Mostrando postagens com marcador Charlie Hebdo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Charlie Hebdo. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Atentado contra Charlie Hebdo: apagamento político e “jornalístico” de causas, consequências e circunstâncias

11/1/2015, Saïd BouamamaLe blog de Saïd Bouamama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


«O ventre que pariu a besta imunda continua fecundo»
Bertolt Brecht, 1941 [*]



O atentado conta o semanário satírico Charlie Hebdo marcará nossa história contemporânea. Resta saber em que direção e com que consequências. No contexto atual de “guerra (por procuração) contra o terrorismo” e de racismo e islamofobia de Estado, os artífices daquela cena, conscientemente ou não [1] aceleraram um processo de estigmatização e isolamento do componente muçulmano, real ou suposto, das classes populares.

As consequências políticas do atentado já são desastrosas para as classes populares e o desastre só se aprofundará se for proposta nenhuma alternativa à famosa “União Nacional”.

Verdade é que o modo como os veículos da imprensa-empresa na França e uma esmagadora maioria da classe política reagiram aos acontecimentos é criminoso. Essas reações é que ameaçam nosso futuro e trazem nelas incontáveis “efeitos colaterais” e futuros 7 e 9 de janeiros cada vez mais mortíferos. Compreender e analisar para agir é a única postura que pode ajudar a evitar as instrumentalizações e os desencaminhamentos de uma emoção, de uma cólera e de uma revolta legítima.

A manipulação da mídia ocasiona desinformação 

A total ocultação das causas 

Não tomar em consideração as causalidades profundas e imediatas, isolar as consequências do contexto que as faz surgir e não inserir evento tão violento na genealogia dos fatores que o possibilitaram condena, no mínimo à catatonia e, no pior caso, a uma lógica de guerra civil. Hoje, ninguém na ‘mídia’ aborda as causas reais ou potenciais do que houve. Por que foi possível que um atentado daquelas proporções acontecesse hoje, em Paris?

Como disse Sophie Wahnich, há “uma utilização fascista das emoções políticas das massas”, contra a qual o único antídoto é “o entrelaçamento possível de emoções e razão”. [2] O que estamos vivendo hoje é a adesão total dos discursos jornalísticos, midiáticos e políticos dominantes exclusivamente à emoção, ocultando-se simultaneamente qualquer análise real e concreta. Qualquer tentativa de análise real da situação como tal, ou qualquer análise que vise a propor outra explicação, diferente da trazida pelos veículos da imprensa-empresa comercial e pelos políticos que a representam, viraria elogio dos crimes.

Examinemos o ventre fecundo da besta imunda

Observemos então pelo lado das causas, a começar pelas causas que brotam da longa duração e da dimensão internacional.

A França é das potências envolvidas em mais guerras em todo o planeta. Do Iraque à Síria, passando pela Líbia e Afeganistão, para o petróleo, do Mali à África Central, passando pelo Congo, para os minerais estratégicos, os soldados franceses colaboram para semear morte e desastre pelos quatro cantos do planeta.

O fim dos equilíbrios mundiais que resultaram da IIª Guerra Mundial com a desaparição da URSS, combinado a uma globalização capitalista centrada na redução dos custos, para maximizar os lucros, na nova concorrência dos países emergentes, fizeram do controle sobre as matérias-primas a principal causa das ingerências, intervenções e guerras contemporâneas. Eis como o sociólogo Thierry Brugvin resume o lugar que as guerras têm no mundo contemporâneo:

A conclusão da guerra fria precipitou o fim de uma regulação dos conflitos no plano mundial. Entre 1990 e 2001, o número de conflitos entre estados explodiu: 57 grandes conflitos, em 45 diferentes territórios. 
[…] Oficialmente, partir para guerra contra nação adversária é sempre legitimado por motivos virtuosos: defender a liberdade, a democracia, a justiça... De fato, as guerras permitem controlar economicamente um país, mas também fazem com que os empresários privados de um país consigam passar a mão nas matérias-primas (petróleo, urânio, minérios, etc.) ou nos recursos humanos do outro país[3]

Guerra = Petróleo

Depois dos atentados do 11/9/2001, o discurso de legitimação das guerras passou a ser construído essencialmente sobre o “perigo islamista”, contribuindo para que se desenvolvesse uma islamofobia em grande escala nas principais potências ocidentais, que os próprios relatórios oficiais são forçados a constatar. [4] Ao mesmo tempo, essas guerras produzem um denso “ódio ao ocidente” entre os povos vítimas dessas agressões militares. [5] As guerras que o ocidente comanda em vários pontos do mundo são uma das principais matrizes da besta imunda.

