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domingo, 14 de abril de 2013

Venezuela sinaliza um futuro pós-neoliberal: Morreu Thatcher. Chávez vive!


12-14/4/2013, George Ciccariello-Maher, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu





“Mãe: Oh, meu filho, que morte perversa, danosa.
Rebelde: Oh, mãe, que morte fecunda, copiosa.
Mãe: Morte feita de tanto ódio.
Rebelde: Morte só de amor feita.”




George Ciccariello-
Maher

Duas mortes, e significados diametralmente opostos, evidentes nas respostas imediatas que provocaram. Uma foi recebida em luto, por milhões de homens e mulheres que encheram as ruas de Caracas, à espera de um minuto para a última despedida do comandante morto. A outra foi recebida em festa, nas ruas de Brixton e Glasgow, e por uma avalanche de postados cômicos nas redes sociais, sobre a iminente privatização do inferno. Mas enquanto as multidões reuniam-se espontaneamente para celebrar o fim físico da Dama de Ferro do neoliberalismo, Margaret Thatcher, os eleitores na Venezuela encaminham-se para as urnas para pregar mais pregos no caixão dela e enterrar o legado dela, elegendo um sucessor revolucionário para Hugo Chávez.

 

“Filhos de 1989”

 

A 4ª Guerra Mundial começou na Venezuela e foi guerra contra Thatcher e a gangue dela. Em fevereiro de 1989, Ronald Reagan acabava de passar o bastão para George H.W. Bush, e Thatcher manobrava para impor um seu “imposto comunitário” (orig. Poll Tax [2]), que seria recebido com tumultos épicos em Trafalgar Square no ano seguinte. Enquanto isso, na Venezuela, chegava ao poder um novo governo, com projeto aparentemente diferente. O socialdemocrata de centro Carlos Andrés Pérez fora eleito com plataforma antineoliberal, prometendo resistir ao pagamento da dívida externa, falando contra o FMI: “é uma bomba que só mata os mais pobres”.

 

Mas, chegado ao poder, mudou tudo. Pérez virou repentinamente a casaca, e instituiu o Consenso de Washington, neoliberal, ao pé da letra: pôs-se a privatizar e desregular; os pobres imediatamente perceberam que as coisas, dali em diante, pelo menos para eles, só poderiam piorar. Mas enquanto nos EUA e na Grã-Bretanha as populações iam dolorosamente engolindo a pílula amarga do neoliberalismo, sob a ilusão de que não haveria alternativa possível, os venezuelanos inesperadamente, puseram a saquear e pôr fogo no que encontrassem à mão, e começaram a tornar surpreendentemente possível o tal impossível.

 

Foi o chamado “Caracazo,” rebelião popular, de massa, nas ruas, que destruiu, em dias, o mito do excepcionalismo venezuelano e sua ilusória estabilidade. O Caracazo destruiu o sistema existente da democracia corrupta de dois partidos e abriu espaço para Hugo Chávez, ele próprio uma cristalização de demandas políticas jamais atendidas e aspirações nunca realizadas. Como se lia em graffiti nos muros, em Caracas: Somos os filhos de 1989, em revolução

 

Hoje, Chávez já se foi. E a guerra contra o neoliberalismo continua. Se, vivo, Chávez só muito raramente foi respeitado pela imprensa-empresa internacional – de fato, era personagem sobre o qual o “jornalismo” podia escrever, televisionar e dizer literalmente o que bem entendesse – por que esperar que fosse diferente, com Chávez morto? E lá estava: enquanto prosseguiam nas ruas as festas post-mortem contra Thatcher e o luto popular emocionado, por Chávez, o Guardian pressuposto muito progressista, fazia caminho inverso.

