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terça-feira, 25 de novembro de 2014

Segregação!

[*] Raul Longo
Texto enviado pelo autor
Ilustrações catadas na internet pela redecastorphoto


Vista da Ponta do Sambaqui da janela do Pouso da Poesia
Chega! Cansei desse negócio de defender minorias. E maiorias também!

Que adianta ser negro se segundo o censo o sujeito é maioria? E mulher? Aí é como dizia o Mário Reis: que parte mais fraca é essa, se juntas são uma fortaleza contra qualquer homem? Coitados de nós se cada vizinha defender a outra! Já imaginou?! Não dá nem para tomar umas sossegado e chegar em casa dando esporro, porque no que virou a esquina trançando as pernas o camarada já toma uma camaçada de pau ou de panela da mulherada da vizinhança toda, só por prevenção! Tem jeito isso?

Não defendo mais ninguém, não! Muito menos pobres e oprimidos! Pobre aonde? Segundo a Danuza Leão que sabe bem dessas coisas, pra encontrar pobre hoje em dia só em fila de check-in de voo internacional!

A última oprimida que vi por aí foi àquela paulistana em passeata da Av. Paulista, histericamente pedindo intervenção militar e a volta da ditadura militar porque sente falta de liberdade de expressão. Com claros sintomas escleróticos a jovem xingou a Dilma e o Lula de tudo quanto é nome.

E com toda a razão!

Afinal que país é esse em que não se pode nem expressar livremente e se é obrigado a reconhecer que nunca o povo brasileiro viveu tão bem? Como é que posso falar ao contrário se o governo rouba minha liberdade de expressão melhorando continuamente o cotidiano da vida do povo brasileiro?

Isso é uma puta censura! Muito pior do que a ditadura! Na ditadura não se podia falar mal, mas se podia manter o senso e a sobriedade. Agora, para falar mal tem de se perder o senso e cair no ridículo como aconteceu com a coitada da garota! Não é horrível?

Localização do Pouso da Poesia na Ponta do  Sambaqui, Florianópolis
Daí resolvi aderir e também vou sair por aí distribuindo bofetada nos mais fracos e oprimidos, em toda essa gentinha fedida e diferenciada! E assim, sob a orientação do ex-sociólogo soborbanno (não confundir com suburbano pra não causar revolta nas periferias) resolvi aderir ao movimento e já comecei a segregar como demonstro nessa reprodução de conversa telefônica ocorrida recentemente:

- Oi Raul! É a fulana.

- Fulana?...

- É... A Fulana de São Paulo!

- São Paulo?!!!... Um momentinho.... (voltando): – Difa aí Fulanha.

- Ué!... É a ligação ou você ficou fanho de repente.

- Fão!... É refite!

- Rinite?! Ih rapaz, nem me fale! Com essa poluição de São Paulo isso vive me atacando! Na falta de água a coisa piorou muito porque não dá pra tomar banho e a gente é obrigada a dormir com a poluição grudada no corpo.

- Pra faver xexo deve fer uma nofeira!

- Nem me fale! Atrito de fuligens!

- Imafino!

- Então Raul, por isso mesmo é que estou te ligando. Aí na tua pousada tem água, né?

- Fabe como é? Lugar turísfico sempre falta na tempofada, mas tenho reserfatório de 10 mil fitos e minha Cantafeira nunca seca porque a noite o fornecimento da fágua regurafiza.  

- Que bom! Parece sonho!

- É!... Estamos na mesma estiafem, mas apefar de também inoferante em muita coisa o gofernador de Santa Catafina até que não é tão fuim como o daí, e por enfanto não tefe problema no abastefimento!

- Êêê Raul!... Você sempre dando suas alfinetas políticas! Então vamos mudar de assunto que não quero discutir sobre isso. Você tem vaga aí por umas semanas?

- Pra fando?

- O mais urgente possível. Eu e o Nando, meu namorado que você vai conhecer, não aguentamos mais! Mais de mês sem fazer sexo por causa da fuligem, imagine! A última vez foi quando fomos pra Natal. Nordestino pra todo lado, mas ao menos água tinha.

- Fei! E querem fir pra cá para tomar fanho, né?

- Fanho tá é você! Mas a gente quer isso mesmo! Banho de mar também, mas importante mesmo é o de chuveiro. Quanto tá a diária?

- Pra paufista é 400 dófares!

- 400 dólares!

- Por paufista! Focê e seu namorado: oitofentos.

- Ficou maluco Raul! Isso é diária de hotel de Miami!

- Num fei! Perfunta pro Joafim Barfosa!

- Pera lá Raul! Isso não é possível! Que história é essa de preço em dólar? E por que pra paulista? Quanto é pra carioca, mineiro, nordestino?

- Oifenta reais.

- Porra Raul! Por que essa especulação? Já sei!... Paulista é burguês, tem dinheiro! Mas acontece que a gente trabalha, viu? Somos a locomotiva do Brasil!

- Então manda o gofernador infestir em trem elétrico pra Maria Fumaça não enfer de fuligem o feu xexo com o namorado. 

- Olha aqui Raul! Isso é a prova de que vocês eleitores de Lula e Dilma não passam de um bando de nazistas cheios de preconceitos. Fascistas! Racistas preconceituosos! Ignorantes, insuportáveis! O Brasil ficaria muito melhor se fossem todos pra Cuba!

- Paulistinha, a culpa não é minha se pela terceira vez vocês elegem o Robin sem Batman que se não conseguiu nem conter o PCC dentro de presídio estadual de segurança máxima, quanto mais o nível dos reservatórios de água!

