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sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Meninos no lixo



Publicado em 06/11/2013 por Urariano Motta [*]

Recife (PE) - O Jornal do Commercio, do Recife, nos últimos dias arrancou do sono o jornalismo impresso do Brasil. Quem lê a reportagem No Recife, infância perdida na lama e no lixo não sabe o que mais se destaca, se o texto de Wagner Sarmento e Marina Borges, ou se as fotos de Diego Nigro. As imagens de fotógrafo a esta altura correm o mundo, que se espanta pela composição da cena: uma cabeça de menino mergulhado no lixo e na lama de tal forma, que se torna ele próprio lixo também.

Escreveram os repórteres:

Eles nadam onde nem os peixes se atrevem. De longe, suas cabeças se confundem com os entulhos. Pela falta de quase tudo na terra, mergulham no rio de lixo atrás da sobrevivência. Lá sim tem quase tudo: latinhas, garrafas, papelão, móveis velhos, restos de comida, moscas, animais mortos. Menos dignidade. Lá, no Canal do Arruda, Zona Norte do Recife, o absurdo é rotina....

O trio de crianças se acotovelava entre dejetos mil para catar latas de alumínio e garantir o alimento de duas famílias com, ao todo, 18 pessoas. Nadava em meio a tudo que a cidade vomita. Paulinho, o menor e mais astuto dentro d’água, tapava a boca com veemência. Tinha noção exata do risco que corria. Ainda não sabe ler, mas conhece da vida o suficiente para não deixar entrar uma gota sequer daquela lama de cheiro insuportável e chamariz de doenças. Febre e diarreia são constantes.


O escândalo, o falso espanto que causa a reportagem, é na verdade a descoberta desta coisa comum, a miséria de meninos que sobrevivem entre o descaso e a morte. Isso é tão onipresente que não vemos.

A transformação da pessoa – perdão, do menino, que há quem julgue não ser uma pessoa -, a mudança de alguém em coisa, e o pior tipo de coisa, a sem valor, descartável, é tão secular que virou natural, como se fossem restos de plástico ao lado dos quais nós passamos imersos em nossas vidas, que achamos ser a mais digna da paisagem. A vida, este bem nosso a que outros não têm o direito.

Por que deitar os nossos olhos sobre o que não é gente?

Sobre os meninos do Recife eu já havia notado que as ruas, as avenidas onde eles dormem, jazem, têm nomes poéticos, belos: da Aurora, do Sol, da Boa Vista. Mas essa poesia não lhes cola na pele, ou melhor, neles se cola uma poesia invisível, até porque ninguém mesmo os vê. Eles são à semelhança de ratos pela madrugada, porque com ratos se confundem ao sair das cavernas e cloacas da cidade no escuro da noite. Então eles ficam todos negros, na pele ou na camuflagem dos animais que correm pelo asfalto da avenida.


Quando em grupos, aos bandos, ainda assim ninguém os vê. Ou melhor, às vezes, sim, quando rondam como símios as bolsas e os relógios dos adultos.

Veem-se sem serem vistos, assim como vemos e evitamos no solo um buraco, um obstáculo ou grandes montes de merda. As pessoas fazem a volta e tratam de assuntos mais sérios. Todos estamos já acostumados àqueles figurantes, no cenário.

Os meninos nas ruas são personagens que nem falam, porque estão sempre em porre de sonho, delirantes, com a voz trôpega, plenos do sonho que a cola dá. De repente, alguns deles, os mais sóbrios, os que podem, saltam para a traseira de um ônibus. Então os meninos se transformam em morcegos, à beira da morte nos testes que o motorista faz, ao frear e acelerar e a fazer voltas velozes com os ônibus, para ver se os morcegos se estendem no chão. Às vezes os motoristas conseguem.

Na foto do Jornal do Commercio, procura-se no canal do Arruda uma criança no meio do lixo espesso na água suja. Onde está Wally? Ninguém vê uma cabecinha negra perdida no lixo e podridão do rio. Ou do canal, que no Recife é um braço do rio.

Se o colunista fosse poeta, poderia compor um poema com o nome Os Meninos–Urubus. Ou meninos-ratos. Ou meninos-lixo, simplesmente. Meninos-lixo? Não. Lixo Tudo e Igual, pois uma bola escura à semelhança de cabeça flutua entre plásticos.