 

O obituário de Thatcher foi quase polido, não tivesse Rory Carroll, perfeito campeão “jornalístico” do absurdo, inventado um verniz de respeitabilidade para todos que gritassem um “já vai tarde” ao recém-falecido presidente Chávez. Carroll ainda sofre a vergonha de uma lição que Chávez lhe deu, pessoalmente. Por mais que volta e meia fale do assunto, nunca contou a história como realmente aconteceu. [3]

 

Esse bastião do liberalismo nos EUA, a revista The New Yorker não se saiu melhor. Um jornalista da empresa, Jon Lee Anderson, viu-se envolvido em um escândalo, quando, ao que se diz, estaria verificando fatos; mas a verdade é muito pior. A empresa The New Yorker chegou a corrigir dois dos principais erros de Anderson (Anderson publicou que a Venezuela seria campeã em número de assassinatos na América Latina; e, adiante, que Chávez teria chegado à presidência por golpe de Estado, não em eleições). Mas a empresa jamais corrigiu o principal vício de tudo que Anderson sempre escreveu: que os pobres, na Venezuela, seriam “vítimas de seu amor” por Chávez.

 

Afinal, no que tenha a ver com o comandante morto, tudo é permitido, no “jornalismo” atual.

 

Mas se Chávez sempre foi e continua a ser esquartejado pela imprensa-empresa, todos podemos nos consolar, porque a maioria dos venezuelanos simplesmente não toma conhecimento, nem acredita no que publicam os jornais e as televisões. Todas as pesquisas indicam que o candidato da direita, Henrique Capriles Radonski, será mais uma vez derrotado (hoje) pelo candidato indicado por Chávez, o ex-motorista de ônibus e líder sindicalista Nicolás Maduro. Os números das pesquisas refletem também as divisões internas, dentro da oposição a Chávez, que não se entendem, sequer, em termos de programa e estratégia.

 

As divisões dentro da oposição a Chávez

 

Na verdade, ante a derrota anunciada e praticamente certa, muito do que a oposição faz na Venezuela não passa de encenação para o público internacional. Por exemplo: recentemente, a coalizão de partidos que apoiam Capriles convocou recentemente uma conferência de imprensa para “denunciar” irregularidades no sistema eleitoral, que “um membro do PSUV [Partido Socialista Unido da Venezuela] teria a senha para inicializar e encerrar o sistema das urnas eletrônicas”. Mas, quando jornalistas o pressionaram para que desse detalhes da “denúncia”, Ramón Aveledo, secretário-executivo da coalizão de oposição reconheceu que a senha “não põe em risco o sistema eleitoral,  nada tem a ver com o software eleitoral, nem permite identificar os eleitores, nem a contagem de votos, nem a transmissão dos dados”.

 

O que se conclui do “evento”? Se o objetivo era desacreditar o sistema eleitoral, difícil imaginar fracasso mais patético. Mas a “denúncia” mostra que há divisões irreconciliáveis dentro da própria oposição. Não tem maioria, não vence eleições e, sem conseguir eleger-se pelos votos, a oposição na Venezuela vive tentando desacreditar as próprias eleições, em vez de buscar meios para eleger-se democraticamente.

 

Esse tipo de falta de perspectiva e possibilidades eleitorais levou à enlouquecida tentativa de golpe contra Chávez há exatos 11 anos, que não durou nem 47 horas, derrotada pelas mesmas massas que os golpistas, como sempre fizeram, subestimaram tão estupidamente. Com aquele golpe derrotado, a oposição só fez entregar ao governo Chávez a taça de plena legitimidade democrática. Muitos antichavistas se autocondenaram a passar anos tentando apagar o carimbo de “golpistas” que estamparam na própria testa. Até hoje, nada conseguiram. Depois que Chávez varreu a oposição da cena eleitoral, em 2006,  pela primeira vez, a maioria da oposição passou a aceitar os resultados eleitorais, rendidos à evidência de que a urna, não os golpistas, é a melhor garantia para a democracia na Venezuela.

