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segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A “Jihad” de Edward Snowden

10/6/2013, [*] Mark LeVine, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Assumamos, para argumentar, que o sentinela-apitador [orig. whistleblower ] da Agência de Segurança Nacional dos EUA Edward Snowden é o personagem que criou para ele mesmo: não mero patriota, mas um humanista, que se fartou de viver preso nas armadilhas de uma vida de sucessos, e decidiu que “a federação das leis secretas, julgamentos sem igualdade de direitos e poderes executivos absolutos que governam o mundo que eu amo têm de vir à luz, nem que seja só por um momento”.

Snowden, 29 anos, que vazou para o jornal The Guardian informações cruciais sobre o governo de vigilância clandestina que os EUA impõem ao mundo, mediante programas como PRISM e o “Informante Sem Limites”, acerta, com certeza, ao lançar luz sob o perigo que são as políticas de vigilância impostas ao mundo pelo governo Obama e a “guerra global ao terror” à qual servem aquelas políticas, e perigo não só para a democracia norte-americana mas, igualmente, para “o mundo inteiro”.

Os EUA engajaram-se numa jihad de proporções globais, não apenas nos dez últimos anos, mas, de fato, há mais de um século. Como em todos os impérios, no islâmico também, a jihad dos EUA começou pequena, mas rapidamente se expandiu, a partir do momento em que as condições políticas e econômicas que habitavam no coração do projeto e nas periferias afinal entraram no alinhamento adequado.

Josiah Strong
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Como se viu em outros impérios, os jihadistas norte-americanos buscaram suas raízes nas ideologias mais agressivas, que justificaram a disseminação, apresentada simultaneamente como inevitável e boa, enquanto – e não surpreende que assim tenha sido – apresentavam as oposições como irracionais, más e condenadas justamente a serem suprimidas pelos meios necessários. Como disse no século 19 o pregador protestante e arqui-imperialista Josiah Strong,  o emergente império norte-americano era destinado por Deus a governar a Terra, e o resto do mundo que se preparasse para pronta e submissa assimilação, ou seria “extinto”. Pelo menos na retórica, os grandes conquistadores islâmicos sempre tenderam a ser, no mínimo, mais generosos que isso.

Claro que os líderes norte-americanos sempre cuidaram de declarar a melhor das intenções, enquanto iam ocupando novos territórios, entrepostos ou esferas de influência, mesmo que a coluna de cadáveres de colonizados só aumentasse, já alcançando a casa dos muitos milhões, resultado da avançada para expandir, manter e defender o império norte-americano. As linhas entre jihad de defesa e jihad de ataque – e os EUA, como muitos países antes deles, desde sempre defenderam suas guerras como guerras de defesa, sancionadas por Deus e justas “em si” – foram sempre convenientemente confundidas. “Converter infiéis” – pela espada ou pelo napalm, sempre foi ação inseparável de proteger as fronteiras do império.

Para garantir que o povo norte-americano visse as aventuras externas de seus governos sob a luz adequada, era normal que o inimigo fosse definido como o contrário de tudo que os EUA defendiam, e como ameaça mortal ao modo de vida e, até, à existência dos EUA.

E é também verdade que, assim como no apogeu dos grandes impérios muçulmanos, e nos dias do pós-guerra e auge do poder dos EUA, a vida, sob o guarda-chuva imperial, quase sempre se comprovou muito melhor que as alternativas – pelo menos para os aliados íntimos e para os que viviam em semi (e, portanto, ainda não absolutamente exploráveis) periferias.

A ascensão do neoliberalismo

Mas essa dinâmica mudou, com a emergência do capitalismo neoliberal como forma dominante da organização econômica, política e até cultural nos anos 1970s – não só no chamado “terceiro” mundo, mas também nos países centrais do “ocidente”. O neoliberalismo criou uma dinâmica de neocolonização dentro dos EUA e de outros países “maduros”, tanto quanto no mundo em desenvolvimento, com o capitalismo – mais uma vez! – tornando-se tão predatório dentro das fronteiras norte-americanas, quanto longe delas. Cá e lá se assistiu a um crescimento econômico feito pela concentração sempre maior do poder das corporações e à custa de continuado crescimento da pobreza e da desigualdade.

As empresas titãs, que já dominavam a economia dos EUA e sua respectiva cultura obcecada por celebridades – “gênios” da tecnologia e czares do complexo industrial-militar – são, como se deveria esperar que fossem e não surpreende que sejam, precisamente as mesmas empresas que vivem hoje amancebadas no mesmo leito com os programas que Snowden revelou ao mundo.

