Mostrando postagens com marcador Milicanalhas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Milicanalhas. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

O inverso da velha piada

Texto de Raul Longo [*]
Ilustrações redecastorphoto

Lembram-se daquela velha piada do papagaio do padre francês que a cafetina comprou para dar um ar de moralidade na porta de entrada do rendez-vous muito chic e bem frequentado, oferecendo recepcionistas importadas, sobretudo francesas que mexiam com os fetiches e imaginações da macharada da época?

Martin Almada e a
Operação Condor
O bichinho muito educado cumprimentava a cada um que entrava e saía na maior finesse:

Bon soir Monsieur! Comment allez-vous? Arrivez vous chez les Mademoiselles! Ça va bien?.

Mas no dia que viu uns generais fardados aproximando-se e em direção à casa de tolerância, berrou adentro:

Corrê putadá qu’ os homê vem chegandô!

Pois é... De tão velha ninguém mais ri dessa piadinha que se em algo divertia nos tempos da ditadura, era só pela chacota implícita aos milicanalhas da ocasião. E o francesismo incluído em algumas interpretações era só rapapé para obter maior efeito, realçando o brasileirismo final com nosso francês colegial do currículo escolar de então.

Mas o tempo passa, as coisas mudam e, quem diria, a velha piada ressurge em versão inversa, como se vê aí nos agradecimentos e solicitações do prêmio Nobel Alternativo, Dr. Martin Almada, vítima da Operação Condor, ao Embaixador da França no Paraguai.

Como diz aí entre 2004 e 2008 os arquivos dos crimes da Operação Condor foram abertos e investigados pela Commission pour la Vérité et la Justice da Argentina com a cooperação da justiça paraguaia e, agora em dezembro de 2013, se dará no Senado Francês e no Palais de Luxembourg une Conférence Internacionale sur l’Opération Condor.

Chic, não é? Já deveria ter chegado nossa vez de receber tamanha honraria e interesse internacional afinal nossa ditadura militar começou 10 anos antes da dos milicanalhas da Argentina. Ainda que a do Paraguai houvesse iniciado exatamente outra década antes da do 1º de Abril de 1964, com Alfredo Stroessner que iniciou sua carreira de crimes políticos contra o povo vizinho em 1954 e só em 1989 fugiu para o Brasil onde ficou acoitado até sua morte em 2006, em total impunidade.

Olivier  Poupard
Emb. da França no Paraguai
Infelizmente todos os nossos ditadores tiveram o mesmo lamentável destino, mas ainda vagam por aí muitos de seus colaboradores e bem merecem serem igualmente lembrados lá na França. Para o que todos podem colaborar divulgando essa carta do Dr. Martin Almada como um incentivo à nossa Comissão da Verdade e da Justiça.  

Mas não façam como o papagaio da piada. Sem avisos pra putadá que, hoje muito modesta, prefere o ostracismo dos pijamas que substituem as fardas nos cabides, como trocaram os cabos elétricos e alicates de arrancar unhas pelo controle remoto de TV.

Segura o bico do papagaio porque tem de ser surpresinha para não debandarem em saída à francesa.

Mas repassem! Eles merecem.

A seguir a carta (traduzida do francês para o português-BR) do Dr. Martin Almada ao Embaixador da França em Assunção- Paraguai

____________________________

Dr. Martin Almada
Dr. Martin Almada
Av. Carlos A. Lopez, 2273
Assunção

Assunção, 28 de outubro de 2013

À atenção de Sua Excelência
Embaixador da França
Dr. Olivier Poupard

Senhor Embaixador,

Em 22 de dezembro de 1992, com apoio da justiça de meu país descobri, após 14 anos de busca, 3 toneladas de arquivos da polícia secreta da ditadura de Alfredo Stroessner, que a imprensa se apressou em batizar como”Arquivos do Terror da Operação Condor.

Logo após esta descoberta o Congresso paraguaio criou a Comissão para a Verdade e a Justiça, trabalhou sobre esses arquivos desde 2004 até 2008, trabalho esse que resultou em 8 volumes de conclusões e recomendações.

Em 2009 a UNESCO declarou esses “Arquivos do Terror”  como Patrimônio da Humanidade, garantindo assim sua preservação e o direito de meu povo a consultá-los livremente. 

Como o senhor sabe, diante da inação da justiça paraguaia que se seguiu às conclusões obtidas pela Comissão da Verdade e a Justiça, venho trazer uma queixa-crime diante da justiça da Argentina, como me permite o princípio da Justiça Universal, visando continuar meu combate aos torturadores de meu pais e, assim, fazer respeitar os Direitos Humanos no Paraguai.