 

Mas render-se à via eleitoral não resolve o problema de não ter votos, e enquanto tenta silenciar os absenteístas (a parte da oposição que prega a abstenção, para não votar em Capriles), os anti-Chavistas também trataram de caminhar alguns passos em direção ao centro, afastando-se da extrema direita, pelo menos em palavras, à procura de votos. Capriles e outros têm-se autoapresentado como socialdemocratas, sugerindo que não abolirão – apenas “aprimorarão” – os programas sociais, como as Missiones Bolivarianas. Não faz sentido e não convence ninguém, se se vê o que acontece no estado de Miranda, onde, quando governador, a primeira providência de Capriles foi assaltar as Missiones, a começar pelos centros de saúde e clínicas populares onde trabalham médicos cubanos, na Missión Barrio Adentro.

 

Capriles se autoboicota, também, quando apoiadores seus ocupam e vandalizam, como fizeram recentemente, um prédio de apartamentos em construção, parte do projeto de moradias para os mais pobres, do projeto Misión Vivenda [Missão Moradia]. Os que há tanto tempo atacam como “invasores”, os venezuelanos sem-teto que ocuparam um prédio abandonado, ou um pedaço de terra improdutiva, agora atacam um projeto chavista de dar casa aos pobres. E enquanto Capriles sempre evitou criticar diretamente Chávez, e pôs-se a atacar Maduro por não seguir o exemplo de Chávez, alguns de seus seguidores exibiam as velhas garras de sempre: pintaram graffitis de “viva o câncer”.

 

Quanto a Capriles, cujo sobrenome, só ele, já o expõe como porta-voz da elite mais decadente (e milionária), não há o que faça que consiga apagar o próprio passado. No segundo turno das eleições de outubro de 2012, circulou na Venezuela um documento vazado, no qual se lia um “Plano de Governo” de um hipotético governo Capriles. Embora tenha sido denunciado como falso por alguns, o tal plano correspondia exatamente ao que muitos sabiam de Capriles: com ele, voltaria à mesma selvageria neoliberal que levou ao Caracazo. Não é fácil apagar o próprio passado.

 

As tropas de choque de Thatcher

 

Mas o quanto da mensagem da oposição tem raízes na realidade? Talvez seja excesso de generosidade acreditar no que Capriles diga. Não há dúvidas de que até Capriles percebe a contradição: se critica o sistema eleitoral como injusto, desestimula os seus correligionários, que desistem de votar. Mas não faz outra coisa além de dizer que votem. Assim, ajuda a derrotar o próprio projeto eleitoral.

 

Embora haja uma espécie de vingança histórica no fato de que essa eleição se realize no dia do aniversário da volta triunfante de Chávez, não podemos deixar que o triunfalismo nos impeça de ver os abutres que voam sobre a democracia socialista da Venezuela. A imprensa-empresa internacional está mobilizada para desacreditar o sistema eleitoral venezuelano, e setores da oposição já começaram a manobrar, sugerindo que algo poderá acontecer.

 

Na 2ª-feira à noite, circularam notícias de que um acampamento de militantes da extrema direita, da JAVU (Juventude Ativa da Venezuela Unida), que estão em greve de fome, teriam sido atacados por grupos de “camisas vermelhas”, em motocicletas, rapidamente “identificados” como “Chavistas”. Para muitos, a “armação” é evidente, dado que os chavistas nada teriam a ganhar com esse tipo de ação, às vésperas das eleições. E a polícia de Chacao, controlada pela oposição, não interveio

 

Pelo que já se sabe, havia chavistas de Chacaoenvolvidos no tumulto, mas foram atacados por militantes da JAVU. O que explica, automaticamente, o motivo pelo qual a polícia local nada fez para interromper o ataque: por que intervir, se o seu próprio lado está atacando? Assista vídeo a seguir:

 

Esse tipo de ataque exibe todas as características típicas de ações da JAVU, organização que, ao mesmo tempo em que fala em nome da não violência estratégica, como a Albert Einstein Institution, tem longo passado de ações violentas (associada a um grupo de exilados, com base em Miami, o grupo Orvex). A JAVU sempre esteve associada a ataques violentos, de provocação, em toda a Venezuela, desde ataque a chavistas em Mérida, até uma tentativa de incendiar o Conselho Legislativo do estado de Miranda. Em Mérida, encontrou-se um smartphone no qual estava gravado o manual das ações da JAVU para os dias seguintes: não reconhecer os resultados eleitorais e tomar as ruas custe o que custar”.

