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sábado, 9 de junho de 2012

Uma resposta de Habermas à Eurocrise [1]


8/6/2012, Valentina Pop, EUobserver
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sobre: HABERMAS, Jüergen [2011], 2012, The Crisis of the European Union: A Response, NY: Polity Press, 140 p.

Jurgen Habermas
Depois de dois anos de disputas à beira do abismo e troca de fogo na Eurozona, os líderes da União Europeia começam a parecer dispostos a voltar à mesa de desenho, para traçar um plano de longo prazo, segundo o qual a Eurozona começaria a deixar de ser exclusivamente união monetária, para ser união política e fiscal. Nesse cenário político, um dos mais respeitados filósofos contemporâneos, Juergen Habermas, publica seu recente The Crisis of the European Union: A Response [A crise da União Europeia: uma resposta].

Lançado em 2011 em alemão, e traduzido em abril de 2012 ao inglês, a “resposta” de Habermas à Eurocrise clama por mais legitimidade democrática para as instituições europeias e menos “negociação” e decisões tomadas nas coxias, por governantes nacionais diretamente pressionados pela rua.

Relembrando o momento chave, em 2010, quando a chanceler alemã Angela Merkel adiou uma decisão sobre o primeiro resgate para a Grécia, até depois de eleições regionais na Alemanha, Habermas escreve: “Foi quando pela primeira vez dei-me conta de que o fracasso do projeto europeu, sim, era risco real”.

Merkozy
O parceirariato Merkel-Sarkozy foi responsável pela maioria das decisões, na Eurozona, que levaram todo o projeto em direção diferente da que o filósofo alemão deseja para a UE. Na tradição do Iluminismo de Immanuel Kant, Habermas antevê um mundo de cidadãos cosmopolitas, que dão legitimidade a um sistema político de vários níveis simultâneos – nacional, europeu e global.

Mas, em direção oposta a isso, a dupla Merkel-Sarkozy caminhou para formar um inter-governamentalismo, que é o contrário dos objetivos federalistas do Tratado que criou a UE. Em 2011, Habermas escreveu:

“Esse regime de comando central no Conselho Europeu, permitirá que a “dupla” transfira os imperativos do mercado para dentro dos orçamentos nacionais. Esse processo envolverá usar a ameaça de pressões e sanções para esvaziar de poder os parlamentos nacionais, de modo a implementar acordos informais e não transparentes.”

Alternativa a isso é “continuar consistentemente na trilha da domestificação democrática legal da União Europeia”. Para Habermas, “não há meios para retificar os erros da construção da união monetária, sem revisar o Tratado”.

Ao governantes, Habermas aconselha que abandonem a abordagem fragmentada “comandada por especialistas” e busquem uma luta honesta e “cheia de riscos” com o público mais amplo.

Para Habermas, o argumento dos eurocéticos, para os quais estruturas supranacionais – como a União Europeia – não teriam jamais legitimidade democrática, é argumento falhado, porque “os povos” da Europa continuam diretamente envolvidos e são consultados em eleições parlamentares e referendos em todos os níveis e sobre todas as questões. E, diz ele, é preciso distinguir entre “soberania popular” e “soberania do Estado” – dois conceitos que seguidamente aparecem confundidos tanto no discurso dos progressistas como nos discursos dos conservadores.

A “soberania partilhada” entre estados-nação e a União Europeia, consagrada no Tratado de Lisboa, volta aos mesmos cidadãos que desejam que seus governos nacionais prestem contas de suas políticas domésticas, ao mesmo tempo em que questões mais amplas – poluição, produção padronizada, transportes – devem ser tratadas no nível europeu. Mas, como Habermas explica, a estrutura política da União Europeia criada para governar essa soberania partilhada está carregada de falhas. Não há “relação simétrica” nas funções e competências dos três principais corpos: o Parlamento Europeu, a Comissão da União Europeia e o Conselho de Ministros.

Para começar, não há lei eleitoral unificada para o Parlamento Europeu – em alguns países, os deputados ao Parlamento Europeu são escolhidos em eleições diretas; em outros, são escolhidos a partir de listas partidárias.

Em segundo lugar, como Habermas escreve:

“O Conselho Europeu, o segundo na lista de órgãos, abaixo do Parlamento, nos termos do Tratado de Lisboa, é completa anomalia. Como local ao qual tem assento a autoridade política dos chefes de governo, o Conselho Europeu é – até mais que o Conselho de Ministros – o real contrapeso ao Parlamento. Mas suas relações com a Comissão Europeia, que se autoidentifica como guardiã dos interesses da Comunidade, ainda não são claras.”

Ainda que sejam instaurados os adequados controles e contrapesos, o elemento mais importante para o sucesso da União Europeia continua a ser o conjunto dos cidadãos, ao qual ninguém parece dar atenção, e a cujo papel todos permanecem desatentos. A comunicação dentro da sociedade civil só terá lugar “à medida em que as esferas públicas nacionais abram-se, gradualmente, umas em relação às outras” – escreve Habermas.

“A transnacionalização dos públicos nacionais existentes não exige novos tipos de veículos e mídia, mas, em vez disso, uma prática diferente nos grandes veículos e mídia existentes. É preciso não apenas que tematizem questões europeias como tais; têm também de dar conhecimento a todos os cidadãos também das posições e controvérsias que estejam acontecendo, sobre as mesmas questões, em outros estados-membros.”