Panopticon - tal como foi concebido no século XVIII por Jeremy Bentham
O desejo dos EUA de estabelecer a dominação de pleno espectrosobre todos os negócios do mundo, imediatamente depois do colapso do bloco soviético, militarizou-se definitivamente depois do 11/9/2001. A “Guerra ao Terror” – a jihad essencialmente ofensiva e automaticamente “justificada” – ofereceu a justificativa básica para a ânsia de acumular cada vez mais poder, poder “panopticônico”, como Snowden o descreveu, recolhendo a análise que Michel Foucault desenvolvera, de uma máquina radical de controle político criada por Jeremy Bentham no final do século XVIII.

Michel Foucault
Essa aparente dominação, ou, no mínimo, a ideia dessa dominação, converteu-se em componente núcleo de todo o aparato de inteligência dos EUA, produzindo visível maioria de relatórios de inteligência, que viria a alimentar o processo diário de tomada de decisões políticas ao longo dos anos, a partir da constituição e utilização dos programas que Snowden revelou.

É nesse ponto que a ideia de jihad torna-se relevante para a história de Snowden. Assim como todas as doutrinas da guerra são usadas e abusadas por seus expoentes, assim também a jihad foi usada e abusada por muçulmanos desde sempre, desde que existe o conceito. Mas, ainda assim, o conceito é altamente relevante na situação na qual, num certo momento, gente como Snowden, Bradley Manning e outros “sentinelas-apitadores” de consciência [orig. whistleblowers] descobrem-se enredados.

O conceito de jihad tem raízes – tanto gramaticais quanto teológicas – no conceito de luta e empenho pessoal e comunitário pelo aprimoramento.

É verdade que, no período clássico do Islã, essa conotação estava ampla e diretamente associada à guerra, e incontáveis intelectuais islamistas, ao longo das eras, tenderam a desqualificar a interpretação segundo a qual o Profeta Maomé estabelecia diferenças entre uma jihad menor (violenta) e uma jihad maior (espiritual/pessoal). Mesmo assim, na era moderna, a noção de jihad “da língua” ou “da pena”, assim como a ideia de jihad como jornada pessoal e comunitária para o aperfeiçoamento, tornou-se cada vez mais importante em várias linhas do discurso político muçulmano. Essa interpretação chegou até a ser usada para justificar e explicar os levantes árabes, como brotaram, inicialmente – em modalidades relativamente não violentas – na Tunísia e no Egito.

A explicação de Snowden para suas ações deixam entrever alguém que perdeu toda a fé no sistema para sanar injustiças mediante meios democráticos, legislativos, normais. Como disse em entrevista ao The Guardian, ele esperou durante anos que os líderes políticos dessem atenção à tendência potencialmente fatal de esterilizarem-se todas as principais liberdades constitucionais. Até que, afinal, se deu conta de que:  

(...) não se pode viver à espera de que outros ajam. Eu esperei que os políticos agissem. Mas acabei por perceber que liderança só tem a ver com ser o primeiro a fazer alguma coisa.

BradleyManning                                                             Edward Snowden
Como Bradley Manning, talvez com mais sofisticação, Snowden percebeu que o único modo de existir num estado dedicado a assaltar todas as liberdades civis dos cidadãos teria de ser, bem literalmente, declarar sua pessoal jihad contra aquele estado.

Uso aqui o termo jihad, em vez de guerra, porque Snowden, claramente, não declarou guerra alguma; não está usando nenhum tipo de violência contra o estado norte-americano. De fato, é exatamente o oposto disso.

Mas Snowden retirou-se, afastou-se completamente, do campo da ordem e do poder do estado ao qual, literalmente, ele jurara fidelidade; pôs-se fora do alcance das leis daquele estado, e, essencialmente, declarou jihad moral, política e ideológica contra todas as mais importantes políticas daquele estado. Nesse sentido, há muito de traição em suas ações – mas só trai um sistema que, ele próprio, e essencialmente, já traiu os cidadãos e já declarou guerra contra todos os mais altos ideais, sem os quais já não há Estados Unidos da América.

Que Snowden tenha declarado sua  jihad pela pena e pela língua, não pela proverbial espada, combina muito bem com uma interpretação moderna/progressista de jihad, e o põe, com honra, no campo da vanguarda da Primavera Árabe – de todos que se recusaram a participar de um sistema que, afinal, perceberam como irremediavelmente fracassado. Como o próprio Snowden disse:

O governo atribui-se um poder que não tem direito de exercer. Não há supervisão pública. O resultado disso é que gente como eu tem espaço para ir muito além do que lhe é permitido ir.

