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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

WikiLeaks: o que os EUA sabem sobre o Egito desde 23/9/2008 (2)

Tantawi [ministro da Defesa] resiste a mudanças (que os EUA propõem para o Egito, na nova política pós 9/11) [1]
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu
3/2/2011, Guardian, UK
[cabeçalho aqui omitido]
Excerto do item SECRETO do telegrama SECRET CAIRO 002091
A íntegra do telegrama não está disponível.
Tradução de trabalho, não oficial, para finalidades didáticas.
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ATENÇÃO:
Sobre a participação do Ministro da Defesa aí citado, nos eventos da Praça Tahrir ontem, 5/2/2011, ver também:

- Robert Fisk, 5/2/2011, The Independent, UK, em português no blog redecastorphoto em: Egito: Exaustos, assustados e cercados, os manifestantes apresentam seus planos para bo futuro
- 5/2/2011, WikiLeaks, excerto do telegrama S E C R E T 002091, em português, no blog redecastorphoto, em: “O que os EUA sabiam sobre o Egito desde 23/9/2008”
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ASSUNTO: Cenário da visita de TANTAWI aos EUA, 24-28/3/2009

1. (S) RESUMO: O ministro da Defesa do Egito, marechal-de-campo Mohamed Tantawi viajará a Washington, Tampa e Chicago dias 24-28/3[2009]. Encontrará altos oficiais do exército em Washington e no Quartel-general do USCENTCOM em Tampa, e verá arranjos da defesa civil dos EUA em Chicago. Mrs. Tantawi e outros cinco altos generais viajarão com o ministro. Tantawi busca garantias de que o governo dos EUA não condicionará nem reduzirá a ajuda militar ao Egito, no futuro. Dirá que o Egito continua a ser valioso para os EUA como aliado indispensável na Região, e pressionará a favor da volta de BRIGHT STAR para exercício, completos de campo. Aos 80 anos, veterano de cinco guerras contra Israel, está dedicado a evitar qualquer guerra futura. Mas também permaneceu paralisado nos acordos e no paradigma de Camp David e sente-se desconfortável com as mudanças de nossas políticas depois do 11/9 (“Guerra ao Terror”). Reconhecendo que o general resiste à mudança, ainda assim temos de conseguir empurrar o ministro Tantawi na direção de parceria mais ampla e mais flexível, baseada em objetivos estratégicos partilhados, inclusive segurança de fronteiras, contraterrorismo, defesa civil e defesa da paz. FIM DO RESUMO.

2. (S) Controle de fronteiras: A eficácia do Egito, para evitar o contrabando de armas para Gaza é essencial para por fim aos ataques de foguetes palestinos contra Israel. Quando a secretária falou com firmeza contra o contrabando em outubro de  2007, os egípcios afinal entenderam a seriedade da situação e concordaram com abrir um “FMF case (?)” que empregará tecnologia de ataque e prevenção contra os túneis na fronteira de Rafah. O case incluirá treinamento extensivo. O embarque dos primeiros equipamentos está previsto para junho. O treinamento começará nessa primavera nos EUA, porque os egípcios são excepcionalmente sensíveis à presença de tropas estrangeiras em suas fronteiras. Os egípcios também estão construindo barreira de concreto do lado egípcio para impedir que volte a acontecer o que aconteceu em Janeiro, quando milhares de gazenses entraram em Rafah.

3. (C) Os egípcios insistem que têm feito todo o possível para impedir o contrabando para Gaza. Reconhecem a ameaça que o Hamás representa à própria segurança do Egito e ao processo de paz. Alegam que já descobriram mais de 200 túneis desde novembro de 2005. Tantawi argumentará que o Egito tem feito tudo que está ao seu alcance, mas que não é a única via pela qual as armas entram em Gaza. É de opinião que os políticos israelenses acusam o Egito por razões de política doméstica e [Tantawi] teme os efeitos dessas acusações tenham sobre a assistência militar ao Egito. Pedirá também que o governo dos EUA aplique a influência que tem sobre Israel para melhorar as condições humanitárias dos palestinos em Gaza. O chefe da segurança interna do Egito Omar Soliman está conduzindo negociações com o Hamás, mas Tantawi quer também que a passagem de Hamás seja aberta para aliviar as pressões humanitárias que Gaza enfrenta.

