Violência das forças armadas contra manifestantes no Egito
Será que a União Europeia morderá o tanto que está
ladrando? Se se lê o jornal egípcioAl-Ahram, está ali bem claro que o chefão egípcio, general Abdel
Fattah al-Sisi, já concluiu que a União Europeia não passará de atospro formaem que manifestará preocupação com o golpe e
a repressão; só isso e não irá além disso. Em resumo, a agência Itar-Tass entrevistou os sujeitos
errados, dos quais ouviu que países europeus decretarão (decretariam!) um embargo de
armascontra o Egito.
William Hague
Se
ainda sobreviver alguma dúvida, basta ver o que diz o Secretário britânico de
Relações Exteriores, William Hague, que pede que “não se façam falsas escolhas”
entre a junta militar no Cairo e a Fraternidade; e que todos observem que o
golpe militar no Egito foi “muito popular” entre o povo. Além do mais, Hague
exortou o ocidente a não perder de vista o “grande quadro” (querendo dizer que o
conflito às margens do Nilo pode durar décadas). Em outras palavras, foi como se
dissesse:
(...)
apertem os cintos e curtam a diversão.
Vocês estão assistindo à construção de um banho de sangue, com muçulmanosversusmuçulmanos, quer dizer... Não há problema
algum.
As palavras de Hague sugerem que a posição
anglo-saxônica já está definida e cristalizada. Disse coisas que nenhum
funcionário dos EUA ousaria dizer em público. Dito de outro modo: por mais que achanceler
alemã Angela Merkelse
mostre terrível e profundamente indignada ante os eventos dessa semana no Egito,
ela será minoria; e quando os ministros de Relações Exteriores da União Europeia
se reunirem no final dessa semana, Hague providenciará para que o governo de
Obama não se exceda, quero dizer: tratará de armar as coisas de modo que o
ocidente não precise abandonar “o lado certo da história”, mas, simultaneamente,
continue a enviar armas aos generais no Cairo.
François Hollande e Saud al-Faisal
A França, de início, pareceu partilhar a angústia da
Alemanha, mas depois que o ministro Faisal, de Relações Exteriores da Casa de
Saud, voou às pressas para
Paris no domingo (18/8/2013),já
ninguém duvida de que François Hollande recebeu súbita iluminação sobre os
eventos no Egito. Já se veem sinais de que a Arábia Saudita está empurrando o
Qatar, aos trancos, para longe dos corredores do poder em Paris. Não se sabe a
quantidade de dinheiro que a operação está custando ao rei Abdullah, mas
sabe-se que os franceses são gente de gostos caros, e os sauditas, sim, estão
gastando muito, muito dinheiro.
__________________________
[*]MK
Bhadrakumarfoi
diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União
Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão,
Uzbequistão e Turquia. É especialistaem
questões do Irã, Afeganistãoe
Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações,
dentre as quaisThe
Hindu,
Asia
Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho
de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de
Kerala.
Publicado
em 20/08/2013 por Mário Augusto Jakobskind*
Há
muita hipocrisia por parte do governo Barack Obama ao criticar o banho de sangue
provocado pelo Exército egípcio contra adeptos da Irmandade Muçulmana. O
Presidente estadunidense anunciou a suspensão de manobras conjuntas com
militares egípcios, mas não cortou a ajuda anual de 1,3 bilhão de dólares,
embora setores do establishment tenham sugerido a medida.
Cortar
a ajuda anual significa também prejuízo para o complexo industrial militar
estadunidense, uma vez que com o dinheiro recebido o Egito adquire no próprio
Estados Unidos seu material bélico. E, diga-se de passagem, uma cifra nada
desprezível. Por isso seria bastante incômodo para Obama cortar a
ajuda.
Mas
de qualquer forma, se a pressão for grande, Washington aciona a Arábia Saudita
e o Qatar de forma que os militares egípcios e o complexo industrial militar não
tenham prejuízo.
Para
quem não sabe, desde 1987, o investimento financeiro e militar norte-americano
ao aliado árabe totalizou $66 bilhões. Tem mais, todo ano mais de 500 oficiais
egípcios participam de algum curso militar em alguma academia
estadunidense.
