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segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

E volta à cena a Al-Qaeda...

11/1/2014, [*] Eric Margolis, Information Clearing House
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Bandeiras das "afiliadas" da al-Qaeda
Como é possível que um microscópico grupo anticomunista no Afeganistão, que não tinha mais que 200 membros ativos em 2001, tenha-se tornado suposta ameaça planetária?

Como pode a al-Qaeda estar em todo o Oriente Médio, Norte da África e em grande parte da África negra? E, isso, depois de os EUA terem consumido mais de $1 trilhão para acabar com a al-Qaeda no Afeganistão e no Paquistão?

A resposta é simples. Como organização e ameaça, a al-Qaeda é quase nada. Mas como nome, “al-Qaeda” e “terrorismo” tornaram-se palavras universalmente sempre à mão, para designar grupos que combatem a influência ocidental, a corrupção ou a repressão na Ásia e na África. A al-Qaeda está em lugar algum – mas em todos os lugares.

Se você for um grupo rebelde à procura de publicidade, o caminho mais fácil e declarar-se aliado da fugaz, impalpável, inexistente al-Qaeda.

Tome-se o Iraque, onde a luta avança sem trégua entre governo xiita e milícias sunitas na Província Anbar. Interessante: o levante sunita está centrado em Fallujah, que foi destruída, posta no chão, reduzida a escombros pelos Marines dos EUA e arruinada para sempre por bombas de urânio e munição ilegal de fósforo branco, como “aviso” aos iraquianos que ousassem resistir.

Depois que os EUA invadiram o Iraque em 2003, mais de uma dúzia de grupos iraquianos de resistência surgiram, para lutar contra os norte-americanos e seus recém aparecidos novos aliados xiitas. O principal desses grupos era o Partido Ba’ath de Saddam Hussein e militares veteranos iraquianos. Como já disse várias vezes em grandes redes de TV dos EUA, nunca houve, nem al-Qaeda, nem armas nucleares no Iraque. Agradeçam a George W. Bush pela chamada al-Qaeda do Iraque.

Abu Musab al-Zarqawi
Graças à mágica da manipulação pela imprensa-empresa de massa, Washington conseguiu desviar a atenção, fazendo que todos deixassem de ver os grupos da resistência sunita – “terroristas”, como foram rotulados –, para só verem um único grupo de doidos degoladores liderados por um jordaniano, renegado, misterioso, Abu Musab al-Zarqawi. Todos os demais grupos da resistência sumiram de vista.

Alguns reaparecem agora, no oeste do Iraque, dentre eles, mais falado, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Síria) [orig. Islamic State of Iraq and the Levant (Syria), ISIS). Sempre é dito “ligado à al-Qaeda”, quando a imprensa-empresa ocidental fala dele, mas provar alguma ligação, ninguém jamais provou. E o governo cada dia mais brutal do Iraque também alardeia que estaria lutando contra a al-Qaeda na Província Anbar.

A simples menção da palavra “de trabalho” al-Qaeda bastou para lançar os Republicanos e neoconservadores norte-americanos em estado de frenesi. Exigem que o governo Obama “faça algo”. Talvez... reinvadir o Iraque? Há 10 mil soldados dos EUA bem ali perto, no Kuwait.

Iraque - Região (verde escuro) dominada pela ISIS [orig. Islamic State of Iraq and the Levant (Syria)]
Forças especiais, aviões tripulados “presencialmente” e tripulados à distância, os drones, dos EUA, e mercenários da CIA já estão em ação em torno de Fallujah e Ramadi. Como em outras vezes, a CIA está pagando milhões a tribos sunitas para que combatam forças antigoverno.
Por loucura que pareça, os EUA consideram a possibilidade de comprar helicópteros de ataque da Rússia para dá-los ao regime de Bagdá, como estão fazendo atualmente no Afeganistão com o regime de Cabul.

Leon Panetta
Por falar de Afeganistão, o ex-diretor do Pentágono, Leon Panetta admitiu que não havia mais que de 25 a 50 membros da al-Qaeda no Afeganistão. Mas agora já há al-Qaeda no Paquistão, Jordânia, Arábia Saudita, Iêmen, pelo Norte da África, Nigéria, Mali, República Centro-Africana e por aí vai. O grupo Shebab da Somália, de resistência anti-ocidente, também já é apresentado como “ligado à al-Qaeda”.

Nos tempos da Guerra Fria, praticamente todos os grupos que se opunham à dominação ocidental eram chamados comunistas. Hoje, a al-Qaeda substituiu o comunismo como nome a usar em todas as “emergências”. A ideia generalizada – mas provavelmente errada – segundo a qual a al-Qaeda de Osama bin Laden teria sido responsável pelos ataques do 11/9 converte qualquer coisa “ligada à al-Qaeda” em candidato nato à liquidação sumária.