O trabalho migrante, o turismo de massa e a Internet são, dentre outros, fatores que tornam irrelevantes as fronteiras nacionais. Com os cidadãos em vários países – hoje, na Grécia, Irlanda, Portugal e também na Espanha e na Itália – sentindo o peso das decisões tomadas no nível da União Europeia diretamente sobre a vida diária, pode-se legitimamente esperar que se interessem e se engajem também na política da União Europeia.



Nota dos tradutores:

[1] Sobre o mesmo filósofo e livro, há em português, na Revista Fórum, “Jürgen Habermas, a razão e a Europa unificada. Perdeu, playboy”, 12/12/2011, exemplo de triste “crítica”, tão frequente na mídia brasileira, em que o “crítico” está mais empenhado em fazer ouvir primeiro a “crítica” e, só depois de criticado (na maioria das vezes, só depois de diluído e esculhambado), o pensamento que o “crítico” “critica”.
Habermas não começou a ser hoje o filósofo que é. Ninguém é obrigado a concordar com o que ele escreve. Mas o que quer que escreva não o torna(ria) “perigoso”, a ponto de ter de ser desmontado “preventivamente”, antes, mesmo, de ter existido como assunto fora dos círculos acadêmicos elitizados e nas discussões da opinião pública no Brasil. Operando como sempre opera, a “mídia”, no Brasil, insiste em vender mais a própria opinião (ou, pelo menos, em vender ANTES a sua própria opinião), que o pensamento dos pensadores cujas publicações são tão semi-noticiadas quanto semi-criticadas).
Mais interessante, pode-se ler em português um artigo de Habermas sobre o mesmo tema, de 10/11/2011, publicado no jornal La Repubblica: “O futuro da Europa entre crise e populismo” (traduzido por Moisés Sbardelotto para a Unisinos); interessante e claro, do qual, evidentemente, todos podem discordar (depois de ler).

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Pepe Escobar – “Mudança: a Europa acreditará?”


7/5/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online - THE ROVING EYE
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
A Europa pode estar passando por um remix do momento, no final de 2008, quando Barack Obama venceu as eleições presidenciais nos EUA. Ou será que, dessa vez, será mudança à vera?

A eleição no domingo do socialista François Hollande à presidência da França ocorre num momento histórico extraordinário. É possível que corresponda ao momento. No primeiro discurso já como presidente eleito, Hollande disse que “a austeridade não é fatalidade”. Não se trata só de França – trata-se do futuro da Europa. E quando a França fala – melhor ainda, quando age –, a Europa ouve.

Que festa, domingo à noite na Bastilha – de provocar-me arrepios pela espinha. Em corte transversal que atravessou toda a sociedade francesa, todos falando diretamente à Europa e indiretamente ao resto do mundo: é possível sonhar com mudança, acima de tudo, é possível sonhar com justiça social. Há alternativa.

E tudo isso, com um francês calado à guisa de lanterna em trilha difícil. Um sujeito “normal”. Nada má a escolha dos socialistas franceses, para substituir, como candidato, o homem do qual cogitavam – até que o super ex-favorito, então diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, deixou-se prender numa armadilha extremamente sórdida no Sofitel, em New York.

Agora, a ressaca. A esquerda só controla sete dos 27 países da União Europeia. O ex-rei Sarkô, rei do chacoalhar de correntes de ouro e diamantes de pescoço [bling bling], eterno neonapoleônico Libertador da Líbia e ex-presidente Nicolas Sarkozy, foi reduzido a nota de rodapé histórico de segunda – ele e a bela popstar italiana sua esposa, Carla Bruni, que já planeja os passos subsequentes da carreira. O rei Sarkô é o 11º líder europeu a cair, enquanto se aprofunda a recessão na Europa.

O híbrido “Merkozy” – cruza do rei Sarkô com a chanceler alemã Angela Merkel, a dupla dinâmica que governou a Europa – está morto.

Reverências ao Merkollande

Frau Merkel e o primeiro-ministro britânico David Cameron eram e continuam a ser pró “austeridade”. A Dama Angela de Ferro queria muito, muito, que o rei Sarkô continuasse onde estava. Mas Hollande mandou enviados especiais a Berlim, semana passada. Pragmático, ele sabe que Merkel conheceu, de primeira mão, o ponto a que chegava o rei Sarkô, em matéria de arrogância e imprevisibilidade.

Hollande é pragmático do tipo que não chama atenção, pé no chão, que gosta de consensos e que, era uma vez, foi economista que dava aulas à elite, na Sciences Po, em Paris. Não é radical. O pragmatismo gerará, necessariamente, um “Merkollande”. O osso realmente duro de roer será o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schaueuble, o Wotan [1] da Austeridade na Eurozona.

Merkel e Schaueuble, só desistirão de seu pacto fiscal, se caçados por uma gangue de visigodos – obsessão que o rei Sarkô subscreveu. Mario Draghi – ex-agente de Goldman Sachs e presidente do Banco Central Europeu (BCE) – também quer um pacto de crescimento. Ele – e a elite neoliberal – veem a coisa como mercados cada vez mais livres, quer dizer, livres para admitir-demitir sem mais aquela, talvez combinado com mais investimentos públicos em infraestrutura.