- Ué... Acabou a renite?

- Renite nada! Tapei o nariz para não sentir o fedor de fuligem de paulista pelo telefone.

- Vai tomar banho!  

E bateu o telefone na minha cara antes de confirmar se interessava ou não a hospedagem com banho e tudo por apenas 400 dólares ao dia, na promoção especial para paulistas.  

Fazer o quê? Fui tomar banho, mas ela não. Se tenho olfato sensível, não é pra segregar?

Eu, logo depois do banho...

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[*] Raul Longo - Nascido em 1951 na cidade de São Paulo, atuou como redator publicitário e jornalista nas seguintes capitais brasileiras: São Paulo, Salvador, Recife, Campo Grande e Rio de Janeiro, também realizando eventos culturais e sociais como a “Mostra de Arte Sulmatogrossense”, (Circulo Cultural Miguel de Cervantes/SP), “Mostra de Arte Latinoamericana” (Centro Cultural Vergueiro/SP) e o Seminário Indigenista (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul/CG). Premiado em concursos literários nacionais promovidos pelo Unibanco, Rede Globo e Editora Abril; pelo Circulo Cultural Miguel de Cervantes; e pelo governo do Estado do Paraná. Publicou Filhos de Olorum – Contos e cantos de candomblé pela Cooeditora de Curitiba, e poemas escritos durante estada no Chile: A cabeça de Pinochet, pela Editora Metrópolis de São Paulo. Obteve montagem de duas obras teatrais:Samba/Jazz of Gafifa, no teatro Glauce Rocha da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, em Campo Grande; e Graças & glórias nacionais, no Centro Cultural Vergueiro, em São Paulo.

Atualmente reside em Florianópolis, Santa Catarina.

sábado, 22 de novembro de 2014

Motim na carceragem da Polícia Federal



“Tudo culpa da Mídia e do Aécio!”


Texto enviado por Raul Longo, livremente baseado em vazamento seletivo do correspondente dele em Curitiba.



Já se culpou Lula por todo mundo ter automóvel, viajar de avião e ingressar nas universidades. Se culpou o governo Dilma pela redução de desabrigados e por desnecessários atendimentos médicos às populações mais pobres.

O país parou de crescer em índice de desempregos, dívida externa, inflação e além de sair da situação de risco financeiro internacional ainda foi expulso do Mapa da Fome. Tudo por culpa de Lula e Dilma!

A soma dessas contradições históricas revoltou a alta classe média que em meados de 2013 foi às ruas para exigir mudanças e, por fim, neste final de 2014 o ódio se irradiou de São Paulo por quase todo o Brasil.

No final da semana passada multidões de até 30 pessoas foram às ruas de diversas capitais exigindo impeachment e a volta da ditadura militar para defender a liberdade de expressão e espancamento de gays, lésbicas, aleijados, negros, nordestinos, velhos, pobres e quem usa camiseta vermelha.

Auschwitzes e treblinkas foram reinstauradas nas redes sociais e até o sociólogo Fernando Henrique Cardoso deu sua contribuição para o genocídio pela purificação sócio/racial.

No entanto, apesar da liderança de gente como o ex-auto exilado Lobinho e do ex-astrólogo Oswaldo do Carvalho, entr’outros, como o imortal zumbi Merdal Pereira, o ex-poeta maranhense de nome esquecido no fundo da gaveta de móvel queimado pra não espalhar cupim e o caquético delinquente juvenil Diego Maismerda; o movimento desandou. E, segundo as informações do nosso impune informante seletivo, ao invés da vaca ir para o brejo o brejo veio à vaca na carceragem da PF de Curitiba.

Empreiteiros indo para a estância climática de Curitiba (PF)
Agora são os grandes empreiteiros que tiram férias compulsórias para descansar da lide de malabarismos milionários em contas bancárias, que aproveitam o tempo vago para se manifestar de suas celas.

Numa clara inversão de valores, ao invés de mudanças querem que tudo volte ao que sempre foi antes das besteiras cometidas pela “ora, Veja!” e o “Neves fora, nada!”.

“Todos soltos!” no dizer da Presidenta reeleita, os maiores banqueiros do país, responsáveis pela malograda transferência on-line da conta poupança de Marina Silva para a conta corrente do Aecinho, a qualquer momento podem ser incluídos na sanha investigativa. Razão pela qual cogitam substanciais cortes de verbas publicitárias destinadas à revista Veja e demais publicações da Editora Abril, evitando maiores comprometimentos agravados pelas delações -- premiadas ou não -- do presidente da UTC que coordenava as operações junto às empreiteiras.

Por inconfesso interesse pessoal Ricardo Ribeiro Pessoa acabou confessando agir sob a orientação de seus colegas coordenadores financeiros da campanha do candidato do PSDB. Em respeito à omissão seletiva da Mídia ao grande anunciante, não revelaremos se tratar do Banco Itaú.

Jornal “O Globo” e TV Globo escaparam por pouco, mas quem está dando voz aos reais motivos da queda da aplicação política na bolsa de ações golpistas são os veranistas da PF protestando contra os maus tratos do neto do falecido Tancredo à concorrente eleitoral: “Onde já se viu tucano cutucar onça com vara curta?” – reclamam numa clara referência a abertura do último debate pela TV, um dia depois da publicação da matéria de capa em edição “casualmente” antecipada da Revista Veja, quando em resposta à provocação do opositor a Presidenta prometeu: “Não vai ficar pedra sobre pedra!”.