Entre 13 e 14 de dezembro de 2013 será realizada no Senado Francês e no Palácio de Luxemburgo uma Conferência Internacional sobre a Operação Condor em parceria com o Coletivo Argentino pela Memória. Nesta ocasião estarei no local para proferir um discurso pelo XXIº aniversário da descoberta dos “Arquivos do Terror”.

Esta carta visa solicitar uma audiência com o Presidente da República francesa, Sr. François Hollande, quando de minha já referida viagem à França, para exprimir oficialmente minha profunda gratidão ao seu país por ter me acolhido durante meu exílio forçado entre 1979 e 1992.

Da mesma maneira desejaria exprimir meu reconhecimento por ter sido a França o primeiro país a reconhecer a importância de minha descoberta, única em seu gênero em nosso continente, me condecorando com a Ordem Nacional do Mérito em 14 de fevereiro de 1997.

Queira aceitar, Senhor Embaixador, a expressão de minha mais distinta consideração,

Dr. Martin Almada,
Prêmio Nobel Alternativo

_________________________

[*] Raul Longo - Nascido em 1951 na cidade de São Paulo, atuou como redator publicitário e jornalista nas seguintes capitais brasileiras: São Paulo, Salvador, Recife, Campo Grande e Rio de Janeiro, também realizando eventos culturais e sociais como a “Mostra de Arte Sulmatogrossense”, (Circulo Cultural Miguel de Cervantes/SP), “Mostra de Arte Latinoamericana” (Centro Cultural Vergueiro/SP) e o Seminário Indigenista (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul/CG). Premiado em concursos literários nacionais promovidos pelo Unibanco, Rede Globo e Editora Abril; pelo Circulo Cultural Miguel de Cervantes; e pelo governo do Estado do Paraná. Publicou Filhos de Olorum – Contos e cantos de candomblé pela Cooeditora de Curitiba, e poemas escritos durante estada no Chile: A cabeça de Pinochet, pela Editora Metrópolis de São Paulo. Obteve montagem de duas obras teatrais: Samba/Jazz of Gafifa, no teatro Glauce Rocha da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, em Campo Grande; e Graças & glórias nacionais, no Centro Cultural Vergueiro, em São Paulo.Atualmente reside em Florianópolis, Santa Catarina.


terça-feira, 6 de agosto de 2013

Falsificações que visam golpes de estado

Nicolás Maduro - Presidente da República Bolivariana da Venezuela

Publicado em 06/08/2013 por [*] Mário Augusto Jakobskind

O mundo gira. Enquanto o governador do Estado do Rio de Janeiro, provavelmente aconselhado por algum marqueteiro tenta posar de vítima, quando na verdade não passa de algoz dos jovens manifestantes, pelo mundo acontecem fatos relevantes absolutamente ignorados pela mídia de mercado, que segue desempenhando a função, não propriamente de quarto poder, mas de aparelho ideológico de concepções conservadoras, como diria o jornalista Ignácio Ramonet, do Le Monde Diplomatique.

Guillermo Cochez
MENTIROSO
Pois bem, na Venezuela, os opositores da revolução bolivariana assacaram uma deslavada mentira contra o presidente eleito Nicolás Maduro. Os golpistas, tendo por base declaração de um tresloucado ex-embaixador do Panamá na Organização dos Estados Americanos (OEA), de nome Guillermo Cochez, segundo a qual Maduro não é venezuelano pois nasceu na Colômbia, na cidade de Cúcuta, na fronteira com a Venezuela, aproveitaram o embalo para mais uma vez tentar derrubar o Presidente que substituiu Hugo Chávez.

O candidato derrotado, Henrique Capriles tentando criar um fato político, sempre com discurso ao estilo de outros golpistas na América Latina, exigiu que Maduro apresentasse sua certidão de nascimento e assim sucessivamente. Outros seguidores de Capriles chegaram a colocar em questão a constitucionalidade do mandato de Maduro, já que a legislação não permite que estrangeiros ocupem a Presidência da República da Venezuela.

Mas a tramoia golpista durou pouco, porque o desmentido das próprias autoridades colombianas não demorou a aparecer. A denúncia foi rigorosamente investigada no setor do Registro Civil da cidade de Cúcuta, que chegou a conclusão, segundo informou Carlos Alberto Arias, diretor nacional do setor, que o documento apresentado pelo ex-embaixador panamenho na OEA era mesmo falso.