4. (S) Com Tantawi devemos reconhecer que a tecnologia antitúneis que introduziremos esse contribuirá para aumentar os resultados dos efeitos de interdição, mas não é solução completa. De fato, o corpo de engenheiros do exército especialistas que criou o sistema já nos disse que a fronteira de Gaza “é o pior cenário possível” para qualquer interdição completa. Em encontro dia 6 de março com NEA A/S Welch (?), Tantawi deu indicações de que os egípcios adotaram medidas adicionais na fronteira. Continuamos interessados em reunião trilateral com egípcios e israelenses (e que afinal talvez deva incluir também a Autoridade Palestina) para partilhar inteligência e táticas. Até aqui os israelenses têm impedido esse tipo de contato. Temos de ampliar a discussão para discutir também os esforços de bloqueio pelo mar e cuidar da trilha das armas contrabandeadas, que começa no Iêmen e Sudão.

5. (S) Defesa Civil: O acidente com o barco de passageiros no Mar vermelho, em fevereiro de 2006[1] criou embaraços para o governo de Mubarak e custou mais de 1.000 vidas. Tantawi levará a Washington o pedido do presidente Mubarak para que os EUA integrem o grupo que cuidará da gestão de respostas a crises. Quando a isso, o presidente precisa e será grato por nossa ajuda – pequeno mais importante avanço contra a resistência do ministério da Defesa que não quer que os EUA se engajem na definição e alteração das prioridades do Egito e na transformação de suas forças. O assessor da Defesa Nacional dos EUA McHale sugeriu que se incluam representantes do Egito nos exercícios civil para emergências com base nos EUA [CAIRO 00000524 002.2 OF 002] planejados para a primavera e o verão de 2008, e que se convidem funcionários do governo do Egito para um simpósio de defesa civil que acontecerá no Army War College nesse outono.

6. (S) Manutenção da paz: O Egito contribuiu para todos os esforços de manutenção da paz da ONU e da União Africana na África, e está mandando 1.300-1.400 soldados para a missão ONU/UA em Darfur (UNAMID). O Egito também ofereceu à UNAMID dois batalhões de infantaria mecanizada; a ONU aceitou um. Apesar de nossos repetidos pedidos, os egípcios não forneceram helicópteros; simplesmente, não têm capacidade logística e operacional para operar no difícil ambiente de Darfur. Sugerimos que esse pedido não seja repetido.

7. (S) Reforma: No Gabinete, onde ainda detém influência significativa, Tantawi opõem-se às mudanças econômicas e políticas que, para ele, estão desgastando o poder do governo. Sua preocupação absolutamente prioritária é a unidade nacional, e opôs-se a iniciativas políticas que vê como estímulo a clivagens políticas ou religiosas na sociedade egípcia. Em discurso dia 9/3, Tantawi disse que um dos papeis dos militares é proteger a legitimidade constitucional e a estabilidade interna, sinalizando sua disposição para usar os militares para controlar a Fraternidade Muçulmana na rodada de eleições para os conselhos municipais de 9 de abril. Quanto à reforma econômica, Tantawi acredita que a reforma econômica do Egito aumentará a instabilidade social, porque enfraquecerá o controle que o governo exerce sobre preços e produção. Tantawi rejeita qualquer imposição FMF (?) egípcio, sobre direitos humanos ou qualquer outro assunto. Até o ano passado, via o FMF como inviolável e considerava o ESF como escudo de proteção contra possível cortes no FMF. Contra-argumentará que qualquer condicionante que se imponha à ajuda militar será contraproducente. Dirá também que o Exército nada tem a ver com problemas de direitos humanos no Egito e que qualquer condicionamento que o Congresso dos EUA imponha, que considere questões de direitos humanos, estará mal orientado.