O
comandante da Defesa Nacional egípcia, general Abdel Fattah al-Sisi (foto) se
formou na Academia de Guerra dos EUA, na Pensilvânia, o mesmo acontecendo com o
comandante da Força Aérea, Reda Mahmoud. Eles que comandaram o golpe que
derrubou o Presidente Mohamed Mursi.
São,
portanto, vínculos estreitos que não podem ser desconhecidos quando se tenta
entender os acontecimentos no Egito.
Imaginava-se
que a chamada Primavera Árabe, que acabou virando inverno glacial, conduzisse o
maior país árabe a novos tempos. Foi eleito o candidato da Irmandade Muçulmana,
Mohamed Mursi, que teve o sinal verde de Washington, mas acabou derrubado por um
golpe militar depois de intensas mobilizações populares que não aceitavam mais
as imposições do governo.
Em
vez de governar para todos, Mursi priorizou o seu grupo islâmico querendo impor
inclusive uma legislação que contrariava os fundamentos do estado laico. Ou
seja, não governou para todos, como deveria ser o seu papel, mas apenas para os
seus seguidores.
Com
a derrubada do Presidente eleito, seus partidários reagem diariamente e tiveram
de enfrentar as forças de segurança, que também sofreram
baixas.
Da
mesma forma que acertou um acordo com a Fraternidade Muçulmana, o governo
estadunidense seguiu mantendo proximidade com a cúpula militar, que em todos
estes anos não dava um passo adiante sem consultar
Washington.
Por
estas e muitas outras, não se exclui a possibilidade de o movimento de derrubada
de Mursi tenha tido o respaldo inicial do governo Barack Obama, que agora tenta
demonstrar à opinião pública o descontentamento com os últimos acontecimentos
sangrentos que já provocaram cerca de mil mortos.
O
Egito retorna ao contexto anterior das mobilizações populares que antecederam o
fim do ditador Hosni Mubarak. Agora, embora sem Mubarak, os mesmos segmentos que
sustentavam o preferido dos EUA voltaram a ter o comando absoluto do país. Ou
seja, o próprio Mubarak poderia até ser anistiado já que tudo voltou a ser o que
era com algum teatro de ilusões.
A
cúpula militar da qual faz parte o general Abdel Fattah al-Sisi prefere não
correr riscos, porque se o anistiasse poderia despertar rancor de amplos setores
da sociedade que imaginavam se ver livre tanto de Mubarak como da própria cúpúla
militar. Mas como ele acabou de ser absolvido de uma das acusações relacionadas
com corrupção, a partir de agora tudo é possível.
As
perspectivas imediatas de uma saída para a crise a cada dia ficam mais
distantes. Pelo menos a curto prazo não se vislumbra uma luz no fim do túnel. Os
primeiros ocupantes da Praça Tahir que se voltaram contra Mursi saíram de cena,
porque como libertários não aceitam compactuar com o banho de
sangue.
Perda
de controle no Rio-
Já por estas bandas, como se previa, continuam as manifestações populares, não
tão intensas em termos quantitativos, mas também
expressivas. Assista a seguir:
Na
área de segurança, as novas revelações sobre o desaparecimento do pedreiro
Amarildo revelam total descontrole policial. Depois de a opinião pública ser
informada, com exclusividade pela TV Globo, o que é também passível de
interpretações das mais variadas, foi reconstituído o trajeto de uma viatura da
PM que conduziu o pedreiro desparecido até a Unidade de Polícia Pacificador
(UPP) da Rocinha.
A
viatura deu voltas e voltas pela cidade e no retorno a Rocinha, segundo
informação oficial da PM, os militares condutores do veículo se perderam. Seria
cômica se não fosse trágica toda a história da viatura.
O
Rio de Janeiro está desgovernado e as perspectivas de solução da crise também
estão cada vez mais distantes. Se por aqui existisse uma legislação prevendo a
possibilidade de uma consulta popular para decidir se determinado ocupante de
cargo, seja executivo ou parlamentar, continuaria, nesta altura poderia haver
uma saída. Os eleitores decidiriam se Sergio Cabral continuaria ou não.
