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quarta-feira, 23 de maio de 2012

Nunca esqueça: a questão é Bradley Manning, não o casamento gay


John Pilger

por John Pilger [*]

Na semana em que Barack Obama recebeu o Prêmio Nobel da Paz, em 2009, ele ordenou ataques de bombardeamento sobre o Iêmen, matando um número confirmado de 63 pessoas, 28 das quais crianças.

Quando Obama anunciou recentemente que apoiava o casamento do mesmo sexo, aviões americanos estraçalhavam 14 civis afegãos. Em ambos os casos, o assassínio em massa não era novidade. O que importava eram as cínicas vacuidades de uma celebridade política, produto de um espírito de época conduzido pelas forças do consumismo e dos media com o objetivo de desviar a luta pela justiça social e econômica. 

Barack Obama
A concessão do Prêmio Nobel ao primeiro presidente negro por ele “oferecer esperança” era tanto absurda como uma expressão autêntica do estilo liberal que controla grande parte do debate político no ocidente. O casamento entre o mesmo sexo é uma de tais distrações. Nenhuma “questão” desvia a atenção com tanto êxito como esta: não o voto livre no Parlamento sobre a redução de idade de consentimento gay promovido pelo conhecido libertário e criminoso de guerra Tony Blair; nem as fendas em "telhados de vidro" que em nada contribuem para a libertação das mulheres e simplesmente ampliam as exigências do privilégio burguês. 

Obstáculos legais não deveriam impedir pessoas de se casarem umas com as outras, pouco importando o gênero. Mas isto é um assunto civil e privado; a aceitabilidade burguesa ainda não é um direito humano. Os direitos associados historicamente com o casamento são os da propriedade: o próprio capitalismo. Elevar o “direito” de casamento acima do direito à vida e à justiça real é tão sacrílego como procurar aliados entre aqueles que negam a vida e a justiça a muitos, desde o Afeganistão até a Palestina.  

CONVERSÃO DAMASCENA

Em 9 de Maio, horas antes da sua damascena declaração sobre casamento do mesmo sexo, Obama enviou mensagens a doadores da campanha tornando clara a sua nova posição. Ele pedia dinheiro. Em resposta, segundo o Washington Post, sua campanha recebeu um “fluxo maciço de contribuições”.

George Clooney
Na noite seguinte, com os noticiários agora dominados pela sua “conversão”, ele compareceu a uma festa de levantamento de fundos na casa de Los Angeles do ator George Clooney. “Hollywood”, relatou a Associated Press, “é o lar para alguns dos mais famosos apoiadores do casamento gay e os 150 doadores que pagaram US$40 mil para comparecer ao jantar de Cloooney, sem dúvida, sentir-se-ão estimulados pelo anúncio decisivo de Obama no dia anterior”. Esperava-se que a festa de Clooney arrecadasse um recorde de US$15 milhões para a reeleição de Obama e será seguida por “mais outra festa para levantamento de fundos em Nova York patrocinada pelos apoiadores gay e latinos de Obama”. 

A espessura de um papel de cigarro separa os partidos Democrata e Republicano sobre políticas econômica e externa. Ambos representam os super ricos e o empobrecimento de uma nação da qual trilhões de dólares do fisco foram transferidos para uma indústria de guerra permanente e para bancos que são pouco mais do que empresas criminosas.

Obama é tão reacionário e violento quanto George W. Bush e sob certos aspectos é até pior. A sua especialidade pessoal é utilizar os drones Hellfire armados com mísseis contra pessoas indefesas. Sob a cobertura de uma retirada parcial de tropas do Afeganistão, ele enviou forças especiais dos EUA para 120 países onde são treinados esquadrões da morte. Ele ressuscitou a velha guerra fria em duas frentes: contra a China na Ásia e com um “escudo” de mísseis destinados à Rússia.

O primeiro presidente negro presidiu o encarceramento e vigilância do maior número de pessoas negras do que os que estavam escravizados em 1850. Ele tem perseguido mais denunciantes – que contavam a verdade – do que qualquer dos seus antecessores. O seu vice-presidente, Joe Biden, um ardente belicista, chamou o editor da WikiLeaks, Julian Assange, de “terrorista hi-tech”. Biden também se converteu à causa do casamento gay.

BRADLEY MANNING

Um dos verdadeiros heróis da América é o soldado gay Bradley Manning, o denunciante que alegadamente proporcionou à WikiLeaks gigantesca quantidade de provas da carnificina americana no Iraque e no Afeganistão. Foi a administração Obama que caluniou a sua homossexualidade como anormal e foi o próprio Obama quem declarou como culpado um homem não condenado por qualquer crime.

Quem entre os bajuladores e atores na festa do dinheiro de Clooney, em Hollywood, gritou: “Recordem Bradley Manning”? Que eu saiba, nenhum eminente porta-voz dos direitos dos gay manifestou-se contra a hipocrisia de Obama e Biden que afirmam apoiar o casamento do mesmo sexo enquanto aterrorizam um homem gay cuja coragem deveria ser uma inspiração para todos, pouco importando as preferências sexuais.

O feito histórico de Obama como presidente dos Estados Unidos foi silenciar o movimento anti-guerra por justiça social associado ao Partido Democrata. Tal deferência para com um extremismo oculto e corporificado num astuto operador amoral trai a rica tradição de protesto popular nos EUA. Talvez o movimento Occupy siga, como dizem, esta tradição, talvez não.

A verdade é que aquilo que importa para os que aspiram controlar nossas vidas não é o pigmento da pelo ou o gênero, ou se somos gays ou não, mas a classe a que servimos. Os objetivos são assegurar que olhemos para dentro de nós mesmos, não para fora, os outros, e que colaboremos no isolamento daqueles que resistem. Este desgaste de criminalizar, brutalizar e banir o protesto também pode facilmente transformar as democracias ocidentais em estados de terror.

