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quinta-feira, 29 de julho de 2010

O Paquistão e suas batalhas

28/7/2010, Syed Saleem Shahzad, Asia Times Online - AToL
Traduzido por Caia Fittipaldi, coletivo de tradutores Vila Vudu
Syed Saleem Shahzad é jornalista, editor-chefe da sucursal no Paquistão, de AToL
Recebe e-mails em saleem_shahzad2002@yahoo.com

ISLAMABAD. Alguns dos 92 mil documentos militares secretos dos EUA divulgados pela página WikiLeaks no final da semana falam sobre o apoio que o serviço paquistanês de inteligência daria aos Talibãs – questão destacada na mídia internacional, embora o embaixador do Paquistão nos EUA tenha dito que os documentos são relatórios de campo, “antes de serem processados”.


O Paquistão apoiou abertamente os Talibãs enquanto estiveram no poder no Afeganistão, de
1996 a 2001, quando foram derrubados pela invasão comandada pelos EUA. Islamabad então alinhou-se ao lado dos EUA na “guerra ao terror” e comprometeu-se a combater os guerrilheiros Talibãs.


Mesmo assim, o Paquistão nunca perdeu de vista seus interesses estratégicos, em função dos quais é absolutamente necessário preparar-se para uma eventual retirada dos EUA, do Afeganistão. Esperava-se que acontecesse cinco anos depois da invasão; agora, a retirada está marcada para 2013, e sabe-se que pode, sim, ser novamente adiada.


O
establishment militar paquistanês, enquanto isso, adotou a abordagem pragmática de não queimar as pontes políticas que os ligam aos pashtuns, dado que os pashtuns terão papel decisivo depois da saída dos soldados estrangeiros. O plano inicial de ação incluía manter contato com os Talibãs, sem contato direto com o líder Mullah Omar, e sem a al-Qaeda.


Os EUA sabem disso há muitos anos, e regularmente reclamavam contra o arranjo, durante a presidência do general Pervez Musharraf, que renunciou em agosto de 2008.


Mesmo assim, os EUA continuaram a expandir o teatro de guerra mediante a nova política chamada “AFPak”, na qual o Paquistão era visto como parte essencial da solução do problema no Afeganistão, especialmente porque os militantes afegãos usavam as áreas tribais do Paquistão como base importante da guerrilha afegã.


Washington encorajou ativamente a emergência de uma coalizão civil para governar em Islamabad, coalizão que apoiou completamente a guerra norte-americana, enquanto o chefe do exército do Paquistão, general Ashfaq Pervez Kiani, desenvolvia laços muito íntimos com os militares dos EUA. O mandato de Kiani foi estendido semana passada por mais três anos a partir de novembro, quando se espera que se aposente – movimento absolutamente apoiado e estimulado pelos EUA. O mandato da embaixadora dos EUA no Paquistão Anne Patterson também foi estendido até 2013.


O significado do vazamento de dados dessa semana, ainda que estejam sendo desqualificados por incluírem muita informação fornecida por informantes afegãos mal informados, é que aparecem numa circunstância em que, no Paquistão, as linhas de separação estão bem claramente demarcadas entre os guerrilheiros e os militares. Qualquer mal-entendido entre Islamabad e Washington só beneficiará os guerrilheiros.


As manobras do serviço secreto paquistanês (ISI)


O senador afegão Arsala Rahmani é o principal elo de comunicação pelo qual britânicos e norte-americanos podem falar com os Talibã (ver:
“War and peace: A Taliban view” [Guerra e Paz: um ponto de vista Talibã], Asia Times Online, 26/3/2010].


Quando os Talibãs fugiram de Cabul no final de 2001, Rahmani, ex-vice-primeiro-ministro nos tempos pré-Talibãs e ministro da Educação do regime dos Talibãs, mudou-se para Islamabad, onde abriu uma empresa de armazenamento de produtos congelados.


Em pouco tempo, porém, o ISI, serviço secreto paquistanês, já o havia reinstalado em Peshawar, capital da Província da Fronteira Noroeste – hoje Khyber Pakhtoonkhwa. Aqui, ao lado de alguns outros ex-ministros do governo dos Talibãs (dos menores), Rahmani anunciou que se separava de Mullah Omar e da al-Qaeda; e a formação do grupo Jamiatul Khudamul Koran (ver
“Revival of the Taliban” [Renascimento dos Talibã], Asia Times Online, 9/4/2005).

Através desse grupo, que incluía ministros provinciais e
mullahs considerados Talibãs moderados, o Paquistão buscou reconquistar sua influência no Afeganistão. Inicialmente, os EUA não deram muita importância aos movimentos do que interpretaram como bando insignificante de mullahs. Mas, à medida que fracassavam todos os esforços dos EUA no Afeganistão, Washington, com o auxílio do serviço secreto paquistanês, acabou por aceitar a ideia de que alguns “bons” Talibãs poderiam participar do governo de Hamid Karzai em Cabul.


Em algum momento antes disso, o Paquistão entregou Jalaluddin Haqqani, o legendário comandante afegão na guerra contra os soviéticos nos anos 80s, a Islamabad; e pediu-lhe que se separasse de Mullah Omar. Prometeram-lhe, em troca, que, com apoio dos EUA, seria indicado para o cargo de chefe do Executivo do Afeganistão. A rede de Haqqani tornou-se um dos principais eixos de força da guerrilha afegã liderada por Talibãs.


Mas Haqqani entendeu que, no minuto
em que deixasse Mullah Omar, perderia toda a autoridade que tinha. Pediu desculpas ao Paquistão, dizendo que não poderia abandonar Mullah Omar em tempos tão difíceis. O establishment militar paquistanês e o ISI aceitaram e jamais se separaram de Haqqani.


Semelhante ao caso de Haqqani, também Gulbuddin Hekmatyar, o mercurial senhor-da-guerra e político afegão
par excellence, e membros do seu grupo Hezb-e-Islami Afghanistan (HIA) foram reunidos pelo ISI, que lhes pediu que abrissem escritórios no sul, na cidade portuária de Karachi, em Peshawar e em Quetta, capital da província do Baluquistão.


