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sábado, 29 de novembro de 2014

Obama: só placebo, na violência contra as liberdades civis


27/11/2014, [*] Wayne MADSENStrategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


O policial Wilson atirou várias vezes contra Brown, inclusive um tiro mortal na testa, porque se sentiu “ameaçado” por um negro jovem desarmado. Nas palavras do próprio Wilson: “O único modo que encontro para descrever é... como um demônio, de tão furioso que aquilo parecia!”, referindo-se a Brown. Reencontrado com os tempos da escravidão, Wilson, como tantos dos seus apoiadores racistas, veem os negros como “coisas”. Por isso disse “aquilo”, falando de um homem.


Michael Brown desarmado e assassinado...
Pelo estado policial dos EUA! 
Barack Obama operou como placebo na situação de erosão continuada das liberdades civis nos EUA. O governo que chegou a ser antecipado como o “mais transparente” da história dos EUA, acabou sendo o mais opaco, com Obama processando número maior de funcionários públicos por violação da Lei Antiespionagem de 1917, que todos os seus antecessores somados. Os que estão sendo processados são pressupostos “criminosos” por terem informado jornalistas sobre os malfeitos e crimes do próprio governo de Obama.

Obama também foi propagandeado como o primeiro presidente afro-americano dos EUA ‘pós-racismo’. Em vez disso, o primeiro mandato de Obama assistiu à volta dos EUA aos tempos sinistros dos EUA de Jim Crow, quando adultos jovens e adolescentes negros correm alto risco de morrerem baleados na rua – ou de serem espancados até a morte – por policiais brancos racistas. Esses EUA apareceram à vista de todos, quando um Tribunal Federal no Condado de St. Louis, Missouri, absolveu o policial Darren Wilson, de Ferguson, que matou a tiros um jovem negro de 18 anos, Michael Brown. Wilson disse ao tribunal que Brown, que media 1,93m de altura, “parecia um demônio”, quando Wilson, que também mede 1,93m, o encontrou, numa batida policial que, como adiante se viu, nada absolutamente teve de normal.

Darren Wilson, o policial assassino
Wilson atirou várias vezes contra Brown, inclusive um tiro mortal na testa, porque se sentiu “ameaçado” por um negro jovem desarmado. Nas palavras do próprio Wilson:

O único modo que encontro para descrever é... como um demônio, de tão furioso que aquilo parecia... − referindo-se a Brown.

Reencontrado com os tempos da escravidão, Wilson, como tantos dos seus apoiadores racistas, veem os negros como ‘'coisas'’. Por isso disse “aquilo”, falando de um homem.

Não se deve esquecer que no debate presidencial em 2008 com o então candidato Obama, o senador John McCain apontou para Obama, no palco e disse “aquele ali”, referindo-se ao adversário.

Quando atirou em Brown, Wilson sabia que o “sistema” se ergueria a seu favor. Raramente oficiais de polícia são condenados por assassinato ou crime doloso. É o que se chama “paredão azul” [referência à cor dos uniformes dos policiais], de policiais, advogados, procuradores, juízes de um lado; e os cidadãos, do lado oposto. Na verdade, Wilson lucrou bastante, pessoalmente, por ter assassinado Brown. Ele leiloou a primeira entrevista depois de absolvido, entre vários “jornalistas” de uma “mídia” que salivava, e pode ter acertado na roleta, se forem verdadeiros os insistentes boatos segundo os quais a rede ABC News, que pertence aos estúdios Disney, comprou, por gorda quantia de seis dígitos, os direitos àquela primeira entrevista da “celebridade”, depois de absolvido.

Robert McCulloch, o promotor que "acusou"
o assassino...
Em vez de questionar os jurados que lá estavam no tribunal de St. Louis County, o procurador Robert McCulloch, nascido em família de policiais; cujo pai foi morto em serviço por um negro, e que tem longa história de mentir em tribunais, decidiu só apresentar “provas” que apresentavam o “acusado” sob a luz mais favorável. Fotos de supostos “ferimentos” que Wilson teria recebido foram distribuídas para os jurados, embora parecessem, de fato, microcortes autoinfligidos com navalha, pelo próprio Wilson, ao barbear-se. Nenhuma das testemunhas que assistiram aos tiros foi interrogada. Na verdade, as declarações desse procurador à mídia, ao informar os jornalistas sobre a absolvição, incluíam várias referências a testemunhas que mudaram seus depoimentos ante o juiz. McCulloch parecia culpar mais a imprensa que Wilson, pela reação que o assassinato de Brown provocou nos EUA.