Bem verdade que a partir dessa promessa presidencial, ainda que acusando a senhora de leviana, o tucano fechou o bico sobre Petrobras e não retornou ao assunto pelo resto do debate, evitando as próprias leviandades ou por medo das consequências que se espocam.

Mesmo que fique só no início, o estrago está feito e se por enquanto apenas os corruptos e corruptores diretos são os depenados, esse esvoaçar de penas lançadas ao ventilador bem pode vir pelar até quem passou ao largo.

Pelo jeito não vai adiantar a estratégia de sair de fininho, disfarçando com promessas de convocação de nova CPI. Até chegarem com a caçarola da nova CPI, muitos já estarão assando entre as pedras quentes demolidas pela promessa.

O que mais se teme é uma total inversão de valores entre as elites confinadas que, ao invés de apoiarem seus agentes políticos e da Mídia, podem passar a promover a queima de verbas destinadas a panfletos e publicações promocionais como a própria revista Veja e similares, empastelando departamentos comerciais de deficitários veículos de ilações já tão mal falados pelo povo que insiste em não ser bobo.

Sem público, o que será desse setor há mais de uma década politicamente inútil para as elites? Investimento perdido numa campanha ou outra, vá lá! Mas quanto mais de dinheiro se jogará pela janela se Petrobrás e demais estatais fecharem as comportas?

Pior é que a edição antecipada da Veja e a leviandade do Aécio reforçaram a premência do fim do financiamento privado de campanhas políticas, o que resultará numa estiagem que perenizará a seca do sistema da Cantareira eleitoral, com ou sem paulistas para reeleger indefinidamente Geraldo Alkmin  e correlatos.

Reginaldo de Azeredo, Oswaldo de Carvalho, Robaldo
Heresia e outros prestes a ser comidos pela petralhada
Procurados por nossos correspondentes de São Paulo, o Reginaldo de Azeredo não quis se pronunciar e sequer alegou jornalismo de hipóteses. “Não sou camelo nem ali nem aqui” – teria murmurado, mas pode ser mera ilação permissível ao nosso repórter que por cobrir a Veja tem todo o direito de mentir quanto e como queira.

Por sua vez o Ministro da Justiça se fecha em copas sobre o vazamento seletivo das investigações sob segredo de justiça, premiando mais aos agentes corruptos da PF do que à delação do Costa e do Yussef. Evidente injustiça com os hóspedes da carceragem de Curitiba, sobre cujas cabeças pende o Duque de espadas. E o pior é que do baralho da investigação Lava Jato sumiu o coringa que jurou ingentes esforços oposicionistas, mas sumiu do Congresso.

“Será que ele está no Pão de Açúcar? – perguntaria Monsueto.

Boatos maldosos garantem que depois do Clube Militar mandar a delirante turba golpista arrumar um tanque de roupa pra lavar, o ex-candidato subiu o Canta Galo ou se meteu pela favela da Maré em busca de algo para clarear a nebulosa e confusa situação pós-eleitoral. Já os mais informados dão conta de novo retiro espiritual no isolamento de um andar de hospital de BH, em tais ocasiões sempre interditado para reformas.  

Há ainda o risco de ao assumir em 1º de Janeiro o novo governador de Minas mandar a vigilância sanitária investigar aquela e demais obras insistentemente denunciadas por policiais civis que não aprendem nem com atentados à vida. Pode moer até ficarem aleijados ou em coma que não desistem de tamanha ranhetice, num típico vingancismo mineiro que Guimarães Rosa muito bem descreveu no conto “O Duelo”.  

Falta alguém (MUITOS) em Curitiba...
Ou seja, não importa quem será o futuro presidente da Câmera, mas que se cuide! De CPI em CPI o caçador pode ser cassado, pois entre privatarias, lista de Furnas e tudo o mais, muita sarna há ainda à coçar.

Enfim, evitando as cogitações e nos restringindo aos fatos informados pelo correspondente é que a grita e choramingas é tão grande que encheu a paciência do carcereiro de Curitiba que já deu o recado: “Casa, comida e roupa lavada! Tão querendo mais o quê? Guarda o fôlego pro depoimento sair premiado porque se não calarem a boca chamo o Tancredo Tolentino para sentar a porrada em ‘cês tudo!”

Com o Quedão não tem moleza e segundo o polícia lá de Minas Gerais o que não falta no currículo e nas terras do primo é arquivo queimado! Mas aos amotinados da PF nada disso assusta e um de seus advogados lamenta: “São apenas empresários, não têm nada a ver com helicóptero, aeroporto, habeas corpus pra traficante, licenciamento de viatura do crime organizando, nada disso. A culpa é só do Aécio e da Mídia!”.

Quer dizer: já começou o jogo do empurra!