Hollande é totalmente contra mercados megalivres, megadescontrolados. Quanto a investimentos públicos, as únicas nações que poderiam pensar nisso dependem de ter receber boas avaliações das agências de risco e de encontrar baixos juros financeiros. Na prática, nenhum país da União Europeia está hoje qualificado.

Então, será com a Alemanha. O capital terá de ser alemão. Deve-se esperar que Hollande convença a Merkel de que, mais cedo ou mais tarde, os alemães perceberão que a recessão sem fim é politicamente tóxica. A consequência mais danosa já está aí, à vista de todos: a extrema direita musculada com esteróides que incha por toda a Europa.

Durante a campanha, Hollande identificou bem claramente o “inimigo”: o “mundo da finança”. Não surpreende que Wall Street e a City de Londres já vejam Hollande – e tendam a vê-lo cada vez mais – como mais perigoso que Vladimir Lênin. Assim sendo, o campo de batalha está delineado: Hollande versus o neoliberalismo e “os mercados”, Hollande como Don Quixote versus a troika de ferro do BCE, FMI e Comissão Europeia (CE).

Não há nem épico, que conte sequer o começo dessa luta. Mais uma vez: sigam o dinheiro (euros que desaparecem, por exemplo). 

A dívida pública na França equivale a 90% do PIB. Desde 1974, a França não vê orçamentos equilibrados. A proporção entre dívida pública e PIB é de cerca de 57% – a mais alta dentre os 17 países da Eurozona. O desemprego chega a cerca de 10%. Uma geração inteira de filhos de migrantes – quase todos do norte da África – já passou virtualmente toda a vida confinada em guetos, desempregada e maltratada.

Hollande quer alterar a idade de aposentadoria na França, fazendo-a voltar, dos atuais 62, aos antigos 60. Quer contratar pelo menos 60 mil novos professores. Quer reduzir os preços da energia elétrica, para os de baixa renda. O único meio de financiar tudo isso é cobrar o imposto (prometido) de 75% dos ganhos de quem ganhe mais de 1 milhão de euros (US$1,3 milhão) ao ano, e o imposto sobre transações financeiras. A alta burguesia francesa está rasgando seus Diors, em desespero.

Aí está a plataforma de Hollande, num parágrafo: empregos e crescimento econômico. Se falhar, a extrema direita vence, e culpará Paris e o Islã.  

Sigam o dinheiro 

Com Hollande, as grandes linhas da política externa do rei Sarkô talvez se mantenham, mas muitos detalhes serão substancialmente alterados. 

Hollande jamais esteve na China. Em Pequim, tendem a vê-lo como “presidente normal” – o que nunca se aplicou àquele coelho-da-Duracell-que-fumou-crack, o rei Sarkô. Portanto, de um ponto de vista chinês, as relações devem ser “normais” tipo “estáveis”. 

Crucialmente importante é que Hollande quer parceria estratégica mais aprofundada com os países BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. E, como muito apetece às potências emergentes, é favorável ao fim do dólar norte-americano como moeda mundial de reserva (a qual seria substituída por uma cesta de moedas). Afinal, pode estar surgindo um aliado estratégico para os BRICS, postado bem no coração da União Europeia, interessado em modernizar o sistema financeiro global.

O primeiro teste internacional de Hollande será a reunião da OTAN em Chicago, ainda em maio. Será fascinante assistir, se ele conseguir jogar um macaco contra as ambições de porcelana da OTAN-Globocop. Muitos países europeus, fartos das aventuras nos buracos negros no Afeganistão e na Líbia, podem, sim, apoiar Hollande – que disse que retirará todos os soldados franceses do Afeganistão até o final de 2012.  

Mas a verdadeira guerra será travada dentro da Europa. No fim, voltamos ao “sigam o dinheiro”.

Hollande quer que a população idosa aposente-se mais cedo. Quer os fazendeiros franceses confortavelmente subsidiados – para nem citar as vacas francesas, cujo padrão de vida é muito melhor que o de 2 bilhões de pessoas no planeta. Quer que o generoso aparelho de bem-estar francês continue a funcionar.

Como pagar por tudo isso – quando todo o dinheiro foi sugado para dentro dos bolsos gordos dos 0,1%? Não bastará que o sujeito “normal” planeja mudar só a Europa: ele terá de movimentar-se para mudar o mundo.



Nota dos tradutores
[1] Rei dos Deuses, no “Anel dos Nibelungos”, de Wagner.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Pepe Escobar: “E rola a cabeça do rei Sarkô!”


4/5/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online, The Roving Eye blog
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
O homem fez pose de fenomenal grandeur, como neoimperial Libertador da Líbia – poucos anos depois de o coronel Colonel Muammar Gaddafi ter ajudado a financiar sua campanha eleitoral, com nada menos que límpidos 65 milhões de dólares.

Servindo-se de um misterioso pacto entre o Espírito Santo e uma camareira africana em New York, ele livrou-se do adversário que já o desafiava e muito provavelmente o derrotaria na reeleição, o ex-diretor-geral do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Khan, libertino assumido.

E mesmo assim, os franceses, no próximo domingo – nova tomada da Bastilha em estilo Facebook remix – lá estarão, aos gritos de “cortem a cabeça dele!”.