Em vez de enfrentar um estado policial nos EUA, cujos procuradores de Justiça e senadores são autorizados a desqualificar os cidadãos negros e mestiços, Obama delicia-se agora antecipando a luxuosa aposentadoria de ex-presidente que o espera.

Obama nada fez para mudar o curso e restaurar os direitos constitucionais dos norte-americanos, ou para livrá-los de serem perpetuamente vigiados pela Agência de Segurança Nacional, FBITransportation Security Administration e centenas de agências e departamentos pelo país. As polícias locais e até as escolas públicas já são armadas com equipamento militar potencialmente letal, fornecido pelo Departamento de Defesa para ser usado por civis para autodefesa. São rifles de assalto, morteiros, veículos blindados e granadas de mão.

A segunda morte de Michael Brown...
Memorial incendiado!
A empresa-imprensa só fala da agitação e das depredações em Ferguson, que começaram depois da decisão do tribunal. Houve sugestões de que as polícias estadual e local saíssem de cena contra os provocadores de ações violentas. Assim o governador do Missouri, Jay Nixon, encontrou pretexto para convocar a Guarda Nacional do Missouri para restabelecer a ordem nas ruas. Os EUA de Obama, pelo menos para quem leia jornais, parecem os EUA dos anos 1970s: Nixon ordena deslocamento de mais soldados da Guarda Nacional.

Zeid Ra’ad Al Hussein
O Departamento de Estado dos EUA edita “relatório” anual da situação dos Direitos Humanos pelo mundo. O relatório cobre todos os direitos, dos direitos de gays, a questões de antissemitismo. Contudo, por mais que se procure, não se encontra no tal “relatório” nenhuma referência ao maior violador de direitos humanos no planeta – os EUA.

Depois da decisão do tribunal do Missouri que absolveu Wilson da acusação de assassinato doloso e também da acusação de assassinato sem intenção de matar, outro policial, em Cleveland, matou um menino afro-americano de 12 anos que carregava uma arma de brinquedo.

O Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos, Zeid Ra’ad Al Hussein, acusou os EUA por violação sistemática dos direitos humanos de afro-americanos e de outras minorias. Disse que em muitos setores da população dos EUA, há “profunda e crescente desconfiança contra os sistemas de distribuição e de aplicação da lei e da justiça”.

Konstantin Dolgov, Comissário no Ministério de Relações Exteriores da Rússia para Direitos Humanos, Democracia e Estado de Direito, escreveu pelo Twitter: “

Konstantin Dolgov
Continuam a crescer as tensões étnicas na sociedade norte-americana. É hora de as autoridades norte-americanas darem atenção ao que se passa por lá, em vez de tanto se ocuparem com aplicar sermões ao resto do mundo, sobre direitos humanos.

O ministro de Relações Exteriores do Egito, antes, pedira que os EUA mostrassem contenção e moderação, no modo de enfrentar as manifestações de rua em Ferguson. Porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da China também conclamou os EUA a melhorarem seus registros no campo dos direitos humanos. A China tem sido alvo de insistentes “protestos”, por autoridades norte-americanas, por causa de políticas chinesas para os direitos humanos.

O único fator que nunca muda nos repetidos fracassos dos EUA no campo dos direitos humanos, como se comprova com os assassinatos de civis na área de St. Louis, em Cleveland, em New York e em outras cidades, é que os EUA recusam-se sempre a reconhecer que vivem uma catástrofe humanitária no campo das liberdades civis, o que faz do país alvo de condenações, ao mesmo tempo em que as autoridades norte-americanas, ensandecidamente, só fazem apresentar os EUA como exemplo a seguir, para todo o mundo.