A história da América Latina registra falsificações do gênero que serviram de pretexto ou para golpes de Estado ou tentativas de desestabilizar governos democráticos. No Brasil, o Plano Cohen, de responsabilidade do então capitão integralista Olímpio Mourão Filho em 1937 mostrava um suposto plano comunista de assalto ao poder, servindo de pretexto para o golpe do Estado Novo. Este mesmo Mourão Filho, 27 anos depois comandava tropas de Minas Gerais que culminaram no golpe que derrubou o presidente constitucional João Goulart e mergulhou o país em uma longa noite escura de torturas e assassinatos de oposicionistas.

Mourão Filho
MILICANALHA
No anos 50, mais precisamente em 17 de agosto de 1953, o então famigerado deputado Carlos Lacerda inventava no seu jornal Tribuna da Imprensa uma falsa carta que recebeu a denominação de Brandy, em que um deputado argentino intermediava encontro secreto do então Ministro do Trabalho, João Goulart, como emissário do Presidente Getúlio Vargas. Ficou constatada a mentira, mas Lacerda continuou impune e posteriormente tornou-se um dos responsáveis pela tentativa de golpe de estado, em 1954, evitado porque Vargas saiu da vida para entrar para história ao se suicidar em agosto de 1954.

Fatos históricos como os mencionados são importantes de serem lembrados, inclusive para tentar entender o momento presente, como o da Venezuela com a mentira apresentada pelo ex-embaixador do Panamá na OEA, Guillermo Cochez, o mesmo boquirroto que em janeiro deste ano havia investido contra a Venezuela em um discurso raivoso na entidade onde servia.

Por estas e muitas outras, todo o cuidado é pouco em se tratando de setores conservadores e de direita. Até porque, sai ano entra ano, figuras como este Cochez, como Capriles e tantos outros pelo continente latino-americano não se cansam de tentar desestabilizar governos que não rezem pela cartilha de Washington.

Miguel Rodríguez
Torres
Na Venezuela, as tentativas golpistas não se resumem a falsa denúncia contra Maduro. O Ministro das Relações Interiores da Venezuela, Miguel Rodríguez Torres, informou que elementos da direita mantiveram contatos com setores ideológicos no exterior afinados com a doutrina golpista com o objetivo de assassinar o Presidente Maduro. E o Ministro deu nome aos bois, bem como os locais onde ocorreram reuniões conspiratórias que tiveram por objetivo assassinar o Presidente Nicolás Maduro.

Segundo Rodriguez Torres, duas reuniões ocorreram no mês de abril em Bogotá e Miami. Participaram, entre outros, o ex-presidente colombiano, Álvaro Uribe, o ex-presidente de fato de Honduras, Roberto Micheletti, um delegado enviado pelo terrorista Luis Posada Carriles (1), um oficial colombiano da ativa e um oficial da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA). O plano discutido previa “iniciar contato com a direita venezuelana e promover ações desestabilizadoras”.

Naturalmente que essas informações não foram divulgadas até agora pela mídia de mercado e se o forem provavelmente serão manipuladas no sentido do leitor concluir que não passam de teorias conspiratórias da história. É o que acontece rotineiramente nos jornalões e telejornalões.

________________________

Nota do Autor
(1) Luís Posada Carriles foi o terrorista responsável pela explosão de um avião da Cubana de Aviação nos céus da Venezuela matando dezenas de atletas que tinham participado de uma competição esportiva. Carriles foi condenado pela Justiça venezuelana, mas fugiu da prisão com a ajuda CIA. Hoje vive em liberdade nos EUA.
________________________


[*] Mário Augusto Jakobskind é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE.

Enviado por Direto da Redação

terça-feira, 30 de julho de 2013

O país vai bem, mas a MÍDIA vai mal

[*] Raul Longo

MILICANALHAS
Nos anos 70 o então ditador Gen. Emílio Garrastazu Médici, compôs sua mais famosa frase: “O país vai bem, mas o povo vai mal”.

Ao exemplo da de outro ditador imposto pelas armas que sustentavam aquele regime, o Gen. João Batista Figueiredo que afirmou preferir “... o cheiro dos cavalos ao cheiro do povo”, a frase de Médici se tornou famosa pela impropriedade de raciocínio a quem pretende governar uma nação.

Estupidez é algo que sempre obtêm grande repercussão no Brasil e Médici se notabilizou como tal por esta absurda afirmação. Quem mais concluiria ser possível um país ir bem se o seu povo vai mal, além de um general brasileiro dos tempos da ditadura militar?