8. (S) Os interlocutores em Washington devem estar preparados para argumentar com um Tantawi velho e resistente a mudanças. Sedutor e cortês, ele contudo não se afasta nunca de um paradigma militar pós-Camp David que serviu aos estreitos interesses de seu grupo durante os últimos 30 anos. Ele e Mubarak são focados na estabilidade do regime e na manutenção do status quo, até o final de seu mandato. Simplesmente não têm nem a energia nem a inclinação ou a necessária visão de mundo para agir de outro modo. Mesmo assim, em atenção aos sempre presentes auxiliares de Tantawi, devemos focar as discussões no futuro e em como operar como parceiros estratégicos, para encararmos juntos os desafios desse futuro. [assina] RICCIARDONE


Nota de tradução
[1] Sobre o acidente ver BBC News, 3/2/2006, em: Egyptian ferry sinks in Red Sea  

WikiLeaks: O que os EUA sabiam sobre o Egito, desde 23/9/2008

Cable dated: 2008-09-23 T15:17:00
SIPDIS
[cabeçalho aqui omitido]
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu
Excerto do item SECRETO do telegrama S E C R E T CAIRO 002091
A íntegra do telegrama não está disponível.
Tradução de trabalho, não oficial, para finalidades didáticas.
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ASSUNTO: Especialistas veem os militares em declínio, mas ainda com forte poder de influência

1. (C) RESUMO: Recentemente, analistas acadêmicos e outros pintaram quadro dos militares egípcios em declínio intelectual e social, com oficiais que já não são egressos, na maioria, dos quadros da elite nacional. Descrevem corpo de oficiais de nível médio em deterioração, críticos de um ministro da Defesa que veem como incompetente e que valoriza mais a lealdade que a capacidade e competência nos subordinados. Mas os analistas observam que os militares ainda têm forte influência na função de assegurar a estabilidade do regime e porque operam vasta rede de empresas comerciais. Quanto à sucessão, os analistas destacam que as forças armadas dão sinais de incômodo crescente com a candidatura de Gamal Mubarak, mas concordam quase unanimemente que os militares apoiarão o presidente Mubarak se renunciar e instalar o filho na presidência, cenário que nos parece improvável. Um professor opinou que desde 2003, o regime tem tentado fortalecer a elite econômica próxima de Gamal à custa dos militares, num esforço para enfraquecer a potencial oposição militar no caminho de Gamal até a presidência. Outros analistas creem que o regime estaria tentando cooptar os militares mediante patrocínio, para que aceite Gamal e apesar das tensões entre os militares e os empresários, suas relações ainda são de cooperação. FIM DO RESUMO.

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Uma Instituição em Declínio
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2. (C) Uma série de conversas recentes com acadêmicos e outros analistas civis mostram a impressão de todos de que, embora o exército egípcio esteja em declínio, continua a ser, mesmo assim, instituição poderosa. (Nota: A expertise desses acadêmicos, especialistas em política egípcia, e a disposição para discutir o atual papel do exército, que é questão sensível, fazem deles interlocutores valiosos para os EUA. Fim da nota.) XXXXXXXXXXXX [omitido no original] contou-nos que os militares alcançaram o ponto máximo de influência no final dos anos 1980s, antes do afastamento do recentemente falecido ministro da Defesa Abu Ghazalah, que foi demitido por causa de uma então crescente popularidade política. Disse que desde 1989, a influência do Ministério da Defesa veio declinando gradualmente, e a posição privilegiada da elite de seus membros também declinou, ao ritmo em que vem desaparecendo o respeito, na sociedade, pelos militares. XXXXXXXXXXXX observou que os soldos dos militares caíram muito abaixo dos padrões do setor privado, e que a carreira militar já não é opção atraente para jovens ambiciosos que desejem aproximar-se da nova elite dos negócios.

3. (S) Na opinião de XXXXXXXXXXXX, antes da guerra de 1967 os oficiais militares eram “mimados” [orig. "spoiled"] e formavam uma elite social. Depois do fracassado desempenho dos militares na guerra de 1967, diz ele, os oficiais passaram cada vez menos a ter origem nos altos escalões da sociedade, processo que se acelerou depois da demissão de Abu Ghazalah, em 1989. Desde Abu Ghazalah, XXXXXXXXXXXX observou, o regime não mais permitiu que figuras carismáticas chegassem aos postos mais altos da hierarquia. 

“(O ministro da Defesa) Tantawi parece um burocrata” – ele riu. XXXXXXXXXXXX descreveu os oficiais de nível intermediário da corporação como em geral desleixados, e disse que se ouvem vozes desses oficiais de nível intermediário, pelos clubes do Ministério da Defesa em toda a cidade do Cairo, que manifestam abertamente grande desprezo por Tantawi [VER NOTA DA TRADUÇÃO, adiante].