Foram instados a ir para Cabul e a envolver-se na política afegã ou, alternativamente, deixar o Paquistão imediatamente, fosse para onde fosse. Sob esse arranjo, há alguns anos Qutubuddin Hilal, líder do HIA, visitou o presidente Hamid Karzai em Cabul. Karzai acolheu respeitosamente a delegação do HIA, mas oficiais norte-americanos os humilharam e insistiram que fossem condenados como terroristas.


Ao mesmo tempo, o Paquistão tentava impressionar Washington prendendo centenas de membros da al-Qaeda, mas persistiram as dúvidas sobre os laços entre Paquistão e al-Qaeda. Essas dúvidas levaram a encontros entre Washington e Islamabad e adiante motivaram o Paquistão a exigir um governo de pashtuns, pró-Paquistão, em Cabul. Ficou acertado que seria governo moderado. Paquistão e EUA acordaram que, naquele governo, haveria espaço para os Talibãs moderados.


Gente como Rahmani e Abdul Wakeel Mutawakil, ex-ministro do Exterior do governo Talibã, e outros, passaram a ser bem-vindos em Cabul. Admitiu-se que membros do HIA concorressem às eleições como nomes individuais e mantivessem escritórios em Cabul.


Ao mesmo tempo, o serviço secreto paquistanês criou o grupo Jaishul Muslim, organização de militantes criada para combater os soldados dos exércitos de ocupação no Afeganistão, mas que condenaria o apoio de Mullah Omar à al-Qaeda, causa da invasão dos EUA. (Ver
“US revives Taliban tryst in Afghanistan” [Os EUA revivem os laços entre os Talibãs no Afeganistão], Asia Times Online, 23/9/2003. O plano era dividir os Talibãs. Vários comandantes Talibãs, no primeiro momento, aderiram ao grupo Jaishul Muslim.


Enquanto tudo isso acontecia, a al-Qaeda continuava muito ativa nas áreas tribais do Paquistão, recrutando e reagrupando os militantes, e todos os planos dos EUA e Paquistão foram por água abaixo. Todos os que se haviam reunido no novo grupo Jaishul Muslim (e outros similares), rapidamente se aliaram aos Talibãs.


As agências ocidentais de inteligência interpretaram esses eventos como traição pelo Paquistão. Em
2007, a al-Qaeda já controlava toda a guerrilha, das áreas tribais às grandes cidades no Paquistão; e gradualmente passava a atrair também os quadros jihadistas do próprio serviço secreto paquistanês. Resultado disso criaram-se condições perfeitas para batalha de vida ou morte entre o exército regular e as forças jihadistas.


Desenvolvimento chave ocorreu em 2005, quando guerrilheiros da Caxemira, treinados e altamente experientes, associaram-se também à al-Qaeda e aos Talibãs. Em 2007, Ilyas Kashmiri e Sirajuddin Haqqani (filho de Jalaluddin Haqqani) já trabalhavam juntos; e alteraram a dinâmica dos ataques comandados pelos Talibãs no Afeganistão. Essa aliança, gradualmente, abriu um fosso entre Haqqani e o Paquistão.


Por exemplo, no início de 2009, Naseeruddin Haqqani, irmão de Sirajuddin Haqqani, foi preso por agências de segurança do Paquistão. O líder Talibã paquistanês Baitullah Mehsud (depois assassinado) conseguiu que fosse libertado, numa troca por soldados paquistaneses sequestrados. Em caso semelhante, Sirajuddin Haqqani deu abrigo a alguns membros foragidos do Talibã paquistanês, quando os militares iniciaram operações na área tribal do Waziristão Sul.


Pela primeira vez, os documentos vazados por
WikiLeaks dirigiram os holofotes para o Paquistão, onde a situação em campo mostra que, embora o Paquistão mantenha laços tradicionais com o Talibã e os militantes, o Estado está à beira de um confronto sem precedentes com os guerrilheiros e suas várias organizações.


Em resposta às informações vazadas, supõe-se que legiões de militantes estejam agrupando-se no Norte Waziristão. O Paquistão vive momento crítico. Qualquer movimento em falso – do governo afegão ou do seu aliado EUA – pode jogar o Paquistão no colo de grupos extremistas.



O artigo original, em inglês, pode ser lido em:
Pakistan has its own battle to fight

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Todas as anomalias do mundo “EUA”, numa coluna de jornal

O jogo dos contrários


27/7/2010, Tom Engelhardt, Tomdispatch - Traduzido por Caia Fittipaldi – coletivo Vila Vudu


Alguém já pensou sobre como é verdadeiramente estranho o que se entende por normalidade, no nosso mundo “EUA”? Demonstro o que quero dizer, com o exemplo de uma notícia publicada sem destaque no Washington Post e que não me sai da cabeça. É exemplo de notícia pela qual, no nosso mundo “EUA”, passamos quase sem reação, saltando para a notícia seguinte, apesar da extrema anomalia que se esconde nela.


O artigo assinado por Craig Whitlock foi publicado dia 19/7, sob o título “Militares norte-americanos criticados por comprar helicópteros russos para a Força Aérea afegã.” Destacado aqui, o título já soa estranhíssimo. Helicópteros russos? Claro. Todos sabemos, pelo menos vagamente, que, até o final do ano, os gastos dos EUA nessa frustrada guerra afegã e mais frustrada ‘reconstrução’ do Afeganistão estarão chegando a 350 bilhões de dólares. E, claro, são dólares que tomam o rumo de alguma caixa recebedora.



Todos sabemos, também, que nos tempos que correm, em vários pontos dos EUA, governos estaduais e municipais mal conseguem reunir fundos para pagar os professores ou os policiais. O Pentágono, contudo, não hesitou em usar pelo menos 25-27 bilhões de dólares para “treinar” e “formar” o exército e a polícia afegãos – e depois de cada rodada de treinamento que não produz os resultados esperados, sempre pede mais dinheiro para mais treinamentos, e assim vai, sempre, sempre.