Rotular seus inimigos como “terroristas” é ótimo modo de deslegitimá-los e negar-lhes qualquer direito político ou humanitário. Foi o que fez Israel, com muita eficácia, contra palestinos desesperados.

Contudo, o problema óbvio aqui é que, ao fazer isso, cria-se suprimento infinito de “terroristas”, o que leva a pressões a favor de guerras contra eles. Isso, e o petróleo, já meteram forças especiais dos EUA África adentro, por toda a África negra. Essa é a “guerra longa”, infinita, que os círculos militaristas e neoconservadores nos EUA desejam, e contra a qual o presidente Dwight Eisenhower tão prescientemente alertou, nos idos dos anos 1950s.

O Egito é mais um trágico exemplo de propaganda distribuída pela imprensa-empresa, que vira “fato”. A maioria do povo egípcio, que votou e elegeu democraticamente um governo, em eleições limpas, e o governo que os egípcios elegeram, já são hoje universalmente condenados como “terroristas” pelos generais bandidos que derrubaram o governo eleito no Cairo. Qualquer um que se oponha à junta militar apoiada pelos EUA e pela Arábia Saudita é “terrorista”. Provavelmente dirigem carros terroristas, comem comida terrorista e têm filhinhos terroristazinhos.
___________________

[*] Eric S. Margolis é colunista internacionalmente premiado. Seus artigos são usualmente publicados no New York Times; International Herald Tribune Los Angeles Times; Times de Londres; Gulf Times; Khaleej Times; Nation- Paquistão; Hurriyet - Turquia, Sun Times - Malásia e outros sites de notícias na Ásia. Anima a página da internet Eric Margolis.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

“Lobby” de Israel contra o favorito do Pentágono


19/12/2012, Jim Lobe, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Jim Lobe
Os neoconservadores e líderes do poderoso lobby de Israel estão mobilizando forças para o que parece ser campanha fortíssima par impedir que o presidente Barack Obama nomeie um ex-senador Republicano, herói condecorado da Guerra do Vietnã, para substituir Leon Panetta como secretário da Defesa.

A campanha foi lançada semana passada, depois que altos funcionários da Casa Branca vazaram o nome de Chuck Hagel, que também dirige o Grupo de Conselheiros do Presidente para Inteligência Estrangeira [orig. President’s Foreign Intelligence Advisory Board (PFIAB)], como provável nomeado, tão logo Panetta anuncie formalmente a aposentadoria, agora esperada a qualquer momento. E ganhou fôlego nos últimos dias, com grandes nomes dos neoconservadores iniciando a carga contra o ex-senador por Nebraska.

Barack Obama e Chuck Hagel (foto WSJ)
Se Obama insistir na nomeação, poderá sinalizar importante mudança na política dos EUA para o Oriente Médio, dentre outros motivos, porque Hagel – Republicano realista, da tradição do ex-presidente, Dwight Eisenhower e do secretário de Estado, James Baker – tem sido ativo crítico das políticas de Israel e advogado empenhado de os EUA abraçarem a via da negociação diplomática com o Irã.

Natanyahu
Para alguns observadores, a nomeação seria “dar o troco” ao primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu, que várias vezes confrontou Obama, no primeiro mandato, na questão da expansão das colônias israelenses na Cisjordânia; e repetidas vezes ameaçou atacar o Irã. Netanyahu tampouco fez segredo de que seu candidato à presidência dos EUA não era Obama, mas o governador Republicano, Mitt Romney.

O núcleo mais conhecido do lobby de Israel em Washington, que parece temer que Obama pretenda pressionar Israel no segundo mandato, pode estar motivando a crescente campanha contra a possível nomeação de Hagel.

O lobby está trabalhando, portanto, para convencer Obama de que pagará preço político excessivamente alto, se insistir no nome de Hagel. Se for realmente nomeado, muitos observadores creem que dificilmente a indicação será rejeitada no Congresso, dada a relutância que muitos senadores Republicanos sempre manifestam quando se trata de negar aprovação a um dos seus (embora Hagel tenha feito campanha pró-Obama em 2008).

A principal carga feita até aqui contra Hagel, que também trabalha no Conselho Atlântico, think tank muito influente, é que ele seria “anti-Israel” – e há até os que o chamam de “antissemita” – e que várias vezes manifestou não crer na possibilidade de algum ataque ao Irã, mesmo que o país não reduzisse – ou preferentemente, para Israel, abandonasse totalmente – seu programa nuclear.