Por quê? Pela arrogância. Pela húbris. O presidente francês Nicolas Sarkozy, também conhecido como Rei Sarkô, o Neonapoleônico; ex-rei do chacoalhar de correntes de ouro e diamantes de pescoço [bling bling]; “Chuchu”, para a primeira dama, a italiana Carla Bruni [1], é o pior inimigo dele mesmo.

Estilo Ritz de viver

Bashir Saleh é ex-chefe de gabinete de Gaddafi e ex-presidente do Fundo Soberano Líbio. Foi o encarregado de ir e vir, quando Gaddafi decidiu financiar a campanha eleitoral de Sarkozy, em 2007.

Rei Sarkô
O Rei Sarkô, como seria de prever, negou tudo e disse que processaria Mediapart, website francês que revelou o que, para muitos, nem foi novidade. Seja como for, na 5ª-feira, 3 de abril, o ex-primeiro-ministro líbio Baghdadi Ali al-Mahmoudi confirmou tudo, outra vez. E disse exatamente o que o filho de Gaddafi e ex-aluno de prestígio da London School of Economics, Saif al-Islam, já dissera antes, em março de 2011: “Sarkozy que devolva todo o dinheiro que aceitou da Líbia, para pagar sua campanha presidencial.”

Saleh está na lista de procurados da Interpol, mas permanece na França, autorizado pelo regime “rebelde” da OTAN na Líbia, o qual, simultaneamente, também diz estar à procura dele. Guarda com ele confortáveis US$5,2 milhões, bem próximo da fronteira suíça, com vista para o Mont Blanc.

Tudo isso protegido pela polícia do Rei Sarkô, que disse que o negócio todo é feito com “pleno conhecimento e acordo do presidente [do Conselho Líbio de Transição] Abdel Jalil”. A vida é bela. Essa semana, Saleh foi visto badalando no Ritz, em Paris [2].

Meu voto é da Carla

Sarkozy - Hollande
A campanha presidencial na França passou hoje pelo proverbial anticlímax, depois de debate de quase três horas de duração entre o Rei Sarkô e o desafiante, François Hollande, do Partido Socialista. Consumiram-se trilhões de bytes nas telinhas, para descrever o debate como essencialmente “tenso”. Sem nocaute. Sarkô mexeu-se mais que coelho movido a pilhas alcalinas, enquanto Hollande – carismático como linguiça seca – mostrou-se, de fato, sólido e relativamente preciso.

A mentira rolou solta. Sarkô defendeu um seu recorde de empregos criados. Em abril de 2007, prometia 5% de desemprego ao final de cinco anos de governo. A França já chegou aos 9,4% de desempregados na população urbana ativa. Depois de cinco anos de Sarkô, há hoje um milhão de franceses desempregados, a mais.

Como a broinha que completa o café, o centrista Francois Bayrou – que recebeu 9,1% dos votos no primeiro turno – manifestou sua repulsa pelo que fez a campanha de Sarkô, que tentou seduzir a extrema direita; e anunciou que votará em Hollande.

Vale lembrar que nada menos que 33% dos franceses mantiveram-se longe das urnas no primeiro turno; preferiram concentrar-se nas ramificações geopolíticas da franja de Carla Bruni, visão absoluta de top model [3].

Realmente vitoriosa no primeiro turno – embora opere como míssil político Hellfire tóxico, sem tirar nem por – foi a extrema direita francesa, com a Frente Nacional (18% dos votos) “normalizada” por Marine Le Pen, empresária espertíssima e filha do fundador do partido e conhecido fascista Jean-Marie Le Pen.

O crescimento da influência da Frente Nacional desde os anos 1980s em todos os círculos da extrema direita europeia é simplesmente espantoso. O câncer espalhou-se por toda parte, da França à Itália, Grã-Bretanha, Bélgica, Países Baixos (Holanda), Áustria, Hungria, Suécia, Dinamarca, Finlândia e até Grécia.

A xenofobia e a islamofobia estão vivas e fortes, por toda uma Europa paralisada de medo, afundada em crise. Na Áustria, a extrema direita, depois de anos de liderança do carismático Jorg Haider, já está hoje completamente normalizada e legitimada.

Geert Wilders
Nos Países Baixos, liderado pelo hiper-islamófobo Geert Wilders, o PVV (Partij voor de Vrijheid, Partido pela Liberdade) obteve 24% dos votos nas eleições de 2010 e fez parte da coalizão conservadora no poder, a qual acabou por rachar por causa, mais uma vez, de Wilders.

Na Escandinávia, a extrema direita é rampante; na Suécia, por exemplo, os Democratas Suecos (belo toque orwelliano), pela primeira vez puseram os pés no Parlamento.

Quem faça campanha a favor da extrema direita na Europa praticamente jamais erra; basta por-se contra a globalização e os imigrantes “marrons” e “pretos”; denunciar elites corruptas; demonizar o Islã; alertar sobre os perigos que ameaçam a identidade nacional, por culpa do multiculturalismo; e, essencialmente, apresentar-se como “contra o sistema”. É como se o espectro da Alemanha Nazista flutuasse nos céus, do sul da França às montanhas dos Cárpatos.