 

Na 4ª-feira apareceram notícias ainda mais preocupantes. Primeiro, o próprio Capriles recusou-se publicamente a assinar documento no qual prometia respeitar os resultados das eleições, insistindo que se mudasse a redação, para categoria mais flexível: aceitaria assinar, se o documento falasse de respeitar “o desejo popular”. Dado que Capriles já assinara documento semelhante antes das eleições de 2012, é caso para pensar por que teria mudado, agora, a própria estratégia. A recusa preocupa, porque foi imediatamente associada ao texto divulgado de um telefonema, no qual um dos guarda-costas pessoais de Capriles diz que o candidato da oposição não reconhecerá a derrota – fato que, ironicamente, mostra que nem o guarda-costas de Capriles sonha com vitória eleitoral.

 

Não há dúvidas de que tudo sugere fortemente que um governo Maduro terá de enfrentar tentativa pós-eleitoral de golpe. Outro telefonema também vazado sugere que há esquadrões da morte, vindos de El Salvador, que planejam ataques durante a eleição, e que parecem ter laços diretos com o próprio Capriles. Foram presas 17 pessoas, acusadas de tentar sabotar redes elétricas, para provocar blecautes. Se se considera que até o governo Obama já disse que suspeita de que as eleições na Venezuela não sejam “limpas e transparentes”, todos esses são sinais preocupantes, para dizer o mínimo.

 

Uma aurora pós-neoliberal

 

Frantz Fanon disse certa vez, em frase que ficou famosa, que “Para o colonizado, a vida só pode brotar do cadáver apodrecido do colonizador”. Festejar a morte necessária do inimigo leva consigo, embora pela via negativa, um programa político positivo, e os britânicos que festejam nas ruas espontaneamente a morte de Thatcher festejavam, de fato, a morte do neoliberalismo.

 

Mas infelizmente para os que se reuniram em Brixton, o neoliberalismo e seu parceiro ideológico, a “austeridade”, estão hoje na ofensiva na Grã-Bretanha e em grande parte do núcleo do planeta global. A morte de Thatcher de modo algum indica a destruição, sequer o declínio, de seu legado ideológico. Nesse sentido, a celebração dos britânicos é tão catártica quanto prematura.

 

Só lá, do outro lado do globo, é que começam a ser dados os grandes passos para destruir o legado de Thatcher. Onde se constrói uma intransigência firme que é, de fato, uma alternativa ao neoliberalismo.

 

Como escrevi em “Nós criamos Chávez” [We Created Chávez], muito mais interessantes que Chávez, o homem, são as décadas de luta revolucionária que o precederam, cristalizada em torno de Chávez como símbolo de um mecanismo para empurrar adiante a luta contra o neoliberalismo. Vivo, Chávez sempre foi mais que a soma de seus atos, era como um barco no qual embarcaram os setores populares da Venezuela, depositando ali suas aspirações pós-neoliberais. Mas o formato do barco logo foi determinado pelo conteúdo, e Chávez converteu-se em vela socialista impulsionada por forças que já não controlava. Parafraseando o que C.L.R. James escreveu de Toussaint L’Ouverture, Chávez não fez a revolução: a revolução fez Chávez.

 

Do cadáver apodrecido de Thatcher, florescerá o mundo pós-liberal. A Revolução Bolivariana perdeu algo poderosamente importante, com a morte de Hugo Chávez, mas talvez seja melhor que tenha partido fisicamente, na grande onda do movimento histórico que incorporou, e ao qual continua a emprestar a força de sua imagem, para ajudar a luta a avançar. Com certeza, essa é morte que se deve preferir.

 


Notas dos tradutores

[1]  Aimé Césaire (1913-2008). “Talvez eu morra”, dedicado à mãe de Raj Kumar, indiano, dalit, morto e não socorrido pela polícia, em 2008, na Índia. Ver Lyric And Dramatic Poetry.