Para que tentar a poesia que escapa ao colunista? João Cabral de Melo Neto já expressou como ninguém o encontro de lama e rio, de resistência do homem que procurar sair do que o mata no Capibaribe.

Com as devidas adaptações, porque o menino da foto ainda não é o homem do poema de João Cabral, dele podemos dizer nesta livre interpretação de O Cão sem Plumas:

Aquele canal jamais se abre aos peixes,
ao brilho, à inquietação de faca que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

Abre-se em flores pobres e negras como negros.
Abre-se numa flora suja e mais mendiga
como são os mendigos negros.
Abre-se em mangues de folhas duras e crespos como um negro.

No Canal do Arruda difícil é saber onde começa o canal
onde a lama começa do canal
onde a terra começa da lama;
onde o novo, onde a pele começa da lama;
onde começa o novo homem daquele menino.


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Urariano Motta [*] é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista; publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas(Recife, Bagaço, 1997). Este ano lançou o romance O filho renegado de Deus (Recife-Bertrand-Brasil, 2013).


Enviado por Direto da Redação

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O campo de Libra e o futuro


Publicado em 23/10/2013 por [*] Urariano Motta

Recife (PE) - O recente leilão do pré-sal no campo de Libra causou um estrago, não bem econômico, como a oposição à presidenta Dilma esperava. Mas no campo da mídia e política no Brasil, sim, causou. Se não constitui novidade que o tucano Aécio tenha chamado o leilão de “fracasso” e atacado uma suposta contradição do governo ao abrir o pré-sal ao capital privado, novidade foram militantes vinculados à esquerda que se opuseram ao leilão e à presidenta com argumentos semelhantes aos dos conservadores.

Ambos, direita e setores da esquerda, cantaram que a presidenta privatizava. A direita, com júbilo. A esquerda minoritária, até como reforço à posição prévia contra o governo, como uma traição de compromissos históricos para com os trabalhadores.

Importa pouco, nesse ataque de contrários unidos em um só bloco, a diferença conceitual, prática, entre a concessão de FHC, que entregava e entregou o patrimônio público a empresas privadas, e o regime de partilha, em que o Estado empresta por tempo determinado parte da riqueza brasileira. Que diferença? Na briga política, assim como na guerra, a primeira vítima é a verdade. 

Daí que fizeram ouvidos moucos à explicação didática, eloquente, da estadista Dilma Rousseff:

Por favor, prestem bem atenção que vou explicar agora. Nos próximos 35 anos Libra pagará os seguintes valores ao Estado brasileiro: primeiro, R$ 270 bilhões em royalties; segundo, R$ 736 bilhões a título de excedente em óleo sob o regime de partilha; terceiro, R$ 15 bilhões, pagos como bônus de assinatura do contrato. Isso alcança um fabuloso montante de mais de R$ 1 trilhão. Repito: mais de R$ 1 trilhão...

Neste momento, enquanto um passo para o futuro é dado, pode ser visto um racha na esquerda brasileira. Onde antes havia divergência teórica, agora é patente em razão desse novo contrato. Teorias fazem vida, não? Os socialistas mais reflexivos, como Saul Leblon, na Carta Maior, observaram que Brasil e China iniciaram a partir do leilão de Libra uma parceria estatal das mais robustas, consistentes e estáveis do século 21.

Um editorial do Vermelho, maior site de esquerda nas Américas, publicou a posição oficial do Partido Comunista do Brasil, onde se declara que a exploração de Libra deve ser iniciada o mais rápido possível. Com a necessidade da luta para aprofundar as medidas do governo que resguardem os interesses nacionais.

Mas setores do PSOL, PSTU, e outros independentes, mas que se assemelham a suas posições, negam em absoluto o avanço, com a mesma cantilena que Dilma e Lula instituíram uma democracia + ditadura = democradura, enquanto jogam, Lula e Dilma, ao mar, ao poço e ao campo de Libra a maior traição à soberania nacional, em um leilão que não houve, e a um preço lesivo. Isso tanto seria verdade que o bônus se fez a preço mínimo, de “apenas” 15 bilhões.

E vem a imagem do copo meio cheio ou meio vazio. Os opositores não veem que o governo ao receber pagamento mínimo pelo contrato significou também que o negócio foi mais lucrativo para a Petrobras, para o povo brasileiro. Caso contrário, o bônus acima viria da nuvem de gafanhotos para a disputa. Pois foi justamente o excesso de “estatismo” que afugentou o ataque de predadores.

