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quarta-feira, 8 de julho de 2015

Contagem regressiva para a Grécia deixar a Eurozona (Grexit)

7/7/2015, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


O referendum grego parecia ter dado um impulso em direção a algum acordo. Mas as potências que governam o Euro não concordaram. O Banco Central Europeu continua a não enviar fundos para os bancos gregos. Em alguns dias, estarão definitivamente quebrados e a saída da Grécia, da Eurozona, será inevitável. Isso parece ser o que querem os linha-dura em Berlim, que se reúnem em torno do psicopata-Ministro Schaeuble das Finanças.
O Primeiro-Ministro grego, Alexis Tsipras, deu jeito de obter apoio popular e de outros partidos políticos, para fazer uma proposta com concessões. Mas as promessas que Tsipras fez antes do referendum já caíram aos pedaços. Os bancos não reabriram, não há acordo à vista com os credores e, dada a rápida deterioração da economia real, a situação em breve já será imensamente mais difícil.
Tsipras terá de responder algumas perguntas:


  • Por que não pode apresentar uma proposta escrita em Bruxelas, hoje, como prometeu fazer?
  • Por que não previu que o Banco Central Europeu e as potências ocidentais por trás dele assaltariam os bancos gregos?
  • Por que seu governo não tinha qualquer plano pronto para sair do Euro?
  • Por que não havia nenhum cenário planejado que previsse a atual situação?
A imprensa-empresa e os políticos alemães demonizaram de tal modo os gregos, com a mais crua propaganda para induzir a negação cabal da realidade, que agora parece que a maioria da opinião pública alemã já está a favor da Grexit. E o mesmo está acontecendo em grande medida com a opinião pública de outros países do norte e do leste da Europa.



Ninguém quer “dar mais dinheiro aos gregos” – embora até o momento ninguém tenha dado dinheiro algum aos cidadãos gregos. Tudo que foi dado, em garantias dos contribuintes, foi dado exclusivamente a bancos privados alemães e franceses.


As consequências de a Grécia deixar a Eurozona parecem estar fora do universo das questões discutíveis.
Apoiar agora algum alívio parcial da dívida, que nem seria sentido, distribuído ao longo de décadas, e daria à economia grega capacidade para sair da dívida, seria muito mais barato para os contribuintes europeus, que o não pagamento total de tudo que a Grécia deve, o que disparará o pagamento de centenas de bilhões de avais e garantias.
Se sair do Euro, o não pagamento de coisa alguma passa a ser, para a Grécia, o mais provável. Em situação de saída do Euro, a Grécia já não terá dívida alguma a pagar. E poderia voltar a tomar empréstimos, talvez da Rússia e de outras fontes, que ficariam felizes por poder ganhar algum dinheiro de empréstimos feitos a país praticamente livre de qualquer dívida.
Além dos resultados catastróficos de um programa de cinco anos de ARROCHO [não é austeridade; é ARROCHO], a carnificina será enorme, na Grécia, se agora vier a bancarrota e a saída do Euro sem qualquer planejamento. Mas o exemplo de outros casos de estados que foram à bancarrota mostra que a recuperação é quase sempre muito rápida; e que as possibilidades de longo prazo são muito mais favoráveis que a morte lenta que advém, fatalmente, de qualquer programa de ARROCHO [não é austeridade; é ARROCHO] continuado.

[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.

Thomas Piketty: “Alemanha dando lições sobre pagar dívida externa? É piada...”



6/7/2015, [*] Tyler Durden, Zero Hedge (original - Die ZEIT)
Traduzido do alemão para inglês por Gavin Schalliol e para português pela Vila Vudu
[excluídos os comentários do blog Zero Hedge]