“Hagel com certeza tem um viés anti-Israel e é favorável a “amolecer” com o Irã – escreveu William Kristol, editor-chefe de The Weekly Standard, em editorial, essa semana.

“Quando ainda senador, Hagel disse que nenhum ataque militar contra o Irã, como nenhuma opção militar, seria opção viável, realizável ou responsável” – anotou Kristol, co-fundador do Projeto para um Novo Século Americano [orig. Project for a New American Century (PNAC)], dos conservadores, que teve papel chave na propaganda a favor de ataque ao Iraque, há uma década; e, mais recentemente, no controverso Comitê de Emergência pró-Israel [orig. Emergency Committee for Israel (ECI)].


Na 3ª-feira, na mesma linha, dois outros influentes neoconservadores ofereceram empenhado apoio ao Partido Likud, de Netanyahu e da direita israelense: Elliott Abrams, membro do Conselho de Relações Exteriores, auxiliar direto de George W Bush para o Oriente Médio; e Bret Stephens, jornalista que assina a coluna “Global View” [Visão Global] do Wall Street Journal.

Relembrando que Hagel disse certa vez a um entrevistador seu aliado que “o lobby judeu intimida muita gente por aqui [no Congresso]”, Stephens sugeriu que a expressão cheira a antissemitismo, sobretudo à luz da crítica que o Senador fizera, contra Israel, durante a segunda Intifada palestina e a guerra de 2006 contra o Líbano, e sua oposição a várias sanções impostas aos Irã.

“(...) O comentário do Sr. Hagel sobre o lobby dá boa dimensão do seu padrão de pensamento”, escreveu Stephens. Na sequência, citou outros trechos da entrevista que Hagel deu a um diplomata norte-americano aposentado que servira no Oriente Médio em 2006, como prova do antissemitismo ou da hostilidade do (então) senador Hagel contra Israel.

“Sou senador dos EUA, não de Israel” – disse Hagel a Aaron David Miller. “Sou senador dos EUA. Apoio Israel. Mas jurei servir à Constituição dos EUA, não a um presidente, nem a um partido. Não jurei que serviria a Israel, no meu mandato”.

Por menos que haja aí questão a discutir ou discordar, as palavras de Stephens foram imediatamente repetidas e repercutidas por Abraham Foxman, diretor da Liga Antidifamação [orig. Anti-Defamation League (ADL)], pilar do lobby de Israel mais convencional.

“Chuck Hagel não seria o primeiro, nem o segundo, nem o terceiro nome a ser escolhido pela comunidade judeu-americana dos amigos de Israel” – disse à blogueira neoconservadora Jennifer Rubin, do Washington Post.

“Seu currículo no que tenha a ver com as relações EUA-Israel é, no mínimo, preocupante, e, no máximo, muito constrangedor” – disse Foxman, acrescentando que os sentimentos de Hagel em relação ao lobby judeu beiram o antissemitismo.

Mas Foxman, o qual, diferente dos neoconservadores, tenta manter-se a igual distância dos dois partidos, disse ao Times of Israel que se oporia à nomeação, se a ideia avançasse.

O Comitê de Relações Públicas EUA-Israel [orig.  American Israel Public Affairs Committee (AIPAC)], o mais influente grupo de lobby pró-Israel nos EUA, está mantendo silêncio discreto, embora um porta-voz de muitos anos, Josh Block, que hoje chefia o Projeto Israel [orig. The Israel Project], já se tenha manifestado fortemente contra o nome de Hagel, por sua oposição às sanções contra o Irã e sua recusa a assinar cartas e resoluções e abaixo-assinados contra o Irã, o Hezbollah e o Hamás, apoiados, quando não concebidos, redigidos e promovidos pelo próprio AIPAC.


Em vários sentidos, a atual campanha faz lembrar outra, contra Chas Freeman, embaixador aposentado e muito prestigiado nos EUA, que foi nomeado para presidir o Conselho Nacional de Inteligência nos primeiros dias do primeiro governo Obama, e em seguida foi tomado como alvo de violenta campanha movida contra ele, pelos jornais, por neoconservadores e pelo lobby de Israel.

Mas, naquele caso, a campanha focou-se menos em críticas de Freeman contra políticas dos EUA para Israel e, mais, em ditas relações muito próximas que Freeman manteria com líderes chineses.

No caso de Hagel, a questão é bastante mais importante, dada a importância do Pentágono para as políticas exteriores, particularmente para o Oriente Médio, onde Obama – de acordo, nisso com o pensamento de Hagel – tenta tirar o pé do Oriente Médio, no movimento de “pivô”, para reorientar as forças militares dos EUA na direção, mais, do Pacífico Asiático.