Só mesmo um jornalista como Clóvis Rossi, da Folha de São Paulo, que para comentar das manifestações de junho inverteu a idiotice proferida pelo general, demonstrando que nesta frase a ordem das assertivas não disfarça a estupidez de quem a profere, pois quem além de Rossi poderia afirmar que “O povo vai bem, mas o país vai mal”?

O que é um país para Clóvis Rossi ou para Garrastazu Médici? Como pode um povo ir bem, se o país vai mal, ou vice-versa?

Médici
Garrastazu Médici também dizia que se sentia feliz por não ver, na época, o Brasil incluído nos noticiários sobre os problemas mundiais. Outra estupidez grosseira, pois enquanto os patrões da Folha de São Paulo do Clóvis Rossi emprestavam veículos da empresa para a repressão política do governo de Médici, aqueles mesmos repressores “suicidavam” todo jornalista que ousasse noticiar a realidade brasileira, importunando as fantasias do ditador. Como aconteceu com Vlado Herzog.

O país não ia bem coisa alguma. O “Milagre Brasileiro” decantado pela grande mídia da época logo se confirmou o que nunca deixou de ser: “O Inferno Brasileiro” que levou a vida de milhares de jovens e trabalhadores, enterrou a nação em dívidas externas e promoveu um dos maiores índices mundiais em pobreza e miséria.

Um país só vai bem quando seu povo vai bem. Se o povo vai bem, evolução de serviços prestados à população, da infraestrutura para melhorar a qualidade de vida, o combate a corrupção e demais reajustes para permanente desenvolvimento social, inclusive os políticos, serão consequências da maturidade nacional como um todo: povo e país.

A melhoria no atendimento à saúde da população já era uma providência anterior às manifestações que apenas a legitimaram, derrubando a obstrução da contratação de médicos estrangeiros proposta pelo governo porque o Brasil vai bem. Se o país vai bem é possível ao governo estender e aperfeiçoar o atendimento de saúde a todo o povo brasileiro, mesmo àqueles que não se enquadram nos interesses da categoria formada aqui no Brasil. É o que ocorre com o Reino Unido. Se a crise europeia perdurar e se aprofundar, o governo britânico não poderá mais manter os 40% de estrangeiros que compõem seu corpo médico. Se a Inglaterra for mal, ingleses e irlandeses do norte também irão mal.

E se o atendimento à saúde do brasileiro não melhora, é porque certos políticos se portam mal tornando cada proposta em benefício da saúde da população uma contenda congressual.

O radical projeto do governo para o combate à corrupção, criminalizando-a ao nível de homicídio por motivos fúteis ou estupro, foi formulado há dois anos exatamente porque o Brasil está bem e a compreensão do brasileiro sobre o problema melhorou muito desde o tempo em que corruptos eram eleitos sob o cínico e falso axioma do “rouba, mas faz”. Se nenhum corrupto foi condenado por prática de crime hediondo, é porque no congresso maus políticos sentaram em cima do projeto do governo.

Esses mesmos políticos são os que agora impedem o plebiscito proposto pela Presidenta. Não querem o plebiscito para não permitir que o povo seja conscientizado de que só o financiamento público de campanha eleitoral evitará maiores prejuízos à população e ao país que resultam na ausência de evolução da infraestrutura, na degradação dos serviços prestados à sociedade.

Por exemplo, no que se refere à mobilidade urbana. Para se descobrir porque não se expande e não moderniza, não apresenta novas e melhores opções, bastaria se conhecer o quanto os monopólios de empresas de transporte coletivo investem nas campanhas municipais, atrelando os prefeitos eleitos aos seus interesses em detrimento aos dos eleitores.

E os grupos políticos que impedem profundas e sensíveis melhorias no cotidiano do brasileiro, que se esforçam para que o povo vá mal e com isso o país ir mal para tornar a se locupletar entregando os potenciais nacionais pelo comissionamento dos interesses estrangeiros, são exatamente os apoiados pela mídia.


Apoiados pela Editora Abril, pelos veículos da Editora Globo e emissoras da Rede Globo, pelo jornal O Estado de São de Paulo e pelo jornal Folha de São Paulo para o qual escreve Clóvis Rossi. São apoiados por toda a grande mídia brasileira associada ou afiliada a estas empresas que, com a melhoria da situação do país e do povo na última década, vão mal. Muito mal.