[*] Thomas Piketty

DIE ZEIT: Os alemães podemos ficar satisfeitos por até o governo francês estar alinhado ao dogma alemão pró-austeridade? [não é "austeridade": é ARROCHO (NTs)].
Thomas Piketty: Não. Absolutamente não. Não há razão nenhuma, nem para a França, nem para a Alemanha, e especialmente não há razão alguma para a Europa, ficarem “satisfeitas”. Temo muito nesse momento que os conservadores, especialmente na Alemanha, estejam a um passo de destruir a Europa e a ideia europeia, e tudo isso por causa de uma chocante ignorância da história.
ZEIT: Mas nós, alemães, já nos reconciliamos com nossa história.
Piketty: Não. Não se reconciliaram com coisa alguma que tenha a ver com pagar dívidas. O passado da Alemanha, nesse quesito, deveria ser objeto de atento estudo dos alemães de hoje. Veja a história da dívida externa, por exemplo: houve um momento em que Grã-Bretanha, Alemanha e França estavam, esses três países, na situação em que a Grécia está hoje. Na verdade, estiveram muito mais endividados que a Grécia hoje. A primeira lição a extrair da história de dívidas governamentais é que esse problema absolutamente não é novo. Houve muitos modos para pagar dívidas, não um só. Isso é que Berlim e Paris deveriam estar dizendo aos gregos.
ZEIT: Mas... E não têm de pagar o que devem?!
Piketty: Meu livro reconta a história da renda e da riqueza, inclusive de nações. Quando estava trabalhando naquele livro, muito me chamou a atenção a evidência de que a Alemanha é, na verdade, o único bom exemplo de país que, em toda sua história, jamais pagou qualquer dívida nacional. Nem depois da 1a. e da 2a. Guerra Mundial. Mas muito frequentemente a Alemanha obrigou outras nações a pagarem, como depois da Guerra Franco-Prussiana de 1870, quando cobrou reparações massivas da França, e recebeu integralmente.
O estado francês padeceu ao longo de décadas, sob o peso dessa dívida. A história da dívida pública é cheia de ironias. Só muito raramente acompanha o que se entende por ordem e justiça.
ZEIT: Mas com certeza não se pode concluir daí que nada se poderia fazer, de melhor, hoje...
Piketty: Quando ouvi que os alemães dizem que mantêm posição de alta moralidade sobre dívidas e que entendem que dívidas têm de ser pagas, pensei: É piada! A Alemanha é o país que nunca pagou suas dívidas. Nunca. Alemanha não tem competência para dar lições de moral sobre pagar dívida externa.
ZEIT: O senhor está tentando apresentar como vencedores estados que não pagam o que devem?
Piketty: Pois a Alemanha é o melhor exemplo que há de, precisamente, isso de que você fala: estado vencedor que não paga o que deve. Mas, calma.
A história mostra que há duas vias para que um estado endividado saia da condição de delinquente. Uma foi demonstrada pelo Império Britânico no século 19, depois das dispendiosas guerras com Napoleão. É a via lenta, que agora está sendo recomendada à Grécia. O Império pagou o que devia mediante rígida disciplina orçamental. Funcionou, mas demorou tempo extremamente longo. Durante mais de 100 anos os britânicos cederam 2-3% de toda a economia deles para pagar as dívidas – mais do que gastaram com escolas e educação. Isso não tinha de acontecer, e não se pode deixar que aconteça hoje.
O segundo método é muito mais rápido. A Alemanha é prova disso no século 20. Essencialmente, há três componentes nesse método: inflação, um imposto especial sobre riqueza privada e alívio na dívida.
ZEIT: O senhor está dizendo que o Wirtschaftswunder [“milagre econômico”] alemão foi baseado no mesmo tipo de alívio na dívida que hoje negamos à Grécia?