Para a ambição de controlar as riquezas gaso-petrolíficas, o Oriente Médio e o Oriente Próximo são alvo geoestratégico central. As estratégias das potências ocidentais em geral e as estratégias da França em especial, desdobram-se sobre dois eixos: para reforçar Israel como base e pivô do controle sobre a região; e para manter o apoio às petromonarquias reacionárias do Golfo.

O apoio indefectível ao estado de Israel é assim uma constante da política francesa que absolutamente não mudou, de Sarkozy a Hollande. O estado sionista pode assassinar impunemente em grande escala. Sejam quais forem a amplitude e os meios dos massacres, o gerente local dos interesses ocidentais jamais precisou preocupar-se a sério nem por muito tempo. François Hollande declarou, quando de sua viagem oficial a Israel em 2013 : “serei para sempre amigo de Israel”. [6]

E, também nesse campo, o discurso “jornalístico”, midiático e político de legitimação desse apoio constrói-se sobre a base de uma apresentação do Hamás palestino, mas também (mediante o emprego de recorrentes imprecisões verbais) da resistência palestina em sua totalidade, da população palestina na sua totalidade e de seus apoios políticos internacionais, como se todos significassem o mesmo “perigo islamista”. A lógica do “dois pesos, duas medidas” impõe-se mais uma vez a partir de uma abordagem islamofóbica que se manifesta nos mais altos escalões do estado, e é repercutida pela grande maioria dos veículos da imprensa-empresa comercial e dos atores políticos.

Esse é o segundo perfil do ventre da besta imunda.

Esses fatores internacionais conjugam-se a fatores internos da sociedade francesa. Já ficou dito acima que a islamofobia de estado, impulsionada pela lei sobre o véu em 2004 e mantida depois regularmente (discurso sobre os levantes nos bairros populares em 2005, lei sobre oniqab, “debate” sobre a identidade nacional, circular Chatel e exclusão de mães que usem véu na saída das escolas para buscar os filhos, perseguição contra jovens que vistam saias longas nos ginásios públicos, proibição de manifestações de apoio ao povo palestino, etc.).

É preciso dizer, e chamar a atenção para o fato, de que esse clima islamofóbicos não foi contraditado por qualquer das forças políticas que se pretendem representantes das classes populares. Ainda mais grave, surgiu um consenso muito amplo, visível várias vezes, formado em torno do pretexto de defender o “laicismo” e de que ninguém se aproximasse “dos que defendem o Hamas”. Da extrema direita, a uma parte importante da extrema esquerda, ouviram-se os mesmos argumentos, construíram-se as mesmas clivagens e produziram-se as mesmas consequências.

O preço do petróleo
O resultado não é outro se não o enraizamento ainda mais profundo dos islamalgames [/islamalgâmes/[**], aprofundamento de uma clivagem no seio das classes populares, fragilização ainda maior dos diques antirracistas já fragilizados, e violências concretas ou simbólicas exercidas contra os muçulmanos e as muçulmanas. Esse resultado se pode descrever, como propõe Raphaël Liogier, como a difusão, numa parte importante da sociedade, do “mito da islamização” que culmina na tendência a constituir uma “obsessão coletiva”. [7]

A tendência à produção de uma “obsessão coletiva” foi aprofundada, além do mais, com o tratamento que a imprensa-empresa deu aos casos recentes de Zemmour e Houellebecq.

Depois de I-télé ter-lhe oferecido incontáveis tribunas, Eric Zemmour ganhou o emprego de enviado da rede, porque propôs “a deportação de muçulmanos franceses”. Nesse contexto de obsessão coletiva de que estamos falando, é possível, assim, fazer-se passar por vítima. Quanto ao escritor, é propagandeado por numerosos “jornalistas”, sob o pretexto de que não seria recomendável misturar ficção e realidade.

Verdade é que nesses dois casos, continua o aprofundamento da “obsessão coletiva” por um lado, e, por outro lado, o sentimento de ser insultado permanentemente, mais uma vez. Esse é o terceiro perfil do ventre da besta imunda.