Tão mal que já começam a sonegar importâncias milionárias em impostos. Milionárias? Somando-se as da Rede Globo e de sua afilhada RBS a dívida aos cofres públicos alcança volume bilionário com o qual se poderia investir em melhorias na infraestrutura do sistema de atendimento à saúde, ou no transporte e na mobilidade urbana, em efetivos da Polícia Federal para combater a corrupção e muito mais do que a vã e fútil cogitação do Clóvis Rossi e dos manifestantes de junho possam imaginar.

Eduardo
Guimarães
Mas se o país vai bem porque o povo vai bem e vice-versa, por que as gigantescas manifestações de junho?

Quem responde com muita propriedade, “mostrando a cobra e matando o pau”, é o empresário Eduardo Guimarães. Leia-se atentamente o que ele escreveu para entender porque esses manifestantes, em grande maioria com idade por volta de 20 anos e sem possibilidade de memória de quando país e povo iam mal antes de terem completado 10 de existência, tomaram as ruas dos grandes centros do Brasil.

___________________-


[*] Raul Longo - Nascido em 1951 na cidade de São Paulo, atuou como redator publicitário e jornalista nas seguintes capitais brasileiras: São Paulo, Salvador, Recife, Campo Grande e Rio de Janeiro, também realizando eventos culturais e sociais como a “Mostra de Arte Sulmatogrossense”, (Circulo Cultural Miguel de Cervantes/SP), “Mostra de Arte Latinoamericana” (Centro Cultural Vergueiro/SP) e o Seminário Indigenista (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul/CG). Premiado em concursos literários nacionais promovidos pelo Unibanco, Rede Globo e Editora Abril; pelo Circulo Cultural Miguel de Cervantes; e pelo governo do Estado do Paraná. Publicou Filhos de Olorum – Contos e cantos de candomblé pela Cooeditora de Curitiba, e poemas escritos durante estada no Chile: A cabeça de Pinochet, pela Editora Metrópolis de São Paulo. Obteve montagem de duas obras teatrais: Samba/Jazz of Gafifa, no teatro Glauce Rocha da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, em Campo Grande; e Graças & glórias nacionais, no Centro Cultural Vergueiro, em São Paulo. Atualmente reside em Florianópolis, Santa Catarina.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Reportagem Detalha Uso De Crianças Em Torturas Na Ditadura Militar


Enviado por Chico Villela da NovaE
Vídeo produzido pela TV Record, R7 



O repórter Luiz Carlos Azenha (R7 e titular do blog Viomundo) entrevistou vítimas do regime militar para contar uma história que ainda não foi totalmente revelada. Veja no especial As Crianças e A Tortura.



Comissão da Verdade recomenda que torturadores sejam julgados pelos crimes

terça-feira, 28 de maio de 2013

Esqueceram dos empresários




Publicado em 28/05/2013 por Mário Augusto Jakobskind [*]

Causou estranheza o fato de a Comissão Nacional da Verdade ao apresentar um balanço sobre um ano de atividades dedicasse pouca informação relacionada com a participação do setor empresarial na ditadura. Para se passar o país a limpo será necessário ir fundo nessa questão, porque muitos apoiadores do regime de força hoje se apresentam como democratas desde criancinha, na prática enganando a opinião pública.

A área de mídia também merece uma investigação profunda, porque muitos veículos além de silenciarem na época deram apoio ostensivo ao regime ditatorial. O Globo é um exemplo, embora alguns digam que o patrono da empresa, Roberto Marinho, tenha livrado a cara de jornalistas que não eram bem vistos pelo regime. Mas os mais críticos, em função da subserviência aos generais de plantão, não absolvem as Organizações Globo, mesmo se eventualmente o seu patrono tenha livrado a cara de um ou outro jornalista do seu quadro das garras da repressão.

Não há notícias de que as Organizações Globo chegassem a ceder veículos para o aparelho repressivo, como fez o grupo Folhas, de Octávio Frias, em São Paulo. Os veículos de comunicação dos Marinhos se limitaram a abrir seus espaços de forma áulica aos generais de plantão e seus seguidores.

É preciso que os brasileiros, sobretudo os das novas gerações, sejam informados sobre o que se passou nos anos de chumbo e como se comportaram alguns setores que hoje se dizem defensores da democracia.

No relatório apresentado pela Comissão da Verdade, alguns fatos tornados públicos não chegam a ser novidade, como, por exemplo, que os que pegaram o poder à força torturavam opositores logo depois da derrubada do presidente constitucional João Goulart.