Não surpreende que, se um partido de extrema direita tem 15% dos votos dos franceses, os partidos conservadores ponham-se a abraçar as políticas de direita. Foi exatamente o que fez o Rei Sarkô; perdido o primeiro turno, ele logo declarou que Marine Le Pen era “compatível com a República”. Pouco funcionou – porque milhões de eleitores alimentavam neles mesmos, de fato, outra espécie de fúria: a própria eurofobia. 

Eurófobos, uni-vos

Merkozy
A crise da eurozona, países falidos, ortodoxia de “austeridade” por todos os lados, desemprego, a mão de ferro das agências de avaliação de riscos e dos tecnocratas do orçamento, e horror econômico generalizado; milhões de franceses, como outros europeus, culpam Bruxelas. E acontece que o Rei Sarkô é parte dessa mesma elite odiada – vale 50% do par “Merkozy” (com a chanceler alemã Angela Merkel) que, em teoria, está tentando “salvar” a Europa.

Assim, um problema extra para o rei Sarkô do chacoalhar de correntes de ouro e diamantes de pescoço [bling bling] é que ele não é nem jamais foi capaz de vender qualquer projeto político, cultural e social, uma visão sua para a Europa. Ou, que fosse, apontar algum modo de recriar alguma Europa pós-crise (supondo-se que a atual crise suma logo, o que não acontecerá).

Hollande é um pepino frio e tudo que diz talvez seja mesmo “superado” – acusações que ouviu do Rei Sarkô e de The Economist; mas, pelo menos, o retorno dos socialistas ao poder na França tem alguma chance de sacudir o tabuleiro trôpego.

A União Europeia terá forçosamente de reexaminar o eixo franco-germânico nesse momento “pós-Merkozy”; esse, afinal, é o eixo que realmente governa a Europa. Já se fala muito, em Paris e Berlim, sobre “continuidade”. Aconteceu também antes, entre Giscard d'Estaing e Helmut Schmidt, e entre Francois Mitterrand e Helmut Kohl.

Mas a verdadeira incógnita é o que algum governo de Hollande conseguirá fazer a favor de uma Europa mais social e mais igualitária. The Economist – quer dizer, os interesses financeiros da City de Londres – já lamenta o destino do Rei Sarkô, que tentava “salvar” não só a França mas também a Europa. Bobagens.

Bye bye, Rei Sarkô – e já vai tarde!

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Notas dos tradutores
[1] 14/8/2009, Pepe Escobar, “Jihad bling bling”, Asia Times Online, em inglês.
[2] 2/5/2012, Paris Match, “La drôle de fuite de Bachir Saleh” [O estranho desaparecimento de Bachir Saleh], em francês.
[3] 2/5/2012, Repubblica, “Carla Bruni, nuovo look com la frangetta” [Carla Bruni, novo look com a franginha'], em italiano.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Pepe Escobar: “Politburo [1] uber alles [2]”


Pepe Escobar

16/11/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online 
Traduzidopelo pessoal da Vila Vudu


Ah, os bons velhos tempos da Guerra Fria/União Soviética, quando um exército de Kremlinologistas vivia ligado em cada imperceptível movimento de um imperscrutável politburo! 

Mas... Como?! Quem poderia supor que duas décadas depois do fim do “socialismo real”, os politburos voltariam à moda? 

A China tem – basta ver o Comitê dos Nove, os mais sacrossantos dentre 25 sacrossantos membros do politburo chinês. E, provando outra vez a tese de Slavoj Zizek (o casamento entre capitalismo e democracia acabou), a Europa “livre” também tem, embora nesse caso, a afamada Camarilha dos Quatro tenha sido multiplicada por dois. 

Conheçam a Camarilha dos Oito 

A eurozona é hoje, de fato, comandada por um politburo de oito membros. Servicinho de primeira. Nenhum poder cobra explicações dessa Camarilha dos Oito, exceto o mítico Zeus com aqueles raios marca-registrada. Na era da modernidade líquida, Zeus atende pelo nome de Deus do Mercado. A única coisa que conta para a Camarilha dos Oito é o que os mercados financeiros – comandados pelo Deus – querem; reles mortais, como os eleitores europeus, são, no máximo, um incômodo. 

Ergo, os governos nacionais nada significam na eurozona. Quem manda atirar é uma troika formada pelo Banco Central Europeu, a Comissão Europeia e o Fundo Monetário Internacional. E a glória: ninguém, aí, algum dia, foi eleito. 

O politburo da Europa apresenta-se sob uma sigla inocente: GdF; em francês, Groupe de Francfort; em inglês, Frankfurt Group (em português europeu, Grupo de Francoforte; em português do Brasil, Grupo de Frankfurt), criado no mês passado. Reuniram-se nada menos de quatro vezes durante o recente, espetacularmente fracassado encontro do Festival de Cannes da Dívida, G-20, em Cannes. Aqui a lista tecnocrática completa – com uns políticos metidos pelo meio. 

1 e 2: “Merkozy”, aquele fruto monstro de polinização cruzada da chanceler alemã Angela “Cruz de Ferro” Merkel com o neonapoleônico presidente francês Nicolas Sarkozy. Por mais que o audaz e varonil Sarko de peito empinado meta-se a posar de rei – ou fantasiado, dentre outras fantasias, de Libertador da Líbia; e refira-se à La Merkel como “La Boche” (no sentido depreciativo que a palavra teve no francês da II Guerra Mundial), quem de fato tem colhões na União Europeia é a parte Merk da dupla Merkozy. 