Piketty: Exatamente. Depois que a guerra acabou, em 1945, a dívida alemã chegava a mais de 200% do PIB alemão. Dez anos depois, já restava pouco: a dívida pública já era inferior a 20% do PIB. Mais ou menos no mesmo tempo, a França conseguiu virada também muito semelhante, também ardilosa. Ninguém jamais teria conseguido redução tão inacreditavelmente rápida no montante da dívida, com essa “disciplina fiscal” que hoje recomendamos à Grécia. Em vez de fazer o que aconselham que a Grécia faça, os nossos dois estados, Alemanha e França, empregaram esse segundo método, com os três componentes que mencionei, inclusive o alívio da dívida. Considere o Acordo da Dívida, de Londres, em 1953, pelo qual 60% da dívida externa da Alemanha foi cancelada e as dívidas internas foram restruturadas.
ZEIT: Aconteceu, porque o povo reconheceu que as altas reparações que estavam sendo cobradas da Alemanha depois da 1a. Guerra Mundial foram uma das causas da 2a. Guerra Mundial. Dessa vez o povo quis perdoar os pecados da Alemanha!
Piketty: Bobagem. Nada disso tem qualquer coisa a ver com limpidez moral. O que houve foi uma decisão política e econômica racional. Reconheceram, corretamente, que depois de grandes crises que tenham criado cargas gigantescas de dívidas, as pessoas são obrigadas, em algum ponto da crise, a pensar sobre o futuro. Ninguém pode exigir que novas gerações paguem por décadas de erros acumulados dos próprios pais. Claro que os gregos cometeram erros gigantescos, não há dúvidas disso.
Até 2009, o governo em Atenas “maquiou” seus livros contábeis. Mas nem por isso a jovem geração de gregos teria mais responsabilidade pelos erros dos que a precederam, que os jovens alemães, nos anos 1950s e 1960s. Todos temos de olhar à frente. A Europa foi criada sobre perdão de dívidas e investimento no futuro. Não foi criada sobre a ideia de padecimento infinito. É o que todos temos de ter em mente.
ZEIT: O fim da 2a. Guerra Mundial foi como a demolição de uma civilização. A Europa era um campo de morte. Hoje é diferente.
Piketty: É erro negar os paralelos históricos com o período do pós-guerra. Considere a crise financeira de 2008/2009. Não foi simples crise como qualquer outra: foi a maior crise financeira desde 1929. A comparação entre os dois momentos, portanto, é válida. E é também válida para a economia grega: entre 2009 e 2015, o PIB grego caiu 25%. São números comparáveis às recessões na Alemanha e na França, entre 1929 e 1935.
ZEIT: Muitos alemães creem que os gregos ainda não reconheceram os próprios erros e querem continuar a gastar sem qualquer moderação.
Piketty: Se o mundo tivesse dito a vocês, alemães, nos anos 1950s, que vocês ainda não tinham reconhecido os próprios erros e fracassos, vocês estariam até hoje pagando dívidas. Por sorte, o mundo foi mais inteligente.
ZEIT: O Ministro das Finanças alemão, por outro lado, parece entender que a saída da Grécia, da Eurozona, pode acelerar a unidade dentro da Europa.
Piketty: Se começarmos a chutar países para fora, a crise de confiança na qual a Eurozona já se debate hoje só piorará. Os mercados financeiros imediatamente procurarão o país vizinho. Assim começaria um longo, esgotante período de agonia, a cujas garras estamos correndo o risco de sacrificar o modelo social europeu, a democracia, toda a civilização europeia, sacrificada no altar de uma política conservadora e irracional de ARROCHO.
ZEIT: O senhor acha que nós, alemães, não somos suficientemente generosos?
Piketty: Mas... que conversa é essa? O que você quer dizer com “generosos”? Hoje, a Alemanha está lucrando muito sobre os empréstimos prorrogados a taxas de juros comparativamente altas.
ZEIT: Que solução o senhor sugere para essa crise?
Piketty: Temos de organizar uma conferência sobre todas as dívidas da Europa – como foi feito depois da 2a. Guerra Mundial. Uma restruturação de toda a dívida, não só da Grécia, mas de vários países europeus, é inevitável. Mesmo agora, perdemos seis meses nas negociações absolutamente sem nenhuma transparência, com Atenas.