Esse fator interno de uma islamofobia banalizada tem efeitos desdobrados no contexto da fragilização econômica, social e política geral das classes populares, hoje. A pauperização e a precarização massivas são já insustentáveis nos bairros populares. Decorrem disso relações sociais marcadas por violência sempre crescente contra si próprio e contra os próximos. Combinam-se a isso, a perda de qualidade de vida de parte importante das classes médias, e o medo de que a mesma perda também os alcance, entre os que ainda estão bem de vida, mas não são “bem-nascidos”. Esses, sentindo-se ameaçados, já contam com um alvo consensual já “jornalisticamente” e midiaticamente e politicamente constituído e designado como legítimo: o muçulmano ou a muçulmana.

A fragilização toca ainda mais fortemente a parte das classes populares oriunda da imigração, que é confrontada com discriminações racistas sistêmicas (ângulo absolutamente morto, desconhecido, ignorado, nos discursos das organizações políticas que querem os votos das classes populares); essas discriminações racistas produzem trajetórias de marginalização (na formação, no emprego, na procura por moradia, nos contatos com a Polícia e nos controles policiais pela aparência [orig. contrôles au faciès], etc.). [8]

A islamofobia aumenta na França e no mundo

O aprofundamento da clivagem entre dois componentes das classes populares, por uma lógica de “dividir os que deveriam ser unidos (componentes diferentes das mesmas classes populares) e aproximar os que deveriam ficar separados (as classes sociais cujos interesses são divergentes)” é o quarto perfil do ventre da besta imunda.

O que nasce de um ventre desses?

Tal matriz é evidentemente propícia à emergência de trajetórias nihilistas, que se traduzem pela matança em Charlie Hebdo. Extremamente minoritárias, essas trajetórias são produção de nosso sistema social e das desigualdades e discriminações massiva que o caracterizam.

Mas o que as reações ao atentado revelaram é também muito importante e, quantitativamente, bem mais disseminado que a opção nihilista (por enquanto?).

Sem poder esgotar o assunto, recordemos alguns elementos desses últimos dias. Do lado dos discursos, tivemos Marine Le Pen exigindo um debate nacional contra o “fundamentalismo islâmico”, o bloco identitário declarando a necessidade de “repor em causa a imigração massiva e a islamização” para lutar contra o “jihadismo”, o jornalista Yvan Rioufol do Fígaro intimando Rokhaya Diallo a se des-solidarizar na [rádio] RTL, Jeannette Bougrab acusando “os que acusaram Charlie Hebdo de ser islamofóbicos” como culpados pelas mortes, sem falar de todas as “declarações” que falavam de “guerra declarada”.

A essas intenções, juntam-se as passagens das palavras à ação desses últimos dias: uma mulher da ONG Femen faz-se filmar enquanto queima e sapateia sobre o Corão; houve tiros contra a mesquita de Albi; slogans racistas pintados nas mesquitas de Bayonne e de Poitiers; granadas lançadas contra outra mesquita em Mans; tiros contra uma sala de orações em Port la Nouvelle; outra sala de orações incendiada em Aix les Bains; uma cabeça e vísceras de porco jogadas numa sala de orações em Corte na Córsega; explosão num restaurante snack-kebab em Villefranche sur Saône; um automobilista foi alvo de vários tiros no Vaucluse; um aluno de ginásio, 17 anos, de origem magrebina foi molestado durante um minuto de silencio em Bourgoin-Jallieu em Isère, etc.. Os objetivos e os atos mostram a amplidão dos danos já causados, só até aqui, pelos últimos decênios de banalização da islamofobia. Fazem também parte da besta imunda.

Judith Butler
A besta imunda está igualmente na gritante ausência de indignação em face das vítimas inumeráveis das guerras imperialistas das últimas décadas. Reagindo contra o 11/9, a filósofa Judith Butler interroga-se sobre a indignação desigual. Mostra que a indignação justificada pelas vítimas do 11/9 é sempre acompanhada por completa indiferença pelas vítimas das guerras feitas pelos EUA:

Como é possível que ninguém informe os nomes dos mortos nessa guerra, incluídos os que os EUA mataram, e dos quais jamais teremos uma imagem, um nome, uma história, jamais nem o mínimo fragmento de testemunho sobre sua vida, qualquer coisa que se possa ver, tocar, conhecer? [9]

Essa indignação desigual está na base da produção de uma clivagem bem real, no seio das classes populares. E essa clivagem é portadora de todos os perigos, sobretudo em período de construção da “união nacional”, como hoje.