É claro que o governo Obama dirá que Snowden não tem o direito de se autoatribuir esse tipo de poder. Só líderes eleitos teriam esse poder, em sociedade democrática. E, como todos, do diretor da Segurança Nacional aos deputados e senadores das comissões de Inteligência já estão argumentando, por menos que gostemos das tais políticas, todas elas foram legitimamente votadas e aprovadas pelos legítimos representantes do povo dos EUA.

Jim Sensenbrenner
Talvez até seja verdade, embora, como Jim Sensenbrenner, congressista e principal autor da Lei Antiespionagem [orig. Patriot Act] (documento que dá base legal para toda a vigilância clandestina que Snowden revelou) argumenta, o que está sendo feito, de fato, implica abuso da lei  e está sendo feito sem consulta à maioria dos representantes do povo no Congresso. Mas o que Snowden e Manning afinal perceberam é que o sistema está tão grave e perigosamente fraturado que teriam de se autossacrificar, eles mesmos, se preciso fosse, para fazer parar o crime repetido. Porque não poderiam continuar a viver, eles com eles mesmos, se não agissem como agiram.

Alguns poucos homens valentes

É altamente instrutivo que a coragem de uns poucos homens valentes como Bradley Manning e Edward Snowden tenha causado maior dano à hegemonia do poderoso e sempre bem entrincheirado aparato de guerra dos EUA, que até hoje ninguém conseguiu ameaçar tão gravemente quanto eles, que legiões de soldados da al-Qaeda, inspirados por ela, ou de terroristas treinados. A verdade é que Snowden não se deixou intoxicar pelo gigantesco poder que tinha ao alcance dos dedos. Em vez disso, cuidou de selar a fonte – e essa é ação de altíssimo potencial revolucionário, a ser aprendida por outros que queiram seguir seu chamado. Snowden é jihadista autêntico, grande homem de jihad profunda.

Se dois trabalhadores relativamente inferiores na hierarquia da inteligência, como Manning e Snowden, têm acesso a informação tão crucial para tantas das políticas do governo de seu país, e às mentiras e meias verdades sobre as quais aquelas políticas baseiam-se, imagine-se o que podem fazer 20 ou 200 Snowdens, 20 ou 200 Mannings. Podem, sim, arrancar milhões de norte-americanos dos seus sofás e pô-los nas ruas, a exigir o tipo de reforma política para a qual, até hoje, nenhum político foi realmente empurrado, queira ou não queira reformas.

Ninguém é obrigado interpretar como jihad a luta de Snowden, mas, depois de mais de uma década de desastrada e sangrenta “guerra ao terror” contra o mundo muçulmano, jihad é uma bela palavra para definir esse tipo de decisão político-pessoal vital.

Escolha-se, para definir, qualquer outra palavra, e nada muda: esses dois homens mostraram ao governo, à inteligência norte-americana, às burocracias militar e empresarial em todo o mundo que, sim, eles também têm voz e têm escolhas. Que absolutamente não estão condenados a viver como parafusos de uma máquina de opressão. Que obedecer a governo opressor não é a única escolha que resta a ninguém – por mais alto que seja o preço a pagar.

Resta-nos esperar que mais alguns bravos, pelo menos, se inspirem na ação de Manning e Snowden, esses dois pioneiros.




[*] Mark LeVine é professor de história do Oriente Médio na Universidade da Califórnia-Irvine e professor visitante ilustre no Centro de Estudos do Oriente Médio na Universidade de Lund, na Suécia e autor do livro sobre as revoluções no mundo árabe: The Five Year Old Who Toppled a Pharaoh

sexta-feira, 28 de junho de 2013

GUERRA É PAZ. LIBERDADE É ESCRAVIDÃO. IGNORÂNCIA É FORÇA

Leia abaixo, um pedacinho e aqui inteirinho e grátis, em português.
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu

Comentário do Brigaboa na redecastorphoto após ler o livro 1984 inteiro: “Qualquer semelhança com o programa PRISM da NSA - Agencia Nacional de Segurança dos EUA, revelado por Edward Snowden, NÃO é mera coincidência”.


George Orwell
Constava que o Ministério da Verdade continha três mil aposentos acima do nível do solo, e correspondentes ramificações no subsolo. Espalhados por Londres havia outros três edifícios de aspecto e tamanho semelhantes. Dominavam de tal maneira a arquitetura circunjacente que do telhado da Mansão Vitória era possível avistar os quatro ao mesmo tempo.