E continuam, na imagem do copo meio vazio: nem mesmo uma alegada falta de capacidade financeira da Petrobras para a exploração de Libra seria justificável. Ora, argumentam em lógica implacável, se a Petrobras fosse a única empresa a operar o pré-sal, suas ações subiriam, aumentando o capital. Ou então, o governo bem poderia abrir linha de crédito para o Brasil em qualquer lugar do mundo. Pois os banqueiros internacionais seriam mais camaradas, é claro.

A uma política grandiosa de Estado, a um salto de qualidade para o destino maior do povo brasileiro, as oposições a Dilma chamam de “truque eleitoreiro”, de política baixa para a reeleição. Não ouvem, não acreditam e zombam da fala da presidenta, quando ela anuncia:

Vamos transformar petróleo em educação, petróleo em saúde, vamos transformar petróleo em desenvolvimento da indústria naval, da indústria de fornecedores, dos prestadores de serviço, toda aquela indústria que gira em torno da exploração de um campo.

Petróleo por educação, saúde... Balelas. Tudo é virtual, a oposição canta, como a construção de 18 super-plataformas, mais equipamentos de produção, gasodutos, linhas de produção, barcos de apoio, equipamentos submarinos fabricados no Brasil, com milhões de empregos. Que fábula, hem? E passam à desqualificação.

Nesse particular, pior que o cego é o enlouquecido de sectarismo.

Esperamos que algum dia mais adiante os loucos entendam o salto conseguido esta semana. Mas por enquanto bem que podiam viajar para ver Lula e Dilma lá no exterior. Talvez no estrangeiro percebessem o Brasil neste futuro contemporâneo.
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Urariano Motta [*] é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista; publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Este ano lançou o romance O filho renegado de Deus (Recife-Bertrand-Brasil, 2013).


Enviado por Direto da Redação

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

De Marte, os cubanos estão chegando


Publicado em 22/08/2013 por Urariano Motta [*]

Recife (PE) - Anuncia toda imprensa nos últimos dias: o governo federal voltou atrás e anunciou a contratação de 4 000 médicos cubanos. Os quatrocentos primeiros profissionais de Cuba chegam ao país no fim de semana. Eles irão suprir as vagas não preenchidas no programa Mais Médicos e virão ao país em um convênio com a Organização Panamericana de Saúde (OPAS).

OPAS? Opa, porque mal souberam da notícia, os quatrocentos primeiros porta-vozes da extrema-direita, ou classe média raivosa, ou médicos defensores do próprio mercado assim irmanados, chegaram aos sites de notícias com seus comentários à beira dos maiores delírios. Tremem e temem, como se percebe, opa, nesta breve antologia do pensamento pré-histórico:

Os cubanos estão chegando. Brasileiros, se têm de ficar doentes, fiquem logo ou morram mais cedo, porque os bichos vão chegar. Se precisarem de cuidados médicos, deixem-se morrer, pois comunista nunca deve pôr a mão em vocês. Os cubanos são especialistas em guerrilha urbana e agitação e propaganda. São doentes propagadores da ideologia estalinista, tão ao gosto da ala política do PT.

Eles formam o Cavalo de Troia de mais uma intentona comunista. São agentes políticos e falsos médicos. São agentes que fizeram curso de primeiros socorros para doutrinar a ideologia marxista no povo humilde do norte e nordeste.

PT de patifes pretende levar o Brasil para uma cubanização! Isso já estava preparado desde o início pela comuna bolchevique.... 

Doutor Roberto D'Ávila
E completou o presidente do Conselho Federal de Medicina, doutor Roberto D`Ávila:

(...) os médicos cubanos poderão causar um genocídio!.

E apesar do espanto, devemos reconhecer. Se o leitor atentar bem, notará que Cuba é o planeta vermelho. Devia mais era ser chamada de Marte, essa ilha marciana, de guerra no Caribe. Em tudo, esses médicos cubanos lembram os marcianos que um dia invadiram os Estados Unidos, na histórica adaptação para o rádio feita por Orson Welles, quando dramatizou o livro A Guerra dos Mundos.

Se não, acompanhem!

Um objeto voador que partiu de Marte de Cuba se abre esta semana no Brasil. Do objeto, da insidiosa Cubana de Aviación, sairão os marcianos de Havana, que destruirão todos os humanos do Brasil com um raio da morte. Têm, além disso, uma nova arma que dispara bombas de fumo negro, puros de Habana, que matam todos os humanos nacionais entre fumos e fumaça.