Enquanto Ferguson queimava e soldados da Guarda Nacional eram mandados para o condado de St. Louis, Obama decidiu mudar-se para território familiar, em Chicago, onde começou sua carreira política. O dito “organizador comunitário” e “ativista social” foi vaiado por manifestantes em sua própria cidade, quando tentava inflar sua nova política para a imigração.

Obama surdo?
Obama sempre foi seletivamente surdo para todas as reclamações de norte-americanos médios, fosse um adolescente negro em ambiente racista, como em Ferguson, Missouri ou Sanford, Florida, ou um operário que vive de salário mínimo e não pode pagar para receber a assistência médica do “Obamacare”.

Obama meteu-se em golpes para “mudança de regime” na Ucrânia, na Síria, na Líbia, no Egito, na Tunísia e em outros países, ao mesmo tempo em que só frustrou os clamores legítimos por mudança de regime ali dentro dos EUA, em Ferguson, no estado do Missouri, em Cleveland, Detroit, Oakland e em outras cidades.

Para os EUA, o slogan de campanha de Obama “Esperança e Mudança” converteu-se em piada macabra, com Obama sempre rindo para o lado de Wall Street, já antevendo a luxuosa aposentadoria que o espera, enquanto embolsa as gordas doações que lhe fazem empresas agradecidas, para os seus Museu e Biblioteca Presidenciais Barack Obama.
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[*] Wayne Madsen é jornalista investigativo, autor e colunista. Tem cerca de vinte anos de experiência em questões de segurança. Como oficial da ativa projetou um dos primeiros programas de segurança de computadores para a Marinha dos EUA. Tem sido comentarista frequente da política de segurança nacional na Fox News e também nas redes ABC, NBC, CBS, PBS, CNN, BBC, Al JazeeraStrategic Culture e MS-NBC. Foi convidado a depor como testemunha perante a Câmara dos Deputados dos EUA, o Tribunal Penal da ONU para Ruanda, e num painel de investigação de terrorismo do governo francês. É membro da Sociedade de Jornalistas Profissionais (SPJ) e do National Press Club. Reside em Washington, DC.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Ferguson – Estão chegando os canhões

18/8/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Guarda Nacional ataca Ferguson com bombas de gás lacrimogêneo (17/8/2014)
Então... Está começando?


O governador do Missouri disse na 2ª-feira (18/8/2014) que enviaria a Guarda Nacional para o subúrbio de Ferguson, no condado de St. Louis, para restaurar a calma, depois que autoridades dispersaram à força uma multidão que protestava contra os tiros, disparados pela Polícia, que vitimaram um adolescente desarmado.
...

No início da noite, no domingo, centenas de pessoas que protestavam em Ferguson, inclusive famílias com crianças pequenas, tiveram de correr em busca de segurança, quando policiais usando máscara contra gases e coletes à prova de balas dispararam granadas de gás lacrimogêneo para dispersar aquelas pessoas, horas antes do início do toque de recolher.

As bombas de gás foram disparadas sem qualquer provocação – disse Anthony Ellis, 45. – O protesto foi iniciado por crianças de bicicleta. E de repente, lá estavam eles, gritando “Vão para casa! Para casa!”.

A Patrulha Rodoviária do Missouri disse que os “agressores” tentaram invadir um posto de comando policial, e que só usaram veículos blindados para garantir a segurança pública.

Desculpe... Nós precisamos perguntar por Michael Brown Jr.
Segundo pesquisa de Billmon, a Guarda Nacional do Missouri tem alguns problemas de suprematismo/neonazismo. Interessante investigar o grau de diversidade desse corpo. Há ali alguns batalhões de Polícia Militar que têm vasta experiência de contato com “a negrada da areia” [orig. sandniggers] no Afeganistão e no Iraque.

A Guarda Nacional com certeza “avalia” que “o agressor” em Ferguson justifica mais essa escalada na guerra local.

Espera-se que outras cidades levantem-se e unam-se aos protestos de Ferguson, e que também protestem contra o que até conservadores  descrevem como emprego de força excessiva, militarizada e ultra-agressiva, agora também contra norte-americanos e dentro dos EUA


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille  (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ouvir versão em performance de Tim van Broekhuizen.