Entre os treinados está a Força Aérea do Afeganistão que, nos anos soviéticos da década dos 80s, contava com mais de 500 aviões e respectivos pilotos treinados. O que restava daquela Força Aérea – de pouca serventia na era dos Talibãs – foi destruído no ataque e invasão dos EUA ao país, em 2001. Resultado disso, “Força Aérea Afegã” (cerca de 50 helicópteros e aviões de transporte) nem chega a ser nome certo, porque, de fato, trata-se de “Força Aérea dos EUA”.


Ainda há alguns pilotos afegãos, a maioria deles já chegados aos 40 anos, treinados há muito tempo nos Mi-17, helicópteros russos de transporte. E, informa-nos Whitlock do Post, o Pentágono já gastou 648 milhões de dólares na compra de uma versão “atualizada” daqueles helicópteros. O modelo Mi-17 foi especialmente projetado para o específico ambiente de voo no Afeganistão, no tempo em que guerrilheiros islâmicos jihadistas (alguns dos quais os EUA enfrentam hoje, identificados como “os Talibãs”) eram aliados dos EUA contra os russos.


Aí vai o primeiro parágrafo do artigo de Whitlock: “O governo norte-americano está comprando helicópteros made in Rússia para formar o núcleo da Força Aérea Afegã, estratégia que tem atraído pesadas críticas no Congresso, que deseja obrigar os afegãos a voar em helicópteros made in USA.”


É, há vários senadores e deputados norte-americanos incomodados porque não há planos para só comprar produtos made in USA... para a Força Aérea do Afeganistão. Essa é a notícia que Whitlock conta e comenta, porque o Pentágono planeja comprar mais dúzias de Mi-17s ao longo da próxima década. E isso, pelo que se vê, seria motivo para grave indignação nacional, porque os bons cidadãos dos EUA que vivem de fabricar armas estão perdendo contratos.


Mas há outros três aspectos do artigo de Whitlock, pelos quais passamos quase sem ver, apesar de ali estar “noticiada” a espantosa “normalidade” que os EUA identificam nas guerras dos EUA em terras distantes – e em Washington.


1.- O programa de treinamento que não treina: Há hoje o número impressionante de 450 treinadores militares dos EUA treinando a Força Aérea do Afeganistão. Infelizmente, há um problema. Pode não haver um programa de só comprar produtos made in EUA, mas há um programa de só se entender em língua made in USA. Para ser piloto da Força Aérea Afegã, você tem de falar inglês – “a língua que se fala no cockpit,” como garante Whitlock (mesmo que seja cockpit de helicóptero russo). Como diz o articulista, o problema é que os pilotos em treinamento são quase todos analfabetos, e demoram de dois a cinco anos só para aprender inglês (Imaginem o que seria a Força Aérea dos EUA se, só para decolar, o piloto tivesse de aprender o idioma dari).


Graças a essa barreira do idioma, os EUA podem continuar a treinar seja quem for, pelo tempo que for, e é garantido que praticamente nada acontecerá. “Até agora”, informa Whitlock, “apenas um piloto afegão conseguiu graduar-se em escola de voo nos EUA, e há dúzias tentando. Por causa disso, os treinadores norte-americanos no Afeganistão tiveram de confiar em pilotos que aprenderam a voar nos Mi-17s nos dias dos soviéticos e dos Talibãs.” Em outras palavras, apesar da impressionante performance soviética nos anos 80s, o treinamento da Força Aérea Afegã foi replanejado pelos EUA como trabalho de Sísifo.


Tem-se aí apenas um vislumbre de o quanto são bizarros os programas de treinamento que os EUA têm oferecido ao exército e à polícia afegãos. De fato, parece que o mesmo tipo de comentário, as mesmas notícias, detalhando sempre os mesmos programas e respectivos fracassos, os mesmos relatórios, são reciclados, ano após ano, sem que ninguém jamais estranhe coisa alguma, ou pressinta algo de esquisito – ou surpreenda-se com a evidência de que cada novo carregamento sucessivo de más notícias apareça como argumento para que o Congresso decida alocar mais dinheiro e mande mais treinadores para aqueles “projetos”.


Em 2005, por exemplo, quando Washington já consumira 3,3 bilhões de dólares em treinamento e formação do exército e da polícia afegãos, a Agência Central de Controle de Gastos do Governo dos EUA [ing. U.S. Government Accounting Office, GAO] publicou relatório indicando que “se envidaram muitos esforços para equipar plenamente número crescente de soldados [afegãos], e mais os esforços para estabelecer instituições sustentáveis, como apoio indispensável para aqueles soldados, não acompanharam aquele processo.”


Ainda pior, segundo o relatório, “estima-se que ainda sejam necessários 7,2 bilhões de dólares [para completar o projeto de treinamento] e cerca de 600 milhões anuais para mantê-lo.”


Em 2006, de acordo com o New York Times, “relatório conjunto do Pentágono e do Departamento de Estado (...) constatou que a força policial afegã treinada pelos EUA é, em larga medida, incapaz de executar o trabalho de aplicação da lei, e que administradores do programa de treinamento de 1,1 bilhão de dólares não sabem dizer como há tantos oficiais considerados habilitados e em serviço, ou onde estão milhares de caminhões e equipamentos entregues às unidades policiais”. Na melhor das hipóteses, dizia aquele relatório, “menos de metade do número de policiais anunciado oficialmente “foram de fato treinados e equipados para executar satisfatoriamente funções de polícia.”


Em 2008, quando já haviam sido consumidos 16,5 bilhões de dólares em programas de treinamento do exército e da polícia afegãos, a US-GAO voltou ao tema, para dizer que apenas duas de 105 unidades do exército haviam sido consideradas “plenamente capacitadas para executar sua missão primária” e que “nenhuma unidade de polícia pode ser declarada capaz.”