A união nacional que tanto sonham construir, é “todas e todos juntos contra esses que não são os nossos, contra os que não mostram cara branca”.

Formidável instrumentalização política

Mas o escândalo que vivemos hoje não fica por aí. Todas as instrumentalizações da situação, e o pânico que suscita, estão aí para quem queira ver – cinismo consumado, o dia inteiro.

Reforço na segurança e atentados contra as liberdades democráticas

Alguns, como Dupont Aignan, reclamam “mais maleabilidade nas forças da ordem”, enquanto já foi aprovada, no outono passado, uma nova “lei antiterrorista”. Fazendo-lhe eco, Thierry Mariani faz referência à Lei Patriótica dos EUA (cuja consequência foi graves atentados contra as liberdades individuais, sob o pretexto de que assim se lutaria contra o terrorismo): “Os EUA souberam reagir depois do 11/9. Denunciou-se a [lei] Patriot Act, mas, depois dela, não houve nenhum atentado, exceto Boston”. [10]

Patriot Act
Instrumentalizar o medo e a emoção, para impor leis e medidas liberticidas, eis a primeira manipulação já testada para sondar o campo dos possíveis em matéria de regressão da democracia. Reivindicações legítimas e urgentes são tornadas inaudíveis pela avalanche “de segurança” que visa a aproveitar a situação: será agora muito mais difícil fazer a luta contra o controle pela aparência em locais públicos [orig. contrôle au faciès], e as humilhações cotidianas que assim se produzem continuarão, cercadas pela indiferença generalizada.

A unidade nacional

A construção ativa e determinada da unidade nacional é a segunda grande instrumentalização em curso. Ela permite pôr em surdina o conjunto das reivindicações que entravam o processo generalizado de desregulação. A corda tem de ser bem grossa, e é eficaz no clima de medo generalizado que o conjunto da imprensa-empresa produz diariamente.

Em algumas cidades, a unidade nacional já foi estendida à Frente Nacional que participou das manifestações de apoio a Charlie Hebdo. Dati e Fillon já dão sinais de indignação por  Marine Le Pen ter sido “excluída” da unidade nacional. É essa unidade nacional que causa também os maiores danos políticos, porque ela destrói os raros pontos de referência positiva que existissem antes, em termos de alianças possíveis e de identidades políticas.

A obrigação de justificar-se

Outra instrumentalização encontra-se na obrigação permanente, real ou suposta, para os muçulmanos, de se justificarem por atos que não cometeram, e/ou de se afastarem, separarem-se, dos autores do atentado.

Essa situação de permanentemente acusado é humilhante. A ninguém ocorre exigir que cristãos, reais ou supostos, publiquem condenação “oficial”, quando o norueguês Behring Breivik assassinou 77 pessoas em julho de 2011 e declarou-se islamófobo e nacionalista racista branco.

Por trás dessa obrigação, está a lógica que apresenta o Islã como essencialmente incompatível com a República. Dessa lógica decorre a ideia de pôr todos os muçulmanos, reais ou supostos, sob vigilância – não só da polícia, mas também dos jornalistas da imprensa-empresa, da “mídia”, dos professores universitários, dos vizinhos, etc..


“Ser” Charlie? Quem pode ser Charlie? Quem quer ser   Charlie?

O slogan “somos todos Charlie” é, afinal, a derradeira instrumentalização em operação nos dias que correm. Se o atentado contra Charlie Hebdo é condenável, não se pode de modo algum esquecer o papel que teve o semanário para constituir o clima de islamofobia que se vê hoje.

Nós somos Charlie
De modo algum tampouco se podem esquecer as odes a Bush que se via naquelas páginas, enquanto Bush promovia sua famosa “guerra contra o terrorismo” no Afeganistão e depois no Iraque. Essas tomadas de posições escritas ou desenhadas não são detalhes, ou simples piadas sem consequências: estão na origem de múltiplas agressões de mulheres veladas e de numerosos atos contra locais de culto para os muçulmanos.