[2]  “O Poll Tax (imposto comunitário) foi imposto regressivo (a alíquota diminuía conforme aumentava a renda do cidadão), criado pelo governo de Margaret Thatcher em 1989 na Escócia, e em 1990 no restante do Reino Unido, para custear os governos locais (“councils”, semelhantes a prefeituras) por meio de uma taxa única a ser cobrada por habitante. Ele substituiria o sistema anterior, no qual o imposto era calculado de acordo com o valor dos imóveis, de forma semelhante ao IPTU brasileiro. A população britânica resistiu fortemente à implantação desse imposto, se recusando a fornecer os dados necessários ao governo, se recusando a pagar, e dificultando a punição dos inadimplentes. A impossibilidade de implantar este imposto, e a derrota do governo frente à população, foi a principal razão da queda de Margaret Thatcher como Primeira-Ministra”.

[3]  Assiste-se ao episódio, que foi ao ar no programa “Alô, Presidente” (n. 291, 26/8/2007, em 23’10), a seguir:


É em tudo semelhante a outro, em que Chávez espinafra um “jornalista” da Rede Globo, em 2010, e que se vê a seguir:




quinta-feira, 7 de março de 2013

Nem um passo atrás: Rumo à Venezuela pós-Chávez


6/3/2013, George Ciccariello-Maher, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

 


George Ciccariello-Maher leciona teoria política na Universidade Drexel na Filadélfia. É autor de We Created Chávez: A People’s History of the Venezuelan Revolution [Nós criamos Chávez: História do Povo da Revolução Venezuelana] Duke University Press, Maio 2013.
Recebe e-mails em gjcm@drexel.edu.


Ver também
·        10/6/2012, redecastorphoto em: “Nenhuma revolução nasce do governo” (1/2) - Entrevista: Alí Rodríguez Araque, Ministro de Energia Elétrica da Venezuela
·        11/6/2012, redecastorphoto em: “Nenhuma revolução nasce do governo” (2/2) - Entrevista: Alí Rodríguez Araque, Ministro de Energia Elétrica da Venezuela

Hugo Chávez está morto. A importância simbólica do presidente da Venezuela ultrapassou em muito sua presença física, garantindo um ponto de condensação em torno do qual as lutas sociais uniram-se e nutriram-se mutuamente. Assim continuará, inevitavelmente, a operar, mesmo muito tempo depois de sua morte. É o que cantam os versos do grande cantor popular revolucionário Ali Primera, (a seguir) que andam hoje na ponta de língua de tantos:

Los que mueren por la vida
no pueden llamarse muertos


Revolucionário de pés descalços

Hugo Chávez foi menino pobre do interior de seu país, o que já diz muito do que se tem de saber sobre ele. Pés descalços, casa muito pobre, sol inclemente, colhendo lições as mais duras, e com forte dose de audácia, da experiência que é a vida de todos os dias naquela parte do planalto venezuelano, os llanos, que chega, de repente, aos picos das montanhas andinas.

Embora a política estivesse no solo que ali se pisa e em todas as suas interações sociais, o primeiro contato formal com a política revolucionária chegou-lhe pelo irmão mais velho, Adán, membro da então clandestina, antiga organização guerrilheira, Partido da Revolução Venezuelana (PRV). O PRV recusou-se intransigentemente a descer das montanhas no final dos anos 1960s, quando o Partido Comunista Venezuelano decidiu retirar-se da luta armada; o PRV, mais que qualquer outra organização, resistia então contra a ortodoxia marxiana, e escavava fundo nas tradições revolucionárias venezuelanas e latino-americanas que se abrigavam sob o grande guarda-chuva do Bolivarianismo.