Esses oficiais referem-se a Tantawi como “o poodle de Mubarak”, disse ele; e reclamam que esse “ministro da Defesa incompetente” só chegou aonde chegou por ser cegamente fiel a Mubarak e está “jogando na lama todos os militares”. Sua opinião é que uma cultura de obediência cega contamina todo o Ministério da Defesa, onde o único critério considerado para promoções é a lealdade e que o Ministério da Defesa não hesita em expulsar oficiais se percebe que sejam “competentes demais” e, por isso, representam algum tipo de ameaça potencial ao regime.

4. (C) XXXXXXXXXXXX crê que a crescente oposição do governo a qualquer diálogo com a universidade é sintomático do declínio social e intelectual. Disse que até há seis anos, o ministério da Defesa indicava um representante que participava das discussões acadêmicas no Al-Ahram Center; depois, o ministério da Defesa mandou prender aquele representante, porque suas ideias estavam parecendo excessivamente independentes, e nunca mais enviaram qualquer representante. Disse que Tantawi foi-se tornando cada vez mais intolerante em relação à liberdade intelectual. Em sua opinião, Tantawi deixou claro que as questões militares “não devem ser objeto de pesquisa acadêmica” e que o ministério da Defesa não toleraria pensamento independente em suas fileiras.

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... Mas por enquanto, ainda mantém o controle sobre a economia 
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5. (C) Embora alguns analistas vejam um número pequeno de pessoas egressas das elites do governo e do empresariado que exercem controle crescente no campo político e econômico em todo o país, reconhecem que os militares ainda têm forte influência na economia egípcia. Na opinião de XXXXXXXXXXXX, o governo dá aos seis empresários que formam o Gabinete carta branca para que continuem a trabalhar em suas empresas e negócios, mas o ministro da Defesa pode intervir em qualquer contrato comercial, “por razões de segurança”. Fontes nos informaram que as empresas cujos proprietários são militares, quase sempre dirigidas por generais aposentados, são particularmente ativas nas indústrias da água, azeite de oliva, cimento, construção civil, hotelaria e gasolina. XXXXXXXXXXXX destaca que empresas dirigidas por militares construíram a moderna estrada que leva ao “resort” Ain Souknah no Mar Vermelho, a 90 minutos de distância do Cairo; e o novo anexo da Universidade do Cairo. 

Observou também que militares são proprietários de grandes extensões de terra no Delta do Nilo e na costa do Mar Vermelho, e especula se essas propriedades não seriam “fringe benefits” [aprox. “bônus especiais”], em troca de os militares assegurarem a estabilidade e a segurança do regime. (Comentário: Vemos o papel dos militares na economia como força que quase sempre paralisa reformas que interessem ao livre mercado, aumentando o envolvimento direto dos governos nos mercados. FIM DO COMENTÁRIO.)

6. (C) Muitos analistas concordam que os militares entendem que os esforços de privatização empreendidos pelo governo do Egito ameaçam diretamente a posição dos militares na vida econômica; por isso, os militares sempre se opõem a reformas econômicas. XXXXXXXXXXXX especula que as privatizações obrigaram as empresas que pertencem aos militares a melhorar a qualidade dos processos, sobretudo na indústria hoteleira, para competir com empresas privadas e atrair investimentos estrangeiros absolutamente necessários. XXXXXXXXXXXX prevê que o maior poder político de uma elite econômica empresarial, em detrimento das empresas dirigidas por militares, que parece ser tendência inevitável, levará o governo a perseverar nas reformas da política econômica, porque precisa atrair investimento estrangeiro direto. Disse também que esse investimento estrangeiro direto é indispensável para os planos do governo que precisa manter o crescimento econômico e a estabilidade política.