A tortura, portanto, não foi instituída a partir de 1968 com a promulgação do AI-5, como alguns ainda hoje apoiadores do regime justificam. Esta gente, que navega nas ondas do Clube Militar, ao deturpar a história diz que o regime ficou mais duro para enfrentar a guerrilha. Omitem o que acontecia antes de 13 de dezembro de 1968. E que a ação do próprio regime fez com que alguns setores da oposição, de forma precária, partissem para a luta armada por entenderem que seria o único caminho para acabar com o estado repressivo.

Exemplo argentino - A Argentina tem dado exemplo de como ir fundo nas questões da repressão. Além de julgar agentes do Estado que fizeram barbaridades em matéria de violações dos direitos humanos, agora mesmo a Justiça processou três ex-diretores da filial da Ford no contexto de uma causa que investiga o sequestro de trabalhadores em uma filial da empresa norte-americana.

Por ordem da juíza federal Alicia Vence, os acusados, Pedro Muller, do setor de manufaturas, Guillermo Galarraga, da área de relações trabalhistas e Héctor Francisco Jesús Sibilla, ex-chefe de segurança da empresa estão respondendo na Justiça pelo sequestro de 24 trabalhadores da Ford, na localidade de Pacheco, próximo a Buenos Aires, ocorrida entre 24 de março e 20 de agosto de 1976.

Os três, segundo a juíza, facilitaram informações sobre os trabalhadores à repressão. Ou seja, eram dedos-duros, fornecendo até fotografias e os endereços particulares para que as autoridades os prendessem.

Embora os acusados tenham sido considerados “participantes primários dos crimes de privação ilegal da liberdade dos trabalhadores, duplamente agravada por ter sido cometida por abuso funcional, com violência e ameaças”, mesmo assim a juíza ordenou o embargo dos bens dos processados, até alcançar a soma de 750 mil pesos, correspondente a cerca de 143 mil dólares.

É bem possível que a Comissão da Verdade destas bandas esmiuçando arquivos e toda a papelada da repressão possa chegar aos dedos-duros que infelicitaram a vida de muitos brasileiros, ajudando inclusive o trabalho da repressão, e seguem por aí como se não tivessem nenhuma responsabilidade sobre os acontecimentos.

Em suma, não basta conhecer os 1.500 agentes do estado ditatorial brasileiro, sejam militares ou civis, que cometeram atrocidades, inclusive estupros de opositoras, como informa a Comissão Nacional da Verdade. Para virar a página definitivamente é preciso fazer o mesmo que está sendo feito na Argentina. 

Por lá, em um primeiro momento duas leis, Ponto Final e Obediência Devida, livravam a cara dos que cometeram violações dos direitos humanos. Bastou aparecer um Presidente com vontade política, como Nestor Kirchner, para que a lei de anistia fosse revogada em 2003. A Corte Suprema em 2005 confirmou a constitucionalidade da decisão e começaram os julgamentos.

Por aqui, a instância máxima da Justiça brasileira, o Supremo Tribunal Federal (STF), em um julgamento lamentável, confirmou a Lei da Anistia que deixa impunes agentes do Estado que cometeram crimes de lesa humanidade. E ainda não apareceu um Presidente que tivesse vontade política para levar adiante para o Congresso o mesmo que aconteceu na Argentina.
_________________________

Mário Augusto Jakobskind [*] é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE

Enviado por Direto da Redação


 

terça-feira, 7 de maio de 2013

Hora de se conhecer a verdade



Publicado em 07/05/2013 por Mário Augusto Jakobskind*

Depois de quase 36 anos e meio da morte do Presidente João Goulart (6 de dezembro de 1976), a Comissão Nacional da Verdade e o Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul decidiram, finalmente, exumar o corpo do herdeiro político de Getúlio Vargas. Muitos devem estar dizendo, antes tarde do que nunca.

Mas não se pode esquecer que logo após a morte de Jango, as autoridades brasileiras e argentinas se recusaram a fazer a autopsia. Por que será?  

Há fortes indícios de que Jango foi mesmo assassinado com a troca de remédios. Embora deva ser considerado louvável a inicativa da Comissão Nacional da Verdade, não se pode garantir que depois de tanto tempo a exumação seja considerada conclusiva.

Como se sabe, há testemunhas, como a do ex-agente da repressão uruguaia, Mario Barreiro, que conta com detalhes como ocorreu a troca de remédios que teria provocado a morte do Presidente.