______________________
Mário
Augusto Jakobskind* é correspondente no
Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da
Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o
Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de
América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE. Enviado porDireto da Redação
Publicado
em 23/07/2013 por [*] Mário Augusto
Jakobskind
Mais
uma vez o Rio de Janeiro foi palco de violência provocada pela PM e por
infiltrados em manifestações populares que não têm nada a ver com os jovens
manifestantes propriamente ditos. Desta vez o cenário foi o bairro do Leblon,
nas imediações do prédio onde mora o Governador Sérgio
Cabral.
Como
tem acontecido rotineiramente nos recentes protestos, as televisões cobriram
dando ênfase aos atos de violência protagonizados pelos mesmos infiltrados de
sempre.
A
Rede Globo, presente com seus helicópteros, conseguiu uma exclusiva terrestre de
encapuzados quebrando bancos e saqueando lojas na maior desenvoltura. Para
completar o cenário, barricadas de fogo eram feitas complementando o cenário de
horror. Estranhamente, dando margem a especulações das mais diversas, a Polícia
Militar, que de um modo geral só reprime jovens verdadeiramente manifestantes,
nada fez para evitar a baderna. Se quisessem, até os P2, os agentes da
inteligência da PM, sempre presentes nas manifestações em trajes civis, poderiam
evitar o que aconteceu e teve uma repercussão muito
grande.
Os
meios de comunicação de mercado, no Rio de Janeiro leia-se Organizações Globo,
fizeram a festa em matéria de manipulação da informação. No dia seguinte, o
Comandante da PM, Coronel Enir Ribeiro da Costa Filho, sem a menor cerimônia
informou que estava suspenso um suposto pacto formalizado com a OAB-RJ e Anistia
Internacional para evitar a repetição da violência indiscriminada da corporação
nas manifestações. O militar na prática avisava que a partir de agora a PM
agiria a sua maneira, ou seja, com o uso de armas não letais etc. e
tal.
Os
fatos ocorridos e a postura das autoridades levantam suspeitas segundo as quais
os atos criminosos no bairro do Leblon teriam sido permitidos exatamente para
mostrar à opinião pública como é importante a repressão policial e também
silenciar os críticos sobre a truculência da corporação, que obedece apenas a
voz de comando.
Nesse
sentido, são absolutamente hipócritas as afirmações das autoridades de que
alguns soldados serão punidos por excessos. O comando, leia-se sempre Governador
Sérgio Cabral, Secretário de Segurança, José Mariano Beltrame e o comandante da
PM, Coronel Enir Ribeiro da Costa Filho ficam isentos de qualquer
responsabilidade.
Esse
fato remete ao que analisou a pensadora (ela preferia ser assim denominada do
que filosofa) Hannah Arendt quando cobriu o julgamento do criminoso nazista
Adolf Eichmann, em Jerusalém, para um jornal dos EUA, no início dos anos 60.
Segundo ela, burocratas do gênero do referido criminoso, pessoas comuns e
aplicadas não pensam, apenas obedecem ordens de comando.
O
mesmo raciocínio se aplica aos integrantes da PM carioca, ou seja, fizeram o que
fizeram, ou deixaram de fazer, nas ruas do Rio de Janeiro simplesmente porque
obedeciam a voz de comando.
Esta
é uma realidade que não se deve fugir, por mais que as autoridades digam o
contrário e até ordenem a criação de comissão para investigar os acontecimentos
e se chegar aos infiltrados. Não seria necessária a tal comissão, se os agentes
P2 que participam das manifestações a sua maneira, fizessem algo muito fácil:
localizar os infiltrados.
E
cá entre nós, toda vez que as autoridades querem passar por cima
de contestações e questionamentos, nada melhor do que criar uma comissão, cujos
resultados geralmente são nulos. E por que Sérgio Cabral, ainda mais Sérgio
Cabral, faria diferente?
O
Brasil, sem dúvida, atravessa um momento delicado, com fatos que merecem uma
melhor análise, inclusive a origem dos próprios infiltrados, que na prática
criam um clima de instabilidade. A oposição de direita notoriamente se assanha e
vê a oportunidade de práticas mais ostensivas e duras.
Por
estas e muitas outras, todo cuidado é pouco, porque em fatos históricos
passados, esses mesmos setores foram responsáveis por retrocessos políticos que
infelicitaram o país e nunca abandonaram a ideia de repetir, mesmo como farsa, o
que fizeram em outras oportunidades.