Frank Gaffney
Diferente, também, do caso Freeman, os inimigos de Hagel não encontrarão facilmente outras questões, fora do Oriente Médio, para mobilizar a oposição a uma já provável nomeação. Frank Gaffney, que dirige o Centro de Política de Segurança [orig. Center for Security Policy (CSP)], neoconservador de linha dura, denunciou Hagel em coluna assinada na 3ª-feira no Washington Times, por jamais ter apoiado as guerra no Iraque e no Afeganistão; por acreditar que o Pentágono estaria “inchado”; e por apoiar, com outros Republicanos realistas, um gradual desarmamento nuclear.

Outro argumento que está emergindo é que, se, como se espera, Obama nomear o senador John Kerry para o posto de secretário de Estado, e puser mais um homem, branco e de idade na chefia do Pentágono, estará desmentindo o projeto de fazer, de seu Gabinete, um projeto de diversidade demográfica.

No curto espaço de tempo desde que se começou a falar da possibilidade de Hagel vir a ser nomeado, várias vozes de judeus conhecidos falaram a seu favor, dentre os quais Miller, que disse ao blog “Open Zion” [Sion Aberto], do portal Daily Beast, que “Hagel é forte apoiador de Israel”.

Daniel (Dan) Kurtzer
Além desse, o ex-embaixador dos EUA em Israel, Dan Kurtzer, disse ao jornal Político que a crítica contra Hagel é “terrivelmente mal orientada”; e o grupo J Street, “pró-paz e pró-Israel” disse que Hagel “seria magnífica escolha” para comandar o Pentágono.

Muitos observadores creem que, agora, muito dependerá do que façam alguns dos senadores mais diretamente associados ao lobby de Israel, nos dois partidos, se se manifestarão, ou não, contra Hagel.

Até aqui, dois Republicanos, McCain e Lindsay Graham, cujas atitudes quase sempre refletem a dos demais neoconservadores e que tiveram papel destacado na oposição contra a indicação da embaixadora dos EUA na ONU, Susan Rice, ao posto de secretária de Estado, já disseram que não esquecerão o que Hagel disse sobre “o lobby judeu”, caso seja nomeado, mas não disseram que farão oposição declarada à nomeação, como fizeram, à simples ideia de Rice vir a ocupar a secretaria de Estado.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Dupla derrota da Casa Branca e do Pentágono*


12/10/2012, Raúl Zibechi, Programa de las Américas
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Veja também:
6/10/2012, Rick Rozoff,  Stop NATO, redecastorphoto em: “Depois do Afeganistão, os EUA mudam-se para a América Latina”

Raúl Zibechi
Em menos de uma semana, a política dos EUA para a América Latina sofreu duas derrotas, em dois temas estreitamente associados: a vitória eleitoral de Hugo Chávez e o fracasso na tentativa de impor os critérios do Pentágono na X Conferência de Ministros de Defesa.

Venezuela: eleição decisiva

Poucas vezes alguma eleição dividiu a região de modo tão nítido como a eleição, dia 7 de outubro, na Venezuela. Tanto os governantes como boa parte da população sabiam que do resultado daquelas eleições dependiam não só a continuidade do processo bolivariano, mas, também, o aprofundamento da integração regional, a ampliação do MERCOSUL e, provavelmente as relações pacíficas entre os vizinhos.

“Das 92 eleições que monitoramos, eu diria que o processo eleitoral na Venezuela é o melhor do mundo”, disse Jimmy Carter, dia 11/9, ao celebrar os 30 anos do Carter Center [1]. Dias antes das eleições e Caracas, o embaixador dos EUA, Patrick Duddy sugeriu que, se a eleição fosse “aceitavelmente livre e justa”, seu país deveria “resetar” as relações bilaterais, com vistas a uma eventual renovação de comunicações de alto nível em áreas de interesse mútuo”. [2]

Houve reações esperadas e outras quase surpreendentes. O fervor de Cristina Fernández, presidenta argentina, e a cálida felicitação do colombiano Juan Manuel Santos eram esperados. O chanceler chileno Alfredo Moreno, membro do governo conservador de Sebastián Piñera, destacou que as eleições venezuelanas foram um “exercício democrático impecável”. O porta-voz do Departamento de Estado, William Ostick, felicitou “o povo venezuelano”, mas não o presidente, e conclamou o vencedor a levar em conta “as mais de 6 milhões de pessoas que votaram pela oposição”. A União Europeia disse mais ou menos o mesmo [3].