A noção que o Eurogrupo cultiva, de que a Grécia alcançará 4% do PIB como superávit no orçamento e pagará suas dívidas dentro de 30-40 anos ainda está sobre a mesa. Supostamente, haverá superávit de 1% em 2015, depois 2% em 2016, e 3,5% em 2017.
Tudo isso é completamente ridículo! Jamais acontecerá. E continuamos a adiar o debate necessário, até o dia de são-nunca.
ZEIT: E o que pode acontecer depois de grandes cortes na dívida?
Piketty: Terá de haver uma nova instituição europeia, para determinar o máximo de déficit admissível no orçamento, para impedir que a dívida volte a crescer. Por exemplo, poderia ser uma Comissão do Parlamento Europeu, formada de deputados eleitos nos Parlamentos nacionais. Os parlamentos devem poder tomar decisões orçamentárias.
É grave e caríssimo erro minar a economia europeia – que é o que a Alemanha está fazendo hoje, ao insistir que outros estados permaneçam na miséria, oprimidos por mecanismos pelos quais só Berlim se fortalece.
ZEIT: O seu presidente, François Hollande, deixou recentemente de criticar o pacto fiscal.
Piketty: É coisa que não melhora nada. Se, nos anos passados, as decisões na Europa tivessem sido tomadas por meios mais democráticos, a atual política de ARROCHO na Europa seria menos rígida.
ZEIT: Mas nenhum partido político francês está envolvido nessa discussão. Na França, a soberania nacional é coisa santificada.
Piketty: É verdade. Há muito mais gente na Alemanha dedicada a pensar em meios para restabelecer a democracia europeia, na comparação com a França e seus incontáveis crentes da religião da soberania. E mais: nosso presidente apresenta-se como prisioneiro do referendum de 2005 sobre uma Constituição Europeia, que fracassou na França. François Hollande não compreende que muita coisa mudou por causa da crise financeira. Todos temos de superar nosso egoísmo nacional.
ZEIT: Que tipo de egoísmo nacional o senhor vê na Alemanha?
Piketty: Em minha opinião, a Alemanha foi grandemente modelada pela reunificação. Temeu-se durante muito tempo que levasse a estagnação econômica. Mas afinal a reunificação foi grande sucesso, graças a uma rede de segurança social funcional e a um setor industrial intacto. Enquanto isso, a Alemanha passou a orgulhar-se tanto do próprio sucesso, que agora dá lições de moral a outros países. Há certo infantilismo nessa atitude. Claro que compreendo o quanto uma reunificação bem-sucedida acrescentou à história pessoal da chanceler Angela Merkel. Mas agora a Alemanha tem de repensar as coisas. Ou repensa, ou a posição da Alemanha na crise da dívida passará a criar grave perigo para toda a Europa.
ZEIT: Que conselho o senhor teria para a chanceler?
Piketty: Os que hoje tentam expulsar a Grécia para fora da Eurozona acabarão na lata de lixo da História. Se a Chanceler tem interesse em garantir para ela melhor lugar nos livros de História, como [Helmut] Kohl, durante a reunificação, nesse caso cabe a ela forjar uma solução para a crise grega, incluindo uma conferência para discutir a dívida, a partir da qual poderemos começar de posição mais limpa, mais clara. Mas com disciplina fiscal renovada, muito mais respeitável.
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[*] Thomas Piketty (nasceu em Clichy, França em 7/5/1971) é um economista que se tornou figura de destaque no meio acadêmico internacional com seu livro O capital no século XXI (2013), no qual defende, através da análise de dados estatísticos, que o capitalismo possui uma tendência inerente de concentração de riqueza nas mãos de poucos. Sua obra mostra que, nos países desenvolvidos, a taxa de acumulação de renda é maior do que as taxas de crescimento econômico1. Segundo Piketty, tal tendência é uma ameaça à democracia e deve ser combatida através da taxação de fortunas.