Falta
de comunicação –
O sistema de comunicação do governo Dilma Rousseff é nulo. Por que a Secretaria
de Comunicação não informa que estão sendo construídos 818 hospitais em todo o
país? É importante esta informação sobretudo neste momento em que multidões
estão nas ruas protestando, entre outras coisas contra a deterioração das
condições de atendimento nos hospitais públicos.
Quanto
aos médicos estrangeiros, vale uma observação: em anos passados estiveram no
Estado de Tocantins vários médicos cubanos, que conseguiram reduzir o índice de
mortalidade na região. Os médicos provavelmente não tinham equipamentos mais
sofisticados para o atendimento. Usavam os estetoscópios e assim
sucessivamente.
Por
que não perguntar aos brasileiros que residem no interior ou nas periferias das
grandes cidades se querem médicos estrangeiros no
atendimento?
Em
tempo
- Dois comunicadores da TV Ninja, um espaço alternativo que transmite ao vivo as
manifestações de protesto no Rio de Janeiro foram presos no dia da chegada do
Papa Francisco. A PM de Sérgio Cabral levou para a delegacia do Catete os
comunicadores que informavam pela web a cerca de 10 internautas.
Foi,
sem dúvida, uma afronta à liberdade de imprensa. Onde andará a Sociedade
Interamericana de Imprensa (SIP) para condenar mais este ato de violência do
Governo do Estado do Rio de Janeiro?
_________________________
[*] Mário
Augusto Jakobskind é correspondente no
Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da
Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o
Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de
América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE.
Primavera
Turca? Não. Ou, pelo menos, ainda não. O Primeiro-Ministro turco Recep Tayyip
Erdogan será o novo Mubarak? Não. Ou, pelo menos, ainda não.
A
história não se cansa de ensinar que basta uma faísca para incendiar uma
fogueira política. A faísca mais recente em Istambul foi um pequeno grupo de
jovens ambientalistas, que organizaram uma acampada pacífica, estilo Occupy, na Praça Taksim, para protestar
contra a destruição planejada de um dos poucos espaços verdes remanescentes na
cidade, o Parque Gezi.
A
destruição do Parque Gezi segue um padrão globalmente testado de neoliberalismo:
o parque será substituído por um simulacro – no caso turco, uma réplica das
tendas da artilharia otomana – que abrigará – e o que seria?! – mais um
shopping center. É crucial observar que o prefeito de Istambul, também do
Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP, de Erdogan), é proprietário de
uma cadeia de lojas de venda a varejo que reinará, com certeza, no novo
shopping center. E o homem que controla o contrato de mais esse
“redesenvolvimento” é ninguém menos que o genro de Erdogan.
Como
se poderia adivinhar que aconteceria e aconteceu, a repressão policial violenta
contra os manifestantes levou os principais quadros do principal partido de
oposição a Erdogan, o Partido Republicano do Povo (CHP), a unirem-se aos
manifestantes. E, sem demora, o tema “verde” da Praça Taksim foi transformado
num “Abaixo o ditador!” à imagem da Praça Tahrir.
Praça Taksim, sábado 1/6/2013
No
sábado, a Praça Taksim já estava tomada por dezenas de milhares de pessoas; uma
multidão atravessou a pé a Ponte do Bósforo, da parte asiática de Istambul,
batendo panelas e frigideiras à imagem do “panelaço” de 2002 na Argentina – numa
aberta e declarada violação da lei que proíbe o trânsito de pedestres sobre a
ponte. A Polícia, correspondentemente, aprofundou a repressão, com canhões de
água, spray de pimenta e gás
lacrimogêneo.
A
atitude de uma super acovardada televisão turca foi, previsivelmente, horrível –
o que surpreende talvez menos, se se sabe que 76 jornalistas estão presos na
Turquia acusados de apoiar “o terror” e de outros “crimes” não especificados.
Pode ser interpretada também como reflexo do mando absoluto de EUA e OTAN sobre
um aliado precioso. Coisa do tipo “OK, quebrem alguns ossos, mas nada de
mortos”.
Manifestantes se defendem, com frágeis barricadas, dos ataques da polícia munida de gás de pimenta, gás lacrimogêneo e canhões de água
A
mídia impressa fez um pouco melhor. O jornal Hurriyet – que costumava
usar suas faculdades críticas – recobrou um pouco da própria dignidade e
publicou manchetes como “Erdogan
já não é intocável”.