Em 2009, o Inspetor Geral dos EUA para Reconstrução do Afeganistão [ing. U.S. Special Inspector General for Afghan Reconstruction] disse em relatório que “apenas 24 de 559 unidades policiais afegãs são consideradas prontas para operar sem auxílio internacional.” Depois desses relatórios, assim como depois de noticiários de jornais (repetitivos e repetidos) e assim como depois de milhares de análises e colunas sobre o tema, sempre vem uma longa lista de lamentações sobre corrupção, indisciplina, analfabetismo, drogas (uso e venda), altos índices de deserção, infiltração pelos Talibãs, soldados-fantasma e muitos outros problemas. Mas em 2009, apesar de tudo, a solução sugerida foi a mesma de sempre: o relatório de 2009 “conclui que são necessários mais treinadores norte-americanos e mais dinheiro.”


Em junho desse ano, auditoria do governo dos EUA, outra vez por iniciativa do Inspetor Geral Especial, desmentiu as mais recentes avaliações dos treinamentos por treinadores norte-americanos e da OTAN: “os padrões adotados para avaliar as forças afegãs desde 2005 são gravemente inadequados, inflando as habilidades dos avaliados.” E seguia-se a infalível litania de lamentações. Apesar disso, segundo a Agência Reuters, o presidente Obama quer mais 14,2 bilhões de dólares para o projeto de treinamento no Afeganistão “para o ano corrente e o próximo.” Afinal, na semana passada, Julian Barnes, do Wall Street Journal, noticiou que o novo comandante da guerra no Afeganistão, general David Petraeus, está planejando “retrabalhar” a estratégia norte-americana, para lá “introduzir maior atenção ao modo como as forças de segurança afegãs estão sendo treinadas”.


No que tenha a ver com os programas norte-americanos de treinamento, pode-se concluir que o Afeganistão é um neo “Ardil 22” [ing. Catch-22, romance satírico-histórico, de Joseph Heller, norte-americano, de 1961 [1]], espaço onde o tempo não anda – como tampouco anda o cérebro coletivo do establishment da segurança nacional nos EUA. Para Washington, não há curva de aprendizado no Afeganistão, não, pelo menos, no que tenha a ver com “treinamento” de afegãos.


E, depois, o mais estranho de tudo, embora ninguém se dê o trabalho de pensar sobre isso nesse contexto: os Talibãs não recebem centenas de bilhões de dólares em fundos estrangeiros para treinamento; não receberam anos de aconselhamento estratégico pelos mais poderosos cérebros dos EUA e da OTAN que o dinheiro consegue comprar; não contam com empresas privadas contratadas, como a DynCorp, para ensiná-los a lutar e policiar. Mesmo assim, e muito estranhamente, não dão sinais de enfrentar qualquer dificuldade e estão-se dando muito bem naquela guerra. Não há soldados rebeldes ou mal treinados. Os Talibãs não foram infiltrados por seguidores de Hamid Karzai. Não há denúncias de corrupção em prejuízo dos Talibãs e nas hostes Talibãs. É possível que sejam analfabetos e não falem inglês fluente, mas estão suficientemente bem treinados e organizados em grandes grupos, das dimensões de uma unidade de combate dos EUA, para atacar bases militares pesadamente fortificadas dos EUA, prisões afegãs, estações de polícia e assemelhados, e, tudo, sem manter um único mentor-treinador estrangeiro na folha de pagamento.


Parece que estamos ante um moderno “des-milagre”, milagre ao contrário. E os EUA comprovaram-se absolutamente incapazes de treinar soldados afegãos num país onde até os meninos andam armados, no qual se combate há décadas, onde praticamente todos os homens combatem ou algum dia combateram, onde a habilidade em combate é tradição histórica. Também é muito estranho que os EUA, até agora, não tenham conseguido treinar uma pequena Força Aérea, que pelo menos conseguisse pilotar aviões leves de transporte recauchutados dos anos 80s e os tais helicópteros russos. Afinal de contas, a União Soviética, último poder imperial a tentar tal proeza, conseguiu, sim, criar uma Força Aérea afegã que, sim, pilotava muito bem, de helicópteros a aviões bombardeiros.


2.- Estratégias para não-sair-de-lá: Mergulhemos um pouco mais fundo no que há de estranho no que Whitlock noticia, e consideremos a questão de quando os EUA planejam sair do Afeganistão.


Eis o que diz Whitlock: “Os militares norte-americanos estimam que a Força Aérea afegã não terá capacidade para operar independentemente até, no mínimo, 2016, cinco anos depois do prazo que o presidente Obama fixou para iniciar a retirada de soldados norte-americanos do Afeganistão. Mas Boera [brigadeiro-general da Força Aérea dos EUA, Michael R. Boera] já disse que essa data pode ser adiada por, no mínimo, mais dois anos, se o Congresso obrigar os afegãos a pilotarem helicópteros de fabricação norte-americana”.


Em outras palavras, enquanto os norte-americanos discutem sobre o que realmente significará o prazo fixado pelo presidente para a retirada dos soldados (julho de 2011), e enquanto o presidente afegão Hamid Karzai sugere que as forças afegãs serão encarregadas da segurança do país a partir de 2014, há “militares norte-americanos” (que Whitlock preserva, perfeitos anônimos) que operam declaradamente por outro fuso temporal, de fato pelo fuso temporal do Pentágono, e planejam com vistas a 2016-2018, e para que as forças afegãs estejam em condições, apenas, de “operar independentemente” (o que absolutamente não significa “sem apoio dos EUA”).


Se você estiver conspiracional, poderá quase pensar que o Pentágono optou por não criar nenhuma Força Aérea afegã que funcione, para que, em vez disso, haja lá, por toda a eternidade, uma força aérea apenas complementar e dependente. Foi o que aconteceu no Iraque, onde havia a 6ª maior Força Aérea do mundo e onde hoje, depois de anos de treinamento e supervisão pelos EUA, só resta sucata.