Eram as sedes dos quatro Ministérios que entre si dividiam todas as funções do governo: o Ministério da Verdade, que se ocupava das notícias, diversões, instrução e belas artes; o Ministério da Paz, que se ocupava da guerra; o Ministério do Amor, que mantinha a lei e a ordem; e o Ministério da Fartura, que acudia às atividades econômicas. Seus nomes, em Novilíngua: Miniver, Minipaz, Miniamo e Minifarto. 

O Ministério do Amor era realmente atemorizante. Não tinha janela alguma. Winston nunca estivera lá, nem a menos de um quilômetro daquele edifício. Era um prédio impossível de entrar, exceto em missão oficial, e assim mesmo atravessando um labirinto de rolos de arame farpado, portas de aço e ninhos de metralhadoras. Até as ruas que conduziam às suas barreiras externas eram percorridas por guardas de cara de gorila e fardas negras, armados de porretes articulados. Winston voltou-se abruptamente.


Afivelara no rosto a expressão de tranquilo otimismo que era aconselhável usar quando de frente para a teletela. Atravessou o cômodo e entrou na cozinha minúscula. Saindo do Ministério àquela hora, sacrificara o almoço na cantina, e sabia que não havia na casa mais alimento que uma côdea de pão escuro, que seria a sua refeição matinal, no dia seguinte. Tirou da prateleira uma garrafa de líquido incolor com um rótulo branco em que se lia GIN VITÓRIA. Tinha cheiro enjoado, oleoso, como de vinho de arroz chinês. Winston serviu-se de quase uma xícara de gin, contraiu-se para o choque e engoliu de vez, como uma dose de remédio. Instantaneamente, ficou com o rosto rubro, e os olhos começaram a lacrimejar. A bebida sabia a ácido nítrico, e ao bebê-la tinha-se a impressão exata de ter levado na nuca uma pancada com um tubo de borracha. No momento seguinte, porém, a queimação na barriga amainou e o mundo lhe pareceu mais ameno.

Tirou um cigarro do maço de CIGARROS VITÓRIA e imprudentemente segurou-o na vertical, com o quê todo o fumo caiu ao chão. Puxou outro cigarro, com mais cuidado. Voltou à sala de estar e sentou-se a uma pequena mesa à esquerda da teletela. Da gaveta da mesa tirou uma caneta, um tinteiro, e um livro em branco, de lombada vermelha e capa de cartolina mármore. Por um motivo qualquer, a teletela da sala fôra colocada em posição fora do comum.

Em vez de ser colocada, como era normal, na parede do fundo, donde poderia dominar todo o aposento, fôra posta na parede mais longa, diante da janela. A um dos seus lados ficava a pequena reentrância onde Winston estava agora sentado, e que, na construção do edifício fôra, provavelmente, destinada a uma estante de livros. Sentando-se nessa alcova e mantendo-se junto à parede, Winston conseguia ficar fora do alcance da teletela, pelo menos no que respeitava à vista. Naturalmente, podia ser ouvido mas, contanto que permanecesse naquela posição, não podia ser visto. Em parte, fora a extraordinária topografia do cômodo que lhe sugerira o que agora se dispunha a fazer. Mas fora-lhe também sugerido pelo caderno que acabara de tirar da gaveta. Era um livro lindo. O papel macio, cor de creme, ligeiramente amarelado pelo tempo, era de um tipo que não se fabricava havia pelo menos quarenta anos. Era de ver, entretanto, que devia ser muito mais antigo. Vira-o na vitrina de um triste bricabraque num bairro pobre da cidade (não se lembrava direito do bairro) e fora acometido imediatamente do invencível desejo de possuí-lo.


Os membros do Partido não deviam entrar em lojas comuns (“transacionar no mercado livre”, dizia-se), mas o regulamento não era estritamente obedecido, porque havia várias coisas, como cordões de sapatos e giletes, impossíveis de conseguir de outra forma. Relanceara o olhar pela rua e depois entrara, comprando o caderno por dois dólares e cinquenta. Na ocasião, não tinha consciência de querê-lo para nenhum propósito definido. Levara-o para casa, às escondidas, na sua pasta.


Mesmo sendo em branco, o papel era propriedade comprometedora.

domingo, 16 de junho de 2013

Indústria da publicidade “online”: Sócia e cúmplice do PRISM, da Segurança Nacional dos EUA

14/6/2013, Violet Blue, Zero Day
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu: A Nêga Bu, nossa companheira de faxina, comprou uma calça colante roxo-fulgurante com lantejoulas, pela Internet. Agora, quando ela procura notícias sobre “Polícia do PSDB espanca manifestantes na Av. Paulista”, a primeira coisa que aparece no Google dela é... publicidade de lojas online que vendem calças com e sem lantejoulas! Todos os dias, toda hora, até em página de jornal do Hezbollah! “Malditos capitalistas! Eles espionam até as minhas lantejoulas! Tá provado: o capital nunca dorme” – concluiu nossa neguinha Bu, comunista.