Zaman – da rede do movimento islamista moderado Gulen – divulgou, em
editoriais, sua extrema preocupação com o poder ilimitado de Erdogan e de seu
partido AKP; condenou o comportamento “excessivo” de ambos e apoiou os protestos
de rua.
Enquanto
isso, nos EUA e na União Europeia, Ancara não foi, de fato, condenada: só as
“preocupações” ocas, superficiais, de sempre. A Turquia, afinal, é o mais
recente cenário-país e cartão postal da CNN. Está totalmente presente “nas
telinhas”, com mensagem alinhada ao ideário da rede, de ditadura simpática ao
neoliberalismo (como as petromonarquias do Conselho de Cooperação do Golfo).
Condenar violentamente e ameaçar com ataques e drones são reações
reservadas, com exclusividade, ao Irã e à Síria.
Take it to the
bridge[1]
Faz
perfeito sentido que tudo tenha começado com o “redesenvolvimento” do Parque
Gezi. Mas não passa de pequeno detalhe, num esquema gigante – a quantidade
imensa de megaprojetos do Partido AKP por toda a Istambul, que excluem
totalmente a opinião da sociedade civil.
A
Turquia pode até ter-se tornado a 17ª economia do mundo, mas está crescendo
apenas 3% em 2013 (que já é muito melhor que o que se vê na Europa). O partido
AKP com certeza percebeu que o milagre econômico à turca tem pés de barro,
baseado em produtos de baixo valor agregado, muito dependente de mercados –
agricultura, pequena indústria ou turismo.
Multidão de manifestantes atravessa a ponte sobre o Bósforo no domingo, 2/6/2013
É
onde entra uma terceira ponte sobre o Bósforo – parte de uma nova rodovia de
260km e US$2,6 bilhões, unindo a Trácia à Anatolia, contornando a metrópole de
Istambul; e um dos entroncamentos chaves do Corredor de Transporte
Europa-Cáucaso-Ásia [orig. Transport Corridor
Europe-Caucasus-Asia, TRACECA], apoiado pela União Europeia.
Nas
eleições de 2011, Erdogan abriu sua campanha com o anúncio de um “projeto
louco”: um canal de 50 km, do Mar de Marmara ao Mar Negro, a
ser concluído em 2023 – centenário da República Turca – ao custo de mais de $20
bilhões. O objetivo não é só descongestionar o Bósforo, mas com a construção de
uma terceira ponte e de um terceiro porto, transferir o eixo de Istambul para o
norte da cidade, ainda não desenvolvido. O projeto inclui duas novas cidades e
um terceiro aeroporto.
O
partido AKP apresentou essa política ambiciosa como “transformação urbana”. O
pretexto é o risco de um grande terremoto – como o de 1999. Para o que se resume
a uma vastíssima bonanza da mais pura
especulação imobiliária, Erdogan e o AKP dependem de duas agências do governo,
TOKI e KIPTAS – que têm fixados preços altos demais para os turcos médios. O
alvo prioritário são as camadas mais altas da classe média – que votam AKP.
O
partido AKP é absolutamente obcecado com controlar Istambul – que elege 85 dos
550 membros do Parlamento (Ancara, a capital, elege apenas 31). Erdogan e seus
correligionários estão no governo da Grande Istambul desde 1994 (nessa época,
como membros do Partido Refah). Erdogan começou a conquistar a Turquia a partir
da capital otomana.
Os
megaprojetos apadrinhados pelo partido AKP foram concebidos como a mais moderna
plataforma a partir da qual projetar a Turquia emergente no rumo da
pós-globalização, extraindo o máximo do clichê de “uma ponte entre
civilizações”.
Afinal
de contas, 50% das exportações turcas originam-se em Istambul.
Multidão. Praça Taksim na madrugada de sábado, 1/6 para domingo 2/6 de 2013
O
marketing urbano-político desses megaprojetos condicionará a
credibilidade global da Turquia entre os suspeitos de sempre, os “investidores
internacionais”. Nada tem a ver com coesão social ou respeito à natureza ou ao
meio ambiente. Pode-se dizer, sem exagero, que os homens e mulheres que se
reúnem nos movimentos da Praça Taksim compreenderam total e perfeitamente as
implicações dessa lógica autoritária de desenvolvimento, sedenta de lucros.
