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quarta-feira, 6 de julho de 2011

Outro mundo teria sido possível



Publicado em 06/07/2011 por Mair Pena Neto

Se a Cuba tivesse sido dada a possibilidade de viver em paz sua experiência socialista, o mundo talvez tivesse hoje o exemplo de outro tipo de sociedade para se contrapor à selvageria do capitalismo e sua perda absoluta de valores. Os jovens que ocupam as praças da Europa em crise e que já estiveram nas ruas dos países árabes, sabem muito bem o que não querem, mas não têm uma idéia clara do que desejam e de como chegar a um mundo mais justo.

O capitalismo parece viver uma crise sistêmica e as populações são afrontadas pelo total desprezo que o sistema destina a elas. A insensibilidade social ofende no que exige dos países endividados por seguirem um modelo recomendado pelos donos do poder, e o comportamento dos responsáveis pela ciranda financeira agride a dignidade dos que sobrevivem com o suor do seu trabalho.

Alguém em sã consciência pode considerar normal e aceitável que o principal executivo de uma instituição financeira, que protagonizou a maior crise econômica mundial desde 1929, receba bônus de 200 milhões de dólares depois de seu banco ter sido socorrido pelo Estado, com dinheiro público? Em bom português, trata-se de uma sem-vergonhice atroz, e, pior, sem punição.

O mundo clama por um novo modelo e uma semente foi plantada na ilha caribenha, que incomoda tanto, que até hoje é vítima de um implacável bloqueio. A primeira grande revolução, que sacudiu o mundo no século 20, foi a soviética, que, sem nenhum desprezo pelo que inspirou, inclusive Cuba, se perdeu no centralismo excessivo, tradições autoritárias e privilégios inadmissíveis numa sociedade que se pretende igualitária.

Cuba, inspirada pela alegria caribenha e pelo idealismo do Che, disseminou de forma mais sincera e próxima a nós os valores de solidariedade e de formação do homem novo. Che cobrava de todos os seus auxiliares, nos diferentes postos que ocupou em Cuba, a preocupação primordial com as pessoas de carne e osso. São elas que devem orientar a condução de um país e não a iluminação de seus líderes temporários.

Em Cuba, os interesses sociais prevalecem sobre os individuais. Os valores são outros. Lá, seria inadmissível jovens serem assassinados por outros jovens para lhes tomarem as mochilas e pares de tênis, como acontece com frequência por aqui. O problema foi que o modelo cubano de sociedade, voltado para o ser humano em primeiro lugar, não pode se desenvolver plenamente, afetado por um terrível bloqueio, que o estrangula economicamente há quase meio século.

Os críticos habituais enchem o peito para dizer que o país fracassou, que vive na miséria e não tem como atender seus cidadãos, mas estão lá, de pé, além dos serviços públicos e gratuitos, valores essenciais da humanidade, como a solidariedade e o respeito ao próximo.

Em recente passagem pelo Rio de Janeiro, a médica pediatra Aleida Guevara (foto), filha do Che, manifestou preocupação com alguns aspectos das reformas em curso na ilha. Mas os seus temores não estão relacionados ao poder, até porque não possui nenhum cargo dirigente, mas sim à possibilidade de uma transformação negativa do homem cubano. O que a inquieta é que os trabalhadores por conta própria passem a trabalhar para si mesmos e percam de vista a consciência social.

“O homem pensa segundo vive. Se você vive interessado em melhorar sua casa, a vestimenta, em ter dinheiro no bolso, esquece que a escola infantil da esquina, dos seus filhos, precisa de uma mão de pintura”, afirmou, em entrevista à Folha de S.Paulo.

Tal pensamento parece anacrônico em uma sociedade indiferente e movida ao consumo, mas sobrevive em Cuba, como Aleida Guevara nos prova com sua declaração. É por isso que a Cuba é vedada a evolução e o aprimoramento das transformações profundas a que se propõe. A ilha não tem poder econômico ou militar. Mas continua não existindo nada mais subversivo do que as idéias. E é preciso eliminá-las antes que voltem a se espalhar.