Violet Blue
Um executivo da indústria da publicidade online, com 20 anos de experiência, diz que as estratégias de marketing da publicidade digital ensinam a recolher informações de usuários da internet para usá-los em publicidade dirigida. Isso, diz ele, explica por que o público norte-americano já aceita sem protestar o aparato de vigilância e os programas que recolhem dados de usuários da internet – especificamente o programa PRISM, da Agência de Segurança Nacional dos EUA.

O diretor de estratégias da Digital Net Agency, Skip Graham, acredita que a indústria da publicidade é cúmplice no processo de abrir caminho para que os norte-americanos aceitem programas como PRISM, uma vez que, há anos, a publicidade encarregou-se de “suavizar” o ponto de vista dos consumidores sobre questões de privacidade – “ensinando” o público a ser menos reservado na distribuição de informação pessoal online.

Essa semana, Graham escreveu à nossa rede ZDNet, por e-mail:

Skip Graham
O modo como a indústria da publicidade online opera parece não ter qualquer correlação com os esforços do governo dos EUA para espionar os cidadãos – mas... será que não há aí uma correlação forte? Quantos, dos dados que hoje estão sendo recolhidos pela Agência de Segurança Nacional dos EUA, não foram encontrados principalmente porque nós ensinamos aos consumidores que não haveria problema algum em recolhermos e armazenar aqueles dados, para nosso uso? Temo que, se alguém começar a pensar, descobrirá exatamente isso.

Domingo passado, depois que se divulgou o vídeo com a entrevista ao vivo de Edward Snowden, Graham escreveu, numa grande lista fechada da indústria de publicidade online, denunciando sua própria indústria como cúmplice do escândalo na espionagem da Agência de Segurança Nacional dos EUA, porque essa indústria “adestrou” os consumidores, ensinando-os a considerar segura, possível, inevitável, até benéfica e interessante, a coleta de dados pessoais sigilosos, por empresas privadas.

Não é segredo que a indústria da publicidade & marketing é mestre em técnicas de propaganda (e sabem que são). Graham responsabilizou diretamente seus pares da indústria da publicidade, declarando-os culpados do pior que poderia acontecer aos cidadãos norte-americanos e a todos os consumidores em todo o mundo:

Não acredito que a Agência de Segurança Nacional e o governo dos EUA se tenham posto tão descaradamente a fazer o que fazem, sem temer violar direitos constitucionais, literalmente por anos a fio, se, antes deles, as melhores cabeças do marketing não se tivessem encarregado de convencer os consumidores de que seria “natural” empresas privadas recolherem dados privados das pessoas, e que poderiam fazê-lo sem qualquer restrição.

Fomos os primeiros a dizer ao público consumidor que não havia por que se preocupar, que todos tivessem fé e confiassem cegamente. Nós esculpimos os argumentos, modelamos as opiniões, calamos os céticos.

Endereço grátis de e-mail – em troca de publicidade dirigida

A indústria da publicidade, Graham insiste, ao mesmo tempo ampliou os limites da aceitação pelo público consumidor; e engordou os arquivos de dados de consumidores fornecidos pelas empresas à Agência de Segurança Nacional.

Perguntado especificamente sobre como a admissibilidade da coleta de dados e informações privadas foi sendo “vendida” aos consumidores, tornando-os cada dia mais tolerantes, Graham explicou a evolução de uma bem-sucedida relação com os clientes, dependente de uma série de palavras-chaves, mediante as quais foi possível descobrir gostos, interesses e rejeições individuais dos clientes.

Daí, as coisas passaram ao nível seguinte, disse ele,

(...) com o advento do serviço de e-mails gratuitos da empresa Gmail. Quem solicitasse recebia um endereço gratuito, em troca de a empresa Google poder monitorar o conteúdo de sua correspondência, o que permitiu à empresa dirigir publicidade relevante para a interface de correio.

De início, a reação do público foi extremamente negativa, rejeitando a intrusão. Fui dos que apoiamos pessoalmente as atividades da empresa Google, e, isso, baseados numa simples premissa: é serviço gratuito, ninguém é obrigado a servir-se dele.