E
então?! Quem se candidata a “Amigos da Turquia”?
Recep Erdogan
Erdogan
pode até ter admitido, contra vontade, que seus policiais exageraram. Mas o
máximo que pode fazer é acusar os manifestantes, dizer que estão ligados “ao
terror”, que têm “laços obscuros”. O único objetivo dos “saqueadores” seria
roubar votos do AKP nas eleições parlamentares de 2015. Jactou-se de que podia
pôr nas ruas um milhão de apoiadores seus, para cada 100 mil opositores. Bom...
5 mil opositores já começaram a apedrejar o prédio de seu escritório em
Besiktas.
Os
protestos já se alastraram para Izmir, Eskisehir, Mugla, Yalova, Antalya, Bolu,
Adana e, até, para tradicionais bastiões do AKP, como Ancara, Kayseri e Konya. A
multidão nas ruas conta-se às dezenas de milhares. Se se somam os carros que
buzinam e as pessoas que batem panelas das janelas e sacadas dos prédios, em
apoio aos manifestantes – como se ouve todas as noites em Ancara e Istambul (até nas
pacatas áreas residenciais no lado asiático) – já se pode falar em centenas de
milhares.
Não
há dúvidas de que o movimento “Praça Taksim/Occupy Gezi/Abaixo o ditador” já se
vai expandindo, cobrindo toda uma parte da Turquia secular que se opõe
totalmente ao partido AKP e ao mix
encarnado em Erdogan: conservadorismo religioso somado a um neoliberalismo
linha duríssima, em governo altamente personalizado/ centralizado/ autocrático.
Os
turcos seculares veem também claramente que Erdogan tenta extrair o máximo de
proveito possível de um nebuloso “processo de paz” com o PKK, partido dos
curdos, para obter votos suficientes para um referendo constitucional. Esse
referendo apagará da Constituição o sistema parlamentar, para ali instalar um
sistema presidencial – muito oportuno, dado que o mandato de Erdogan como
Primeiro-Ministro expira em 2015; e ele aspira a continuar ao leme, como
presidente.
Erdogan
pode ter ainda maioria sólida em toda a Anatolia conservadora.
Mas pode, também, estar brincando com fogo. É o homem que, há dois anos, gritava
que “Mubarak tem de ouvir seu povo”. E o mesmo deveria fazer também Assad na
Síria. Hoje, a maioria dos turcos rejeita completamente o “apoio logístico” que
Ancara insiste em oferecer às gangues “rebeldes” na Síria.
A
cereja do bolo da ironia, hoje, é Damasco, que já ordenou que Erdogan contenha a
violência de sua polícia contra o povo; que ouça “o povo turco”; ou que
renuncie.
E
agora?! Erdogan implanta uma zona aérea de exclusão sobre Istambul? (Ou a OTAN
implanta uma zona aérea de exclusão sobre Erdogan?) Os “rebeldes” turcos
receberão apoio direto de Damasco, de Teerã e do Hezbollah? Damasco convoca uma
reunião da “comunidade internacional” e cria os “Amigos da
Turquia”?
Nota dos
tradutores
[1]Take it to the bridge (Lit.: Leve lá p’ra ponte). É
expressão que parece assumir diferentes significados, conforme o contexto
em que apareça.
Pode significar “[leve para a ponte] para descartar”, “[leve
para a ponte] para jogar no rio”. Todas as sugestões de tradução são bem-vindas.
A frase aparece, por exemplo, em “Sex machine”, James Brown, 1971 que assiste-se
a seguir:
Traduzido da transcrição e das legendas pelo pessoal da Vila Vudu
SHAGHAYEGH
TAJVIDI, Produtor de TRNN: Há dias, o ar
que se respira em Istambul cheira a gás lacrimogêneo. A Polícia continua a usar
armas químicas, por toda a parte.
Hoje,
os levantes entraram em nova fase, quando a Confederação dos Funcionários
Públicos da Turquia (KESK) – 11 sindicatos e cerca de 240 mil trabalhadores –
declararam-se em greve geral por dois dias.