Sobretudo, o semanário contribuiu fortemente para dividir as classes populares, precisamente quando elas precisavam, ainda mais que nunca, de unidade e de solidariedade. Não somos “mais” Charlie ontem, que hoje.

Os tempos que vêm pela frente anunciam-se difíceis e custosos.

Para deter a escalada, temos de pôr fim à violência dos dominantes: temos de nos bater pelo fim das guerras imperialistas em andamento, e abolir as leis racistas.

Para deter a escalada, temos de desenvolver nossos quadros e produzir eventos de solidariedade destinados a impedir que se alastrem os atos racistas e, sobretudo, islamofóbicos.

Para deter a escalada, temos de construir todos os espaços de solidariedade econômica e social possíveis em nossos bairros populares, com total autonomia em relação aos que tanto promovem, como perspectiva, a união nacional.

Mais que nunca, temos de nos organizar, cerrar fileiras, recusar a lógica que manda “dividir quem tem de ser unido e unir quem tem de ser separados”. 

Mais que nunca, temos de identificar e apontar o inimigo dessa nossa construção conjunta: inimigo são todos e tudo que nos divide.



Notas dos tradutores

[*] BRECHT, B. (1941) Aufhaltsame Aufstieg des Arturo Ui (Der) [“A resistível ascensão de Arturo Ui” (...) “história de gangsters de Chicago num ambiente de filme negro (...) paródia trágica inspirada em Hitler escrita durante o exílio de Brecht em 1941, na Finlândia. Usando como pano de fundo Al Capone e as guerras entre gangsters, o autor fala metaforicamente da ascenção do Nazismo, Brecht reproduz a tomada de poder e a anexação da Áustria. Criminosos de guerra como Goebbels, Goering e Röhm são facilmente identificáveis. Brecht também aproveita para falar do mundo egoísta do capitalismo e da sociedade que o mantém”]. [Trecho da tradução da peça em: A Resistível Ascensão de Arturo Ui]

[**] A palavra-valise islamalgâme (fr.) nos parece cômoda para designar não só o procedimento argumentativo localizado de amálgama, mas os avatares lexicais e discursivos de um fenômeno difuso e implícito, a assimilação mais ou menos marcada e deliberada entre terrorismo e Islã, bem como as cadeias associativas variadas que gravitam em torno de matrizes da “fórmula”. A palavra islamalgâme foi criada pelo jornalista Daniel Mermet (France-Inter Là-bas si j’y suis), para dar título a uma série de programas de rádio, e depois já apareceu em outros contextos [com informações de Semenaqui traduzidas].

___________________

Notas do autor

[1] Por um lado é cedo demais para saber; por outro lado, o resultado é o mesmo.

[2] Sophie Wahnich, La révolution française, un évènement de la raison sensible 1787-1799, Hachette, Paris, 2012, p. 19.

[3] Thierry Brugvin, Le pouvoir illégal des élites, Max Milo, Paris, 2014.

[4] Djacoba Liva Tehindrazanarivelo, Le racisme à l’égard des migrants en Europe, Ed. Conseil de l’Europe, Strasbourg, 2009, p. 171.

[5] Jean Ziegler, La haine de l’Occident, Albin Michel, Paris, 2008.

[6] Le MondeHollande “ami d’Israël” reste ferme face à l’Iran, 17/11/2013.

[7] Raphaël Liogier, Le mythe de l’islamisation, essai sur une obsession collective, Le Seuil, Paris, 2012.


[9] Judith Butler, citada em Mathias Delori, Ces morts que nous n’allons pas pleurer, visitado dia 9/1/2015, 18h.

[10] Le Parisien, 8/1/2015.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Paris - mais um ato na Guerra Global ao Terror, o show

11/1/2015, [*] Wayne MadsenStrategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Os ataques, em Paris, contra a redação e os jornalistas do semanário satírico Charlie Hebdo e num supermercado kosher (vídeos acima) conseguiram, mais uma vez, afastar convenientemente a atenção do mundo para bem longe do torvelinho econômico em que gira a União Europeia e a extrema impopularidade de seus principais líderes nessa infindável “guerra global ao terror”.

