, detentor do primeiro Prêmio Nacional de Ecologia.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Carta de um amigo, importante intelectual , professor e jornalista


Comentário da redecastorphoto:
É claro que você tem razão em muitos pontos. Mas o que adianta lamentar? O importante é tentar, pelo menos tentar, desfazer conhecido descalabro e ajudar a corrigir as mazelas tão bem descritas abaixo...
Note que sem muito esforço, mas com criatividade e alguma paciência, este factótum (vesti a carapuça) conseguiu injetar algum conhecimento na sua lamentosa e pouco esperançosa missiva...
O caminho é esse; acrescentar algo ao que você recebe e passar adiante.
Chama-se agregar e transmitir conhecimento...

Caro Factótum

Você deve ter notado que eu ando muito lobatiano ultimamente. É o seguinte: se existem explicações a serem buscadas, as respostas estão no passado.

Belle de Jour  era casada com um jovem médico rico e bonito, mas todas as tarde ia se prostituir num bordel de Paris. O que ela buscava era excitação e não dinheiro, coisa que tinha de sobra. Como se explica uma coisa dessas? Pois é, por mais difícil que possa ser a explicação ela, certamente, está no passado. Belle de Jour é ficção, mas não está longe de histórias reais que conhecemos.

Tudo tem uma explicação, mas nem tudo carece dela. Eu gosto de espaguete ao alho e óleo, mas não vou gastar um centavo do meu dinheirinho com psicólogos para saber as razões desse gostar. Todo mundo está o tempo todo gostando ou desejando alguma coisa. Só que alguns desses desejos são problemáticos, colocam o indivíduo em conflito com ele mesmo ou com o grupo social em que vive. Nesses casos a explicação é necessária, pois conflitos consomem, internamente, energias que deixam de ser usadas na luta contra o mundo hostil.

A menos que o problema seja sublimado, como ocorreu com o Tchaikovsky, que conseguiu transformar a sua dor em pura beleza, como se pode confirmar ouvindo a “Patética”, um verdadeiro “Réquiem” . Mas ainda assim a carga de sofrimento foi tão grande que “o mais italiano dos compositores russos” acabou se matando. Mas ele não morreu do cólera, perguntará você? É verdade, mas nada me tira da cabeça que beber água não tratada numa Moscou onde grassava o cólera, a despeito das recomendações em contrário, não foi uma espécie de suicídio?

Monteiro Lobato
Então, como o passado é importante, eu me valho do Monteiro Lobato  para entender as nossas atuais mazelas, pois ele nos mostra um passado onde muitas explicações podem ser encontradas. 

Lobato foi promotor em Areias, mas virou fazendeiro em virtude de uma herança. E através dele eu pude confirmar que o homem que passa a vida na cidade grande não tem a menor ideia do que seja a vida nos rincões brasileiros.

Referindo-se à literatura de Bernardo Guimarães  diz que “lê-lo é ir para o mato, para a roça – mas uma roça adjetivada por menina do Sion - onde os prados são amenos, os vergéis floridos, os rios caudalosos, as matas viridentes, os píncaros altíssimos, os sabiás sonorosos, as rolinhas meigas”.

Bernardo Guimarães
“Bernardo descreve a natureza como um cego que ouvisse contar e reproduzisse as paisagens com os qualificativos surrados do mau contador. Não existe nele o vínculo enérgico da impressão pessoal”.

Desse modo “Bernardo falsifica o nosso mato. Onde toda gente vê carrapatos, pernilongos, espinhos, Bernardo aponta doçuras, insetos maviosos, flores olentes. Bernardo mente.”

Em “Cidades Mortas”, lançado em 1919, através de um os seus personagens, Lobato traça o diagnóstico: “... o mal da nossa raça: preguiça de pensar. E restringindo o asserto à classe agrícola:

- Se o governo arrancasse um cento dos fazendeiros dos mais ilustres e os trancasse nesta sala, com cem machados naquele canto e uma floresta virgem ali adiante; e se naquele quarto pusesse uma mesa com papel, pena e tinta, e lhes dissesse: “Ou vocês pensam meia hora naquele papel ou botam abaixo aquela mata”, daí a cinco minutos cento e um machados pipocavam nas perobas!...”

Lendo essas coisas que Lobato escreveu há quase cem anos eu fico pensando no que progredimos de lá para cá e concluo que, em alguns casos, regredimos. Tanto então quanto agora continuamos um país de não-leitores.

Jeca Tatu trabalhando...
O Jeca Tatu continua existindo, só que agora alienado pela televisão, com o filho viciado em joguinhos de computador que joga em “lan-houses” que proliferam mais do que bibliotecas, estas até inexistentes em muitos lugares dos rincões brasileiros. Antes se tinha a botica “onde há uma sessão permanente de mexerico, e o mexerico é a ambrosia dos lugares pobres”. Mas era um mexerico local, hoje o mexerico é nacional e até internacional, pois nos ocupamos com o sujeito que lá no outro lado do mundo ateou fogo às vestes ou com a amante do Príncipe Charles, do outro lado do Atlântico.

Naturalmente que hoje não se faz mais mexerico. Fazem fofoca. Mas que, não importa o nome que se lhe dê, continua sendo a ocupação principal dos medíocres.

Lobato defendeu o uso das riquezas do subsolo em benefício do povo. Na sua época livro era coisa rara entre nós e hoje continua sendo coisa cara mas pelo menos temos bibliotecas públicas que no seu tempo não existiam. Só que essas bibliotecas estão entregues ás moscas. Ou seja, o nosso grau de estupidez deve ter aumentado.

Lobato defendeu a cultura, pois sem ela não se conquista nem se preserva a riqueza. Mas foi uma Vox clamantis in deserto, pois hoje o que mais nos falta é cultura. Lobato falou na importância da ciência, que é coisa que pouco se vê nas escolas de hoje. 

Lobato era um inconformado com as desigualdades brasileiras. Para ele São Paulo era uma locomotiva puxando dezenove vagões. Disse que sem São Paulo o resto do Brasil “era menos do que um sangrado Paraguai”.

Jeca Tatu estudando...
De lá para cá muita coisa mudou. Algumas para melhor, outras para pior. Mas ainda hoje há quem considere partes do Brasil um “peso morto” e até defenda ideias separatistas, como as havia na época o Lobato.

Pois é, meu caro Factotum, a mim faltam o engenho e a arte para ser um cronista do meu tempo como Lobato o foi do seu. De qualquer forma sê-lo-ei à minha moda, mal e porcamente, porque os “jeca-tatus” continuam existindo e precisam ser retratados.