A greve, que estava sendo planejada
para futuro próximo, em resposta a novas leis de “flexibilização” da legislação
trabalhista na Turquia, foi antecipada para hoje, em resposta à brutalidade e às
práticas cada dia mais antidemocráticas da polícia do governo de Erdogan.
A
agitação começou em Istambul, dia 27 de maio, quando tratores começaram a
arrancar árvores na Praça Taksim, no Parque Gezi, local histórico no coração da
cidade. Os planos do governo, de construir ali umshopping
center, despertaram a indignação popular, e muitos imediatamente e
durante a noite, instalaram-se ali, com barracas e para plantar mudas de
árvores, em resposta à demolição de um dos últimos espaços verdes remanescentes
em Istambul. Começou assim, o que, nos últimos dias, já foi descrito como
cenário de guerra.
Mas
o protesto também se ampliou: é hoje movimento de resistência, bem maior e mais
radical que modesto ato para proteger parques e árvores.
ADVOGADA,
ISTAMBUL (legendas traduzidas):
O que posso dizer é que enfrentamos um déspota, governo desrespeitoso, que
absolutamente não se interessa nem ouve o povo e nossas ideias. Religião e
democracia, para eles, são instrumentos. Com o que está acontecendo aqui, se vê,
definitivamente, que não há democracia alguma nesse governo. A imprensa nada
diz. Quem fala, é posto na cadeia. Todos nossos generais estão na cadeia.
YASEMEN,
MANIFESTANTE:
Como é possível?! Mas você viu como tudo começou? As pessoas estavam sentadas,
lendo livros! Estavam conversando, na Praça Taksim. E de repente, pelas 5h da
manhã, foram atacados pela Polícia, sem aviso – nem avisaram, ninguém disse
“saiam, ou usaremos gás lacrimogêneo contra vocês”. Nada, primeiro lançaram as
bombas de gás, depois os canhões de água sob pressão. Eles agiram como se...
tudo aqui fosse gravíssimo.
ADVOGADO:
Como advogado, posso dizer que não há legitimidade nesse comportamento da
Polícia. Atacaram o povo, sem que a Polícia fosse sequer provocada. Usaram
porretes e força excessiva, e bateram com tal fúria, que podiam ferir braços,
pernas, até matar. É ação muito perigosa.
TAJVIDI:Os atuais protestos lançaram luz
diferente sobre o governo do primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan. A
repressão violenta contra os cidadãos, nessas manifestações, não foi notícia nos
canais comerciais de televisão. Mostraram, no mesmo horário, o concurso de Miss
Turquia e programas de culinária.
Para
informar-se sobre as manifestações, as pessoas tiveram de usar seus próprios
meios – conectaram-se pelas mídias sociais e procuraram informação em veículos
fora da Turquia, tudo para escapar da muralha de censura interna e dos repetidos
“apagões” nas redes 3G na área de Taksim.
O
canal The Real News Network conseguiu conectar-se por algum tempo com um
ativista que estava em Taksim, embora a conexão estivesse muito instável e quase
inaudível.
TANYEL,
NOS PROTESTOS EM TAKSIM (legendas traduzidas):
Quero destacar que o governo Erdogan e sua Polícia atacaram indiscriminadamente
o povo, que estava em posição muito vulnerável. A Polícia lançou muitas granadas
de gás lacrimogêneo, sem qualquer distinção, contra crianças e outras pessoas
vulneráveis. Nesse momento, há centenas de feridos nos hospitais.
A
mídia turca tentou cobrir os protestos. Mas não se viu nenhuma notícia nos
canais turcos de televisão, desde a noite passada. Só exibiram programas sem
importância.
Mas
as mídias sociais ajudaram, Twitter e
Facebook, e as pessoas conseguiram
informar-se e vieram para cá. A manifestação só aconteceu por causa das pessoas,
nas mídias sociais. Todos trataram de mostrar o que estava acontecendo para toda
a Turquia. Trata-se de muito mais do que de proteger o Parque Gezi. Trata-se de
uma batalha entre o governo da Turquia e os jovens turcos. O pessoal quer que
Tayyip e seu governo renunciem imediatamente. Agora, estamos já num movimento de
resistência.