Vale ainda lembrar que recentemente a Justiça argentina – Jango morreu em Las Mercedes, na Argentina – tinha solicitado às autoridades brasileiras que fosse feita a exumação. O pedido não foi respondido, o que só agora acontecerá graças a Comissão da Verdade.

É preciso também que a Comissão procure esclarecer com precisão o que poucas semanas antes da morte de Jango foi fazer no Uruguai (Jango ainda estava lá) o famigerado delegado Sérgio Fleury, que recebeu grandes elogios por parte do então deputado estadual pela Arena de São Paulo, José Maria Marin, atual presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) .

Da mesma forma que Jango, ainda falta esclarecer, em definitivo, a morte de Juscelino Kubitschek em acidente de carro na Rio-São Paulo em que o motorista, segundo denúncias, teria sido baleado, fato não investigado como deveria.

O terceiro participante da Frente Ampla, Carlos Lacerda, segundo denúncias, ingressou em um hospital para cuidar do agravamento de uma gripe e acabou morrendo.

Os três naquele momento de 1976, em função da carência de lideranças civis de envergadura nacional, poderiam, em caso de uma abertura, ser eleitos por voto popular, algo que os generais de plantão não conseguiam. Sempre foram biônicos.

Eleger Jango, JK ou mesmo Lacerda naquele momento era tudo que o general de plantão da ocasião (Ernesto Geisel) e seu “mago”, o Coronel Golbery do Couto e Silva, não queriam. Temiam perder o controle da propalada abertura lenta e gradual, que nunca passou de uma peça de marketing do sistema que agonizava.

A extrema direita, a das bombas e atentados praticados, muitas vezes com o objetivo de incriminar a esquerda, tentava também à sua maneira manter o regime ditatorial.

Para conhecer tudo o que aconteceu naquele período é preciso também lembrar fatos e contextualizá-los. É preciso não esquecer da política econômica praticada pelos governos ditatoriais, responsáveis em grande medida pela redução do poder aquisitivo dos assalariados, resultando na perda de qualidade de vida de amplas parcelas da população.

Tudo isso faz parte de um todo que derivou na dura repressão praticada por agentes do Estado brasileiro, que obedeciam ordens superiores, mas agiam de forma mais realista do que o rei, como acontece em regimes do tipo implantado a partir de 1964.

A Comissão Nacional da Verdade tem a missão histórica de mostrar aos brasileiros tudo isso com detalhes.

Audiência pública - Na audiência pública com militares perseguidos pelo regime ditatorial, realizada na ABI no sábado (4/5/2013), muitas histórias sobre o setor apareceram, uma delas, por exemplo, a de oficiais que se recusaram a participar de uma ação para derrubar o avião de Jango, a chamada Operação Mosquito, em 1961. Acabaram cassados e presos depois do golpe de 64 . Foi uma das primeiras vinganças contra militares legalistas praticadas pelos militares golpistas cooptados pelo Departamento de Estado norte-americano que se apossaram do poder.

Na mesma audiência, Luis Claudio Monteiro da Silva contou que foi preso, torturado e expulso dos quadros do Exército porque foi pego no alojamento lendo um artigo elogioso a Darcy Ribeiro. E, pasmem, isso aconteceu na década de 80. Além de ter sido interrompido o seu sonho de se tornar militar, Luis Claudio até hoje guarda sequelas das torturas.

Quem assistiu a histórica sessão da Comissão da Verdade foi informado também que cerca de 7.500 militares foram punidos pelos golpistas de 64.

A perseguição chegou a tal ponto que até hoje muitos militares de escalões inferiores, como cabos e sargentos, continuam sem ser anistiados. Tanto eles como oficiais, legalistas e nacionalistas, que defendiam a legalidade, seguem sendo tratados como parias quando vão a alguma repartição militar.

A história desses militares precisa ser conhecida pelos brasileiros em todos detalhes. Espera-se que Comissão da Verdade cumpra com a missão histórica. O primeiro passo nesse sentido foi dado com a Audiência Pública.
_________________

Mário Augusto Jakobskind* é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE.

Enviado por Direto da Redação


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Mércia Albuquerque, advogada eterna



Publicado em 31/01/2013 por Urariano Motta*

Recife (PE) - Em 29 de janeiro, fez 10 anos a morte da advogada Mércia Albuquerque. Não sei se foi por isso, mas nos últimos dias a sua presença voltou com uma força que eu não imaginava. Tornou-se impossível fugir da sua pessoa em cada linha ou leitura que eu fazia. Por isso lembro.