Nakba Day (Dia  d'A Catástrofe)

Dia 12 de Maio, em Sydney, Austrália, terra da Terça-feira Gorda de Carnaval dos Gay e Lésbicas, um desfile de protesto em apoio do casamento gay encheu o centro da cidade. A polícia olhou-o benevolentemente. Era uma vitrina de liberalismo. Três dias depois, houve uma marcha para assinalar a Nakba (“A Catástrofe”), o dia de luto em que Israel expulsou palestinos da sua terra. Mas uma proibição policial tinha de ser anulada pelo Tribunal Supremo. . 

Esta é a razão porque o povo da Grécia deve ser a nossa inspiração. Pela sua própria experiência penosa eles sabem que a sua liberdade só pode ser recuperada enfrentando, o Banco Central alemão, o Fundo Monetário Internacional e os seus próprios quislings em Atenas. Povos por toda a América Latina alcançaram isto: os indignados da Bolívia que despediram os privatizadores da água e os argentinos que disseram ao FMI o que fazer com a sua dívida. A coragem de desobedecer foi a sua arma.

Recordem Bradley Manning.

16/Maio/2012

O artigo original, em inglês, encontra-se em: “Never forget that Bradley Manning, not gay marriage, is the issue”
Esta tradução foi extraída de: Resistir
Imagens extraídas da internet pela redecastorphoto

sexta-feira, 20 de maio de 2011

10 horas nas mãos da ocupação israelense

17/05/2011 | ICArabe –Relato de Soraya Misleh

Mensagem vinda de um grupo de quatro brasileiros revela o totalitarismo utilizado pelo Estado de Israel para impedir que palestinos e descendentes retornem à sua terra de origem.

Soraya Misleh, Hasan Zarif, Muhamad Kadri e Ibrahim Hammoud sairam do Brasil dia 14 de maio para visitar seus familiares e aproveitaram para “apoiar as manifestações pacificas para lembrar o dia da nakba palestina e exigir o direito inalienável de retorno do povo palestino”, como explicam na mensagem.

No dia 15, dia da Nakba, já estavam entre os refugiados palestinos na Jordânia e acompanharam os protestos e fizeram parte de uma grande cerco às fronteiras palestinas, ocupadas por Israel, e que foi reprimido com violência.

Um jovem da Jordânia foi morto, causando revolta na população e nos campos de refugiados, e a expectativa é de que as manifestações prossigam nas fronteiras. Mais de dez manifestantes foram mortos no Líbano, nas mesmas celebrações da Nakba - que significa a catástrofe da expulsão do povo palestino promovida em 15 de maio de 1948 para dar lugar ao Estado de Israel.

Detenção na fronteira

Nesta segunda-feira, o grupo brasileiro tentou entrar na Palestina, mas foi barrado pelas forças da ocupação.

“Ficamos sete horas sendo intimidados, isolados uns dos outros, ameaçados, sofremos tortura psicológica nos interrogatórios, privação, revistas no corpo e bagagens. Fomos tratados como verdadeiros criminosos”, informam em sua mensagem.

Soraya Misleh, diretora de imprensa do ICArabe, jornalista da Ciranda e integrante do movimento, relata que os brasileiros ficaram horrorizados com a intolerância diante de manifestações pacíficas e o total desrespeito aos direitos das pessoas detidas. “Estou abalada e muito indignada”, ela relata. “Nos intimidaram de todas as formas, durante horas seguidas”.

O grupo diz ter sentido na pele que “a criminalização dos movimentos sociais que tanto combatemos é uma prática comum por parte do Estado sionista” e que “,vários brasileiros e brasileiras descendentes de árabes ou ativistas já passaram por essa situação inaceitável”.

Go back to Jordan!

Os quatro brasileiros portarão agora um passaporte carimbado com a “entrada negada” ao Estado de Israel, o que na prática os impedirá de visitar parentes, amigos ou de participar de missões solidárias ao povo palestino. Além de causar-lhes outros constrangimentos em viagens internacionais, necessárias quando se trata de apoiar as causas de um povo expulso de seu próprio país.

Soraya já esteve antes na Palestina, participando de atividades do Fórum Mundial de Educação, fazendo cobertura jornalística para a imprensa alternativa brasileira e do universo do Fórum Social Mundial. Os passaportes carimbados foram devolvidos sem qualquer explicação. Segundo o grupo, tudo que ouviram foi: “Go back to Jordan!”.

“Nos levaram até a saída e nos colocaram num ônibus em que ficamos quase duas horas junto a um senhor de origem árabe, também banido”. Durante esse tempo, não tiveram autorização para sair do local, novamente sem justificativa. “Ao todo, passamos quase dez horas sem comer e sem beber - tomamos um copo de água e duas bolachas após insistirmos muito e pressionarmos”.

Considerando que não é um caso isolado, já que “há diversos relatos de discriminação, sobretudo contra ativistas e cidadãos e cidadãs de origem árabe” e que os israelenses “jamais seriam tratados assim no Brasil”, o grupo quer providências do governo brasileiro e pede ao movimento social que pressione por medidas para que “nenhum brasileiro passe novamente por isso”.

Nesta terça-feira, o grupo irá à embaixada brasileira de Amã denunciar os maus-tratos e abusos de que foram vítimas, exigindo do governo providências após a atitude arbitrária de Israel contra cidadãos brasileiros tratados como criminosos.

Fonte: Ciranda Internacional da Informação Compartilhada
Enviado por ICARABE