Dia 11/1/2015, o presidente francês François Hollande anunciou que marcharia em solidariedade pelas ruas de Paris, com a Chanceler alemã, Angela Merkel, o Primeiro-Ministro britânico, David Cameron, o Primeiro-Ministro italiano, Matteo Renzi, o Primeiro-Ministro da Espanha, Mariano Rajoy, o Primeiro-Ministro da Bélgica, Charles Michel, o Presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, o Primeiro-Ministro irlandês, Enda Kenny, e o Primeiro-Ministro turco e apoiador do ISIS/ISIL, Ahmet Davutoglu. Todos esses líderes, que enfrentam graves crises de impopularidade nos respectivos países, rapidamente usaram os ataques terroristas em Paris para aplicar um lustro aos respectivos obscurecidos perfis eleitorais. Além dos líderes impopulares, foram escalados para marchar em Paris o Secretário-Geral da OTAN, Jens Stoltenberg, o Presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk e o Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, para a grandiosa “fotomontagem” em homenagem aos cartunistas assassinados, os mesmos que, seguidamente, ridicularizavam exatamente aqueles mesmos líderes com charges que, quase sempre, tinham conteúdo sexual.

Marcha dos Chefes de Estado - Paris, 11/1/2015

Mais uma vez, os acusados de terem cometido os ataques recentes, os irmãos franco-argelinos Said e Cherif Kouachi, que teriam assassinado 12 pessoas, inclusive o editor-chefe de Charlie Hebdo, e o franco-senegalês Amedy Coulibaly, acusado de ter matado reféns no supermercado eram, todos eles, bem conhecidos da polícia francesa e dos serviços de inteligência. Um dos fregueses do supermercado disse que Coulibaly teria dito que era original do Mali e que apoiava o ISIL e a Palestina. Os nomes dos irmãos Kouachis estavam incluídos, até, na lista norte-americana dos “proibidos de embarcar em avião”.

O fato de que os irmãos Kouachis tenham estado envolvidos no recrutamento e treinamento de jihadistas voluntários para combater na Síria pelo Estado Islâmico do Iraque e Levante, ISIS/ISIL (ing.) e de que tenham também trabalhado no recrutamento de exércitos de jihadistas no Iraque e Iêmen já bastaria para que ambos estivessem em listas de vigilância. Mas, como em caso anterior na França que envolveu supostos terroristas jihadistas que teriam matado pessoas ao acaso, os irmãos Kouachi, como Coulibaly, também bem conhecido da Polícia, foram autorizados a portar armas e outros materiais.

Coulibaly foi convidado, mesmo, do Presidente francês Nicolas Sarkozy em 2009. Coulibaly trabalhava numa fábrica da Coca Cola na periferia pobre de Grigny, arredores de Paris. Coulibaly foi um dos dez operários selecionados para encontrar-se pessoalmente com o Presidente Sarkozy no Palácio do Eliseu, para discutir questões de empregos para jovens. Como faz o serviço secreto dos EUA, a segurança do presidente francês também examina detalhadamente o passado de qualquer pessoa que receba convite para reunião com o presidente, é claro. Basta isso para que o fato de Coulibaly ter sido selecionado para reunião com Sarkozy cause a mais total perplexidade. O jornal Le Parisien citava Coulibaly, excitado com a reunião com o presidente, e que esperava que Sarkozy o ajudasse a encontrar um bom emprego. Diz-se que Coulibaly encontrou Cherif Kouachi pela primeira vez em 2010.

Amedy Coulibaly esteve com Sarkozy em 2005

Mas o que se sabe é que Coulibaly converteu-se ao Islã radical quando esteve preso em 2005, por assalto a mão armada. E teria sido na prisão que Coulibaly tornou-se seguidor de Djamel Beghal, suspeito de ser o membro franco-argelino da Al-Qaeda que, em 2001, tentou explodir a embaixada dos EUA em Paris.

De todos os jovens desempregados e subempregados na França, a segurança do presidente francês resolveu aprovar um conhecido membro da Al-Qaeda, autorizado a entrar no Palácio presidencial e reunir-se com o presidente Sarkozy. Como diriam os franceses: incroyable!