3. Quem são os russos de hoje?: Continuemos, avançando mais um pouco rumo às profundezas das coisas estranhas que nos cercam, guiados por uma passagem que se lê entre os parágrafos 20º e 21º dos 25 parágrafos do artigo de Whitlock: “Além disso”, Whitlock noticia, “o Comando Especial de Operações dos EUA [ing. U.S. Special Operations Command] tem interesse em comprar também alguns helicópteros Mi-17s russos também para o próprio Comando, de modo que as Forças Especiais dos EUA em missões clandestinas possam esconder a identidade norte-americana. “Gostaríamos de também ter alguns, misturados entre os demais, para ajudar a fazer coisas por lá”, disse um militar de alta patente dos EUA, que pediu que seu nome não fosse revelado, como condição para falar sobre o programa clandestino”.


Até agora ainda não se ouviram explicações sobre como – ou onde – esses helicópteros russos ajudarão a “esconder a identidade norte-americana” em missões das Forças Especiais Norte-americanas no Afeganistão, ou em quê serão “misturados, ou que “coisas” farão por “lá”. Nada se discute sobre coisa alguma.


Em outras palavras, já se noticiou que há urgência em russianizar o transporte aéreo por “lá” e, quase um mês depois, que eu saiba, nenhum senador ou deputado pôs-se a esbravejar; nenhum jornal da grande mídia escreveu editorial questionando, indignado (nem, sequer, apenas intrigado) a adequação ou a correção dessa medida; nenhum repórter, que eu saiba, saiu a campo para investigar.


Como mais um factóide sem qualquer importância, enterrado nas entrelinhas de artigo dedicado a outros assuntos, com certeza passou despercebido, ninguém nem viu. Mas vale a pena parar um momento e considerar a extrema estranheza desse fragmento de notícia-que-jamais-ganhará-status-de-notícia. Um dos modos pelos quais se pode considerá-lo é jogar o jogo dos contrários que sempre dá certo nesse nosso planeta EUA de mão-única.


Imaginemos que abrimos o jornal e lá encontramos, matéria sobre país estrangeiro, o que abaixo se lê:


*De Teerã: “Equipes das Forças Especiais Iranianas procuram para comprar velhos helicópteros Chinook dos EUA, para que possam ocultar a identidade iraniana em ações a serem executadas no Afeganistão e na província paquistanesa do Baluquistão.”


*Diário do Povo, de Pequim, anuncia: “Equipes das Forças Especiais Chinesas procuram para comprar modelos usados de helicópteros norte-americanos, para...” Epa! Aqui o jogo dos contrários não dá muito certo, e abre-se uma fresta pela qual se começa a ver o que é realmente muito estranho nas atividades dos EUA pelo planeta: por que os chineses teriam de usar essa artimanha (e por que, de fato, os EUA aceitariam participar dela)? Onde interessaria à China intrometer-se, sem ser identificada com o exército chinês?


Talvez pareça difícil imaginar hoje, mas garanto-lhes uma coisa: se alguma fonte estrangeira trouxesse notícias sobre planos desse tipo, ou se Craig Whitlock descobrisse o plano e fizesse referência a ele em coluna do WSJ – ainda que escondida profundamente em algum parágrafo – haveria pandemônio em Washington. O Congresso marcaria audiências. Todos os jornalistas manifestariam a mais profunda indignação sobre a infâmia de agentes iranianos ou chineses usarem nossos helicópteros como disfarce. A empresa ou empresas que vendessem os helicópteros seriam investigadam. E o que teriam a dizer os âncoras da rede Fox News?!


Mas quando os EUA fazem tais coisas, e um país – o Paquistão, por exemplo – reage com o que se designa em termos genéricos como “antiamericanismo”, os EUA concluem que são fanáticos nacionalistas de dedo no gatilho; destacamos as “sensibilidades” fanatizadas; e nossos jornalistas e repórteres escrevem solidários às dificuldades que enfrentam os soldados e os civis norte-americanos que tenham de conviver cara a cara aqueles nativos rebeldes.


Outro dia, por exemplo, Barnes, no Wall Street Journal, noticiava que as Forças Especiais dos EUA estão ampliando o trabalho nas franjas das áreas tribais no Paquistão, “tentando trabalhar com forças paquistanesas em projetos de ajuda, aprofundando o papel dos EUA no esforço para derrotar militantes islâmicos em território paquistanês localizado fora dos limites de ação dos soldados dos EUA.” O governo paquistanês não mostra qualquer ansiedade para ter coturnos norte-americanos sobre seu território naquelas áreas. Então, Barnes conclui que “por causa das sensibilidades paquistanesas, o trabalho dos EUA progride lentamente.”


Imagine-se o quão sensíveis se mostrarão os paquistaneses, caso as mesmas forças ponham-se a pousar helicópteros russos no Paquistão, como recurso para “ocultar” suas operações e “misturarem-se” por “lá”! Ou imagine-se a rapidez dos dedos no gatilho, dos nativos de Montana-EUA, caso acontecesse de aparecerem tipos com ares de “forças especiais” paquistanesas “lá” pelo Parque Nacional Glacier, desembarcados de velhos helicópteros americanos, nos arredores de Butte.


Considerem-se, então, as sensibilidades dos paquistaneses que ouçam contar que o recém indicado chefe dos Serviços Nacionais Clandestinos da CIA [ing. CIA’s National Clandestine Service] é, casualmente, homem de “credenciais impecáveis” (como disse o diretor geral da CIA, Leon Panetta). Dentre essas credenciais, está a credencial de ter trabalhado como chefe da agência local da CIA no Paquistão até algum dia de 2009, envolvido, é claro, nos super-hiper impopulares ataques por aviões-robôs teleguiados norte-americanos nas franjas das áreas tribais paquistanesas – atividade que, nas vagas palavras do diretor geral, corresponderia a ter comandado “operações complexas sob as circunstâncias mais difíceis que se possa imaginar”.