3: A escorregadia fusão Chanel/Wall Street, Christine Lagarde, diretora do Fundo Monetário Internacional, que herdou o posto do ex-salvador do capitalismo convertido em autoimposto candidato à presidência da França e notório mulherengo transatlântico Dominique Strauss-Kahn (DSK). A própria Madame Lagarde é ela mesma, ativo financeiro comprovado, como ex-presidente de Baker & McKenzie, uma banca internacional de advogados. 

4: O ex-vice-presidente do grupo Goldman Sachs International, Mario Draghi, hoje presidente do todo-poderoso Banco Central Europeu. O tecnocrata que empurrou a Itália para o euro, hoje amplamente saudado pela finança planetária como “o salvador da Europa”. 

5: O presidente (desde 2004) da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, burocrata seco, essencial e indizivelmente faminto de poder. 

6: O presidente do Conselho Europeu (desde 2009), Herman van Rompuy, homem sem cara, ex-senador e primeiro-ministro belga que se opõe veementemente ao ingresso da Turquia na União Europeia. 

7: O Comissário Europeu para Questões Econômicas e Monetárias (desde 2010) Olli Rehn, da Finlândia, especialista em se autoapagar, ex alto burocrata, hoje encarregado da ampliação da União Europeia. 

8: O presidente do grupo de Ministros Europeus das Finanças (desde 2005), Jean-Claude Juncker, ex primeiro-ministro do Luxemburgo, que The Economist descreve como um “federalista fanático”. 

Eleição é para mariquinhas

Muito além da versão Rabelaisiana lixo/reality show dos últimos dias do Império Romano personificada no ex primeiro-ministro italiano Silvio “bunga bunga” Berlusconi, e dos trabalhos para formar governo de unidade nacional chefiado pelo supertecnocrata, ex-comissário europeu Mario Monti, que os italianos chamam de “Super Mario”, só há um mapa do caminho à frente, no que tenha a ver com a União Europeia: “austeridade” implacável, devidamente supervisionada por Madame Lagarde e seus subordinados servis no FMI. 

O Super Mario, por falar dele, é, da cabeça aos pés, homem da Camarilha dos Oito: ex-comissário da União Europeia, conselheiro internacional de Goldman Sachs, presidente europeu da Comissão Trilateral de David Rockefeller e membro chave do Bilderberg Group. 

Nem um populista demagogo neoliberal como Il Cavaliere – ex-queridinho da plutocracia global – encontraria meios para implementar na Itália o mapa do caminho da “austeridade” hardcore imposto pelo Banco Central Europeu, o FMI e os bancos credores. Quando o Deus do Mercado – único verdadeiro oráculo da modernidade líquida – fala, a realidade curva-se. Não surpreende que Van Rompuy tenha pronunciado as seguintes palavras oraculares, 6ª-feira passada: “O país precisa de reformas, não de eleições.” 

Ninguém nem precisa esgueirar-se pelos corredores abertos de Bruxelas, ou sentar-se com o funcionário solitário, com batatas fritas e Bordeaux, para saber o quanto a União Europeia odeia democracia. Por exemplo, ninguém sabe como o conselho diretor (não eleito) do todo-poderoso Banco Central Europeu vota, porque tudo que lá acontece é secreto. 

Neoliberalismo hardcore, como imposto pela Camarilha dos Oito, é como tratamento aplicado pela Máfia: primeiro quebram os joelhos (amputam os direitos sociais). Depois cortam a garganta (amputam os direitos políticos). Pouco sobra para o “gado” que terá de arrastar a canga da austeridade sem fim (os eleitores europeus), exceto talvez a velha greve geral ou gritar nas ruas até rebentar os pulmões. 

Pouco importará o quanto sejam excelentes os “fundamentos” da Itália – inclusive altos níveis de poupança privada, baixo endividamento, sistema bancário estável e superávit comercial nas manufaturas. 

Do grego ao latim, o problema com Grécia e Itália nada tem a ver com o que a União Europeia diz ser uma periferia disfuncional. O ponto aqui são os excessos do capitalismo de cassino – capital financeiro que opera em total desregulação. Daí a proeminência desse tipo sombrio/luminescente – o tecnocrata da modernidade líquida –, que odeia democracia, mas é suficientemente legítimo para ordenar a repressão nas ruas, tudo em nome da plena satisfação do Superior Deus financeiro. 

Não há nenhuma diferença (política) entre promover mudança de regime com bombas “humanitárias” ou com os raios do Deus do Mercado. 

Quanto à necessária porta corta-fogo que “salvaria” a Itália de suas dívidas – mais de 1,9 trilhão de euros (US$ 2,6 trilhões) – são inacreditáveis 1 trilhão de euros. Nunca acontecerá – em primeiro lugar, porque Sua Alteza Imperador Hu (Jintao) farejou de longe a mais nova invenção dos bárbaros ocidentais. Não há dúvidas de que o Imperador Hu logo viu, avant la lettre, que o tal orwelliano Fundo Europeu para Estabilidade Financeira seria logo desmascarado como fraude monumental, quando o tal fundo comprou centenas de milhões de euros de seus próprios bônus. Ninguém precisa ser Nouriel Roubini para apostar em que o euro pode bem estar a caminho da quebradeira. 