Não há dúvida alguma de que as autoridades conheciam o envolvido no affair Merah, em março de 2012, quando Mohammed Merah, cidadão francês, foi morto pela polícia francesa. Merah foi acusado de assassinar três paraquedistas franceses em Montauban e três alunos e um professor numa escola hebraica em Toulouse. Adiante se descobriu que não só o Diretorado Central da Inteligência Francesa Interna [orig. French Central Directorate of Internal Intelligence (DCRI)] tinha gordo dossiê sobre Merah, mas, também, que a inteligência francesa tentara recrutá-lo. Merah viajou sem ser perturbado ao Afeganistão, com pleno conhecimento da inteligência francesa. Os conservadores pró-Sarkozy e o Partido Socialista, então na oposição, hoje na presidência, conspiraram para acobertar todos os laços que ligavam Merah à inteligência francesa.

O que se diz é que os irmãos Kouachi teriam voltado da Síria no verão passado, a mesma Síria onde a CIA e a inteligência francesa apoiam grupos da guerrilha islamista radical que combatem contra o governo do presidente Bashar al-Assad. As semelhanças entre os Kouachis e Coulibaly, e Merah, são grandes demais para não chamarem a atenção. Todos esses eram bem conhecidos da inteligência francesa antes de aparecerem como supostos autores de ataques terroristas; e todos tinham conexões com grupos afiliados da Al-Qaeda.

Identidade de Cherif Kouachi, "esquecida" no auto de fuga

Desde a bomba-relógio na estação de trem de Bolonha em 1980, que matou 85 e feriu mais de 200, as operações “de falsa bandeira” na Europa Ocidental tornaram-se, pode-se dizer, uma espécie de “operação padrão”, que sempre se poderia repetir quase sem modificações [orig.boiler plate” operations]. Foi sem dúvida o que aconteceu no caso do assalto realizado por três homens, atuando de modo militar e profissional, sem vacilações “amadorísticas”, os supostos terroristas islamistas, contra a redação do semanário satírico Charlie Hebdo.Embora os dois irmãos Kouachi, mortos pela polícia num armazém ao norte de Paris, estejam sendo acusados por todas as ações que levaram aos ataques contra o jornal, não há ainda nenhuma explicação sobre um terceiro atacante. Um terceiro homem, cunhado dos Kouachis, de nome Mourad Hamyd, apresentou-se voluntariamente à polícia, depois que ouviu seu nome divulgado pela imprensa. Mas Hamyd, 18 anos, estava na escola, no momento do ataque contra Charlie Hebdo.

O ataque na estação de trem de Bolonha inaugurou a era dos ataques “sob falsa bandeira” dos tempos modernos. Embora, em 1980, o governo e a imprensa-empresa italianos tenham atribuído a responsabilidade por aquele ataque a guerrilheiros da esquerda radical italiana, já se sabe que o ataque foi executado por uma célula clandestina de fascistas radicais que conseguiram os materiais para a bomba em depósitos secretos pertencentes a uma unidade paramilitar clandestina da OTAN conhecida como “Gladio”.

A unidade conhecida como “Gladio” foi criada para mobilizar forças de guerrilha para combaterem contra os soviéticos, no caso de guerra em solo europeu. Armas e materiais foram enterrados e escondidos em cavernas por toda a Europa Ocidental, para uso futuro pelos guerrilheiros que lutassem contra possíveis tropas soviéticas de ocupação. Não demorou contudo para que a direita italiana e grupos armados sionistas tentassem usar o desacreditado Dossiê Mitrokhin, que teria sido extraído de arquivos da KGB, para atribuir a culpa pelo ataque em Bolonha aos soviéticos, que teriam atuado em conluio com árabes radicais, incluindo palestinos. A farsa durou pouco.

Atentado de Bolonha,  parte da Operação Gladio, uma série de atentados de "falsa bandeira" praticados por EUA (CIA) e Israel (Mossad)

Mais tarde descobriu-se que a CIA criara e distribuíra todas essas histórias, como parte de uma operação de guerra psicológica contra os soviéticos e os países árabes. De sua cela em Paris, em 2005, Ilich Ramirez Sanchez, conhecido terrorista conhecido como “Carlos”, revelou que os responsáveis pelas mortes em Bolonha foram CIA e Mossad, e que o tal “Dossiê Mitrokhin” estava sendo usado para “falsificar a história”. Fontes independentes confirmaram a veracidade do que Carlos dizia.