Além disso, entendi que o modelo de negócio da empresa Google visava a conseguir que os consumidores se sentissem confortáveis com o modo como a empresa usa os dados pessoais de cada um. Esse seria um forte incentivo para que a empresa se autorregulasse adequadamente. Mas a ideia de que “há alguém lendo seus e-mails” continuava a ser ideia absolutamente não americana.

Graham explicou que o desafio, então, passou a ser guiar os consumidores para que superassem quaisquer hesitações que restassem em relação à ideia de que empresas privadas, como a Google, estariam lendo as mensagens pessoais privadas de cada um. O consumidor tinha de sentir-se seguro, mesmo sob essas circunstâncias.

Para que as pessoas se sentissem confortáveis com essa ideia – disse ele – seria indispensável informar sobre como os dados, de fato, eram recolhidos e analisados.

Um novo exemplo da busca por meios pelos quais “selecionar” os dados de perfil dos usuários, usando palavras chaves – reforçando a ideia de que o usuário “consente” – é a nova implementação da #hashtag, pela empresa Facebook.

Publicidade como vigilância menos invasiva

Na 5ª-feira, Facebook anunciou que acrescentará a ferramenta #hashtag, a ser usada de modo semelhante ao que faz a empresa Twitter, como mecanismo para busca por palavras.

Matthew Linley
Mas o raciocínio que subjaz à nova ferramenta é bem mais complexo do que facilitar a conversação entre pessoas polidas. No artigo Facebook Hashtags Have More To Do With Ad Targeting Than Twitter[As hashtags de Facebook têm mais a ver com publicidade dirigida que as do Twitter], Matthew Linley, de Buzzfeed, explicou:

Na superfície, as hashtags ajudarão os usuários de Facebook a participar de”‘discussões públicas” (...). Mais importante que isso, as hashtags são instrumentos menos invasivos, para que os anunciantes sirvam-se da plataforma Facebook.

De fato: são meio menos invasivo; e ajudam muito a recolher dados dos usuários! No que isso tem a ver com o programa de coleta de dados PRISM, da Agência de Segurança Nacional – “interceptação legal” – de empresas como Google e Facebook, Graham disse à nossa rede ZDNet:

Acho também muito importante entender que tudo isso É violação dos direitos constitucionais de todos.

A única defesa que se sustenta, de que essas atividades da Agência de Segurança Nacional não sejam invasão ilegal de privacidade de todos os cidadãos dos EUA é que os “dados” assim coletados estão sendo armazenados, mas não estão sendo analisados e, portanto, nenhuma “privacidade” está sendo violada. Também é verdade que os dados estão sendo recolhidos mediante processo legal, aprovado por tribunais.

Mas o problema é que esses tribunais e todo o processo são secretos. Isso significa que tudo está sendo feito, de fato, à margem do processo democrático. Questão dessa importância deve ser discutida pelos cidadãos e regulada por lei, em processo judicial aberto, público. Como são feitas as coisas hoje, só burocratas decidem, usando ordens secretas do Executivo como única orientação. Isso tem de parar.

Steve Hall
No que Steve Hall (Adrants) descreveu como “momento crise de consciência”, Graham disse a colegas de todo o espectro da indústria da publicidade, que eles têm de repensar tudo:

Durante anos, como marketeiros da publicidade digital, criamos sistemas que reúnem quantidades astronômicas de dados pessoais, ao mesmo tempo em que dizíamos aos consumidores que eles nada tinham a temer do que nós fazíamos. Dissemos a eles que, apesar de, na essência, estarmos espionando tudo que eles faziam e tomando decisões calculadas para manipular as decisões dos consumidores baseados, nós, nas informações que reuníamos, sempre seria bom para eles e que eles continuavam a ter preservado seu anonimato e, portanto, a privacidade deles não estaria ameaçada.

E continuamos a repetir isso, embora qualquer mínimo esforço para analisar as coisas com perspectiva de futuro já bastasse para nos mostrar que a privacidade dos consumidores estava sendo, isso sim, mortalmente ameaçada.

Graham ainda acredita que sua indústria da publicidade fez da internet um lugar melhor para todos, mas fato é que o negócio de oferecer serviços de internet em troca de recolher informações pessoais dos usuários põe a indústria perigosamente muito próxima das práticas e atividades da Agência de Segurança Nacional dos EUA.

Graham disse à nossa rede ZDNet que:

Eu e muitos na nossa indústria acreditávamos que nosso processo de monitorar, preservando o anonimato, arquivar e revisar as atividades das pessoas exclusivamente por computadores havia produzido uma experiência em geral melhor para o consumidor e para a indústria. Ainda acredito nisso.