Enviado por Direto da Redação

sábado, 12 de março de 2011

CONFISSÕES E REVELAÇÕES DE ALEIDA GUEVARA

Raul Longo de frente para o Sambaqui

por Raul Longo

Quarta-feira, dia 09, tivemos uma conversa confidencial com a médica pediatra Aleida Guevara que nos revelou a terrível realidade da situação em Cuba.
Peço que mantenham sigilo porque se os Estados Unidos descobre usará como justificativa para fechar ainda mais o bloqueio de 6 décadas que se envergonha a maior potência do mundo, dificulta ainda mais a vida das mulheres e crianças de um dos menores territórios nacionais do planeta.
Nosso encontro se deu na Semana Internacional das Mulheres e aproveitando a intimidade daquela conversa reservada a mim e umas quatrocentas ou quinhentas pessoas que lotaram o TAC – Teatro Álvaro de Carvalho em Florianópolis, Aleida Guevara desabafou.
Após apresentar inúmeros dados aferidos ou reconhecidos pelas entidades internacionais de praxe: ONU, UNESCO, UNICEF e outras menos referidas, mas igualmente reconhecidas como representações femininas internacionais; a filha do herói que ultrapassou as fronteiras de todos os oceanos, nos estarreceu com suas confidências.
Não sei se há um IDF – Índice de Desenvolvimento Feminino ou um IDI – Índice de Desenvolvimento da Infância, mas se houver Cuba é um nação criança que não é feminina só no nome. Para demonstrar isso, a primeira das revelações de Aleida foi um detalhe de sua vida pessoal, quando ainda convivendo com o ex-marido que contou ser hoje um grande amigo. Mas quando viviam juntos, o ex-marido afirmava orgulhoso ser o cabeça do casal. E ela, a Aleida, o pescoço.
Quem não entendeu o sentido um tanto velado do dito do ex-companheiro da Aleida, que tente dirigir a própria cabeça em direção contrária a que o pescoço comanda.
Ocorre que ao expor estes índices internacionais confirmando serem muito poucos os países com tantas mulheres formadas e pós-graduadas quanto em Cuba, Aleida segredou “- Pero tenemos un problema mui sério aqui” – e, indignada, revelou que o número de mulheres em cargos diretivos naquela Ilha, não corresponde ao esperado por tantos títulos universitários a elas conferidos.
Apesar da significativa quantidade de mulheres dirigindo órgãos públicos, hospitais e outras instituições científicas de Cuba, muito superior às maiores nações, a maioria entre os dirigentes ainda são homens, apesar de haver mais mulheres diplomadas do que homens.
“- Así no puede ser!” – e, concordando, fizemos todos caras de espanto, pois jamais imaginaríamos a possibilidade de existir um lugar no mundo onde tantas mulheres ocupem posições de comando. Nem tivemos coragem de expor nossa real admiração porque com aquele olhar guevariano, tão temido pela gente do Fulgêncio Batista, logo nos questionou: “- Y esto por que?”
Que haveríamos de responder? Nosso silêncio a revoltou ainda mais e dedo em riste, acusou “ - Por el gobierno cubano no tener prevenido la necesidad de educación de nuestros hombres para ejercer el convívio familiar!”
“- Ohhhh!” – fizemos, mesmo sem entender muito do que reclamava aquela mulher. Acreditando-se apoiada, explicou que por esta intolerável falta de previdência e planejamento as mulheres cubanas, apesar de perceber os mesmíssimos salários que os homens por categoria, e de gozarem de licença maternidade plena por um ano, após trabalhar durante o dia em casa têm de cuidar das crianças, cozinhar, limpar, cuidar da roupa, preparar a alimentação da família, etc., etc., etc..., finalizando a relação com outra pergunta que se nos cravou fundo:“- Y el hombre ló que hace?”.
Ninguém seria besta de se meter a responder e quando uma mais afoita ia dizer qualquer coisa, o maridão do lado cutucou. Felizmente, pois confiando em que homem é tudo igual certamente substituiria a cachaça brasileira pelo rum cubano ou o futebol pelo baseball. Ainda que pelos mesmos motivos, a reclamação da Aleida foi por outras atitudes, mantendo igual entonação de qualquer dona de casa do Brasil: “- Mui cômodo, se ponen a leer sus periódicos, sus libros, o se van a estudiar. En cuanto para nosotras los estudios se quedaran atrás, en nuestros tiempos de universidad.”
O que aquela maioria de mulheres ali no TAC ia dizer para a revoltada Cubana?: “- Isso não é nada minha filha! Você não faz nem ideia de como são as relações de gêneros aqui no Brasil!”
Não seria consolo algum, pelo contrário! Acharam melhor deixá-la se alimentar de convicções de que “- Tenemos de cambiar eso!”, como se convocasse aquelas brasileiras a embarcar no primeiro Granma que passasse por alguma praia de Florianópolis para depois descerem a Sierra Maestra e tomar os lares de Havana para ensinar marido a marido que compartilhar a vida é também compartilhar as tarefas domésticas.