όχι! (NÃO!)


6/7/2015, [*] Jacques Sapir, Hypotheses
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
   
Mariano Areias Morais – Tropas Para-Quedistas
Força Grécia, já que os portugueses são uns cobardolas.
29/6/2015 9h17 (pelo Twitter) (11)  



A decisão de Yannis Varoufakis de demitir-se do posto de Ministro das Finanças foi grande surpresa. Ele, afinal, é um dos grandes vencedores do referendum. Mas é decisão muito lógica. (...) Bruxelas não soube avaliar corretamente essa evidência, mas Varoufakis sempre foi apaixonado defensor do euro e da ideia europeia. Não é absolutamente o caso de Tsakalotos.

TODA FORÇA À FRENTE!


A vitória do “NÃO” no referendum grego é acontecimento de importância histórica. Ficará na história. Apesar das pressões impressionantes a favor de um voto “SIM”, tanto pelos jornais e jornalistas gregos como pelos dirigentes da União Europeia (UE), apesar de o Banco Central Europeu (BCE) estar fabricando condições para um pânico bancário, o povo grego fez ouvir sua voz. Fez ouvir sua voz contra as mentiras que se distribuíram e continuam a ser distribuídas sobre a situação da Grécia ao longo das últimas semanas.
Nossos pensamentos aqui se dirigem aos editorialistas que, como bem entenderam, venderam aos eleitores gregos figurações travestidas da realidade, e fizeram crer que haveria um elo entre o SYRIZA e a extrema-direita do Aurora Dourada. Não que essas mentiras nos surpreendam. Apenas não as esqueceremos.
O povo grego fez ouvir sua voz com força raríssima, posto que, diferente do que sugeriam as pesquisas de boca de urna, a vitória do “NÃO” veio com diferença importante, de cerca de 60%. Claro que o governo de Alexis Tsipras sai reforçado dessa luta, o que deveria levar seus interlocutores a pensar melhor. Logo veremos o que virá. Mas deve-se dizer imediatamente que as reações, sejam de Martin Schulz no Parlamento europeu; de Jean-Claude Juncker para a Comissão [1], ou de Sigmar Gabriel, ministro da Economia e aliado dos sociais-democratas da chanceler Merkel na Alemanha [2], não dão lugar a nenhum otimismo.
Essa vitória do “NÃO” também teve eco especial, é bem visível, na França. Aconteceu quase dez anos depois de outra vitória de um “NÃO”, aquele na França (e nos Países Baixos). Tratava-se então, em 2005, do Projeto de Tratado Constitucional Europeu. O projeto foi rejeitado aqui na França por mais de 54% dos votos. Aqui também, a campanha pela imprensa-empresa, conduzida pelos que pregavam voto “SIM” passou de todos os limites, de todas as medidas. Os partidários do “NÃO” foram alvo de todas as injúrias e de todas as ameaças [3]. Mas venceram.
Data desse momento o divórcio, que só faz aumentar e aumentar, entre os franceses e a casta jornalística da imprensa-empresa, jornais, redes e jornalistas, divórcio cujo crescimento se pode medir também nos números declinantes da imprensa-empresa comercial “oficial” e no aumento do público que procura informação em blogs muitas vezes bem pouco ou nada jornalísticos – como este em que escrevo.
Aquele referendum marcou a clara diferença entre o que pensavam os eleitores de classes populares e os de classes mais privilegiadas [4]. Classifiquei de “vitória dos prolos (12) sobre os bobos (13) [5].
Parece que assistimos a fenômeno da mesma ordem na Grécia, dado que, se os bairros ricos de Atenas votaram “SIM” em mais de 80%, foi nos bairros populares que o “NÃO” os derrotou, com proporção ainda maior. O voto “NÃO” dos gregos é eco direto do dos franceses. Contudo, depois de múltiplas manobras, um texto quase similar, o “Tratado de Lisboa”, foi aprovado no “congresso” alguns poucos anos depois, pela via de uma aliança sem princípios entre a União por um Movimento Popular, UMP [de Sarkozy] e o Partido Socialista, PS. Desse momento data, com certeza, a ruptura que se constata entre as elites políticas e empresarial-jornalísticas, de um lado, e dos eleitores, de outro. Essa negação da democracia, esse roubo de um voto soberano, é ferida profunda para muitos franceses. A ampla vitória do “NÃO” grego vem reativar essa ferida e pode empurrar os eleitores franceses a exigir que lhes prestem que lhes são devidas, de um passado que, decididamente, nunca passa.