Aqui está a verdade, que a coluna de Whitlock deixa clara, sem a ver: atuamos dos modos mais inacreditavelmente estranhos em terras distantes e ninguém diz coisa alguma. Historicamente, essa tem sido a natureza dos poderes imperiais: considerar mais ou menos normais todas as coisas nada normais que façam. Para um poder imperial decadente, esse modo de agir implica perigos específicos.


Se não conseguimos ainda sequer imaginar alguma via para superar o modo como os EUA fazem guerras em terras distantes, a milhares de quilômetros de distância dos EUA, evidentemente tampouco conseguimos sequer começar a imaginar o modo como o mundo vê os EUA. Isso implica que somos cegos para nossa própria loucura. Helicópteros russos? É praticamente nada, se se considera o problema real.


O artigo original, em inglês, pode ser lido em: The Opposites Game All the Strangeness of Our American World in One Article


NOTA

[1] “Ardil 22” é expressão cunhada pelo escritor Joseph Heller, que dá título ao romance Catch 22, de 1961 – para designar um conjunto de regras, regulamentos, procedimentos ou situações as quais apresentam a ilusão de escolha ao mesmo tempo em que impedem qualquer escolha real, em cenário da II Guerra Mundial, num pelotão do exército dos EUA. Na teoria da probabilidade, o termo aplica-se a uma situação na qual existem múltiplos eventos probabilísticos, e o resultado desejado advém da confluência desses eventos, mas há probabilidade zero de ocorrer, visto que os eventos probabilísticos são mutuamente excludentes.


Do livro Catch-22 : “Só havia um regulamento, o Ardil 22, que dizia que a preocupação com a própria segurança, em face de perigos reais e imediatos, é conclusão racional de mente racional. Orr estava doido e podia ter baixa. Bastava pedir a baixa. Mas, assim que pedisse, comprovaria que já estaria curado da doideira e teria que voar em novas missões. Orr comprovaria a doideira se voasse em novas missões; e seria diagnosticado são se não voasse . Mas se estivesse são, teria que voar novamente em missões de combate, proibidas para doidos. Se voasse, estaria doido e não teria de voar. Mas, se ele não quisesse voar, então estaria são e teria de voar.” Ou: “O texano mostrou-se afável, generoso e simpático. Em três dias, ninguém mais conseguia suportá-lo”. Ou: “O caso contra Clevinger foi aberto e encerrado. Não se encontrou crime do qual acusá-lo” [NT].

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Lições do Iraque: a “outra guerra” de Obama

15/7/2010, M K Bhadrakumar, Asia Times Online – Traduzido por Caia Fittipaldi


A missão do vice-presidente dos EUA Joseph Biden em Bagdá no fim-de-semana do 4 de Julho chamou a atenção novamente para a “outra” guerra dos EUA – a guerra do Iraque, completamente esquecida ante o incessante banho de sangue e crescente caos no Afeganistão. Não há dúvida de que a guerra do Iraque aproxima-se do fim, com o invasor fazendo as malas para voltar para casa.


O Iraque, que há 20 anos atingia índices de desenvolvimento social e econômico compatíveis com os da OECD (Organization for Economic Cooperation and Development), hoje mal sobrevive. Já nem importa quem ganhou ou perdeu a guerra.


Podem-se extrair várias lições do fim do jogo no Iraque que, em alguns sentidos, aplicam-se à guerra no Afeganistão.


O principal objetivo da missão de Biden, de um dia, na data em que os EUA celebravam a própria independência, foi garantir aos nacionalistas iraquianos que o governo de Barack Obama está disposto a respeitar o cronograma de término da ocupação militar. Biden disse “Espero que saibam que até aqui cumprimos nosso compromisso e que dia 31 de agosto alteraremos nossa missão militar, não para nos separarmos, mas para nos aproximarmos ainda mais.”


Atualmente, a força militar norte-americana no Iraque é de 77.500 soldados, número mais baixo desde a invasão em 2003 e metade dos 165 mil soldados que havia lá no momento do pico da “avançada” [ing. surge]. Esse número terá caído para 50 mil soldados, dia 1º de setembro – o que sugere que, em média, sairão do Iraque 2.500 soldados por semana, durante julho e agosto. E assim se dará por encerrada a “missão de combate” dos EUA no Iraque.


Ainda não se sabe como, depois desse momento de definição, os EUA planejam conservar o poder de modelar os eventos no Iraque e na região ampliada. Também não se conhece com clareza o destino dos soldados norte-americanos que permanecerão no Iraque depois de 1º de setembro. Tanto quanto se sabe, todos deverão estar longe do Iraque até o final de 2011. Mesmo assim, persistem as especulações de que Washington e Bagdá ainda podem renegociar os termos da retirada dos soldados, de modo a permitir algum acordo militar EUA-Iraque de longo prazo. Diferente do que se vê no Afeganistão, no Iraque e arredores os EUA têm bases militares e “lily pads” [1] bem estabelecidos.


Biden insistiu que os EUA não têm “agenda oculta” no Iraque, mas fato é que há grupos de pressão em Washington trabalhando para que a retirada seja a mais lenta possível. É onde se tornam importantes os alinhamentos políticos no Iraque e a distribuição de poderes dentro do próximo governo que assume o poder em Bagdá depois das eleições parlamentares de 27 de março.


O gigantesco prédio da embaixada dos EUA em Bagdá, construído ao custo de 750 milhões de dólares, em 42 hectares ao longo das venerandas margens do rio Tigre e que abriga 1.200 diplomatas, soldados e pessoal deslocado de inúmeros campos do governo dos EUA, é, muito visivelmente, fortaleza construída para lá permanecer por muito tempo. O mesmo se deve dizer dos artísticos “mini-EUAs” tão dolorosamente replicados dentro dos muros de dezenas de bases militares distribuídas pelo território do Iraque.


Claro que, se tirarem seus soldados do Iraque até o final de 2011, diminuirá dramaticamente a capacidade dos EUA para influenciar o país; e os EUA terão de redefinir seu papel, não apenas no próprio Iraque, mas em toda a Região, inclusive em relação a aliados chaves como a Arábia Saudita, o Kuwait, a Jordânia ou a Turquia – todos localizados em torno do Iraque.