EUA e luta de classes − A Próxima Guerra Racial Não Será Racial

17/8/2014, Kareem Abdul-JabbarTime
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Viela do Furdunço na Vila Vudu: O artigo não é niúma brastemp. Mas pensem no Neymar, lá, cô dedinho levantadinho prô céu, ensinando que foi-deus, foideus, fodeus, fodeu-se. Ou no Pelé a ensinar mais merda. Ou no “historiador” Villa, vergonha da Universidade de São Carlos e orgulho dos golpistas da UDN, na TV Cultura-SP. Comparado a esses, Kareem Abdul-Jabbar, além de muito bom de (outra) bola, é um Mao Tse Tung, em matéria de sabedoria política [pano rápido].


Ferguson não é apenas questão de racismo sistêmico  é sobre a luta de classes e como os pobres nos EUA são tratados, diz Kareem Abdul-Jabbar


Manifestante de Ferguson (17/8/2014)
Você provavelmente já ouviu falar sobre o tiroteio na Estadual Kent: dia 4/5/1970, a Guarda Nacional de Ohio abriu fogo contra estudantes que protestavam na Universidade Estadual Kent. Naqueles 13 segundos de tiroteio, quatro estudantes foram mortos e nove foram feridos, um dos quais ficou paralítico para sempre. O choque e os protestos resultaram numa greve nacional de 4 milhões de estudantes, que fecharam mais de 450 campus no país. Cinco dias depois do tiroteio, 100 mil manifestantes reuniram para protestar em Washington, D.C. E a juventude da nação foi energicamente mobilizada para pôr fim à Guerra do Vietnã, ao racismo, ao sexismo e à fé cega depositada em políticos do establishment.

Você provavelmente nunca ouviu falar sobre o tiroteio na Estadual Jackson.

Dia 14/5/1970, dez dias depois que a Estadual Kent pôs fogo no país, na Universidade Estadual Jackson, de alunos predominantemente negros, a polícia assassinou a tiros dois estudantes negros (um aluno do último ano do secundário; o outro, pai de um bebê de 18 meses) e feriu outros doze.

Não houve indignação nacional. O país não foi mobilizado para fazer coisa alguma. O leviatã sem coração a que chamamos história engoliu o evento de Jackson inteiro, sem mastigar, apagando-o da memória nacional.

E, a menos que queiramos que a atrocidade em Ferguson também seja engolida e vire nada além de irritação nos intestinos na história, temos de tratar o caso não como mais um ato do racismo sistêmico nesse país, mas como o que o caso em Ferguson também é: guerra de classes.

Focando exclusivamente o aspecto racial, passa-se a discutir se a morte de Michael Brown – ou a morte dos outros três negros desarmados também assassinados pela polícia nos EUA, no período de um mês – é questão de discriminação ou não; e se a polícia tem justificativa para o que faz ou não. E perguntaremos se não há tanto racismo de negros contra brancos nos EUA, quanto de brancos contra negros. (E há. Mas o racismo de brancos contra negros tem impacto econômico no futuro da comunidade negra. Negros contra brancos praticamente têm efeito social zero).

E perguntaremos se a Polícia nos EUA não é, ela própria, mais uma minoria ameaçada nos EUA, sempre discriminada por causa da cor: azul [como seus uniformes]. E é. Há muitos fatores a considerar, antes de condenar a Polícia, dentre os quais as pressões políticas, o treinamento inadequado, políticas antiquadas. E perguntaremos se os pretos não são tão frequentemente mortos pela Polícia, porque cometem maior número de crimes. (De fato, estudos mostram que os negros são atingidos com maior frequência em algumas cidades, como New York City. É difícil pintar quadro nacional mais amplo, porque os estudos são escandalosamente imprestáveis. O estudo do Departamento de Defesa mostra que nos EUA, entre 2003 e 2009, dentre mortes relacionadas a detenções, há pequena diferença entre os números de negros, brancos ou latinos. Mas o estudo não informa quantos deles estavam desarmados).  