[*] Raul Longo - Nascido em 1951 na cidade de São Paulo, atuou como redator publicitário e jornalista nas seguintes capitais brasileiras: São Paulo, Salvador, Recife, Campo Grande e Rio de Janeiro, também realizando eventos culturais e sociais como a “Mostra de Arte Sulmatogrossense”, (Circulo Cultural Miguel de Cervantes/SP), “Mostra de Arte Latinoamericana” (Centro Cultural Vergueiro/SP) e o Seminário Indigenista (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul/CG). Premiado em concursos literários nacionais promovidos pelo Unibanco, Rede Globo e Editora Abril; pelo Circulo Cultural Miguel de Cervantes; e pelo governo do Estado do Paraná. Publicou Filhos de Olorum – Contos e cantos de candomblé pela Cooeditora de Curitiba, e poemas escritos durante estada no Chile: A cabeça de Pinochet, pela Editora Metrópolis de São Paulo. Obteve montagem de duas obras teatrais:Samba/Jazz of Gafifa, no teatro Glauce Rocha da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, em Campo Grande; e Graças & glórias nacionais, no Centro Cultural Vergueiro, em São Paulo. Atualmente reside em Florianópolis, Santa Catarina.



segunda-feira, 4 de novembro de 2013

De Buenos Aires à Dublin, os traidores de Jorge Lescano

Capa do novo livro de Jorge Lescano e algumas razões para recomendá-lo
Resenha de um livro não lido... Por Raul Longo [*]

Putas, rufiões, malandros, ingênuos... Enganados e enganadores já faziam parte do universo plástico, dramatúrgico e narrativo de Jorge Lescano quando minhas preocupações não conseguiam superar o trauma do convívio familiar. No meu mundo só havia patrões exploradores, operários explorados, capatazes e policiais repressores, vez por outra alguns corajosos condenados à marginalidade e, na maioria dos casos, a serem eliminados ao final das histórias onde tentava dar consistência às existências de vizinhos e parentes, personagens de meu cotidiano transcritos ao papel. 

Invejava a existencialidade dos personagens do Lescano, muito mais rica do que as dos meus. Até porque mais variados, mais completos. Completando o universo humano que a mim, ainda em meus 18 anos de idade, era restrito a uma reprimida experiência pessoal.

Uma geração anterior à minha, vindo de Buenos Aires de onde escapara de uma feroz ditadura para se encontrar com nossa feroz ditadura brasileira, Jorge Lescano já lera uma bibilioteca com mais do dobro de volumes do que eu ainda pretendia ler. Afora isso, aquele índio do norte da Argentina tinha um poder que me faltava: ele conseguia literalmente dar forma física as suas personagens, sobretudo às femininas.

Ah! As curvas das mulheres do Jorge!... Atração realçada por lingeries, meias de nylon e cintas ligas. Por melhor que eu imaginasse minhas prostitutas, por mais que as vizualizasse em algumas vizinhas e primas de minha infância, não saberia desenhá-las, dar-lhes formas palpáveis aos olhos. E Jorge desenhava as suas.

Mas aí havia uma decepcionante mania do Jorge que me angustiava e doía, pois ao invés de manter apenas o que há de belo e admirável no contorno da epiderme feminina, seccionava o corpo de suas personagens desenhadas revelhando-lhes o conteúdo como num efeito de raio-x. Expunha-lhes a anatomia muscular subcutânea, muitas vezes revolvendo-lhes até os órgãos, as vísceras, num insólito resultado ao erotismo de um belo seio desnudo ladeado pelas glândulas do par, ou desfazendo a languidez de uma cintura em pâncreas, fígado, estômago ou intestino.

Jorge Lescano
Talvez fosse o caso de sentir-me traído pelo Lescano, mas exatamente pela sinceridade dilacerante de sua arte concluía que, em Lescano, impossível um traidor.

E assim o fiz meu mestre. Foi com quem aprendi a escrever. E a ler também.

Na literatura mais o admirava quando multiplicava as personalidades de seus personagens para o teatro onde a ficção teria de ser não só o enredo e os personagens, mas inclusive os atores e o próprio teatro como espaço físico. Também - por que não? - o público e o autor.

No realismo do sardônico humor de Lescano encontrei algo que a princípio me pareceu proveniente da Commedia Dell'Arte e, sim, havia uma evidente intenção em ridicularizar absolutismos, fossem monárquicos ou ditatoriais na conformidade e similaridade dos da época em que, então, vivíamos. No entanto, havia uma malícia no teatro do Jorge que não arriscaria a dizer mais sutil do que a da Commedia Dell'Arte, até porque em verdade muito mais sarcástica do que irônica.

Aquilo decididamente não era europeu, pois estava muito mais pra Pedro Malasartes do que pra Pantaleão, Matamoros ou Arlequim. Mas, sem dúvida, havia mais sagacidade, mais argúcia e, como eu não fazia ideia de onde saíra aquilo, levava em conta de ser apenas alegorias dos eruditismos e da imaginação do Lescano mesmo.

Mas anos depois fui encontrar aquele deboche, aquela forma de rir quase pra dentro como quem tenta disfarçar o hilário condoendo-se do ridículo, no mais profundo de nossos sertões. E, então, lembrei que apesar de todo o europeísmo desenvolvido ao longo de seus tempos de Buenos Aires, mais as décadas correspondentes à São Paulo, Jorge Lescano antes de tudo é o que o chamavam os portenhos: "un cabezita negra". Um índio.

Não li "O Traidor de Dublin", mas todas as indicações que precedem e complementam o titulo do livro me fazem deduzir que siga a linha de suas comédias teatrais e, salvo enorme engano em que não creio ter incorrido, nele se poderá identificar o hipócrita cotidiano que nos sorri pela tela da TV, na mesa de reunião, no elevador, no outro lado da cerca do vizinho ou - vá se saber! - até no espelho quando se faz a barba.

Quantas vezes o enganador engana a si mesmo!