Políticos incontroláveis


Iraque e Afeganistão são países amaldiçoados pela geografia, que os converte inevitavelmente em coração da política regional. Por isso não se pode prever o que Obama fará e até que ponto irá para cumprir seu compromisso de livrar os EUA de uma guerra à qual o presidente sempre se opôs; nesse sentido, pouco importa o que Biden tenha prometido em sua visita a Bagdá.


No caso do Afeganistão, o dilema de Obama é maior, posto que tem de incluir outras questões da estratégia global dos EUA – o futuro papel da OTAN como organização de segurança global; o modo como os EUA abordarão o crescimento da China; e simplesmente se é desejável ou não, para os EUA, manter presença militar em área tão vital como o sudeste da Ásia.


Mas há outros fatores determinantes que regem o fim da guerra do Iraque.


Primeiro, não se sabe se os EUA são capazes de controlar os políticos iraquianos, divididos em uma miríade de partidos, e de pastoreá-los para um mesmo aprisco, com todos desejando e aprovando a ocupação militar perpétua de seu país. O máximo que Biden pôde dizer, e em tom de lamento tímido, foi: “Na minha modesta opinião, para que vocês [iraquianos] alcancem seus objetivos, é preciso que as vozes de todas as comunidades estejam – proporcionalmente – representadas nesse novo governo (...), e todos terão de ter papel significativo nesse governo, para que o governo funcione, na minha modesta opinião.”


Nuri al-Maliki, atual primeiro-ministro iraquiano e apoiado pelos EUA, deseja desesperadamente permanecer no emprego e chefiar o novo governo, mas lidera uma aliança xiita – “Estado de Direito” – que tem sérios problemas de relacionamento com o preferido dos EUA, Iyad Allawi, para formarem uma coalizão de governo. A confusão é de tal ordem que, embora Allawi seja xiita, ele lidera o grupo “Iraqueia”, coalizão “secular” – na medida em que alguma coisa seja secular, no Iraque pós-Saddam –, mas da qual participam alguns grupos sunitas que, aos olhos da coalizão “Estado de Direito”, não são os mais desejáveis dos aliados.


O melhor que poderia acontecer, com vistas à estabilidade política, seria que Maliki formasse uma coalizão com o grupo “Acordo Nacional Iraquiano” (aliança de xiitas leais a Muqtada al-Sadr, o clérigo radical que se opõe visceralmente à ocupação norte-americana) e com o “Conselho Islâmico Superior do Iraque” (ISCI). Nesse caso, há dois problemas: os Sadristas e o ISCI rejeitam a liderança de Maliki; e os EUA desconfiam de ambos, por seus laços muito próximos com o Irã.


Curiosamente, os EUA vivem dilema semelhante no Afeganistão, vendo a realidade política afegã escapar de seu controle direto. Já foi muito mais fácil para os vice-reis norte-americanos microcontrolarem o presidente Hamid Karzai e seu irmão em Candahar. Hoje, é muito difícil. E, isso, sem falar dos inúmeros grupos de interesse que se formaram, experimentaram o gosto do poder e gostaram.


Paradoxalmente, a lógica política parece sugerir que o melhor seja entregar o poder aos xiitas no Iraque – como aos pashtun –, o que, algum dia, talvez tenha sido fatalidade histórica; mas, hoje, os sunitas iraquianos não aceitarão que se constitua um quadro político governante que os exclua. A verdade é que, às vésperas da retirada dos soldados norte-americanos, o Iraque continua dividido por várias linhas pontilhadas, como se viu no início de julho, quando houve combates entre soldados do exército iraquiano e a milícia Peshmerga curda, no norte do país.


Os soldados dos EUA têm-se inserido entre os grupos antagonistas, patrulhando alternadamente, ou ao lado de unidades do exército iraquiano ou ao lado dos curdos da milícia Peshmerga. Muito significativamente, o comandante dos EUA no Iraque, general Ray Odierno, alertara contra o real perigo de outra guerra civil no Iraque entre curdos e árabes; e sugeriu que talvez fosse necessário mandar para lá as forças de pacificação da ONU, depois da retirada dos soldados dos EUA. Sombras do Afeganistão!


Avançada do regionalismo


Em segundo lugar, o declínio da influência dos EUA no Iraque também coincide com o acentuado aumento da influência dos poderes regionais que aspiram a ocupar o vácuo político resultante do declínio da influência dos EUA – de modo especial, o Irã. Washington terá de ponderar também esse tipo de eventualidade, em relação ao Afeganistão.


Teerã já está tratando o Iraque como país “normal”, com o qual vive sob relações manifestamente “fraternas”. As exportações Irã-Iraque, que estancaram em $1 bilhão em 2007, já caminham firmemente para ultrapassar a marca dos $10 bilhões. Por ironia, os contrabandistas iraquianos estão em condições hoje, mais que muitos outros agentes, de sabotar letalmente as sanções patrocinadas pelos EUA contra o Irã.


O Paquistão pode desempenhar papel semelhante em relação ao Afeganistão. A questão é saber se tem sabedoria política suficiente.


Uma parceria político-econômica entre os dois maiores poderes com maioria de xiitas na região tem implicações profundas para a geopolítica de todo o Oriente Médio. Uma confederação Afganistão-Paquistão – possivelmente com inclusão do Uzbequistão – também tem potencial para redesenhar a geopolítica do sul da Ásia e da Ásia Central em termos de rotas de comunicação, segurança energética, comércio e investimento. Nas palavras de Patrick Seale, conhecido especialista em Oriente Médio: “O Iraque, o Irã, a Turquia, a Síria, o Qatar e outros, já estão negociando entre eles e formando alianças por fora da órbita de poder dos EUA.”