“Merkozy” – responsáveis por 48% do Produto Interno Bruto da eurozona – e a Camarilha dos Oito são hoje praticantes de primeira classe do poder neocolonial. 

O que a Camarilha dos Oito quer mesmo é, essencialmente, uma União Europeia só dos ricos, como já se entrevê em matéria da Reuters, em tom quase-apocalíptico: “Franceses e alemães exploram a ideia de uma eurozona menor” [3]. Preparem-se, porque, de agora em diante, o euro não mais unificará a Europa: servirá de cunha, para balkanizá-la. 


Notas dos tradutores
[1] “Politburo” é abreviatura do russo Politítcheskoe Byurô. Tradicionalmente, designava o comando do Partido Comunista da União Soviética.

[2] Há várias acepções para essa expressão. Sugerimos “acima de (tudo e) todos”, como aparece em “California Ubber Alles”, gravada pelos Dead Kennedys, grupo de rock punk muito hardcore, em 1980, no álbum Fresh Fruit for Rotting Vegetables. A letra pode ser lida, mal traduzida, mas ajuda a ver do que se trata, em Califórnia acima de todos. Imperdível e histórica, dos mesmos Dead Kennedys, é “Holliday in Cambodia”, de antes, mas reunida no mesmo álbum. Para conhecer tudo isso, visitem e, na própria página, contribuam com uma graninha para manter a Wikipedia.

[3] 9/11/2011, “French and Germans explore idea of smaller euro zone” [Franceses e alemães exploram a ideia de uma eurozona menor], Reuters.

A crise na eurozona


Merkozy e a Grécia

O continente está destruindo os fracos para proteger os fortes. Será suficiente?


James K. Galbraith
por James K. Galbraith [*]

A crise na eurozona é uma crise bancária pretendendo ser uma série de crises de dívida nacional e complicada por ideias econômicas reacionárias, uma arquitetura financeira defeituosa e um ambiente político tóxico, especialmente na Alemanha, na França, na Itália e na Grécia.

Tal como a nossa, a crise bancária europeia é o produto da excessiva concessão de empréstimos a tomadores fracos, incluindo o crédito para habitação na Espanha, o comercial imobiliário na Irlanda e o setor público (parcialmente para infraestrutura) na Grécia. Os bancos europeus alavancaram-se para comprar hipotecas tóxicas americanas e quando estas entraram em colapso eles começaram a despejar seus fracos títulos soberanos para comprar outros fortes, conduzindo para cima os rendimentos e finalmente forçando toda a periferia europeia para dentro da crise. A Grécia foi simplesmente o primeiro dominó na linha.

Em tais crises, a primeira defesa dos bancos é mostrar surpresa – “ninguém podia ter sabido!” – e culpar seus clientes por imprudência e trapaça. Isto é verdade, mas obscurece o fato de que os banqueiros pressionaram os empréstimos muito arduamente enquanto as taxas eram gordas. A defesa funciona melhor na Europa do que nos EUA porque fronteiras nacionais separam credores de devedores, obrigando os líderes políticos na Alemanha e França aos seus banqueiros e promovendo uma narrativa de racismo nacional (“gregos preguiçosos”, “italianos irresponsáveis”) cujo equivalente na América pós direitos civis foi em grande parte suprimido.

Subjacente ao poder do banqueiro na Europa Credora está uma sensibilidade calvinista que transformou excedentes num símbolo de virtude e déficits numa marca de vício, enquanto fetichizava a desregulamentação, privatização e ajustamento conduzido pelo mercado. Os europeus do Norte esqueceram que integração econômica sempre concentra a indústria (e mesmo a agricultura) nas regiões mais ricas.

Quando este processo se desdobra os alemães colhem as rendas e instruem os recém endividados clientes a cortarem salários, liquidarem ativos e abandonarem suas pensões, escolas, universidades e cuidados de saúde – muitos dos quais eram de segunda classe. Recentemente as instruções tornaram-se ordens, entregues pelo FMI e pelo BCE, demonstrando aos novos peões da dívida europeus que eles já não vivem em estados democráticos.

A vantagem dos EUA

A arquitetura da eurozona torna as coisas piores sob dois aspectos. Se bem que a UE tenha pago alguma compensação às suas regiões mais pobres, estes fundos estruturais nunca foram adequados e agora estão bloqueados por incumpríveis exigências de co-pagmento. E faltam, à Eurozona, canais de redistribuição inter-regional para famílias que os EUA desenvolveram com a Segurança Social, Medicare, Medicaid, folhas de pagamento do governo federal e contratação de militares dentre outras coisas. Nem tampouco os aposentados alemães assentam na Grécia ou em Portugal em grandes números como fazem os nova-iorquinos na Florida ou os de Michigan no Texas.