Desde Bolonha, as “pegadas” da inteligência ocidental em operações sob falsa bandeira são sempre muito evidentes, ataque após ataque. 40 anos de apego sempre à mesma doutrina, já fazem ver sempre, claras como o dia, as pegadas da inteligência ocidental.

Uma dessas “pegadas” que indicam a operação sob falsa bandeira é que a Polícia, muito convenientemente, sempre encontra “provas” que conectam os suspeitos ao crime – sejam agentes duplos que não sabem para quem trabalham, ou crentes que creem em qualquer história mal contada que lhes apareça pela frente.

Se logo aparece a tal “prova” que liga o suposto criminoso à cena do crime, já não há quem não pense em operação sob falsa bandeira. A Polícia francesa diz que ligou os Kouachis ao crime, porque Said, o irmão mais velho, esqueceu um documento francês de identidade num Citroen preto usado para a fuga. A Polícia não informou a qual dos dois irmãos pertenceria o documento. Vários especialistas franceses logo alertaram que o documento poderia ter sido plantado na cena, para confundir a Polícia. Também convenientemente, a Polícia encontrou coquetéis Molotov e bandeiras jihadistas islamistas no mesmo carro. O passaporte do suposto sequestrador de um dos aviões usados no 11/9, Mohammed Atta, também teria sido encontrado intacto, em perfeitas condições, no meio dos restos do World Trade Center.

WTC em 11/9/2001 (atentado de falsa bandeira)
Praticamente sempre, os verdadeiros assassinos em ataques sob falsa bandeira aparecem mascarados – como os três pistoleiros que assassinaram os cartunistas na redação de Charlie Hebdo.

Sempre há outros ataques na região, para confundir a Polícia. Por exemplo, enquanto a Polícia francesa concentrava suas buscas pelos pistoleiros do norte de Paris até a fronteira da Bélgica, uma policial feminina francesa foi atacada e morta em Montrouge, sul de Paris. As autoridades francesas apressaram-se a informar que os eventos no sul de Paris e na redação de Charlie Hebdo não estavam conectados. Depois se soube que, sim, havia conexão entre os dois crimes.

Algumas testemunhas no supermercado e no prédio do jornal estavam certas de que os mascarados que se revelaram como terroristas eram, de fato, soldados de forças especiais antiterrorismo. No supermercado, um homem que não foi ferido disse que apertou a mão de um dos mascarados, que ele supunha que fosse policial de forças especiais. Ao mesmo tempo em que a polícia francesa lançava suas operações para libertar reféns no supermercado kosher, era divulgada outra situação com refém numa joalheria em Montpellier, no sul da França. A Polícia apressou-se a informar que a situação nada tinha a ver com os eventos na região de Paris. Claro que o caso em Montpellier contribuiu convenientemente para reforçar a ação do fator medo.

PEGIDA - manifestação anti-imigrantes
Os eventos na França também deram forte impulso aos movimentos anti-imigrantes islâmicos que crescem por toda a Europa, desde o movimento PEGIDA (sigla em alemão para “Europeus Patriotas contra a Islamização do Ocidente”) e o partido “Alternativa para a Alemanha”, até a “Frente Nacional” na França e o “Partido Independente” na Grã-Bretanha.

Acontecido tão imediatamente depois de a França ter votado no Conselho de Segurança da ONU a favor do reconhecimento da Palestina como estado, e se se considera o crescimento político, na França, da “Frente Nacional” pró-Israel, não se deve descartar a possibilidade de que a operação terrorista contra Charlie Hebdo seja ataque “olho-por-olho” [orig. a “price tag” attack] dos sionistas contra a França, mascarado como operação terrorista jihadista.
_________________________

[*] Wayne Madsen é jornalista investigativo, autor e colunista. Tem cerca de vinte anos de experiência em questões de segurança. Como oficial da ativa projetou um dos primeiros programas de segurança de computadores para a Marinha dos EUA. Tem sido comentarista frequente da política de segurança nacional na Fox News e também nas redes ABC, NBC, CBS, PBS, CNN, BBC, Al JazeeraStrategic Culture e MS-NBC. Foi convidado a depor como testemunha perante a Câmara dos Deputados dos EUA, o Tribunal Penal da ONU para Ruanda, e num painel de investigação de terrorismo do governo francês. É membro da Sociedade de Jornalistas Profissionais (SPJ) e do National Press Club. Reside em Washington, DC.