Objeto voador que trará os cubanos, digo marcianos.
Clique na imagem para visualizar melhor
Nas próximas semanas, mais objetos voadores cairão do céu: quatro mil marcianos. A invasão será respondida com uma fuga em massa dos médicos residentes em São Paulo, todo o Nordeste, Amazônia e Acre, devido à queda de mais objetos voadores nos seus arredores. Nessa altura serão observados os costumes desses novos marcianos, pois eles usam os humanos como alimento, absorvendo o seu sangue e cérebro com a força de ideologias alienígenas. 

Entretanto, através do imenso e etéreo abismo, mentes que estão para as nossas como estas estão para as dos animais selvagens, intelectos vastos, mas frios e sem compaixão, contemplam nossa terra com olhos cobiçosos, e fazem seus planos contra nós.

Cidadãos do Brasil: não devemos ocultar a gravidade da situação que nosso país atravessa. 

Senhoras e senhores, temos uma grave declaração a fazer. Por incrível que pareça, tanto as observações da ciência quanto a evidência diante de nossos olhos levam-nos à indiscutível conclusão de que esses estranhos seres que descem sobre Pernambuco, São Paulo, Rio e Bahia são a vanguarda de um exército de invasores vindos da ilha vermelha de Marte. Quatro mil homens armados de estetoscópio alcançarão o Brasil a partir de Congonhas ou de Guarulhos e, à sua passagem, deixarão um pó escuro, vários cadáveres e um cheiro diabólico, pavoroso, exalando dos gradis dos porões dos edifícios, casas, casebres e igarapés do Brasil profundo.

Cuba - parte de Marte
Clique na imagem para visualizar o tamanho da encrenca
Mas em lugar de homenzinhos verdes de quatro braços, serão quatro mil negros e barbudos com dois braços, correndo atrás de atacar os humanos do Brasil.

Pois eis que desce um exército invasor de saudáveis e comunistas guerrilheiros. Os marcianos de Cuba parecem ter calculado a sua descida com sutileza surpreendente, com um senso de tempo e matemática avançada. E o mais grave: não querem ficar ricos à custa dos bolsos do povo.

Uma raça muito estranha esses alienígenas cubanos, perigosíssimos. Se no leitor ainda residir alguma dúvida, olhe o vídeo da invasão no YouTube logo abaixo, notando, é claro, o sotaque marciano da locutora e que a gravação foi legendada na língua... dos perigosos cubanos e de Cervantes.

Ou então leia as declarações dos médicos e extrema-direita irmanados no site mais próximo.

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Urariano Motta [*] é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas(Recife, Bagaço, 1997). Este ano lançou o romance O filho renegado de Deus (Recife-Bertrand-Brasil, 2013).

Enviado por Direto da Redação

quinta-feira, 18 de julho de 2013

A guerra sem explosões da literatura


Publicado em 18/07/2013 por [*] Urariano Motta

Recife (PE) - Esta semana, tive a honra de participar do Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana. Ali, na mesa onde se encontravam o escritor João Silvério Trevisan e a ilustre mediadora Guiomar de Grammont, o tema da nossa conversa foi Escritor em ação: viver e escrever.

Divulgo a seguir a fala que improvisei por escrito para esse encontro.

Entendo “Viver e escrever” como a vida que se reflete na literatura. Ou de modo mais preciso: como a minha própria vida se reflete no que escrevo.

Antes, um esclarecimento, que devo fazer misturado a um pedido de desculpa.  Quando digo “falar da vida que se reflete no que escrevo”, isso não é um atestado de narciso, de vaidade ridícula, de supor a minha vida digna da literatura. Não, o meu cotidiano é banal, assim como a banalidade imensa que cerca todas as nossas vidas.

Eu nunca fui à lua, não conheço Estocolmo, não sou filho de generais, de traficantes, nem descendo de ladrões riquíssimos ou de famílias quatrocentonas, nessa ordem.

Aliás, na minha família a genealogia se perde, na medida em que não identifico sequer os meus avós. Por esse caminho de biografia magnífica, a minha vida não daria um romance, naquele sentido que o povo muitas vezes fala, “a minha vida daria uma novela”.