Através de Adán, o Chávez mais jovem recebeu o legado dessa luta guerrilheira na Venezuela e de suas aspirações, um necessário, potente contrapeso à doutrina oficial que aprenderia na Academia Militar. Mas mesmo como soldado, Chávez já tinha alma irreverente de guerrilheiro; não demorou para começar a articular-se com outros oficiais radicais. Esse grupo de conspiradores seria chamado de MBR-200, Movimento Bolivariano Revolucionário, e não era grupo exclusivamente militar; logo estavam em contato muito próximo com os guerrilheiros comunistas revolucionários do PRV e outros.

A velha Venezuela

A velha Venezuela está morta. O ancien regime venezuelano se autoproclamava coeso e harmônico e manteve o mito até o fim. Para cientistas políticos, aí estaria um “excepcionalismo venezuelano”: um mar de instabilidade e ditadura que, na superfície, mantinha-se estável e ‘democrático’. Mas era harmonia que dependia de a maioria ser mantida invisível; e estabilidade montada mediante a incorporação e a neutralização de todo e qualquer movimento de oposição. Os que não aceitavam essa regra eram assassinados ou presos nos gulags dessa tal democracia “excepcional”.

Quando Hugo Chávez tentou pela primeira vez derrubar o governo de Carlos Andrés Pérez na Venezuela, em 1992, atacava uma democracia que, de democrática, só tinha o nome. Décadas de governo bipartidário criara um sistema absolutamente indiferente às necessidades da vasta maioria, e, com a crise econômica que se instalara nos anos 1980s, a “década perdida”, os pobres tendiam a rebelar-se; e a repressão era brutal. No que foi um, embora o mais espetacular de vários momentos de resistência, na rebelião de 1989, conhecida como o Caracazo morreram número não conhecido de pessoas, entre 300 e 3.000, massacradas quando Pérez ordenou aos militares que “restaurassem a ordem” nos Barrios pobres que cercam Caracas e outras cidades venezuelanas.

El Caracazo
Foi essa rebelião, mais que qualquer outra, e a repressão que veio depois dela, que levaram, pode-se dizer, que forçaram, Chávez e outros a tentar um golpe, com o apoio de movimentos revolucionários de base; e foi esse golpe, mais que qualquer outro evento, que levou Chávez à presidência, eleito, em 1998. Finalmente alguém levantava a cabeça. E quando Chávez disse, pela televisão nacional, que o golpe falhara “por ahora” [dessa vez, por enquanto], declarava, de fato, como Fidel Castro 40 anos antes, a sua firme certeza de que a história o absolveria.

A nova Venezuela

Em vários sentidos, foi o que aconteceu. Sob os governos de Chávez, a Venezuela tornou-se o país mais igual, mais igualitário em toda a América Latina, conforme o coeficiente Gini de distribuição de renda. A pobreza foi significativamente reduzida, e a pobreza extrema quase erradicada. O analfabetismo foi eliminado e a educação é gratuita e acessível, até o nível universitário, para todos os venezuelanos, até para os mais pobres. A assistência à saúde é gratuita e universal. Apesar do catastrofismo da oposição venezuelana de da imprensa-empresa estrangeira, a economia é forte e atravessou a crise econômica global em condições muito melhores que muitos (que os EUA, sem sombra de dúvida).

Mais importante que essas melhorias nas condições de vida e bem-estar social da maioria dos venezuelanos, contudo, são as transformações políticas pelas quais passaram a Venezuela e seu povo, transformações que ainda não estão completadas e prosseguem. O governo Chávez jamais foi mero governo populista que dava benefícios em troco de votos: foi governo radicalmente democrático, que buscava, não raras vezes apesar de tendências autocráticas, dar poder ao povo para que agisse de baixo para cima, como verdadeiros “protagonistas” da história. Em conselhos comunitários, cooperativas, comunas e milícias populares, o governo venezuelano empoderou radicalmente os movimentos radicais de base, embora, sim, tenha havido resistências dentro da própria burocracia do Estado.

Mas essas não são realizações exclusivamente de Chávez. De fato, absolutamente não são realizações de Chávez. Desde muito antes de Chávez houve movimentos revolucionários que tentaram, falharam, tentaram novamente, o que gerou experiência, organizações e visões de país que, num certo momento, levaram Chávez até a presidência. Qualquer necrológio que fale de Chávez como alguma espécie de salvador, insulta o povo que tanto o amou, ao qual Chávez serviu e cujo comando obedeceu.

