domingo, 17 de julho de 2011
Sacralização da política, profanação da religião
sábado, 24 de julho de 2010
Sobre livros e leitores
“Eu amo (…) a humanidade, mas admiro-me de mim mesmo. Tanto mais amo a humanidade em geral, quanto menos amo as pessoas em particular, como indivíduos”. DOSTOIÉVSKI [2]
“Chegamos a tal ponto que a “vida viva” autêntica é considerada por nós quase um trabalho, um emprego, e todos concordamos no íntimo que seguir os livros é melhor”. DOSTOIÉVSKI [3]
“Esses monges talvez leiam demais, e quando estão excitados revivem as visões que tiveram nos livros”. ECO [4]
Há livros que são perigosos. Os ditadores e censores de todos os tipos que o digam. Não obstante, talvez o perigo maior esteja em transformá-los em objetos de culto, em suspender a dúvida e acatá-los como a verdade a ser proclamada. O tratamento religioso dos livros não se restringe àqueles que fundamentam as religiões, os quais são assumidos como a doutrina inquestionável, a verdade revelada; há autores profanos transformados em profetas e seus livros religiosamente cultuados como a última verdade proferida. E ai dos hereges que duvidarem da palavra profetizada e interpretada pelos especialistas, os seus guardiões.
É perigoso tomar os livros como se fosse a realidade. Se na ficção há lugar para personagens como D. Quixote, é triste o quixotismo moderno dos que vivem com os pés no chão e a cabeça nas nuvens e se mostram sempre ciosos de abstrair e restringir a conceitos a realidade dos homens concretos, de carne e osso, com suas qualidades e imperfeições. Estes são transformados em abstrações e/ou dilemas a serem superados pelo debate teórico. Quando só se consegue experienciar a realidade pela ótica dos livros, seus personagens fictícios adquirem vida própria e os modelos conceituais existentes em nossas cabeças passam a delimitar os personagens reais que caminham sobre o mundo.
Os que idolatram os livros não vêem a riqueza que há na simplicidade das relações humanas cotidianas concretas. O livro também induz à perdição, isto é, à perda do sentido do real. O apego exagerado aos livros é uma espécie de doença que potencializa a vaidade dos candidatos a gênios, os quais, cada vez mais, se isolam do mundo dos simples mortais. Os que se encontram no Olimpo, ocupados com a imortalidade, têm dificuldades de se reconhecer nos comuns, cujos pés e cabeça teimam em se firmar na terra.
Os que preferem os livros à companhia humana, ou que só conseguem dialogar com aqueles que se identificam com suas leituras, falam de amizade como se esta tivesse seu fundamento nas teorias, conceitos e ficções literárias. Eles são capazes de debater por horas sobre o significado da amizade, desde os clássicos da antiguidade, mas são incapazes de suportar o amigo de carne e osso se este o trás de volta à terra e lhe fala em linguagem espontânea e vulgar. Parece que se protegem contra os choques que as relações pessoais reais inevitavelmente causam. Uma coisa é discutir a dialética dos livros, outra é assumir as contradições inerentes ao humano.
Existe a necessidade das ilusões e os livros são um convite à imaginação. O ser humano é capaz de amar a humanidade em geral e até mesmo de se declarar disposto a morrer por esta, mas é profundamente incapaz de suportar o indivíduo concreto e específico. O próximo torna-se o distante, o conceito, a abstração. Há a dificuldade de assumir a realidade para si e nas relações com os demais. Precisa refugiar-se na imaginação e no devaneio da ficção.
Ler é importante, mas o fundamental ainda é tentar viver a vida plenamente.
[1]KAZANTZAKIS, Nikos. Zorba, o Grego. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1978, p. 97.
[2]DOSTOIÉVSKI, F. Os Irmãos Karamazov. São Paulo: Abril Cultural, 1970, p.48.
[3]DOSTOIÉVSKI, F. Memórias do subsolo e outros escritos. São Paulo: Editora Paulicéia, 1992, p. 185.