O movimento sempre repetido de “protesto”, de todos-em-geral, contra o racismo-dos-outros, só faz distrair os EUA para que não vejam a questão maior, de que a reação desproporcional dos alvos-de-polícia (áudio-vídeo com Itamar Assunção, no fim do parágrafo) baseia-se menos na cor da pele e mais, muito mais, num tormento muito pior, de nível-Ebola: ser pobre. É claro que para muitos, nos EUA, ser “de cor” é sinônimo de ser pobre; e ser pobre é sinônimo de ser criminoso. Ironicamente, essa cadeia de erros é encontrada também entre os pobres.


E isso, precisamente, é o que o status quo deseja.

O Relatório do Censo dos EUA descobriu que 50 milhões de norte-americanos são pobres. 50 milhões de eleitores é bloco poderoso, se organizados num esforço orientado para buscar seus objetivos econômicos partilhados. Assim sendo, é crucial que os riquíssimos “1%” mantenham separados os pobres, isolados uns dos outros em grupos que se criam em torno de questões emocionais-passionais como imigração, aborto, controle de armas, de modo tal que, assim, divididos “por temas”, os pobres jamais parem para pensar por que sempre são tão ferrados, há tanto tempo.

Um modo para preservar as fraturas que geram tantos grupos é a desinformação. Pesquisa recente sobre as redes de notícias concluiu que 60% de tudo que é noticiado na rede Fox e pelo Canal Fox News é falso. Nas redes NBC e MSNBC, 46% do que é noticiado é falso. “Fiquem agora com o Jornal Nacional”, pessoal!

Durante os eventos em Ferguson, o canal Fox News pôs no ar uma foto em branco e preto do Dr. Martin Luther King, Jr., com a seguinte frase no gerador de caracteres: “Esquecida a mensagem de MLK/Protestos no Missouri degeneram em violência”. Será que quando os dois presidentes Bush invadiram o Iraque, a Fox “noticiou” que “Esquecida a mensagem de Cristo/EUA não oferecem outra face e assassinam milhares de civis”?

Como é possível que os telespectadores façam escolhas racionais, numa democracia, se as fontes de informação estão todas corrompidas? Não é possível. E os telespectadores não fazem escolhas racionais – exatamente assim é que o “1%” controla o destino dos “99%”.


Ainda pior que isso, alguns políticos e empresários conspiram para manter os pobres exatamente como estão. No programa de sátira do noticiário que mantém no canal HBO, “Last Week Tonight”, John Oliver fez um panorama da indústria dos empréstimos a assalariados, e dos que viciosamente vivem de explorar o desespero dos pobres. Como é possível que o estado admita a existência de uma indústria que extorque juros de até 1.900%? No Texas, o deputado estadual Gary Elkins impediu a aprovação de lei que regulamentaria essa indústria (ele mesmo é proprietário de uma rede de estabelecimento de empréstimos desse tipo). E a deputada que não parava de criticar Elkins por causa do conflito de interesses, Vicki Truitt, passou a trabalhar como lobbyista da ACE Cash Express apenas 17 dias depois de deixar a Câmara de Deputados. Na essência, Oliver mostrou como os pobres são atraídos para um empréstimo, só para não conseguirem quitar as prestações e serem obrigados a contrair outro empréstimo. O ciclo não pode ser rompido.

Livros e filmes distópicos como Snowpiercer, The Giver, Divergent, Hunger Games, e Elysium fizeram furor em anos recentes. Não porque tematizem a frustração adolescente ante figuras de autoridade. Isso explicaria a popularidade entre audiências mais jovens, mas não entre jovens na casa dos 20 e, até, entre adultos de mais idade. A razão real pela qual todos acorremos para ver o retrato de louça que Donald Sutherland constrói em Hunger Games, de um presidente dos EUA frio, cruel, implacável, dedicado a preservar os mais ricos enquanto pisa na garganta dos pobres, é que ali percebemos ecos reais da real sociedade onde realmente vivemos, uma sociedade na qual “1%” enriquece cada vez mais, enquanto as classes intermediárias vão-se tornando mais pobres, a cada dia, já se aproximando do colapso.

Não há exagero aqui; estatísticas comprovam que é verdade. Segundo estudo do Pew Research Center de 2012, apenas metade dos lares nos EUA classificam-se como de renda média, 11% menos, na comparação com os anos 1970s; a renda média da classe média-média caiu 5% nos últimos dez anos; a riqueza total encolheu 28%. Menos pessoas (apenas 23%) entendem que tenham meios suficientes para se aposentarem. O pior de tudo: hoje, menos norte-americanos do que jamais antes creem no mantra nacional segundo o qual o trabalho-duro os arrancará da miséria.