Seja em Dublin, Buenos Aires, Cochabamba ou Florianópolis, se trai por motivos tão ínfímos e casuais que cada um se trai até a si próprio sem nem mesmo perceber. Posso estar muito enganado, afinal eu e Jorge, hoje, bem pouco sabemos da produção de um e outro, mas certamente "O Traidor de Dublin" nos fará rir muito de gente localizada bem mais próximo de nossas vidas distantes. Inclusive rir de nós mesmos, pois intelectuais e eruditos ou não, "cabezitas negras" continuam sendo sempre os mesmos índios de sempre que jamais dão gargalhadas, mas quando se põem a fazer rir é numa enfiada de princípio a fim. Um rascar infindiável de risos contidos, mas inevitáveis e, quando menos se espera, se está rindo até de quem jamais se poderia imaginar tão ridículo pela própria seriedade que cada um, inadvertidamente, se devota.

Como disse, não li o livro. Melhor assim, pois se o houvesse lido meu comentário seria ainda mais suspeito. Mas insisto para que se pesquise e encontre "O Traidor de Dublin" do Jorge Lescano em alguma livraria ou através de um desses meios de aquisição por encomenda, porque estou certo de que assim como me aconteceu há pouco tempo, todos sempre iremos nos deparar com os personagens do Jorge Lescano em qualquer lugar do mundo.

Faz parte da tragicomédia do viver aqui, ou em Dublin.
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[*] Raul Longo - Nascido em 1951 na cidade de São Paulo, atuou como redator publicitário e jornalista nas seguintes capitais brasileiras: São Paulo, Salvador, Recife, Campo Grande e Rio de Janeiro, também realizando eventos culturais e sociais como a “Mostra de Arte Sulmatogrossense”, (Circulo Cultural Miguel de Cervantes/SP), “Mostra de Arte Latinoamericana” (Centro Cultural Vergueiro/SP) e o Seminário Indigenista (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul/CG). Premiado em concursos literários nacionais promovidos pelo Unibanco, Rede Globo e Editora Abril; pelo Circulo Cultural Miguel de Cervantes; e pelo governo do Estado do Paraná. Publicou Filhos de Olorum – Contos e cantos de candomblé pela Cooeditora de Curitiba, e poemas escritos durante estada no Chile: A cabeça de Pinochet, pela Editora Metrópolis de São Paulo. Obteve montagem de duas obras teatrais: Samba/Jazz of Gafifa, no teatro Glauce Rocha da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, em Campo Grande; e Graças & glórias nacionais, no Centro Cultural Vergueiro, em São Paulo.Atualmente reside em Florianópolis, Santa Catarina.


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

O inverso da velha piada

Texto de Raul Longo [*]
Ilustrações redecastorphoto

Lembram-se daquela velha piada do papagaio do padre francês que a cafetina comprou para dar um ar de moralidade na porta de entrada do rendez-vous muito chic e bem frequentado, oferecendo recepcionistas importadas, sobretudo francesas que mexiam com os fetiches e imaginações da macharada da época?

Martin Almada e a
Operação Condor
O bichinho muito educado cumprimentava a cada um que entrava e saía na maior finesse:

Bon soir Monsieur! Comment allez-vous? Arrivez vous chez les Mademoiselles! Ça va bien?.

Mas no dia que viu uns generais fardados aproximando-se e em direção à casa de tolerância, berrou adentro:

Corrê putadá qu’ os homê vem chegandô!

Pois é... De tão velha ninguém mais ri dessa piadinha que se em algo divertia nos tempos da ditadura, era só pela chacota implícita aos milicanalhas da ocasião. E o francesismo incluído em algumas interpretações era só rapapé para obter maior efeito, realçando o brasileirismo final com nosso francês colegial do currículo escolar de então.

Mas o tempo passa, as coisas mudam e, quem diria, a velha piada ressurge em versão inversa, como se vê aí nos agradecimentos e solicitações do prêmio Nobel Alternativo, Dr. Martin Almada, vítima da Operação Condor, ao Embaixador da França no Paraguai.

Como diz aí entre 2004 e 2008 os arquivos dos crimes da Operação Condor foram abertos e investigados pela Commission pour la Vérité et la Justice da Argentina com a cooperação da justiça paraguaia e, agora em dezembro de 2013, se dará no Senado Francês e no Palais de Luxembourg une Conférence Internacionale sur l’Opération Condor.

Chic, não é? Já deveria ter chegado nossa vez de receber tamanha honraria e interesse internacional afinal nossa ditadura militar começou 10 anos antes da dos milicanalhas da Argentina. Ainda que a do Paraguai houvesse iniciado exatamente outra década antes da do 1º de Abril de 1964, com Alfredo Stroessner que iniciou sua carreira de crimes políticos contra o povo vizinho em 1954 e só em 1989 fugiu para o Brasil onde ficou acoitado até sua morte em 2006, em total impunidade.

Olivier  Poupard
Emb. da França no Paraguai
Infelizmente todos os nossos ditadores tiveram o mesmo lamentável destino, mas ainda vagam por aí muitos de seus colaboradores e bem merecem serem igualmente lembrados lá na França. Para o que todos podem colaborar divulgando essa carta do Dr. Martin Almada como um incentivo à nossa Comissão da Verdade e da Justiça.  

Mas não façam como o papagaio da piada. Sem avisos pra putadá que, hoje muito modesta, prefere o ostracismo dos pijamas que substituem as fardas nos cabides, como trocaram os cabos elétricos e alicates de arrancar unhas pelo controle remoto de TV.

Segura o bico do papagaio porque tem de ser surpresinha para não debandarem em saída à francesa.

Mas repassem! Eles merecem.