E há também esquerdistas mal informados que reclamam que Chávez não teria sido suficientemente revolucionário, que não teria avançado tão rapidamente quanto queriam rumo ao socialismo: que a revolução tem de ser total, de uma vez por todas. Outros, repetindo o que dizem os liberais, atacam-no porque seria autoritário, autocrático, antidemocrático. São críticas que não veem o ponto fundamental: que a revolução venezuelana não é Chávez.

Quem não for capaz de entender por que milhões de venezuelanos fazem hoje o seu luto, terá, desgraçadamente, abandonado qualquer projeto para entender o que realmente está acontecendo na Venezuela.

Democrata combativo

Mesmo na presidência, a persona campesina de Chávez encontrava modo de romper o verniz da liderança política: como quando, de repente, punha-se a cantar canções do altiplano, os cantos llaneros; ou usava parábolas populares, ou quando atacava aliados e opositores, sem medir palavras, na televisão. Pode-se também dizer que algum paradoxal autoritarismo democrático é herança dos pobres do interior do país: um intransigente respeito pelo povo, um igualitarismo ardente, que não aceitava ‘não’, quando se tratava de revolucionar o país. Embora Chávez sempre tenha sonhado ser lançador em equipe da primeira liga de baseball [orig. pitcher], seu apelido de infância, Latigo [chicote], descreve melhor o seu modo de abordar a política e seu jogo de “bola rápida”.

Mas essa contradição não é específica de Chávez: a democracia direta e a democracia representativa raramente são aliadas gentis, como o nome talvez sugira, e um dos aparentes paradoxos da Revolução Bolivariana é que começa com empurrão firme, de cima para baixo, de modo a limpar o campo para a participação radicalmente democrática que venha de baixo para cima.

Aí está o que críticos de Chávez e da Revolução Bolivariana querem dizer, quando insistem em que Chavéz teria atropelado o sistema de “pesos e contrapesos” democráticos; esses críticos não veem que essas limitações institucionais, por justificáveis que sejam, são, na maioria das vezes, bem pouco democráticas.

Resultado dessa incompreensão, os dois lados parecem falar línguas completamente diferentes: para uns, entre os quais parece incluir-se o deputado Republicano, Ed Royce, que apostava em “dar adeus rápido” a Chávez, o presidente da Venezuela não passaria de ditador autoritário. São coisas que surpreendem os chavistas, que elegeram e reelegeram Chávez várias vezes, sempre escolhendo, deliberadamente, um processo cada vez mais radicalmente revolucionário; e os quais sempre apontavam a contradição entre o desejo democrático da maioria e os limites do mandato.

Muitos venezuelanos pobres também se surpreenderam quando tantos se ofenderam tanto por Chávez ter-se referido a George W. Bush como “o diabo” e depois, como “um macaco”. Os pobres não são muito atentos às regras de boas maneiras, quando discutem política; veem, intuitivamente, mas corretamente, que a política é o reino das posições firmes e das discussões fortes. Entenderam perfeitamente o que Bush disse, com seu “estão conosco ou estão contra nós” [e puseram-se contra].

A natureza maniqueísta da política venezuelana nos anos recentes é inegável, mas é útil reconhecer, com Frantz Fanon, que a divisão entre nós e eles, chavistas e escualidos (ou, mais recentemente, majunches), sempre foi mais um reflexo de uma realidade estrutural que “erro” de Chávez ou da Revolução. Quando as elites venezuelanas puseram-se a chorar o desaparecimento da “harmonia” venezuelana, o que realmente lamentavam era que, de repente, gente pobre e de pele escura tivesse aparecido à vista de todos, se tornasse presença inevitável e assumisse o poder de governar como mecanismo útil para pressionar a favor de suas demandas.