O significado de um “NÃO”
Mas é preciso compreender o significado profundo desse “NÃO”. Ele se opõe aos comportamentos muito antidemocráticos dos responsáveis seja pelo Eurogrupo seja pela Comissão Europeia ou pelo Parlamento europeu. Esse “NÃO” desacredita personalidades como Jean-Claude Juncker, ou Dijssenbloem, ou Martin Schulz, Presidente do Parlamento. Opõe-se sobretudo à lógica que passou a operar depois de 27 de junho/2015, quando Dijssenbloem, presidente do Eurogrupo decidiu excluir, de fato, o Ministro Varoufakis, das Finanças da Grécia, de uma das reuniões. Esse gesto sem precedentes implicava excluir a Grécia da zona Euro. E é preciso destacar muito a espantosa passividade do Ministro francês, Michel Sapin. Ao aceitar permanecer na sala, foi conivente com o abuso de poder cometido por Dijssenbloem. Ainda que hoje o governo francês diga que deseja que a Grécia permaneça na Eurozona, o comportamento desse importante membro do governo, próximo do Presidente da República, faz pensar que não há aí desmentido direto, do que diz o governo, ou, no mínimo, impõe uma dúvida sobre se seria real o engajamento da França.
O governo grego observou, é claro, o que se passava. De fato, a França foi excluída de uma batalha na qual a Alemanha, direta ou indiretamente, inspirou todas as posições europeias.
O fato de que o Banco Central Europeu tenha organizado na semana de 28/6 a 5/7/2015 a asfixia financeira dos bancos gregos, provocando emoção compreensível muito compreensível na população, é prova de que as instituições europeias não tinham absolutamente qualquer intenção de continuar a negociar com Alexis Tsipras, mas tentavam conseguir, fosse uma saída voluntária, fosse a derrubada de seu governo, numa dessas encenações de assembleia que tornam possível um regime parlamentar como o regime grego. O referendum foi também uma tentativa para opor-se a essas manobras. A vitória do “NÃO” garantiu que, por algum tempo, o governo Tsipras estará protegido contra esse tipo de golpe.



É possível alguma retomada das negociações?
Mas isso não significa, de modo algum, que as negociações sobre a questão da dívida grega, por necessárias que sejam, por justificadas que sejam (como o confirma um relatório do FMI [6] oportunamente publicado, contra todos os esforços do Eurogrupo para impedir a publicação), possam ser retomadas. Todos os economistas que trabalharam nesse dossiê, personalidades ilustres como Paul Krugman e Joseph Stiglitz (Prêmio Nobel), especialistas internacionais como James Galbraith ou Thomas Piketty, já vêm explicando, há semanas, que, sem uma restruturação da dívida, acompanhada de anulação de parte significativa da dívida, a Grécia não poderá reencontrar o caminho do crescimento. Lógico seria, pois, dar à Grécia o que foi dado à Alemanha em 1953. Mas é preciso fazê-lo logo, com certeza nas próximas 48 horas, e não implica dizer que as instituições europeias, que se empenharam muito para impedir a publicação do relatório do FMI, o desejem. A declaração de Martin Schulz, Presidente do Parlamento europeu, ou a de Sigmar Gabriel, ambos dizendo que as pontas estão rompidas, separadas, nada pressagiam de bom.
A decisão de Yanis Varoufakis de demitir-se do posto de Ministro das Finanças foi grande surpresa. Ele, afinal, é um dos grandes vencedores do referendum. Mas é decisão muito lógica. Sua substituição por Euclides Tsakalotos vai mais longe que simples concessão tática feita aos “credores”. Foi aliás nesses termos, que Varoufakis apresentou a própria demissão [7].
Mas o novo ministro pode também significar a chegada de homem mais decidido a um rompimento. Tsakalotos não esconde que se tornou mais um “Eurocético”. Bruxelas não soube avaliar corretamente essa evidência, mas Varoufakis sempre foi apaixonado defensor do euro e da ideia europeia. Não é absolutamente o caso de Tsakalotos. É fato que pode ter importantes consequências nos próximos dias.
Com efeito, se o Banco Central Europeu (BCE) não se decidir muito rapidamente a aumentar o teto do acordo de ajuda urgente à liquidez (ELA), a situação se tornará muito rapidamente crítica na Grécia e essas negociações perderão completamente o sentido. Foi precisamente o que Alexis Tsipras disse na noite da vitória do “NÃO”. Talvez seja possível algum acordo, desde que as partes o desejem. Mas, com toda a razão, pode-se duvidar, até pior que isso, das intenções das instituições europeias.
Se, pois, o BCE não aumentar o teto do auxílio emergencial à liquidez, o governo grego não terá mais o que escolher. Terá de pôr em circulação “certificados de pagamento”, que serão uma moeda paralela, ou assumir o controle do Banco Central (BC) por decreto (o que se chama “requisição” [fr. une réquisition]) e obrigar o banco a pôr em circulação as notas que o banco guarda como reserva e também as que são conservadas pelos bancos comerciais sob autorização do BC. Por mais que a tomada do controle sobre o BC grego seja inteiramente justificada pelo comportamento do BC europeu e do Eurogrupo, nada sugere que seja essa a primeira solução a ser escolhida. Seja como for, essa não era a posição de Yanis Varoufakis. Ainda não se sabe qual será a posição de Euclides Tsakalotos.
Se o governo grego decidir-se, pois, a emitir certificados de pagamento, acontecerá que rapidamente haverá sistema de duas moedas na Grécia, e pode-se supor que dentro de algumas semanas uma delas desaparecerá. Estaríamos diante do “Grexit”, da saída do Euro. É importante dizer que essa saída do Euro teria necessariamente e totalmente imputável às instituições europeias, não aos gregos.