A seguir a carta (traduzida do francês para o português-BR) do Dr. Martin Almada ao Embaixador da França em Assunção- Paraguai

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Dr. Martin Almada
Dr. Martin Almada
Av. Carlos A. Lopez, 2273
Assunção

Assunção, 28 de outubro de 2013

À atenção de Sua Excelência
Embaixador da França
Dr. Olivier Poupard

Senhor Embaixador,

Em 22 de dezembro de 1992, com apoio da justiça de meu país descobri, após 14 anos de busca, 3 toneladas de arquivos da polícia secreta da ditadura de Alfredo Stroessner, que a imprensa se apressou em batizar como”Arquivos do Terror da Operação Condor.

Logo após esta descoberta o Congresso paraguaio criou a Comissão para a Verdade e a Justiça, trabalhou sobre esses arquivos desde 2004 até 2008, trabalho esse que resultou em 8 volumes de conclusões e recomendações.

Em 2009 a UNESCO declarou esses “Arquivos do Terror”  como Patrimônio da Humanidade, garantindo assim sua preservação e o direito de meu povo a consultá-los livremente. 

Como o senhor sabe, diante da inação da justiça paraguaia que se seguiu às conclusões obtidas pela Comissão da Verdade e a Justiça, venho trazer uma queixa-crime diante da justiça da Argentina, como me permite o princípio da Justiça Universal, visando continuar meu combate aos torturadores de meu pais e, assim, fazer respeitar os Direitos Humanos no Paraguai.

Entre 13 e 14 de dezembro de 2013 será realizada no Senado Francês e no Palácio de Luxemburgo uma Conferência Internacional sobre a Operação Condor em parceria com o Coletivo Argentino pela Memória. Nesta ocasião estarei no local para proferir um discurso pelo XXIº aniversário da descoberta dos “Arquivos do Terror”.

Esta carta visa solicitar uma audiência com o Presidente da República francesa, Sr. François Hollande, quando de minha já referida viagem à França, para exprimir oficialmente minha profunda gratidão ao seu país por ter me acolhido durante meu exílio forçado entre 1979 e 1992.

Da mesma maneira desejaria exprimir meu reconhecimento por ter sido a França o primeiro país a reconhecer a importância de minha descoberta, única em seu gênero em nosso continente, me condecorando com a Ordem Nacional do Mérito em 14 de fevereiro de 1997.

Queira aceitar, Senhor Embaixador, a expressão de minha mais distinta consideração,

Dr. Martin Almada,
Prêmio Nobel Alternativo

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[*] Raul Longo - Nascido em 1951 na cidade de São Paulo, atuou como redator publicitário e jornalista nas seguintes capitais brasileiras: São Paulo, Salvador, Recife, Campo Grande e Rio de Janeiro, também realizando eventos culturais e sociais como a “Mostra de Arte Sulmatogrossense”, (Circulo Cultural Miguel de Cervantes/SP), “Mostra de Arte Latinoamericana” (Centro Cultural Vergueiro/SP) e o Seminário Indigenista (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul/CG). Premiado em concursos literários nacionais promovidos pelo Unibanco, Rede Globo e Editora Abril; pelo Circulo Cultural Miguel de Cervantes; e pelo governo do Estado do Paraná. Publicou Filhos de Olorum – Contos e cantos de candomblé pela Cooeditora de Curitiba, e poemas escritos durante estada no Chile: A cabeça de Pinochet, pela Editora Metrópolis de São Paulo. Obteve montagem de duas obras teatrais: Samba/Jazz of Gafifa, no teatro Glauce Rocha da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, em Campo Grande; e Graças & glórias nacionais, no Centro Cultural Vergueiro, em São Paulo.Atualmente reside em Florianópolis, Santa Catarina.


terça-feira, 29 de outubro de 2013

O coronel da PM e o Black Bloc do PT

Texto de Raul Longo [*]
Ilustrações: redecastorphoto (colhidas na internet)

Os Black Blocs e a PM na manifestação em São Paulo
É como dizem: “ainda morro sem ver tudo”.

Aqui, no caso, seria ouvir. Não sei se por ser “da Magia”, nesta Ilha de Florianópolis por vezes tenho a impressão de ouvir vozes do além ou, para usar uma terminologia mais antropológica, de um universo paralelo, daqueles onde tudo ocorre ao inverso.

Foi a sensação que experimentei certa vez ao ouvir uma política do PT local ameaçar de pedir a cabeça de alguém por não ter atendido a uma convocação. E o mais interessante é que nem a política nem o ameaçado de acefalia compulsória pertencem a alguma organização de rígidas formações hierárquicas, dessas em que o soldado raso tem de atender o chamado e ouvir de cabeça baixa o que o superior tiver a falar, respondendo somente ao que lhe for inquirido.

Bem... Passou, faz tempo, esqueci. Mas ainda há pouco tempo escuto outras vozes bastante estranhas, insolitamente também vindas de alguém que se apresenta como do PT. E essa era tétrica: “Escreve o que tô dizendo: até a eleição de 2014 vai correr sangue nas ruas do país”.

Black Blocs vandalizam entrada de agência bancária no Rio de Janeiro
Como anteriormente essa mesma voz já assoprara a mesma ordem de escrever como inconteste o fato de que Dilma estaria apenas preenchendo buraco para Lula se candidatar à presidência neste 2014, não levei a sério a sanguinolenta advertência. No entanto, conforme se lê no excelente comentário do Sérgio Saraiva publicado no link do Nassif (disponibilizado no link adiante) a previsão já se cumpre e o sangue anunciado escorreu pela cabeça de um coronel da PM.