Como poderia falar de uma vida que não tem ação de rilhar os dentes, nem acontecimentos extraordinários nem amores glamorosos? A minha vida não daria um best-seller. Por isso, corrijo: best-seller, não, mas a minha vida, assim como a de toda gente, é digna da literatura. Dependendo do que se fizer do banal, da limonada dos limões recebidos, a vida de qualquer pessoa é digna da literatura. Ou melhor dizendo, a boa literatura é que é digna da vida de toda a gente.   

De passagem, esclareço o método particular de quem escreve literatura.

O escritor de ficção, em vez de narrar ideias gerais, narra pessoas, personagens particulares. É da natureza do nosso gênero, é a nossa forma de trabalhar.

Ainda que estejamos escrevendo sobre as coisas mais abstratas, algo como a Constituição Federal atualizada, ainda assim o escritor, o que tem gênese e característica da literatura, falará da Constituição Federal conforme a biografia sentida da própria vida. É como um louco ou doente sem remédio.

Em muitos significados, ele é um funcionário permanente.

O escritor me lembra um bancário que não conseguia sair do banco. Ia pra casa, o banco o acompanhava. Ia dormir, lá estava o banco. Ia pro bar, e quando no calor da cerveja se discutia sobre a estratégia da França com a Linha Maginot depois da 1ª. Guerra Mundial, o bancário concluía:

“Entendo, eu também faço isso. Eu pego os livros de relatórios e empilho na minha frente, pra ninguém me perturbar. Essa Maginot é como lá no banco”.

Não é que o escritor seja um monstro biográfico, que possua um misterioso talento onde não cresçam e frutifiquem ideias. Pelo contrário, não se conhece um só bom autor que não possua uma concepção do mundo e dos seus desconcertos.

Mas é que nele, no escritor, as ideias sofrem uma interpretação particular, que se mostram no que ele escreve. Nele não há lugar para a sobrevivência da tese, que é do ofício de todo ensaio científico ou acadêmico.

Na literatura, os personagens não são bonecos de ideias gerais. São gente, de cara e dente, onde as ideias se batem, se violentam e mantêm o conflito. Como na vida fora da escrita.

Nos livros, falo do que vi em minha juventude, tão perto de mim, como eu gostaria de crer.

Neles falo da repressão da ditadura, de pessoas heroicas, covardes e loucas, ou em profundo desespero, que eu vi.

Falo da minha infância em um subúrbio periférico do Recife, que tem o nome de Água Fria, que não se pronuncia em boa conversa, porque seria o mesmo que falar um palavrão.

O melhor de mim está quando volto os olhos para esse mundo sem nome, de pessoas que desaparecem sem nome, cujo sepultamento é apenas um alternativa precária da carniça para os abutres. É para esse imortal escárnio que me volto. Essa gente, gentinha gentalha da minha genética é que me sustenta. Antes, durante suas vidas e depois.

A literatura é a terra da democracia. Ela permite a um filho do povo escrever e por isso ser recebido com tapete vermelho em qualquer palácio. E a honra será dos palácios.

Essa democracia da literatura, esta literatura que me permitiu ser menos insignificante, é a minha terra e o meu destino.

Eu não sei atirar, esmurrar, e assim não posso combater e matar a injustiça com as mãos cheias de bombas, balas e mísseis.

Como não posso, escrevo.
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[*] Urariano Motta é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas(Recife, Bagaço, 1997). No início de 2013 lançou o romance O filho renegado de Deus (Recife-Bertrand-Brasil, 2013).


quinta-feira, 11 de julho de 2013

A morte de Tayná, a tortura e a imprensa



Publicado em 11/07/2013 por Urariano Motta [*]

Recife (PE) - O inquérito do assassinato da menina Tayná, no Paraná, ilustra o tempo de trevas que sobrevive no Brasil.  Em breves linhas lembramos que toda a imprensa noticiou que uma linda jovem de 14 anos, Tayná Andrade da Silva, havia sido estuprada e morta por quatro empregados de um parque de diversões, no dia 25 de junho. E que os frios estupradores confessaram o seu hediondo crime, depois de um rápido e eficiente trabalho da polícia. 

Jussara Joeckel
Os apresentadores na tevê bradavam, elevavam a tensão em nossas veias: “E aí, o que devia ser feito com esses animais?”, e mostravam as imagens das quatro feras.