A oposição aceitou o resultado e ninguém falou em fraude, motivo pelo qual houve quem supusesse que Washington tivesse modificado sua habitual hostilidade contra o governo Hugo Chávez [A]. Nada disso. No mesmo dia daquelas eleições cruciais na Venezuela, o secretário de Defesa dos EUA, Leon Panetta, partia para seu segundo giro pela região, dessa vez ao Peru e ao Uruguai, levando debaixo do braço um documento de 12 páginas, “A Política de Defesa para o Hemisfério Ocidental” que o Departamento de Defesa dos EUA havia divulgado na 4ª-feira, 3/10 [B].

China: da cautela à euforia

Hugo Chávez Frias
Com a vitória de Chávez, o primeiro inimigo estratégico dos EUA consolida sua presença na região. O papel da China na Venezuela é chave. O intercâmbio comercial bilateral passou, de 1,9 bilhão, para 10,272 bilhões de dólares, o que fez da China o principal parceiro comercial de Caracas. A China aportou 52 bilhões de dólares em “fundos de financiamento conjunto” à Venezuela, a qual paga com petróleo, à razão de 640 mil barris/dia [4].

Para 2014, a sucateada indústria petroleira venezuelana espera produzir 4 milhões de barris diários, dos quais 1 milhão serão exportados para a China. No final de novembro passado, os presidentes de Venezuela e Colômbia assinaram vários acordos de cooperação, entre os quais o Projeto Binacional Oleoduto Venezuela-Colômbia, para exportar 500 mil barris de cru diários pela costa do Pacífico até a China, que seria o “sócio estratégico” num projeto que prevê investimento de 8 bilhões de dólares [5].

A Venezuela vem reorientando suas exportações de petróleo, que representam 90% de suas exportações totais. Em 1999, quando Chávez assumiu a presidência, os EUA compraram da Venezuela 1,5 milhões de barris/dia, cifra que caiu para 764 mil barris/dia em novembro de 2011, a menor em nove anos [6]. Como se pode ver, o mercado chinês está progressivamente substituindo o mercado norte-americano.

Dia 16/9/2010 assinou-se um acordo entre os governos de Venezuela e China sobre cooperação para financiamento em longo prazo. Chávez disse que o volume do investimento chinês na Venezuela é o maior de toda a história dos 60 anos da República Popular e concluiu: “Todo o petróleo de que a China possa necessitar para consolidar-se como grande potência encontrará na Venezuela” [7]. Vale lembrar que as reservas venezuelanas de petróleo já ultrapassaram as da Arábia Saudita e são hoje as maiores do mundo.

Mas nem tudo é petróleo. A China tem 430 projetos de desenvolvimento na Venezuela, em setores de eletricidade, transporte, mineração, moradias, finanças, gás, petróleo e petroquímica. Está contribuindo para o desenvolvimento das vias férreas, e há 50 projetos para exploração de alumínio, bauxita, carvão, ferro e ouro [8]. A cooperação binacional intensificou-se nos últimos cinco anos. Desde 2007, o Banco de Desenvolvimento da China emprestou 42 bilhões de dólares à Venezuela, 23% de todos os empréstimos internacionais do banco estatal chinês e praticamente o dobro de tudo que os EUA investiram, entre 2003 e 2006, para reconstruir o Iraque (29 bilhões) [9].

Sem dúvida, o dinheiro chinês é fundamental para a economia de um país que quase não recebe investimentos estrangeiros diretos. Mesmo os investimentos chineses chegam devagar: só 240 milhões de dólares entre 1990 e 2009 [10]. Talvez por essa razão, o governo chinês, que manifestara certa cautela nas semanas que antecederam a reeleição, não escondeu seu entusiasmo com os resultados, com Chávez reeleito para mais seis anos, e prometeu conduzir as relações entre os dois países “para um novo nível”. [11]

Dinheiro novo, em troca de petróleo

A Venezuela paga a metade dos juros de mercado (6%, não 12%) e com esse dinheiro pode planejar obras como as 33 mil moradias que a empresa Citic constrói na China e atender aos crescentes investimentos do Estado. Em troca, Chávez oferece aos chineses participação na exploração do petróleo pesado da Faixa do Orinoco e no projeto das minas Las Cristinas, das maiores reservas de ouro do mundo [12]. Também assinou com a empresa Citic um acordo para mapear todas as jazidas minerais do país [13].