Mas aquilo de Lula usar o mandato da Dilma como “tapa buraco”, tal qual se imaginava ser o propósito do Fernando Henrique com a indicação do José Serra para o período 2002 – 2006 me pareceu exagero. No caso que não deu certo, o da indicação do Serra, houve alguém que afirmou ter ouvido a declaração do intento pela boca do próprio FHC, mas tenho minhas dúvidas sobre os poderes de premonição dessa voz que me sussurra acusações de traições de Lula a personagens com os quais me correspondo na vida real e, todos, por ele demonstram a mesma admiração que nutro pelo ex-presidente.


Ainda ontem mesmo, de alguns desses recebi entusiásticas mensagens em homenagem ao aniversário de 68 anos de idade do Luís Ignácio Lula da Silva.

Mas, conforme me ensinaram alguns xamãs nos tempos em que andei lá pelas aldeias indígenas do Mato Grosso, nisso de universo paralelo pode acontecer de ser assim mesmo: tudo exatamente ao inverso do mundo real. O que é bom fica ruim, o certo está errado, o amigo vira inimigo. Claro exemplo é o dessa “voz sombra” - como dizia Macunaíma daquelas que se transmitem pela “máquina telefone” - que a despeito de se afirmar como palavra de político da linha trabalhista, costumeiramente se manifesta em exigências que reportam inflexíveis intolerâncias ditatoriais.

Negociações e alianças políticas nem pensar! Angela Merkel sofreria sérias retaliações se os discursos dessa voz soassem lá praquelas bandas, pois é radical e diz que se governa pela marra e apoios têm de ser conquistados no berro. O que não pode é conceder cargo nem se sujeitar a decisões parlamentares. Concedeu um trisco não é mais PT de verdade. Nem esquerda.

Mas comecei a desconfiar do petismo ou do esquerdismo reivindicado pela voz quando num deslize comentei algo sobre a influência da mídia nas manifestações de junho. De forma alguma! O Brasil do universo paralelo está numa situação nunca antes sequer imaginada de tão ruim e os que foram às ruas pedir o impeachment da Presidenta, foram motivados por justa causa, pois tudo está mesmo insuportável.

Tentei analisar, comparar incongruências com resultados de pesquisas que pouco antes de junho indicavam a Presidenta como recordista de popularidade, mas não teve jeito. Não pôde admitir nenhuma procedência em minha conclusão da participação da mídia na eclosão do espontâneo movimento contra o qual – garantiu - foi a primeira a se levantar.

Insisti comparando outros piores momentos da história política do país sem qualquer reação popular, mas só fiz irritar a voz que rouquejou lembranças de envolvimentos próprios igualados em desproporcionais dimensões ahayauasqueiras.

Mas o que sombreou mesmo a voz foram minhas brincadeiras ao remeter, via internet, algumas das conclusões de observadores nacionais e internacionais, acompanhadas de cópias de colunas de jornais e capas de revistas que na primeira hora enalteceram o movimento de junho, para só lamentá-lo no mês seguinte. Mandou que eu respeitasse os fios brancos de meus cabelos e não consegui entender a simbologia na miração provocada pelos meus cabelos efetivamente brancos. (miração - alucinação visual provocada por ingestão de ayahuasca, no jargão dos adeptos da seita do Santo Daime).

Em ocasião seguinte, ainda insatisfeita, a voz se manifestou novamente iniciando por um discurso de aversão ao samba dominical promovido por um meu amigo. Aquilo me aborreceu, mas na sequência não me importei com a reclamação pela cor que usei na pintura de minha casa ou contra o meu gosto pelos versos do Fernando Pessoa.

Já antes alguns conhecidos e um amigo por quem tenho muito carinho pela gentileza e elegância, reconhecido em diversos centros do Brasil pela coerência política no que faz, haviam me alertado sobre as arrogâncias e prepotências daquela voz. Como pouco a conhecia, nem tive o que dizer aos comentários, inclusive porque em 1964 eu tinha 12 anos de idade e dali até o final da ditadura acostumei-me de tal forma a esse tipo de comportamento que nem mais me incomodo. Apenas mudo de canal, desligo a TV, viro a página ou jogo no lixo e vou procurar algo de melhor a fazer na vida.

Portanto, já de sobreaviso, deixei-me divertir um pouco com os rompantes da voz desconexa e muito mal informada que repentinamente e sem ser solicitada, por algum propósito ou sem nenhum, passou a discorrer preconceitos contra o ex-presidente Lula. Não sei se houve intenção de me provocar em minhas admirações por Lula, mas, se isso, não obteve efeito porque elencou considerações sobejamente conhecidas através de vozes do mundo real. E foi como rever Collor de Melo, Arthur Virgílio, ACM Neto e até o Larry Rohter, aquele ex-correspondente do New York Times que acusou Lula de bêbado por ter inaugurado a festa do chope de Blumenau brindando com uma caneca de chope.

Pois naquela conversa aprendi que bêbado, vagabundo e mau pai também são os preconceitos dedicados ao Lula no universo paralelo do petismo radical. Lembrei-me da amizade e admiração do enteado Marcos Lula, mas quando derivou para o José Dirceu preferi estimular a voz para ver a que ponto atingia a borracheira e ressuscitei o Waldomiro Diniz. (borracheira – alucinação desagradável no estado alterado de consciência por ingestão de ayahuasca).