Assim estávamos nós com a nossa consciência insatisfeita, porque clamávamos pelo sangue desses monstros, quando, passados alguns dias, a brava perita Jussara Joeckel descobriu que jamais houve qualquer violência sexual contra Tayná. Mais, que o exame de DNA no sêmen encontrado na calcinha da jovem não pertence aos tidos como culpados. E para o cúmulo do absurdo, a perita afirma que a menina foi morta depois dos “assassinos” presos. Escândalo. 

Joice Hasselman
A perita Jussara teve a sorte de ser apoiada por uma jornalista à altura, Joice Hasselmann. A repórter divulgou a análise e registrou no Blog da Joice  que em meio aos gritos e ao bate-boca de uma reunião na Secretaria de Segurança, um integrante da Polícia Civil chegou ao extremo da pergunta:

(...) será que na contraprova nós não conseguimos um laudo com resultado inconclusivo?

Sabe-se agora que o preso Adriano teve um cabo de vassoura enfiado no ânus, amarrado de ponta-cabeça e agredido com uma máquina de choque, para que confessasse o crime. A máquina de choque foi usada com uma haste de metal introduzida no seu ânus. Adriano, internado em hospital, tem sinais de perfuração no intestino. E todos os presos, depois de torturados, tiveram que assinara sem ler os “seus” depoimentos escritos.

Infelizmente, este é um caso exemplar da polícia brasileira, de Norte a Sul do país. Prende-se o culpado, para depois iniciar-se a investigação que prove a sua culpa. A investigação, todos sabemos, é sempre a mesma: porradas primeiro, uma pergunta depois. Se o culpado não responder logo o que se quer provar, tudo mal. Pau de arara e choques elétricos como método infalível de apuração. Se responder conforme a acusação, tudo mais ou menos. A tortura continua, mas dessa vez para selar o depoimento, ou como gritam os torturadores:

Ah, então você escondia o jogo, não é, safado? Você vai ver agora o que um criminoso merece.

Pelo medo e terror, selam assim a culpa do culpado.

O costume da tortura se transformou em uma coisa tão banal, que os advogados falam nas entrevistas em invalidação do inquérito, porque contaminado pela violência. Isso é óbvio. Daí os doutores partem para a soltura dos presos, com a posterior cobrança ao Estado pela prisão indevida. O que é justo. Mas da ação lhes escapa o maior horror: eles parecem não ver que os policiais deveriam responder, antes de tudo, pela tortura, porque esse é um crime condenável, imprescritível em nossa Constituição e em todos os tribunais civilizados. O fundamental lhes escapa: a mais severa punição prisional para o torturador.

Mais. Chamamos a atenção para o comportamento da imprensa que reproduz as versões da polícia sem um filtro, sem uma dúvida.

Os repórteres copiam o Boletim de Ocorrência, e de tal modo que repórter policial é o mesmo que policial repórter. Mas isso é igualzinho ao tempo da ditadura. É igual àqueles malditos anos em as mortes de “terroristas” eram reproduções exatas da Agência Segurança Press.

Se não, olhem o que se falou sobre o assassinato da menina de 14 anos nas tevês:

Os exemplos da imprensa brasileira, que reproduz de modo literal o que a polícia lhe sopra, ao fim de torturante inquérito, poderiam ser mostrados a um infernal infinito. E o mais grave, leitor. Agora mesmo, neste preciso instante, um preso comum está sendo torturado, sofrendo empalação ou é morto. Isso em plena democracia. Era bom que transformássemos o caso Tayná em um começo de real mudança, nas delegacias de polícia e na imprensa.
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Urariano Motta [*] é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas(Recife, Bagaço, 1997). No início de 2013 lançou o romance O filho renegado de Deus (Recife-Bertrand-Brasil, 2013).

Enviado por Direto da Redação

sábado, 6 de julho de 2013

Snowden, Evo Morales e adeus às ilusões

O presidente Evo Morales desembarcou na Áustria cercado pela polícia

Publicado em 04/07/2013 por Urariano Motta [*]

Recife (PE) - Os últimos acontecimentos na política internacional trazem uma luz didática para todas as pessoas que acreditam na liberdade e democracia do capitalismo. O mundo do capital, mais conhecido em propaganda e livros didáticos como o sistema de “livre mercado”, recebeu nestes dias uma clareza de desmonte.