Está em curso a saída da Grécia, do Euro?
Deve-se não esquecer que uma saída do Euro não passa necessariamente e obrigatoriamente por decisão clara e bem demarcada. Esse é o ponto que Frances Coppola explica com especial clareza em artigo publicado pela revista Forbes [8]. A saída do Euro pode resultar da lógica das circunstâncias e das reações do governo grego ante o jogo duplo, seja do Eurogrupo seja do BCE, que hoje se dedicam a tentar estrangular financeiramente a Grécia.
Mais uma vez é atitude estranhíssima que um Banco Central como o BCE, legalmente responsável pela estabilidade do sistema bancário nos países da Eurozona, organize o estrangulamento e a falência de bancos nacionais. É fato muito estranho, mas não é fato sem precedentes [9]. Aqui, temos de voltar alguns passos na história trágica do século 20.
Em 1930, na Alemanha, o Presidente do Reichbank (o Banco Central da Alemanha), Hjalmar Schacht, opôs-se a um empréstimo dos EUA ao governo da Alemanha de Weimar, provocando pânico bancário [10]. Esse pânico provocou a queda da coalizão então no poder e a demissão do Ministro das Finanças, o socialista Rudolph Hilferding. Tendo conseguido o que queria, Schacht retirou a obstrução. Assim se vê que a ação antidemocrática de um Banco Central tem precedentes. Mas é precedente trágico.
Com a chegada do Chanceler Brüning, a Alemanha optou por ARROCHO [não é “austeridade”: é ARROCHO] ensandecido que, poucos anos depois, levou ao poder os nazistas. Os nazistas deram ao Reichbank poder como que paralelo ao poder do governo. O termo “Nebenregierung” ou “governo paralelo”, entrou então no discurso técnico e histórico, na Alemanha.
É portanto perfeitamente cabível suspeitar que uma eventual saída da Grécia da Eurozona tenha começado depois de uma semana, contada de hoje, de instigação ativa pelo Banco Central Europeu, e pelo peso que tem a Alemanha dentro dos organismos do BCE. Nesse caso, é claro que essa saída é resultado de ação do Eurogrupo e do BCE. Não seria portanto “saída”. Seria nesse caso uma expulsão – ato ao mesmo tempo escandaloso e ilegal, que legitimaria que as autoridades gregas recorram a medidas as mais radicais.
Nesse ponto, a França poderia ter função de freio, antes da consumação de um crime. Está prevista reunião entre François Hollande e Angela Merkel para o fim da 2a-feira, dia 6/7/2015. Mas, é bom deixar dito desde já que, para que essa reunião resulte em mudança na posição da Alemanha, a França teria de pôr na balança todo seu peso e ameaçar, ela também, deixar a Eurozona, se a Alemanha mantiver suas ações e essa política. Podemos contar com que François Hollande não fará coisa nenhuma, nada.
Apesar das declarações altissonantes por paus mandados, nosso presidente tem muito a ver com o que ele supõe que seja um “golpe franco-alemão”. Provavelmente não teve coragem nem para extrair as consequências lógicas do comportamento perigoso e escandaloso da Alemanha. Ao fazer o que faz, e para salvar a própria pele, Hollande levará o Euro à desgraça, o que nem chega a ser grave. Mas sem dúvida levará à desgraça também a União Europeia o que, isso sim, é bem mais grave.