Rua Sete de Setembro, 197, Edifício Ouro. Na década de 70, era para lá que rumávamos. Entrávamos no edifício sem olhar para trás, rápido, como se ladrões fôssemos, como se fôssemos criminosos, como se já estivéssemos no Chile de Pinochet e ali penetrássemos para nos salvar em uma embaixada. Ali, no apartamento 52 do Edifício Ouro, uma mulher de estatura média, de olhos abrasantes, nos atendia.

“Advogada Mércia Albuquerque, presente”. Não eram essas as palavras, não era bem assim que ela nos vinha, mas era exatamente esse o ar, que a sua presença nos sugeria. “Descansem. Eu estou presente. Sim, eu conheço esses milicos. Essa canalha do DOPS eu já sei como age. Descansem, vocês estão em casa”. Não lembramos bem se essas eram as palavras, se algum dia ela assim se expressou, mas sentimos que do seu corpo frágil, agitado, andando pela sala do apartamento, sem se sentar, vinha a insinuação delas. “Tranqüilizem-se, se fizermos a denúncia, a vida dele está salva”. Elétrica, agitada, e no entanto nos dava uma grande calma.

Agora que ela não mais habita no Edifício Ouro, agora que seu corpo se acha definitivamente ausente, agora que superamos a ditadura, nesta altura em que ficou fácil ser democrata, ah, o factual, o seu currículo de advogada de perseguidos políticos, de presos torturados, tudo isso tende a se fundir em versões e esquecimento. Não sabemos se é sempre assim quando a gente se ausenta, mas de Mércia fica uma impressão íntima, uma forma de orquídea violeta que não sabemos de onde nem por que nos vem. Agora mesmo, enquanto digito estas mal traçadas, a voz de Bienvenido Granda me chega insistente aos ouvidos, embora em torno só haja o tique-taque do relógio no silêncio da madrugada. “Egoísmo” é o bolero que nos chega, não sabemos por quê.

E no entanto sabemos a razão, ou pelo menos desconfiamos do porquê. A doutora Mércia Albuquerque era um ser passional. É isto o que a violeta roxa, na voz de Bienvenido Granda, quer me dizer. Mércia, mal saída da universidade, resolveu defender Gregório Bezerra porque o viu arrastado por uma corda ao pescoço em 1964, em Casa Forte. Mais tarde, ao se tornar advogada de Abelardo da Hora, um comunista e escultor fundamental, ela abrigou os filhos de Abelardo no apartamento 52 do Edifício Ouro. Ao ser sequestrada por agentes do DOPS, foi atirada de volta na Rua da Guia, que, à época, era a última e mais miserável rua do bairro de putas do Recife antigo. Ali, ela recordaria depois, recebeu dinheiro e solidariedade de uma prostituta que atendia pelo nome de Biscuit. Defensora de radicais materialistas, de jovens socialistas ou de jovens simplesmente desesperados, sem saída, era, ela própria, católica, até meio mística, e nisso não via nada que fosse obstáculo à defesa daqueles “terroristas”, como os difamava a propaganda da ditadura militar.

Ninguém passa imune pela luta e drama desses jovens, até hoje. Em 29 de janeiro de 2003 a doutora Mércia foi ali e não voltou, vítima de um câncer que lhe devastou o ovário. Ainda que esse câncer sintomático lhe tenha minado a vida, traiçoeira e silenciosamente, não foi bem essa infâmia que a matou. Pois foi a esta mulher, tantas vezes presente nas aflições dos perseguidos políticos, que tanto perigo correu por defender “terroristas”, que presa 12 vezes sem culpa, sem inquérito, sem acusação formal, como de resto se continua a fazer com os pobres e miseráveis do Brasil, que conviveu com a destruição física e humana de militantes, e também com o heroísmo imenso desses torturados, pois foi a esta mulher que parecia ter flertado com a eternidade, porque tantas vezes esteve perto do fim e dele se safou e o pulou como acrobata, pois foi a esta mulher que a morte colheu numa mesa de operações! A causa mortis apontou parada cardíaca.

Para uma advogada passional, para uma mulher que lembrava a rara orquídea roxa, faz sentido uma morte assim, de parada no coração. A vida da gente é estúpida, é certo, mas ao fim sempre guarda algum sentido. Um sentido que não sabemos se conseguimos realizar, doutora, neste espaço curto, nesta lembrança curta de quem a viu uma vez, mas jamais esqueceu de que seus olhos queimavam na gente feito urtiga.
_______________________________

Urariano Motta* é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997).

Enviado por Direto da Redação