Os EUA trabalharam muito contra o que viam como influência iraniana nos negócios do Iraque, mas fracassaram. Os EUA já reconheceram tacitamente a inevitabilidade de um Irã influente e predominante; até aspiram a servir-se dessa influência, se permanecer benigna e cooperativa. Pode-se perfeitamente conceber que o Afeganistão possa ter papel semelhante, e que venha a ser abordado do mesmo modo.


Por outro lado, os iraquianos – como os afegãos – são nacionalistas apaixonados. Talvez estejam preparados para considerar favoravelmente o Irã como aliado regional e agradecerão a ajuda que recebam do Irã para reconstruírem o próprio país, mas, como disse recentemente o prof. Juan Cole, renomado especialista norte-americano estudioso do Oriente Médio, “eles [os iraquianos] dificilmente aceitarão receber ordens militares” de Teerã.


Em resumo, a estratégia “Af-Pak” de Obama muito poderia ganhar se aprendesse a ver o papel que o Irã teve na estabilização do Iraque. Os estrategistas paquistaneses terão de ser extremamente cautelosos quanto à viabilidade de obterem a “profundidade estratégica” no Afeganistão que ambicionam. – Prender Kabul com laços de amizade e cooperação é uma coisa, mas qualquer expectativa de que o Paquistão venha a “controlar” a estrutura de poder afegã no longo prazo, pode vir a provar-se excessiva.


Biden prometeu aos iraquianos, aos quais falta tudo, até os mais rudimentares serviços essenciais de infraestrutura, que Washington permanecerá engajada. Disse que “Enquanto vocês continuarem a postos e construindo sua democracia, estaremos com vocês, economicamente, politicamente, socialmente, em ciência, educação”. Foi o que disse. “Fui encarregado dos esforços de nosso governo para unir todos os elementos de nosso governo (sic), do Departamento de Educação ao Departamento de Comércio e ao Departamento de Ciência e Tecnologia – para trabalhar com vocês, se quiserem que trabalhemos com vocês.”


Nada faz crer que os iraquianos levem essas palavras a sério. Nada faz crer que creiam que os EUA poderão gerar fora de casa os resultados que não consigam gerar em casa.


A era “pós-EUA”


A mesma síndrome pode acontecer também no Afeganistão. Pode acontecer de os EUA e os países europeus devastados pela recessão perderem o entusiasmo pela empreitada de reerguer o Afeganistão, de uma situação de pós-conflito. É onde potências regionais – China, Arábia Saudita ou Índia – podem desempenhar um papel que não precisa ser visto necessariamente em capitais rivais – Moscou, Teerã ou Islamabad –, como jogo de soma zero.


A conferência internacional marcada para Kabul na 3ª-feira próxima será ocasião para que os países reunidos discutam a política de ajuda ao Afeganistão.


De fato, o Iraque está muito mais bem posicionado que o Afeganistão, numa “era pós-EUA”. Os soldados iraquianos já patrulham as próprias cidades; e o Iraque pode gerar renda. Dia 29 de junho, Bagdá aprovou negócio com a Shell para desenvolver reservas de gás (25-30 trilhões de metros cúbicos) na região de Basra. Seale concluiu: “O dinheiro começa a correr na direção do Iraque. Aos poucos, o Iraque se reconstruirá da devastação da guerra. E acabarão por encontrar uma fórmula política de governo”.


Fato é que, na raiz desse otimismo há uma surpreendente realidade, que seria enormemente relevante para a estratégia afegã de Obama, agora que o presidente se prepara para refazê-la até o final do ano: os iraquianos têm governo que funciona razoavelmente bem, o que só se tornou possível depois que os EUA desistiram de mandar e deixaram que o Iraque buscasse o governo possível em seu habitat natural; e, em segundo lugar, porque Washington traçou na areia uma data para por fim à ocupação – e os ventos do deserto, que tudo apagam, têm-se recusado a permitir que aquela data se apague.


Coltrane once complained to Davis that he-himself (Coltrane) didn't know how to stop or end a solo. Davis responded "Try taking the mother-fucker out of your mouth"

(de internauta, no Youtube, ao som de “So what” , 1959-60, por aí). [NT]


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[1] “Lilly pads” [literalmente, “nenúfares no lago”]. É conceito cunhado durante o governo Bush. Em termos gerais, significa que se trocam as grandes ‘muralhas’ de defesa de durante a Guerra Fria por bases menores, em maior quantidade (espalhadas ‘como nenúfares no lago’). Para os críticos, a ideia dos “lilly pads” já indicava que desde o início da guerra e apesar das discussões do Congresso sobre retirada, o Pentágono sempre trabalhou para permanecer por longo tempo no Iraque (ver, por exemplo, 22/5/2007 , “Pentagon's Iraq Lily Pad Scheme” ) [NT].


O artigo original, em inglês, pode ser lido em: Lessons to learn in Obama's “other” war


Comentário do Arnaldo Carrilho

A resposta de Miles a Coltrane, esses dois gênios para sempre, revela que os grandes artistas filosofam. Eisenstein (e nosso Leon Hirszman) ainda os considerava cientistas. Quanto a So what, a obra-prima da execução de Coltrane virou um clássico, certamente porque soprou a puta-que-o-pariu em seu saxofone... Na Ásia, e Napoleão percebeu isso, autorizando o massacre de Iaffa, já se decidiu o futuro da humanidade, como Glauber deixou em seu roteiro Ciro di Persia e Alessandro di Macedonia, mas o Ocidente - ó céus! - nunca quis entender, desde Thomas Jefferson e, bem antes, São Tomás de Aquino, que a Hélade não passava de implantação asiática no Egeu. Eis porque Washington, aliadas e asseclas jamais contarão com um aluno de Aristóteles na chefia de suas tropas, para chegar à Asia Central e à do Sul (Afeganistão e Paquistão). Se, sem filosofia, não há arte, também não gera guerra, que os antigos tomavam como arte... Eis porque Iraque, Afeganistão, Paquistão, Quirguísia e um suceder de explosões jamais serão sucessos ocidentais: há civilizações por trás de cada um...

Só se colonizam incivilizados, muito simples.