[4]ECO, Umberto. O Nome da Rosa. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de S. Paulo, 2003, p.117.
domingo, 13 de junho de 2010
10 de junho de 1940

Posted on 12/06/2010 by Antonio Ozaí da Silva
Em 10 de junho de 1940, a Itália do fascista Benito Mussolini declara guerra à França e à Inglaterra; Paul Reynaud, primeiro-ministro francês, faz um apelo dramático de ajuda ao Presidente dos EUA, Franklin D. Roosevelt, o que indica o abandono da política de neutralidade; com a França ocupada pelas tropas alemães, a Assembléia Nacional Francesa decreta o fim da Terceira República Francesa e, no dia seguinte, instaura o governo de Vichy, com Philippe Pétain como chefe de Estado. Em 10 de junho de 1940, a Europa sangrava diante da guerra. No Brasil, estávamos em pleno Estado Novo, governo de Getúlio Vargas.
Em 10 de junho de 1940, num pequeno povoado chamado Fundão, município de Monteiro, no semi-árido paraibano, nascia Margarida da Silva. Filha de João André da Silva e Genezia Maria da Conceição, não nasceu em hospital, mas com a ajuda de uma parteira. Como se diz no nordeste, ela vingou, sobreviveu às circunstâncias e condições sociais e econômicas próprias do povo simples e pobre que habita os rincões deste país.
Em 1963, casada com Julio Elias Silva e com seu primeiro filho com cerca de 8 meses de idade, ela mudou-se para Poção, no agreste pernambucano, limítrofe de São João do Tigre (PB) – município recém criado, ao qual passou a pertencer o povoado de Santa Maria (Fundão). Foi em Poção que nasceu o segundo filho e, em 1971, a filha. Com o esposo ausente, sempre em viagens ao sul e sudeste, coube a ela ser a chefe de família e trabalhar para alimentar a prole. A casa em que morou nesta cidade foi comprada com a venda de um cavalo e a peça de Renascença que fez. A Renascença é uma renda de origem européia, produzida artesanalmente e comercializada no Brasil e exportada para o exterior. Foi com a renda renascença que Margarida da Silva sustentou a família.
Em 1972, ela vendeu a casinha comprada com tanto esforço e mudou-se para Paulo Afonso (BA). Seu marido trabalhava na CHESF (Companhia Hidroelétrica do São Francisco). A nova moradia não trouxe alegrias. Seus filhos só não passavam fome porque ela se dedicava ao trabalho com a Renascença. Sem poder contar com o marido que, viciado em baralho, perdia o salário nas mesas de jogo, e cansada dos maus tratos, ela decidiu deixá-lo. Em agosto de 1974, ela, corajosamente, viajou com os três filhos para a cidade de São Paulo, onde moravam seus pais e irmãos.
A vida em São Paulo não foi fácil. Decidida a criar os filhos sozinha, sofreu o preconceito por ser mulher sem marido. Inicialmente, a família recebeu-a bem, mas logo começaram os conflitos. Na prática, ela viu-se, como sempre, só. Batalhadora e trabalhadora, arrumou um emprego no Frigorífico Swift, em Santo André, ABC paulista. Deixou sua saúde neste trabalho. Por necessidade, trabalhava à noite e se culpava por deixar os filhos sós. Tinha saído do quintal do irmão, onde morava com os pais e mais três irmãos em dois cômodos (à noite, os filhos iam dormir nas casas dos tios que moravam nas proximidades). Cansada dessa vida, foi morar num barraco, num cortiço, que mal cabia uma mesa, fogão e cama de solteiro. Depois, mudou para um barraco maior no mesmo local. Seu sonho era morar numa casa de alvenaria, o que realizou meses depois.
Margarida da Silva dedicou a vida aos filhos, viveu por e para eles. Se os filhos lograram sobreviver e conquistar algo na vida, devem à persistência e ao amor dela. O sofrimento não foi em vão, ela deve orgulhar-se e considerar-se vitoriosa. Alfabetizada por esforço próprio, ela tem a sabedoria que os títulos acadêmicos não concedem. Legou valores e ensinamentos morais. Seu exemplo de vida orgulha filhos e netos. São suas raízes.
Em 10 de junho de 2010, Margarida da Silva completou 70 anos. Parabéns e muito obrigado por tudo!