Ambulâncias superfaturadas na gestão Serra (FHC) no Ministério da Saúde (Sanguessugas)
Note que a cabine de atendimento do veículo comporta o doente apenas SENTADO...
Continuei explorando as variações e potencialidades do delírio e resgatei o caso dos Aloprados, mas aí a peia pegou braba e a voz partiu pro macabro, atribuindo o recente falecimento do Gushiken ao comentário do Lula sobre o grupo que as vésperas da eleição de 2006 caiu na armadilha armada pela Globo com a isca do dossiê dos Vedoin (peia – forte sensação de mal estar provocada pela ingestão do ayahuasca).

Tentei dar alguma coerência para a conversa desconexa procurando denotar a ausência de relação entre os Aloprados e o dirigente da campanha de Lula, mas teimou do alto das já alertadas prepotências e, cansado de tanto delírio para uma única noite, me despedi prometendo novamente passar a real pela internet.

Dessa vez maneirei na brincadeira para não ferir os brios da torcida, mas de toda forma se exacerbou nas patentes que, mesmo não as tendo, em algo me faz compreender os Black Blocs que neste comentário do Saraiva me provocam cogitações sobre a possibilidade das intolerâncias e incivilidades da ditadura militar ou da formação patriarcal de nossa elite agrária, provavelmente oriundas dos séculos de escravismos, serem herdadas não apenas exclusivamente por fardas e galões, mas inclusive por todos os demais segmentos e estratos sociais.

Coronel da PM surrado por Black Blocs

Não se tramará nas malhas das máscaras negras do vandalismo o mesmo rancor das aspirações individuais contrariadas? Seja onde for, nos Black Blocs das ruas ou nas gravatas das telas de TV, no tailleur da analista econômica ou no linho do chapéu do editor de revista ou articulista de jornal, não haverá algo do mundo real de ser derrubado, destruído, servindo de passagem, espécie de portal para o destruidor conseguir encontrar o que tenha perdido de si próprio?

Não se imiscuirá à intolerância alguma insuficiência, desinformação, falta de real interesse ou comodismo? Não será mais imediato e menos operoso promover a aniquilação, destruição, quebra, rompimento?

Fazer calar é mais fácil do que ouvir. Impor é mais fácil do que explicar. Achar é mais fácil do que procurar.  

Destruir é mais fácil do que construir, embora na surdez, na incompreensão, na ausência de curiosidade e na incapacidade de realização se gere a insatisfação que se tenta compensar pela prepotência. A prepotência do verdadeiro coronelismo.

A farda é abstrata. Um general nu não é nada. Por mais general que seja terá de berrar, exigir, manter a pose e a palavra.

Mas o que se equipara ao poder de quebrar, destruir, romper? Só esse poder compensa a frustração por aquilo que não se compreende e se tem preguiça de tentar entender. Provavelmente não seja uma solução, mas a frustração não procura por solução e, sim, por compensação.

Compensará o quebrar, destruir, romper com o que houver de concreto ou abstrato: a cabeça do coronel, o ponto do ônibus, a porta do banco, o telefone público ou qualquer vínculo com a civilidade?

Black Blocs atacam coronel da PM Reynaldo Rossi em SP
O coronel da PM a quem racharam a cabeça certamente não terá resposta para esta questão que talvez apenas um velho coronel -- daqueles de terras, gado e gente -- pudesse responder se conseguisse ser sincero consigo mesmo, mas compensando ou não, uma coisa é certa: o estigma da prepotência e da arrogância do coronelismo ainda é uma herança entre todas as classes sociais no Brasil.

Até no PT, onde também há quem busque se compensar tentado quebrar a reputação do Lula. Tem alguma lógica, afinal o mais sólido sempre será o maior desafio do Black Bloc que, conforme demonstra o Sérgio Saraiva, [1] não são mudos. Muito pelo contrário, fazem questão de que quem seja pego como vítima os escute até o fim. E falam muito, embora sem nada de novo a dizer.

Eu hein!... Mudo de canal!
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Nota do autor:
[1] Não, esse é o problema. Os blacks blocs podem ser cegos e surdos, mas não são mudos e nem aleijados. E não é o seu silêncio, mas os gritos de suas vítimas, que estão contrapondo a sociedade brasileira. Por Sergio Saraiva

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[*] Raul Longo - Nascido em 1951 na cidade de São Paulo, atuou como redator publicitário e jornalista nas seguintes capitais brasileiras: São Paulo, Salvador, Recife, Campo Grande e Rio de Janeiro, também realizando eventos culturais e sociais como a “Mostra de Arte Sulmatogrossense”, (Circulo Cultural Miguel de Cervantes/SP), “Mostra de Arte Latinoamericana” (Centro Cultural Vergueiro/SP) e o Seminário Indigenista (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul/CG). Premiado em concursos literários nacionais promovidos pelo Unibanco, Rede Globo e Editora Abril; pelo Circulo Cultural Miguel de Cervantes; e pelo governo do Estado do Paraná. Publicou Filhos de Olorum – Contos e cantos de candomblé pela Cooeditora de Curitiba, e poemas escritos durante estada no Chile: A cabeça de Pinochet, pela Editora Metrópolis de São Paulo. Obteve montagem de duas obras teatrais: Samba/Jazz of Gafifa, no teatro Glauce Rocha da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, em Campo Grande; e Graças & glórias nacionais, no Centro Cultural Vergueiro, em São Paulo.Atualmente reside em Florianópolis, Santa Catarina.