Mas, ao longo daquele processo, tivemos de repetidas vezes defender o que fazíamos, contra acusações de invasão de privacidade, por organizações e grupos de defesa dos direitos dos cidadãos.

Hoje, minha avaliação é que os nossos repetidos esforços para explicar como o processo de coleta e armazenamento de dados poderia ser feito sem violar a privacidade do consumidor levou a um efeito não desejado: criamos um ambiente no qual o consumidor foi várias vezes tranquilizado, por empresas privadas, fora do governo, de que a coleta de dados sobre ações e atividades pessoais poderia ser feita sem invasão indevida da privacidade.

Convencemos a opinião pública de que as pessoas estariam seguras, que bastaria a autorregulação, que nenhuma lei faria melhor. Hoje, a Agência de Segurança Nacional e o governo Obama estão usando precisamente o mesmo argumento.

Quando perguntei se a indústria da publicidade & marketing poderia corrigir o próprio curso, Graham mostrou-se otimista, mas não mudou o discurso:

Acho, primeiro, que a indústria terá de aceitar o fato de que teremos de fazer alguma forte distinção entre o que nós fazemos e o que o governo está tentando fazer.

É uma distinção que a maioria, no nosso espaço, não quererá fazer, porque não querem nem pensar em qualquer correlação entre esses dois campos. Passamos anos tentando fazer o consumidor aceitar que nos preocupávamos com ele, que não queríamos causar-lhe nenhum dano e que nossas atividades criariam um benefício.

A última coisa que alguém deseja é nos ver diretamente associados ao que, como muitos já vêm, pode ser a maior agressão, em toda a nossa geração, às nossas liberdades individuais.

Acho que é responsabilidade da indústria privada e das organizações que coletam dados sobre os indivíduos demarcar claramente uma diferença entre o que nós fazemos e o que o governo está fazendo. É o que estou fazendo aqui.

O lado obscuro da moderna tecnologia é uma “corrida armamentista” para ver quem coleta mais e melhores dados: os chamados registros de dados de “people finder”, a indústria de publicidade & marketing, os spammers, empresas privadas (como Google e Facebook) e o governo dos EUA, todos empenhados num mesmo frenesi para coletar a maior quantidade possível de dados pessoais e privados, da maior quantidade possível de pessoas – no limite da lei e, às vezes, bem além do que a lei permite fazer.

Até parece boa ideia dizer às pessoas que ninguém teria nada a reclamar de algo que lhe seja dado gratuitamente, e que qualquer consumidor pode simplesmente escolher não usar e-mail, Facebook, ou o buscador internet, se decidir não usá-los, se não quiser ter seus dados monitorados, armazenados, analisados e, potencialmente, usados contra ele mesmo ou contra outros, sem seu consentimento...

Mas a verdade é que esse argumento fica reduzido a zero, ante a realidade do dia a dia, por um lado; e, por outro, ante os tribunais secretos da Agência de Segurança Nacional.


Não há exemplo mais claro, para demonstrar que nem o mais esperto, o mais ilustrado, o mais bem informado dos consumidores tem sequer uma pálida ideia do que realmente está entregando, quando decide usar o que lhe seja oferecido por Apple, Skype, Facebook ou Google. E não faltam interessados em tirar a máxima vantagem de tudo que consigam arrancar de cada um de nós.  

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Programa de vigilância é um teste para as relações China-EUA

A China, afinal, se manifesta sobre o affair Edward Snowden

14/6/2013, China Daily, Chen Weihua (Washington) e Pu Zhendong (Pequim), China
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Comentário da redecastorphoto: Esta notícia (e todo o noticiário em inglês emitido pelos jornais e agências chineses) chama essa CIBERESPIONAGEM massiva e CANALHA praticada pelo governo dos EUA contra seus próprios cidadãos e contra os de outros países de “VIGILÂNCIA”... Eufemismo ridículo!

Manchete de jornal chinês sobre o escândalo de ESPIONAGEM dos EUA
Chen Weihua
O programa dos EUA de vigilância massiva revelado por um ex-funcionário de empresa que presta serviços terceirizados à Agência de Segurança Nacional (NSA), atualmente em Hong Kong, com certeza mancha a imagem de Washington no contexto internacional e testa as relações China-EUA, atualmente em construção – dizem analistas chineses.

Li Haidong, pesquisador da área de estudos norte-americanos na Universidade de Assuntos Internacionais da China, disse que os EUA meteram-se na incômoda posição de ter de dar explicações aos próprios norte-americanos e ao mundo, depois que se descobriu o vasto programa de escutas clandestinas pela Internet patrocinado por Washington.