Graças à cooperação chinesa, a Venezuela já pôs em órbita dois satélites; o primeiro “Simón Bolívar”, em 2008, atende as telecomunicações; e o “Miranda”, em 2012, que será usado no planejamento urbano, em operações militares e na luta contra exploração ilegal de minas e plantios ilegais. Segundo o governo Chávez, os satélites permitirão “planejar a ocupação do território, cuidar melhor do meio ambiente, de nossas fronteiras, de nossos recursos naturais e de nosso povo” [14].

Ígor Korotchenko
As relações com a Rússia também serão fortalecidas, mas são vínculos basicamente diplomáticos e militares. A indústria de armamentos russa está incrementando suas exportações, embora continue muito atrás da norte-americana. Entre 2012 e 2015, o principal comprador de armas russas será novamente a Índia, com 14 bilhões de dólares; mas a Venezuela já aparecerá em 2º lugar, deslocando assim a Argélia e a China, com compras projetadas de 3,2 bilhões de dólares segundo Ígor Korotchenko, diretor do Centro de Análise do Comércio Mundial de Armas [15].

A segunda viagem de Leon Panettta

Dia 7 de outubro, antes que se abrissem as urnas na Venezuela, o Secretário de Defesa dos EUA, Leon Panetta iniciou seu segundo giro pela região em apenas cinco meses [16]. Dessa vez veio armado com um documento de 12 páginas, “A Política de Defesa para o Hemisfério Ocidental” [17]. O texto é continuação do que foi elaborado em janeiro sobre as prioridades para a Defesa. Nos dois documentos, o objetivo é “manter a liderança mundial dos EUA”.

A política desenhada pelo Pentágono e pela Casa Branca para a região leva em conta dois novos fatos: as mudanças no mundo, entre as quais o novo papel da América do Sul, e o que lá se chama “a limitação de recursos”, como consequência do endividamento e da crise econômica que impõem restrições no orçamento militar.

Em consequência, o Pentágono já não pretende que seu principal modo de operar continue a ser o deslocamento militar direto na região; espera manter sua “liderança” mediante “enfoques inovadores, econômicos e praticamente sem ter de pôr os pés fora de casa. E espera, para conseguir isso, obter “esforços de cooperação” para “alianças bilaterais e regionais” à base do que entende que sejam “interesses comuns de segurança” [18].

Como os EUA encontram-se num “ponto estratégico de inflexão” pelo qual suas forças de concentrarão no Pacífico Asiático trata-se, na América Latina, de encontrar “sócios” que se convertam em “exportadores de segurança”. O documento cita dois casos: o da Colômbia, cujas forças de segurança partilham “conhecimentos técnicos nos campos da aviação, antissequestro e luta contra o narcotráfico”, e o de San Salvador cujos “capacitadores” trabalham no Afeganistão e no Iraque. (São algumas das consequências ou sucessos do “Plan Colombia”, aspecto que Panetta no menciona).

Com base nessas alianças, o Pentágono defende que “começa a aflorar uma rede interconectada: um sistema de cooperação para a defesa”, a partir de alianças “flexíveis e ágeis, capazes de responder aos desejos do país amigo e de mudar conforme aumenta a capacidade das forças militares dos países”.

Mas, apesar das aparentes boas intenções, os objetivos e os meios serão unilateralmente definidos pelo Departamento do Defesa. “As ameaças atuais à estabilidade e à paz regionais emanam da difusão do narcotráfico e outras formas de tráficos ilícitos, agitações e terrorismo, cujos efeitos podem resultar acentuados pelos desastres naturais e por uma oportunidade econômica desigual”. E acrescenta às ameaças atuais também novas ameaças no ciberespaço”.

Apesar de propor alianças “inovadoras”, o documento ainda aposta no que denomina “instituições de defesa maduras e profissionais” – entre as quais a Conferência de Ministros de Defesa das Américas que se faz a cada dois anos e a Junta Interamericana de Defesa (JID), no marco da OEA.

Panetta divulgou o documento pouco antes de participar da X Conferência, aberta na 2ª-feira, 8/10 em Punta del Este, Uruguai.

Horacio Verbitsky
Como assinalou o analista argentino Horacio Verbitsky, o documento de Panetta utiliza indistintamente “segurança” e “defesa” – o que não está sendo bem visto por boa parte dos países sul-americanos [19]. Verbitsky recorda que o MERCOSUL “rejeita o conceito de desastre natural, que substituiu por desastre socionatural”, o que pressupõe entender esses desastres como situação complexa e sobre tudo só agir no caso de haver pedido expresso “não entre forças armadas, mas pedido feito pelo governo do país afetado”.