Comemoração em 2012 do nascimento da Revolução Bolivariana (27/2/1989)
Não há dúvidas de que Chávez serviu-se de algum maniqueísmo para mobilizar o povo para a luta, mas esse maniqueísmo também lhe veio por fenótipo, tanto quanto por razões políticas: mulato, de nariz largo e grandes orelhas, “com essa imagem, Chávez sacudiu de cima abaixo a fantasia da harmonia social (...). Sua imagem agita as mulheres ricas de Cuarimare”.

Chávez e seus apoiadores foram racializados desde o início, em termos que causariam indignação em outros lugares: maçado, “negão”, gentalha, horda, gangue. O racismo explodiu durante o golpe de 2002, quando Chávez permaneceu deposto por menos de dois dias, o que, em vários sentidos obrigou-o a reconhecê-lo publicamente, num país que tanto celebrava a mestizaje e insistia em que, na Venezuela, não havia racismo. No final, o maniqueísmo tornou-se o mais importante motor para empurrar adiante o processo revolucionário, unindo o povo contra o inimigo comum e preparando-o para a luta que viria.

Cheguei a ter um encontro marcado para conhecer Hugo Chávez, mas ele cancelou no último momento. Algum imprevisto, uma combinação de preocupações de segurança e o incontrolável desejo de fazer tudo, ele mesmo. O mais próximo que estive dele, cerca de três metros, aconteceu, eu arrastado numa torrente de chavistas de camisas vermelhas, na Avenida Bolívar, em 2007. O presidente estava no alto de um caminhão. Ao vê-lo passar, fiz meu gesto chavista preferido: um soco na palma da mão, símbolo do que merece a oposição venezuelana. Como que para confirmar a centralidade das lutas, numa revolução que sobreviverá a ele, Chávez viu e repetiu o meu gesto.

A Revolução não retrocederá

E agora, o que acontecerá? Dentro de 30 dias, haverá eleições, para as quais Chávez indicou seu sucessor, Nicólas Maduro, que quase com certeza vencerá uma oposição que, parece, só se junta para ser novamente esquartejada. Mas o futuro de longo termo ainda não está escrito. Nada é inevitável, mas muitos venezuelanos pobres e radicalizados dirão, a quem lhes pergunte, que não darão ni un paso atras, nem um passo para trás. Que no volverán, não voltarão, ao passado. Sabem o que dizem e estão decididos.

Essa firme decisão revolucionária jamais dependeu exclusivamente da figura de Chávez. Como escrevi na introdução de meu próximo livro We created Chávez [Nós criamos Chávez] :

A Revolução Bolivariana não trata de Chávez. Chávez não é o centro, não é a força motriz, não é o gênio revolucionário individual do qual dependa todo o processo, ou no qual o processo encontre alguma inspiração quase divina. Parafraseando o grande teórico e historiador de Trinidad, C.L.R. James: Chávez, como o revolucionário haitiano Toussaint L’Ouverture, ‘não fez a revolução. Foi a revolução que fez’ Chávez. Ou, como me disse um organizador de comunidades venezuelano, “Chávez não criou os movimentos; nós o criamos”.

Frantz Fanon
Em 1959, Frantz Fanon declarou irreversível a Revolução Argeliana, apesar de o país só vir a  receber a independência formal três anos depois. Se se estuda com atenção a transformação da cultura argeliana durante o curso da luta e a criação de que Fanon chamou de uma “nova humanidade”, vê-se que Fanon não errou; estava ultrapassado o ponto depois do qual não havia retorno possível:

Um exército pode, a qualquer momento, reconquistar terreno perdido, mas como seria possível reimplantar o complexo de inferioridade, o desespero passado, na consciência do povo?

Revoluções não vêm com garantia e não se supõe que a dialética histórica não possa ser curvada sobre ela mesma, espancada e sangrada. Trata-se, isso sim, de que, para que as forças da reação consigam fazê-lo, a tarefa não será fácil. O povo venezuelano levantou-se. É é difícil, é quase impossível, ordenar a um povo que afinal se pôs de pé, que ele volte a viver de joelhos.