Uma mais valente sussurrou perguntando como seriam as leis de Cuba para maridos que agridem suas esposas. Aí quem se assustou foi a filha do Che: “- La misma! Imagino que como acá en Brasil una persona que golpea otra, sea hombre, mujer, hijo, o cualquiera, le toca la cárcel!”
Eu bem que achei que não ia dar certo, mas resolveram explicar a Lei Maria da Penha. Aí é que a médica ficou confusa. “- Increíble! Acá hay ley solamente para no patear a las mujeres? A los hombres, que se maten? Esto me parece uno feminismo que no se si diría radical, pero es un tanto raro!”
Tentaram melhorar a explicação e como não lhe ficou claro aquilo de agressões e violências impunes, acabou mudando o assunto e fazendo umas fofocas do pai e da mãe lá nos tempos da revolução. Contou como o comandante era sério e severo e, apesar de muito enaltecer as mulheres nos textos dos seus diários, recomendava que não participassem da guerrilha porque dava confusão entre os homens. Todos jovens e por tantos dias e meses dentro da selva sem ver uma fêmea, Che temia que a presença feminina dividisse a tropa.
Para mostrar que apesar de herói o pai também era um homem como outro qualquer, relatou que por duas vezes o pessoal do Diretório Revolucionário ou do Movimento 26 de Julho de Fidel Castro teve de enviar mulheres para entregar algo aos guerrilheiros comandados por Che, mas ele logo as despachava de volta serra abaixo.
Indiscreta, Aleida revelou que essas duas eram “- ... mujeres feas, feas. Pero cuando fue mi mamá, que era muy guapa...” - com notas de dinheiro presas ao corpo por esparadrapos, ao chegar ao acampamento imediatamente procurou pelo médico para retirar aquelas ataduras que sob o calor lhe ardiam na pele.
Che Guevara era médico, mas não da tropa onde cumpria a função estrita de comandante e por suas próprias rigorosidades militares não admitia mistura de funções. Com sorriso maroto, Aleida afirmou que provavelmente tenha sido a única vez que o comandante passou por cima de suas próprias ordens e convocou-se como médico para despregar os esparadrapos.
“- ... Gracias a eso estoy acá les contando esta historia, pero no digan a nadie porque si me pegan hablando de estos secretos me mandan al paredón!” – e riu como criança que fez travessura.
Mas não ficou só nisso. Noutro momento fez acusação muito séria ao governo cubano, justamente num dos pontos em que o país é mais enaltecido mundo afora: o da educação.
“- Si, verdad, no tenemos analfabetos, hay condiciones de estudios para todos, desde la niñez hasta la universidad en las cuales en muchas especialidades nuestro conocimiento es considerado de los mejores del mundo y recibimos estudiantes de toda parte, incluyo Estados Unidos y Europa. Pero...” – e nos olhou com aquele olhar de quem confidencia terríveis revelações: -… Pero desgraciadamente nadie pensó que hay que tener universidad en el campo y no solo en las ciudades. Cuando llega el tiempo de la universidad, el hijo del campesino tiene que dejar su familia y irse a la ciudad! Después, por supuesto no quiere más volver! Esto tenemos que arreglar! No puede! No es cierto! Es malo para los jóvenes, las famílias…” – e continuou  enumerando uma quantidade enorme de problemas que acarreta às pessoas e às atividades agrícolas o não terem previsto que as faculdades de ciências agronômicas deveriam ser construídas no meio rural.
Boquiabertos, ficamos ali tentando imaginar como será um país onde o maior problema da educação seja não terem imaginado que o melhor para o estudante de cursos agronômicos é estudar onde vive com seus familiares. Certamente muito homem ali -- e havia os de todas as linhas ideológicas, inclusive da direita -- teve vontade de mandar aquela mulher fechar a matraca e parar de reclamar.
E continuaria reclamando se o presidente da União da Ilha da Magia, para finalizar e mudar de assunto, não perguntasse à Aleida se gostou de desfilar no carnaval de Florianópolis.
“- Bueno!... Em mi país cuando hay como eses gran coches en que las mujeres van arriba, siempre son jóvenes muy guapas. Cuando me vi allí arriba, con todo el pueblo mirando a mí y con aquellos guapísimos jóvenes a mi lado, todos muí solícitos y caballeros como si yo fuera una beldad, me dijo a mi misma: ‘- Que papelón estás haciendo Aleida?’. Los agradezco mucho el cariño y la simpatía de los brasileños para con el pueblo cubano, pero, por favor, no me hagan más eso ni me dejen que yo lo haga.”
Todo mundo caiu na gargalhada e a conversa acabou aí, mas se para ela foi bom poder desabafar as verdades que a incomodam em seu país, para nós ficou mais difícil engolir as verdades de nosso país que nos ficaram ainda mais entravadas em nossas gargantas de homens e, sobretudo, mulheres.