A proposta do Pentágono

A proposta feita pelo Pentágono através do Chile, um dos sócios destacados na região, consiste em que as forças armadas coordenem as respostas aos “desastres”, acrescentando que, nessas “respostas” devem usar “unidades ou meios que tenham capacidade mínima de sete dias de operação com autossuficiência”.

Esse parágrafo alarmou várias chancelarias, entre elas a Argentina, dado que a maioria dos países da região não têm a tal capacidade “técnica”, o que deixaria o Pentágono na posição de único protagonista, como já aconteceu no caso do terremoto no Haiti em janeiro de 2010.

Por outro lado, para o mesmo Verbitsky, “os EUA tentam reformular a Junta Interamericana de Defesa (JID), para não perder uma ferramenta de controle sobre as forças armadas e de segurança na região”.

Vários países questionam a vigência das instituições multilaterais hemisféricas de defesa criadas durante a Guerra Fria, entre elas o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), criado em 1947. O mesmo se pode dizer da Junta Interamericana de Defesa (JID), entidade criada pela OEA, constituída em 1942.

O fracasso da “diplomacia militar” dos EUA

Sinal dos novos tempos, vários países da Aliança Bolivariana da Américas (ALBA) chegaram à X Conferência de Ministros de Defesa, esse mês, depois de terem decidido, em junho passado, separar-se da TIAR, que entendem já ferida de morte depois do conflito das Malvinas, em 1982 – quando os EUA apoiaram a Inglaterra, potência extra hemisférica, e não apoiaram a Argentina [20]. Trata-se aqui de Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua.

Eleutério Fernández 
Somam-se a esses países as reticências de Brasil e Uruguai, contra a JID. O ministro uruguaio de Defesa, Eleutério Fernández Huidobro, disse em seu discurso na Conferência de Ministros que a JID tem 70 anos, que está “velha”, que nasceu quando, no mundo “aconteciam coisas muito feias” [21]. Acrescentou que a desigualdade “é o grande problema que subjaz ou sobrevoa todos os outros problemas” e que “nem todos os militares do mundo algum dia darão conta de resolvê-lo”. E disparou:

“...durante esses anos, sofremos a ação de organizações criminosas internacionais piores que as do tráfico de drogas, armas e terrorismo. Falo, em boa parte, do sistema financeiro internacional que, mediante saques, assaltos, batendo carteiras e com roubos de todos os tipos provocou estragos até nos países mais ricos do mundo, mas, sobretudo entre as populações daqueles países. E, esses, andam pelo mundo soltos, um bando de criminosos transnacionais altamente perigosos que não podem ser excluídos de nossa lista de ameaças e riscos”.

Panetta ouviu em silêncio.

Mas a intervenção que mais bem refletiu o clima na região foi a do ex-chanceler do Brasil, atual ministro da Defesa, Celso Amorim. Sua fala foi a primeira na Conferência de Punta del Este. Disse que:

“...um sistema interamericano de Defesa como foi pensado imediatamente depois da 2ª Guerra Mundial é coisa que já nada tem a ver com o mundo de hoje, mundo multipolar, onde não há ameaça única nem continentes homogêneos” [22] [C].

Defendeu a cooperação em temas de saúde, defesa e desastres naturais, mas “sempre que haja autoridades civis à frente”. E fez mais: questionou o papel das potências no Oriente Médio, a composição do Conselho de Segurança da ONU, disse que a prioridade do Brasil é a UNASUL e o Conselho de Defesa Sul-Americano, apoiou a defesa da soberania argentina sobre as ilhas Malvinas, defendeu um Atlântico Sul livre de armas nucleares e ainda acrescentou:

“Nosso problema não é de proliferação: é de desarmamento. Que as grandes potências desmontem todos os seus arsenais nucleares”.

Tudo isso, em apenas 22 minutos!

Celso Amorim
Os 29 países que participaram da Conferência de Ministros da Defesa discutiram durante 48 horas os temos do documento final.

Aprovaram a criação de um Sistema Cooperativo de assistência humanitária de caráter voluntário “que respeitará a legislação de cada país e cuja coordenação e direção ficarão a cargo das autoridades civis” – como explicou o ministro argentino de Defesa, Andrés Allamand.

Argentina, Brasil, Bolívia, Equador, Nicarágua, Surinam e Venezuela votaram contra os termos do documento final; Guyana e Uruguai abstiveram-se. “Foi a primeira vez, na história desse fórum continental, que se realiza desde 1995, que foi preciso votar, ante a falsa de consenso” (AFP, 10/10/2012).

A declaração final da X Conferência de Ministros de Defesa não acolhe as principais inquietações do Pentágono – principalmente a intenção de fazer acordos diretamente com as forças armadas de cada país, sem considerar os governos políticos, que tem sido criticada como uma modalidade de “diplomacia militar”.