Em segundo lugar, o BCE recusa-se a resolver a crise de repente, o que poderia fazer através da compra de títulos de países fracos e refinanciá-los. O argumento contra isto é chamado “risco moral” ("moral hazard"), reforçado por velhos temores de inflação, mas a questão real é que fazer isso admitiria perda de controle por parte dos credores sobre o banco central. Ações paralelas àquelas tomadas pelo Federal Reserve – nacionalizar todo o mercado de papel comercial, por exemplo – afastaria o BCE, muito embora ele compre títulos soberanos quando tem de fazê-lo. Assim, ao contrário, a zona avançou na criação de um gigantesco CDO tóxico chamado European Financial Stability Fund (EFSF), o qual pode a breve trecho ser transformado num ainda mais gigantesco CDS tóxico (como a AIG, eles chamavam a isto “seguro”). Isto pode adiar o pânico no máximo por uns poucos momentos.

Soluções técnicas existem. A mais desenvolvida delas é a “Modest Proposal” de Yanis Varoufakis e Stuart Holland, amplamente apoiada pelos líderes políticos mais velhos na Europa. Ela seria:

1) converter os primeiros 60 por cento do PIB da dívida de todo país da eurozona num título europeu comum, emitido pelo BCE;
2) recapitalizar e europeizar o sistema bancário, rompendo o colete de força que amarra bancos nacionais a políticos nacionais; e
3) financiar um programa de projetos de investimento como o New Deal através do Banco Europeu de Investimentos.

Propostas variantes incluem o apelo de Kunibert Raffer a um regime de insolvência soberana modelado no estatuto de bancarrota municipal dos EUA, a proposta de Thomas Palley de um novo “governo banqueiro” e a proposta de Jan Toporowski de um imposto sobre balanços dos bancos para retirar excesso de dívida pública.

Estas são as melhores ideias e nenhuma delas acontecerá. As classes políticas da Europa nestes dias existem numa morsa forjada (figurado) por banqueiros desesperados e eleitores raivosos, não menos na Alemanha e França do que na Grécia ou Itália. O discurso é impermeável a ideias novas e a sobrevivência política depende de chutar latas estrada abaixo de modo a que o fato de isto ser uma crise bancária não tenha de ser enfrentado. O destino dos fracos é na melhor das hipóteses secundário. Portanto, toda reunião de ministros das Finanças e primeiros-ministros proporciona meias medidas traidoras e evasões legais.

O exemplo mais recente foi a lógica em trança (pretzel-logic) que declarou um haircut de 50 por cento sobre a dívida grega ser “voluntário” de modo a que não disparasse cláusulas de inadimplência sobre os CDS a que alguns bancos americanos, em particular, possam estar expostos. Quando Timothy Geithner no mês passado advertiu os europeus de “catástrofe” potencial alguém pode razoavelmente inferir que ele tinha este risco em mente – e não é o efeito menor sobre o nosso já desastroso quadro de empregos. Mas naturalmente se o haircut pode ser declarado voluntário, então os CDS não valem o espaço de armazenagem que ocupam nos computadores dos banqueiros e mais uma escora no mercado, cada vez mais fracos de dívidas soberanas, cai para o chão.

A fragilidade política também explica a fúria na França e na Alemanha quando George Papandreu [o homem mais calmo da Europa, a propósito, que nasceu e foi criado em Minnesota] quis cortar o nó dos seus ministros rebeldes, da oposição irresponsável e do público irado submetendo o último pacote de austeridade a votação. Deus ajude os banqueiros! O movimento foi, de imediato, fatal para Papandreu e a Grécia agora será entregue a uma junta de representantes de credores se puderem encontrar gente disposta a aceitar o emprego. Não haverá ninguém que queira continuar a viver na Grécia depois disso.

A Grécia e a Irlanda estão sendo destruídos. Portugal e Espanha estão no limbo e a crise muda-se para a Itália – realmente demasiado grande para cair – a qual está sendo colocada numa concordata ditada pelo FMI no momento em que escrevo. Enquanto isso a França luta para adiar a (inevitável) degradação da sua classificação AAA através do corte de todo programa social e de investimento.

Se houvesse uma saída fácil do euro, a Grécia já teria ido. Mas a Grécia não é a Argentina com soja e petróleo para o mercado chinês, e legalmente a saída do euro significa deixar a União Europeia. É uma opção que só a Alemanha pode fazer. Para os outros, a opção é entre o câncer e o ataque de coração, salvo uma transformação na Europa do Norte que nem mesmo vitórias socialistas na próxima ronda de eleições francesas e alemãs trariam.

Assim, o caldeirão ferve. A Europa devedora está deslizando, mais uma vez, rumo à ruptura social, pânico financeiro e finalmente emigração, como caminho de saída para alguns. Mas – e aqui há outra diferença com os Estados Unidos – o povo não esqueceu totalmente como defender-se. Marchas, manifestações, greves e greves gerais estão aumentando. Estamos no ponto em que as estruturas políticas não apresentam esperança e o bastão de comando prepara-se para passar, muito em breve, para as mãos da resistência. Ela pode não ser capaz de muito – mas veremos.
10/Novembro/2011

Ver também:

[*] O autor organizou uma conferência sobre a “Crise na Eurozona na Universidade do Texas – Austin em 3-4/Novembro/2011. Os documentos e apresentações podem ser encontrados em: Leading Economic Policy Experts to Discuss Financial Crisis in the Eurozone During two Day Conference, bem como um vídeo de toda a conferência.

O artigo original, em inglês, encontra-se em: The crisis in the eurozone

Esta tradução foi extraída de Resistir.info