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Influência na burocracia e na sociedade civil 
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7. (C) XXXXXXXXXXXX chama a atenção para um “esforço concertado”, que estaria acontecendo “na cúpula do regime”, para penetrar na burocracia civil, usando para isso militares aposentados de alto escalão. Observa que há altos oficiais aposentados em todos os principais cargos civis, como chefe ou chefe de serviços e em posições chave nos ministérios de Informação, Transporte e Educação. Outras fontes contaram histórias de suas experiências muitas vezes cômicas, com oficiais militares que dirigem instituições da sociedade civil, ONG e associações caritativas. XXXXXXXXXXXX observou que uma campanha [nome omitido no original] contratou um militar de alta patente aposentado para presidir suas operações. Que a associação caritativa XXXXXXXXXXXX também contratou general aposentado para o cargo de diretor, acreditando que a competência do general, a experiência nos contatos com a burocracia e sua rede de contatos e colegas seriam muito úteis às finalidades humanitárias daquela ONG.

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Os militares e a sucessão 
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8. (C) Nossos contatos concordam que a base de poder do filho do presidente, Gamal Mubarak, está centrada na comunidade empresarial, não nos militares. XXXXXXXXXXXX disse que ouviu recentemente de oficiais do exército, que os militares não apóiam Gamal e que, se Mubarak morrer no cargo, os militares antes darão um golpe e assumirão o poder, e em nenhum caso admitirão que o filho suceda o pai na presidência. 

Mas há analistas que entendem que os militares aceitarão o governo de Gamal, se for resultado de processo eleitoral abençoado por Mubarak e que realmente garanta poder efetivo a Gamal. XXXXXXXXXXXX entende que depois que Gamal tornou-se membro ativo do Partido de Mubarak (NDP) em 2002, o regime deu mais poder aos reformadores do gabinete de 2004 para iniciar os esforços de privatização que interessam aos ricos empresários que cercam Gamal. Por essa avaliação, o objetivo do regime é criar uma base de poder centrada no empresariado para Gamal no Partido, para compensar a falta de credenciais militares. 

Corolário necessário nessa estratégia, diz ele, é que o regime tentará enfraquecer o poder econômico e político dos militares, de modo a que não consigam impedir a trilha de Gamal até a presidência.

9. (S) COMENTÁRIO: Os militares ainda são força política e econômica potente. As recentes intervenções, usando consideráveis recursos do ministério da Defesa, para produzir pão e enfrentar o desabastecimento em março, e para apagar o incêndio no Conselho Shoura em agosto (refs A e B) mostram que podem ser bem sucedidos em áreas em que outras agências do governo falham. Os militares ajudam a garantir estabilidade ao regime e operam uma tão vasta rede empresarial que já podem ser considerados como “empresa quase-comercial” eles próprios. 

Embora haja tensão entre as elites empresariais e os militares, o relacionamento entre elas, em geral, ainda parece ser cooperativo, mais do que concorrencial. A perda de prestígio dos militares deve-se em parte ao desaparecimento de qualquer ameaça militar externa iminente, que já não há desde 1979, quando se assinaram os acordos de Camp David. O regime, que conhece o papel criticamente importante que o ministério da Defesa pode desempenhar na sucessão presidencial, pode bem estar tentando cooptar os militares, ou subornando-os para que aceitem que Gamal chegue à presidência. 

Essa embaixada concorda com as análises segundo as quais os altos oficiais do Exército apoiariam Gamal se Mubarak renunciasse e o pusesse na presidência, porque é difícil imaginar que esses oficiais venham a fazer qualquer tipo de oposição ao presidente ou ao ministro da Defesa, dos quais dependem seus empregos. Em cenário de sucessão mais confuso, porém, torna-se mais difícil prever o que farão os militares. Embora os oficiais de nível intermediário nem sempre partilhem as opiniões e a fidelidade dos oficiais , há barreiras de controle e censura nas comunicações que tornam praticamente impossível que esses oficiais desgostosos cheguem a por no comando algum novo líder. SCOBEY

NOTAS DA TRADUÇÃO
[1] Sobre a participação do Ministro da Defesa aí citado, nos eventos da Praça Tahrir ontem, 5/2/2011, ver:

Robert Fisk, 5/2/2011, The Independent, UK, em português no blog redecastorphoto em Egito: Exaustos, assustados e cercados, os manifestantes apresentam seus planos para bo futuro

 

WIKILEAKS: “US embassy cables: Tantawi resistant to change in Egypt”, SECRET SECTION 01 OF 02 CAIRO 000524, 3/2/2011,Guardian, UK