Em vez de nos unirmos para enfrentar o inimigo real – políticos, legisladores e executivos eleitos e outros no poder que nada fazem – caímos da armadilha de nos pôr uns contra os outros, consumindo nossa energia combatendo gente-como-a-gente, em vez de combater nossos inimigos. Não se trata só de incluir todas as raças e todos os partidos políticos: trata-se também de não se deixar dividir por gênero. Em seu livro Unspeakable Things: Sex, Lies and Revolution [Do que não se fala: sexo, mentiras e revolução], Laurie Penny sugere que o número sempre reduzido de oportunidades para homens jovens na sociedade, os torna menos valiosos para as mulheres; resultado disso, eles deslocam a própria ira: em vez de dirigi-la contra os que causam o problema, dirigem-na contra outra figura que também sofre consequências do processo: as mulheres.

Ah, sim, sei bem que é injusto pintar os mais ricos nesses traços tão gerais. Há alguns tipos super ricos que também super apoiam suas comunidades. Há quem sinta algum pudor da própria riqueza e saia, no esforço para ajudar outros. Mas não é absolutamente o caso da multidão de milionários e bilionários que fazem lobby para diminuir a distribuição de vales-comida, para diminuir o número de médicos em serviços públicos de saúde, contra qualquer medida que reduza o peso das dívidas de educação sobre nossos jovens e que se opõem à extensão de benefícios a desempregados.

Ferguson: Policial dispara contra manifestantes

Com cada novo evento de tiroteio/atrocidades mortos/defenda seu grupo, a Polícia e o sistema judicial são novamente vistos como defensores de um status quo injusto. A ira dos injustiçados cresce, e recomeçam os protestos exigindo justiça. A imprensa-empresa entrevista qualquer “especialista” [desde que absolutamente nada diga de novidade] e os “especialistas” distribuem culpas e condenações.

E daí? Fazer o quê?

Não estou dizendo que os protestos em Ferguson não sejam justificados – eles são perfeitamente justificados. De fato, precisamos de mais protestos nos EUA. Onde está nossa Kent Estadual? Quanto tempo, até que se mobilizem 4 milhões de estudantes, em protesto pacífico nos EUA? Porque sem isso nunca haverá mudança real.

A classe média tem de se unir aos pobres; os norte-americanos brancos têm de se unir aos norte-americanos negros em manifestações de massa, para derrubar os políticos corruptos, para boicotar empresas de exploração, para fazer aprovar leis que promovam a igualdade econômica e de oportunidades, e para punir os que fazem de nosso futuro financeiro objeto de desenfreada jogatina.

Sem isso, só conseguiremos o que conseguimos em Ferguson: um bando de celebridades e políticos, “ofendidos-de-televisão”, a manifestar simpatia. Se não tivermos agenda específica – uma lista do que queremos mudar e como, exatamente – continuaremos todos, outra vez e outra vez, a nos reunir em torno dos cadáveres dos nossos filhos, pais, vizinhos assassinados.

Espero que John Steinbeck esteja certo, quando escreveu em Vinhas da Ira, que “a repressão só serve para aproximar e unir os oprimidos”. Mas estou mais inclinado a fazer eco a Marvin Gaye, em Inner City Blues escrita um ano depois dos tiroteios nas universidades estaduais Kent e Jackson:

Inflação. Sem chance
de melhorar as finanças.
As contas, em pilhas, até o céu.
E matam aquele garoto.
Me dá vontade de gritar.
O jeito como eles mexem co’a minha vida,
me dá vontade de gritar.
O jeito como eles mexem co’a minha vida.


[*] Kareem Abdul-Jabbar é seis vezes campeão (Los Angeles Lakers) da National Basketball Association (NBA) e também 6 vezes considerado o Most Valuable Player (Jogador Mais Valioso) da NBA. É festejado escritor, cineasta e embaixador educacional de grande sucesso nos EUA.