O grande medo dos sacerdotes do Euro
Digamos com clareza, que há uma coisa que aterroriza totalmente os responsáveis europeus: que a Grécia se converta em prova viva, demonstrada, comprovada, que há vida fora do Euro, e que essa vida pode, sob algumas condições, ser muito melhor do que a vida que vivemos dentro do Euro. Esse é o grande medo deles. É isso que os enche de pânico.
Porque assim se mostraria a todos – aos portugueses, espanhóis, italianos e aos franceses – qual o caminho a seguir. Seria como expor ao mundo a fraude imensa que é o Euro, Euro que não foi instrumento de crescimento, sequer instrumento de estabilidade para os países que o adotaram, e expõe a natureza tirânica do poder não eleito do Eurogrupo e do Banco Central Europeu.
É portanto possível, pode-se dizer até, provável, que os dirigentes do Eurogrupo e do Banco Central Europeu façam tudo que esteja ao alcance do poder deles para gerar o caos na Grécia. Já começaram esse serviço imundo, desde a semana passada.
Convém pois que o governo grego, sem deixar de negociar com honestidade e firmeza, como faz desde fevereiro de 2015, prepare-se para tomar medidas que assegurem a estabilidade dentro do país e o funcionamento normal da economia e das instituições, ainda que, para tanto, seja obrigado a tomar liberdades com a letra escrita dos tratados.
Talvez seja esse o sentido da saída de Yanis Varoufakis, homem e profissional que deve viver o comportamento da Alemanha e do Eurogrupo como tragédia, e a substituição dele por Euclides Tsakalotos. Afinal, não foi a Grécia que primeiro quebrou tratados, e pode-se considerar que a ação, tanto do Eurogrupo como do BCE já há uma semana, são atos contrários e configuram contravenção, tanto ao espírito como à forma dos tais tratados.
Essa ruptura traz nela o fim da Eurozona. Seja qual for a via política pela qual Alexis Tsipras se decida, já se vê bem claramente que o fim da Eurozona já apareceu no horizonte da atual crise.
Notas
[3] Ver arquivos da página ACRIMED (a) e ACRIMED (b). Ver também Lordon F., La procession des fulminants, texto também acessível na página ACRIMED.
[4] B. Brunhes, “La victoire du NON relève de la lutte des classes”, depoimentos recolhidos por François-Xavier Bourmaud, Le Figaro, 2/6/2015.
[5] Sapir J., La Fin de l’Eurolibéralisme, Paris, Le Seuil, 2006.
[6] 4/7/2015, “Grécia: FMI confirma (que novidade!) a avaliação da dívida feita pelo governo do SYRIZA”, Yanis Varoufakis, trad. em redecastorphoto
[7] 6/7/2015, Grécia – Yanis Varoufakis: Não sou mais ministro, trad. em redecastorphoto
[8] Coppola F., The Road To Grexit, Forbes, 3/7/2015.
[9] Agradeço a um de meus correspondentes, Christoph Stein, que me chamou a atenção para esse ponto.
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Notas dos tradutores
(11) Epígrafe acrescentada pelos tradutores .
(12) Gíria para Proletário, Operário, Povão, Classes Populares, “de baixo”, pobre [Entes].
(13) Gíria para “burgueses-boêmios”; em São Paulo, a turma da Vila Madalena de cima [Entes].
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[*] Jacques Sapir, n. 24/3/1954 (61 anos) em Puteaux, França. É economista e fez seus estudos básicos no Lycée Buffon (Paris). Diplomado pelo Institut d'Études Politiques de Paris em 1976; cursou pós-graduação (mestrado) até 1980 e completou o Doutorado em 1986 naUniversidade de Paris X. Foi professor na Universidade de Paris X-Nanterre e tornou-se Diretor da EHESS e Chefe da Formação Doutoral. É, em função das várias teses defendidas um especialista em Economia e Política da Rússia pós-soviética. Foi professor na Escola de Economia de Moscou de 1996 até 2006. É co-fundador e um dos líderes do “Seminário Franco-Russo sobre os problemas da transição na Rússia”, que funciona desde 1991, alternadamente na França e na Rússia. Autor de várias obras sobre Economia e Política tendo sido traduzidas para muitas línguas estrangeiras (Inglês, Alemão, Espanhol, Italiano, Japonês, Português), também desenvolveu uma produção teórica original em russo desde 2000.