Bem diferente disso, a Declaração de Punta del Este “inclui o respaldo aos direitos soberanos da Argentina sobre as ilhas Malvinas” (item inicialmente rechaçado pelo Canadá e EUA) e recomenda muito vagamente que se continue e estudar o “sistema interamericano de Defesa”. Os países da UNASUL, exceto Chile e Colômbia, que apoiaram a Argentina em outros termos, “manifestaram sua preocupação com a crescente militarização do Atlântico Sul e com exercícios armamentistas que se realizam nas ilhas Malvinas” [23].

O que os países latino-americanos rechaçam cada dia mais claramente é o estilo do Pentágono de manter relações diretas “militares-militares” só com as forças armadas de cada país, desconsiderando os governos – exatamente o que sempre fez a Junta Interamericana de Defesa (JID) e faz agora o Comando Sul.

O relato de Verbitsky sobre como funciona o Grupo Militar dos Estados Unidos na Argentina, o qual, durante décadas, manteve escritórios e gabinetes em instalações do exército argentino, numa “interação horizontal e direta só com as forças armadas, sem pedir autorização e sequer sem informar o Ministério da Defesa argentino” [24], ilustra um modo de operar que já não é aceito, na nova correlação de forças.

A continuidade do processo bolivariano e talvez o aprofundamento nos anos futuros potencializarão a crescente autonomia política, econômica e militar da região em relação aos EUA.
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Notas de rodapé

[1] Citado por Mark Weisbrot, The Guardian, 3/10/2012. Ouve-se a conferência completa. Em 44’, a referência à Venezuela.
[2] Citado por Clovis Rossi, Folha de São Paulo, 9/10/2012.
[3] “EEUU no felicita a Chávez pro valora votación de la oposición”, AFP, 8/10/2012.
[4] Agência Xinghua, 27/9/2012.
[6] Associated Press, 2/2/2012
[7] La Jornada, 26/9/2010
[8] Idem.
[9] “China financia Chávez, em troca de petróleo, e ajuda na sua reeleição”, Valor, 1/10/2012.
[10] “China, no tan cerca como busca Chávez”, La Nación, 7/10/2012.
[11] Agencia Telam, 8/10/2012.
[12] Valor, 1/10/2012.
[14] El Universal.mx, 29/9/2012, em: “Venezuela lanza satélite desde China” 
[15] Gazeta Russa, 9/10/2012.
[16] Sobre a primeira visita, ver em: 20/5/2012, Programa de las Américas, Raúl Zibechi, em: “El Pentágono busca recuperar la iniciativa en Sudamérica”,
[17] 10/2012, Department of Defense, em: “La política de defensa para El Hemisfério Occidental” (em .pdf e em espanhol).  
[18] Todas as citações são extraídas do Documento do Departamento de Defesa.
[19] Página 12, 8/10/2012.
[20] “Continente debatirá pertinencia del sistema interamericano de defensa”, AFP, 6/10/2012. 
[21] El País, 9/10/2012.
[22] “Multiplicidad de percepciones impide sistema continental de defensa”, AFP, 8/10/2012.
[23] 10/10/2012, Presidência da República Oriental del Uruguay no: “Documento final de la Conferencia de Ministros de Defensa incluyó todos los temas”
[24] “Las cartas sobre la mesa”, Página 12, 30/9/2012.



*Fontes:
  • Agência Xinghua, “Relaciones con Mercosur y China marcarán próximos seis años de Venezuela”, 27/9/2012  
  • Departament of Defense, “La política de Defensa para el Hemisferio Occidental, out. 2012
  • Horacio Verbitsky, “Los nuevos desafíos”, Página 12, 8/10/2012
  • Mark Weisbrot, “Why the US demonises Venezuela’s democracy”, The Guardian, 3/10/2012.
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Notas dos tradutores
[A] A revista Carta Capital, São Paulo, 17/10/2012, ano XVIII, n. 719, em matéria de Claudia Jardim, de Caracas, tem outra explicação para Capriles não ter contestado o resultado: “O opositor Capriles aceitou a derrota, de olho na disputa dos governos estaduais em dezembro” (p. 41).
[B]Sobre a viagem de Panetta, ver também 6/10/2012, Rick Rozoff,  Stop NATO, redecastorphoto em: “Depois do Afeganistão, os EUA mudam-se para a América Latina” 
[C]14/10/2012, redecastorphoto, em: “Intervenção do Ministro da Defesa do Brasil, Celso Amorim, na X Conferência dos Ministros de Defesa das Américas”