Os EUA dedicaram-se durante meses a acusar a China de estar fazendo ciberespionagem. E, vai-se ver, a mais grave ameaça contra as liberdades individuais e a privacidade dos cidadãos nos vem dos EUA – do Estado e do governo dos EUA – que opera sem qualquer controle democrático, disse Li.

Zhang Tuosheng
Zhang Tuosheng, pesquisador da Fundação China para Estudos Estratégicos e Internacionais, disse que, apesar das controvérsias, vê-se que o campo da cibersegurança é, comprovadamente, um novo espaço para cooperação entre China e os EUA, sobretudo agora, depois da discussão em curso em todo o mundo sobre o estado de vigilância nos EUA.

Pequim e Washington, em vez de criticarem-se uma a outra e esconder os próprios problemas, devem trabalhar juntas para viabilizar uma série de bem-vindas regulações, disse Zhang.

Segundo a mídia norte-americana, a Agência de Segurança Nacional dos EUA e o FBI mantêm escutas clandestinas e sistema de captura de informações que extraem diretamente dos servidores centrais de nove grandes empresas norte-americanas de internet, dentre as quais Apple e Google, vídeochats, fotos, e-mails, documentos, logs de conexão e outras informações que permitem que os analistas rastreiem também alvos estrangeiros.

Snowden viajou do Havaí para Hong Kong dia 20 de maio, com uma massa de documentos secretos recolhidos dos servidores da Agência de Segurança Nacional, segundo informou o jornal britânico The Guardian.



Notícias sobre o programa de vigilância dos EUA dispararam acalorado debate sobre privacidade e liberdades civis nos EUA. Grupos que militam a favor das liberdades civis exigem que o governo Obama rompa o véu dos segredos que encobre seu governo.

Mas o governo dos EUA defendeu o programa, dizendo que seria necessário para manter o país livre de terroristas. Alto funcionário da inteligência dos EUA disse na 2ª-feira que não há planos para alterar o programa. Apesar das críticas que recebeu, o programa de vigilância total continua a receber apoio, embora cauteloso, do Congresso norte-americano.


Zhang disse que Washington deve desistir da prática de buscar “segurança absoluta” só para os norte-americanos, ao mesmo tempo em que, no processo, agride interesses e direitos de outras nações.

Muitos, fora dos EUA, manifestaram-se indignados ante o sigilo e a amplidão da operação de escutas clandestinas. A União Europeia exigiu garantias, na 3ª-feira, de que os direitos de países e cidadãos europeus não estão sendo nem serão agredidos pelos programas massivos de vigilância dos EUA.

Crescem também as preocupações com a segurança de Edward Snowden. Há notícias de que ele permanece em Hong Kong, fora do alcance de Washington, mas desde o final da 2ª-feira, quando deixou o hotel onde estava hospedado, não há notícias de seu paradeiro. Nos EUA, especula-se sobre a possibilidade de Snowden ser extraditado de Hong Kong para os EUA, nos termos de um tratado de extradição entre os dois países vigente desde 1998.

Nos EUA, um abaixo-assinado de cidadãos que pedem que a Casa Branca perdoe Snowden já recebera, até a 4ª-feira, 60 mil assinaturas. O abaixo-assinado diz:

Edward Snowden é herói nacional dos EUA e deve receber perdão completo, pleno e absoluto de qualquer crime que tenha cometido ou venha a cometer relacionado à divulgação de programas secretos de vigilância massiva em operação na Agência de Segurança Nacional dos EUA.

Apesar da incerteza sobre o paradeiro do “vazador”, apoiadores de Snowden em Hong Kong organizam manifestação de protesto, que acontecerá na tarde do próximo sábado, 15/6, em frente ao Consulado dos EUA na cidade.

Dmitry Peskov
Na 3ª-feira, a Rússia noticiou que está disposta a considerar um pedido de asilo, caso Snowden o requeira.

Se houver pedido de asilo, nós consideraremos a possibilidade. Agiremos conforme os fatos determinem – disse Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, a um jornal russo.

Para vários observadores, o modo de conduzir esse caso é um duro teste pelo qual terá de passar a boa-vontade que começa a aparecer entre Pequim e Washington, dado que Snowden está hoje em território chinês e a questão da cibersegurança é das mais sensíveis, nas relações China-EUA.

Se esse caso for satisfatoriamente encaminhado, o sucesso servirá como importante precedente entre os dois países, uma vez que não há leis internacionais que regulem as questões da segurança global na internet, disse Zhang.