TAJVIDI:Apesar de ter chegado ao poder com
promessas de prosperidade econômica e democratização, há dez anos, e apesar de
sempre ter contado com apoio popular, o partido Justiça e Desenvolvimento de
Erdogan, o AKP, também enfrenta crescente descontentamento, e não por poucas
razões. Para começar, o governo de Erdogan mantém a mídia sob um dos mais duros
regimes de censura em todo o mundo. Em 2012, a Comissão de Proteção de
Jornalistas divulgou que a Turquia aparecia em primeiro lugar na lista de países
que tem o maior número de jornalistas presos, à frente da China e do Irã.
Desde
2009, o Partido AKP iniciou investigações contra a União da Comunidade Curda,
investigações mediante as quais, o governo tomou por alvo intelectuais,
jornalistas e estudantes. O governo alegou que seriam medidas para prevenir
ações terroristas, e que atingiriam todos os partidos que tivessem qualquer
ligação com a ala urbana do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK). Fontes
independentes em Istambul estimam que essas investigações tenham levado mais de
3 mil pessoas à prisão.
Pouco
antes do levante do Parque Gezi, o partido governante, AKP, foi duramente
criticado por medidas para proibir a venda de bebidas alcoólicas em
estabelecimentos abertos ao público. Embora essas leis ainda não sejam vigentes,
ficou bem claro que seria a mais nova ameaça do governo religioso de Erdogan,
contra a Turquia secular. O conservadorismo religioso de Erdogan, aliado ao
autoritarismo crescente e à intolerância à crítica ou a opiniões diferentes da
sua, culminam, agora, em demonstrações de massa, gigantes, por todo o país.
BARIS
KARAAGAC, professor, Universidade TRENT:
O neoliberalismo crescente, a comercialização das relações sociais na Turquia, é
outra razão pela qual, agora, a população está tomando as ruas. É processo que
já se vê em andamento há dez anos, desde que o governo AKP chegou ao poder. Esse
processo está avançando à custa de prédios históricos, por exemplo. Todos esses
fatores operaram como catalisadores. Agora, muitas pessoas decidiram reagir
contra o governo de Erdogan, do AKP.
TAJVIDI:E são muitas as pessoas que estão
tomando as ruas, já em 67 cidades, em todo o país. Um dos aspectos mais
interessantes é a diversidade das pessoas e grupos que se vão unindo aos
levantes populares de resistência. O que se vê é que as políticas de Erdogan
tiveram efeito polarizador, numa sociedade turca já dividida.
Esta
rede The Real News falou com ativistas em Istambul, que comentaram os
traços diversos e complexos das multidões nas ruas e suas demandas.
ALP,
ATIVISTA (legendas traduzidas):
Os primeiros a aparecer nas manifestações foram artistas, gente de vários
partidos, de associações, instituições e dos sindicatos. Mas ontem à noite,
depois das 19h, o movimento já era público. Só está sendo possível, porque todos
distribuem e recebem informação pelas mídias sociais. Acho que a maioria aqui
não é gente de partido político, sindicato ou associação. O que se vê aqui são
estudantes, professores, médicos, advogados.
YASEMEN:
Ontem vi gente que sempre apoiou o AKP, que realmente votou no AKP. E estavam
protestando na rua, ali, ao meu lado. Muita gente com véu. Isso é muito
importante. Há muitos religiosos que também nos apoiam.
TAJVIDI:Ainda é muito cedo, é claro, para saber
a que levará essa resistência, o que conseguirá, se a luta gerará benefícios já
em 2014, ano em que haverá a primeira eleição presidencial, com voto direto, na
Turquia. Com a ambição de Erdogan, que desejava reconstruir todo o sistema
eleitoral, ameaçado agora pelos eventos dos últimos dias, observadores perguntam
se Erdogan fará concessões e se o movimento popular nas ruas conseguirá alterar
a correlação de forças entre Erdogan e sua tradicional base eleitoral.
KARAAGAC:
O que já se vê bem claramente é que o governo percebeu que, doravante, não
poderá continuar a agir protegido pela impunidade total, sem dar qualquer
atenção à oposição popular. Até agora, sempre agiu assim. Mas o povo, ou parte
muito ativa do povo, já disse “Basta!”.
TAJVIDI:Para a rede The Real News
Network, Shaghayegh
Tajvidi.