Para situar os fatos nos últimos 30 dias, primeiro Edward Snowden, um ex-técnico da CIA, revelou para todo o planeta que o governo dos Estados Unidos espiona a vida íntima, pessoal de cidadãos não só no território norte-americano.

Se ficasse somente entre os governados por Obama, a espionagem já seria um escândalo, uma prova hard e real do imaginado pelo escritor George Orwell, quando profetizou a existência do Big Brother. Mas o revelado pelo funcionário da CIA foi mais longe.

Diplomatas e governos da União Europeia são também espionados.

E mais: todos somos rastreados nos telefones celulares e nas informações da internet que passem pelo Google, Apple e o Facebook.

E-mails, fotos e outros arquivos dos usuários em todo o mundo são aprisionados. O que é uma realização dos evangelhos: nada escapa aos olhos de Deus.

Depois veio o que nos atinge mais direto na carne.

Presidente Evo Morales foi recebido com festa em Cochabamba
Evo Morales, soberano presidente da soberana Bolívia, depois de uma visita a Moscou, foi proibido de passar pelo espaço aéreo de Portugal, França, Espanha e Itália. Isso porque havia a suspeita de que o avião presidencial transportasse, também, Edward Snowden.

Notem até onde vai o adeus às ilusões de liberdade, democracia e respeito à soberania dos povos.

As nações europeias, elas próprias espionadas, obedeceram à ordem da segurança do governo de Obama. Por hipótese ou suspeita, um chefe de Estado foi impedido de sobrevoar espaço aéreo de país amigo, sem qualquer declaração de guerra.

O espaço era livre, pensava Evo Morales ao sair de Moscou. Mas ficou provado que o céu não é do condor. É dos Estados Unidos.

Chris Sabatini
"USA Sparring"
Mas para o diretor de Políticas do Conselho das Américas – uma organização empresarial que produz análises e estudos sobre a América Latina – Christopher Sabatini, a questão é bem mais simples.


Parceria é uma via de duas mãos. Para um país ser tratado com respeito, precisa respeitar as prerrogativas de segurança nacional de outro.

Entendem? Para Christopher Lee, digo, Sabatini, o presidente Evo Morales foi desrespeitado porque não teria respeitado a segurança dos Estados Unidos. Notem que a frase “respeitar as prerrogativas de segurança nacional de outro" não tem o mesmo significado para todos os países do mundo. Pois o analista quer dizer: a segurança nacional do outro é sempre a segurança dos Estados Unidos.

Ou seja, no caso da Bolívia, o presidente Evo Morales pôde sofrer riscos à própria vida, mas não estava no uso da segurança nacional. Com pouco combustível no avião, passou pelo sufoco de um bloqueio do espaço aéreo no céu e por constrangimentos que são insuportáveis até mesmo para passageiros comuns. Ele teve que pousar em Viena, onde ficou 14 horas, até que sua rota fosse enfim autorizada. E depois, reabasteceu o avião no Brasil, na bela cidade de Fortaleza.

A nota oficial da presidenta Dilma foi a mais dura dos países sul-americanos:  
... O noticiado pretexto dessa atitude inaceitável - a suposta presença de Edward Snowden no avião do Presidente - além de fantasiosa, é grave desrespeito ao Direito e às práticas internacionais e às normas civilizadas de convivência entre as nações. Acarretou, o que é mais grave, risco de vida para o dirigente boliviano e seus colaboradores.

Causa surpresa e espanto que a postura de certos governos europeus tenha sido adotada ao mesmo momento em que alguns desses mesmos governos denunciavam a espionagem de seus funcionários por parte dos Estados Unidos, chegando a afirmar que essas ações comprometiam um futuro acordo comercial entre este país e a União Europeia.

De passagem, vale destacar que o tempo da reação de nossa presidenta contra a agressão a Evo Morales, a demora do governo brasileiro em responder, não foi o que desejam os críticos mais sectários à esquerda, que são ótimos governantes em palavras e desejos. Mas para o colunista, importantes são a natureza da declaração e o peso que a economia mais poderosa da América Latina joga contra esse insulto a uma nação irmã.

E do meu canto concluo: importa mais a retirada da máscara de um mundo livre sob os Estados Unidos. Nestes últimos 30 dias, ficou demonstrado que o céu não é do condor.
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Urariano Motta [*] é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas(Recife, Bagaço, 1997). Este ano lançou o romance O filho renegado de Deus (Recife-Bertrand-Brasil, 2013).


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